Interlúdio Vl 1
Interlúdio 3- Maeve, a viúva

Ano 12 após o fim da Grande Guerra
Os cabelos vermelhos vivos da mulher estavam presos num coque grande, eram tão brilhantes e bem cuidados que poderiam dar inveja a qualquer um.
A sua frente, estava uma mesa grande de madeira negra, e atrás dela estava aquele homem de olhos focados e afiados em si:
— Consegue entender sua posição aqui?
— Sim.
Maeve era uma jovem viúva, seu marido tinha morrido recentemente, deixando para ela posses e mais posses, dinheiro e tudo mais, e uma filha pequena.
Aquilo era aterrorizante para ela, tinha medo dos outros mercadores que a encaravam como se fosse uma presa e não uma pessoa:
— Se aceitar esse acordo, será chamada de Lady Maeve, precisará se mudar para o castelo. — Valdegar disse, os olhos focados na mulher.
— Minha filha… Eu quero um futuro para ela.
Valdegar concordou com a cabeça, ele entendia o que ela queria dizer, afinal tinha sua pequena Daphne, sua linda filha que era a cara da esposa:
— Sua filha pode ter um título de condessa, assim se assegura uma posição nobre, acha justo?
— Quero a educação que os meus filhos com o rei vão ter. — Maeve exigiu.
Não era apenas uma pobre viúva, era uma mulher vivia, mesmo com seus medos e sua pouca idade, encarava o mais velho a sua frente, esperando a contra proposta:
— Ok, Ricardo não deve se opor a tal.
Aquela fala a surpreendeu, como aquele rei que era dito como tão rígido aceitaria aquilo tão facilmente? Sua filha não era de fato problema dele, e mesmo assim… Aquilo era algo que não acreditava:
— Tem certeza?
— Sim, eu o conheço.
O rei Ricardo era conhecido por ser um homem de guerra, um homem que enfrentou a grande guerra e saiu vivo, com suas três esposas e atualmente três filhos, e ele aceitaria receber sua filha de bom grado?
— Alguma pergunta ou exigência?
— Por que eu? — Finalmente perguntou.
Estava grata, de fato, mas quando mandou aquele contrato não pensou que seria atendida, e agora estava ali, de frente ao braço direito do rei, negociando os termos do contrato:
— Você tem experiência. — Ele disse. — Vou ser sincero, uma hora ou outra iremos precisar de uma aliança com a burguesia, então aproveitei isso, Ricardo nunca iria aceitar que seus filhos casassem por amor, então ele se submeteu a isso, afinal ele se casou por amor uma vez.
— As… Outras não? — Maeve parecia incerta.
— O amor é construção, ele construiu esse amor com elas, pode construir com você também. Se assim quiser, claro.
A jovem viúva não sabia o que dizer sobre aquilo, na verdade talvez não se importasse o suficiente, só era um acordo para ela, não precisava de amor.
Só de proteção, seu amor de verdade jazia morto a sete palmos abaixo da terra:
— Agradeço, onde eu assino?
Trataria aquilo sem qualquer esperança, não sentia que seria nada mais que um pilar de poder no reinado do rei, e também não queria que ele fosse nada mais que um acordo bem estabelecido.
Após os papéis serem assinados, se levantou, agradecendo ao braço direito do rei, iria voltar para o casarão que ocupava com sua filha, ainda se perguntava se foi uma boa ideia negar uma cerimônia, mas pra que? Não existia amor ali.
Sequer o conhecia pessoalmente!
Sua viagem para casa foi silenciosa, não era uma mulher de muitas palavras, era uma mulher observadora, analítica, focada, precisou ser assim para ascender na vida, não tinha de família nobre, seus pais, agora mortos, enriqueceram na guerra.
Ela viu isso acontecer, viu seus pais ficarem cada vez mais ricos, e claro privilegiarem seu irmão mais velho, o futuro da familia, mesmo sem ser um exemplo de inteligência. E claro…
Ela não era boba.
Sabendo que quando seus pais entregassem tudo para o irmão, ela seria facilmente cortada da familia, ela agiu sem qualquer escrúpulos.
Acordou de seus pensamentos quando a carruagem parou, a porta foi aberta pelo cocheiro e ela desceu com toda sua imponência, um olhar frio e focado, encarando seu casarão. Mas sua expressão suavizou completamente quando uma garotinha de cabelos longos e lisos, num tom avermelhado como os dela, pele um pouco mais clara e olhos bem azuis, correu em sua direção:
— Mamãe!
— Aine!
Aine, sua única filha, a luz da sua vida, a única coisa que sobrou de seu falecido marido, a linda garotinha, um ano mais velha que a princesa Eliassandra.
E por quem faria tudo:
— Para onde foi? Tava com saudades! — A menina começou a falar rapidamente e toda empolgada como sempre fazia, fazendo sua mãe sorrir.
Pegou a garotinha nos braços e seguiu para dentro, ouvindo cada uma das façanhas daquela pequena criança durante o tempo que ficou fora.
Era por ela que fazia tudo aquilo, por ela que aceitou aquele acordo, e estava se mudando para o palacio real, mesmo que esteja saindo de um ninho de cobras para outro:
— Mamãe, eu vou ser uma princesa?
— Oh meu amor, você já é uma princesa. — Maeve sorriu girando sua filha no ar.
Os olhinhos animados e brilhantes de sua filha sempre enchiam seu coração de felicidade, faria qualquer coisa por aquela menina que trazia luz para sua vida às vezes tão sombria:
— Vou poder usar uma tiara?
— Talvez se o rei deixar…
— O rei é meu novo papai?
Aquela fala fez Maeve exitar, colocou sua filha no chão e segurou seus ombros, olhando bem seus olhos agora confusos pela ação:
— Ele nunca será seu papai, entendeu?
A pequena garota, mesmo confusa, acenou com a cabeça, incerta, mas ainda sim acenou.
Não podia nunca que a memória de seu antigo marido morresse, não para ela, aquela pequena garotinha deveria sempre lembrar quem era seu pai, quem a amou primeiro, e aquele rei nunca a aceitaria como filha, ele já tinha tantos:
— Nunca esqueça o nome do papai, como é?
— Papai?
— Não, o nome dele.
As mãos apertaram mais os ombros da filha, que automaticamente se encolheu com certo medo:
— Ronan. Papai Ronan.
— Isso mesmo, agora vamos, precisamos ver um vestido bem bonito para conhecer o rei amanhã, ok?
— Posso usar qualquer um? Até aquele azul?
— Sim, qualquer um.
A menina logo esqueceu do medo que sentiu mais cedo, ou apenas como uma criança esperta, aceitou ignorar aquilo.
Sua mãe sempre ficava estranha quando seu pai era mencionado, pai esse que aos poucos ia embora com o passar dos anos.
Agora com seus oito anos, seu pai morrendo a dois anos, não lembrava mais de seu rosto sem ser por meio de fotos, e sua voz também não. Sempre que pensava em família, era a mãe que vinha na sua cabeça.
Mas nada falava.
Não queria encher mais sua mãe já com tantos problemas.

Após uma semana inteira de preparações, lá estavam as duas novas damas da corte, Maeve estava com seus longos cabelos vermelhos soltos e rebeldes, os seios fartos estavam ainda mais pressionados pelo corset roxo, a cor que escolheu para si como seu símbolo pessoal.
Foi instruída a ter uma entrada que chamasse atenção de todos.
No pescoço estava um belo colar de pérolas, que chamava ainda mais atenção para seu busto generoso, o jardim ao redor do castelo estava ainda mais florido que os dias que veio ali para assinar o contrato, no topo da escada estavam os membros da família real.
Leopolda, com seu olhar rigoroso e cabelos loiros tão longos chegando aos quadris mais largos, a pele dela era tão delicada que Maeve tinha certeza que aquelas mãos nunca tocaram num trabalho manual, o vestido azul lhe dava ainda mais o ar de Dama de Gelo inalcançável.
Ao lado dela estava Ana Bael, a heroína de guerra, pequena e com um olhar animado e amoroso, sorrindo para a nova integrante daquele harém, seu corpo magro parecia tão delicado. A pele parda e os cabelos longos e castanhos trançados complementavam tudo, assim como o vestido longo esverdeado com os ombros a mostra, lhe dando mais volume no busto.
E à frente delas estavam cada um dos filhos, Ferrer, a chama contida, um garoto… Não, um homem de olhar frio como a mãe, os olhos vermelhos que pareciam julgar a todos, e os cabelos loiros presos num rabo de cavalo alto, vestia vermelho, diferente de sua mãe.
E também tinha Ian.
Ian era mais baixo que Ferrer, mas seus ombros eram lais largos, o cabelo castanho e rebelde estavam soltos, com o vento batendo neles e bagunçando ainda mais, era a combinação perfeita entre os pais, tinha o mesmo olhar intenso do que viu nas pinturas do rei.
E na frente de todas, alguns passos à frente estava ela, a mais bela de todas as jóias, a encantadora e hipnotizante Elengaria. Seus longos cabelos brancos voavam com o vento primaveril, os olhos lilases eram gentis e calmos, sua pele tão alva quanto o lirio branco, com algumas pequenas manchas avermelhadas pelo sol.
Naquele momento, Maeve conheceu a inveja na sua forma mais pura.
As outras duas eram belas, claro que eram, mas Elengaria tinha uma aura tão linda e encantadora, alguém que chamava atenção de todos:
— Lady Maeve. — A voz linda e melodiosa de Elengaria a chamou. — Bem vinda ao Palácio, viemos lhe recepcionar, sou Elengaria.
Não rainha Elengaria, sequer Lady, apenas Elengaria, como se fossem no mesmo nivel:
— Rainha Elengaria. — Maeve fez uma reverência, sua filha, Aine com seu vestido roxo também o fez.
Leopolda levantou a sobrancelha, sentia que ela estava medindo águas, e estava certa, seu casamento não foi muito diferente do daquela burguesa, mas ao menos ela não tinha filhos anteriores.
Não julgava.
Mas ainda sim se perguntava qual era o grande plano de Ricardo com aquele casamento?
Mas seus pensamentos foram cortados quando Ana Bael, a mais baixa, correu até Maeve, segurando seu vestido de tecido chique, o cabelo trançado estava cheio de pequenas estrelinhas, as estrelas de Bael, uma joia dada pelo próprio rei a sua esposa.
Será que Maeve ganharia algo?
— Prazer, sou Ana Bael, e você pequena, quem é? — Ignorou completamente a mulher, focando apenas na criança.
Se Elengaria era encantadora e hipnotizante, Ana quebrava qualquer defesa que tinham, e falar diretamente com a pequena Aine foi um golpe direto em Maeve:
— Aine… — A voz pequena da criança se fez presente.
— Prazer pequena Aine. — Ana cantarolou. — Quer conhecer a princesa?
Os olhos azulados da menina brilharam, e logo se voltaram para sua mãe, parecendo um cãozinho animado.
Maeve ficou incerta, sem saber o que dizer, não queria que sua filha se afastasse tanto, e já tinha ouvido falar da princesa dos olhos frios, tinha medo das expectativas da criança serem frustradas:
— Eu vou cuidar bem dela. — Ana garantiu.
Maeve estava completamente encurralada, a animação de Ana, os olhos pedintes de sua filha, não queria fazer feio logo em seu primeiro dia.
Então aceitou.
Com um sorriso amarelo, acenou com a cabeça para sua filha, que logo agarrou a mão de Ana, saindo andando dali, Ian logo seguiu sua mãe.
Os olhos amarelados de Maeve seguiram sua filha pelas escadas até se perderem pela grande porta do palácio, seu coração disparou ao se ver sem ela por perto, num lugar completamente desconhecido.
Aquelas mulheres simplesmente desarmaram todas suas defesas de tal modo que nem sabia o que fizeram, apenas com sorrisos e palavras gentis, aqueles eram os dotes femininos que tanto ouviu falar?
— Bem, que tal conhecer seu quarto? Deve ter algumas perguntas sobre tudo… — A voz de Elengaria acalmou seu coração.
Ela estava perto, e finalmente reparou que ela tinha um cheiro gostoso de flores da primavera. Seus dedos tocaram o braço desnudo de Maeve, lhe causando uma sensação de conforto e calma que não conseguia entender.
Mas lhe assustou, afastando seu braço num impulso talvez infantil, surpreendendo Elengaria:
— Perdão, não deveria ter invadido seu espaço.
Não parecia que Elengaria ficou afetada, será que algo lhe afetava? Parecia sempre com um sorriso calmo e afetuoso:
— Não eu…
— Não perca seu tempo, Elengaria jamais é afetava por tais trivialidades, mas que tal entrarmos? — Leopolda cortou, fria como sempre.
Ferrer que até esse momento estava calado, observando, caminhou até a nova esposa, aquela que seu pai tinha tomado para que ele não precisasse ter que passar por isso, e como um perfeito cavalheiro, ofereceu o braço:
— Posso acompanha-la, senhora?
A própria Maeve ficou surpresa com aquele ato, como se aquele jovem estivesse lhe salvando daquela situação sufocante, Elengaria era boa demais para si!
— Eu adoraria. — Agradeceu aceitando o braço do jovem.
Agradeceu em silêncio por aquele ato que para ela, foi o auge da gentileza que alguém lhe prestou.
Seus saltos batiam no chão enquanto era acompanhada por aquele moço pelas escadas, e depois os corredores do castelo, em silêncio, acompanhada pelo príncipe:
— Então… O que você ganhou nesse acordo?
— Você sabe? — Maeve ficou surpresa por ele conhecer aqueles trâmites mais legais do reino.
— Lorde Valdegar, o homem que lhe ofereceu, me apadrinhou, aprendi muito com ele, então eu sei de muita coisa. — Explicou como se fosse obvio, uma das características de Ferrer.
Mesmo que ele não fizesse de propósito, parecia que se fazia superior aos outros, mas não era algo que percebia.
Ferrer era um príncipe inalcançável, nunca tinha ouvido nada sobre ele com damas ou cavalheiros, sempre afastado e num patamar superior a todos.
Se perguntava se em algum momento aquele coração gelado daquele que era chamado de Chama Contida, seria um dia incendiado por alguém:
— Eu ganhei estabilidade e uma boa educação para minha filha.
Ferrer ficou em silêncio, encarando a frente enquanto andava com sua companhia, ela era sua madrasta? Sequer pensava assim das outras, eram mais como tias próximas:
— As três beldades, aquelas que conheceu, são boas do jeito delas. — Ferrer começou a falar. — Se aceita um conselho de alguém que vive nesse local…
Ferrer parou de andar, quando chegou à porta do quarto novo de Maeve, os olhos analiticos do principe pareciam lhe julgar até o fundo de sua alma:
— Tome cuidado, faça aliados, aqui não é tão diferente do mundo que veio.
Maeve ficou um pouco chocada com o tom que aquele garoto usou, como ele sabia?
— Como você…
— Vossa senhoria ficaria surpresa com o que eu sei. — Tomou a mão coberta pela luva branca e beijou seu dorso, um uma delicadeza e elegância que conseguia deixar qualquer dama nova derretida.
Entendia os suspiros das damas da corte e das jovens mulheres da alta sociedade burguesa, ele era um príncipe encantado.
A jóia mais bela da coroa do rei, ele deveria ter muito daquele garoto de olhos analiticos e cabelos tão bem cuidados, afinal até mesmo sua fama na academia lhe colocava num patamar tão elevado para os demais:
— Agradeço pelo conselho, príncipe. — Ela sorriu.
Devolvendo aquele olhar analitico, mas o dela tinha uma pitada de malícia que desconcertou Ferrer:
— Ou deveria lhe chamar pelo nome?
— Apenas quando estivermos a sós. — Ele sorriu.
Eram como duas raposas ardilosas conversando, dava para sentir aquela tensão de cumplicidade que não se via sempre, e talvez devesse ser perigoso:
— Um outro conselho, esse mais direto, garanta seu filho. — Avisou.
E com aquele conselho, se virou, deixando a mulher ali sozinha na porta de seu quarto, de fato, o garoto deu conselhos minimamente valiosos, era uma pessoa direta.
Maeve suspirou, finalmente entrando em seu quarto, e ele era enorme, maior que o seu no seu casarão, uma cama enorme de casal, uma janela ampla que dava visão para a estufa do rei, tudo tinha tons puxados para algo escuro, assim como pediu.
Ele tomou cuidado com aquilo, cheirava a canela, seu cheiro favorito como tinha dito.
Poderiam falar o que quiser do rei, menos que ele não era atencioso nos detalhes, de fato, ele seria um bom parceiro.
Algumas de suas coisas já estavam ali, como vestidos mais queridos, jóias, perfumes e afins, mas notou uma coisa peculiar: Não tinha uma cama para sua filha ali, será que ela teria que dormir sozinha como os outros filhos?
Aine não era uma filha do rei! Ela deveria ficar com ela! Mas olhando a cama de casal… Talvez não fosse apropriado para tal coisa.
Seu coração ainda pertencia ao seu antigo marido falecido, precisava deixar isso claro, estava ali apenas para firmar um contrato entre os burgueses e ter um filho para assegurar sua posição.
Deitou-se na cama, com o colar enrolado no seu pescoço fazendo barulho ao cair pelo corpo, até o dossel da cama era decorado, do jeito que ela disse que gostava:
— Atencioso.
Não iria se deixar enganar por aqueles atos, não iria amar ninguém de novo, seu coração foi encerrado com seu marido falecido, seu primeiro e único amor…
Mas ele… Ele poderia lhe amar, e iria assegurar isso.
Se levantou olhando com mais atenção suas maquiagens e afins na cômoda, achando uma carta perfumada com o selo pessoal do rei, uma pequena chama em cera vermelha, não perdeu tempo de abrir: era um convite.
Ricardo a convidando para um jantar a sós.
Tinha tempo para se preparar, Maeve deixou a carta de lado para começar a se despir, tudo começaria num bom banho.


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