Volume 3
Capítulo 9: Festa pela madrugada
A chuva não dava trégua. Parecia estranhamente familiar, como um eco da minha vida passada, embora minhas férias de verão naquela época fossem uma névoa difusa de diversões dentro de casa. Eu ficava grudado em romances leves e videogames, completamente alheio ao mundo lá fora. Nem mesmo um dilúvio digno de Noé teria chamado minha atenção.
Espere... não teve aquela vez? A vez em que meu futon ficou encharcado?
O incidente humilhante do “Ahn” durante o jantar acabou sendo apenas o começo de uma noite caótica. Depois que a família Niihama se acomodou para dormir, voltei para o meu quarto e encontrei um desastre total. Meu futon estava encharcado e uma pequena poça se formou onde a água pingava constantemente do teto. Um caso clássico de vazamento no telhado.
Kanako, naturalmente, achou tudo hilário.
— Ahahaha! Aniki, você tem a pior sorte do mundo! A Haruka-chan vai dormir no meu quarto hoje à noite. Se você estiver se sentindo solitário, pode se juntar a nós!
Shijoin-san imediatamente concordou com um sorriso alegre
— Parece uma ótima ideia! Não me importo nem um pouco!
De jeito nenhum! Nem pensar!
Dormir no mesmo quarto que ela era impossível. Por mais casual que ela parecesse, não havia como eu sobreviver à noite e foi assim que acabei encalhado no sofá da sala.
No final não dormir nada bem….
O brilho laranja fraco do abajur iluminava minhas idas e vindas inquietas na cama. O motivo era óbvio. Só de saber que Shijoin-san estava sob o mesmo teto já era o suficiente para fazer meu coração disparar.
Hoje foi demais! Cozinhar juntos, ser alimentado por ela na frente da minha família... e vê-la acidentalmente de calcinha!
O dia passou num borrão, sem deixar tempo para processar nada disso. Mas agora, sozinho com meus pensamentos, minha mente não parava de reviver tudo, especialmente aquele momento no banheiro.
Sua pele impecável e suas curvas sedutoras criavam uma silhueta impossível de ignorar. Embora sua roupa íntima fosse recatada, seus seios eram fartos e inegavelmente cativantes.
E agora, Shijoin-san estava diante de mim, segurando minha camisa firmemente contra o peito. Suas bochechas estavam coradas, e sua expressão era uma mistura de constrangimento e algo que eu não conseguia identificar.
Seu rosto é absolutamente deslumbrante. Sua silhueta, impecável. Como alguém pode ser tão bonita? E ela é tão gentil. Não é de se admirar que mamãe e Kanako tenham se afeiçoado a ela imediatamente.
Depois do jantar, mamãe começou a recolher os pratos, mas Shijoin-san deu um passo à frente com um sorriso alegre. “Oh, por favor, deixe-me ajudar, mamãe!”, disse ela calorosamente.
Minha mãe piscou diante do inesperado “Mãe”, mas a sinceridade na voz da Shijoin-san rapidamente derreteu qualquer hesitação. Em pouco tempo, as duas estavam conversando e rindo enquanto trabalhavam lado a lado, os pratos momentaneamente esquecidos. Minha mãe parecia tão feliz, como se tivesse acabado de encontrar a filha que nunca soube que estava perdendo.
Isso é ruim. Não consigo parar de pensar nela. Ela tomou conta dos meus pensamentos. Não vou conseguir dormir hoje à noite.
Desistindo de dormir, levantei-me do sofá e fui para a cozinha, decidido a preparar um chá. Optando pela chaleira elétrica em vez do fogão, tomei cuidado para não fazer barulho. Logo, o aroma reconfortante do Darjeeling encheu o ar enquanto o vapor subia da chaleira, acalmando minha mente inquieta.
Fui na ponta dos pés até a cozinha, tentando não acordar ninguém. A última coisa de que eu precisava era...
— Hm… Niihama-kun… você ainda está acordado?
— Hã? Shijoin-san!?
A voz dela me assustou no meio do pensamento. Virei-me e a vi parada na porta. Ela deveria estar dormindo no quarto da Kanako.
O que ela está fazendo aqui tão tarde?
