Volume 1
Capítulo 14: A Era dos imortais
— O que disse?
Incrédulo, Falco não conseguiu acreditar nas palavras ditas por Roccan. O incêndio, antes ameaçador, passou a espalhar o seu brilho pela base escura, agitando a determinação dentro do rapaz com faíscas ardentes.
— Nós enfrentaremos o seu esquadrão nos Jogos da Folia.
— Recentemente, eu te levei para assistir uma dessas competições. Você viu tudo com os olhos abertos, certo?
— Tenho total noção de como as partidas funcionam. Regras não serão um problema.
— Nesse caso, deveria saber no que está se metendo.
— Não se preocupe quanto a isso. Eu disse que a situação iria te favorecer.
Falco se levantou, se posicionando frente a frente com o rapaz. A agitação em suas veias se esvaiu, conforme o retorno de uma respiração calma e controlada. Não se deixando levar por um cenário tentador, o líder repensou sobre métodos preguiçosos, aderindo um raciocínio cuidadoso para compor sua próxima resposta.
— Você tem coragem de tentar me enganar, moleque. Não sei qual é o seu plano, mas com certeza é algo grandioso.
— Hein?
— Se acha capaz de modificar os sensores de áudio da arena e sair ileso?
— Tem sensores de áudio naquele lugar?
— Como você imaginou que os gritos eram mensurados!?!?
— Os gritos são medidos?
— Está brincando com a minha cara!?!? Seu plano é tão bom, a ponto de não depender desses fatores!?
— Eu não tenho um plano.
— Você é um caso perdido!!!
Respostas sensatas foram descartadas pela adrenalina de uma situação inusitada. Diante de um silêncio repentino, nenhum outro homem se arriscava a participar da conversa ilógica. O esquadrão não sabia como reagir, após ser desafiado dentro de sua inegável especialidade. A indecisão do líder era motivo de inquietação de todos os demais membros da equipe.
A quietude das vozes humanas reforçou o som das chamas agressivas. O calor evocava o suor do corpo, revelando o lado genuíno de cada sujeito, assim como a queima da cera de uma vela demonstra a verdadeira força da combustão.
Incapaz de esconder o seu interesse na proposta, Falco assumiu a verdadeira natureza de alguém que sempre fez de tudo para se manter no topo. Algumas últimas dúvidas o aproximaram do aguardado acordo.
— Acredita ser capaz de me vencer sem qualquer planejamento? — questionou o líder, na busca pela origem de tamanha motivação.
— Não, eu não te conheço o suficiente para fazer isso.
Roccan apontou para a garota ajoelhada. Um dedo cuja direção parecia ter a precisão de uma flecha, adentrando profundamente na mente da escolhida. Proxie foi o alvo de toda a confiança do rapaz.
— Ela vai te derrotar — afirmou o jovem.
A vítima de toda a atenção não soube como reagir, seus olhos mal haviam se livrado das lágrimas do passado, no entanto, já se encheram de água mais uma vez. Apesar de na prática representarem uma mesma ação, o líquido exerceu um papel nitidamente diferente, limpando pupilas outrora sobrecarregadas.
O alívio foi como um abraço para a garota, que há pouco era dominada pela solidão. As luzes refletidas no cabelo loiro indicaram um caminho claro, percorrível até mesmo por pernas ineficientes. Proxie utilizou suas forças restantes para se reerguer, não se permitindo descansar no chão.
Com o máximo de esforço físico, a expressão esperançosa foi progressivamente alterada, à medida que a mente confusa percebia a gravidade da proposta feita pelo jovem. Após conectar todos os pontos, a ficha finalmente caiu para a moça, tornando-a incapaz de formular uma frase apropriada para o momento.
— O que disse?
***
Com o fim do incêndio, as luzes artificiais da base escura se acenderam novamente, indicando o início de um novo dia na caverna da resistência. Horas após o incidente destrutivo, um grupo de bombeiros forçou o cessar do fogo, registrando o caso como um simples acidente infeliz. Mantendo o acordo de pé, a dupla ocultou informações que não melhorassem o estado do veículo danificado. Deixados a sós, em meio aos destroços da nave, Roccan e Proxie dialogavam ao lado de peças irreconhecíveis. O estrago deixou cicatrizes impossíveis de serem apagadas.
