Volume 1

Capítulo 16: A Era da folia, Parte 2

— Que os Jogos da Folia comecem!!!

Gritos declararam o início do aguardado confronto, conferindo uma energia fervorosa às arquibancadas que cercavam o palco principal. As expectativas, seguradas até então, foram liberadas de uma só vez, como um vulcão que alcança o ápice de sua erupção.

No piso de mármore, luzes verdes guiaram o caminho de um competidor para a ação imediata, cuja imprevisibilidade garantiu a surpresa da dupla adversária. No segundo após a largada, Falco avançou decisivamente contra Proxie. A ativação das lâmpadas representava um momento crítico para o embate, no qual os berros da torcida acompanharam a investida definitiva.

— Eu vou garantir que essa seja a sua maior humilhação, Proxie. A escória da resistência jamais deveria sair do chão.

A distância entre o atacante e a vítima se tornou ínfima. Tratava-se de um combate corpo a corpo. A abertura criada pela plateia estava em sintonia com a ofensiva do líder enfurecido, quando a Escultora de Ranque F foi colocada em cheque. 

Após evadir do centro do conflito, o apresentador mal teve tempo para se reposicionar, mas já precisava retomar as rédeas do entretenimento. O profissional deixou a arena para focar esforços na narração do grande evento.

— Falco partiu para cima em um começo frenético!! Ele pretende finalizar a partida no primeiro minuto!!!

Ao perceber a iluminação sobre seus pés, Proxie assumiu uma postura defensiva, pois sabia que, naquelas circunstâncias, uma queda seria fatal. A garota concentrou todo o peso em sua perna de carne e osso, com o objetivo de manter um equilíbrio formidável.

À curta distância, a postura de ambos os competidores indicava a iminência de um árduo duelo mano a mano, no entanto, o atacante não estava enfrentando uma simples desconhecida. Direcionados pelo conhecimento a respeito da adversária, os movimentos de Falco almejaram um golpe baixo. O homem alvejou as pernas da jovem.

— Caía de uma vez, fracassada.

— Isso não vai acontecer!

— Vamos ver o quanto você aguenta.

Um chute atingiu diretamente a prótese da garota, cujo corpo desabou rumo ao chão. Em uma reação rápida, seus braços se agarraram no agressor, de modo a contrariar o plano de derrubada. A garota se recusava a ceder, à medida que puxava o oponente para levá-lo consigo. 

A partir de uma resposta ainda mais inesperada, o tronco de Falco foi envolvido pelas pernas de Proxie, que colocou todo o peso da parte metálica sobre as costas do alvo. Carregando um peso acima da capacidade de seus músculos, o homem se viu em um cenário comprometedor. Aquela responsável por lhe aprisionar pretendia eliminar a si mesma, em prol de também garantir a derrota de um adversário.

— Enlouqueceu? Pare de ser tão estúpida!!

— Se perdermos juntos, terei cumprido o meu papel! O moleque pode cuidar do resto!

— Acha que é tão simples assim? Ninguém vai torcer por você!

Berros incessantes contrariaram a lógica do líder afobado. As luzes verdes permaneceram ativas.

— Não preciso que comemorem a minha vitória. Para esses idiotas, o mais importante é a minha eliminação. A derrota de uma Ranque F é a prioridade da plateia. Você é como um herói prestes a se sacrificar.

— Se os gritos não pararem…

— Apenas sobrarão Kazo e o moleque. Não confia no seu companheiro?

— Esse não é o ponto. Perder com você? Eu não vou ser humilhado dessa forma! 

As mãos de Falco alcançaram a maior vulnerabilidade da garota, enquanto buscavam por um membro em constante angústia. Atacando a ponte entre a humana e o maquinário, os dedos do homem feriram diretamente a articulação comprometida. A conexão entre o quadril e a prótese da jovem havia se tornado a fonte de uma dor desesperadora.

— ARRGH! Você é mesmo um desgraçado, Falco!!!

