Volume 2
Capítulo 1: A Andorinha Azul (Parte 2)
Na manhã seguinte, às 8h, a hora do dragão, chegou o mensageiro que Koshun havia enviado. Era Onkei.
“Recebi a gentileza de receber um bilhete do Atendente Ei. Trata-se do registro de eunucos do Palácio Hien durante o reinado do imperador anterior.”
Ao abrir a carta, Jusetsu encontrou alguns nomes escritos com uma caligrafia impecável. Eisei devia tê-los copiado diretamente do registro. Ela notou que não só a caligrafia era consistente, como também a densidade da tinta. O fato de não ser nem muito clara nem muito escura em nenhum ponto era indicativo da personalidade de Eisei.
“Acredito que os locais onde os eunucos estão trabalhando atualmente estejam escritos abaixo de seus nomes”, explicou Onkei.
“Entendi.”
Ele estava certo. Anotações como "Palácio Hakkaku" e "Instituto de Eunucos do Palácio" estavam escritas abaixo de cada nome.
“E quanto ao eunuco que foi executado…?”
“Seu nome era Yuisa.”
“Ah, esse.”
Seu nome havia sido marcado com tinta vermelha. Havia um grande espaço em branco embaixo, onde nada estava escrito. Parecia bastante sombrio.
“Muito bem, então. Vou perguntar a esses homens sobre Yuisa.”
“Você vai, niangniang?” disse Onkei, com os olhos arregalados em leve surpresa. “São cerca de trinta.”
“Não precisarei falar com todos eles. Os papéis dos eunucos variam, mesmo que trabalhem para o mesmo palácio. Consequentemente, eles têm superiores diferentes. Primeiro, precisarei que alguém me diga qual desses eunucos teve o mesmo mestre que Yuisa. Imagino que eles sejam os que mais saberão sobre o caso.”
Jusetsu ergueu os olhos do bilhete que segurava. Ela olhou para Onkei, que estava ajoelhado ao seu lado.
“Você conhece algum desses eunucos?”, ela perguntou.
Ele deu uma olhada rápida nos nomes e assentiu. “Só um… Este homem, chamado Shiken.”
As palavras “Palácio Eno” estavam escritas abaixo do nome que ele apontou. Este era o palácio onde Kajo — a Consorte Pato-mandarim — residia.
Jusetsu se virou para encarar Jiujiu, que estava parada logo atrás dela. "Jiujiu, vamos para o Palácio Eno", declarou ela.
Jiujiu alegremente foi preparar uma muda de roupa para ela. Quando Jusetsu passou por trás das cortinas, encontrou uma roupa em uma bandeja, pronta para ela. Um shanqun rosa com uma saia cor de granada havia sido retirado de seu peito. Essa roupa foi um presente de Kajo. A consorte parecia gostar de mandar fazer ruqun para Jusetsu, que antes só tinha vestes pretas para usar.
“Onkei”, Jusetsu chamou seu guarda-costas enquanto Jiujiu a vestia. “Você sempre foi subordinado de Eisei?”
Onkei respondeu de onde estava, do outro lado das cortinas: "Sim."
Ele tem sido meu mestre desde que cheguei ao palácio interno. "Ele nunca bate em seus neófitos, não é?"
“Não.”
Onkei não compartilhou mais informações além do necessário. Jusetsu olhou para o robe que estava vestindo e continuou falando.
“…Se você estivesse sendo açoitado — teoricamente falando — e um estranho viesse salvá-lo, isso causaria problemas?”
O homem ficou em silêncio por um breve instante. Sendo guarda-costas de Jusetsu, Onkei provavelmente testemunhou Jusetsu salvando Ishiha de ser açoitado de algum lugar próximo.
“Isso… depende do temperamento do seu mestre”, respondeu ele lentamente. “Acho que alguns mestres dão uma surra ainda maior nos seus aprendizes mais tarde por aceitarem ajuda.” Então, falando rapidamente, acrescentou: “No entanto, já que você ameaçou aquele mestre no Palácio Hien, acredito que o risco disso acontecer seja baixo.”
Jusetsu havia advertido o homem porque temia que algo semelhante ao que Onkei descreveu acontecesse. Ela tinha esperança de que funcionasse, mas se não funcionasse, se aquele eunuco fosse ainda mais perverso do que ela imaginava…
Jusetsu exalou profundamente.
“Não se preocupe com isso, niangniang. É algo que simplesmente acontece com a maioria dos neófitos”, disse Onkei, sugerindo que talvez estivesse preocupado com Jusetsu. Ele era tipicamente um homem de poucas palavras. “Tive a sorte de ter o Atendente Ei como meu shifu.”
“Quantos anos você tinha quando chegou ao palácio interno?”, ela perguntou.
“Dezesseis.”
“Nossa! Pensei que você teria chegado mais jovem.”
Apesar da cicatriz na bochecha, Onkei era um homem bonito. Jusetsu supôs que ele se tornou eunuco ainda jovem, depois que alguém percebeu o potencial em sua boa aparência.
“Até então, eu era acrobata em uma trupe de aves canoras.”
“Uma trupe de aves canoras... Ah, aqueles grupos de artistas que cantam, dançam e tocam música, não é?”
[Kessel: Aves canoras são pássaros com um canto muito melódico, e podem ser usados como elogio para cantores com ótimas vozes!]
