Volume 1
Capítulo 15: A Era da folia, Parte 1
Gritos prepararam os arredores para uma exibição inusitada. A chegada dos competidores era como a abertura das cortinas de um teatro. Tremores indicavam a recepção calorosa para os novos astros do entretenimento, impulsionados pelo ímpeto de espectadores fervorosos. O espetáculo estava prestes a começar.
A poucos passos de adentrar na arena dos Jogos da Folia, Proxie indagou Roccan. Como um vulcão em erupção, a fúria transmitiu a insatisfação de uma mente incapaz de aceitar a verdade.
— Você o que!?!?
— Eu já te respondi três vezes. É tão simples quanto parece.
— É impossível acreditar nessa loucura!!! Como você pode ser tão estúpido!?
— Essa condição te incomoda tanto assim?
— Claro!! Está jogando tudo nas costas de uma Escultora de Ranque F!!!
— Você é a única capaz de fazer isso.
— Hein!? Não seja ridículo!! Tudo o que fizemos até agora foi graças aos seus poderes!!!
— Este não é o meu lugar. Eu não faço ideia de como vencer outro Escultor.
— Saber as regras da competição é o suficiente! Apenas use-as ao seu favor!
— Para falar a verdade, eu detesto esse evento. Me esforcei para esquecer os detalhes dele.
— Isso não faz sentido! Como propôs algo que não sabe como ganhar!?
— Isso é simples. Você sabe.
— Fale algo convincente!!!
Os adversários da dupla se preparavam para um confronto unilateral, enquanto teciam as expectativas do público conforme exibiam as vogais em seus trajes. Falco e Kazo adentraram nos olhos da plateia, cuja empolgação acabara de ultrapassar qualquer recorde preestabelecido.
Berros chacoalharam a estrutura no centro do ginásio. Cercado pela arquibancada, o palco da resistência se tornou alvo de toda a euforia do local, que impactaria diretamente no resultado do aguardado confronto. O clamor da torcida havia alterado o visual da arena.
No piso de mármore, luzes verdes acenderam, provenientes de pequenas lâmpadas embutidas na superfície polida. A nova coloração possuía um significado valioso para os competidores, os quais percebiam a luminosidade da mesma forma que um piloto interpreta um semáforo. Em meio às certezas dos demais participantes, o jovem loiro não compreendia a clareza do sinal emitido.
— Para que todo esse brilho? Esse lugar sempre exagera.
— Não é óbvio? Precisa ser chamativo, assim todos conseguem entender o aviso — respondeu Proxie.
— Aviso?
— Espera, você só pode estar brincando…
— Eu pensei que as luzes eram apenas parte do show.
— Nenhuma das suas ações faz sentido!!! Como pode participar de uma competição sem sequer saber a regra mais básica dela!?!?
— As lâmpadas verdes são realmente importantes?
— São essas coisas que definem a sua vitória!!! É impossível competir sem saber disso!
— Nesse caso, eu realmente tenho sorte de ser a sua dupla.
— Não tente me persuadir!
Uma cartola roubava os holofotes da plateia barulhenta, ao reunir todos os olhares sobre sua copa, como um farol capaz de atrair as mais diversas embarcações. Complementado por um terno justo, o uniforme da figura pomposa o tornava parte do espetáculo, cujo início se aproximava gradativamente. O apresentador do evento foi recebido com aplausos ensurdecedores.
O ânimo do sujeito ofuscava a insegurança de mãos trêmulas, preparadas para guiar outra performance repleta de excelência. A noite em questão exigiria a melhor de suas atuações, responsáveis por repetidamente ressaltar a alegria do público.
— Senhoras e Senhores, a última atração desta noite promete superar qualquer confronto já presenciado em nossa arena! O desfecho de hoje ficará marcado por toda história dos Escultores!
Holofotes destacavam os contornos de cada espectador, enquanto transformava a arquibancada em um mar de silhuetas vibrantes. A cor vermelha banhava a fonte do barulho, a partir da mesma intensidade com a qual o brilho da esverdeado enfatizava o coração da ação.
A paleta colorida não correspondia apenas ao apelo visual, sua simbologia também era interpretada pelos demais membros da resistência, com o objetivo de proporcionar um ambiente onde a intuição era o suficiente para acompanhar o show. O verdadeiro entretenimento se encontrava na simplicidade da adrenalina.
Alheia ao clima festivo, Proxie utilizava seu precioso momento de preparação para esclarecer a mente nebulosa de Roccan.
— Entendeu? Esse é o único modo de vencer nesse lugar. Ignorar essas regras significa ignorar a vitória.
— O que disse?
— Essa não é a hora para piadas. Concentre-se na minha explicação.
— Como eu vou te escutar com todos esses gritos ao nosso redor?
— Você não ouviu nada?
— Eu me esforcei, mas não deu certo.
— Deveria ter dito isso antes!!! Nosso tempo foi jogado no lixo!!
— Poderia repetir? Consigo me virar a partir de um breve resumo.
— Não, você não consegue!!! Sua habilidade de adaptação é nula e a sua cabeça é oca!!!