— Hum… Aconteceu alguma coisa? Se você está procurando o banheiro, é no fim do corredor...
— Ah, não. Eu estava dormindo profundamente depois de conversar com a Kanako-chan, mas acordei há cerca de uma hora e não consegui voltar a dormir. Acho que é porque não tenho me exercitado muito ultimamente, já que estamos nas férias de verão.
Lembrei-me do que tinha acontecido mais cedo. Ela tinha corrido na chuva, mas, aparentemente, nem mesmo isso a tinha cansado. A energia ilimitada da juventude nunca deixava de me surpreender, comparada ao corpo cansado que eu costumava ter.
— Tentei voltar a dormir, mas ouvi barulhos vindos da cozinha e fiquei curiosa... E você, Niihama-kun? Por que está acordado?
— Ah, hum, eu também. — murmurei, tentando parecer casual — Não tem aula agora, então não é como se eu estivesse me cansando ou algo assim.
Claro que isso não era toda a verdade. Admitir que ela era a razão pela qual eu não conseguia dormir, que a presença dela consumia meus pensamentos e me deixava inquieto, era impossível. Era mais fácil dar uma desculpa simples e deixei escapar a primeira coisa que me veio à cabeça antes que pudesse me conter.
— Ah, hm, eu estava prestes a fazer um chá. Se você não consegue dormir, quer um pouco? Não é nada sofisticado, só folhas de chá baratas.
Parte de mim estava genuinamente preocupado por ela estar bem acordada numa casa desconhecida.
Mas, se fosse honesto comigo mesmo… eu só queria passar mais tempo com ela.
O dia tinha sido preenchido pela presença dela e, agora, cada pensamento parecia girar em torno dela. Meus sentimentos tinham se tornado tão intensos que o simples desejo de conversar com ela, de compartilhar essa noite tranquila e encharcada pela chuva, me dominava.
— Sério? — ela perguntou com um pequeno sorriso — Tem certeza? Nesse caso, adoraria um pouco! Estava me sentindo um pouco perdida e não conseguia dormir…
Sua expressão gentil e radiante despertou algo profundo dentro de mim. Meus sentimentos, já transbordando, ameaçavam se derramar.
— C-claro… Só um momento.
Na esperança de que a luz fraca escondesse minhas bochechas em brasa, retirei-me para a cozinha e servi duas xícaras de chá. Felizmente, eu tinha preparado um pouco a mais mais cedo, justamente para momentos como este.
— Aqui está. — disse eu, voltando para a sala com a bandeja na mão.
Mas a cena que me recebeu fez com que eu parasse no meio do caminho. Quando eu disse para ela esperar, eu queria dizer na mesa de jantar. Em vez disso, ela estava sentada no sofá, minha cama improvisada.
— Uau, muito obrigada! — disse ela com uma risada — Hehe, tomar chá no meio da noite dá uma sensação de ser adulto, não é?
— S-sim… — consegui dizer, completamente desorientado.
Seu sorriso alegre me pegou de surpresa por um momento. Coloquei o chá sobre a mesinha baixa, com as mãos um pouco trêmulas
— amos lá, Niihama-kun, sente-se aqui!
Ela disse dando um tapinha na almofada ao seu lado. Engoli em seco. Tinha sido minha ideia tomarmos chá juntos, mas isso…
Isso é muito íntimo!
Não eram apenas as palavras dela, mas seu calor e até seu cheiro. Tudo parecia que iria me dominar.
Será que consigo lidar com isso? Se eu me sentar ao lado dela agora, com minha cabeça já girando, não vou simplesmente… explodir?
Mas não havia como voltar atrás. Respirando fundo, sentei-me, deixando um espaço cuidadoso entre nós. Até mesmo o menor movimento parecia que poderia me levar ao limite.
Ao me acomodar ao lado dela, a luz fraca que antes suavizava suas feições agora parecia iluminar Shijoin-san com uma clareza surpreendente.
Ela estava usando o pijama que Kanako havia escolhido para ela.
“Não tem como as roupas da mamãe ou as minhas servirem na Haruka-chan. Acho que não temos escolha!”
A escolha de Kanako, embora perfeitamente prática para dormir — uma camiseta branca simples e shorts azul-marinho —, conferia a Shijoin-san uma aura completamente diferente de seu uniforme escolar habitual. Havia nela um charme descontraído, quase brincalhão, que achei inegavelmente atraente.
