A Redenção da Maga de Guerra Brasileira

Autor(a): Ainoir Siad


Interlúdio Vl 1

Interlúdio 2- Magda, a Dama de Companhia

Ana 11 após o fim da Grande Guerra

 

Magda era uma empregada, nada mais que isso, uma garota pequena para sua idade de 10 anos, fazia serviços mais leves como arrumar os quartos dos príncipes mais velhos e da pequena princesa.

Nunca tinha visto a princesa de perto, ouvia falar que ela tinha um olhar frio e distante, mas não pensava muito nisso, quando arrumava o quarto, mesmo cedo, a pequena já estava de pé fazendo qualquer outra coisa.

Seu rosto era simples.

A pele era bronzeada pelo sol que levava quando estendia a lavava roupa, os cabelos de um castanho opaco eram sempre presos num coque baixo para colocar o lenço branco sem problemas.

Era uma simples empregada.

Filha de empregada e de um cavaleiro de baixa patente, sabia que sua vida era muito melhor morando dentro do castelo, mesmo que sentisse que talvez poderia ser mais, mas não era, e estava parcialmente satisfeita com tal coisa.

Seu dia começava cedo.

Às quatro da manhã já estava de pé, se arrumando para conseguir levar o café da manhã dos príncipes, gostava de levar para Ferrer, ele acordava cedo e sempre estava esperando para dar bom dia.

Gostava de levar para Ian, que sempre estava acordando com aquele rosto amassado muito fofo que a fazia suspirar.

Mas não tinha uma opinião sobre Eliassandra, a princesa dos olhos frios, como era conhecida, nunca estava no quarto, diziam que ela era muito estudiosa e sempre estava na biblioteca, não questionava.

Não cabia a ela questionar.

Entrou no quarto, vendo ele sempre impecável como sempre, ela parecia ter um cuidado para o organizar, quer dizer, quase todo ele, a mesa de estudo sempre tinha papéis jogados por aí, com uma caligrafia mais ajeitadinha do que uma criança de seis anos agora.

Magda deu uma risadinha, deixou a bandeja com comida na mesinha e começou a arrumar a mesa de estudos, enquanto passava as mãos sentiu uma caixinha bonitinha, fria, com uma curiosidade infantil… Abriu.

Era uma pulseira bonita, de pequenas pérolas intercaladas por pequenos cristais, ela era linda!

Nunca teria a oportunidade de usar algo assim, nunca, seu status nunca daria dinheiro para tal coisa, mas poderia sonhar:

— Quer para você? — Uma vez a fez dar um pulo.

Uma voz sonolenta, calma, mas ainda sim firme de um jeito que não sabia explicar, mas ainda dava um ar de riso.. Afinal era uma voz fininha e infantil.

Magda se virou arregalando os olhos, devolvendo a pulseira para a caixinha, e lá estava ela, a princesa Eliassandra: Seus cabelos brancos estavam presos em um rabo de cavalo bagunçado, o rostinho todo amassado, os olhos, um de vermelho sangue, outro que parecia um céu com uma pupila de estrela.

Seu corpo travou.

Mesmo que seus dois irmãos fossem amorosos e gentis com ela, já tinha ouvido falar coisas horríveis de crianças nobres que até acusavam de roubo quando algo sumia:

— Eu só… Eu só estava arrumando, alteza, bom dia! — Magda fez uma reverência meio desajeitada.

Isso foi o suficiente para a princesa dar uma risadinha divertida daquilo:

— Calma, eu não ‘tô brava, quer pra você? Eu não vou usar mesmo. — Eliassandra ofereceu de novo.

A pequena princesa se levantou, usava o que parecia ser apenas uma camisa enorme, talvez de algum de seus irmãos? Provavelmente sim, lembrava de ter visto Ian com aquela camisa:

— A-Alteza, eu não posso.

— Por que?

Foi uma pergunta genuína, não conseguia achar malícia nas palavras dela, parecia uma criança que apenas queria entender como as coisas funcionam por ali:

— B-Bem senhorita, eu sou uma mera empregada, o que pensariam?

Eliassandra ficou em silêncio, pegando a salada de frutas que sempre fazia parte de seu café da manhã diariamente, parecia gostar dessas coisas mais simples:

— Então… Quer dizer que não posso me desfazer disso dando pra você? — O jeito de falar dela não era formal como os nobres, mas também não era tão infantil quanto as crianças que já viu pelo palácio.

Magna negou aquilo com a cabeça, olhando para aquela criança pequena que ainda comia, dava pra ver que ela estava pensando sobre aquilo:

— Só nobres podem usar isso? — Perguntou finalmente.

— Bem, sim, só nobres.

— E pessoas comuns podem virar nobres?

Magda deu uma risada daquilo, uma risada gostosa, de verdade, como a perfeita criança que era, afinal só tinha dez anos.

Desde pequena aprendeu a viver na corte como uma serva invisível, nunca vista mas sempre presente, e agora aquela faceta pareceu ter caído:

— Não senhorita, a menos que eu me caso com alguém nobre, serei sempre apenas eu. — A serva explicou com um sorriso divertido.

Mais uma vez Eliassandra ficou em silêncio como se não soubesse o que aquilo significava, e talvez não soubesse mesmo, ela tinha feito seis anos recentemente!

— E se você receber um título? De alguém?

Ok, era uma ótima pergunta, de fato era possível tal coisa, mas Magda esboçou um sorriso triste:

— Senhorita, quem ofereceria um título a alguém como eu? Sou apenas uma empregada, nem tenho conexões com ninguém. — Explicou aquilo, com um tom triste e distante.

Voltou a prestar atenção na mesa, deixando a caixinha de lado para focar nos papéis, com coisas que ela não entendia, sua curiosidade foi ativada, era alfabetizada, mas tinham tantas coisas ali…:

— Princesa, o que é isso? — Perguntou finalmente.

Era uma espécie de mapa estelar todo anotado, Eliassandra virou seu rosto em direção a empregada, com uma expressão calma:

— É um mapa estelar, a princesa Seraphs, a sétima, mandou alguns livros sobre isso quando descobriu meu tipo de magia.

— Oh! Verdade! Sua magia é das estrelas! E… Aquele coelho…

— Ali.

O coelho azul estava deitado preguiçosamente, Magda sorriu achando a coisa mais fofa do mundo, já tinha ouvido falar mas nunca visto pessoalmente tão de perto!

— É fofo né? Ele gosta de carinho atrás da orelha.

Eliassandra soltou essa indo para o banheiro.

E Magda ficou lá, encarando o coelho que abriu os olhos, alongou o corpo e ficou olhando a serva.

Será que deveria? Se abaixou, estendeu a mão e logo o coelho aproximou sua cabeça, pedindo carinho, foi tão fofo!

Quase explodiu de fofura, como poderiam dizer que aquela princesa era fria e distante? Ela estava sendo super gentil e simpática, apenas parecia ser perdida no próprio mundinho.

Ficou ali fazendo carinho nas orelhas do coelho, sorrindo para ele:

— Magda? O que está fazendo ai? — Uma voz tirou de seus devaneios, virou seu rosto para trás, vendo a governanta ali. — Saia já dai.

Quis justificar aquilo, mas a voz severa da governanta era assustadora.

Se levantou pedindo desculpas, seguindo para fora sem pensar muito, até que outra voz lhe chamou:

— Para onde vai?

Era a pequena princesa, com seu roupão chique, olhando para as duas figuras:

— Ah, alteza, Magda está…

— Seu nome é Magda? Perdão não ter perguntado. — Eliassandra parecia ignorar a governanta.

— Eu preciso voltar ao trabalho, alteza.

— Você não estava trabalhando me fazendo companhia?

A voz da princesa não estava mais gentil e meio boba como antes, parecia mais fria encarando a governanta.

Magda ficou calada, não sabia o que falar, ali tinham pessoas acima dela na hierarquia, então optou por calar a boca, seus sapatos eram tão interessantes agora, ela que não se meteria naquela conversa:

— Princesa, Magda é apenas uma serviçal, se quer uma dama de companhia eu posso… Organizar uma seleção. — A governanta ofereceu.

Claro, ela nunca iria conseguir ter qualquer proximidade com a princesa, mesmo sendo legal, ela vivia num mundo completamente diferente:

— Certo.

Foi a resposta final da princesa, dispensando todas com a mão, Magda fez uma reverência e seguiu para fora do quarto, iria voltar aos seus afazeres, antes que levasse uma bronca maior.

Mas não deu!

Mesmo trabalhando o dia todo, no meio da tarde foi encurralada por algumas colegas mais velhas, quando percebeu estava contra a parede:

— Você se acha especial por que sua mãe é uma empregada antiga? Não é. — Uma delas falou.

— N-Não disse isso! — Magda tentou falar.

Mas coisas horríveis foram faladas para ela, de como era apenas uma garota inútil, que não iria conseguir ser ninguém além de uma empregadinha de baixa linha!

Não conseguiu segurar o choro muito mais, só até dobrar a esquina e esbarrar com alguém! Que desastrada! 

Viu o corpo pequeno de Eliassandra cair no chão meio perdida olhando ao redor, Magda tentou falar algo, mas tudo que conseguiu foi chorar mais, com o pequeno corpo tremendo entre os soluços.

O rosto da princesa foi de confuso para assustado, se levantou rapidamente, perguntando o que foi, mas Magda só chorava cada vez mais, pedindo desculpas, mas não explicando o que foi que aconteceu, deixando a princesa mais nervosa.

Quão grande foi a surpresa, quando entre risadas as garotas que estavam ofendendo Magda apareceram, claro, iriam falar alguma coisa, mas todas pararam de falar, com os rostos pálidos encarando a princesa:

— A-Alteza! Perdoe nossa colega, ela é…

— Cala a boca. — Eliassandra apenas ordenou.

Ajudou a serva a se levantar, agora ao menos o choro era mais silencioso, de mãos dadas com a princesa saiu dali, deixando aquelas garotas para trás.

Magda não sabia o que lhe aguardava agora, afinal tinha esbarrado e derrubado a princesa! Poderia ser punida, mandada embora! Poderia ser punida de alguma maneira e isso era assustador para ela!

Mas nada a preparou para o que veio a seguir, a proposta que lhe foi feita quando as coisas se acalmaram:

— Ela quer que eu seja sua dama de companhia?! — Magda exclamou para a governanta que olhava com certa… Repulsa e surpresa.

Sim, era exatamente isso.

Ser Dama de companhia da única princesa existente lhe colocava em um ponto que era quase intocável por outras servas comuns, e sua família finalmente poderia ficar mais tranquila em relação a dinheiro.

Era uma oportunidade boa demais para se deixar passar!

— E- E o que a princesa exigiu?

A governanta pegou a carta, começando a ler em voz alta, para que todos ouvissem:

— Que seja alfabetizada. — Isso ela era, mesmo que quase não lesse. — Tem para estudar outras línguas e dedicação integral.

Não eram exigências grandes, não era nada acima do que sabia fazer, na verdade parecia ser simples demais para ser verdade:

— Ah, ela não cobra aparência por que a Magda é feia. — Uma das jovens disse sorrindo, fazendo a pobre criada encolher os ombros.

Não seria a primeira vez que atacavam sua aparência, não era uma criança feia, era apenas… Comum, mas todas ali eram, talvez o que fazia elas serem mais bonitas eram os traços da capital, e não do interior como seus pais eram.

Aquelas provocações estavam lhe seguindo por meses, desde que começou a trabalhar ali!

— Talvez seja melhor você não…

— Aceito. — A voz pequena de Magda rompeu a voz da governanta. — Eu aceito ser uma dama de companhia.

 

 

As semanas passaram com treinos para parecer uma dama da corte, não demorou para que seu quarto fosse mudado para o andar médio, o andar de outros nobres menores! Um local que ela só podia limpar, e agora estava ali!

O quarto era do tamanho do dormitório inteiro das servas juniores que ela pertencia, amplo, com cama, penteadeira, um banheiro só dela! Um armário que logo estaria repleto de vestidos seus!

E era dela!

Com as lições que Eliassandra exigiu dela eram complicadas, mas não eram físicas, não. Ela queria que Magda tivesse estudo, que fosse uma pessoa culta, coisa que não poderia aprender facilmente, precisou se empenhar muito mais.

E teve os tratamentos de beleza.

Banhos elaborados, tratamentos de beleza que não conhecia bem.

Esfregaram tanto sua pele que a parte mais áspera de suas mãos e joelhos ficaram macios e brilhantes e nem poderíamos falar do cabelo, sempre preso agora era solto e bem cuidado. 

Ainda era uma criança, mas agora tinha um novo ar, mais nobre, mais confiante… Coisa que não era quando começou aquele treinamento, agora andava de cabeça erguida como se fosse alguém importante.

E no fundo…

Ela era.

Era a dama de companhia da princesa Eliassandra!

Suas roupas foram completamente descartadas, não seriam suficientes para estar na presença de um membro da família real, e como a pequena princesa era muito pequena, e não saberia escolher de fato, outra pessoa ficou encarregada de tal coisa.

E quão grande foi sua surpresa quando a própria rainha estava lhe esperando dentro do Ateliê?

— Majestade! — Magda, com seu corpo magro por falta de comida e muito trabalho, se curvou profundamente, esquecendo as boas maneiras que aprendeu a pouco tempo.

— Pode se levantar, criança, Magda não é? — A voz calma da rainha Elengaria deixou seu corpo mais calmo.

Ela parecia uma fada calma, um sorriso calmo deixava tudo melhor, o que fez Magda sorrir também:

— Sim, majestade.

— Ótimo, vamos ver algumas roupas hoje ok? Vamos fazer algumas medidas depois, mas hoje vamos apenas ajustar no seu corpo, certo? 

A pequena garota concordou com a cabeça, sendo conduzida para dentro, a rainha era mesmo tudo que as pessoas diziam.

Era calma, centrada, gentil e tinha uma aura confortável que a deixava extremamente mais à vontade naquela situação tão atípica. E naquele momento também quando entendeu ainda mais sobre Eliassandra.

Descobriu que Eliassandra gostava de vermelho, e seus vestidos eram em sua maioria vermelhos, era protegida de seus irmãos mais velhos.

A princesa não gostava de doces de chocolate, mas adorava sobremesas de fruta, ela demorava para dormir, normalmente dormia em cantos aleatórios do quarto, com papéis e livros ao redor, aquele comentário fez Magda rir:

— Sabe, ela que pediu para que você fosse treinada. — A rainha sorriu enquanto Magda girava o corpo para que visse todo o vestido. — Ela mesma escolheu suas aulas, mesmo que não tenha magia…

Lembrava daquilo, de que teve que aprender coisas assim, o básico de magia e agora estava aprendendo até outros idiomas, era tão complicado, mas Eliassandra parecia não entender bem que nem todos tinham o intelecto dela.

E sinceramente quem teria?

Mas Eliassandra exigiu aquilo, exigia intelecto acima de aparência e modos, e bem… Ela não era uma pessoa com muitos modos, isso era até compreensível da parte dela.

O resto da tarde realmente foi tão agradável, com Elengaria escolhendo jóias e acessórios para ela.

E finalmente poderia dizer…

Era a dama de companhia oficial da princesa Eliassandra!

Seu novo ritmo era ditado por ela, acordava cedo, muitas vezes encontrando ela já acordada, aprendeu que ela dormia às vezes a tarde, e que sim, ela era diferente das outras crianças! Eliassandra não falava como as outras crianças, parecia ser mais firme, mais focada que elas.

Mas ainda sim…

— Magda, pode arrumar meu cabelo? — A pequena princesa pediu olhando seu reflexo.

Convivendo mais com a pequena princesa, percebia o que as pessoas falavam, de fato, Eliassandra tinha um olhar frio e distante, parecia estar focada em qualquer outra coisa que não fosse naquele momento.

Mas ela não era grossa, longe disso.

A pequena garota era gentil dentro de sua personalidade distante e fria, mas ainda sim era gentil.

Magda prontamente se colocou atrás de sua princesa, penteando os cabelos brancos cada vez mais longos, já que ela não gostava de cortar, e nem deveria, era lindo. 

Fez uma trança, adornando com algumas jóias bonitinhas no local:

— Sabe… Agora você é bem nobre né? — Eliassandra perguntou com a voz meio distraída, olhando seu rosto pelo reflexo.

— Bem, sim.

Com aquela resposta, a princesa empurrou aquela mesma caixa que começou toda aquela amizade entre elas:

— Alteza…

— Eu disse que combinava mais com você.

Os olhos de Magda começaram a se encher d’água, aquela era mesmo a sua linda princesa.

Mesmo que não tivesse qualquer obrigação de juramentos, não era um cavalheiro, mas sentia que precisava.

Se afastou chamando a atenção da princesa, Eliassandra olhou para trás, vendo sua dama de companhia se ajoelhar diante de si:

— Princesa Eliassandra D’Ank, eu, Magda, ofereço a ti toda minha devoção, até o fim da minha vida.

Era uma versão bem resumida dos votos dos cavaleiros reais, a pequena princesa deveria conhecer um pouco, o que a fez sorrir levemente:

— Então sua vida pertence a mim? — Eliassandra questionou.

— Sim. Minha vida é sua.

Ao levantar os olhos conseguiu ver um sorriso quase orgulhoso no rosto da princesa, não entendeu o que era aquilo, mas ficou feliz que aquele sorriso era seu!

— Então você vai se esforçar pra ser inteligente e forte e me proteger, não vai? — Eliassandra mantinha aquele sorriso enigmático.

— Ah? Sim!

— Ótimo, amanhã você começará suas aulas de espada. — Eliassandra virou de volta para o espelho, não vendo a expressão completamente chocada de sua dama.

Mas logo Magda se levantou, pronta para voltar a pentear os cabelos de Eliassandra.

Iria fazer de tudo por sua princesa!

Magda

 

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