Volume 3
Capítulo 4: Desta vez não irei trair o sorriso da minha irmã!
A atmosfera silenciosa da funerária, as roupas pretas e sombrias e a dura realidade do corpo sem vida da minha mãe no caixão diante de mim pareciam surreais, como um pesadelo do qual eu não conseguia acordar. As palavras da minha irmã romperam o silêncio, deixando-me abalada.
— Por que você não deixou aquele emprego horrível!?
A voz de Kanako vacilou, tremendo sob o peso das lágrimas contidas. Seu olhar me perfurou, uma mistura de tristeza e frustração que jorrou depois de ter sido reprimida por tempo demais.
— A mamãe estava tão preocupada — ela continuou, com a voz trêmula — Ela via você ficando mais magro, mais doente, e toda vez que tentava falar com você, você estava sempre muito ocupado. Isso partiu o coração dela.
O médico disse que o ataque cardíaco da mamãe foi causado por estresse crônico. As palavras de Kanako, embora suaves, pareciam mais pesadas do que deveriam, como se carregassem o peso daquele diagnóstico, transformando-o em uma acusação tácita. A culpa que me dilacerava o peito apenas cravou suas garras ainda mais fundo.
— A mamãe não sorria de verdade há anos — a voz de Kanako se quebrou — Especialmente nestes últimos anos, a saúde dela só foi piorando... Todos os médicos disseram que era estresse e não consigo pensar em mais nada que pudesse ter causado isso...
Ali parada, uma imagem de luto em seu vestido preto, Kanako encarnava minha culpa e meu arrependimento. Cada palavra que ela dizia era uma condenação das minhas ações — ou melhor, da minha inação.
— Eu implorei para você deixar aquele emprego! Para parar de deixar a mamãe preocupada! Mas você não quis ouvir! Você sabia que era um lugar terrível, mas tinha medo demais de mudar as coisas!
Ela estava certa. Eu havia priorizado meu medo da mudança em detrimento do bem-estar da minha mãe, e agora era tarde demais. O peso da minha insensatez era esmagador, um fardo insuportável que eu carregaria para sempre.
A verdade era que eu sabia. Eu sabia que havia algo errado com meu local de trabalho, com minha vida. Mas o medo me mantinha cativo. A ideia de reunir a vontade para mudar, para agir, para lutar parecia uma tarefa insuperável, um fardo pesado demais para carregar.
A voz de Kanako, carregada de angústia, rompeu o entorpecimento que me dominava.
— Por que você é assim?! Você sempre foi tão passivo, tão indeciso, sempre deixando os outros se aproveitarem de você! Você realmente acha que está tudo bem deixar as pessoas pisarem em você assim?
Suas lágrimas caíam, uma a uma, no silêncio do salão funerário, cada gota ecoando mais alto do que qualquer palavra poderia. Fiquei paralisadono lugar, esmagado pelo peso de sua dor.
O que é que eu poderia dizer?
Nenhuma desculpa a convenceria, nem agora nem nunca. Qualquer coisa que eu dissesse simplesmente se chocaria contra a crua verdade de sua dor.
— Você sacrificou a vida da mamãe só para desperdiçar a sua naquela empresa horrível... O que você estava pensando?! Se você tivesse feito alguma coisa, qualquer coisa, talvez a mamãe ainda estivesse viva!
Suas palavras cortavam fundo, afiadas e impiedosas. Eu merecia sua raiva, seu ódio. A cada lágrima que caía de seus olhos, o peso da minha culpa ficava mais pesado, pressionando-me até eu mal conseguir respirar.
— Como você pôde ser tão incrivelmente estúpido...
Essa foi a última vez que vi Kanako, a última vez que ouvi sua voz. Suas palavras, cheias de dor e repulsa, marcaram o fim da nossa família. Naquele momento, a família Niihama se fragmentou irrevogavelmente, apagada pelo peso das minhas próprias falhas.