Ainda assim, estar tão perto é perigoso. Mesmo com o ar-condicionado ligado, sinto como se estivesse pegando fogo.
Uma fragrância delicada e feminina emanava dela, causando-me um arrepio na espinha. Suas pernas lisas e pálidas, nuas sob os shorts recatados, eram incrivelmente longas e impossíveis de ignorar. A visão era hipnotizante. Não, inebriante. E, de alguma forma, o vislumbre de seus pés descalços só intensificava aquele encanto silencioso e perigoso.
— Bem, então… — disse ela, pegando a xícara — vou tomar um gole.
Alheia ao meu turbilhão interior, ela soprou suavemente no chá e tomou um pequeno e delicado gole.
— Ahh... delicioso. Isso é tão calmante.
— S-sério? Que bom. — consegui dizer, tomando um gole da minha própria caneca e lutando para suprimir os pensamentos adolescentes que corriam desenfreados pela minha mente.
Era apenas um Darjeeling comum, nada de especial. Mas, de alguma forma, naquele ambiente, tarde da noite, sozinho com ela, o sabor parecia extraordinário. Acalmava não apenas meus sentidos, mas minha alma.
— Sabe, — disse Shijoin-san suavemente — hoje foi muito divertido. Sua mãe é tão gentil, e Kanako-chan é absolutamente adorável...
— Obrigado. — respondi — Sinceramente, estou aliviado. A Kanako pode ser um pouco exagerada às vezes, então eu estava preocupada que ela pudesse estar incomodando você.
— De jeito nenhum! Ela é tão encantadora que, na verdade, estou com um pouco de inveja. Gostaria de ter uma irmãzinha como ela.
— S-sério? — perguntei, piscando de surpresa.
Sabendo da tendência da Kanako de invadir o espaço pessoal, fiquei preocupada que ela pudesse ter exagerado com a Haruka.
— Sim, de verdade! — ela insistiu — Estou me divertindo tanto! É a primeira vez que durmo na casa de um amigo e estou tão animada que acho que não vou conseguir dormir!
Enquanto falava, ela se virou para mim e nossos olhos se encontraram. Estávamos tão perto que nossos rostos quase se tocavam. Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ela podia ouvi-lo.
— É por isso… — ela continuou, com a voz pouco acima de um sussurro — É por isso que me sinto um pouco triste por esta noite estar chegando ao fim. Gostaria que pudesse durar só mais um pouquinho.
Suas palavras, tingidas de um desejo silencioso, fizeram com que o momento parecesse surreal. Sentado ao lado dela, preso nesse breve momento de intimidade, percebi que estava ecoando seus pensamentos.
Com as bochechas coradas pelo calor do chá, Shijoin-san sorriu gentilmente. Ela acabara de confessar o quanto tinha gostado do dia, tanto que já se sentia relutante em partir.
— Para ser sincero, — acabei admitindo — sinto o mesmo.
— Hã?
— Nunca imaginei passar um dia assim com você, Shijoin-san. — continuei, as palavras saindo sem hesitação — Cozinhar juntos, conversar... foi muito divertido. Sinceramente, meu coração bateu loucamente o dia todo.
Talvez fosse a intimidade tranquila do momento, com Shijoin-san sentada bem ao meu lado tão tarde da noite, ou talvez o calor remanescente do verão tivesse solto minha língua. Fosse qual fosse o motivo, as palavras escaparam antes que eu pudesse repensá-las.
— Gostaria que você não tivesse que partir tão cedo — sussurrei, minha voz tingida de uma tristeza silenciosa.
Seus olhos se arregalaram levemente, e então me dei conta. O que eu acabara de dizer era muito mais revelador do que eu pretendia. Quando ela expressou sua tristeza, estava se referindo a deixar toda a família Niihama. Minha tristeza, no entanto, era diferente. Eu não queria que nosso tempo juntos acabasse.
— O-obrigada… — ela gaguejou, com o rubor se intensificando.
— Ah, não... hm, é… — gaguejei, igualmente nervoso, e então soltei algo completamente sem sentido.