Ao longo da introdução do apresentador, as duas equipes foram direcionadas aos seus respectivos postos iniciais. As duplas se encontraram em extremidades opostas do palco, de frente para os adversários. Os quatro participantes esperavam ansiosamente pela largada. Diante de uma contagem regressiva, Roccan se viu obrigado a apressar sua companheira de equipe.
— A luta deve começar em breve. O resumo é a nossa única salvação.
— Eu nem deveria precisar explicar algo assim! É tão simples quanto parece! Quando a plateia grita, as luzes verdes acendem.
— Então, esses são os sensores sobre os quais aquele idiota comentou.
— O Falco falou a verdade. Os sensores de som captam os berros da torcida e acendem as lâmpadas no piso da arena. Enquanto estiverem acesas, uma queda significa a derrota dos derrubados.
— Se cairmos com as luzes apagadas, nada acontece… Mas caso estejam ligadas, perdemos. Parece mesmo bem óbvio.
— É mais fácil se atentar com os olhos do que com os ouvidos. Esse é o motivo por trás das luzes. Simplicidade e diversão são os principais valores de uma Convocação.
— O que disse?
— Ao menos se concentre na minha voz!!!
Em meio aos gritos carregados de emoção, o apresentador do evento enfim abordou o assunto aguardado. Seu discurso ganhara um novo foco: o público precisava conhecer os competidores.
— Sem mais delongas, chegou o momento decisivo. Por que não damos uma boa olhada em nossos participantes? Representando o topo dos ranques, a dupla favorita da arena veio para deixar a sua marca em outra exibição incomparável. Recebam Falco e Kazo!!!
O palco estremeceu novamente. Vozes ensurdecedoras clamavam por nomes de peso, ecoando pelos arredores. Iluminada pela paleta de duas cores, a celebração elevou as expectativas em cima da vogal de maior renome da resistência. O ranque A ressaltava o nível do topo das classificações.
Coberto por elegância e excentricidade, Kazo contornava o seu pescoço com um colar de plumas vermelhas, apropriado para ressoar com o brilho dos holofotes. Seu paletó preto conferia um visual autêntico ao seu conforto tradicional.
Ao contrário de seu companheiro, o líder do esquadrão priorizava a sua própria satisfação, sem preocupações envolvendo a polidez de sua imagem. Chinelos de pares diferentes, somados a shorts nivelados por um cordão, além de uma camiseta larga e desbotada. Falco e seu subordinado abraçaram a tranquilidade de uma posição superior.
— Os dois parecem bem confiantes… Seria essa uma vantagem absoluta? Acalmem os corações, pois está na hora de conferirmos a segunda dupla de desafiantes!!
No outro lado da arena, uma consoante atraia qualquer olhar desatento. Luzes eram refletidas através do material metálico que compunha o membro inferior de uma jovem, enquanto o desgosto direcionava-se para as costas da figura vigiada.
O piso foi deixado sob a escuridão, uma vez que as lâmpadas verdes se apagaram rapidamente. O completo silêncio deixou cada ouvido livre para escutar apenas as palavras do apresentador, que não poderia mais ser atrapalhado pela nova postura do público. Quieta, a arquibancada segurava risadas iminentes, determinada a não arruinar o discurso do profissional.
— Pode ser um pouco difícil de acreditar, no entanto, seus olhos não estão mentindo… É exatamente como estamos presenciando! Com vocês… Proxie, uma Escultora de Ranque F!!!
Gargalhadas deram sequência à fala introdutória. A plateia não conseguiu conter a reação de suas bocas. Deboches saíram do controle, cercando a garota a partir do simples desprezo. Tudo o que a vítima podia fazer era abaixar a cabeça, enquanto focava em manter-se de pé.
— HAHAHAHAHAHA!!!
— Ei, ei, essa vai ser a melhor Convocação que já experienciamos! O topo do ranque contra a escória da resistência? Isso é impagável!!!
— Finalmente aceitou o seu lugar, pirralha? O seu destino é ser humilhada!
— Esse traje é ainda mais patético pessoalmente! Ela realmente não consegue tirar essa coisa? Hahahahahahaha!!!
Acostumada a receber esse tipo de atenção, Proxie mal era capaz de escutar a diversão alheia. Sua mente possuía um único objetivo concreto, impossível de ser desviado por algo tão fútil.
Todavia, contrariando as previsões da garota, uma risada fugiu do contexto esperado. Lábios leves captaram o interesse da jovem concentrada. O motivo de tal interesse não consistia da ação realizada, mas sim de quem a efetuou. Perante todos os risonhos, Roccan também não conseguia conter os seus instintos.
— Pffft! Hahaha!! Isso é mesmo sério? Hahahahaha!!! É demais para mim!!
— O que você está fazendo? — Proxie questionou o companheiro.
Receosa sobre qualquer possível resposta, a angústia movia suas pernas trêmulas, com um mecanismo tão frágil quanto a confiança obtida até então. Quando estava prestes a ceder para uma maré de pensamentos intrusivos, a mente caótica foi interrompida por palavras inusitadas. O sorriso honesto era como uma brisa, eficaz o suficiente para esfriar a cabeça da garota.