“Originalmente, eram adivinhos que percorriam as áreas costeiras, rezando por pescas abundantes. Hoje em dia, atuam principalmente nas esquinas ou trabalham para comerciantes e funcionários públicos.”
Onkei explicou a ela que a trupe de aves canoras, do qual ele fazia parte, havia sido contratada por um juiz de um certo ministério.
"Se você fosse um acrobata, isso explicaria por que você é tão ágil", deduziu Jusetsu.
“É também por isso que me tornaram um dos subordinados do Atendente Ei.”
Parecia que suas habilidades na trupe haviam lhe sido úteis. Jusetsu se perguntou por que ele abandonaria a carreira de acrobata para se tornar um eunuco, mas não lhe pareceu apropriado perguntar isso de passagem. Como Ishiha havia lhe provado, cada pessoa tinha seus próprios motivos para seguir esse caminho.
Após terminar de amarrar o cinto, Jusetsu saiu de trás das cortinas.
"Acho que será mais fácil conseguir alguma informação daquele tal de Shiken se você estiver conosco. Junte-se a nós hoje", disse ela.
Jusetsu então seguiu em direção ao Palácio Eno, acompanhada por Jiujiu e Onkei. A luz brilhante do sol da manhã incidia sobre o cascalho branco enquanto caminhavam. A cada passo que dava sobre as pedras com seus sapatos de brocado, ouvia-se um leve rangido. O sol estava alto no céu e a brisa fresca da manhã pairava no ar.
As roseiras vermelhas do lado de fora do Palácio Eno já não estavam no auge da floração, mas as flores ainda podiam ser vistas entre as folhas. Pareciam prestes a cair no chão, uma a uma. Essas flores murchas não eram tão frescas e vibrantes como em seu auge, mas ainda conservavam certo brilho.
Calçamento de pedra polida — tão brilhante que quase parecia molhado — formava um caminho que levava ao palácio. Enquanto o grupo caminhava sobre ele, Kajo surgiu por trás da porta aberta.
“Bem-vinda. É um prazer tê-la aqui, amei”, disse ela.
Um sorriso agradável surgiu no rosto de Kajo, e ela começou a descer os degraus. Seu grupo de damas de companhia a seguia, segurando guarda-sóis e dosséis.
Kajo vestia um shanqun azul-claro bordado com flores e uma saia verde-mar. Ela emanava uma aura refrescante, como uma brisa leve e suave. Era como se levasse consigo o aroma de hortelã aonde quer que fosse. A jovem era cerca de dez anos mais velha que Jusetsu, o que talvez explicasse por que a considerava como uma irmã mais nova — ela havia dito que sua irmã caçula tinha quase a mesma idade de Jusetsu. Ela chamava Jusetsu carinhosamente de "amei", um apelido que significa "irmãzinha", e insistia que Jusetsu a chamasse de "aje", que significa "irmã mais velha".
“Essa roupa está maravilhosa. Eu sabia que o rosa ficaria bem em você. Acho que da próxima vez vou mandar fazer um robe azul-vivo de seda pura para você. Seria perfeito para a próxima estação, não acha? Ah, mas não seria legal ter também uma cor mais discreta? Um marrom opaco, talvez”, ponderou Kajo.
"Não preciso de nenhum dos dois", disse Jusetsu, franzindo a testa, mas Kajo geralmente nunca dava ouvidos — ela mandava fazer roupas para Jusetsu e as levava para ela sem que ela precisasse pedir. Jusetsu não conseguia se obrigar a recusá-las friamente.
“Entre. Vou preparar um chá para você…”
“Não vim para isso. Vim falar com um dos seus eunucos.”
Kajo estava prestes a subir os degraus, mas se virou. “Um dos meus eunucos? Nesse caso, irei chamá-los para você.”
“Não precisa. Eu mesma irei visitá-los”, disse Jusetsu. “Você… sabe onde aquele chamado Shiken pode estar?” Jusetsu examinou os arredores. Havia vários eunucos por perto, mas Shiken não parecia estar lá.
Ela trocou olhares com um deles. O homem dirigiu-se a ela e disse: "A esta hora do dia, ele estará preparando incenso na varanda."
"Entendido. Leve-me até lá", disse Jusetsu, insistindo para que ele lhe mostrasse o caminho.
Ela o seguiu pelo corredor, em direção à parte interna do Palácio Eno. Haviam alguns pequenos edifícios palacianos compactos dentro do complexo que serviam de residência para Kajo. Parecia que cada um desses edifícios era usado para guardar seus acessórios pessoais, móveis, perfumes, documentos e livros.
“Acho que ele está aqui, preparando incenso para queimar no quarto de Niangniang mais tarde.”
Diferentemente dos outros, o edifício do palácio para o qual o eunuco havia se dirigido tinha piso elevado e era construído com madeira encaixada em formato de cruz dupla — presumivelmente para evitar a entrada de umidade.
“Shiken, você está aí?” perguntou o eunuco ao abrir as portas.
Dentro da sala, Jusetsu podia ver baús de armazenamento enfileirados. Um eunuco estava agachado entre eles, com um recipiente em cima de uma bandeja ao lado. Dentro do recipiente aberto havia um pequeno pedaço de madeira perfumada. Jusetsu o reconheceu, pois também queimava incenso diariamente.
“Shiken, parece que a Consorte Corvo tem algo que gostaria de lhe perguntar.”
O eunuco conhecido como Shiken fechou a tampa do recipiente e colocou a bandeja de lado. Em seguida, virou-se para encará-los.