***
— Está um calor de rachar hoje... É, o verão chegou de verdade — murmurei, enxugando o suor da testa.
— É mesmo, verão de verdade... A época em que o protetor solar se torna uma necessidade, não um luxo — acrescentou Kanako, com voz leve e despreocupada.
Estávamos apenas há alguns dias nas férias de verão da escola, e a cidade já estava sufocante. O calor brilhava no asfalto enquanto caminhávamos, o ar estava pesado e úmido. Eu estava vestido de forma confortável, com uma camisa simples de manga curta e calças de algodão. Kanako, incorporando seu estilo gyaru característico, usava uma camiseta listrada da moda com ombros à mostra e shorts jeans, uma roupa que parecia ter saído diretamente das páginas de uma revista de moda adolescente.
Como irmão mais velho, não pude deixar de sentir uma pontada de instinto protetor.
— Você não acha que essa roupa é um pouco reveladora demais para o verão, Kanako? — Cocei a cabeça, sentindo-me um pouco constrangido — Você não poderia escolher só uma coisa, ombros ou pernas? Mostrar os dois parece um pouco demais.
Ela me lançou um olhar brincalhão, com os olhos brilhando de malícia.
— Ah, qual é, Aniki! Não me tire o estilo! Uma garota precisa se expressar, sabe?Além disso — acrescentou com um floreio dramático — se eu não posso ser fofa, é melhor eu morrer!
Sua resposta exagerada me desarmou, e um sorriso se formou nos meus lábios.
O que eu poderia dizer a isso?
Kanako sempre fora ferozmente independente e animada, e eu sabia que não devia tentar reprimir sua autoexpressão.
— Bem… — admiti — você realmente está bonita, tenho que admitir.
Era verdade; ela tinha um talento especial para montar looks estilosos que eram tanto modernos quanto exclusivamente dela.
— Mas falando sério — continuei — quando você soltou “Vamos sair juntos!”, achei que tivesse algo planejado, não apenas a necessidade de um assistente de compras pessoal.
Não resisti a provocá-la um pouco. Kanako deu uma risadinha, com o rabo de cavalo balançando.
— Ah, qual é, Aniki! Você ia ficar entediado em casa de qualquer jeito, né? O que é melhor do que passar o dia com sua adorável irmãzinha?
Sua piscadela brincalhona e seu sorriso travesso tornavam difícil ficar irritado. Ela era inegavelmente fofa, e eu entendia por que era tão popular entre os meninos na escola.
— Sinceramente… — suspirei, balançando a cabeça divertido — Pelo menos pude ver em primeira mão quanto tempo as meninas podem levar para fazer compras.
Já tínhamos vagado por inúmeras boutiques, e os hábitos de compra de Kanako eram nada menos que exaustivos. Tudo era “tão fofo!” e exigia toda a sua atenção: um toque rápido aqui, uma inclinação pensativa da cabeça ali, e momentos intermináveis debatendo os menores detalhes. No entanto, de alguma forma, ela saía da maioria das lojas de mãos vazias. Seu entusiasmo transbordava em cada gritinho de alegria, cada olhar demorado e cada segundo gasto agonizando sobre o que escolher. Após horas dessa busca incansável, o total geral de nosso “saque” era um único saco de papel, vergonhosamente pequeno, balançando na minha mão.
— Todo esse "passeio pelas vitrines" é realmente necessário? — murmurei, mudando o peso do saco de mão — Juro, todo esse processo é uma tortura.
— Ei, você não pode dizer isso! — exclamou Kanako, balançando o dedo na minha direção — Você precisa mesmo tentar entender a paixão das meninas por fazer compras!
— P-Paixão, é? — repeti, tentando compreender o nível de entusiasmo dela — Nunca pensei nisso dessa forma.