— Pffft! Foi mal, não consigo me segurar! É ainda mais idiota aqui na arena! Eles vão realmente lutar desse jeito? É como uma dupla de atores!
— Do que está falando?
— Era desses idiotas que estava com medo? Ele está de chinelo no palco, e o outro parece um pavão de terno! Fala sério, você está humilhando eles com esse traje.
— O meu traje? Mas tudo nele significa…
— Sua perna de robô e suas asas deixam tudo ainda melhor! Seria facilmente confundida com uma heroína vencendo dois idiotas. O Ranque A é mesmo patético.
— Errado. Eles estão no topo da classificação, são vitoriosos…
— Quando chegarmos nesse nível, vamos nos esforçar para causar uma boa impressão, certo? Percebi que isso é importante por aqui.
Após retomar a liderança do evento, o apresentador redirecionou o seu discurso, almejando o único competidor ainda fora do conhecimento do público. O silêncio retornou para a arquibancada, que se viu novamente apática. Desta vez, a reação se originava da novidade em atuação, não havendo um repertório válido para avaliar as ações do garoto loiro. O último participante trazia consigo o medo do desconhecido.
— Chega de enrolação! Acompanhando a fracassada, temos um novato nunca antes visto em atividade! Conheçam Roc, o Patrão das Relíquias!!!
Roccan teve a sua felicidade postergada, depois de ouvir informações comprometedoras. O deslize cometido naqueles míseros segundos não podiam ser relevados. Toda a fúria do rapaz foi liberada em uma correção precisa.
— É Ladrão de Relíquias! Ladrão!
— Esse foi o nome que você cadastrou no evento!? — Proxie não conseguia acreditar na sua audição.
— Não! Ele errou! Não me ouviu?
— A versão original também é um problema!
Tênis chamativos e personalizados, aliados a uma jaqueta vermelha e uma camiseta preta, complementada pelo contraste da bermuda azul. Com o toque final da relíquia em seu colar, a paleta de cores envolvendo o jovem representava a liberdade em cada peça do seu visual. Sem conseguir encontrar a letra correspondente ao esquadrão do novato, os espectadores se perdiam entre dúvidas inquietantes.
— Ei, esperem um pouco. Ele está vestindo roupas bem diferentes, não? Se não é obrigado a vestir um traje…
— Ele é do Ranque A? Ou talvez Ranque S!?
— Como alguém assim está do lado de uma fracassada?
Incomodada com todas as hipóteses errôneas, Proxie sussurrou para o aliado ao seu lado, ocultando a verdade daqueles na plateia.
— Ei, todos estão comentando sobre seu traje. Eu falei que iria causar problemas. Escultores de Ranque F não podem vestir outras roupas, não importa a ocasião.
— Hein? Mas eu não sou um Escultor.
— Caso queira dizer besteiras, fale baixo! As pessoas podem acreditar!
— Estou apenas dizendo a verdade.
— Você comentou sobre entrar no meu esquadrão! Era mentira?
— Eu sou do seu esquadrão. Só não quero receber o título de Escultor.
— Não é assim que as coisas funcionam!!!
Berros precederam a ocorrência de novos tremores, chacoalhando o palco ao mesmo tempo em que acendiam as luzes esverdeadas no piso de mármore. A euforia seguia atentamente a mão do apresentador em ação, a qual foi erguida à frente, indicando o sinal mais aguardado da noite. Todas as conversas foram interrompidas em um piscar de olhos, preparando aqueles dentro e fora da arena para um espetáculo sem precedentes.
Na ausência do som, o valor da visão foi elevado ao máximo, uma vez que o sentido era aguçado por toda a concentração das mentes presentes. Mesmo em posições opostas, Falco trocava olhares com a fonte de seu desprezo. Tal situação já havia sido experienciada pelas memórias do homem, porém, o sentimento por trás deste momento era como uma pequena agulha em contato com sua pele.
Seja quando criança no hospital, ou durante a sua recente juventude em frente à nave destruída, a garota sempre exigiu que as pupilas do sujeito se rebaixassem. Encarando a figura, que frequentemente era vista caída sobre o chão solitário, Falco sentia um desconforto descomunal, quando inusitadamente foi forçado a olhar para uma altura convencional.
Após anos de acontecimentos imutáveis, ambos se encontravam de pé, com um olhar fixo em seu adversário repleto de novidades. Outrora uma criança chorosa, Proxie possuía apenas determinação em sua nova face, atormentando o seu oponente a partir de uma dor de cabeça não prevista.
"Você não é capaz de mudar, Proxie. É meu dever te fazer aceitar as coisas, como realmente deveriam ser", pensou ele.
Lado a lado com a jovem em constante solidão, cabelos loiros traziam uma coloração nunca antes vista no conflito entre os dois velhos conhecidos. Roccan e Kazo se juntavam aos desentendimentos de Proxie e Falco para colocar um fim na história repleta de intrigas. As coisas precisavam ser resolvidas na arena. O apresentador moveu os seus braços uma última vez, alertando todos através de gritos inquestionáveis.
— Que os Jogos da Folia comecem!!!
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