Volume 3
Capítulo 8: Posso passar a noite aqui?
Shijoin-san conquistou com facilidade o coração da minha mãe e da Kanako, mesmo tendo acabado de conhecê-las. Mais uma vez, vi-me cativado pelo seu charme irresistível. Como diz o ditado: “Quando três mulheres se reúnem, é festa”. A sala de estar transformou-se numa animada festa do chá, repleta de risadas e conversas.
— E sabe de uma coisa? O Shinichiro-kun fez takoyaki na mesa do professor! Ele deixou a turma inteira provar! Os olhos de todo mundo quase saltaram das órbitas!
— Takoyaki na sala de aula? Ele realmente fez isso na frente de todo mundo?
A maioria das histórias da Shijoin-san girava em torno de mim, e cada uma delas deixava minha mãe completamente pasma. Do ponto de vista da minha mãe, eu posso parecer mais alegre ultimamente, mas ela provavelmente nunca imaginou que eu fosse tão extrovertido na escola.
— Ei, mãe, lembra do dia em que o Shinichiro de repente começou uma festa de takoyaki em casa? Na verdade, aquilo foi um ensaio para isso — Kanako interveio.
— Ah, eu me lembro daquele dia! Mas ele não se meteu em encrenca por fazer algo assim na escola?
— Haha, o professor percebeu imediatamente o que estava acontecendo, mas antes que ele pudesse ser repreendido, Shinichiro gritou “Fui eu o culpado! Me desculpe muuuito!”. Ele se desculpou tão profusamente que o professor não soube o que mais fazer a não ser dar uma bronca nele!
— Bem... acho que nessas situações, é melhor se desculpar exageradamente e chocá-los a ponto de pedirem perdão, em vez de tentar esconder.
Essa era uma técnica de pedido de desculpas que aperfeiçoei durante meus dias como funcionário corporativo. Naturalmente, só funcionava com pessoas razoáveis que não estivessem completamente furiosas. Ainda assim, quando combinada com a ideia japonesa de que admitir a culpa é uma virtude, provou ser surpreendentemente eficaz.
— Uau... Eu nunca percebi que meu filho tinha se tornado tão forte sem que eu notasse… — minha mãe suspirou, com um tom de exasperação na voz, mas seu sorriso estava cheio de alívio.
— Sim, Shinichiro costumava ser tão quieto, mas agora ele é tão ativo e confiável. — acrescentou Shijoin-san, seu humor alegre contribuindo para a atmosfera acolhedora.
Nem mesmo a chuva batendo nas janelas conseguia abalar a sensação de paz no quarto.
Pensando bem... todas as pessoas importantes para mim estão bem aqui comigo...
Minha mãe, que morreu jovem por causa das minhas ações na minha vida passada. Kanako, que se distanciou depois daquela perda devastadora. E Shijoin-san, que tirou a própria vida depois de suportar um assédio moral implacável no trabalho. Todas as pessoas que eu não consegui proteger naquela época estão aqui agora, sentadas juntas nesta sala de estar.
Mal consigo acreditar no que vejo... mas são mesmo elas.
Enquanto observava os três conversando alegremente, minha visão ficou embaçada. Essas eram as pessoas que eu deveria ter protegido, as pessoas que eu nem consegui alcançar. Ver seus rostos agora me encheu de um profundo arrependimento pela minha vida passada, na qual não consegui salvar ninguém.
— Ah... não percebi que estávamos conversando tanto. Já é tão tarde. Acho que devo ir embora logo.
Percebendo a hora ao olhar para o relógio, Shijoin-san se levantou como se fosse embora. Mas então:
— Kyaa!
Um relâmpago repentino iluminou a janela e, momentos depois, um trovão ressoou no ar. A chuva não estava diminuindo; só estava piorando.
— Isso não é apenas chuva normal. Tem névoa misturada com neblina também...
— Haruka-chan, você acha que consegue chegar em casa com esse tempo?
— S-Sim… Acho que vou ligar para casa e pedir que mandem um carro me buscar.
— Hmm... Mesmo quando eu estava voltando mais cedo, a viagem foi bem assustadora... Vamos verificar as informações meteorológicas na TV.
Quando a minha mãe ligou a TV da sala, a voz séria do âncora de notícias encheu o ambiente. A legenda na tela dizia “Chuva forte repentina causando engarrafamentos”.
— Atualmente, a cidade está passando por chuvas intensas, com relatos de uma falha na passagem de nível devido a um raio e vários acidentes. Isso causou graves engarrafamentos em várias áreas, sem previsão de fim. Devido à baixa visibilidade, as autoridades desaconselham qualquer deslocamento, incluindo dirigir. Além disso, ônibus e trens interromperam completamente suas operações.
Enquanto as imagens ao vivo eram transmitidas, a chuva obscurecia as ruas da cidade, envolvendo-as em uma névoa branca. Acidentes e veículos abandonados bloqueavam as estradas, enquanto os engarrafamentos se estendiam infinitamente em todas as direções para onde a câmera se movia. Alertas de evacuação rolavam pela tela, destacando áreas próximas a montanhas e rios.
Todos na sala ficaram em silêncio. A tempestade era muito pior do que qualquer um de nós poderia ter imaginado.
— Não acredito que ficou tão ruim assim… — murmurou Shijoin-san, com os olhos arregalados de surpresa — A previsão desta manhã dizia apenas que seria uma chuva fraca.
Ninguém estava preparado para que o tempo mudasse de forma tão repentina e dramática.
— A viagem de volta para casa foi um pesadelo. O trânsito estava completamente congestionado e eu mal conseguia ver a estrada. Com tempo assim, nem adianta chamar um táxi. Eles nunca conseguiriam passar. Está simplesmente muito perigoso lá fora.
— Você está certa. Com tempo assim, as estradas viram um pesadelo...
As palavras da minha mãe ecoaram meus próprios pensamentos. Não pude deixar de lembrar da política ridícula da minha antiga empresa. “É só chuva, não é um tufão!”, gritavam, recusando-se a nos deixar ficar em casa. Certa vez, cheguei completamente encharcado, mas um dos meus colegas não teve a mesma sorte. Ele sofreu um acidente no caminho e acabou no hospital com costelas quebradas. A chuva forte pode tornar a direção quase impossível; mesmo sem ventos fortes, é incrivelmente perigoso.
— O-O que vamos fazer? Isso é horrível...