— Essa perna nunca ficou bem em você. Por que não a oferece para alguém mais útil?

— Meu pai me deu essa coisa! Tire as mãos do esforço dele!

— Já recebeu tanta ajuda e nunca provou ser digna dela. Sua existência é inconveniente!

Perante um embate de tenacidade, o apresentador alimentava as expectativas do público, que se mantinha antenado na disputa de força bruta. O profissional utilizava desde linguagem corporal até expressões faciais, visando transmitir sua paixão à torcida entusiasmada.

— Um início eletrizante!!! Falco e Proxie estão a um fio de serem eliminados da disputa! A Ranque F está com os segundos contados! 

Alheios ao confronto um contra um, Roccan e Kazo somente observavam a agressividade descontrolada. Nenhum dos dois pretendia intervir na honra de seus companheiros, não sem um pedido.

À primeira vista, o homem com o colar de plumas parecia aguardar pacientemente o desfecho do conflito, mas os detalhes iriam além de mera tranquilidade. O corpo do sujeito encontrava-se de prontidão, preparado para assumir a responsabilidade no instante após a conclusão da luta. A atenção não podia ser desviada da ação, pois, caso o seu superior perdesse, alguém precisaria lidar com a garota enfraquecida.

Ao contrário do adversário preocupado, o garoto loiro não pretendia agir, mesmo que isso significasse negar os seus instintos. A condição — imposta anteriormente — era como uma trava para seus impulsos, os quais ele tinha a plena convicção de que não seriam pertinentes nesse contexto. Decidido a não resolver as coisas por conta própria, o rapaz concedeu a palavra à companheira.

— Caso precise de ajuda, é só me instruir.

— Por que está aí parado? Não está claro que estamos com problemas!?

— Eu estou realmente pronto para ajudar. Basta me dar ordens…

— Ordens? Não vou seguir essa sua condição estúpida!!!

— Ah, vamos… É mais fácil do que parece. Só preciso de um comando.

— Minha liderança só trouxe problemas! Eu não sirvo para usar o poder das relíquias!

— Prefere perder do que me liderar?

— Eu prefiro que você faça alguma coisa!!!

Pressionada pela dor sufocante, a jovem perdeu o controle de sua força. Sua perna comprometida não era mais capaz de suportar tamanho desconforto. Sem pensar duas vezes, Falco se aproveitou do instante de fraqueza da adversária. Um empurrão desprovido de qualquer resquício de piedade. Assim como um caldeirão borbulhante, o homem liberou toda a fúria acumulada em seu interior, condensando o repúdio em uma única ofensiva.

— Volte para o chão, escória.

Proxie foi impulsionada em direção ao piso de mármore. Iluminado pela coloração esverdeada, o corpo em queda não possuía outras opções a considerar. Aceitar o fluxo normal das coisas resultaria em uma derrota absoluta. A voz amedrontada ecoou pela arena, na busca pelo recurso que havia sido descartado.

— Moleque, apenas não me deixe cair!!

Partículas rosa cobriram a área abaixo da garota vulnerável. Um portal serviu como plataforma para a aterrissagem, cuja travessia redirecionou a vítima para uma nova altitude. Após passar pela poeira mística, Proxie conseguiu tempo o suficiente para se reposicionar enquanto caía da nova altura, conferindo uma aterrissagem segura. Com todos os participantes ainda de pé a competição seguiu sem eliminações.

— Trapaceira!!! Que tipo de ordem é essa!?!? — Roccan contestou a aliada.

— Ah, fala sério! A sua condição já é estúpida o suficiente para ser ignorada!! Eu fui generosa seguindo algo tão patético!

— Você só fez isso porque ia perder! Da próxima vez, peça algo menos vago!

— Não terá próxima vez!!

O silêncio dominou a plateia, deixada boquiaberta depois da sequência de acontecimentos inesperados. Reações entrelaçavam-se entre os sentimentos de decepção e surpresa, combinados em mentes repletas de incertezas. Ao mesmo tempo em que haviam se frustrado com a fuga da Escultora de Ranque F, também tiveram a empolgação restaurada, ao ver o poder de uma nova relíquia em ação. 