Tomei um longo gole do meu chá, na esperança de recuperar a compostura. Mesmo sem açúcar, ele tinha um gosto estranhamente doce.
— A chuva ainda não parou, hein? — eu disse, principalmente para quebrar o silêncio.
— Ah, é verdade. — ela respondeu — Mas a previsão dizia que deveria parar pela manhã...
Pela primeira vez, nossa conversa se transformou em silêncio. Com alguém tão alegre e animada quanto a Shijoin-san, e considerando o quanto eu queria conversar com ela, normalmente nunca havia um momento de pausa. Mas agora, nenhum de nós parecia ter pressa em falar. Em vez disso, simplesmente ficamos sentados ali, deixando o silêncio se instalar entre nós, como se reconheçássemos silenciosamente o momento.
É estranho… mas, de alguma forma, não parece nada constrangedor.
Com chefes ou colegas mais experientes em viagens de negócios, os silêncios sempre me enchiam de pânico e de uma necessidade desesperada de preencher o vazio. Desta vez, não havia essa pressão.
Lá fora, a chuva continuava caindo em um ritmo constante, um suave pano de fundo para o momento de silêncio que compartilhávamos. Os únicos sons eram o tilintar ocasional de nossas xícaras e o suave tamborilar das gotas de chuva, criando uma atmosfera quase sobrenatural.
O tempo parecia desacelerar, o momento envolto em uma quietude tranquila. Enquanto tomava meu chá, um pensamento melancólico passou pela minha mente.
Seria bom se Shijoin-san pudesse ficar amanhã também...
Mas então, a realidade se impôs. Tokimune-san nunca permitiria isso, de jeito nenhum.
— Bem, — eu disse, com um tom de pesar na voz — por mais que eu adorasse que você ficasse, você provavelmente deveria voltar para casa. Posso imaginar o que Tokimune-san está pensando agora.
— Isso é... Hehe, você provavelmente está certa. — respondeu Shijoin-san com uma risada suave — Meu pai sempre foi um pouco superprotetor. Ele provavelmente ligará logo pela manhã.
Sinceramente, eu não ficaria surpreso se o pai dela, o próprio presidente da empresa, aparecesse em uma limusine para buscá-la, gritando “É melhor você não ter feito nada indecente com minha filha, ouviu?” Talvez fosse melhor ficar calado sobre o quase-acidente com ela de calcinha e todo o incidente do “Diga ahn”...
— Você estava elogiando minha família há pouco, — eu disse, levando a conversa para águas mais seguras — mas Akiko-san e Tokimune-san também são pais maravilhosos. Dá para ver claramente o quanto eles te amam.
Ao contrário das famílias frias e distantes frequentemente retratadas em dramas e romances sobre os ricos, os pais dela eram genuinamente calorosos e atenciosos. Não era surpresa, considerando que criaram alguém tão gentil e compassiva quanto Shijoin-san.
Dito isso, Tokimune-san provavelmente poderia moderar um pouco o jeito de pai superprotetor.
— Hehe, obrigada. — disse ela com um pequeno sorriso — Na verdade, eu realmente admiro meus pais...
— Ah? De que maneira?
— Bem, lembra-se daquelas redações que costumávamos escrever no ensino fundamental? Sobre nossos sonhos para o futuro?
— Ah, sim — respondi, com uma vaga lembrança surgindo.
Era um ritual de passagem da infância, uma oportunidade de colocar suas esperanças e sonhos no papel. Uma estrela do esporte, um astronauta… as crianças rabiscavam suas aspirações inocentes, pintando imagens vívidas dos futuros que imaginavam.
O que eu escrevi naquela época?
Por mais que tentasse, não conseguia me lembrar. Talvez as duras realidades da vida tivessem enterrado essa memória bem no fundo de mim. Que tipo de futuro aquela versão mais jovem de mim havia imaginado?
— O meu era um pouco clichê, — confessou Shijoin-san, com um tom de constrangimento na voz — mas... Meu sonho era me tornar mãe. E, bem... isso não mudou.
Ela baixou o olhar timidamente, como se não tivesse certeza de como eu reagiria.
— Sempre admirei meus pais. — ela continuou — Eles me mostraram como é a verdadeira felicidade. É por isso que, embora eu queira experimentar trabalhar, meu maior sonho é construir minha própria família feliz.