Shijoin-san olhou para as ruas alagadas, o rosto pálido de preocupação. Ela morava nos subúrbios, então chegar em casa naquela noite parecia impossível. Mesmo que seu motorista enfrentasse a tempestade, levaria horas para chegar até ela.
— Mãe... Tenho uma ideia...
— Eu sei o que você está pensando — disse minha mãe, acenando com a cabeça.
Nessa situação, havia realmente apenas uma solução, independentemente de quem fosse a Shijoin-san. Normalmente, convidar uma garota como ela para minha casa teria sido impensável, mas isso era uma emergência.
— Haruka-san — comecei, sentindo-me um pouco constrangida — sei que isso pode parecer um pouco repentino, mas com a tempestade e tudo mais, gostaríamos de lhe oferecer um lugar seguro para ficar até que as coisas se acalmem. Se as estradas não estiverem seguras até esta noite, você é mais que bem-vinda para passar a noite aqui. Claro, se preferir, pode ligar primeiro para seus pais para conversar sobre isso.
[Shijoin Akiko]
Meu rosto empalideceu quando Fuyuizumi-san, nossa governanta, me disse que Haruka ainda não tinha voltado para casa. Meu marido parecia tão chocado quanto eu.
“O quê!?” ele exclamou. “Haruka não está em casa?”
“Eu-eu sei!” gritei. “E os ônibus pararam de circular!”
A chuva batia implacavelmente contra as janelas, como uma cachoeira caindo. Era impossível ver qualquer coisa lá fora — a visibilidade estava absolutamente péssima.
— A Sra. Fuyuizumi me disse que a Haruka saiu mais cedo e ainda não voltou”, expliquei, esforçando-me para manter a calma.
— Espere... o quê? Ela ainda não voltou? — perguntou o Sr. Tokimune, franzindo a testa em descrença.
Passamos a tarde inteira atolados de trabalho no escritório, completamente alheios à chuva torrencial que caía lá fora. Eu não tinha percebido o quanto a tempestade tinha piorado até voltarmos para a sala de estar.
— M-me desculpe! — Fuyuizumi-san lamentou, com lágrimas nos olhos — Passei o dia todo limpando o depósito e não percebi que a senhorita Haruka não estava em casa!
Ela fez uma reverência profunda, pedindo desculpas repetidamente. Eu havia pedido que ela ficasse de olho em Haruka, mas em uma casa tão grande, era muito fácil perder alguém de vista.
— H-Haruka! — Tokimune-san gritou de repente, a voz trêmula de pânico — Ela pode estar lá fora, assustada e sozinha! Ou pior... E se ela tiver sofrido um acidente? Tenho que ir procurá-la!
Ele disparou em direção à porta, mas eu agarrei seu braço, segurando-o.
— Tokimune-san, por favor, acalme-se! — exclamei — Você é tão calmo no trabalho, mas quando se trata da Haruka, você perde completamente a compostura!
Sinceramente, como iríamos resolver alguma coisa se ele entrasse em pânico assim?
— Precisamos manter a calma e ligar para ela. — eu disse, pegando meu celular
Antes que eu pudesse discar o número de Haruka, o telefone vibrou na minha mão. Eu congelei, com os olhos fixos no identificador de chamadas, como se ele contivesse todas as respostas de que eu precisava desesperadamente. Com a respiração trêmula e o polegar hesitante, apertei o botão de atender.
— Alô, Haruka?
— Oi, mãe! Sou eu. Desculpe por te deixar preocupada. — uma onda de alívio tomou conta de mim.
— Oh, Haruka! Eu estava tão preocupada! Você está bem?”
A voz dela estava calma e firme, nada parecida com a de alguém em meio a uma tempestade, e isso acalmou meus medos instantaneamente.
— Estou bem, minha mãe — ela me assegurou.
— Ah, graças a Deus! — Fuyuizumi-san suspirou, levando as mãos ao peito.
Tokimune-san, que estava à beira de um colapso nervoso apenas alguns instantes antes, agora parecia completamente perplexo. Era como se seu cérebro não conseguisse processar o que estava ouvindo.
— Haruka, onde você está agora? — perguntei — Espere… o quê? Você está na casa do Niihama-kun?
— Hã?
Minha voz ecoou pela sala silenciosa. Tokimune-san soltou um suspiro abafado, o rosto congelado em uma mistura de choque e confusão.
— O quê?! Ela tomou banho na casa dele?! — Tokimune-san desabou no chão, como um boneco cujos fios foram cortados — Não pode ser!
Ele gemeu, murmurando coisas sem sentido sobre banhos, claramente em estado de choque.
Ele vai precisar de um tempo para se recuperar disso.
— Com a chuva piorando, — disse Haruka ao telefone — eles se ofereceram para me deixar passar a noite lá. Vou tentar não incomodar, mas acho que devo aceitar.
— O quê?! Chegou a esse ponto?! Bem, dadas as circunstâncias... sim, provavelmente é o melhor! Só não se esqueça de se comportar da melhor maneira possível!
Isso está acontecendo tão rápido!
A chuva caía sem parar e, sinceramente, todos nós sabíamos que o Niihama-kun era um cara legal. Ficar por lá era a única coisa que fazia sentido.
Sem falar que um pouco de proximidade entre eles talvez não fosse tão ruim assim...
— Ah, e a mãe do Niihama-kun quer falar com você.
— O quê? A mãe dele
Isso é inesperado!
De repente, uma voz nervosa soou no fone.
— Alô... aqui é Mika Niihama, mãe do Shinichiro. É um prazer conhecê-la.
Eu sempre planejei conhecer os pais dele um dia, mas não exatamente assim!
— Olá! Aqui é Akiko Shijoin, mãe da Haruka. Não tenho palavras para agradecer por cuidar da minha filha e até oferecer um lugar para ela ficar! Estou muito grata!
— Ah, não, de jeito nenhum! Sua filha teve a gentileza de devolver a carteira da minha filha...
Ela parece tão gentil!
A mãe do Niihama-kun continuou, ainda parecendo nervosa:
— Normalmente, deixar uma garota dormir aqui talvez não seja apropriado, mas espero que você entenda que esta é uma emergência.
— Claro! Seu filho é um jovem maravilhoso. Sinto-me totalmente à vontade em deixar a Haruka aos seus cuidados!
Tentar levar Haruka para casa com esse tempo seria loucura. Além disso, a casa do Niihama-kun era o lugar mais seguro para ela.
