Corvo do Palácio Interno Japonesa

Tradução: Kessel

Revisão: Jaque


Volume 2

Capítulo 2: A Voz da Água (Parte 1)

Quando Koshun desceu de sua liteira, caminhou entre seus subordinados ajoelhados e parou em frente a um velho — que também estava de joelhos, como esperado.

"Você está bem, Setsu Gyoei?", perguntou Koshun, incentivando o homem a se levantar.

“Consigo me mover mais ou menos depois de tomar meu remédio amargo todas as manhãs e todas as noites. Acho que terei que considerar a aposentadoria em um futuro não muito distante.” Sua resposta foi tão evasiva que era incerto o que ele realmente pensava.

Para Koshun, o homem parecia bastante bem, considerando sua idade.

“Prevejo uma onda de calor repentina em breve. Isso será difícil para um velho como eu”, continuou Gyoei.

“Consigo imaginar você aqui daqui a cem anos, dizendo exatamente a mesma coisa.”

“Não seja tão tolo”, disse o homem, dando uma risada. Seu riso era forçado e arrastado. Parecia que ele estava fingindo. “Então, o que você precisa deste velho gagá hoje?”

Koshun foi conduzido ao prédio do Ministério de Inverno, no centro do Santuário Seiu, e sentou-se em frente a Gyoei em uma das salas. O santuário e seus edifícios pareciam tão desgastados como sempre. Talvez a limpeza fizesse com que as colunas descascadas e as mesas velhas e desbotadas se destacassem ainda mais.

“Não preciso de nada urgente da sua parte”, disse Koshun.

“E mesmo assim você se deu ao trabalho de vir ver este meu rosto velho, enrugado e barbudo? Que honra.”

O velho tinha barba branca e seu rosto parecia dizer: "Você deve estar entediado".

No entanto, esse não era o caso.

“Vim para ouvir sobre a Consorte Corvo.”

Gyoei ergueu as sobrancelhas brancas e alongadas. Os olhos penetrantes, que estavam escondidos sob elas, se arregalaram. O homem vestia um manto cinza-escuro e um adorno de cabeça cor de cinza-escuro chamado futou. Suas vestes eram semelhantes às dos eunucos, mas este homem não era um. Mantos cinzas eram o emblema dos servos de Uren Niangniang. Além disso, o Ministro do Inverno era uma das poucas pessoas que sabiam quem era realmente a Consorte Corvo.

“Você disse isso quando esteve aqui da última vez. Bem, eu não conheço a Consorte Corvo melhor do que ela mesma, mas…” disse Gyoei, sendo evasivo.

“Não é sobre a ‘Consorte Corvo’ que quero ouvir falar, propriamente dita. É sobre Jusetsu, ou até mesmo Reijo.”

Gyoei ficou em silêncio e encarou Koshun por cima das sobrancelhas. "Por que será?", perguntou ele.

“Porque sou curioso”, respondeu Koshun.

“Não acho isso muito sábio da sua parte.” Gyoei fez uma careta. “Estou surpreso em ouvi-lo dizer isso agora, depois de descobrir as circunstâncias dela. Aconselho que você e a Consorte Corvo não tenham nada a ver um com o outro, Vossa Majestade.”

“Mesmo que seja minha culpa ela estar presa lá dentro?”

“Não é sua culpa, Majestade. Se é culpa de alguém, então é do primeiro imperador da dinastia Ran, Ran Yu.”

Foi Ran Yu quem transformou a posição de Soberana do Inverno na de Consorte Corvo e trancou a mulher da época no palácio interno.

“Enquanto eu estiver nesta posição, não posso me eximir da culpa. É meu dever aprender mais sobre a Consorte Corvo. Tenho a obrigação de descobrir que tipo de vida as Consortes Corvo levaram e que tipo de vida aguarda a jovem mulher de hoje. Devo ver com meus próprios olhos.”

Gyoei soltou um suspiro de desespero. "O senhor leva as coisas muito a sério, Majestade. E também é muito ousado. Talvez eu devesse dizer generoso... não, essa não é a palavra..." disse ele. O homem parecia completamente perplexo.

Os olhos de Gyoei percorriam o quarto incessantemente. Ele parecia estar procurando desculpas para se safar do que havia dito.

“Gyoei”, disse Koshun. “Nada de piadinhas. Você não vai se safar dessa.” Koshun raramente elevava a voz, mas havia um toque de aspereza gélida em seu tom, geralmente calmo.

Gyoei arregalou os olhos e, sem jeito, virou o rosto. Para Koshun, foi ligeiramente satisfatório ver a máscara do velho astuto cair.

“Você me disse antes que Reijo o cumprimentou quando o cargo foi transferido. Você a conheceu pessoalmente?”, perguntou o imperador.

Gyoei começou a falar com relutância. "Eu... nunca mais a vi depois que ela se tornou a Consorte Corvo. A mudança de posição que mencionei é aquela que ocorre quando a Consorte Corvo morre. Quanto à saudação que mencionei..."

Gyoei interrompeu-se abruptamente e encarou o chá que estava sobre a mesa. Piscou algumas vezes.

“A antiga Consorte Corvo apareceu diante de mim após falecer.”

“Como fantasma?”

"Sim", respondeu Gyoei, com um tom de tédio. "Ela veio pedir que eu cuidasse de Jusetsu."

“Então Reijo deve ter confiado o suficiente em você para fazer isso”, comentou Koshun. “Você não a conheceu depois que ela se tornou a Consorte Corvo, mas isso deve significar que vocês se conheceram antes disso, não é?”

Gyoei franziu a testa. O velho parecia um pouco desconfortável.

“Sua suposição está correta, mas devo admitir que acho um tanto difícil conversar com você quando me interroga dessa maneira. Você está manipulando cada palavra que eu digo para me induzir a contradições.”

“Se eu não te interrogasse sobre cada detalhe, você não me contaria nada.”

Gyoei se calou em resposta. O Ministro do Inverno trabalhava para Uren Niangniang e obedecia às ordens da Consorte Corvo. Gyoei já havia revelado isso antes. Ele não precisava obedecer às ordens do imperador.

Koshun não havia trazido Eisei consigo hoje, mas se ele estivesse lá, a atitude de Gyoei o teria irritado. Foi por isso que Koshun optou por deixá-lo para trás.

O velho suspirou. “…A família de origem dela era a minha família principal. O pai dela era o chefe da nossa organização militar regional, e o meu pai era um dos soldados da família dele. O chefe era um sujeito bastante simples e muito gentil comigo. Ele disse que eu tinha potencial e contratou um tutor acadêmico para mim. Esse tutor dava aulas para mim e para a Reijo, juntos. Assim como o pai dela, a Reijo era inteligente e tratava todos com igualdade…” Gyoei tossiu. “Bem, chega disso. Enfim, eu e a Reijo nos conhecíamos superficialmente.”

Isso parecia ser um eufemismo enorme. Gyoei provavelmente era um amigo de infância de Reijo — alguém em quem ela podia confiar.

“Quando Reijo foi escolhida como sucessora da Consorte Corvo?” 

“Ela devia ter… talvez uns quatorze ou quinze anos.”

“Isso é mais tarde do que eu esperava. Ouvi dizer que Jusetsu foi selecionada quando tinha seis anos.”

“Tudo depende da vontade de Uren Niangniang. É impossível para pessoas como nós compreenderem.”

Acho que você quer dizer que tudo se resume a um capricho, pensou Koshun de repente.

"Presumo que ela tenha sido levada para o palácio interno?"

“De fato. Quando a Consorte Corvo anterior faleceu e Reijo assumiu o papel, ela tinha vinte e três anos de idade.”

"Acredito que Jusetsu tinha quatorze anos quando assumiu o cargo... Levou oito anos para ambas, não é? Será que a próxima Consorte Corvo é escolhida oito anos antes da atual falecer?"

Gyoei não respondeu a essa pergunta diretamente. Ele simplesmente disse: "Oito é o número sagrado."

“Reijo sabia quanto tempo lhe restava — e por isso usou esse tempo para ensinar a Jusetsu tudo o que podia, não é?”

Gyoei tomou um gole de chá em silêncio.

Koshun olhou fixamente para o rosto dele. "Quando você entrou para o Ministério do Inverno?", perguntou.

“Ah, então você também gostaria de saber sobre esse velho senil, não é?”

“Eu estava me perguntando se você se tornou Ministro de Inverno para ajudar Reijo.”

“O que o Ministro do Inverno poderia fazer para ajudá-la?”, disse Gyoei com uma voz ligeiramente irritada, antes de desviar o olhar, constrangido. “Eu… eu entrei para o Ministério do Inverno aos vinte e quatro anos. Naquela época, se você não fosse de uma família proeminente, não podia ser nomeado funcionário — mesmo que passasse no exame imperial e se destacasse no mais alto nível. O Ministério do Inverno, no entanto, era o único departamento que abria suas portas para pessoas comuns. Acredito que essa foi a única razão pela qual fui designado para este cargo.”

"Entendo", respondeu Koshun simplesmente.

“Era um pouco mais animado quando cheguei aqui”, disse Gyoei com uma risadinha enquanto tomava outro gole. “Havia facilmente o dobro de subordinados do que agora — embora o fato de serem um amontoado de rejeitados que não conseguiram se tornar funcionários continuasse o mesmo. Mesmo assim, todos são excelentes à sua maneira. Afinal, eu mesmo os treinei.”

“Você simplesmente os treina e depois os deixa ir, não é?”

A maioria dos subordinados do Ministério de Inverno foi nomeada para cargos oficiais após alguns anos. Esse era o caminho que lhes foi traçado. Era o caminho que Gyoei também havia trilhado ao longo de sua longa vida. Ele podia ter um emprego confortável, mas até mesmo o grão-chanceler e o alto funcionário — os homens de confiança de Koshun — reconheceriam a superioridade de Gyoei.

“Sim, embora haja algumas exceções que ficam. Pretendo pedir a um deles que cuide dos meus assuntos quando eu partir.”

Ele falava como se sua aposentadoria fosse iminente. Talvez ele realmente pretendesse deixar o cargo em breve.

“Se você quiser se aposentar, eu permitirei, mas… antes disso, me permitiria apresentar-lhe a Jusetsu?”

"A Consorte Corvo?" disse Gyoei, erguendo uma sobrancelha com ceticismo. "O que ela ganharia sendo obrigada a se associar a um velho tolo como eu?"

“Conte a ela sobre Reijo. Ela ficará encantada em saber mais sobre ela.”

Ou pelo menos, provavelmente ficaria. Provavelmente.

Gyoei encarou Koshun atentamente por alguns instantes. Ele não parecia estar chocado, nem parecia estar zombando dele desta vez. Ele simplesmente encarava o jovem imperador com os olhos desprovidos de emoção. Não parecia haver nada em seu olhar.

“Muito bem. Se você tem certeza de que sou digno de tal honra, então seria um privilégio aceitá-la.”

Após fazer essa declaração, Gyoei levantou-se de seu assento e fez uma reverência. Ao fazê-lo, era impossível ver a expressão em seu rosto.

***

Quando Jusetsu chegou ao Palácio Yamei, era uma garotinha desgrenhada, coberta de poeira e sujeira. Reijo ordenou que sua serva, Keishi, a banhasse no banheiro nos fundos do palácio e a vestisse com um robe de seda limpo. Assim que foi limpa, os impressionantes cabelos prateados da menina foram revelados — prova de que ela era descendente da família imperial da dinastia anterior. A visão não surpreendeu Reijo. Ela já sabia de tudo.

Reijo estava preocupada. Jusetsu tinha tingido o cabelo de preto, mas não compreendia totalmente a angústia de Reijo. Só entendeu depois que Reijo lhe explicou a situação.

Jusetsu tinha algum parentesco com a família imperial da dinastia anterior. Todos os seus membros haviam sido executados, inclusive sua própria mãe. Reijo explicou que Jusetsu agora seria obrigada a viver não apenas na capital imperial, mas também sob o jugo do imperador no palácio interno. Ela explicou que fora decisão de Ran Yu, um ancestral de Jusetsu, confinar a Consorte Corvo no palácio interno.

Jusetsu talvez tivesse entendido, mas não pensou muito nisso na época. Depois de perder a mãe, o coração da jovem ficou vazio. Ela não sabia mais como sentir emoções e já fazia alguns anos que não sentia nada.

Jusetsu sempre parecia apática e mal reagia a qualquer coisa. Reijo pacientemente a ensinou a escrever, a ler livros, a falar corretamente e a preparar refeições. No entanto, cada novo conhecimento trazia sofrimento à criança. Ela descobriu o quão injusta foi a execução de sua mãe e o quão irônico era estar agora aprisionada no Palácio Yamei. Ela se ressentia e lamentava o ocorrido, e a jovem se sentia vazia. Assim que suas emoções se esgotavam, ela recomeçava, começando com raiva. Ela se cansou de dar voltas em círculos sem nunca obter respostas. Jusetsu descontava todas as suas emoções negativas em Reijo, pois não tinha outra forma de expressá-las.

Apesar de paciente, Reijo também era rigorosa. Ela podia estar preocupada e com medo por Jusetsu, mas não deixou que a pena que sentia a fizesse pegar leve com a garota.

“É você quem tem que continuar vivendo esta vida”, disse Reijo, “não eu”.

A pena não ajudaria ninguém. Ela disse a Jusetsu para deixar seu conhecimento crescer e usar sua inteligência. Insistiu que a garota não tinha escolha a não ser levar as coisas até o fim — ninguém mais poderia tomar o seu lugar.

Jusetsu ainda sentia como se pudesse ouvir a voz de Reijo repreendendo-a. "Consorte Corvo."

Ishiha estava copiando algumas linhas e ofereceu seu pedaço de papel de cânhamo para Jusetsu. Sentada em frente a ele, ela pegou o papel de suas mãos e o revisou.

“Muito bem. Você aprende rápido”, disse ela, acenando com a cabeça. Ishiha sorriu, parecendo satisfeito com o feedback.

Os dois estavam no quarto de Jusetsu, no Palácio Yamei, e ela o ensinava a escrever. Ishiha não tinha muita dificuldade para falar, mas praticamente não sabia ler nem escrever. Muitos eunucos eram analfabetos — mesmo aqueles que não pertenciam a tribos minoritárias do interior.

"Você deveria saber ler e escrever", disse Jusetsu a ele, e então o acolheu sob seus cuidados — para ensiná-lo, assim como Reijo a ensinara um dia.

Jiujiu achou que seria um desperdício usar papel novo para praticar a escrita, então foi ao Palácio Eno e ao Palácio Hien para conseguir alguns pedaços de papel para eles usarem. Kajo e Koei ficaram felizes em lhe dar alguns. Assim que Ishiha preenchesse uma folha de papel com sua caligrafia, deixando-a completamente preta, a folha se tornaria um brinquedo para Shinshin. O pássaro brincava com o papel aos pés de Jusetsu, rasgando-o em pedaços com o bico.

[Kessel: O protagonista da história também se diverte. Shinshin neles!]

“Vamos fazer uma pequena pausa. Já deve haver alguns figos prontos para comer”, disse ela.

"Está tudo bem, eu não..." disse Ishiha, demonstrando uma relutância respeitosa em aceitar a gentileza de Jusetsu.

Jusetsu o deixou ali e se virou em direção à cozinha.

"Você está tirando uma folga, niangniang?" Jiujiu perguntou, olhando para Jusetsu enquanto ela entrava na cozinha.

Jiujiu estava fervendo chá em uma chaleira. Ao lado dela, Kogyo preparava os utensílios para o chá. Ela deu um sorriso para Jusetsu e gesticulou para apontar para o espaço atrás dela. Kogyo se comunicava dessa forma porque sua língua havia sido cortada há algum tempo — ela não conseguia falar.

Jusetsu se virou e viu Keishi prestes a entrar na cozinha com uma cesta de bambu nas mãos. A mulher tinha uma constituição robusta, braços e pernas fortes, e era excepcionalmente forte para uma senhora idosa. Seus lábios estavam contraídos, formando uma linha reta, mas não era por mau humor ou raiva — algo que Jusetsu descobriu há cerca de duas semanas após chegar ao Palácio Yamei.

Até então, a jovem tinha sentido um pouco de medo dela.

Keishi aproximou-se de Jusetsu e, silenciosamente, mas sem hesitar, estendeu-lhe a cesta. Dentro dela, havia alguns figos vermelhos e maduros.

“Obrigado”, disse Jusetsu, pegando três figos. “Podem comer o resto.”

Jusetsu então voltou para o outro cômodo. Os figos que ela segurava exalavam um agradável aroma adocicado — um aroma peculiar que só as frutas maduras possuem.

Apesar da vergonha que sentia por abusar da generosidade da consorte, os olhos de Ishiha brilharam ao ver a fruta que Jusetsu lhe ofereceu. Ele era um menino em crescimento, então poderia devorar duas frutas inteiras num piscar de olhos. Shinshin também queria um pouco e começou a se comportar de forma indisciplinada — Jusetsu deu um pouco de sua fruta para Shinshin também, para acalmar o pássaro.

Foi então que Ishiha explicou a ela que era a primeira vez que comia figos. "Não cultivavam nenhuma fruta na minha aldeia." Ishiha era de uma vila de pescadores no litoral.

“Quando íamos à casa do patrão do pescador, às vezes ele nos dava laranjas koji — mas só de vez em quando. Eram azedas, mas deliciosas. Meus irmãos, minhas irmãs e eu comíamos todos juntos”, disse Ishiha, rindo.

Ele ainda estava na idade em que devia sentir falta dos pais, mas nunca demonstrou. Ele devia estar escondendo isso intencionalmente das outras pessoas.

“Você disse que era de Roko, na província de Gei, não é? Que tipo de peixe se pode pescar nessa região?”

Sempre que Ishiha era questionado sobre sua cidade natal, ele gesticulava alegremente enquanto falava.

“Dá para pescar linguado e cavala. Às vezes, eles me deixam andar de barco e ajudar na pesca. Sabia que, quando se pesca, a gente usa as estrelas como guia? A Ursa Maior, ao sul, é o sinal de que você está voltando da pescaria — e quando a constelação da ponta de flecha dourada aparece no céu, você sabe que é época de pesca. E quando a constelação do pente de flores fica nebulosa, é sinal de que a pesca será ruim por causa do mar agitado. Nessas horas, os mais velhos da aldeia nos contavam histórias de antigamente — como a história da tartaruga gigante que saiu do mar, ou a história do mergulhador que se afogou quando sua mão ficou presa em um grande abalone no fundo do mar...”

Era a primeira vez que Jusetsu ouvia muitas dessas lendas daquela aldeia distante, então ela ficou fascinada. No entanto, alguns desses contos populares também eram compartilhados em sua região de origem.

“Disseram também que, há muito, muito tempo, um deus que pecou foi esquartejado e lançado na água. Seu corpo acabou se tornando as ilhas onde vivemos hoje”, disse Ishiha.

“A mesma história é contada por toda esta região”, disse Jusetsu. Era um mito que explicava a origem da terra. “Ouvi dizer que trupe de aves canoras costumavam viajar contando histórias assim. É por isso que as pessoas em toda a região transmitem a mesma versão.”

“Sério?” respondeu Ishiha.

“Do que você está falando?” perguntou Jiujiu. Ela entrou na sala, trazendo uma bacia para que eles pudessem se lavar. Suas mãos e bocas estavam pegajosas por causa dos figos.

"Um deus que pecou era..." Ishiha começou a repetir, mas Jiujiu assentiu e o interrompeu antes que ele pudesse terminar a frase.

“Ah, aquela! O torso do deus que foi esquartejado formou esta ilha, a cabeça se tornou a Ilha Je, e os braços viraram a Ilha Pafan… ou pelo menos é o que dizem. De repente, surgiu a terra, plantas cresceram e pessoas nasceram de seus cadáveres mutilados… Um pouco assustador, não é?” disse Jiujiu, sem rodeios. “Depois que minha avó me contou essa história, fiquei com tanto medo de pisar no chão por um tempo. Eu ficava pensando que era feito de um cadáver!”

Ishiha piscou, surpreso. Parecia que o garoto nunca tinha pensado nisso dessa maneira.

“Muitas coisas diferentes são trazidas pela correnteza para a praia. Na minha aldeia, havia uma enseada onde as pessoas que caíam no mar eram levadas pela correnteza de volta para a terra. Às vezes, eu via pessoas flutuando lá — então acho que é isso que o oceano representa. Eu até vi uma coisa parecida com uma água-viva brilhando lá dentro. Uma pessoa idosa da aldeia me disse que era a alma de alguém que havia morrido no mar.”

“Ah…” Jusetsu imaginou uma alma vagando pelo mar à noite, brilhando fracamente. Era uma cena bela, porém triste. “Que interessante”, disse ela.

Ishiha parecia satisfeito consigo mesmo e corou. Então, começou a contar uma história que ouviu de um idoso morador de sua aldeia. Jusetsu escutou atentamente enquanto lavava as mãos na bacia. Logo depois, Kogyo trouxe um chá e se juntou a eles. O sol da tarde, entrando pelas janelas de treliça, brilhava forte e o Palácio Yamei estava imbuído de uma sensação de calma.

O som das risadas de Jiujiu e Ishiha, o calor do sorriso de Kogyo e a conversa animada entre eles fizeram Jusetsu sentir-se estranha por estar ali.

[Kessel: A gente queria que a Juju vivesse assim, né? Sensação boa de paz, estar entre pessoas queridas, compartilhar boas histórias e bons alimentos…]

Ao mesmo tempo, era sempre em momentos como esse que ela ficava ansiosa.

Ela sentiu uma sensação como se uma mão fria tivesse agarrado seu tornozelo de repente.

"Pare", ela podia imaginar Reijo lhe avisando.

Jusetsu, no entanto, estava impotente para fazer qualquer coisa. Ela se sentia completamente perdida.


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