— É-É mesmo? — perguntei, surpreso com sua franqueza.
Apesar de sua beleza e charme inegáveis, Shijoin-san nunca parecera particularmente focada no romance. No entanto, ao falar sobre construir uma família, havia um profundo anseio em sua voz, como se fosse um sonho que ela guardava no fundo do coração, algo muito mais significativo do que um romance passageiro.
— Sim — disse ela suavemente, com uma expressão terna e sincera — Como muitas garotas, eu só quero ser uma noiva comum. Ter filhos, preparar refeições para minha família. Esse tipo de felicidade simples e cotidiana é tudo o que sempre desejei.
Shijoin-san, com sua linhagem nobre, riqueza e beleza impressionante, falou de um sonho simples e sincero com um sorriso gentil.
— Não quero nada extraordinário. — confessou ela suavemente — Apenas o calor de uma família.
Era um desejo tão comum, mas havia algo inegavelmente belo e puro nele. E eu sabia, porque na minha vida passada, aquele sonho havia sido cruelmente destruído.
— Hã!? Niihama, você está chorando!?
— Ah, não... Só engasguei com um pouco de chá quente...
Lutei contra as lágrimas que ameaçavam cair, tentando desesperadamente manter a compostura. Mas por mais que eu quisesse, as emoções agonizantes que surgiam dentro de mim se recusavam a ser reprimidas.
É um sonho tão simples... Com sua gentileza e charme, ela poderia ter construído uma família maravilhosa... Então, por quê?
O sonho inocente de Shijoin havia sido destruído pela malícia insidiosa que se escondia na sociedade. O bullying implacável que ela suportou a levou ao desespero, levando-a, por fim, a tirar a própria vida. A ideia da dor que seus pais, Akiko-san e Tokimune-san, devem ter sofrido era insuportável.
Por que as coisas tiveram que acabar assim? Para ela... e para mim?
Nós duas simplesmente tentávamos viver nossas vidas. Admito que cometi erros. Minha própria fraqueza me impediu de mudar minha situação, mas eu ainda assim tentei, à minha maneira.
No entanto, pessoas cruéis e egoístas nos destruíram, roubando nossos sonhos, nosso futuro... tudo.
Desta vez, será diferente. Recebi outra chance. Estou aqui para recuperar minha vida, mas, mais importante, para proteger Shijoin-san. Essa é a promessa que fiz a mim mesmo.
— Shijoin-san, — disse com firmeza — você seria uma mãe incrível. Não tenho dúvidas.
— Hã!?
— Você é linda, gentil e radiante, assim como o sol. Você é uma cozinheira incrível, melhor do que a maioria, e tem todas as qualidades que realmente importam. Se alguém como você não consegue encontrar a felicidade, então há algo muito errado com este mundo.
— O quê!? N-N-Niihama!?
Minhas palavras sinceras, aliadas à intensidade do meu olhar, fizeram Shijoin-san corar e ficar nervosa.
Olhando para trás, percebo que não estava pensando com clareza. As lembranças do sofrimento de Shijoin-san na minha vida passada me dominaram. A raiva pela injustiça, o desejo desesperado de desafiar o destino, tudo isso veio à tona.
— Então não se preocupe. Vou proteger esse sonho e a sua felicidade. Juro que vou fazer você feliz, Shijoin-san!
— Eeh!?
Minha declaração repentina pareceu paralisar Shijoin-san no lugar, seus olhos se arregalando de surpresa. Um rubor intenso se espalhou por suas bochechas enquanto ela gaguejava, claramente nervosa.
Hã!?
Só então percebi o peso do que acabara de dizer. Embora eu frequentemente sonhasse acordado com romances, minhas palavras tinham surgido de um desejo feroz de proteger Shijoin-san do destino trágico que eu sabia que a aguardava. No entanto, minhas verdadeiras intenções se perderam na tradução. Para qualquer outra pessoa, deve ter soado como uma declaração de amor apaixonada.
— N-não, o que eu quis dizer foi… — gaguejei, tentando me retratar — Eu só quis dizer que seu sonho com certeza vai se tornar realidade e eu vou te apoiar em cada passo do caminho!”
— S-sim... claro. Foi só que... foi um pouco dramático, como algo de um programa de TV. Me pegou de surpresa...
Nós dois desviamos o olhar, com os rostos corados, enquanto o ar do verão parecia ficar mais pesado. Shijoin-san não costumava reagir tão intensamente a gestos românticos, mas aquela noite parecia diferente. Talvez fosse o encanto da noite de verão, suavizando sua habitual compostura e revelando um toque de vulnerabilidade.
— Mesmo assim… — ela murmurou, com o leve rubor ainda pairando em suas bochechas — fiquei muito feliz em ouvir você dizer isso. Você sempre foi tão gentil comigo, Niihama-kun...
Sua voz, suave e cheia de uma alegria tranquila, ressoou profundamente dentro de mim.
— Ah... gostaria que este momento pudesse durar para sempre. — ela suspirou, com um toque de melancolia em seu tom de voz — Adoro momentos como este.
Suas palavras, tingidas de uma doçura amarga que me lembrava o fim de um festival, eram incrivelmente cativantes. Meu coração se encheu de calor. Eu queria responder à sua sinceridade, para tranquilizá-la de que sentia o mesmo.
— Hm... Vou te mandar um e-mail e ligar para você também. E, hm…
Levei um tempo para reunir coragem antes de continuar. Mas me recusei a desistir. A Tokimune-san poderia ficar furiosa mais tarde, mas eu não podia deixar que o medo se interpusesse no caminho do amor.
— Foi muito bom ter você aqui, mesmo que tenha sido uma surpresa. Da próxima vez, vou me certificar de convidá-la como deve ser.
Meu único arrependimento em relação à visita da Shijoin-san era que não tinha sido ideia minha. Eu tinha ido à casa dela, então parecia certo convidá-la para vir aqui em troca. No entanto, sendo irremediavelmente inexperiente, eu me agarrava à noção ultrapassada de que convidar alguém para vir à sua casa era algo que só se fazia depois de se tornar um casal.
É claro que, em circunstâncias normais, seria impossível que ela ficasse para dormir. Até mesmo uma simples visita significava passar pelo pai dela, um CEO superprotetor, o que não era tarefa fácil.
— Estou ansiosa para passar mais tempo com você neste verão.
— É! Eu também!
Minhas palavras provocaram um sorriso radiante no rosto de Shijoin-san, mais brilhante do que eu poderia imaginar.

Aquele sorriso, brilhante e cheio de vida, como um girassol desabrochando no auge do verão, era algo que jurei valorizar e proteger.
***
Uma onda de tranquilidade tomou conta de mim, levando-me a um estado de sonho. Algo quente e macio pressionava-se contra mim, irradiando uma presença reconfortante. Um aroma doce e inebriante enchia o ar, dissolvendo minhas preocupações e deixando para trás nada além de pura felicidade.
[Clique, clique!]
Afundei-me num sono feliz, envolvida por uma profunda sensação de paz e segurança. Toda a tensão se dissipou, deixando-me completamente à vontade.
[Clique, clique, clique!]
— Ugh... huh?
O barulho irritante rompeu o silêncio tranquilo, trazendo-me de volta à consciência. A luz do sol entrava pela janela enquanto eu piscava para um teto desconhecido.
Huh? Ah, certo... Eu adormeci no sofá...
O chilrear dos pardais lá fora era um som bem-vindo, mas quase foi abafado pelo clique mecânico persistente.
Que barulho é ess? Espera aí, Kanako?!
Atordoado e desorientado, virei a cabeça e vi minha irmãzinha ali, vestindo camiseta e jeans. Havia algo nela que estava... estranho. Suas bochechas estavam coradas, com um sorriso malicioso estampado no rosto. Ela murmurava animadamente para si mesma coisas como “Oooh, isso é incrível!”, enquanto apontava seu celular flip diretamente para mim, tirando foto atrás de foto.
Então essa era a fonte do clique, a câmera do celular dela.
— Ugh... o que você está fazendo?
— Ah, parece que te acordei. Bom dia, Onii-chan!
A voz dela praticamente ricocheteava nas paredes. Eu estava grogue e desorientado, lutando para acompanhar a energia invulgarmente animada dela.
Por que ela estava tão animada tão cedo pela manhã?
— Fufufu, o que estou fazendo? Não é óbvio? Estou tirando fotos! Não tem como eu perder essa oportunidade de ouro!
— Hã? Oportunidade de ouro? Do que você está faland-Espera, o que!?
À medida que minha mente confusa lentamente clareava, percebi um calor suave pressionado contra meu peito. Não era apenas quente; era incrivelmente macio, suave como seda, com um aroma doce e inebriante que fez meu coração acelerar. Então, percebi.
Shijoin-san estava aninhada contra mim, dormindo profundamente, sua respiração subindo e descendo em um ritmo suave. Estávamos compartilhando uma única toalha, nossos corpos bem próximos.
— O-o-o-o-o-... o que... o quêêêê!?
Os resquícios do sono desapareceram num instante, substituídos por um calor ardente que subiu pelo meu pescoço e fez meu rosto corar.
O que está acontecendo!? Shijoin-san dormiu ao meu lado assim a noite toda!?
O pânico tomou conta de mim, e tentei desesperadamente me afastar. Mas Shijoin-san tinha a cabeça apoiada no meu peito, tornando impossível me mover sem acordá-la.
Seu calor, o peso suave de seu corpo contra o meu, pareciam reais demais, quase avassaladores. Meu coração batia tão forte que achei que fosse explodir.
Mesmo assim… o rosto adormecido de Shijoin-san é fofo demais…
Não conseguia desviar o olhar.
— Fufufu... Você se divertiu ontem à noite, não foi?
— Não foi nada disso!
A observação sarcástica da minha irmã, citando uma famosa frase de RPG sobre o herói dividindo uma pousada com uma princesa, me tirou do meu torpor. Olhei para ela com raiva.
— Uau, fiquei surpresa quando a Haruka-chan não estava no quarto dela hoje de manhã, mas quem diria que ela estava dormindo com você? Isso é tão emocionante! Vou colocar isso como papel de parede do meu celular!
— Não ouse usar uma expressão como “dormindo juntos”! E nada de papéis de parede, sério, pare com isso!
— Hmm... mmm...
A agitação pareceu acordar Shijoin-san. Seus olhos se abriram, e a primeira coisa que ela viu foi... meu rosto, a poucos centímetros do dela.
— Shijoin-san! Por favor, espere! Não é o que parece, juro que não fiz nada estranho!
— Niihama-kun? Por que você está no meu quarto? Ah, já entendi. Devo estar sonhando.
— Hã?— eu pisquei — Shijoin-san? Você está... ainda meio adormecida?
— Ah? A Haruka-chan acordou? voz de Kanako veio de trás de mim.
— Ahh, sim, algo assim. Espera, o quê!?
— Ehehe... O rosto do Niihama-kun é tão fofinho…
— E-espera, para! Não puxe minhas bochechas assim!
Shijoin-san sorriu de forma brincalhona enquanto estendia a mão e agarrava minhas bochechas, apertando-as e puxando-as como uma criança brincando com um brinquedo novo.
Ela é sempre tão infantil quando está meio adormecida? Está agindo como uma criança pequena!
Na esperança de encontrar uma tábua de salvação, olhei para Kanako, mas minha irmãzinha era inútil, morrendo de rir.
— Hahahahaha! A Haruka-chan parece uma criança da pré-escola! Vocês dois vão me fazer rir até morrer! Ahahaha... tosse, ah, não consigo parar! — Kanako caiu no chão, segurando a barriga.
Aquela estudante do ensino fundamental inútil! Sempre pronta para assistir ao caos, mas nunca por perto quando realmente importa!
— T-tudo bem, p-puf, a-acorde, Shijoin-shwan! — eu balbuciei, minhas palavras saíram distorcidas enquanto minhas bochechas eram esticadas e apertadas.
— Hehehe... Você é um menino, mas suas bochechas são tão macias e fofinhas...
Se ela soubesse que eram os dedos sedosos dela que as faziam parecer assim! A sensação era estranhamente perturbadora.
— Hã? Mas... este não é um quarto que eu conheço... mesmo sendo um sonho? — Shijoin-san finalmente pareceu perceber o que estava ao seu redor.
