Volume 3

Epílogo 2: Pensando naquela noite ao mesmo tempo

Na noite em que o Shijoin-san partiu, eu me vi sozinha na sala, secando o cabelo úmido com uma toalha depois do banho. O jantar já tinha acabado e a casa estava silenciosa, com a mamãe e a Kanako já em seus quartos. O silêncio era pesado, um contraste gritante com a atmosfera animada da noite anterior.

— Ontem foi divertido, não foi? — murmurei, com um sorriso se espalhando pelo meu rosto. 

A lembrança do nosso jantar juntos, com a mamãe, a Kanako e o Shijoin-san, ainda estava viva. A mamãe e a Kanako estavam excepcionalmente alegres, e foi incrível ter todas as pessoas de quem eu gosto reunidas à mesma mesa. O calor daquele momento permaneceu no meu coração, deixando uma dor agridoce. Mas então me dei conta:

— Hoje à noite, vou dormir lá de novo… 

Joguei a toalha na cesta de roupa suja e olhei para o sofá da sala. Meu quarto finalmente estava arrumado, mas meu futon ainda estava úmido. 

Droga... É estranho dormir neste sofá de novo depois de dividi-lo com a Shijoin-san ontem à noite. 

Meus hormônios adolescentes definitivamente estavam me fazendo pensar demais nas coisas. A lembrança de acordar com a garota de quem eu gostava praticamente em cima de mim causou um choque em todo o meu corpo. 

Sinceramente, ser jovem é ótimo e tudo mais, mas nossa, isso é puberdade ou o quê? 

Suspirando, desabei no sofá. Eu vinha tomando cuidado com meu horário de sono desde minha vida anterior, mesmo durante as férias de verão. Mas, bem quando estava prestes a ir para a cama, fui surpreendido por algo inesperado. 

Espere aí... O perfume da Shijoin-san ainda está aqui! 

Apesar do ar-condicionado e do espaço apertado, a fragrância dela permanecia, mais forte do que eu poderia imaginar. Era uma doçura inebriante, como pêssegos maduros ou morangos, que parecia preencher o ar. Só de ficar sentado no sofá, parecia que eu tinha sido transportado para o paraíso. 

O aroma doce despertou uma enxurrada de lembranças vívidas, reproduzindo a noite com uma clareza surpreendente. Não era apenas a fragrância dela; era o calor do corpo da Shijoin-san levemente contra o meu, a textura macia do cabelo dela, a suavidade delicada da pele dela e o ritmo calmante da respiração dela enquanto dormia. Cada detalhe voltou à minha mente, e minha cabeça estava girando. 

Ahh! Não tem como eu ficar calmo com isso! Estou me afogando em pensamentos embaraçosos! 

Eu gemi, segurando a cabeça. Como algo tão simples quanto o perfume dela, que ainda pairava no ar, poderia me deixar tão confuso? Compartilhar um sofá com uma das garotas mais bonitas que já conheci... Sim, é claro que isso teve um impacto! Ninguém iria me culpar, certo? Pelo menos, era o que eu ficava dizendo a mim mesmo. 

Mesmo assim, as lembranças se recusavam a se acalmar. Lembrei-me de como ela havia apertado meu rosto sonolenta, com uma expressão de sono ridiculamente adorável. E então:

— Ah...

O sorriso dela daquela manhã, brilhando tão intensamente quanto o sol, surgiu na minha mente. Embora a proximidade de compartilhar um sofá tivesse sido... avassaladora, aquele sorriso, de alguma forma, permaneceu mais vívido. 

— Ela me disse “Bom dia”...

Aquela saudação suave e alegre não foi casual e nem descuidada. Parecia calorosa e significativa, transbordando bondade. Seu sorriso gentil dizia mais do que qualquer palavra jamais poderia, e deixou uma marca que eu não conseguia sacudir. Foi então percebi o quanto meus pensamentos giravam em torno dela.

Tínhamos cozinhado e comido juntos, ficado acordados até tarde tomando chá e conversando, e nos despedido ainda esta manhã. Mesmo trocando e-mails e ligando um para o outro o tempo todo, uma solidão dolorosa já havia começado a se enraizar dentro de mim. 

Eu queria passar mais tempo com ela. Queria ver o rosto dela novamente. Talvez fosse apenas o quanto meu coração era facilmente influenciável nessa idade, mas o sentimento era insuportável. 

Não podia negar: já sentia saudades dela. 

— Quero vê-la… — sussurrei no silêncio da noite, com o peito apertado de saudade. 

[Shijoin Haruka] 

Com um suspiro, afundei-me na cama. A noite havia caído e, após um longo banho, eu estava pronta para dormir, vestida com meu negligee favorito. 

Que dia, pensei, afundando-me na maciez da minha cama.

— Parece que não fiz nada além de falar sobre ontem.

Minha mente voltou para esta manhã, quando voltava para casa depois de estar na casa do Niihama-kun. Minha mãe e a Fuyuzumi-san estavam frenéticas de preocupação até que finalmente entrei em contato com elas. Um alívio tomou conta delas enquanto me puxavam para um forte abraço. 

Pedi desculpas por causar preocupação e contei sobre o tempo maravilhoso que passei na casa do Niihama-kun. Minha mãe ficava cada vez mais animada a cada detalhe, culminando em um gesto triunfante de punho cerrado e um grito de: “O evento de dormir juntos finalmente aconteceu!” 

A Sra. Fuyuzumi, no entanto, estava mais contida. “Srta. Haruka”, ela advertiu, apoiando a cabeça nas mãos, “por favor, não mencione isso ao seu pai. E talvez… tente evitar qualquer coisa que possa… deixar um jovem nervoso.” 

O pai voltou do trabalho naquela noite e, desde o momento em que entrou, ficou fazendo a mesma pergunta estranhamente vaga:

— Então, Haruka… nada… de estranho aconteceu, certo?

Quando tentei fazer com que ele se explicasse, ele ficou nervoso e rapidamente mudou de assunto. A mãe, é claro, achou isso engraçado.

— Ah, não seja tão tímido — ela provocou — Responda à sua filha!

O pobre pai estava praticamente às lágrimas. 

Hehe, não aconteceu nada de estranho. Apenas uma série de momentos maravilhosos. 

Conhecer a Kanako-chan, cozinhar e compartilhar uma refeição com o Niihama-kun, conversar com a mãe dele, a Mika-san. Foi tudo tão adorável. 

E mais tarde, tomamos chá e conversamos… Bem… talvez não tenha acontecido nada de estranho. Teve aquela situação embaraçosa... 

A lembrança de Niihama-kun me vendo acidentalmente no banheiro passou diante dos meus olhos. Foi a primeira vez que um homem me viu assim, e mesmo agora, a lembrança me causou uma onda de calor e vergonha. Mas talvez por ser ele, um amigo próximo, eu não me senti desconfortável ou violada.

Além disso, naquele momento, eu estava mais preocupada em esconder o que tinha feito... 

Meu olhar pousou na camisa dobrada sobre a mesinha de cabeceira. Minhas próprias roupas, deixadas para secar na casa do Niihama-kun, ainda estavam úmidas nesta manhã. Então, por mais embaraçoso que fosse, acabei voltando para casa vestindo uma das camisas dele. 

É claro que pretendo devolvê-la mais tarde. O Fuyuzumi-san até a lavou e passou para mim, mas... 

— Preciso devolver isso logo, não é? — murmurei, tomada por uma estranha inquietação. 

Meus dedos pareciam não conseguir ficar quietos, atraídos pelo tecido macio como se por alguma força invisível. Não sabia ao certo que significado havia em um ato tão inquieto. No entanto, por alguma razão, não conseguia parar. Passar as pontas dos dedos pelo tecido trazia uma estranha sensação de conforto, como se estivesse preenchendo algum vazio não dito, mesmo que apenas um pouco. Sem perceber, eu simplesmente continuei tocando nela. 

Por que eu me sinto tão atraída por ela?

Um desejo de continuar tocando nessa camisa estava brotando dentro de mim. 

Espere! O-o que estou fazendo!? Ela já foi passada com tanto cuidado e aqui estou eu tocando nela demais! I-isso não vai causar rugas, vai!? 

Recuperei o juízo e peguei a camisa, aproximando-a do rosto para verificar se havia rugas. Felizmente, o formato parecia intacto, então não havia motivo para preocupação.

— Ah...

Ao aproximar a camisa do rosto, um aroma familiar fez cócegas no meu nariz, o mesmo aroma que senti ontem quando a vesti. Era inconfundivelmente o de Niihama-kun.

Não o aroma suave e doce de uma garota, mas o aroma distinto de um garoto…

Era algo totalmente comum, mas me fez perceber nitidamente que ele não era como Mitsuki-san ou Mai-san. Ele era diferente. Especial. Aquele aroma trouxe de volta as lembranças de ontem, ainda mais vívidas.

A noite em que dormimos juntos no sofá... 

Ainda conseguia lembrar a sensação de descansar minha cabeça contra seu peito firme. O calor de seu corpo, um pouco mais alto do que o de uma garota, e aquele mesmo aroma agora impregnado na camisa que eu segurava nas mãos. Envolvida por essas sensações enquanto adormecia, acordei na manhã seguinte em perfeita paz e conforto. 

O-o quê!? O-o que é esse sentimento!? Por que estou me sentindo tão envergonhada de repente!? 

Esta manhã, quando cumprimentei o Niihama-kun com um “bom dia”, e mesmo quando contei à mamãe e aos outros o que aconteceu ontem, não senti esse constrangimento avassalador borbulhando das profundezas do meu peito. 

E, no entanto, agora…

Os vários momentos que compartilhei com o Niihama-kun passaram pela minha mente, e parecia que vapor poderia jorrar da minha cabeça, com meu coração fervendo. Meu coração batia tão forte que parecia que ia explodir e um calor abrasador se espalhou por todo o meu corpo. 

Confusa com esse meu estado, soltei a camisa do Niihama-kun e rolei para a cama. Abraçando meu coração contorcido e em conflito, rolei para frente e para trás no colchão, como se tentasse extinguir algum fogo invisível que se acendera dentro de mim.

— Haa... haa... ufa… — finalmente fiquei imóvel, com a respiração entrecortada— Sinceramente, nunca me senti tão... fora de controle.

Tudo ultimamente tinha sido um turbilhão de novas experiências. Dias repletos de imprevistos, uma realidade que parecia estar em constante mudança e esses sentimentos estranhos e desconhecidos florescendo dentro de mim. Confusos, mas tão preciosos. 

Desde que comecei a passar mais tempo com o Niihama-kun, senti que estava mudando. Minha vida antes parecia tão previsível, como se eu estivesse seguindo um caminho já traçado para mim. Agora, era tudo menos isso. Eu nem conseguia imaginar o que o amanhã traria. 

E com esse pensamento, minha mente voltou para ele. Sua voz, seus olhos e até seu sorriso me invadiram, enchendo meu peito de uma dor que era ao mesmo tempo doce e insuportável. Eu queria vê-lo novamente. Queria estar perto dele. A saudade era tão forte que quase doía. 

— Isso é ridículo… — murmurei, enterrando o rosto nas mãos — Ainda nem se passou um dia inteiro desde a última vez que nos vimos.

Mas as emoções se recusavam a se acalmar. Incapaz de resistir, estendi a mão para a camisa dele novamente, agarrando-a como se isso pudesse, de alguma forma, acalmar a tempestade dentro de mim. Abraçando a camisa com força, quase podia sentir a presença dele ao meu lado. 

— Niihama-kun...

Só de sussurrar o nome dele, senti arrepios na espinha, com o coração batendo forte como um tambor. 

— Quero te ver de novo... em breve.

Na esperança de que talvez ele sentisse o mesmo, desabafei meu coração para o silêncio da noite.

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