As luzes verdes, anteriormente responsáveis por proporcionar momentos com potencial decisivo, se apagaram, afetadas pela quietude da torcida confusa. Em meio à ambientação apática, o apresentador manteve a proatividade necessária para não deixar o espetáculo perder a relevância. Cativar aqueles distraídos era algo indispensável aos olhos de um mestre do entretenimento.

— Caros espectadores, não faço ideia do ocorrido, mas certamente envolveu um poder nunca antes visto! O novato acabou de utilizar uma relíquia!!!

A mudança de ares conferiu um reinício para a dinâmica do evento. Habilidades jamais exibidas na resistência haviam aberto um extenso leque de possibilidades, até então inimagináveis. Dúvidas pertinentes imergiram cada espectador na tensão do confronto imprevisível.

— Ei, ei, será que estou vendo coisas?

— Ele acabou de criar um portal, não foi? Isso é mesmo possível?

— Alguém como esse cara está se aliando àquela fracassada? 

— Com uma relíquia dessas, o novato poderia estar no topo dos ranques! O que faz ao lado de uma Ranque F?

O debate incessante reforçava ainda mais as preferências do público, indignado com o novo aliado da garota desprezada. Todos ansiavam pela derrota da dupla problemática, cujo nível de seus membros não parecia estar em sintonia. Elogios direcionados ao rapaz loiro não soavam corretos, quando capazes de beneficiar a Escultora de menor classificação. 

Momentos decisivos cederam espaço para uma pausa na ação. Diante da calmaria momentânea, cada competidor possuía a mais concreta certeza: o embate estava apenas começando. Proxie deu um passo à frente, contrariando as expectativas sobre o seu nome. 

— Muito bem, moleque. Se não quiser me ajudar, ao menos fique de prontidão.

— Hein?

— No caso de uma derrota da minha parte, você deverá se responsabilizar pelo restante da luta.

— O que vai fazer?

— Tentar mais uma vez.

Um avanço interrompeu o sossego. A garota partiu de volta para a ação, rumo à dupla favorita. Proxie investiu contra Falco, em busca de continuar o duelo inacabado. Deixado para trás, Roccan somente observou a sua companheira percorrer o longo comprimento da arena. Deslocando-se de uma ponta à outra do palco principal, a Escultora de Ranque F traçou o seu caminho até as proximidades do adversário com o título da maior vogal. A luta entre o topo e a escória da resistência se intensificava, segundo após segundo.

Prestes a presenciar um novo embate corpo a corpo, Kazo trocou olhares com seu superior. A honra na face do líder de esquadrão acabara de ser sobreposta por uma expressão autoritária. Ordens inquestionáveis foram dirigidas ao subordinado, sem o uso de uma palavra sequer. Lutar de maneira justa havia se tornado a última de suas preocupações.

— Comprando uma briga que acabou de perder… Abriu mão da própria vitória, Proxie? — Falco provocou a adversária à sua frente.

— Eu nunca faria algo assim! Ficar parada só deixou de ser uma possibilidade!

— Não, você entendeu tudo errado. Nunca deveria ter dado nem o primeiro passo. Suas inúmeras tentativas fizeram diversos idiotas acreditarem em você. Pessoas de valor estenderam a mão para uma fracassada, que jamais será capaz de retribuir!

— Eu não pedi ajuda! Sempre rejeitei esses presentes! 

— Então por que não larga todos eles e desiste de uma vez!?

— Isso nunca foi sobre mim!!

— É tudo sobre você!! Seu nome é como uma cicatriz para todos em sua volta! Sua existência mancha o legado dos Escultores!

Chutes mantiveram as pernas de Proxie em constante movimento, enquanto não concediam janelas para a exploração de suas fraquezas. A agilidade nos pés da garota marcou uma mudança de ritmo no confronto imprevisível. 