— Sim! Fazer compras é a alegria das meninas! — declarou ela com um gesto entusiasmado — E, ao contrário dos meninos, a diversão não está apenas em comprar coisas, mas no processo de decidir! Adoramos conversar sobre coisas como "Isso não é fofo?" ou "Uau, isso é caro!" enquanto fazemos compras. É uma parte eterna da natureza de uma garota. Então, por mais chato que possa ser para os meninos, o seu papel é apenas observar e sorrir!

— T-Tudo bem… — murmurei, concordando com a palestra de Kanako.
Se ela estava invocando a “essência atemporal da natureza feminina”, imaginei que devia ser verdade.
— E outra coisa — ela continuou, seu tom de voz ficando sério de repente — Quando perguntei "Qual ficava melhor em mim?" há pouco, sua resposta valeu apenas cinquenta pontos! Dizer "Este combina melhor com a sua imagem" não foi ruim, mas o que as garotas realmente querem é que você pense mais nisso! Queremos que os garotos realmente se esforcem na escolha, leve o tempo que for preciso, faça parecer que você está realmente indeciso!
— Hã? Existe uma regra oculta para isso? — gaguejei, sobrecarregado. Parecia simples. Eu escolhi o que, para mim, ficava melhor nela.
— Ah, e a propósito — Kanako acrescentou casualmente — quando uma garota pergunta: "Qual você acha que fica melhor?", ela geralmente já está decidida.
— O quê!? Então por que perguntar para um cara? — exclamei, sentindo-me completamente confuso.
— Como eu disse — ela explicou pacientemente — o principal motivo é que queremos que nosso namorado se esforce junto conosco, e às vezes só precisamos daquele "empurrãozinho final". Talvez já tenhamos decidido pelo A, mas como não é uma compra barata, precisamos de um pequeno incentivo para nos comprometermos.
Todo esse ritual de compras era muito mais complexo do que eu jamais havia imaginado. Eu me sentia como se estivesse aprendendo uma língua totalmente nova, a intricada linguagem do comportamento feminino nas compras.
— Espere, você está brincando, certo? — eu disse, levantando as mãos — A gente só tem que escolher uma roupa aleatoriamente e torcer para que seja a certa? Que pressão! Se isso fosse um simulador de namoro, os jogadores iriam desistir de raiva. Então agora a gente tem que ler mentes também?
— Olha, tem algumas maneiras de lidar com isso — disse Kanako, cruzando os braços com confiança — Você poderia simplesmente perguntar a ela: "Qual você mais gosta?" e depois concordar com a escolha dela, dizendo algo como: "É, acho que essa fica incrível em você!", para dar um empurrãozinho na confiança dela. Ou você poderia tentar descobrir qual roupa ela tem preferido mais.
Eu soltei um gemido.
— Eu não fazia ideia de que fazer compras pudesse ser tão complicado... Sério, fazer compras com garotas é o suficiente para te dar um ataque de pânico! Sempre achei que casais em encontros estavam apenas, você sabe, se divertindo. Quem diria que havia todo esse teste oculto acontecendo nos bastidores?
— Bem, não se estresse muito. Contanto que você seja sincero, vai dar tudo certo. Qualquer garota que faça birra só porque você errou no quiz "Qual roupa fica melhor em mim?" está sendo irracional. Até eu diria isso.
— Isso é reconfortante, acho... Mas estamos os dois bem exaustos. Que tal darmos um tempo naquele café?
Kanako estava começando a parecer cansada, e eu não queria que ela tivesse uma insolação, mesmo ainda tendo um pouco de energia sobrando de toda a minha corrida.
— Ótima ideia! E ei, Aniki, certifique-se de que ela saiba que você se importa, tá? Ser gentil é sempre uma jogada vencedora. Ah, e se você pagar um parfait para uma garota, sua popularidade vai subir muito, então não se esqueça!
— Uh-huh, e aposto que você está com vontade de comer um parfait, certo?
Me arrastar por aí como uma mula de carga não é suficiente? Agora ela quer esvaziar minha carteira também?!
— Peguei você! Mas vamos lá, Aniki! Uma irmãzinha super fofa como eu merece um parfait como pagamento por ter que aturar você!
— Nem tente isso, sua colegial de ombros à mostra! Você tem devorado o almoço e o jantar como se não houvesse amanhã. Se comer mais, vai ter que voltar pra casa bamboleando!
— Ai! Você NÃO disse isso! Isso é, tipo, o maior insulto para uma garota! E, além disso, a culpa é sua! É você quem fica fazendo todos aqueles pratos incríveis, como costeletas à italiana e strogonoff de carne, só porque tem um tempinho livre neste verão!
— Não jogue a culpa nos outros quando é você quem fica pedindo mais, sua glutona!
Alheios aos olhares dos transeuntes, continuamos nossa briga bem ali no meio da rua, gritando um com o outro. Finalmente, encharcados de suor com as roupas grudadas no corpo, ambos chegamos à mesma conclusão:
— O que diabos estamos fazendo aqui fora com esse calor?
***
— Ahh... Estou exausta... Uma garota não deveria ter que ficar cheirando a suor… — Kanako suspirou dramaticamente, tomando um gole de seu chá gelado à minha frente, no café fresco e com ar-condicionado.
— É, a gente realmente se esgotou com aquela discussão sem sentido naquele calor escaldante. Sério, os verões no Japão são brutais.
A ideia de que os verões só iriam ficar mais quentes no futuro, talvez até ao ponto de ser perigoso simplesmente sair à rua, deixou-me um pouco inquieto. O calor era sempre o pior inimigo quando se tinha de trabalhar ao ar livre…
— Então, já terminamos as compras? Você falou que precisava que eu carregasse as sacolas, por isso achei que ia comprar muito mais. Isto não parece grande coisa.
— Bem, se eu tivesse dinheiro ilimitado, teria um guarda-roupa infinito de roupas e acessórios... Mas mesmo uma estudante do ensino fundamental superpopular como eu precisa viver dentro do orçamento. Ah, se eu pudesse cobrar das pessoas para admirar minha fofura, como um templo que recebe oferendas...
— Ok, isso é simplesmente ridículo… — Eu estava prestes a dizer, mas então me dei conta. No futuro, mulheres bonitas e homens bonitos realmente transformariam sua aparência em armas, ganhando a vida como streamers de vídeo e arrecadando “doações” de seus espectadores.
A vida é cheia de surpresas...
— Mas enfim, Aniki, lembre-se de tudo o que conversamos hoje. Mesmo com toda essa conversa sobre igualdade de gênero hoje em dia, as garotas ainda querem alguém em quem possam confiar. Em encontros, o básico é manter-se alegre, gentil e calmo. Especialmente porque, bem... os virgens tendem a surtar e perder a calma quando as coisas dão errado.
— Vou seguir seu conselho — resmunguei — mas estamos em um lugar público, então cuidado com o que você fala! Pare de jogar a palavra "virgem" por aí como se fosse confete!
— Nossa, você está sempre me provocando com essa história de virgindade… — murmurei, cruzando os braços em posição defensiva.
Os lábios de Kanako tremeram de diversão.
— Bem, não é como se eu já tivesse sequer dado as mãos com um rapaz.
Suas palavras pairaram no ar, e um silêncio atordoado se instalou entre nós. Fiquei boquiaberta.
— O quê?
— Hã? — repetiu Kanako, arregalando os olhos inocentemente.
Nós nos encaramos, piscando em descrença.
Espera aí...
— Não, não, não, não! — exclamei, sentindo uma onda de indignação subir — Você está sempre se gabando de como é popular! Todas aquelas dicas de namoro que você dá... Eu achava que vinham da sua própria experiência!
Kanako estufou o peito, um sorriso presunçoso se espalhando por seu rosto.
— Ah, eu sou super popular. Mais de uma dúzia de garotos já se declararam para mim e eu namorei todos eles! — ela fez uma pausa para criar um efeito dramático — Mas todas as vezes, acabei pensando: "Isso não está certo", então terminei com eles. Em qualquer lugar entre cinco minutos e um mês.
— Isso é loucura! — gritei, levantando as mãos em exasperação — E um relacionamento de cinco minutos nem conta!
— Então isso significa… — deixei a frase no ar, tentando assimilar a revelação — Mesmo tendo saído com tantos rapazes, você nunca teve um namorado de verdade? Apenas esses... encontros de teste?
Kanako assentiu, com um sorriso envergonhado se espalhando pelo rosto.
— E então, por causa disso, as pessoas na escola começaram a espalhar boatos de que eu sou uma espécie de "mestre do amor" que troca de namorado o tempo todo — ela deu de ombros — Cada vez mais garotas começaram a me procurar para pedir conselhos. Depois de lidar com tantos casos, além das minhas próprias experiências, acabei meio que descobrindo como as coisas funcionam. É como um advogado que se torna especialista em psicologia do casamento depois de lidar com um monte de casos de divórcio, sabe?
— Então é por isso que você parecia incrivelmente experiente para uma aluna do ensino fundamental! — exclamei, quando as peças finalmente se encaixaram — Não é à toa que nunca houve nenhum sinal de namorado
Kanako deu uma risadinha, com as bochechas levemente coradas.
— Então, depois de toda aquela provocação sobre você ser virgem, você na verdade está aliviado por eu ainda ser apenas sua irmãzinha inocente!
— Ei, o conselho ainda é útil, então qual é o problema? — retrucou eu, tentando desviar a atenção.
— Aposto que você está secretamente feliz por não precisar se preocupar comigo sendo uma sedutora! — acrescentou Kanako, com um olhar travesso nos olhos.
— Ugh… — eu me virei, estranhamente nervoso, enquanto tentava pensar em uma resposta.
E, bem, Kanako estava certa. Eu realmente não me importava se ela namorasse alguém, mas... havia uma pequena parte de mim que se sentia aliviado por ela ainda não ser namorada de ninguém. Por ela ainda ser apenas minha irmã.
A ideia de perder a irmãzinha com quem eu finalmente tinha me aproximado nesta vida para outra pessoa despertou em mim um sentimento estranhamente protetor. É claro que eu queria que ela fosse feliz, mas ainda não estava pronto para compartilhá-la com o mundo. Acho que era um pouco possessivo. Mas, mesmo assim, a ideia de Kanako acabar com algum cara qualquer simplesmente não me agradava.
— Enfim, chega de falar de mim — disse Kanako, mudando abruptamente de assunto — Conta-me o que está acontecendo com o Shijoin-san! Da última vez, você estava reclamando que ainda nem tinham trocado números, e eu fiquei totalmente decepcionada… mas você fez algum progresso desde então, certo?
Como sempre, os olhos de Kanako brilharam de interesse enquanto ela se inclinava para frente, ansiosa para ouvir sobre minha vida amorosa. Considerando tudo o que ela acabara de dizer, parecia que ela ficava mais animada com os romances alheios do que com o próprio.
— É, eu cuidei disso — disse eu com um sorriso confiante — Trocamos números e temos trocado mensagens com bastante frequência.
— Ohhhh! — gritou Kanako, arregalando os olhos de empolgação — Bom trabalho, Aniki! Se você não tivesse feito isso, eu estava totalmente planejando te chamar de "virgem inútil" e te dar uma surra!
Ela admitiu casualmente estar planejando algo aterrorizante… como sempre. Estremeci só de pensar que tipo de “surra” ela tinha em mente.
— Mas… — hesitei, um tom de preocupação se infiltrando na minha voz — Aparentemente, quando o pai da Shijoin-san, o Tokimune-san, perguntou se ela estava trocando mensagens comigo, ela sorriu e disse: "Sim, estou!"
A atitude brincalhona de Kanako desapareceu num instante.
— Espere... o pai dela? Você quer dizer aquele CEO superprotetor? Está tudo bem?
— Sim, ele não tentou nos impedir de trocar mensagens nem nada — expliquei — Mas... sempre que a Shijoin-san está me mandando mensagens na sala, aparentemente ele começa a tremer e a fazer uns barulhos estranhos. Tipo, "Urrghhh…" ou "Grrrghhh..." É bem claro que ele está pensando algo como: "Como posso tolerar minha filha se aproximando daquele pirralho?!" e me xingando baixinho.
Ela se curvou, segurando a barriga enquanto continuava a gargalhar, completamente despreocupada, já que não era problema dela.
Caramba... Estou com medo da próxima vez que tiver que ver o Tokimune-san...
Pensei, com um arrepio percorrendo minha espinha. Eu praticamente podia ver o “medidor de raiva pelo pirralho se aproximando da minha filha” subindo a cada dia, como a tarifa de táxi à noite. Soltei um suspiro cansado.
— Nossa, isso foi hilário… — Kanako ofegou, finalmente recuperando o fôlego e enxugando as lágrimas de tanto rir — Aniki, você nunca deixa de tornar as coisas interessantes...
Sinceramente, ela ri demais às minhas custas, todas as vezes.
Resmunguei por dentro, mas um pequeno sorriso se formou no canto dos meus lábios. Apesar de suas provocações e ameaças às vezes assustadoras, não pude deixar de apreciar o riso contagiante de Kanako e seu interesse genuíno pela minha vida.
Bem, não vou dizer isso em voz alta, mas... só de vê-la assim já me deixa feliz.
Para ser sincero, quando comecei minha segunda chance na vida, tive dificuldade em saber como agir perto de Kanako. Nós mal tínhamos interagido na minha vida anterior. No fim, decidi simplesmente tratá-la como um irmão mais velho de verdade, na esperança de construir algo diferente desta vez.
E funcionou. A Kanako que tinha sido praticamente uma estranha na minha vida passada agora sorria abertamente na minha frente. Aquele sorriso era uma das coisas mais preciosas que eu havia conquistado nesta vida.
— Ei… Ei, Aniki.
— Hm? O que foi?
Ela tomou um gole de seu chá gelado e baixou a voz, o que era incomum. Isso me fez parar para pensar. Seu ar habitual, alegre e despreocupado, havia desaparecido; em vez disso, ela parecia estranhamente séria.
— Neste momento… estou muito feliz — confessou ela.
— H-Hã? De onde veio isso?
— Desde que você ficou mais alegre — explicou ela — todo o clima em casa mudou. A mamãe está sempre sorrindo agora… e eu simplesmente me sinto bem com tudo.
— Bem, sim… Eu quero que a mamãe esteja sempre sorrindo.
Garantir que a mamãe pudesse viver uma vida confortável e feliz era um dos meus principais objetivos desta vez, ao lado da minha busca por reviver minha juventude. É por isso que eu vinha ajudando nas tarefas domésticas, como cozinhar e lavar roupa, e me esforçando para melhorar minhas notas.
Um dia, a mamãe disse algo que ficou gravado para sempre na minha memória, palavras que penetraram profundamente no meu coração e deixaram uma marca que eu nunca poderia apagar.
— Estou muito orgulhosa de como você tem ajudado nas tarefas domésticas e se saído bem na escola — disse ela com um sorriso caloroso — Mas o que mais me deixa feliz, Shinichiro, é ver você acreditando cada vez mais em si mesmo.
Suas palavras me atingiram profundamente.
— Quando você crescer — ela continuou — a vida será cheia de desafios. Eu costumava me preocupar que eles fossem te esmagar… Mas agora, vendo você pronto para enfrentar o mundo, me sinto tão aliviada.
Eu já havia derramado algumas lágrimas conversando com a mamãe nesta vida, mas suas palavras desta vez desencadearam uma torrente, ainda mais do que quando nos reunimos pela primeira vez.
Como pude ter sido tão cego ao amor dela na minha vida passada?
As lágrimas não paravam.
De repente, Kanako falou, com os olhos se movendo nervosamente.
— E-Então, Aniki, escute-me. Só vou dizer isso uma vez, então preste atenção, ok?
O-O quê? O que está acontecendo com ela?
— Sabe... estou muito feliz — ela confessou — Poder conversar e rir com você como fazíamos quando éramos crianças... é muito divertido.
— O-O quê?
— Você ergueu uma barreira entre nós em algum momento, não foi? — ela continuou — Você achava que pertencia a um mundo sombrio e triste, enquanto eu vivia em um mundo brilhante e radiante, certo?
Ela acertou em cheio. Na minha vida passada, eu era um introvertido típico. Mantinha distância da Kanako, achando que ela me acharia chato. Acreditava que alguém como ela, que se destacava sob os holofotes, não deveria carregar o fardo de alguém como eu.
— Bem… sim… — admiti — Quero dizer, você era popular, bonita e extrovertida na escola… Você deve ter pensado que eu era apenas um esquisito sombrio, certo?
— Eu realmente achava que você era um otaku sombrio, com certeza — ela respondeu com um sorriso brincalhão — mas isso não significa que eu não gostava de você.
— O-O quê? — suas palavras me pegaram completamente de surpresa e minha mente ficou em branco.
Ela... gostava de mim? Mesmo quando eu era aquela versão tímida e retraída de mim mesmo na minha vida passada?
— Mesmo quando você era aquele irmão sombrio e retraído — ela continuou — se você tivesse me convidado para sair, conversar sobre bobagens ou jogar jogos como costumávamos fazer, eu teria aceitado a qualquer hora.
Fiquei sem palavras. Suas palavras me atingiram como um raio. Eu sempre presumi que o laço íntimo que compartilhávamos nesta vida só era possível porque eu havia saído da minha concha introvertida e aprendido a ser mais confiante.
Mas a verdade é que eu sempre presumi que minha irmãzinha não quisesse nada comigo. Eu achava que era muito sombrio, muito desajeitado. Mas Kanako estava tentando me dizer algo diferente. Ela estava dizendo que, mesmo que eu continuasse sendo introvertida, se eu tivesse apenas feito um esforço, poderíamos ter conversado como costumávamos fazer.
— Não era só você — admitiu Kanako — Eu não sabia bem como me aproximar de você quando você estava me evitando. Eu também hesitei. Mas, olhando para trás, eu poderia simplesmente ter dito alguma coisa, qualquer coisa! Tipo: "Ei, vamos falar sobre histórias de amor, Aniki! Ou "vamos sair!" Eu poderia ter feito isso a qualquer momento.
— Kanako… — meu coração doeu ao perceber o quanto eu tinha sido ignorante.
Sempre achei que Kanako, com sua vida tão animada, me consideraria um fardo. Como eu estava errado. Nunca imaginei que ela ansiava pela mesma coisa que eu: voltar a ser como antes, simplesmente sermos irmãos novamente.
— Então, o que estou tentando dizer é… — o rosto de Kanako ficou vermelho, suas palavras saindo em uma mistura de vergonha e frustração — Estou tão feliz que você tenha ficado mais alegre, que possamos conversar como antes. Sou muito grata por isso! Ah, caramba! Nunca mais vou dizer algo tão embaraçoso assim!
De repente, percebi.
— Espere... essa história toda de "carregar a bolsa" foi só uma desculpa? Você planejou o dia de hoje só para me dizer isso?
Ao ver minha irmãzinha, normalmente tão composta, ficando genuinamente irritada, não pude deixar de achá-la encantadora. Ao mesmo tempo, percebi que minha culpa pela vida anterior tinha acabado de se aprofundar.
Se Kanako se sente assim agora, isso significa que ela provavelmente se sentia da mesma forma em nossa vida passada, pelo menos até o ensino fundamental.
“Por que... por que você é tão idiota?!”
As últimas palavras da minha irmã, da nossa vida passada, ecoavam na minha mente. Se ela realmente tivesse me odiado naquela época, aquela versão retraída e sombria de mim mesma, aquelas palavras simplesmente teriam perfurado meu coração, e isso teria sido o fim da história.
Mas e se ela não me odiasse? E se ela se agarrasse à esperança de que um dia pudéssemos rir juntos como costumávamos fazer? Como ela deve ter se sentido quando aquelas palavras saíram de seus lábios? E-eu... Sinto muito, Kanako...
Pedi desculpas silenciosamente à minha irmã da minha vida passada, aquela que eu nunca mais veria. Eu não sabia se aquele futuro havia sido apagado ou se continuava como um mundo paralelo após a minha morte... mas uma coisa era certa: meus pecados daquela vida passada nunca serão apagados. São algo que devo carregar comigo, mesmo enquanto vivo esta nova vida.
— Obrigada, Kanako — acariciei gentilmente a cabeça da minha irmã, ainda corada de vergonha.
— O-O quê!? O que é isso de repente!? — ela gaguejou, claramente nervosa, mas não afastou minha mão.
— Eu achava que você odiava a versão sombria de mim... então, ouvir que não é assim me deixa muito feliz. Estou tão feliz por poder rir com você e com a mamãe agora... parece quase um sonho.
— Um sonho? Qual é, isso é um pouco exagerado, Aniki.
Quando tirei a mão, Kanako ainda tinha um traço de vergonha no rosto enquanto falava.
Não, Kanako, é um sonho. Esta versão da nossa família, a família Niihama, é exatamente o que eu sempre desejei, um mundo onde todos os meus arrependimentos foram apagados.
É por isso que vou proteger esse laço. Não vou deixar que acabemos como na nossa vida passada, onde você amaldiçoou o próprio irmão.
— Tudo bem! Ei, Kanako! Se você quiser aquele parfait, eu te pago! Deixa com o seu Aniki!
— Sério!? Então vou pedir esse Parfait Gigante Choco Tropical Deluxe! Ouvi dizer que custa cerca de 2.000 ¥!”
— Uau!? Que tipo de prato é esse!? Ei, dá um tempo, não tenho tanto dinheiro assim!
— Mas, ei, um parfait é um parfait! E já que é pra ser enorme, vamos dividir, Aniki! — Kanako esboçou um sorriso travesso, voltando a ser ela mesma.
É isso mesmo, Kanako. Esse sorriso combina muito com você.
— Tudo bem, tudo bem! Vamos nessa! Vamos pedir esse Parfait Gigante Seja Lá O Que For, Kanako! O cardápio diz que é para quatro pessoas, mas vamos mostrar a eles do que irmãos são capazes!
— É isso aí! Esse é o espírito! Hahaha! Você realmente relaxou, Aniki!
Mesmo que não pudéssemos mudar o passado, podíamos moldar o presente e o futuro. Eu provaria que a família Nihama poderia ter um final feliz, não importa o que tivesse acontecido antes. E naquele momento, jurei a mim mesmo que nunca trairia o sorriso alegre e infantil que Kanako exibia.
Quando chegou a hora do Parfait Gigante, Kanako e eu não conseguíamos parar de nos gabar.
— Isso não é nada para um aluno do ensino médio e uma do ensino fundamental! — declarei com confiança.
Kanako sorriu e acrescentou:
— O estômago de uma garota é um poço sem fundo quando se trata de doces!
Mas então ele chegou, uma montanha gigantesca de chantilly transbordando de um copo do tamanho de um megafone e nossa confiança desapareceu instantaneamente. Aquele momento ficou gravado em nossas memórias, junto com uma importante lição de vida:
Nunca subestime o verdadeiro significado da palavra “Gigante”.
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