E, sinceramente... um pouco de “contato” entre eles não seria o fim do mundo.
— Fufu, se a Haruka ficar um pouco grudada no Niihama-kun, por favor, perdoe-a, está bem? — brinquei.
— E-Eh?! Akiko-san, é isso mesmo que você pensa?! — exclamou a mãe do Niihama-kun, com a voz cheia de surpresa — Quero dizer, da minha perspectiva, a Haruka-chan é uma garota tão maravilhosa que, sinceramente, achei que alguém como ela estaria completamente fora do alcance do meu filho! Tinha certeza de que você desaprovaria se isso chegasse a acontecer...
— Hahaha. Pelo contrário, tenho uma ótima opinião do Niihama-kun. Meu marido pode ser um pouco superprotetor, mas eu? Estou totalmente no modo apoio! Sim... com certeza... Mm-hmm! Vou contar com você para ficar de olho neles, tá bom?
A Haruka já causou uma ótima impressão! Boa, Haruka!
Parece que ganhei mais uma apoiadora entusiasmada. As perspectivas românticas da minha filha estão melhorando e não pude deixar de sorrir.
— A Haruka pode ter algumas falhas, mas por favor, continue cuidando bem dela! Se o tempo melhorar, talvez iremos buscá-la, mas com essa chuva, ela provavelmente vai passar a noite aí.
— E-Ela vai... f-ficar... LÁ?!
Tokimune-san, ainda deitado no chão, com a alma aparentemente ausente, estremeceu ao ouvir essas palavras.
— F-F-F-Ficar lá? P-P-P-P-Passar a noite?! — ele se sentou de repente com um sobressalto e um grito apocalíptico.
Oh, não. Ele está prestes a enlouquecer.
— Eh? Que barulho foi esse?
— Ah, não precisa se preocupar, não é nada! Enfim, muito obrigada por tudo, e falo com você de novo em breve!
— Espere! Espere, Akikooooooo!!
Ignorando os gritos em pânico do meu marido, desliguei imediatamente. Se demorasse mais um pouco, toda a vizinhança teria ouvido ele.
— Por quêêê!? Por que você desligou!? Não tem como a gente deixar a Haruka dormir na casa daquele pirralho! Não tem nada a ver com dormir na casa de uma garota!
— Eu entendo. Sinceramente, normalmente eu acharia bem inapropriado uma garota do ensino médio dormir na casa de um garoto.
Se a Haruka tivesse simplesmente soltado “Vou dormir na casa do Niihama-kun”, eu teria vetado na hora. Apoiar o relacionamento deles é uma coisa, mas há limites.
— Exatamente! É isso que estou dizendo
— Mas essa situação é diferente, não é? Mesmo que quiséssemos buscá-la, é muito perigoso dirigir com esse tempo. Já é tarde, e precisamos presumir que ela vai passar a noite lá.
— Bem, mesmo que seja inevitável, essa é uma chance rara de passar a noite fora. Só espero que eles aproveitem essa oportunidade para se aproximarem um pouco mais, dentro dos limites do ensino médio, é claro.
— Ugh! É-É verdade, mas… grr… guhhhhhh! — Tokimune resmungou, lançando um olhar dramático para a chuva torrencial lá fora.
Ele sabe que estou certa, mas o coração dele simplesmente não aguenta. Pobre rapaz.
— M-Mas mesmo assim! Aquele pirralho e minha filha vão passar a noite juntos sob o mesmo teto! E se ele vir a Haruka recém-saída do banho, ficar excitado e se transformar em uma fera!? Aaaaaaaaaaaahhhhhh!
— Você percebe que isso soa bem mal vindo vindo de você, certo? Especialmente considerando que você realmente agiu de acordo com isso.
Para ser justo, éramos adultos naquela época. Ah, o amor jovem...
— Ugh… espera. Como é que a Haruka foi parar na casa dele, para começar? Não me diga… que aquele pirralho planejou isso!?
— Hã?
— Ele deve ter visto a previsão do tempo, chamado a Haruka, deixado ela se molhar de propósito e depois deixado ela usar o banho dele. Depois disso, ele a apresentou aos pais, que obviamente não poderiam deixar de gostar de um anjo como a Haruka. E graças à chuva, ele os convenceu a deixá-la passar a noite lá! E depois disso, assim que a família adormecer...
— Espera aí. Como exatamente o Niihama-kun poderia ter previsto uma chuva torrencial tão inesperada? O que ele é, um vidente? Ou um viajante do tempo?
Ele enlouqueceu completamente.
Tokimune já havia entrado em um estado de paranóia total, com a imaginação a mil.
— De jeito nenhum vou deixar aquele desgraçado se safar! Vou pegar o carro e buscá-la agora mesmo! Não me importo com o tempo que leve , vou trazer Haruka de volta para casa, custe o que custar!
— Hã!? Tokimune! O que você está dizendo!? Olhe lá fora! Está uma loucura lá fora! Fuyuizumi-san, me ajude a segurá-lo!
— S-Sim! Por favor, acalme-se, senhor! Se você bater com esse tempo, o que vai acontecer com a empresa?!
— Me solteeeee! Nenhum pai em sã consciência aceitaria que a filha passasse a noite na casa de um cara qualquer! Eu não vou permitir isso, custe o que custar!!
Apesar de ser elogiado como um “CEO gênio” e um “homem da era”, Tokimune chutava e se debatia como uma criança mimada enquanto eu o imobilizava com uma chave de braço.
Homens… sinceramente.
[Niihama Shinichiro]
— Hm… Já pedi permissão aos meus pais, então, mesmo que pareça um pouco ousado, vou aceitar sua gentil oferta de ficar aqui… M-Mas você tem certeza de que está tudo bem? — perguntou Shijoin-san, com a voz tremendo levemente enquanto se contorcia nervosamente.
— Claro! Fique à vontade e relaxe como se estivesse na sua própria casa! — respondeu minha mãe com um sorriso radiante, irradiando calor humano.
Ela claramente tinha gostado bastante da Shijoin-san, cuja personalidade e aparência eram praticamente no nível máximo de fofura. Sinceramente, ela parecia tão animada quanto uma avó cuja neta tivesse vindo visitá-la nas férias.
Mesmo assim… acho que ouvi o Tokimune-san gritando no final daquela ligação. Não, não, isso deve ter sido minha imaginação. Com certeza.
Toda essa situação era uma emergência inevitável. Até mesmo o Tokimune-san tinha que entender que eu não tinha culpa nisso. Sim. Com certeza.
Mas, falando sério… a Shijoin-san ficar na minha casa? Agora que estou realmente processando isso, é completamente insano. Droga, meu coração está começando a acelerar só de pensar nisso!
Fui eu quem insistiu com a minha mãe para deixá-la ficar. Quer dizer, era apenas bom senso como um adulto responsável, especialmente em uma emergência como essa. Eu entendia o que isso significava ou, pelo menos, achava que entendia.
Até agora…
— Ehehe… Que bom para você, Aniki! Uma festa do pijama! Um o-to-ma-ri! Isso não grita totalmente “Passem uma noite quente e cheia de paixão juntos!”? Acho que você deve um sorvete de três bolas à sua incrível irmãzinha por ter arranjado isso!
— Ei! Tira logo esse sorriso malicioso do rosto! E, embora eu possa estar grato, não se esqueça de que tudo isso começou porque você deixou cair a carteira!
Sério... Aqui estou eu, tentando manter a compostura durante essa reviravolta repentina, e, enquanto isso, minha irmã está sorrindo como se mal pudesse esperar para ver o que vai acontecer a seguir.
— De qualquer forma, mãe vai preparar algo especial para o jantar, então vamos lá, hein!?
De repente, o telefone da minha mãe tocou, interrompendo-a no meio da frase. Ela ficou tensa e soltou um gritinho, daqueles que só uma mulher de carreira surpreendida pelo trabalho consegue dar.
Ugh… Lá vem…
— Sim, aqui é Niihama. Ah, sim, está chovendo muito aqui, então todo mundo já foi para casa. Espere, o quê!? Ah, não, sim... sim. Vou começar a trabalhar nisso imediatamente e enviar por e-mail até amanhã de manhã. Sim, entendido. Boa noite.
A minha mãe desligou, com o rosto parecendo que alguém acabara de drenar toda a sua energia vital. Era exatamente como eu me sentia depois de ligações como essa nos meus dias de escritório.
Como eu imaginava. O tipo de ligação que acaba com qualquer chance de curtir uma noite tranquila.
— M-me desculpe muito… Acabei de receber uma papelada urgente de outra filial que precisa estar pronta até amanhã! Então, Shinichiro, sinto muito, muito mesmo, mas…
— Tudo bem, mãe. Eu cuido do jantar para que você possa se concentrar no trabalho.
— Sério? Você é um salvador, Shinichiro! Você tem sido tão confiável ultimamente que chega a dar medo — disse minha mãe, exibindo um sorriso de gratidão — Shijoin-san, sinto muito por deixar tudo para você tão de repente!
— Ah, não se preocupe! — Shijoin-san respondeu com um aceno alegre — Boa sorte com o trabalho!
— Obrigada! Agradeço muito. Ugh, odeio como um único telefonema pode transformar a sua casa em um escritório anexo! — com um suspiro frustrado, minha mãe desapareceu no quarto, segurando o laptop com força.
Eu entendo perfeitamente. Aquela sensação de desânimo quando o telefone toca em casa e você simplesmente sabe que são más notícias? Sim, conheço essa sensação muito bem.
— Tudo bem… — anunciei, voltando-me para Shijoin-san e minha irmã — Vou preparar o jantar, então vocês dois podem relaxar na sala e assistir um pouco de TV ou algo assim.
— Espere, você cozinha para toda a família? — os olhos de Shijoin-san se arregalaram de surpresa.
— Não todos os dias — disse eu, dando de ombros — Mas não me importo de cozinhar, e gosto de ajudar a minha mãe quando ela está ocupada. Pode ser um pouco incomum para um garoto do ensino médio, mas…
— De jeito nenhum! É incrível! Meu pai sempre diz “Com cada vez mais casais em que ambos trabalham, os dias em que os homens podiam se safar sem saber cozinhar ou fazer tarefas domésticas já se foram há muito tempo”.
Hã? O Tokimune-san está na casa dos cinquenta, mas acho que ele é surpreendentemente progressista.
— Ah, e só para você saber, eu sou estritamente do lado de comer! Não consigo nem fritar um ovo direito! — minha irmã zombou.
— Pelo menos aprenda a preparar chá sem deixar folhas dentro, tá? — rebati.
Sério. Ela está sempre se gabando de como é popular, mas quando se trata de habilidades domésticas? O tal “poder feminino” dela está basicamente no fim da linha.
— Bem, acho que algumas pessoas simplesmente nascem sem jeito para cozinhar, mesmo sendo adultas… — murmurei.
— Espere, sendo adultas? — Shijoin-san inclinou a cabeça, intrigada.
— Ah, hm, deixa pra lá. Não se preocupe com isso. — gaguejei, mudando rapidamente de assunto — De qualquer forma, vou ficar na cozinha por um tempo, então vocês duas relaxem.
Apressadamente, ignorei meu deslize sobre o futuro e fugi para a cozinha, minha zona de segurança.
Agora então… o que devo preparar?
— Hmm… não parece ter nada de especial aqui…
O ideal seria preparar algo um pouco mais impressionante para o Shijoin-san, mas como não tenho tempo para me preparar, o cardápio desta noite vai ter que ser bem simples.
— Vamos ver… quiabo com flocos de bonito, salada de pepino e wakame com atum, sopa de missô com cenoura e daikon… Ah, tem peixe-liso? Acho que vou cozinhá-lo em um molho de soja adocicado.
— Isso parece maravilhoso! — exclamou uma voz atrás de mim — Adoro peixe cozido com molho doce e salgado, combina perfeitamente com arroz!
— É, fica ótimo com arroz… Espera aí, Shijoin-san!?
Eu me virei e lá estava ela, parada na cozinha, sorrindo radiante e usando o avental da minha mãe.
E-Espere, o quê!? Quando é que ela entrou aqui!?
— P-Por que você está usando um avental?
— Hum… Desculpe! — Shijoin-san deixou escapar, com as bochechas levemente coradas — Eu sei que provavelmente deveria apenas sentar e esperar, mas… bem, eu realmente queria tentar cozinhar com você, Niihama-kun.
— Hã? — eu pisquei, pego de surpresa.
Ela colocou uma mecha de seu longo cabelo preto atrás da orelha, oferecendo-me um sorriso suave e um pouco nervoso.
— Desde que soube que você sabia cozinhar, não consegui parar de pensar nisso. Quer dizer, imagine a gente trabalhando juntos na cozinha, conversando, rindo e preparando algo delicioso… Não parece divertido?
Ela estava tão perto e aquele avental fofo, de alguma forma, a deixava ainda mais adorável. Meu rosto parecia estar pegando fogo.
Ei, controla-te! Estamos falando da Shijoin-san!
O charme inocente dela não deveria mais me deixar tão fora de mim assim. Tenho que manter a calma e a compostura. Pois é, claro. Como se isso fosse possível. Virgem ou não, nenhum cara conseguiria ficar calmo quando a garota dos seus sonhos praticamente o convidou para um encontro na cozinha.
— Sempre me divirto cozinhando com minha mãe e nossa governanta — disse ela, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha — Então pensei que seria divertido tentar com você também. Mas, hum… não estou atrapalhando, estou?
— De jeito nenhum! — soltei um pouco alto demais — Esta cozinha pode ser um pouco apertada, mas adoraria a companhia!
— Sério? Uhuuu! — ela bateu palmas e sorriu radiante — Tudo bem, então, Chef Niihama, estou toda sua! Fique à vontade para me dar ordens!
A animação dela encheu a cozinha e, por um momento, foi difícil não se deixar levar por ela também.
Mas, falando sério... Ela não está nem um pouquinho nervosa por ficar aqui? Ela está praticamente eufórica!
Isso não era nenhum simulador de namoro. Era só um jantar, um papo e depois para a cama. Perfeitamente normal. Ou pelo menos era o que eu tentava me convencer. Mas com ela sorrindo daquele jeito e agindo tão despreocupadamente, o “normal” estava rapidamente indo por água abaixo.
***
— Niihama-kun, devo cortar as cenouras e o daikon para a sopa de missô em palitos?
— Sim, pode ser. Também dá para cortar em quartos de roda, mas a gente sempre usa palitos.
— Entendi! Então, palitos! — Shijoin-san respondeu com entusiasmo ao meu lado, enquanto eu alinhava o peixe na frigideira.
Felizmente, nossa cozinha era grande o suficiente para nós dois. Com três bocas de fogão, ampla bancada e tábuas de corte separadas para carne e vegetais, cozinhar juntos não seria um problema.
Shijoin-san cantarolava baixinho enquanto cortava o daikon e as cenouras. Sua faca movia-se com uma graça surpreendente. Apesar de ser filha de uma família abastada, ela claramente não era estranha à cozinha.
E, ainda assim, eu não conseguia desviar o olhar.
Shijoin-san estava na minha cozinha, preparando sopa de missô. Era uma cena que me cativou completamente. Ligeiramente curvada sobre a tábua de cortar, ela exalava a aura calorosa e gentil de uma esposa amorosa e uma mãe carinhosa preparando o jantar para sua família.
Isso é a vida real? Parece um milagre — uma cena tão preciosa que poderia me levar às lágrimas. Aqui, na minha casa, essa linda garota está criando uma lembrança que vou guardar para sempre.
— Hmm? O que foi, Niihama-kun? — Shijoin-san inclinou a cabeça, com um tom de preocupação na voz — Você está olhando para o nada.”
— Ah, não, desculpe! — eu rapidamente inventei uma desculpa — Só estou tentando lembrar da receita.
Quando me virei em direção à geladeira para pegar mais ingredientes e passei por trás de Shijoin-san, sua doce fragrância me envolveu, e meu rosto corou instantaneamente.
Droga! Ela cheira bem demais! Concentra-te, concentra-te! Provavelmente é só porque não nos vemos há um tempo… Deve ser isso!
Seu perfume era suave e me desarmou completamente. Eu podia ouvir sua respiração suave, sentir o calor leve quando nossos ombros se roçavam acidentalmente. Cada pequeno detalhe ameaçava sobrecarregar meus sentidos.
Cozinhar juntos assim… é mais perigoso do que eu imaginava!
— Acabei de cortar os legumes para a sopa de missô! vela anunciou. “Vou colocá-los na panela.
— A-Ah, obrigado — gaguejei — A propósito… você parece estar se divertindo muito, Shijoin-san.
— Estou mesmo! — ela respondeu, radiante — Nunca imaginei que poderia dormir na sua casa, Niihama-kun. Tem sido tão emocionante. Conversar com a Kanako-chan e com sua mãe, ajudar a preparar o jantar, foi tudo muito divertido.
Com um sorriso radiante, Shijoin-san falou como se a tempestade lá fora fosse apenas uma lembrança distante. Ela parecia tão radiante, como uma criança em sua primeira festa do pijama, completamente inocente e transbordando de entusiasmo.
— E… — ela acrescentou, com a voz mais suave agora — me sinto tão revigorada neste momento.
— Hã? Revigorada? O que você quer dizer?
— Sim, na verdade… Desde ontem, algo tem me incomodado. Parecia um peso de chumbo no meu peito.
— O-O quê!? — meu sangue gelou.
No momento em que Shijoin-san mencionou ter algo na cabeça, meus pensamentos correram direto para minha vida passada. Foram suas lutas internas, sua dor oculta, que acabaram levando à sua ruína. Ela reprimiu suas emoções, deixando-as apodrecer até que chegassem a um ponto de ruptura. Quando alguém percebeu, já era tarde demais.
Isso tinha acontecido depois do ensino médio na minha vida anterior. Mas com toda a minha intromissão nesta, quem sabia como a linha do tempo tinha mudado? Um desastre poderia estar à espreita.
— O-O que aconteceu!? Alguém estava te assediando? Um perseguidor!? Por favor, me conte tudo, por menor que seja! Mesmo que eu não possa ajudar, a Akiko-san ou o Tokimune-san com certeza vão intervir!
Droga. Quem ousaria fazer Shijoin-san se sentir assim? Eu não me importava se fosse um menino ou uma menina. Fosse quem fosse, eu faria com que se arrependesse.
Mas quando eu praticamente gritei, inclinando-me em direção a ela, Shijoin-san piscou, com a faca parada no meio do corte. Então, após uma breve pausa, ela deu uma risadinha suave.
— Ah, desculpe. É que… ver você tão preocupado comigo me deixou muito feliz e um pouco envergonhada.
Ela abaixou a faca e sorriu suavemente.
— Mas agora está tudo bem. Era assim que eu me sentia até esta manhã. Depois de pensar melhor, percebi que estava apenas exagerando, e agora está tudo bem.
— S-Sério?
Olhando para ela agora, ela não parecia nem um pouco preocupada. A Shijoin-san não era do tipo que escondia seus sentimentos, então eu tinha que acreditar nela.
Que bom... mas então por que ela fica me encarando assim?
— Sou eu? Sou eu a razão pela qual você está com problemas?
— H-Hm... bem...
As bochechas de Shijoin-san ficaram levemente coradas, e ela se contorceu nervosamente.
Após alguns segundos de hesitação...
— Fufu... é segredo.
Com as bochechas ainda coradas, ela levou um dedo aos lábios e me lançou um sorriso travesso.
Não conseguia decidir o que era mais perturbador: seu tom brincalhão ou a rara visão dela agindo de forma tímida. De qualquer forma, fui pego completamente de surpresa.
Eu deveria estar preparando o jantar, mas senti que passei mais tempo observando-a do que realmente preparando a comida.
— Um s-segredo, hein? Bem, acho que não posso te forçar a me contar.
— É verdade. Mas talvez um dia eu compartilhe isso com você… Oh! Niihama-kun! Acho que o peixe está pronto!
— Espere! A sopa de missô! Não me diga que os legumes viraram purê!?
— Está pronto! Hora do miso!
A panela borbulhante pareceu nos trazer de volta à realidade. Shijoin-san e eu entramos em um ritmo confortável, nossos movimentos sincronizando-se enquanto trabalhávamos.
— Pepinos, prontos! — ela anunciou — Como está o wakame?
— Perfeito. — respondi — Bem reidratado. Vou misturar agora. Ah, e o quiabo está pronto. Já esfreguei com sal.
— Ótimo! Já que estamos no ritmo, que tal adicionarmos mais alguns pratos? Talvez um tamagoyaki e aspargos enrolados em bacon?
— Ei, não é justo, Niihama-kun! Deixa eu cuidar de um desses!
Exatamente como Shijoin-san havia dito, cozinhar juntos era incrivelmente divertido. Trabalhando lado a lado, nossos movimentos fluíam suavemente, quase como uma partida esportiva bem coordenada. Era emocionante.
Talvez fosse só eu, mas vê-la ali, ajudando no jantar, encaixando-se tão naturalmente na minha vida cotidiana, me encheu de uma sensação tranquila de alegria.
Querendo saborear o momento, sugeri adicionar mais alguns pratos. Enquanto ríamos e conversávamos enquanto trabalhávamos, o tempo parecia voar.
[Niihama Kanako]
— Kanako… o que você está fazendo?
— Aaah! — eu dei um pulo.
A minha mãe estava parada no corredor, olhando para mim com uma expressão curiosa.
— Você já terminou o trabalho?
— Não, só fui dar uma passada rápida no banheiro… mas, falando sério, o que você está fazendo? Parecia que você estava espiando a cozinha.
— Bem, hum… olha só ali!
Apontei dramaticamente para a cozinha, onde meu irmão e a Haruka-chan estavam trabalhando alegremente lado a lado.
Mais cedo, a Haruka-chan tinha perguntado nervosamente:
— Seria muito incômodo se eu pegasse um avental emprestado? Eu adoraria ajudar com o jantar e não quero sujar a camisa do Niihama-kun…
No momento em que ouvi isso, minha voz interior gritou: “Chegou a hora do evento de cozinhar juntos!”
Tentando manter a calma, entreguei-lhe um avental, embora o sorriso bobo estampado no meu rosto provavelmente tenha me denunciado. Observando-os trabalhar lado a lado, como uma cena tirada diretamente de um mangá romântico, não pude deixar de sentir.
Meus instintos estavam certos!
E assim, entrei em modo “espião” total.
Na cozinha, onde os dois mal conseguiam ficar lado a lado, eu já estava imaginando aqueles pequenos momentos fofos entre meu irmão e a Haruka-chan. As mãos deles poderiam se tocar naquele espaço apertado, ou ele poderia lançar um olhar para ela de avental e corar.
Mas...
— Oh, Shijoin-san, seu tamagoyaki parece tão macio e delicioso!
— Fufu, obrigada. Niihama-kun, seus rolinhos de aspargos com bacon também parecem tão apetitosos! São como flores decorativas em uma lancheira!
— Sabe, agora que penso nisso, seu estilo de cozinhar parece bem caseiro, Shijoin-san... Não que eu esteja reclamando. Na verdade, adoro compartilhar esse tipo de refeição simples e cotidiana.
— Claro! Quer dizer, sou o tipo de garota que adora yakisoba!
— Haha, é mesmo! Tinha esquecido completamente disso! Falando nisso, a época dos festivais já chegou!
Da cozinha, eu podia ouvir a conversa animada e as risadas calorosas deles.
No começo, como eu esperava, meu irmão estava todo corado na presença da Haruka-chan. Mas agora, eles estavam completamente à vontade, rindo e conversando como velhos amigos.
Não era a atmosfera estranha e cheia de nervosismo que eu havia previsto, mas eles haviam criado um vínculo ainda mais próximo do que eu imaginava.
— O que é essa atmosfera tão tranquila? Eu esperava vibrações felizes e constrangedoras daqueles dois, mas eles não parecem naturalmente próximos um do outro?
— É mesmo, né? É como se já fossem recém-casados!
À medida que continuavam cozinhando, seus movimentos ficavam cada vez mais sincronizados, como se nem precisassem pensar nisso. Parecia tão natural, quase sem esforço, e não pude deixar de sentir uma pontada de inveja. Era como se a gentileza e o respeito sempre tivessem feito parte da maneira como se tratavam, gentil e tácita, como se tivesse sido construída ao longo do tempo sem que nenhum dos dois percebesse.
Hmm, então devo dizer que eles são mais como um casal de velhos?
— Mas, mãe, eu fiquei seriamente surpresa! Quer dizer, já é difícil acreditar que meu irmão seja amigo de alguém tão linda, mas pensar que eles são tão próximos... Pela maneira como estavam agindo, eles são mesmo só amigos?
— Por que você parece tão orgulhosa disso? — minha mãe me lançou uma réplica rápida, mas mantive os olhos grudados na cena que se desenrolava na cozinha.
Um sorriso se formou nos meus lábios enquanto os observava. Fiquei tão feliz ao pensar que alguém tão incrível quanto a Haruka-chan se importava genuinamente com meu irmão e gostava de passar tempo com ele.
— Ele está levando isso muito a sério... Espero mesmo que dê certo.
— Fufu, eu também acho. Sinceramente, se for alguém tão adorável quanto a Haruka-chan, ficaria mais do que feliz em recebê-la na família. — o sorriso da minha mãe se suavizou, e uma risada calorosa escapou de seus lábios.
Ah, caramba! Vamos lá, irmão mais velho, se organize logo! Estou totalmente pronta para a Haruka-chan ser minha irmã mais velha, sabia?
Parada perto da cozinha, onde o delicioso aroma da comida enchia o ar, fiquei observando os dois trabalharem juntos em perfeita harmonia. Silenciosamente, torci por eles com todas as minhas forças.
***
À medida que o sol se punha no horizonte e as sombras se estendiam pela sala, nós quatro nos sentamos à mesa de jantar. A luz quente do abajur fazia com que os pratos fumegantes parecessem ainda mais convidativos.
Minha mãe, que deveria estar trabalhando hoje, declarou orgulhosamente:
— Trabalhei até não poder mais porque precisava jantar com a Haruka-san! — ela saiu do quarto com uma expressão triunfante, claramente orgulhosa de sua conquista — Sinto muito, Haruka-san! Você é nossa convidada, e mesmo assim fizemos você ajudar tanto!
— Ah, não, de jeito nenhum! Fui eu quem, egoisticamente, insistiu em ajudar… Além disso, eu realmente gostei muito!
— Nossa, você é simplesmente... maravilhosa. Esse sorriso! É absolutamente deslumbrante. Eu poderia ficar olhando para ele o dia inteiro!
Minha mãe contemplou Shijoin-san, completamente cativada por seu sorriso radiante. Era o tipo de sorriso que praticamente brilhava, e ela soltou um suspiro sincero de admiração.
E, na verdade, eu não podia culpá-la. O sorriso de Shijoin-san era tão puro e sincero que provavelmente tocava ainda mais os adultos, já que eles haviam perdido esse tipo de inocência há muito tempo.
— Fufu, ouvir isso da sua mãe, Shinichiro-kun, me deixa muito feliz.
— Oh… ‘Mãe’! Sim! Adorei! Isso soa absolutamente perfeito!
Embora fosse simplesmente como Shijoin-san se dirigia à própria mãe, a maneira como ela pronunciou ‘Mãe’ com tanta elegância deixou a minha mãe completamente maravilhada.
Sim, minha mãe está oficialmente sob o feitiço da Haruka-chan. Mas quem pode culpá-la? Aquele “Mãe” foi dito com a graça de uma rainha.
— Mas mesmo assim… Tem certeza de que está tudo bem com esse tipo de cardápio? É só comida caseira simples, coisas como peixe cozido e acompanhamentos de vegetais. Nada sofisticado — disse Kanako, parecendo um pouco preocupada.
Sinceramente, eu entendia o ponto de vista dela. Considerando o que tínhamos na geladeira, a refeição acabou parecendo algo que você comeria na casa da vovó.
“Sim, estou gostando muito. Para começar, costumamos comer refeições japonesas simples como essa em casa também.”
— Espere, sério? Sempre achei que famílias como a sua comessem cozinha francesa sofisticada todos os dias.
É um estereótipo tão ultrapassado sobre pessoas ricas. Claro, com uma casa tão grande quanto a da família Shijoin, é fácil imaginar jantares elegantes com vários pratos servidos em uma mesa longa e luxuosa.
Mas mesmo assim…
— Ahaha, a culinária francesa é deliciosa, é claro. Mas mesmo os pratos mais requintados não substituem o conforto do arroz e da sopa de missô. Especialmente para meu pai, que frequentemente participa de jantares formais e se cansa desses sabores intensos. Por isso, nossas refeições em casa costumam ser bem simples. Legumes cozidos, pratos refogados, esse tipo de coisa.
— Uau, sério? Eu sabia. Nada supera arroz e sopa de missô!
— Com certeza! São os melhores. Afinal, somos japoneses!
O riso de Shijoin-san se misturou ao da minha irmã, e suas vozes alegres afastaram as sombras remanescentes do entardecer. Um calor encheu a sala de jantar, um contraponto reconfortante ao frio do inverno lá fora.
A conversa animada ao redor da mesa aliviou a tensão do dia, deixando para trás uma sensação de satisfação pura e tranquila.
Isso é bom. Muito bom. Eu definitivamente poderia me acostumar com isso...
Shijoin-san sentada à nossa mesa de família era algo tão simples, mas trouxe uma vitalidade à casa que antes faltava.
Tomei mais um gole de sopa de missô, o caldo saboroso e familiar me aquecendo por dentro e por fora.
Era só impressão minha, ou ela estava ainda mais gostosa esta noite? Talvez fosse o efeito Haruka-chan.
Chame isso de ilusão, mas não pude deixar de imaginar um futuro em que Shijoin-san seria quem prepararia a sopa de missô para mim.
Se esse sonho algum dia se tornasse realidade... Bem, eu seria o cara mais sortudo do mundo.
— Vamos, Haruka-chan! Come mais! Aqui, diz “ahh”!
— Wah!? Ah, o-obrigada!
Kanako, praticamente pulando de empolgação, estendeu um aspargo enrolado em bacon, e Shijoin-san, com um leve rubor colorindo suas bochechas, aceitou-o com uma mordida tímida.
A Kanako já está perdidamente apaixonada por ela... Era de se esperar.
— Mmm... Isso é divertido! Ser alimentado por uma irmãzinha... É uma experiência nova. Ei, posso tentar te alimentar também?
— Claro! Adoraria ouvir um “ahn” de uma onee-chan bonita como você!
— S-sério? Então, aqui vai... “ahn”.
Shijoin-san, filha única, parecia encantada com o título de “onee-chan”. Sua empolgação ficou evidente quando ela retribuiu o favor, alimentando Kanako com um sorriso gentil.
Em resposta, minha irmãzinha declarou:
— Mmm! Delicioso! A comida fica muito mais gostosa quando uma onee-chan bonita te alimenta! — sua voz assumiu o tom exagerado de um velho bêbado em um bar de acompanhantes.
— Ah, a propósito… — interrompeu Kanako de repente, com um brilho travesso nos olhos.
Espera aí. O que é esse olhar? Por que ela está me encarando assim?
— Escuta só, Haruka-chan! Meu irmão diz que o sonho dele é que uma garota o alimente e diga “ahh”!
— O quê!? D-do que diabos você está falando!?
Quase me engasguei com a sopa de missô, as palavras de Kanako me atingindo como uma tonelada de tijolos.
— Eu nunca disse nada disso!
— Você não disse algo assim lá no ensino fundamental, Aniki? Que morreria feliz se uma garota te alimentasse, como nos mangás de romance? — meu coração deu um salto.
Não acredito. Eu realmente disse isso?
Agora que ela mencionou isso, não pude negar completamente. Naquela época dolorosamente constrangedora do ensino fundamental, eu era obcecado por comédias românticas e jogos de simulação de namoro. Minha imaginação voava e eu soltava coisas embaraçosas como: “Beijar uma garota no telhado ao pôr do sol seria incrível” ou “Queria ter uma namorada fofa que fizesse meu almoço e me desse algo doce para comer com um sorriso” .
— Espere, esse tipo de coisa te deixaria feliz, Niihama-kun?
— É, para o Aniki, aparentemente é o suficiente para fazê-lo chorar de alegria!
As palavras provocadoras da minha irmã chamaram a atenção da Shijoin-san, e Kanako esboçou um sorriso malicioso.
Sua pestinha... Aquela cena toda do “Ahn♪” de há pouco foi uma armação?
Claro, ela provavelmente só queria brincar, mas ao envolver Shijoin-san primeiro, ela baixou completamente o nível para uma “segunda rodada” e fez com que parecesse totalmente natural. Agora esse assunto era perigoso.
Com uma garota normal, talvez não houvesse problema, mas com alguém como Shijoin-san?
— Entendo. Não consigo me identificar muito como garota, mas entendo o quanto isso deve ser significativo para um garoto. Nesse caso, já que estamos aqui à mesa, posso humildemente oferecer meus serviços?
E lá estava. Um suor frio brotou enquanto eu via os olhos da Shijoin-san brilharem de entusiasmo. Ela já se sentia incrivelmente em dívida comigo por ajudá-la nos estudos e organizar o festival cultural. Mesmo depois de me convidar para uma refeição caseira, ela ainda queria me retribuir.
Para alguém tão sincera e de coração puro como ela, isso era como uma isca. Não foi surpresa que ela tenha aproveitado a chance.
— Ah, mas… — ela de repente hesitou — Eu me empolguei. Niihama-kun, você provavelmente quer alguém realmente fofa para fazer isso, certo? Quer dizer, eu seria apenas uma decepção.
— Hã?!
Tanto a minha mãe quanto a Kanako engasgaram como se ela tivesse acabado de dizer a coisa mais ridícula do mundo. Até eu não pude deixar de reagir.
Como alguém tão deslumbrante quanto ela, praticamente uma boneca viva, poderia ter falta de confiança?
— O-o que você está dizendo?! Não há como eu ficar desapontado! Se você fizesse isso por mim, eu provavelmente choraria de gratidão!
As palavras saíram antes que eu pudesse detê-las.
— E-Eh!? A-Ah, o-obrigada…
O rosto da Shijoin-san ficou com um tom suave de rosa, e minhas próprias bochechas arderam em resposta à minha declaração ousada.
Mas, falando sério, dá pra me culpar? Como eu poderia simplesmente ficar sentado ali e deixar alguém como ela dizer que não tinha charme? De jeito nenhum eu deixaria isso passar.
Kanako, praticamente vibrando de emoção, soltou um longo “Fuuoooohhh” como se tivesse acabado de executar o maior plano da história. minha mãe, por sua vez, pressionou a mão sobre a boca, com os ombros tremendo enquanto tentava, sem sucesso, conter o riso.
— B-Bem, então, se me dão licença… aqui, diga “ahh”.
Shijoin-san, completamente imperturbável, pegou um pedaço de tamagoyaki com os pauzinhos e o estendeu para mim, com a outra mão segurando-os delicadamente como se estivesse manuseando porcelana fina.
Espere. Isso não aconteceu antes? Lá no festival, quando ela fez takoyaki?
E, assim como naquela vez, ela não parecia ter visto aquilo como algo romântico. Sua expressão era pura e inocente, totalmente focada em me fazer feliz.
Eu estava feliz? Obviamente. Mas, vamos lá. Essa situação é insana. Naquela época, achei que fosse morrer de vergonha na frente dos meus colegas de classe, mas desta vez é na frente da minha mãe e da Kanako? Que tipo de jogo de punição é esse?
Mas não havia como eu recusar.
Abri a boca e, com cuidado, peguei o tamagoyaki dos seus pauzinhos. O sabor estava mais doce do que quando eu o provei mais cedo na cozinha.
Uma mistura de vergonha e alegria rodopiava dentro de mim, tão intensa que parecia que meu peito fosse explodir.
— O-Obrigado… Nem sei o que dizer… Meu coração está tão cheio.
— Que bom! — Shijoin-san sorriu de orelha a orelha, com um sorriso radiante — Se algo tão simples assim te faz feliz, Niihama-kun, farei isso quantas vezes você quiser! É só me avisar, tá?
Ver minha cara de nervosismo parecia deixá-la ainda mais feliz. Ela provavelmente sentiu que finalmente tinha conseguido retribuir um favor, mesmo que fosse algo pequeno.
— Pff… Kuku… Buhaha! B-Bem feito, Shinichiro… — minha mãe finalmente não aguentou mais.
— Nnngh! Isso foi incrível! Aniki, você deveria me agradecer por isso! Me dê um pouco de crédito! — Kanako se intrometeu, com um ar ridiculamente presunçoso.
Shijoin-san apenas sorriu feliz, completamente alheia ao caos que havia causado. minha mãe ainda tentava conter o riso, enquanto Kanako parecia satisfeita demais consigo mesma. E assim, nosso jantar continuou, comigo me sentindo nervoso e sobrecarregado até o final.
Mesmo depois disso, eu não conseguia parar de ficar nervoso toda vez que olhava para Shijoin-san do outro lado da mesa. minha mãe e Kanako estavam excepcionalmente animadas, e até mesmo Shijoin-san parecia estar se divertindo. Apesar de ter sido de última hora, o jantar acabou sendo animado e acolhedor.
Mas, como todas as coisas boas, nossa noite alegre acabou chegando ao fim, dando lugar à quietude da noite. O suave tamborilar da chuva lá fora acrescentava um ritmo reconfortante à calma, enquanto a casa lentamente mergulhava no sono.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios