Corvo do Palácio Interno Japonesa

Tradução: Kessel

Revisão: Jaque


Volume 2

Capítulo 2: A Voz da Água (Parte 2)

Naquela noite, um visitante chegou.

Era muito tarde, plena madrugada. Até mesmo Jusetsu, que se deitava bem mais tarde que a maioria, já havia adormecido. No entanto, ela acordou com o som de uma voz feminina baixa e insistente vinda do outro lado da porta.

“O…lá… Consorte Corvo…”

Era a voz de uma velha, tão indistinta que parecia prestes a desaparecer a qualquer momento. Deitada em seu colchão, Jusetsu moveu a cabeça e procurou seu pássaro, Shinshin, que sempre dava o alarme quando um visitante chegava. Shinshin estava aos pés da cama, com a cabeça erguida. Olhava para a porta, visivelmente irritado. Em instantes, porém, pareceu perder o interesse, abaixou a cabeça e fechou os olhos. Parecia que o sono reparador de Shinshin tinha prioridade sobre aquela mulher.

Jusetsu sentou-se e saiu da cama. Vestiu o casaco de seu shanqun preto por cima do pijama e passou pelas cortinas que cercavam seu colchão. Não sabia exatamente que horas eram, mas, pelo que sentia, devia ser por volta da quarta vigília da noite — em algum momento entre 1h e 3h da manhã. O calor havia aumentado na região durante o dia, mas, naturalmente, ainda fazia frio tarde da noite. Enquanto caminhava até a porta, formou uma peônia na palma da mão e a jogou em uma lanterna em forma de flor de lótus para acendê-la.

"Quem está aí?", perguntou Jusetsu à pessoa do lado de fora.

“Meu nome é An. Gostaria de lhe pedir algo. Você se importaria de ouvir o que tenho a dizer?”

A voz da visitante era fraca e denunciava sua idade, mas isso não diminuía em nada a elegância de seu tom. Ela deve ser dama de companhia de uma consorte, pensou Jusetsu ao abrir a porta.

A pessoa do outro lado era de fato uma senhora idosa com os cabelos completamente grisalhos. Vestia um traje de dama da corte em tons terrosos. Mal conseguia prender seus cabelos grisalhos e limpos em um pequeno coque no alto da cabeça. Seu rosto era quase da mesma cor que o robe, e rugas profundas marcavam seu rosto e mãos como rachaduras. A pele de seus dedos estava ressecada, com feridas profundas e laceradas. Provavelmente era uma dama da corte que trabalhava como ajudante de cozinha e passava os dias cuidando dos utensílios domésticos.

Suponho que me enganei ao esperar que ela fosse uma dama de companhia, pensou Jusetsu enquanto deixava a velha entrar. Mesmo assim, seu comportamento tornava impossível acreditar que se tratava de uma dama da corte de posição inferior — tudo, desde a forma como se curvou com as mãos juntas para agradecer a Jusetsu até o modo como caminhava e se sentava, parecia sugerir um status mais elevado. Talvez ela tenha começado como dama de companhia, mas tenha sido rebaixada por algum motivo, ponderou Jusetsu.

Jusetsu sentou-se em frente à senhora idosa, An.

Então, An começou a falar. "Por favor, aceite minhas sinceras desculpas por incomodá-la tão tarde da noite, quando você estava descansando merecidamente."

“Não me incomoda. Recebo visitas como essa de vez em quando”, respondeu Jusetsu.

"Há algo em que eu gostaria muito de pedir sua ajuda. Já pensei em vir aqui em busca de ajuda em inúmeras ocasiões, mas não consegui... Hoje, porém, finalmente decidi fazer-lhe uma visita."

A chama da lamparina de chão próxima tremeu lentamente, projetando uma sombra distorcida no rosto de Lady An. A luz fraca não alcançava os cantos do cômodo, deixando Jusetsu e seus arredores envoltos em uma densa escuridão.

"O que você me pediria?", perguntou Jusetsu diretamente.

An baixou ligeiramente a cabeça, e a sombra em seu rosto moveu-se com ela.

“Tem a ver com a consorte para quem trabalhei. Tive o privilégio de ser dama de companhia de Sai Enrin, a Consorte Pega, desde a época do Imperador das Chamas.”

[Kessel: O nome desse passarinho traduzido é Pega-Rabuda, por motivos óbvios, manterei apenas Pega. kkkkkk! (Muito lindo, por sinal! — E é um dos passarinhos mais inteligentes do mundo…)]

Como Jusetsu suspeitava, ela originalmente tinha um status mais elevado.

“A época do Imperador das Chamas — o penúltimo imperador — foi há bastante tempo”, comentou Jusetsu.

"Você diria isso? Para mim, não parece tanto tempo assim. Aliás, ontem parece que foi há muito mais tempo. Quando a gente fica mais velho, o tempo voa — os dias e meses passam num piscar de olhos, enquanto a gente se lembra do passado distante com a maior clareza. Parece que o que aconteceu com Enrin foi ontem."

“O que quer dizer com isso?”

“Ah, claro”, respondeu An. No entanto, suas ações não demonstravam muita vontade de falar sobre o assunto. Ela olhou para baixo, relutante em falar, e fitou atentamente as mãos apoiadas sobre os joelhos.

Então, finalmente, ela ergueu abruptamente o olhar. "Suponho que você não saiba como era a Consorte Pega do Imperador das Chamas, nem que tipo de destino a aguardava, sendo tão jovem. Hoje em dia, sei que pouquíssimas pessoas se lembram daquela época. Afinal, falar sobre ela era mal visto — na verdade, aqueles que sequer simpatizavam com ela eram descobertos e executados. Sendo assim, poucas pessoas discutiam o que havia acontecido, mesmo depois da ascensão de um novo imperador ao poder."

A sombra penetrava nas finas rugas do rosto de An, fazendo-a parecer ainda mais velha. A sensação de melancolia tornava a escuridão ao seu redor cada vez mais pesada.

“Você se importaria se eu lhe contasse a história dela? Quando eu não estiver mais aqui, não haverá mais ninguém que saiba a verdade sobre o que aconteceu com ela. Eu gostaria que você soubesse disso. Então... eu gostaria que você salvasse a alma dela. Por favor, encontre um jeito”, implorou An, e então começou a contar a história da antiga Consorte Pega.

 

Quando comecei a trabalhar para Enrin, eu tinha vinte e dois anos. Enrin tinha acabado de completar dez anos. Seu pai era um alto funcionário do conselho de pessoal e a criou com o máximo cuidado. Ela era a menina dos seus olhos. Eu era um parente distante deles, então minha linhagem era mais próxima da família principal do nosso clã do que a de Enrin. Naquela época, porém, seu pai era o mais bem-sucedido de todos os nossos parentes, pois havia sido promovido a um alto funcionário. Naturalmente, o clã tinha grandes expectativas em relação a ele, e esperavam particularmente que Enrin entrasse para o palácio interno e se tornasse uma das concubinas do imperador. Ela precisava ser muito educada e ter bons modos para se tornar uma consorte, e eu fui escolhida como a membro mais apropriada da nossa família para ajudá-la nessa jornada.

Nessa altura, eu já tinha sido casada uma vez e voltado para a casa dos meus pais depois do divórcio. Meu dia a dia era um sofrimento, mas depois que conheci Enrin, tudo mudou completamente.

Enrin era uma jovem absolutamente encantadora. Seu sorriso era tão belo quanto uma rosa de jardim e sua voz era pura como água cristalina. Naquele momento, jurei que a ajudaria a se tornar a consorte mais importante do reino.

Enrin era uma pessoa alegre e despreocupada. Gostava de ler contos curiosos e poesia narrativa, mas parecia ter aversão aos livros clássicos que mulheres e meninas supostamente deveriam ler — como Admoestações para Mulheres e Regras para Mulheres. Ela preferia contos incomuns e histórias de amor a obras mais complexas. Isso causava um pequeno problema, mas eu a ensinei o conteúdo desses livros de forma simplificada, e ela pareceu compreendê-los.

[Kessel: Admoestações significa “Avisos” ou “Conselhos”. São dois livros fictícios citados aqui dentro da obra, mas pelo caráter deles (e também pelo contexto), parecem tratar de livros de etiqueta para as mulheres. Muito comum no contexto antigo, e para ser honesto, existem até hoje.]

Um ano se passou — e depois outro — e a beleza de Enrin começou a brilhar como uma joia polida. Qualquer cavalheiro ficaria cativado por sua beleza; bastaria um único olhar. Sua habilidade com o qin — aquele instrumento de sete cordas — era incomparável, e ela escrevia e até compunha poemas. Seu lado descuidado — a maneira como não pensava nas consequências — era o único defeito daquela joia de jovem... Mesmo assim, eu acreditava, com orgulho, que nenhuma outra concubina do palácio jamais se compararia a ela.

Contudo… dois erros inesperados ocorreram. O primeiro teve a ver com a pessoa com quem Enrin deveria se casar. Embora desejasse que ela entrasse no palácio interno, o pai de Enrin não tinha intenção de enviar sua filha para o palácio do Imperador das Chamas, já que ele era o imperador na época. Ele planejava que ela fosse para a administração do príncipe herdeiro. Afinal, o Imperador das Chamas já estava em idade avançada e tinha uma imperatriz e filhos, então o palácio interno não tinha muita importância para ele. Sendo assim, poucas concubinas entravam no palácio interno naquela época. Casar Enrin com o príncipe herdeiro teria sido a coisa mais sensata a se fazer.

Ainda assim, os parentes maternos tanto da imperatriz quanto da princesa consorte puseram um fim nisso. Ambos os lados deviam temer que, ao ver a beleza de uma jovem tão prestigiada quanto Enrin, o príncipe herdeiro se apaixonasse por ela. Isso também se devia ao fato de o pai de Enrin ter uma rixa com a imperatriz e a família materna da princesa consorte. Teria sido melhor se eles tivessem conseguido minar ou ganhar o favor de seus parentes... mas parece que seus esforços falharam, e de uma maneira complicada.

Enquanto seu pai se desdobrava para fazer as coisas darem certo, alguém informou o Imperador das Chamas sobre a boa reputação de Enrin — provavelmente alguém próximo à imperatriz ou à princesa consorte. O Imperador das Chamas então se interessou por ela. O estranho é que o Imperador das Chamas não era conhecido por ser um conquistador, mas sim um marido devotado — o que nos leva a questionar por que ele se interessou por Enrin. Talvez sua mente estivesse lhe pregando peças na velhice, ou talvez ele quisesse estar com alguém jovem e bonita mais uma vez. De qualquer forma, parecia que ele estava impressionado com ela — e, por isso, nem mesmo o pai de Enrin teve escolha a não ser enviá-la ao palácio interno do Imperador das Chamas. Seja como for, ela chamou sua atenção, então pelo menos isso era um ponto positivo. O pai de Enrin parecia ter algumas reservas sobre a situação, mas eu achei maravilhoso. Parecia óbvio que ela conquistaria o favor do imperador. Mesmo que ele tivesse uma imperatriz, Enrin ainda seria sua concubina de mais alto escalão. Estaríamos vivendo em meio ao esplendor! Fiquei radiante e me dediquei aos preparativos para nossa entrada no palácio interno.

Enrin, por outro lado, não pareceu nada entusiasmada com a ideia. Foi aí que ocorreu o segundo erro.

Ela devia ter entendido desde jovem que faria parte do círculo íntimo do palácio — mas, naturalmente, presumia que iria para lá por causa do príncipe herdeiro. Era compreensível que ficasse chateada com essa realidade. A questão era que, mesmo que entrasse para o círculo íntimo do príncipe herdeiro, não havia garantia de que conquistaria seu favor. Bem, isso não era verdade — Enrin era o tipo de beleza que atraía os homens irresistivelmente... Ainda assim, ela seria uma das concubinas do imperador porque ele a queria. Havia uma grande diferença aqui, já que a batalha dela já estava ganha. Usei esse raciocínio para encorajá-la. Às vezes, eu também era firme com ela e dizia que não podia ser tão tímida. Ela precisava assumir o controle do círculo íntimo do palácio e apoiar o pai — e precisava se tornar a principal consorte do imperador.

Minhas palavras pareceram tocar Enrin. Ela sorriu para mim com lágrimas nos olhos e disse: "Você tem razão. Vou me lembrar disso."

No dia seguinte, porém, um ladrão invadiu a mansão. Ela estava repleta de ouro, prata e joias, em preparação para a entrada de Enrin no palácio interior, então presumo que eles estivessem de olho nessas riquezas. Havia pessoas de guarda do lado de fora, mas ele as pegou de surpresa e entrou sorrateiramente mesmo assim.

O ladrão agiu sozinho. Estranhamente, ele não foi até o cofre, mas forçou a entrada no quarto de Enrin. Meu quarto era ao lado do dela, mas, para minha vergonha, eu estava dormindo profundamente e não percebi o que estava acontecendo a tempo. O ladrão tentou sequestrá-la. Havia uma coleção deslumbrante de tesouros no cofre, mas talvez a segurança reforçada o tenha intimidado, ou qualquer outra coisa que tenha acontecido... Não faço ideia de como ele sabia onde ficava o quarto de Enrin, mas o ladrão estava tentando levá-la embora. Ouvi a luta e acordei.

O ladrão parecia estar sussurrando para ela em tom suplicante, como se tentasse acalmá-la. A voz de Enrin, por outro lado, estava abafada e difícil de entender, mas parecia que ela estava protestando repetidamente. Assim que me levantei, ouvi aquela troca de palavras por um breve instante, atordoada, e imediatamente pulei da cama. Peguei a faca debaixo do meu travesseiro e me joguei no quarto de Enrin, que era conjugado com o meu. Minhas pernas e pés tremiam tanto que eu não conseguia ficar de pé, mas gritei desesperadamente: "Tem um ladrão! Um facínora!"

Os membros da família entraram correndo de todas as direções, e o ladrão logo foi pego. Quando vi seu rosto à luz, fiquei chocado. Era alguém que eu conhecia. Não, ele era conhecido não só por mim, mas também por Enrin. Era um jovem da livraria da praça do mercado que visitava a mansão há anos. Ele sempre trazia, em segredo, os livros de poesia e contos que Enrin tanto apreciava. Não era uma livraria grande, mas era respeitável. Como a loja vendia livros clássicos, o rapaz não era nada ignorante, e todos nós o considerávamos uma boa pessoa…

Como o culpado não era um estranho, Enrin implorou em lágrimas ao pai que o deixasse escapar. Ela era tão bondosa. Isso não mudava o fato, porém, de que ele havia tentado sequestrar sua filha, que estava prestes a entrar no palácio interno. Era o equivalente a se opor ao imperador. Se alguém lhe mostrasse misericórdia, seria suspeito de traição. Contudo, não podíamos arriscar que se espalhasse o boato de que Enrin quase foi sequestrada, então seu pai decepou a cabeça do jovem no jardim. Seus pais foram informados de que ele havia invadido a mansão, a loja fechou e eles foram expulsos da capital imperial.

Uma pessoa em quem Enrin confiava e com quem era próxima por tantos anos acabou por ser um ladrão que tentou sequestrá-la… e, para piorar a situação, foi decapitado por isso. Ela ficou devastada. Passava os olhos fixos no jardim onde ele foi decapitado, perdida em pensamentos… A terra absorveu tanto sangue que seu pai teve de substituí-la. Felizmente, a notícia do incidente nunca vazou para o imperador, e Enrin mudou-se para o palácio interno sem problemas.

O imperador concedeu o Palácio Jakuso a Enrin, e ela foi recebida como sua Consorte Pega. Pode ter havido alguns percalços pelo caminho, mas, no geral, Enrin fez uma entrada segura no interior do palácio.

Se o imperador a tivesse tratado com a delicadeza que esperávamos, tudo teria corrido às mil maravilhas para nós… mas mesmo duas semanas depois de ela ter chegado ao palácio interno, o imperador ainda não tinha visitado Enrin. Ela esperou e esperou, mas ele nunca foi encontrado no próprio palácio interno. Ouvimos dizer que o imperador estava muito ocupado a lançar as bases da nova dinastia para passar qualquer tempo no palácio interno, e parecia mesmo ser esse o caso. Oficialmente, tinha havido uma transição pacífica de poder da dinastia anterior, mas isso só no papel. Não, espere — isso foi demais. Finja que não ouviu isso, por favor.

Ainda assim, o imperador não só estava ocupado com outras coisas, como seus eunucos pareciam estar atrapalhando de propósito. Eles inventavam todo tipo de desculpa — dizendo que a Consorte Pega não estava se sentindo bem naquele dia ou que estava menstruada, por exemplo. A situação não era boa, e eu entrei em pânico. Quando se tratava de assuntos internos, um único comentário de um dos eunucos do imperador podia ter um impacto fenomenal. Imediatamente enviei uma carta ao pai de Enrin e pedi que ele providenciasse todo o dinheiro e seda de que precisávamos. Distribuí tudo entre os eunucos do imperador, e eles me garantiram que, quando seu mestre visitasse o Palácio Jakuso em breve — contanto que estivesse de bom humor —, eles intercederiam por nós. Eu me ressentia de ter que subornar aqueles eunucos tolos para nos fazerem um favor, mas às vezes é preciso fazer sacrifícios. Eu estava fazendo isso por Enrin.

Enquanto eu me esforçava ao máximo para encontrar uma solução para ela, Enrin simplesmente passava o tempo olhando fixamente para o jardim. Sugeri que ela tocasse seu qin, mas ela nem sequer quis tocá-lo. Foi tão frustrante para mim, pois tive que engolir meu orgulho e me humilhar diante daqueles eunucos…

Enrin tinha uma pequena bolsa de cetim que trouxe de casa. Guardava-a em segurança no bolso do peito. Eu não sabia o que havia dentro. Ela a apertava com força enquanto contemplava o jardim.

Um dia, cheguei ao meu limite com o comportamento dela e explodi. "Ele pode te visitar hoje à noite, quem sabe!", eu disse. "Como você pode ser tão covarde e irresponsável? Você é uma consorte!"

“Nunca desejei me tornar uma consorte”, ela me disse.

Fiquei estupefata. Estava completamente sem palavras, a própria definição de atônita. "Do que você está falando depois de todo o esforço que fizemos para que isso acontecesse?", repreendi-a repetidamente. Gentilmente, tentei convencê-la de que talvez fosse a ausência do imperador que a estivesse deixando nervosa. Eu a havia criado desde pequena, então conhecia muito bem o temperamento de Enrin. "Os eunucos me prometeram", eu lhe disse. "Sua Majestade estará aqui antes que percebamos."

"Eu queria que ele nunca viesse", disse Enrin, com um olhar de desespero no rosto.

“Do que você está falando?”, perguntei. Senti vontade de criticá-la novamente, mas reprimi o desejo. Mas então…

"Se você ama tanto Sua Majestade, por que não se torna sua consorte?", respondeu ela.

Eu estava furiosa. Levantei a mão sem perceber o que estava fazendo. Estava prestes a lhe dar um tapa na cara, mas recobrei o juízo a tempo e não o fiz. Bem, não acertei o rosto dela, mas acabei batendo nela mesmo assim. A bolsa de cetim que ela segurava caiu no chão e se abriu. Algo se derramou — parecia terra. Percebi que era mesmo terra. Peguei-a e a aproximei do meu rosto. Tinha um forte odor metálico, e só pude presumir que fosse cheiro de sangue.

Eu não conseguia acreditar.

Comecei a perguntar a Enrin de onde vinha aquilo. Ela confessou que era do jardim de casa. Era a terra do local onde aquele jovem tinha sido decapitado. Antes que o pai a substituísse, Enrin secretamente colocou um pouco dela num saco.

Eu não conseguia entender por que algo assim seria tão importante para ela. Bem, eu conseguia pensar em um motivo, mas era difícil de acreditar. Será que Enrin realmente tinha sentimentos assim por ele...?

Usei as duas mãos para juntar a terra do chão. Corri para o jardim, joguei-a no chão e pisei nela. Pisei até que a terra que já estava no jardim e a terra encharcada com o sangue daquele jovem se misturassem. Esmaguei tudo com as solas dos meus sapatos até que se tornassem uma só. Enrin se agarrou às minhas pernas e implorou para que eu parasse enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto. Ela desabou sobre o chão que eu havia pisoteado e chorou copiosamente.

Eu já não reconhecia aquela jovem.

Eu não sabia para onde tinha ido a Enrin de quem eu havia falado. Essa não era ela.

O homem por quem ela se apaixonou não era o imperador, nem mesmo um funcionário erudito — ele não passava de um rapaz de uma livraria. De jeito nenhum minha Enrin teria se desmanchado em lágrimas por alguém assim.

Senti como se estivesse envolto numa névoa escura, incapaz de pensar em qualquer coisa. Quando recobrei a consciência, me vi sentada num pufe, atordoada. Nesse instante, um eunuco chegou e anunciou que o imperador faria uma visita naquela noite. Ao ouvir o aviso, finalmente me recompus. Sua Majestade estava vindo. Sua Majestade finalmente estava vindo. Certamente isso resolveria tudo. Os eventos daquele dia deviam ter sido um sonho. A ansiedade de o imperador não aparecer tinha se tornado insuportável. Tudo não passou de um devaneio meu.

Mas… onde estava Enrin?

Presumi que ela estaria em seu quarto nos fundos do palácio. Corri para lá, cheia de alegria, para lhe contar as boas notícias, mas estava completamente vazio. Onde ela poderia ter ido parar em um momento tão importante? Ela precisava tomar um banho e vestir uma roupa deslumbrante e bonita. Talvez o vermelho fosse apropriado — ou até mesmo um rosa jovial. Eu arrumaria seu penteado, colocaria um grampo de jade em seu cabelo e lhe daria alguns enfeites dourados para complementar seu traje.

Enquanto ponderava essas opções, continuei procurando por Enrin. Percebi que havia uma pequena possibilidade de ela ainda estar chorando no jardim. Se estivesse, eu teria que lhe dar uma bronca daquelas dessa vez. Não... talvez consolá-la tivesse sido a coisa certa a fazer. Cheguei a considerar usar minha própria história triste para conseguir o que queria. Mas então, lembrei-me: tudo não passara de um devaneio, então o jardim era o último lugar onde eu a encontraria.

Ela não estava lá. Senti alívio. Eu sabia que tinha sonhado com tudo aquilo. Ainda conseguia ver as marcas de meus passos no chão, mas eu havia pedido a um eunuco para cortar o arbusto de sorbária recentemente. Provavelmente foi ali que ele pisou. Era assim que os eunucos eram. Se você lhes desse a ordem de cortar um tipo de flor, eles pisoteariam as outras flores à sua frente sem pensar duas vezes. Afinal, eles só podiam fazer o que lhes mandavam.

Às vezes, eu nem ficava satisfeita quando eles faziam o que eu mandava. Pisando no chão daquele jeito... Bem, eu tinha que mandar arrumarem tudo de novo.

Ainda assim, eu precisava encontrar Enrin primeiro, então anotei mentalmente para dar essas ordens a eles mais tarde e segui para o outro extremo do jardim. Naquela parte da propriedade, havia um lago grande e belo. A superfície da água estava sempre brilhante e calma, como um espelho. De repente, senti como se pudesse ouvir a voz de Enrin vindo daquela direção. O som me lembrava água límpida — clara e cristalina.

“Enrin”, chamei-a ao chegar à margem do lago. A superfície da água brilhava intensamente, como sempre. Os salgueiros plantados ao redor do lago refletiam-se na água. Uma leve brisa passou por mim, fazendo com que suas folhas balançassem e ondulações surgissem na superfície do lago. Senti como se pudesse ouvir a voz de Enrin novamente e olhei em volta.

Havia algumas plantas de cauda de lagarto crescendo na beira da água. Cerca de metade de suas folhas estava branca — como se tivessem sido polvilhadas com pó branco — e seus pequenos botões de flores pendiam para baixo. Ao lado delas, havia um par de sapatos de brocado. Eram de cores vivas e tinham um padrão de folhas florais bordado.

Eram as que Enrin gostava de usar.

Corri até eles e observei a superfície da água. Estava maravilhosamente calma, com apenas ondulações mínimas surgindo de vez em quando. Imediatamente me virei para voltar em direção ao palácio, mas hesitei.

A Enron provavelmente estava afogando e eu precisava tirá-la de lá rapidamente — mas, por outro lado, não podíamos deixar as coisas piorarem. E se o imperador descobrisse isso?

Mesmo assim, não havia a menor possibilidade de eu mergulhar sozinha. Joguei os sapatos dela no lago, voltei ao palácio e anunciei que Enrin havia caído na água por engano. Ordenei às damas da corte que acendessem uma fogueira e preparassem muitas toalhas. Pedi aos eunucos que vasculhassem a água. O lago estava limpo, então eles encontraram Enrin relativamente rápido e conseguiram retirá-la da água. No entanto, seu pulso já havia parado. Não importa quanto tempo esperássemos, ela nunca mais recuperou a consciência.

Uma consorte havia se afogado antes da visita do imperador. Se tal notícia viesse à tona, seria um desastre. Eu contornei os fatos e disse que Enrin, por uma ironia do destino, havia escorregado e caído na água. Ninguém testemunhou o incidente, então não podiam negar minha versão dos fatos. Decidiu-se que Enrin havia falecido em um acidente imprevisto. Isso não mudava, porém, o fato de que tudo aconteceu por minha incompetência. Enrin era uma consorte que aguardava a visita noturna do imperador. A imperatriz condenou a maneira como ela caminhava na beira da água, chamando-a de comportamento descuidado e imprudente, impróprio para uma consorte.

Naturalmente, o imperador também ficou furioso. Eu seria punida, juntamente com os eunucos e as damas da corte que trabalhavam no palácio de Jakuso. Até mesmo o pai de Enrin recebeu parte da culpa. Se uma consorte conquista o afeto do imperador, os benefícios disso se estendem aos seus parentes — mas se ela comete um erro, eles também são envolvidos. Seu pai foi removido de seu cargo como alto funcionário do conselho de pessoal e relegado à província de Gaku. A perda de sua preciosa filha, Enrin, deve tê-lo deprimido profundamente — ele faleceu apenas seis meses depois, na região para onde havia sido enviado para trabalhar.

Fui enviada para os aposentos de purificação, onde as damas da corte que cometiam crimes ou adoeciam acabavam. Chamam de cemitério das damas da corte. Desde então, passo meus dias lavando vestes sujas. Minhas mãos estão constantemente imersas na água de uma bacia, e não tenho nem um minuto para secá-las. É por isso que tenho essas rachaduras dolorosas e profundas nas mãos. Por que preciso continuar lavando vestes em água fria, dia após dia? Se Enrin ainda estivesse viva, eu não teria que sofrer assim…

Posso reclamar o quanto quiser, mas o que está feito, está feito. Enrin não está mais aqui... Quando estou cuidando das vestes, consigo ouvir a voz dela em meio aos respingos. A voz dela é tão clara quanto a água com a qual trabalho. Juro que não estou imaginando coisas. Tenho certeza de que a voz dela vem daquele lago e chega até mim através dele. Mas nunca consigo entender o que ela está dizendo. Parece quase que ela está chorando. Ouço isso o dia todo, todos os dias. Não passa um dia sem que eu ouça. Ela está me chamando. Toda vez que mergulho as vestes, toda vez que as esfrego para limpá-las, a voz dela ressoa — linda e clara.

Sinto muita pena de Enrin. Sua alma ainda vagueia por aquele lago. Oh, dói-me pensar nela sofrendo assim.

Querida Consorte Corvo, por favor, salve-a para mim. Por favor, envie sua alma para o paraíso.

Por favor.

[Kessel: Essa é provavelmente uma das histórias mais tristes que eu já li. Caraca, que golpe.]

 

Após An implorar por ajuda a Jusetsu, a velha desapareceu lentamente como uma nuvem de fumaça. Jusetsu soltou um pequeno suspiro e se levantou.

Parecia que An não tinha conseguido chegar ao paraíso.

“De vez em quando recebo visitantes como você”, disse Jusetsu quando An chegou pela primeira vez, e era verdade. Não era a primeira vez que ela recebia um visitante assim — um fantasma que vinha ver a Consorte Corvo. Alguns percebiam que estavam mortos, enquanto outros não faziam ideia. An parecia ser um destes últimos.

Jusetsu abriu as cortinas que cercavam sua cama e voltou para dentro. Jogou a jaqueta que vestia sobre o pufe. Shinshin dormia profundamente mais uma vez. Ela observou o pássaro com o canto do olho enquanto estava sentada na cama, e então se deitou.

“Então, você quer que eu salve Enrin, hein…”

Jusetsu encarou a escuridão com um olhar vago antes de fechar os olhos novamente. Logo em seguida, adormeceu.


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