Ele era um jovem que aparentava ter pouco mais de vinte anos. Era alto para um eunuco, mas — provavelmente devido aos seus membros longos e finos — parecia bastante esguio. Seu rosto era comprido e estreito, sem qualquer traço de gordura, mas seus olhos eram gentis e bondosos. Embora sua aparência não fosse extraordinária, era bastante cativante.
Shiken ajoelhou-se diante de Jusetsu e fez uma reverência. “Meu nome é Shiken. Será um prazer ajudá-la no que precisar.”
“Onkei”, Jusetsu chamou seu guarda-costas.
Ele imediatamente saiu de trás dela para ficar ao seu lado, ajoelhou-se e juntou as mãos em gesto de respeito. "Sim, niangniang?", respondeu ele.
“Este é mesmo o Shiken que você conhece?”
“Sim, é ele.”
Jusetsu assentiu com a cabeça e então olhou para Shiken. "Peço desculpas por interromper seu trabalho, mas há algo que eu gostaria de lhe perguntar. Venha comigo por um minuto."
Jusetsu decidiu que deveriam sair para ouvir o que Shiken tinha a dizer. Ela pediu ao eunuco que os guiou até lá que cuidasse do incenso que havia preparado. Onkei tentou se ajoelhar diante dela novamente, mas Jusetsu o impediu. Ela se sentou nos degraus do palácio.
"Como você conhece esse homem?", perguntou Jusetsu a Onkei.
"Eu trabalhava aqui", respondeu ele. Como Onkei fora subordinado de Eisei durante todo o tempo em que esteve no palácio interno, provavelmente se referia ao seu trabalho aqui como de um espião no Palácio Eno.
Não havia como discutirem tal coisa ali, então Jusetsu simplesmente disse: "Entendo".
Jusetsu então voltou seu olhar para Shiken. "O assunto que quero discutir com você está relacionado ao Palácio Hien."
“O… Palácio Hien?” ele repetiu, parecendo confuso. “Você estaria se referindo ao período do reinado do imperador anterior?”
“Correto. Você trabalhava lá, não é? Você se lembra de haver um eunuco chamado Yuisa?”
Os olhos de Shiken se arregalaram em surpresa. Parecia que aquele nome lhe soava familiar — o que era de se esperar, já que Yuisa era o eunuco que havia sido executado. "Eu me lembro..." Havia alguma dor na voz de Shiken. Não, talvez não fosse isso — era tristeza. "Ele era o eunuco que foi executado", continuou. "Ele era apenas uma criança."
“De que ele foi indiciado?” perguntou Jusetsu.
“Desculpe?”
“Por qual crime ele foi executado?”, ela perguntou novamente.
Shiken olhou para ela ansiosamente. "Bem... eu era apenas uma criança na época, então não sei realmente os detalhes das circunstâncias..."
“Você teve o mesmo mestre que Yuisa?”
“Não, eu não fiz isso. Acho que o instrutor dele era um eunuco chamado Obun.”
Jusetsu tirou a carta do bolso do peito e conferiu os nomes. De acordo com as informações fornecidas por Eisei, Obun agora trabalhava para o instituto de eunucos do palácio.
"Disseram-me que Yuisa se apaixonou pela Concubina Andorinha. Isso é verdade?", perguntou ela.
Shiken estreitou os olhos por um instante, com um olhar nostálgico. "Não sei se 'amor' é a palavra certa... Ele ainda era uma criança, entende? Era algo mais próximo da admiração. Afinal, ela era tão diferente de nós."
"Ouvi dizer que ele lhe deu uma pena de pássaro de presente."
No instante em que Jusetsu disse isso, Shiken empalideceu repentinamente. "Algo de errado?", perguntou ela.
“N-não…” Shiken ajoelhou-se no mesmo lugar, juntando as mãos e curvando a cabeça. “Por favor, me perdoe. Eu só não estou me sentindo muito bem…”
Jusetsu se levantou e o fez abaixar as mãos. Ela notou que seu rosto estava com uma tonalidade azulada e doentia.
“Talvez te fazer levantar não tenha sido a coisa certa a fazer. Deve ter impedido o sangue de chegar à sua cabeça. Fique onde está.”
Ela pediu a Jiujiu que lhe trouxesse algo que pudesse usar como travesseiro, e Jiujiu voltou com um pano enrolado. Ela o colocou sob a cabeça de Shiken e o incentivou a deitar-se sobre ele. Pouco tempo depois, a cor começou a retornar ao rosto de Shiken.
Jusetsu olhou fixamente para ele. "Shiken, você sabia que existe um fantasma que aparece no Palácio Hien?"
Com o rosto ainda azulado, Shiken abriu os olhos ligeiramente.
“É o fantasma de Yuisa”, continuou Jusetsu. “Você já ouviu falar alguma coisa sobre isso?”
Ele balançou a cabeça lentamente em sinal de negação. "Entendo", disse Jusetsu.
Jusetsu deixou as damas da corte e os eunucos do Palácio Eno cuidando de Shiken e partiu. "Vamos encontrar Obun."
Se o homem fosse o mestre de Yuisa, ele conheceria a situação melhor do que ninguém. Também era bastante provável que ele tivesse recebido algum tipo de punição pelo incidente.
“Mas niangniang, você não vai perguntar a Shiken sobre…?” Onkei começou.