A temperatura do local esfriou gradualmente, garantindo um refresco para corpos imersos na adrenalina do passado. Sem mais lágrimas em seu rosto, a garota retomou suas faculdades mentais, enquanto desviava o olhar de qualquer outro ponto. Informações em excesso dificultavam o foco da resposta, resultando em um ciclo sem fim.
—Eu não vou fazer isso! — exclamou ela.
— Você já disse isso oito vezes.
— Ótimo! Porque eu não vou fazer, mesmo!
— Eu não posso competir sozinho, além disso, a proposta já foi aceita. O nosso confronto será amanhã à noite.
— Eu vou te matar.
— Você realmente pode fazer isso. É até um pouco assustador.
— Dentro da arena, a sua Relíquia da Morte é inútil. Pretende ganhar deles apenas com os seus portais?
— Eu te disse, você será a vencedora. Derrotar eles é o seu papel.
— Eu vou mesmo te matar, várias vezes.
Correspondendo ao fluxo do horário, as proximidades do hospital permaneciam desertas. Além da dupla, apenas os escombros da nave podiam ser vistos, tornando o espaço desinteressante para olhares entediados. Cercada por cores mórbidas, Proxie focou a sua atenção no único ponto destoante da área deteriorada.
Cabelos loiros conduziam o interesse da garota, atraindo-a pela sua aparência vívida. Apesar de uma admiração inicial, a observação logo se acostumou com a aparência já conhecida, não havendo qualquer tipo de inovação na imagem. O peito, que já havia sido perfurado, agora se encontrava intacto, enquanto fios amarelados foram vistos a partir de um belo corte, quando deveriam estar assanhados. O jovem era como o produto de uma fotografia, não havendo diferenças significativas entre a sua aparência mais atual e o visual referente ao primeiro encontro da dupla.
— Ei, moleque. Eu acabei percebendo algo importante. Esse seu poder é bem idiota.
— Hein? Qual deles?
— Você sempre volta, morte após morte. Mas na prática, nada muda.
— Reviver não é o suficiente?
— Por um tempo, achei que poderia depender das circunstâncias. Hoje, vejo que esta era uma suposição errada. Seu corpo pode ser eletrocutado, atropelado, assassinado, perfurado, nada disso importa. Você nunca fica mais forte.
— Realmente, esse parece ser o caso.
— Isso não te deixa frustrado?
— Nem um pouco.
— Não importa quantas vezes você consiga reviver, o resultado sempre será o mesmo. Nada muda quando você ressurge, exceto que poderá ter um novo arrependimento.
O brilho nos olhos de Roccan interrompeu o raciocínio da garota. Encantadoras, como as estrelas, as quais um dia ela pôde observar, as pupilas do rapaz eram como um espelho para uma antiga empolgação.
— Relíquias são mesmo incríveis!!!
— Você…
— Eu tenho chances infinitas! Isso não é demais? Cada um desses poderes proporciona inúmeras possibilidades, nunca antes imaginadas!
— Chances?
— Não faz diferença o quanto eu apanhe. Não importa o tamanho da queda, ou a voltagem do choque. Eu sempre poderei tentar novamente.
— O resultado permanece inalterado. O seu sofrimento não faz sentido.
— Você está errada. Sem esse poder, nós não estaríamos conversando agora. A minha história teria acabado há algum tempo.
A visão de Proxie vagou angustiadamente pela perna metálica, relembrando o estado do membro antes da cirurgia. A ausência do mecanismo significaria o final de sua jornada como uma Escultora, a qual fora milagrosamente prolongada.
Tomada pela reflexão honesta, as cicatrizes de seus fracassos continuavam assombrando uma jornada que já deveria ter se encerrado. As mãos da garota passearam pelas peças do veículo demolido, em um contato direto com as consequências da destruição. Apesar dos calos em seus dedos, a vitória ainda não podia ser tocada.
— O que acontece caso o seu inimigo seja invencível?
— Não faço a menor ideia. Nesse caso, eu provavelmente precisarei morrer, até descobrir o que fazer.
— Mesmo sem a garantia de que algo será diferente?
— Não é óbvio?
— Por que você faz isso? Como consegue repetir esse ciclo estúpido tantas vezes e permanecer sorrindo desse jeito?
***
Na busca por respostas, a mente de Roccan percorreu memórias de longa data. O céu cinzento de sua terra natal cobria dias pacíficos com mistérios a serem descobertos. Edifícios altos chamavam a atenção dos arredores, mas não se atreviam a roubar o protagonismo de aves em constante movimento.
Ruas ocupadas somente por veículos sobre rodas e prédios banhados apenas pela luz natural do dia evidenciavam uma sociedade em constante desenvolvimento, fazendo uso efetivo, porém moderado, da tecnologia disponível.
Quando criança, o garoto conversava com o seu pai, ambos sentados no topo de um edifício. O terraço lhe permitia uma ampla visão sobre cabeças desavisadas, as quais sobrecarregavam as avenidas com um tráfego incessante.
Usufruindo ao máximo de ventos refrescantes, a dupla aproveitava o espaço aberto para estudar com a maior tranquilidade que a cidade poderia proporcionar. Pilhas de livros eram devoradas por Copper, enquanto seu filho apenas se atentava para as figuras do material literário, contemplando imagens das relíquias catalogadas. Após folhear centenas de páginas irrelevantes, uma ilustração enfim acendeu os ânimos do garoto.
— Ah! Eu encontrei! — Roccan apontou para uma das páginas em sua frente.
— Você parece bem empolgado, Roc. O que achou dessa vez?
— Essa é a Relíquia da Vida!!!
A folha colorida era ocupada pela gravura do artefato mencionado, a qual registrava um dos tesouros mais desejados do universo. Com o formato de uma árvore robusta, o objeto era fielmente representado nas folhas de papel, a partir de uma proporção semelhante ao tamanho de uma pequena muda.
— Parece até um brinquedo. É difícil de se imaginar o mundo inteiro atrás de algo tão simples — acrescentou o pai.
— Encontrando essa coisa e a Relíquia da Morte, nós…
— Conseguiremos revivê-la. Ainda temos uma jornada e tanto pela frente, não acha?
Diante de um objetivo distante, Roccan encarava a pilha de livros já explorados pelo seu pai. Dezenas de manuscritos haviam sido desbravados, almejando o mero conhecimento sobre os artefatos cobiçados, essencial para o início da trajetória ambiciosa. A dupla estava prestes a perseguir o sonho mais desafiador da história da humanidade. Refletindo a respeito de um esforço sem precedentes, a criança indagou o adulto.
— Papai, como a mamãe reagiria depois de saber que estamos tentando trazer ela de volta?
— A sua mãe? Ela provavelmente não se importaria.
— Hein? O que quer dizer com isso?
— Aquela mulher não costumava guardar arrependimentos.
— Então, ela não ficaria feliz em retornar?
— Tenho apenas uma certeza: mesmo resultando na própria morte, ela não alteraria nenhum acontecimento já vivenciado.
— Qual é o sentido de dar uma nova chance para algo que não deve mudar?
— Eu não estou fazendo isso para voltar ao passado. Não espero que as coisas voltem a ser como eram.
— Então…
— A pessoa de quem falamos tinha potencial para ir além. Quero que ela tenha a oportunidade de chegar onde nunca foi capaz. Não ter arrependimentos não é o bastante para um mundo de tantas possibilidades.
Não importando qual das interpretações imagináveis era a correta, a mente de Roccan estava convencida. Ele jamais poderia esquecer tais ideais, levando-os adiante por anos repletos de imprevisibilidade.
***
No momento mais recente, Proxie aguardava por uma resposta, cujo pronunciamento ocorreu diretamente dos lábios do rapaz decidido.
— O fato de eu sempre voltar, me torna capaz de alcançar patamares a princípio inalcançáveis. Por isso, eu não posso simplesmente ficar parado.
— Gente como você sempre tenta superar os seus limites, mas no fim acabam se lamentando por decisões estúpidas!
Roccan percebeu o corpo trêmulo da garota. As palavras ditas não se tratavam de uma mera coincidência.
— Seu pai não possui arrependimentos. Tenho certeza disso — afirmou ele.
— Como você…?
— Mas isso não é o suficiente, certo?
— Moleque, é melhor parar—
— Ele não pode mais competir. Hawk se tornou incapaz de subir pelos ranques.
— Aonde quer chegar?
— Nós não somos tão diferentes assim.
Como se estivessem sendo atraídos por um ímã, os olhos de Proxie se focaram no membro metálico. Apesar de ambas as pernas possuírem uma aparência semelhante, somente uma carregava o fardo de ser uma prótese.
— Como? Eu não tenho os seus poderes!! Não consigo nem ao menos coletar relíquias!!! Todas as conquistas que já encostaram nas minhas mãos foram presentes de outra pessoa! — contestou a jovem.
— Isso não importa.
— Qualquer mínima chance de vitória sempre escapa por entre meus dedos! Mesmo com toda a ajuda que recebi, eu continuo sendo a pior entre os piores!! Por esses motivos, esse traje nunca vai sair de mim!
— Nada disso importa.
— Então, como somos parecidos!?!?
— Mesmo sendo alguém competente, o seu pai não pode mais atuar como um Escultor. Você é a única que ainda pode carregar esse desejo.
— Eu não…
Lágrimas voltaram a banhar pálpebras ressecadas, exaustas de chorar por motivos dolorosamente familiares. Contrapondo as expectativas da garota, seus ouvidos estavam prestes a captar palavras não recorrentes.
— Isso significa que você também não pode morrer, não é? Isso também te faz imortal.
O líquido parou de escorrer, se recusando a seguir o fluxo previsto. Sentimentos jamais provocados embrulharam o estômago da jovem com novas incertezas, no entanto, estas não poderiam ser respondidas através de suposições descabidas.
Passos metálicos foram intercalados com o ranger do material rígido. O desequilíbrio do corpo em movimento era evidente, porém, contornado com a força máxima de pernas determinadas. A confusão na cabeça da garota foi gradualmente dissipada, à medida que seus joelhos se recuperaram, queda após queda.
— Você é mesmo idiota, moleque. — A voz rouca de Proxie foi emitida, de costas para o ouvinte.
— Para onde está indo?
— Recuperar a minha nave. Na verdade, não passa de uma tentativa estúpida.
— Podemos ser rápidos? Estou em abstinência de novas relíquias.
— Nesse caso, você é livre para procurar outro esquadrão.
O rapaz encarou as costas da companheira, atentando-se para a consoante na parte de trás do traje. A letra F o informou a resposta de uma falsa sugestão.
— Não, isso seria perda de tempo.
***
Berros indicaram o início do maior evento da resistência, fazendo a arena estremecer, graças a uma plateia fervorosa. Luzes vermelhas destacaram os verdadeiros protagonistas do confronto iminente, enquanto vaias reforçaram a chegada de meros coadjuvantes.
Depois de uma longa caminhada, Roccan e Proxie se aproximaram do palco do ginásio, se deparando com seus dois futuros adversários.
— Minha nossa, vocês realmente vieram. — Falco se surpreendeu com o mantimento da promessa.
— Fala sério, isso vai ser desolador. Vamos mesmo humilhar essa dupla de fracassados? — Kazo indagou o líder.
— Não faz diferença o quanto se esforce, Roccan. Não vai conseguir a vitória sozinho. Precisará de um milagre para vencer ao lado dessa escória.
O rapaz loiro refletiu em silêncio, se preparando para informar um último detalhe sobre a competição.
— Ah, sobre isso, eu gostaria de impor uma última condição.
— Hã?
— Eu só poderei agir, caso a garota ordene. Proxie deve liderar essa disputa.
— O que disse?
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