Volume 3

Epílogo 1: Breve despedida numa manhã de verão

A manhã amanheceu clara e ensolarada, em nítido contraste com a forte chuva da noite anterior. A luz do sol refletia nas poças, transformando-as em pequenos brilhos no asfalto. Era o tipo de manhã de verão que deveria transmitir paz, mas meu coração batia forte de ansiedade. Em frente à minha casa, me vi cara a cara com Tokimune-san.

— Bom dia, Niihama-kun — ele cumprimentou, com sua voz suave e refinada — Faz um tempo, mas fico feliz em ver que você está bem.

— Bom dia, Tokimune-san. — respondi, tentando manter a compostura — Você também parece bem.

Já fazia algum tempo desde nosso último encontro, e o caráter inesperado de sua visita me deixou desorientado. 

A manhã havia começado de forma bastante agradável. Depois de acordar com Shijoin-san, compartilhamos um café da manhã simples com Kanako. Minha mãe já havia saído para o trabalho, então éramos apenas nós três. Então, chegou uma mensagem no celular de Shijoin-san de sua mãe, Akiko-san, anunciando que um carro estava sendo enviado para buscá-la. Momentos depois, um carro de luxo elegante parou, e enquanto Shijoin-san e Kanako saíam para se despedir, eu as segui — apenas para me deparar com a figura imponente de Tokimune-san, irradiando uma aura de autoridade. 

— É uma pena que seus pais já estejam no trabalho. — ele começou, com a voz tingida de formalidade — Mas, antes de mais nada, deixe-me expressar minha profunda gratidão por ter cuidado da minha filha durante a noite, em um tempo tão terrível. A tempestade tornou a viagem impossível.

— Oh, não, de forma alguma — gaguejei, fazendo uma leve reverência enquanto ele retribuía com uma reverência profunda — É apenas o que qualquer pessoa faria.

Apesar de sua gratidão aparentemente genuína, seu olhar intenso sugeria algo mais. E então, a fachada caiu.

— Bem, deixando isso de lado… — ele fez uma pausa, sua voz assumindo um tom ameaçador — Só para ter certeza... VOCÊ NÃO FEZ NADA INADEQUADO COM A MINHA PRECIOSA HARUKAAAAAA, FEZ?!

Sua mudança repentina de gratidão educada para um interrogatório feroz me pegou completamente de surpresa.

— Você precisa mudar de tom tão bruscamente?! — eu soltei, minha própria voz subindo de surpresa. 

Shijoin-san, por sua vez, parecia tão atônita quanto eu com o aparecimento inesperado do pai.

— P-Pai… — ela gaguejou, os olhos arregalando-se de surpresa — Você veio com Natsukizaki-san me buscar?

— Oh, Haruka! — exclamou ele, a voz transbordando de preocupação exagerada — Desculpe-me por ter me atrasado para buscá-la! Deve ter sido tão difícil para você! 

— De jeito nenhum! Não foi nenhum incômodo… — ela respondeu, ainda nervosa — Mas, hum, você não deveria estar no trabalho?

Tokimune-san descartou as preocupações dela com uma risada despreocupada.

— Haha, não precisa se preocupar com isso, Haruka — disse ele, parecendo completamente à vontade — Há muito tempo, eu me certifiquei de que a empresa pudesse funcionar muito bem sem mim em ocasiões especiais... como suas cerimônias de admissão e dias de visita às aulas. Além disso, se uma empresa não consegue funcionar sem seu presidente por um curto período, isso já é um sinal muito ruim.

Não era como se Tokimune-san tivesse tentado esconder sua devoção pela filha, mas ver isso em ação deixou bem claro o quanto ela significava para ele. Ainda assim, eu não pude deixar de admirar sua dedicação tanto à família quanto aos negócios — ele realmente criou um sistema para garantir que a empresa não desmoronasse na sua ausência. 

Uma voz interrompeu meus pensamentos.

— Bom dia, Niihama-sama — disse ele — Faz tempo.

Virando-me na direção do som, vi um homem bem vestido, na casa dos quarenta, sentado no banco do motorista, acenando-me com a cabeça educadamente. Era o mesmo motorista que eu conhecera quando visitei a propriedade Shijoin.

— Ah, bom dia, Natsukizaki-san — respondi — Faz tempo.

— Oh, você se lembrou do meu nome — disse ele, com um tom de diversão na voz. 

— Você me ajudou muito naquela época — eu disse — Além disso, não precisa me chamar de “sama”. Sou apenas um amigo do Shijoin-san.

— Não, não. — insistiu Natsukizaki-san — Ser amigo de Haruka-sama faz de você alguém que merece todo o meu respeito. E se você é um amigo especialmente próximo, mais razão ainda para ser educado.

— Nós não somos tãããão próximos assim! — soltei, sentindo meu rosto esquentar.

Natsukizaki-san sorriu maliciosamente, mas seu comentário provocador provocou um protesto estrondoso de Tokimune-san.

— Haruka e esse garoto são, na melhor das hipóteses, mal amigos! Pare de dizer coisas estranhas!

— Hmm? Não, isso não é verdade, pai. — disse Shijoin-san, com voz calma e clara. 

— O-o quê? — gaguejou Tokimune-san, claramente surpreso. 

— O que o Natsukizaki-san disse está absolutamente certo — continuou Shijoin-san, com um sorriso radiante iluminando seu rosto — O Niihama-kun é um amigo muito próximo meu. Ele é o amigo mais próximo que já tive em toda a minha vida!

— Guhah! — Tokimune-san gemeu, segurando o peito como se tivesse levado um golpe físico. Meu próprio rosto ficou vermelho vivo. 

Tokimune-san se inclinou para mais perto, sua voz baixando e ficando rouca.

— Grrr… Ei, garoto… Haruka parece ainda mais alegre do que o normal hoje. Tem certeza de que nada aconteceu, certo?

Embora mantivesse uma postura serena, a ameaça subjacente em suas palavras era inconfundível. Um nó de ansiedade apertou meu estômago. 

— Agradeço por ter cuidado da minha filha — disse ele, com um tom estranhamente calmo — Terei que visitar seus pais mais tarde para lhes agradecer como deve ser. Mas, antes disso... há algo que preciso lhe perguntar.

— I-isso é… hm… — gaguejei, minha mente repentinamente inundada por imagens vívidas do dia que passei com Shijoin-san. 

Honestamente, recontar os acontecimentos de ontem soaria mais ou menos assim: 

“Bem, hum, eu meio que entrei no quarto da Haruka-san logo depois do banho dela e a vi de calcinha. Só isso já foi demais. Depois, durante o jantar, ela me deu um pedaço de comida com aquele “diga ahh” super fofo... o que foi loucamente constrangedor, mas também meio adorável. E, para completar, acabamos adormecendo no mesmo sofá, basicamente agarrados um ao outro como travesseiros de abraço. Acordei com uma cena matinal totalmente clichê. Sinceramente, pode ter sido o melhor dia da minha vida.” 

Se eu dissesse isso, ele me mataria! 

Eu não tinha feito nada impróprio, mas, a julgar apenas pelos resultados, era difícil negar que eu merecia uma sentença de morte. Droga... hora de uma retirada tática. 

— Ah, bem... nada digno de nota. — eu disse, mantendo o tom calmo — Se eu tivesse que dizer alguma coisa, ela só me ajudou a preparar o jantar. Só isso.

Mantendo meu pânico interior, soltei com naturalidade uma meia-verdade, salpicando apenas a honestidade necessária para torná-la crível. A maneira mais fácil de uma mentira ser desmascarada é através da voz ou das expressões faciais, mas anos lidando com chefes impetuosos e exigências irracionais de clientes nos meus dias de corporativo me treinaram bem. Eu havia aperfeiçoado a arte de manter a calma sob pressão. 

Não tem como ele perceber isso...

— Você está mentindo.

— O quê!?

— Você fez um bom trabalho em eliminar a tensão da sua voz, mas ainda há um leve nervosismo ali. Já negociei com inúmeros oponentes astutos; meus olhos não se deixam enganar.

Droga! É por isso que lidar com executivos experientes e astutos é tão chato! Se fosse um daqueles gerentes desinformados ou CEOs distraídos da minha antiga empresa, eu teria me safado facilmente! 

— Agora fale! O que realmente aconteceu!?

— Bem, hm...

Isso é ruim!

Eu não tinha a intenção de que nada disso acontecesse, mas não havia como explicar isso para o Tokimune-san sem causar um desastre. Minha mente corria enquanto eu me esforçava para encontrar uma desculpa. 

— Com licença, o senhor é o pai da Haruka-chan? — uma voz familiar interrompeu. 

Eu me virei e vi Kanako parada bem ao nosso lado, sorrindo docemente. 

— Hm? É verdade. E você é...

— Ah, prazer em conhecê-lo! Sou Niihama Kanako, a irmã mais nova dele! — disse ela, fazendo uma reverência educada com maneiras impecáveis. 

Kanako, totalmente no “modo público”, havia escondido habilmente sua personalidade habitual de aluna do ensino fundamental, astuta e travessa. 

Mas mesmo assim... me chamando de “Onii-chan”? Ela está claramente fingindo. 

Kanako, fingindo inocência, contou ao pai de Haruka, Tokimune-san, a história de como Haruka, sempre tão gentil, havia enfrentado a chuva torrencial para devolver sua carteira, acabando completamente encharcada. Naturalmente, Kanako não podia simplesmente deixá-la assim, então a convidou para passar a noite. 

— Sinto muito por ter causado preocupação a você e à sua família. — disse ela, com um tom de arrependimento na voz — Peço sinceras desculpas.

— Oh, não, não, por favor, não peça desculpas — respondeu Tokimune-san com um sorriso cativante — Você só estava sendo gentil com Haruka. E quem poderia ter previsto aquela chuva torrencial? A previsão do tempo certamente não! Foi apenas azar.

Como era de se esperar, Tokimune-san era incrivelmente simpático e acessível, pelo menos para qualquer pessoa que não fosse um rapaz interessado em sua filha. 

— Que alívio. — disse Kanako com alegria — Eu me diverti muito com a Haruka-chan, mas me senti péssima sabendo que você deve ter ficado muito preocupado. Tenho me sentido bastante culpada por isso.

— Haha, não se preocupe com isso. Minha esposa e eu somos adultos, conseguimos manter contato, então não entramos em pânico nem nada. Mesmo assim… Você e Haruka ficaram tão próximas em apenas uma noite?

— Ah, sim! — Kanako respondeu com entusiasmo — Ela é tão linda, gentil e atenciosa... Não consigo nem descrever como ela é maravilhosa! Quem me dera ter uma irmã mais velha como ela!

— Sim, sim, exatamente! — Tokimune-san sorriu radiante — Minha filha é realmente especial, não é?!

Kanako continuou a encher Haruka de elogios que, conhecendo-a, provavelmente eram sinceros, e Tokimune-san, completamente encantado, concordava com a cabeça ansiosamente. 

— P-pare com isso, Kanako-chan… — Haruka gaguejou, com o rosto vermelho como um tomate — Você está me deixando envergonhada. Pai, por favor...

Haruka, sobrecarregada pelos elogios, se contorcia diante de tanta atenção.

— Mas é verdade! — disse Kanako com convicção— Ontem, a Haruka-chan e eu passamos o dia inteiro juntas, nos divertindo muito!

— Hm… — Tokimune-san ergueu as sobrancelhas — O dia inteiro?

— Com certeza! — respondeu Kanako — Só nós duas e até tomamos banho juntas e conversamos na cama. Foi como uma festa do pijama! Ficamos juntas o tempo todo!

Hã? Kanako, você… Eu estava me perguntando por que você estava conversando com o Tokimune-san, mas… espere… isso é uma tábua de salvação para mim? 

— Hmm, entendo... Se vocês duas ficaram juntas o tempo todo, então não há como você ter estado com o Niihama-kun. Peço desculpas pela minha suspeita.

Sim! A suspeita se foi!

Graças ao testemunho de uma garota do ensino fundamental pura e educada, mesmo que seja apenas uma encenação, o Tokimune-san acreditou completamente! As mulheres são realmente assustadoras às vezes. 

Kanako me lançou um sorriso malicioso, sua expressão dizendo claramente “Você me deve uma grande” e, honestamente, não posso negar.

Ela realmente me salvou lá atrás. 

— Está convencido agora, Tokimune-san? Não sou o tipo de cara que usaria uma tempestade como desculpa para fazer algo suspeito.

— Hum... Nunca achei que você tivesse más intenções. Só queria garantir que nada inapropriado acontecesse. Mas tudo bem, vou confiar em você. Talvez eu estivesse sendo um pouco superprotetora na frente da sua irmã.

Ele é sempre perspicaz o suficiente para me fazer suar de nervosismo, mas de alguma forma consegui sobreviver. Ainda assim, chamar isso de “um pouco superprotetor” parecia um eufemismo enorme. 

— Pai! O que você tem dito ao Niihama-kun? Ele tem sido nada além de gentil comigo. Pare de ser rude!

— N-não, eu só estava... perguntando sobre a sua festa do pijama! B-bem, então, vamos?

Sob o olhar severo da filha, Tokimune-san rapidamente se retirou para o carro. Parece que ele não tem resistência quando se trata de Haruka ou da mãe dela... 

— Desculpe pelo meu pai, mais uma vez. Mas sim, está na hora de irmos embora.

— É, é uma pena que vocês já estejam indo embora... Bem, até mais.

— Haruka-chan, venha nos visitar de novo em breve! — Kanako chamou alegremente. 

— Claro. Muito obrigada a vocês dois por tudo. Por favor, transmitam meus agradecimentos à Mika-san também.

Quando ela se virou em direção ao carro, hesitei por um momento, depois falei. 

— Da próxima vez, vou convidá-la de verdade... Vamos aproveitar ao máximo este verão juntas.

Haruka piscou, surpresa, depois sorriu calorosamente.

— Adoraria.

Depois de fazer uma reverência educada, Haruka-san entrou no carro. Com a festa do pijama oficialmente chegando ao fim, não pude deixar de me sentir um pouco solitária. 

Dito isso, criei algumas lembranças maravilhosas com Shijoin, e conseguimos evitar a ira de Tokimune-san. Se isso fosse um jogo, diria que alcançamos uma vitória perfeita. 

— Niihama-kun!

Virei-me e vi Haruka-san inclinada para fora da janela do carro, com o cabelo refletindo a luz. 

— Nem sei como te agradecer! Você fez tanto por mim. Eu me diverti muito!

Aproveitando o sol de verão, Shijoin-san virou-se para nós com um sorriso radiante. 

— E também… — ela começou, depois hesitou por um momento. Shijoin-san, que até então era a própria imagem da inocência infantil, de repente parecia mais velha, com um toque de timidez colorindo sua expressão enquanto continuava — Como prometido, estarei esperando pelo seu convite, Niihama-kun! Minha agenda está totalmente livre, e estou realmente ansiosa por isso!

Espere... O quê!?

Suas palavras me atingiram como um raio. De repente, percebi como Shijoin-san havia interpretado minhas palavras da noite anterior. Eu tinha dito a ela que queria convidá-la para minha casa de verdade da próxima vez, mas, pensando bem, especialmente com a frase “vamos aproveitar ao máximo este verão juntos” acrescentada, definitivamente soou como se eu estivesse planejando um encontro de verão. 

Meu rosto ficou vermelho. Corrigi-la agora seria desastroso para qualquer possível progresso romântico. Então, engoli meu constrangimento e respondi:

— É, entendi! Vou me certificar de te convidar como deve ser, então fica ansiosa!

Kanako, ao meu lado, pareceu surpresa com meu tom confiante. E então— 

— Heh heh… Ei, Niihama-kun? Por acaso ouvi uma certa… voz suspeita sugerindo que você está planejando levar minha filha para algum lugar?

A janela do lado do passageiro se abriu, revelando um Tokimune-san carrancudo, com a têmpora tremendo. Isso era de se esperar, mas agora não havia mais volta! 

— Ah, qual é, não é como se eu estivesse convidando-a para alguma festa universitária duvidosa! Dá um tempo, tá bom?

— Você está insistindo!? Seu pirralho insolente! Parece que ainda precisamos ter uma conversa! E-ei, Natsukizaki! Não ligue o carro!

— Haha, ora, ora, Tokimune-sama. Você não deveria interferir tanto com os jovens. Além disso, precisamos levar o rosto alegre da jovem para sua mãe o mais rápido possível.

Natsukizaki-san! 

— O quê!? Você também!? Todo mundo nesta casa fica do lado da Akiko e desse garoto? Isso é injusto! Não tem ninguém aqui que entenda o desabafo de um pai!? Ninguém mesmo!?

Com o Tokimune-san ainda furioso a bordo, o carro começou a andar. Vi o Natsukizaki-san, o motorista, me fazendo um discreto sinal de positivo com o polegar. 

Ah, obrigado, Natsukizaki-san! 

Parecia que eu tinha a Akiko-san do meu lado e, de qualquer forma, eu estava salvo! 

— Aniki, olha, olha! A Haruka-chan está acenando para nós. — disse Kanako. 

Virei-me e vi a Shijoin-san acenando entusiasticamente pela janela traseira do carro, com um olhar curioso voltado para o pai, que estava nervoso. Acenamos de volta com o mesmo entusiasmo. 

Parecia que estávamos nos despedindo de um parente próximo após uma longa ausência ou de um amigo querido após um reencontro precioso, com o entendimento mútuo de que a despedida era agridoce. 

A festa do pijama que parecia um sonho, algo inimaginável na minha vida anterior, havia chegado ao fim.

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