Jusetsu o interrompeu antes que ele tivesse a chance de terminar sua pergunta. "Está tudo bem", disse ela. "Farei mais perguntas a ele depois."
Ela percebeu que ele parecia saber de algo, mas não podia obrigá-lo a ouvi-la naquele estado. As pessoas nem sempre diziam a verdade se fossem pressionadas a falar.
Ela pretendia construir uma base sólida antes de retornar, e isso envolvia extrair de Obun o máximo de informações possível.
O instituto de eunucos do palácio estava localizado na parte sul do palácio interno.
Outros grupos, como o departamento dos aposentos do palácio, faziam parte do instituto. Era um canto cercado por paredes de barro cobertas. O instituto de eunucos do palácio era responsável por tarefas como acender as lâmpadas dentro do palácio e cuidar das cortinas e persianas. Obun também ficava alocado lá.
Ao chegarem ao prédio do instituto de eunucos do palácio e entrarem, depararam-se com uma quantidade incrível de prateleiras que armazenavam velas, castiçais, latas de óleo e outros itens relacionados. Eunucos estavam entre elas, trabalhando diligentemente. Parecia que estavam fazendo um inventário e verificando se havia algum defeito nos equipamentos. À noite, o palácio interno era iluminado por luzes brilhantes. Havia centenas de lanternas penduradas no interior do palácio, então devia ser um trabalho árduo acendê-las todas as noites. O único lugar que permanecia na escuridão após o pôr do sol era o Palácio Yamei.
Jusetsu abordou um dos eunucos próximos e pediu que ele chamasse Obun para ela. O homem em questão veio trotando do fundo da sala. Parecia ter uns quarenta e poucos anos e era bastante ágil. Tinha olhos pequenos e parecia ter o hábito de piscar constantemente. O homem estava inquieto, e Jusetsu percebeu que ele estava apavorado para descobrir o que ela queria dele. Era compreensível — ele havia sido convocado por uma consorte, e nada menos que a Consorte Corvo.
"Você se lembra de algum eunuco chamado Yuisa?", perguntou Jusetsu diretamente.
“Como eu poderia esquecer? Ele era um neófito de quem eu cuidava”, respondeu Obun.
“Ele foi executado, não foi? De que ele foi acusado?”
Obun fez uma pausa antes de poder responder. "Matar pássaros."
"O quê?" disse Jusetsu, visivelmente chocada. Ela não esperava ouvir falar de um crime daquele tipo. Era proibido matar pássaros no palácio interno, pois eles eram considerados da família de Uren Niangniang.
“Yuisa acabou matando uma andorinha azul. Ele foi decapitado por isso.” Obun soltou um suspiro audível e continuou. “Como instrutor dele, eu levei uma surra. Não só isso, como também fui relegado a um cargo insignificante”, disse ele. “Por que as coisas tinham que terminar assim…?”
Ignorando o monólogo choroso de Obun, Jusetsu fez-lhe outra pergunta: "Por que ele teria assassinado um pássaro?"
“Yuisa presenteou a Concubina Andorinha com penas de pássaro para ganhar seu favor. Ele capturou uma andorinha azul para pegar suas penas, mas acabou matando-a por engano.”
Não importava se era um acidente ou de propósito — a punição para quem matasse um pássaro era sempre a pena de morte.
A então imperatriz ficou furiosa, dizendo que era imperdoável que os sentimentos impróprios que ele havia desenvolvido pela consorte o tivessem levado a assassinar um pássaro para seu próprio benefício... e que ele seria decapitado. Ela disse que ele deveria apenas agradecer por não o terem despedaçado amarrando suas pernas a duas carroças em movimento.
A “então imperatriz” de quem ele falava era a imperatriz viúva — a mesma que temporariamente usurpou o trono de Koshun e que foi executada não muito tempo atrás. Ela era quem tinha o direito de falar, considerando as inúmeras pessoas que matou para benefício próprio, pensou Jusetsu, sentindo um enjoo terrível — mas a mulher já estava morta. Não havia mais ninguém a quem culpar.
"Yuisa disse alguma coisa antes de ser executado?", perguntou ela.
“Não”, disse Obun, balançando a cabeça. “Ele parecia devastado e chorou o tempo todo.”
"Entendo." Jusetsu sentiu um aperto no peito. A imagem do fantasma de Yuisa parado entre aquelas íris de flores rasas lhe veio à mente, e ela pensou em outra coisa que queria perguntar a Obun. "Ele chegou a pedir desculpas? Na língua do clã Hatan?"
“Essa é difícil… Eu não falo a língua deles, sabe. Hum…” Obun piscou várias vezes e olhou para Jusetsu ansiosamente. “Que tipo de investigação é essa exatamente? Surgiu algum problema em relação ao que aconteceu na época?”
“Não. Eu estou apenas curiosa.”
Ela mandou Obun de volta ao trabalho e retornou pelo mesmo caminho que viera. Ela planejava voltar ao Palácio Eno, mas…
Ela saiu de um dos prédios pertencentes ao instituto de eunucos do palácio e, enquanto caminhava em direção ao portão, viu-se cercada por vários edifícios palacianos, aglomerados uns sobre os outros. Um deles era a hospedaria onde viviam os eunucos que trabalhavam para esse departamento. Esse era o primeiro lugar para onde os novos eunucos que acabavam de chegar ao palácio interno iam. Ali, eles realizavam tarefas para os eunucos mais antigos, conhecidos como chenren.
Ao lado da entrada da hospedaria, um eunuco de estatura mediana estava agachado, segurando os joelhos.
“Parece ser ele…?”
Jusetsu se virou na direção dele. Ela notou que as paredes da pensão eram originalmente brancas, mas toda a poeira e o mofo agora as deixavam um pouco encardidas.
"Ishiha", Jusetsu o chamou, fazendo-o olhar para cima surpreso. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Era ele.
“Consorte Corvo”, disse ele, fungando alto e esfregando os olhos apressadamente com as duas mãos. Levantou-se e ajoelhou-se novamente. “O que você está fazendo aqui?”
Jusetsu o fez levantar e limpou a poeira de seus joelhos. Ishiha se enrijeceu em choque, o que ao menos pareceu ter estancado suas lágrimas.
"Está tudo bem no Palácio Hien?", perguntou Jusetsu.
Essa simples pergunta, no entanto, fez seus olhos se encherem de lágrimas mais uma vez. "M-meu mestre... disse que não podia mais cuidar de mim... e me mandou embora..."
"O quê?" Jusetsu sentiu o sangue drenar repentinamente de suas extremidades, deixando-as geladas. A culpa era minha? Sua ameaça ou não funcionou, ou funcionou demais. De qualquer forma, ela tinha estragado tudo. "Me desculpe", Jusetsu se desculpou.
Ishiha balançou a cabeça e gesticulou com as mãos. "Não. Não é sua culpa. Fui eu quem o assustou... Eu invoquei o fantasma. A culpa é minha", disse ele, desanimado.
Apesar disso, Jusetsu ainda tinha a impressão de que ele estava acobertando-a.
“Acontece que meu mestre se assusta facilmente. Ele não queria ouvir nada sobre o fantasma, e você…” O garoto então se calou e abaixou a cabeça.
Como Jusetsu havia previsto, sua ameaça tinha sido eficaz demais — ou pelo menos, era essa a impressão que dava.
Ela se virou para Onkei. "O que um neófito deve fazer se for dispensado pelo seu mestre?"
“Nós somos designados para um diferente — mas até que isso aconteça, eles voltam a fazer trabalhos ocasionais para seus chenren”, respondeu Onkei sem hesitar, sugerindo que esse tipo de coisa acontecia o tempo todo.
“Certo.”
“Mas…” acrescentou Onkei, “quando um neófito retorna à sua posição original, ele será tratado com mais rigor.”
Ishiha cerrou os lábios com força, e Jusetsu ficou em silêncio.
“Ei, Onkei…” disse Jiujiu, puxando a manga da camisa em tom de reprovação. “Você não tem nada um pouco mais positivo para compartilhar?”
A resposta de Onkei foi dolorosa de ouvir. "Não", disse ele.
“Muito bem então… Vamos pedir ajuda a Koshun—não, a Eisei—você é um garoto inteligente, então tenho certeza de que será útil onde quer que vá. Pode ficar no meu palácio até que encontrem outra coisa para você.”
Ishiha ergueu o olhar. Momentos antes, ele estava pálido como um fantasma, mas agora suas bochechas estavam coradas. "M-muito obrigado."
"Vocês não podem simplesmente contratá-lo para o Palácio Yamei?", perguntou Jiujiu, esperançosa.
Jusetsu balançou a cabeça. "Não precisamos de funcionários."
Ela sempre esteve sozinha. Não tinha condições de contratar mais ninguém.
A Consorte Corvo deveria ser solitária — manter as pessoas à distância e não atraí-las para si. Era assim que as coisas eram. Até mesmo Reijo viveu sua vida dessa maneira.
Jusetsu também sentia que não havia nada em particular em que alguém pudesse ajudá-la. Trabalhar para ela não era como trabalhar para qualquer outro consorte. Fantasmas estavam envolvidos em seu trabalho, e incidentes misteriosos certamente aconteceriam.
Enquanto Jusetsu refletia silenciosamente sobre isso, percebeu que Ishiha a encarava. "O que foi?", perguntou ela.
“U-uh, n-nada… Me desculpe.” Ishiha olhou para baixo. Eunucos não deveriam encarar consortes, mas isso não incomodava Jusetsu. “Bem, você vê… Você simplesmente tem olhos muito bonitos”, disse ele timidamente.
"Será?" Jusetsu respondeu com um leve sorriso. "Reijo — a antiga Consorte Corvo — ela também me disse isso uma vez."
Jusetsu recomeçou a andar. Ishiha a observou de soslaio enquanto ela se afastava.
Onkei e Jiujiu seguiram ela.
"Eu sabia que não havia nenhum monstro em seus olhos", sussurrou Ishiha na língua do clã Hatan. "Eles são apenas bonitos." Então, ele correu atrás dos outros para alcançá-los.
[Kessel: Que fofo, meu deus. E que desgraça toda essa situação, tanto a dele, quanto a do fantasma. Muito triste.]
Jusetsu retornou ao Palácio Eno. Seria um incômodo se Kajo a encurralasse lá, então ela entrou pelos fundos. Jusetsu chamou um eunuco que estava por perto e perguntou como Shiken estava.
“Ele parece estar bem agora. Está lá atrás, moendo folhas de chá.”
Havia um pequeno pátio nos fundos da varanda. Uma mesa e uma cadeira estavam dispostas, e Shiken moía chá em um pilão. Ao lado dele, um jovem eunuco estava agachado, fervendo folhas de chá em uma panela quente. Ele extraía a água delas. As folhas de chá eram trituradas, torradas e moídas em tijolos de chá. Em seguida, eram peneiradas novamente antes de finalmente serem fervidas.