Em meio a incontáveis ofensivas, Falco se esquivava com dificuldades, ao mesmo tempo em que aguardava ansiosamente por uma abertura. A atenção do homem continuava fixa na prótese mecânica, à espera de qualquer brecha para derrubá-la decisivamente.

— Esse mecanismo te fez andar, mesmo quando seu corpo deveria simplesmente cair. Os poderes do pirralho te levaram de volta ao ar, apesar de você ter sido fortemente empurrada contra o piso da arena. Até esse planador te mantém pairando sobre o solo, quando deveria sofrer uma queda fatal.

— Aonde quer chegar, Falco? Não acha que está falando demais para alguém na defensiva?

—  Não importa quantas oportunidades a vida te forneça. Você desperdiça todas elas.

— Quer apanhar para a relíquia do moleque?

— Quero ter uma luta contra tudo o que lhe foi dado. Quando eu vencer, será a prova concreta de sua incompetência.

— Está entendendo errado. Eu não escolhi receber nada disso.

— Explicações são irrelevantes. Presentes não deveriam ser entregues para aqueles incapazes de utilizá-los.

— Eu não mereço nenhuma dessas coisas. Por isso, eu devo te vencer sem mais ajudas!!!

Passos acelerados conduziram o combate, como uma dança repleta de euforia. Membros frágeis contornavam suas vulnerabilidades com ataques ininterruptos. A determinação de Proxie balanceava o seu corpo com um equilíbrio invejável. Giros complementaram a movimentação veloz, eficientes no fortalecimento dos chutes à curta distância. A trajetória percorrida pela perna de carne e osso resultou na potência de um coice, pressionando o adversário com um peso descomunal. O membro metálico havia se tornado dispensável.

Diante do momento crítico para o Escultor de Ranque A, o favoritismo manteve a plateia quieta. A nova postura da garota poderia ameaçar a integridade do topo da classificação. A tensão fez todos os espectadores se posicionarem nas pontas de cada assento, de pernas trêmulas e olhos arregalados. A vitória não estava ao alcance da fracassada, mas o impacto das ações afrontosas a colocaram em um patamar além do aceitável.

Entre bocas inexpressivas e rostos espantados, o apresentador tinha o dever de recuperar os ânimos perdidos. A voz do profissional clamava pela continuação do espetáculo.

— Uma reviravolta impressionante!!! A Escultora de Ranque F dita o fluxo da luta! Seus golpes não concedem brechas para Falco, que é obrigado a se manter na defensiva!!

Na arquibancada apática, uma presença popular se destacava a partir da proatividade. Com multidões atrapalhando o seu entendimento, Jiro buscava por uma melhor visualização do grande evento. Apenas os esquadrões de maior ranque podiam sentar nas proximidades do palco principal. Ciente deste regulamento, Jiro escolheu a mediocridade, quando permaneceu de pé para assistir a velha conhecida. 

"Está errada. Não é assim que vai conseguir alcançar a vitória, Proxie", pensou ele, decepcionado.

O péssimo pressentimento do homem antecipava um momento decisivo. A garota continuava a ditar o ritmo do confronto, até que, repentinamente, mudanças abalaram a sua dominância, como a alteração da música durante o ápice de uma apresentação. Luzes verdes iluminaram o piso de mármore, uma vez que o público retornou à atividade. Berros fervorosos reacenderam a paixão outrora adormecida. Um terceiro elemento havia colocado a participação de Proxie em cheque.

"Enquanto você nega os recursos ao seu dispor…" Jiro deu continuidade a pensamentos inacabados.

Um agarrão interrompeu a movimentação da jovem, que acabara de ter sua perna humana imobilizada. A interferência de Kazo marcou o fim da disputa um contra um.

"Há aqueles que lutam com tudo ao seu alcance", concluiu o espectador.

Falco e seu subordinado optaram pela vantagem numérica. O mano a mano chegou a um desfecho.

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