Seus olhos enevoados se focaram enquanto ela fitava as mãos em meu rosto por um longo momento. Então, um rubor vibrante tomou conta de seu belo rosto.
— A-a-a-a-a.!? M-m-m-me desculpe.! O-o que eu estava fazendo?! Eu estava completamente fora de mim!
— A-ah, não, tudo bem agora que você acordou...
Aliviado, recuperei minha liberdade enquanto uma Shijoin-san nervosa se afastava. Por fora, mantive a calma, mas por dentro, eu era um turbilhão de emoções. Acordar ao lado de Shijoin-san, o inesperado beliscão na bochecha... minha mente estava confusa.
— Espere... por que estamos os dois no sofá? Lembro-me de conversarmos e tomarmos chá ontem à noite, mas...
Por que ela não tinha voltado para o quarto da Kanako?
— Ah, sobre isso... Depois que conversamos, nós dois começamos a cochilar. Eu estava tão cansada que disse “Desculpe... Não consigo mais ficar acordada”, e então o Niihama-kun, meio adormecido, disse “Ah, tudo bem... então dorme aqui…”. Então, bem... eu dormi...
Que diabos!? Essas palavras realmente saíram da minha boca? Não acredito que eu estava tão cansado assim!
Pelas palavras dela, parecia que ela não se importaria de dividir a cama comigo!
— Hm... Acho que acabei me encostando em você a noite toda, Niihama-kun... Eu estava... pesada? Mesmo com o ar-condicionado ligado, não estava um pouco quente por estarmos tão próximos?
Em vez de surtar por ter acordado ao meu lado, Shijoin-san estava preocupada com o meu conforto. Claro, dividir a cama com um anjo como ela não era um incômodo, era o paraíso puro.
— Não, de jeito nenhum. — assegurei-lhe, balançando a cabeça — Se há alguém que deve se desculpar, sou eu. Mesmo estando ambos exaustos, como homem, eu não deveria ter adormecido ao seu lado daquele jeito...
Mesmo estando próximos, essa situação era diferente. Como um cavalheiro, eu deveria tê-la levado de volta para o quarto da Kanako.
— Ah? Ah, não, tudo bem. Não achei nada desagradável.
— S-sério?
Ela respondeu com tanta naturalidade, como se não fosse nada demais.
— Bem, — ela começou, com um leve sorriso nos lábios — foi um pouco impróprio, não foi? E ver os rostos um do outro assim, recém-acordados, é um pouco constrangedor...
Um rubor delicado tingiu suas bochechas, sua voz suave e vulnerável.
— Mas… tudo bem porque é você, Niihama-kun.
— Hã?
— Você é meu amigo mais próximo, e sei que é um cara realmente confiável. Então, não houve nada de desagradável nisso. Na verdade, me senti tão à vontade e dormi muito bem!
Seu sorriso era radiante enquanto falava, deixando-me sem palavras. Ela não estava dizendo que estava tudo bem apenas porque éramos amigos. Ela admitiu que era impróprio, mas se sentia segura e à vontade. Isso significava que ela não estava ignorando o fato de eu ser um rapaz; ela estava aceitando isso como parte do nosso vínculo.
— Ah! Acabei de perceber que ainda não disse a coisa mais importante, mesmo estando passando esta manhã juntos!
Alheia ao meu silêncio atônito, Shijoin-san virou-se para mim, com os olhos brilhantes.
— Bom dia, Niihama-kun!
Seu sorriso era mais radiante do que o sol da manhã. Foi o melhor “bom dia” que já ouvi.
— A-ah... Bom dia, Shijoin-san.
Retribuí sua saudação com um sorriso, meu coração transbordando de calor pela garota ao meu lado. A tempestade havia passado, deixando para trás um céu azul claro. Compartilhamos uma risada tranquila, um momento fugaz de alegria pacífica suspenso no tempo. Mais tarde, Kanako me enviou uma foto com o título nada sutil: “Pombinhos matinais”.
— Não ouse deixar ninguém mais ver isso!
Eu avisei-a, embora não pudesse deixar de salvar a foto.O rosto adormecido de Shijoin-san era simplesmente adorável demais.
Isso... isso é um segredo que eu guardarei com carinho.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios