Interlúdio 1

Extra 3: Ao Novo Ano

 

A Festa da virada do ano sempre seria algo estranho para a pequena Eliassandra, andava pelos corredores de mãos dadas com Daphne pelo castelo sendo iluminado, ambas vestiam roupas brancas com detalhes dourados. Daphne com seus cabelos loiros cor de palha que estavam presos num meio rabo de cavalo, vestido até as canelas, meias calças também brancas e sapatos dourados, explicava a sua pequena amiga sobre o feriado.

Sobre Eliasandra, seus cabelos estavam soltos completamente, o brinco de dente de dragão na orelha sempre esquerda, o vestido também branco chegava só nos joelhos, com uma saia dourada por baixo, os sapatos eram vermelhos, dando um toque de cor ao look, e também por que estava virando uma marca sua.

Na sua cabeça estava uma das coroas que tinha ganhado de sua família, essa mais simples, parecendo uma tiara dourada com um fio de pérolas na testa.

Não usava todas aquelas jóias sempre, mas hoje era um dia especial:

— Eu te preparei um presente também. — Daphne falou, chamando a atenção de sua amiga de cabelos brancos. — Nem diga que não precisava, precisava sim, não te dei nada de presente de aniversário.

— Na verdade fiquei brava que você não foi. — Sim, Eliassandra ainda estava sentida com aquilo, mas não parecia demonstrar muito.

Era mesmo a princesa dos olhos frios, e Daphne estava se acostumando com aquilo:

— Tinham muitas pessoas.

— Mas eu não dancei com você. — Reclamou.

Daphne parou de andar, puxando a mão de Eliassandra para trás que continou andando sem perceber:

— Você… Queria dançar comigo? 

— Sim, amigos não fazem isso? Eu dancei com o Ahrija.

Daphne torceu o nariz quando o nome do pequeno dragão foi mencionado, mas Eliassandra não entendeu, não como se entendesse muita coisa na maior parte do tempo sobre aquilo:

— Você ainda usa o dente dele.

— Claro, ele é meu melhor amigo.

— Isso não faz sentido. — Daphne rebateu, mas recebeu apenas uma dada de ombros de Eliassandra que voltou a andar.

Sua amiga, melhor amiga e atualmente única amiga era realmente uma pessoa curiosa, às vezes irritante.

Eliassandra normalmente era fria, distante, mas ainda sim ela parecia uma amiga leal, a defendeu em muitos momentos, escutava quando precisava falar, especialmente nessa nova página da sua vida, onde seu pai iria se casar finalmente depois de tantos anos.

Mesmo sendo estranha, Eliassandra era uma boa amiga, mas ainda sentia aquele ciúmes no seu interior:

— Mas quem é melhor, eu ou ele?

Mais uma vez Eliassandra parou de andar, olhando sua amiga como se julgasse ela, mas então veio aquele sorriso contido que ela sempre dava quando Daphne falava algo bobo:

— Vocês dois são ótimos, por que precisa ter alguém melhor?

Daphne abriu a boca, mas logo fechou, não tinha uma resposta certa para aquilo, que chata!

— Vamos Daph, vamos perder a festa!

Eliassandra correu na frente, com suas jóias fazendo barulho até o salão privado, apenas duas famílias estavam lá, a da garota de cabelos loiros opacos  e a de Eliassandra.

A barriga de Leopolda já estava aparente, e ela estava sentada com as duas outras esposas ao lado, todas usando vestidos brancos com detalhes dourados:

— Alteza. — Daphne fez uma reverência de forma sempre respeitosa.

Já Eliassandra, ela era princesa, não precisava disso, e sequer se importava.

Ao canto, Vivany observava aquela família feliz, mesmo que agora fosse a noiva do melhor amigo de Ricardo, do rei, ainda se sentia deslocada, pensando em como fora sua vida até aquele momento.

Daphne, sua futura enteada, era amiga próxima da princesa que claramente não gostava dela, teria que conviver com aquela pirralha por anos.

Revirou os olhos com aquele pensamento, passou as mãos pelo vestido branco que valorizava seu corpo cheio de curvas, um corpo invejado por muitas, desejado por muitos, se perguntava se deveria ficar apenas ali, observando aquelas cenas felizes:

— Deveria deixar de ser tão afastada assim, não é adequado, quase assustador. — Valdegar disse colocando a mão na cintura de sua noiva, puxando mais para perto.

Ela não podia fazer uma cena, e ele sabia disso, ela estava trabalhando para recuperar ainda mais sua dignidade e sua reputação depois de anos arrastando no lixo. E ele estava cumprindo sua promessa de transformar sua vida num inferno pessoal.

Prendeu a fala por um momento, não podia negar seus toques em público, mas depois do que ele falou para ela no baile não conseguia sentir nada além de raiva e desprezo por ele.

Por que ele sentia o mesmo por ela:

— É um momento de família, só gosto de não atrapalhar. — Vivany deu um sorriso amarelo.

— Não lembro de você ter essa noção quando estava perseguindo um homem casado.

E sempre que podia ele lembrava daquele fato, fazendo a lady ficar ainda mais irritada com tudo aquilo, mas não demonstrava, para todos, eles eram apenas um novo casal, e faziam bem um ao outro, como? Nunca saberão, eram bons em manter as aparências:

— Seu pai parece feliz. — Eliassandra comentou oferecendo um doce de fruta para sua amiga.

— Acho que sim, logo terei irmãos, eu acho. — Daphne aceitou o doce, colocando na boca e fazendo uma careta. — Limão…

— Heh, você não gosta?

— Você gosta? — E Daphne não sabia por que estava surpresa, sua amiga tinha gostos estranhos. — Enfim, aquele amigo do seu irmão…

Acompanhou o olhar da sua amiga até perto da janela, onde Elberony e Ian estavam conversando, a diferença de tamanho era evidente, o meio elfo estava com os cabelos trançados, também usava uma camisa branca com detalhes dourados, calças pretas e sapatos marrons, não usava joias, afinal nem tinha dinheiro para tal.

Já Ian usava uma camisa dourada e calças brancas, se permitiu não usar a coroa, mas usava ao menos o anel de irmandade entre os três irmãos.

Conversavam próximos, às vezes se cutucando e rindo como pessoas próximas, próximas demais, mas parecia ter algo a mais ali.

A mais que Eliassandra não entendia:

— Ah, é o Elberony, é legal, parecem se dar bem.

Daphne não era muito mais velha que sua amiga de cinco anos, às vezes ela parecia muito mais velha mesmo tendo pouca idade, mas para outros assuntos… Voltava ter apenas cinco anos de idade.

Viu a menina só pegar outro doce, sem se importar com o suposto clima que parecia ter entre os dois, ou talvez Daphne apenas via demais?

— E o seu coelho?

— Lynn? Ah, não gosta de sair da cama a essa hora, frio demais pras patinhas dele. — Riu lembrando disso. — Deve estar dormindo agora.

— Como tem certeza?

— Ah, eu só conheço isso, parece que eu sinto. — Colocou a mão no peito, como se realmente sentisse isso, e talvez fosse verdade, afinal mal sabiam algo daquele coelho.

Mas uma curiosidade batia em Daphne, talvez a curiosidade necessária para ser uma estudiosa? Nunca saberemos, ou talvez em algum momento sim:

— E esse olho? O que ele faz?

Ah, era justo, quando se viram antes de precisar sumir, seus olhos eram ambos vermelhos cor de sangue, e agora um deles era azul e amarelo, com uma pupila de estrela:

— Ah, é uma boa pergunta, atualmente eu consigo ver a mana das pessoas. — Eliassandra sorriu.

Colocou a mão na frente do olho vermelho e concentrou sua mana no outro olho, o fazendo brilhar, todas as pessoas tinham mana, mas o jeito que ela corria, o que possibilitava a pessoa praticar magia, como acontecia com Daphne, que tinha suas veias entupidas de impurezas.

Seus olhos vagaram por todos, até cair sobre Leopolda sentada na sua cadeira:

— Ora…

Se aproximou de sua madrasta, encarando sua barriga, vendo dois pontos de mana na barriga dela, era estranho.

Não deveria ter só um? Por que tinham dois ali?

— O que foi, Eliassandra? Algo errado?

Ferrer estava chegando após conversar um pouco com sua preciosa anjinha de outro reino, quando viu sua irmãzinha colocando a mão sobre a barriga de sua mãe e a outra ficava sobre o olho vermelho sangue:

— O que houve? — Ferrer questionou curioso.

— Dois.

Leopolda piscou algumas vezes, sem entender de primeira o que aquela criança excêntrica estava falando:

— Como é?

— Tem duas crianças aí dentro, senhora. — Eliassandra finalmente disse, tirando a mão da frente do olho. — Parabéns?

Ferrer ficou paralisado, como raios… Como ela sabia disso? Como ela poderia dizer algo assim de um modo tão firme, era dificil até ir contra aquela fala dela:

— Eliassandra, querida, como você sabe? — Finalmente Leopolda perguntou, após o choque inicial.

Elengaria assim como Ana Bael não entendiam o que raios aquela pequena princesa falava, mas logo todos os presentes estavam reunidos ao redor de Leopolda e Eliassandra:

— Com esse olho, consigo ver a mana das pessoas, todo ser tem mana, e na sua barriga tem dois pontos de mana, não um. Então são gêmeos.

Falou de uma forma tão simples e tão certa, que não deixou margem para dúvidas de qualquer um:

— Eliassandra, filha, você tem certeza? — Elengaria se abaixou para ver sua filha nos olhos, quase do mesmo tamanho, pois Eliassandra era pequena.

— Absoluta, mãe. Terei mais dois irmãos.

— E-Espera, consegue dizer o sexo dos bebês? — Ferrer finalmente perguntou.

Ele próprio se abaixou perto da irmãzinha, olhando de sua mãe para ela:

— E isso importa? — Eliassandra sorriu. — Mas não, eu não consigo ver, perdão.

Leopolda por outro lado já estava chorando, com as mãos na frente da boca, não era um choro feio de tristeza, era de felicidade, até mesmo Ferrer parecia feliz, colocando a mão sobre a barriga de sua mãe, podiam não saber se eram garotos ou garotas, ainda sim era uma felicidade que eles não poderiam por em palavras:

— Eu perdi algo? — A voz grossa do rei Ricardo chamou atenção de todos, ao ver sua esposa loira chorando, se aproximou com certo medo. — Leo, querida, o que foi?

Leopolda abraçou o marido com animação rindo e chorando ao mesmo tempo, algo que deixou ele ainda mais confuso, seriam os hormônios da gradivez?

— Teremos gêmeos!

— Oi? — Ricardo ficou perdido naquela afirmação.

— Dois filhos, teremos duas crianças, Ricardo!

Ele não entendia, não conseguia entender aquilo, mas apenas aceitou, abraçando sua esposa e a girando no ar com facilidade, seja lá como ela soube daquilo

Acreditava.

Mesmo que estivessem perto e curiosos, Vivany e Valdegar não falavam nada, Vivany por uma inveja que lhe consumia, não tinha filhos, não tinha essa felicidade e nem teria com aquele maldito acordo que tinha firmado.

Já Valdegar estava com um sorriso calmo, adorava ver o amigo feliz, mas também sentia inveja, ele tinha  suas três esposas consigo, e ele perdeu seu único amor, a mãe de sua filha que cada vez mais estava parecida com ela, como uma sombra perpétua de seu fracasso como marido em protegê-la;

Aqueles momentos de felicidade do amigo lhe atingiam mais do que queria, não queria sentir inveja, mas sentia, e o pior de tudo, nunca poderia viver esse amor de novo, afinal estava preso a um casamento fracassado pela diversão pessoal de torturar emocionalmente a mulher que prejudicou tanto seu amigo e sua esposa.

Talvez devesse ter pensado em si mesmo, mas se Daphne pudesse ter uma mãe, mesmo que ela o odiasse, valeria a pena, olhou para Vivany pelo canto do olho, a vendo colocar a mão sobre a barriga, como um desejo…

Não quis interromper os pensamentos dela, focou apenas na familia feliz mais a frente do seu amigo, e sua filha ali no meio, feliz da vida, como se fosse parte daquele local.

Talvez seja mesmo.

A pequena Daphne correu para uma pilha de presentes, pegando um pequeno embrulho, entregou a Eliassandra, que olhou meio perdida, e depois abriu: era apenas um colar, um colar simples com um pequeno ponto de luz bonitinho e branco:

— Que lindo… — Eliassandra sorriu contida, abraçou a amiga com força, grata por aquilo.

Era simples, bonito, e do gosto dela, estava começando a aceitar algumas joias, sabia que não poderia fugir delas para sempre, então aceitava as mais simples:

— Me ajuda a colocar?

Daphne ajudou feliz da vida enquanto Eliassandra virou de costas para tal, tirando o cabelo da frente, ela estava usando seu presente assim como usava o presente daquele dracônico! Então ela era tão importante quanto!

— Olha os fogos! — Ferrer disse animado com o jogo de luz.

Finalmente, um novo ano estava chegando numa explosão de fogos brilhantes no céu, feitos com pólvora e cor, era lindo! Todos estavam com os olhos vibrantes!

Eliassandra adorava, sua mãe a pegou no colo para olhar aquele show colorido que poderia ser visto em todo o reino humano de Serphs:

— Sabia… — Elberony comentou, com os olhos focados na frente. — Quando beijamos alguém na virada do ano quer dizer que queremos ela na sua vida no ano seguinte?

Ian olhou seu amigo que estava todo sem jeito, encarando os fogos, ele estava vermelho! O príncipe do meio sorriu, segurou a mão do meio elfo e levou aos lábios, dando um beijo casto.

Aquele beijo foi o suficiente para seu coração disparar e um sorriso bobo brotar em seus lábios:

— Feliz ano novo, Ian.

— Feliz ano novo Elberony. — Ian sorriu.

 

Arte de Final de Ano com as três beldades de Serphs

Elengaria, Ana Bael e Leopolda

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