O ar estava impregnado com o aroma das folhas de chá torradas, misturado ao leve cheiro de grama moída. Ao perceberem a presença de Jusetsu, os dois eunucos pararam o que estavam fazendo e se levantaram. Em seguida, voltaram-se para ela e se curvaram, juntando as mãos.
“Fukuji, traga alguém para moer essas folhas para mim”, disse Shiken ao jovem eunuco.
As sobrancelhas do eunuco chamado Fukuji caíram em sinal de preocupação.
“Mas as damas da corte só aceitam chá que você moeu. Elas vão ficar bravas comigo.” Parecia que Shiken era um excelente moedor de chá.
"Vou me desculpar com elas", disse ele, antes de expulsar Fukuji do pátio.
Então, Shiken ajoelhou-se novamente diante de Jusetsu. "Sinto muito pela minha grosseria anterior, Consorte Corvo. Você chegou ao ponto de cuidar de mim quando eu merecia ser repreendido pela minha conduta. Eu não era digno."
“Você está se sentindo melhor agora?”, ela perguntou.
“Sim, estou. E tudo graças a você, querida Consorte Corvo.”
“Tudo o que eu fiz foi te obrigar a deitar.” Jusetsu foi até a mesa, parou ao lado dela e olhou para dentro do pilão de chá.
“Então você é um especialista em moer chá?”, ela perguntou.
“Disseram-me que o chá que eu moio tem um aroma maravilhoso quando fervido. É por isso que sempre tenho a honra de assumir essa função”, afirmou.
Eisei era excelente em preparar chá. Se ele preparasse o chá que Shiken havia moído, com certeza ficaria delicioso. Eu deveria contar a Koshun sobre o chá de Shiken, pensou Jusetsu — mas lembrou-se de que ele provavelmente já o havia experimentado alguma vez.
Assim que Fukuji trouxe outro eunuco para substituir Shiken, Shiken guiou Jusetsu e seus companheiros até outro edifício do palácio nos arredores do complexo. Era um prédio aconchegante e simples que parecia ser uma hospedaria para eunucos. Eles entraram em um dos quartos e Shiken ofereceu um assento a Jusetsu.
O quarto era bastante simples, com apenas duas cadeiras e um pequeno banco junto à janela de treliça e uma cama encostada na parede. Apesar de modesto, era muito limpo.
Onkei, Jiujiu e Ishiha esperavam atrás de Jusetsu, e Shiken estava em pé do outro lado deles.
A luz do sol que entrava pela janela treliçada fazia a poeira no ar brilhar. Uma sombra azul pálida se projetava na parede, onde o sol não alcançava. Embora Shiken estivesse cercado por uma luz solar suave, parecia que ele estava na sombra.
“Nós nos encontramos com Obun”, disse Jusetsu. Ela foi direta como sempre, mesmo em uma situação como essa. “Yuisa matou uma andorinha azul, não foi?”
Shiken baixou a cabeça. "De fato. Isso mesmo."
Antes, ele insistiu que sabia pouco sobre a situação por ser apenas uma criança, mas agora parecia mais disposto a falar sobre o assunto. Devia ser por isso que ele levou Jusetsu para seu quarto particular, onde ninguém mais poderia ouvi-los.
"Ouvi dizer que ele estava tentando pegar as penas para dar à Concubina Andorinha", disse Jusetsu.
“Isso mesmo”, respondeu Shiken. “Ele… começou apenas coletando penas que caíam no chão — principalmente penas azuis de cauda de andorinha. Eram lindas, então Yuisa limpava a sujeira e as dava para a Concubina Andorinha. Ela era uma pessoa gentil e sempre foi muito carinhosa com jovens eunucos como Yuisa e eu, e sempre fazia questão de conversar conosco. O fato de ela mesma ser tão jovem talvez tenha contribuído para isso. Naquela época, ela tinha pouco mais de quinze anos. Era uma jovem despretensiosa e costumava rir alto. É raro ver uma consorte de uma família tão distinta rir assim.”
Um sorriso surgiu no rosto de Shiken enquanto ele falava dela — mas era um sorriso tingido por uma mistura de nostalgia e tristeza.
"Tenho certeza de que ela também teria me ajudado se eu tivesse desmaiado."
Ele olhou para Jusetsu. Ela sabia que ele estava prestes a revelar alguns segredos. Seria porque ele presenciou uma gentileza familiar da parte dela que o deixou mais ansioso para discuti-los?
“A Concubina Andorinha ficou encantada ao receber aquelas penas de Yuisa.”
Pelo que sei, ela não as usava no cabelo, mas simplesmente gostava de admirá-las. Ela ainda não tinha idade suficiente para demonstrar interesse por pedras preciosas e coisas do gênero. Talvez por isso tivesse mais afinidade por itens raros do que por itens bonitos. A partir de então, Yuisa começou a tirar um tempo do trabalho para procurar penas pelos arredores. Ele as encontrava facilmente nas florestas e bosques, mas isso não era suficiente para ele. Ele começou a procurar penas ainda mais raras ou ainda mais bonitas.
Fazendo uma pausa, Shiken soltou um leve suspiro.
“Em pouco tempo, ele começou a pegar pássaros e a arrancar-lhes as penas. Usava uma cesta ou uma rede, tomando cuidado para não os matar por engano nem danificar a plumagem. Sempre que conseguia apanhar um pássaro raro, o rosto dele iluminava-se quando me contava. Mas depois…”
Shiken olhou para baixo e fitou os próprios pés. Havia uma sombra cobrindo metade do seu rosto.
Quanto mais Yuisa se alegrava, menos feliz a Concubina Andorinha ficava com o que ele lhe dava. A cada pena que ele lhe dava, as reações da Concubina Andorinha se tornavam cada vez menos entusiasmadas. Gradualmente, ela começou a parecer aflita quando ele vinha vê-la. A Concubina Andorinha havia se cansado disso.
Até mesmo as penas que antes eram raras perderam o encanto para ela. Depois disso, não importava mais o quão rara fosse a pena. As penas eram apenas isso — penas, nada mais, nada menos. Ainda assim, sendo a pessoa bondosa que era, acho que a Concubina Andorinha não conseguia se obrigar a dizer a ele que havia se cansado daquilo. "Você não precisa me trazer mais", ela dizia, mas nunca recusava firmemente. Ela apenas lhe dava um sorriso sem graça. Yuisa, no entanto, nunca percebeu — ou melhor, fingiu não perceber. Ele começou a perseguir os pássaros com ainda mais afinco. Eu deveria tê-lo impedido.
Shiken baixou o olhar, a voz trêmula ao proferir essas últimas palavras.
"Mas eu não consegui. Pelo contrário, acabei me tornando cúmplice. Yuisa estava desesperadamente tentando capturar aqueles pássaros, mas eu não podia dizer para ele parar, nem podia deixá-lo fazer isso sozinho. Dar aqueles presentes à Concubina Andorinha era a única coisa que ligava Yuisa diretamente a ela. Yuisa se apegou a isso e não conseguia abrir mão. Eu tinha plena consciência disso, então não pude impedi-lo. Se eu tivesse conseguido... não teria terminado daquele jeito."
Ele então explicou como a andorinha azul ficou presa em uma armadilha que Yuisa havia armado e morreu.
“Ele pendurou uma rede entre alguns galhos. A andorinha azul que ficou presa nela deve ter se debatido terrivelmente, pois acabou quebrando as asas. Só posso presumir que ela se esgotou e morreu. Quando a encontrei, o pássaro estava pendurado na rede com a cabeça para baixo. Suas penas estavam espalhadas tanto dentro da rede quanto no chão. Devem ter caído enquanto o pássaro se debatia… Yuisa apenas olhou para o pássaro morto, atônito. Acho que foi um choque terrível para ele. Sugeri que tirássemos o pássaro da rede e, silenciosamente, removemos a rede que prendia as patas do pássaro. Matar um pássaro é punível com a morte, mas éramos os únicos ali, então propus que ficássemos quietos e o enterrássemos adequadamente para lhe dar uma despedida digna. Yuisa não disse nada, então presumi que ele concordou com a minha ideia. Mas…”
Shiken engoliu em seco e balançou a cabeça negativamente.
“Yuisa empurrou a andorinha fria e azul contra o peito e… a levou para a Concubina Andorinha.”
"O quê?!" Até então, Jusetsu havia deixado Shiken contar a história sem interromper, mas agora, ela não conseguiu se conter e disse: "Ele trouxe o pássaro morto para ela?"
“Sim.”
“Mas…por quê?”
“Nem eu consigo entender claramente o que Yuisa estava sentindo naquele momento”, respondeu Shiken, com dificuldade para encontrar as palavras. “Mas… acho que isso demonstra o choque que a morte da andorinha azul causou a ele. Quando ele desapareceu com ela, eu tinha certeza de que ele a enterraria em algum lugar, então simplesmente guardei a rede. Quando voltei ao palácio, porém, já era tarde demais. Yuisa estava ajoelhado ao lado da Concubina Andorinha no jardim, oferecendo-a a ela com as duas mãos. Acredito que ele chorou e explicou que ‘a matou acidentalmente’”.
Jusetsu ficou sem palavras. Não era como pedir pela própria morte?
“A Concubina Andorinha gritou e correu de volta para o interior do palácio para escapar dele. Yuisa foi preso e enviado para a prisão dos eunucos.”
Esse era o local onde os eunucos que haviam cometido crimes eram presos antes de serem sentenciados.
“As acusações eram óbvias, sem necessidade de deliberação. Afinal, ele mesmo confessou…”
E dessa forma, Yuisa foi executado.
Shiken juntou as mãos trêmulas à sua frente. "Durante todo esse tempo... eu estive apavorado. Até o momento em que ele foi executado."
Jusetsu olhou para o rosto de Shiken. "Apavorado?"
Shiken assentiu com a cabeça. Seu rosto estava pálido. Jusetsu tentou se levantar — preocupada que ele pudesse estar se sentindo mal novamente — mas antes que pudesse, ele disse com voz fraca: "Não, estou bem."
“Você deveria se sentar. Eu detestaria vê-lo desmaiar. Quero ouvir o que você tem a dizer.”
Jusetsu parecia irritada ao dar a ordem com firmeza, mas Shiken obedeceu e finalmente sentou-se à sua frente. Apesar disso, a cor não voltou ao seu rosto, e ele continuou encarando as próprias mãos.
“Eu… estava apavorado com a possibilidade de Yuisa me dedurar.”
"Te dedurar?", ela repetiu.
“Eu o ajudei a armar a armadilha em que a andorinha azul morreu. Subi na árvore com ele para colocar a rede. Eu fui um dos motivos da morte da andorinha azul. Pensei que Yuisa pudesse ter revelado isso para tornar sua própria sentença menos severa, ou porque não suportava a ideia de ser o único punido…”
Shiken baixou a cabeça, levando as mãos à testa.
“A ideia da execução de Yuisa era assustadora e dolorosa para mim, mas, por outro lado, eu estava apavorado com a possibilidade de também sofrer o mesmo destino. Eu só desejava que ele fosse executado logo, antes que tivesse a chance de falar sobre mim…” confessou Shiken. Gotas de suor escorriam por seu rosto pálido. “Yuisa era meu amigo. Chegamos ao palácio interno quase ao mesmo tempo, e ele era uma criança, da mesma idade que eu. Quando nosso mestre nos batia ou nos espancava, nós nos animávamos mutuamente. Mas agora… não posso mais me considerar amigo dele.”
Ele se curvou e cobriu o rosto com as mãos. A luz do sol que incidia sobre suas costas era intensamente branca e dolorosa para os olhos.
Jusetsu desviou o olhar. "...Morrer é assustador. É natural sentir isso. Até eu sinto", sussurrou Jusetsu.
Ela tocou nos próprios cabelos presos. Estavam tingidos de preto carvão. Jusetsu, uma sobrevivente da antiga família imperial, vivia sua vida com a respiração suspensa, aterrorizada. Ela tinha medo de ser morta.
“Não devemos negar esses pensamentos”, continuou ela. “Devemos viver nossas vidas com esse arrependimento. Nosso sofrimento é nosso castigo. Esse castigo é provavelmente o motivo pelo qual ainda estou viva.”
Foi graças a essa crença que ela conseguiu tolerar ser a Consorte Corvo.
Ela considerou isso uma forma de expiar o fato de ter deixado sua mãe morrer.
Shiken ergueu o olhar e encarou o rosto de Jusetsu por alguns instantes. Parecia que os sentimentos de culpa que ambos guardavam no fundo de seus corações estavam se comunicando. A expressão de Shiken suavizou-se e algo semelhante a um sorriso lacrimoso surgiu em seu rosto.
“Sim, você tem razão”. Então, acrescentou em voz baixa: “Muito obrigado”.
Seu rosto e sua voz pareciam mais calmos novamente, e embora houvesse agora uma serena gentileza em seus olhos, também havia uma névoa de exaustão sobre eles. Mesmo que o incidente tivesse acontecido há muito tempo, ele ainda poderia receber uma punição severa se viesse à tona que ele havia participado do assassinato de um pássaro. O fato de ele ter confessado — ou melhor, revelado a verdade — poderia ter sido em parte porque ele queria se livrar de parte desse peso.
Jusetsu desviou o olhar para as janelas de treliça e depois voltou a olhar para Shiken. "Yuisa alguma vez disse 'desculpe' na língua do clã Hatan?"
“Na língua do… clã Hatan? Ele me ensinou algumas palavras em sua língua nativa, mas não me lembro de ter ouvido essa…”
“Ishiha”, disse Jusetsu, virando-se para o garoto que estava atrás dela. Ishiha endireitou-se. “Tente pedir desculpas na língua Hatan.”
“Tudo bem”, respondeu ele, antes de dizer algo em sua língua nativa.
Assim que Shiken ouviu, seus olhos se arregalaram e ele assentiu. "Se essa é a palavra, então sim, me soa familiar. Era a palavra que Yuisa repetia constantemente para a andorinha azul morta."
Jusetsu refletiu sobre o que o fantasma do menino estava dizendo no jardim.
“Desculpa, desculpa…”
Então, essas palavras foram dirigidas à andorinha azul.
“Yuisa passou todo esse tempo pedindo desculpas àquela andorinha azul que ele matou”, disse Jusetsu.
Shiken apenas olhou para o chão. "Deve ter sido por isso que Yuisa foi contar a ela que havia matado o pássaro — para se arrepender e reparar o que fez", disse ele.
“Talvez, depois de tirar a vida daquela pequena criatura, ele finalmente tenha percebido o erro em seus atos.”
Yuisa vinha se aventurando cada vez mais fundo no abismo — primeiro querendo se aproximar da concubina, depois querendo conquistar seu favor e, por fim, querendo fazê-la sorrir. Quando se deu conta do que estava acontecendo, já era tarde demais para voltar à margem.
Como ela poderia mandar aquele fantasma para o paraíso?
Não havia necessidade de sofrimento após a morte. Ele deveria ter deixado o sofrimento para os vivos. Jusetsu colocou a mão na têmpora e pensou consigo mesma.
"Consorte Corvo", Shiken a chamou, "você está investigando para salvar o fantasma de Yuisa?"
“Eu… não sei se consigo salvá-lo.”
“Mas você está tentando”, disse ele.
Shiken se levantou e caminhou até sua cama. Ele se agachou e puxou uma pequena caixa debaixo dela. Abriu a tampa, pegou o conteúdo na mão e levou para Jusetsu.
Shiken colocou o objeto em cima da mesa. "Isso é o que eu estou pensando que é...?" perguntou Jusetsu.
Era uma pena de um tom puro de azul escuro, mas quando o sol brilhava sobre ela, revelava um leve toque de jade — uma pena azul de andorinha.
Jusetsu pegou a pena e ficou olhando para ela.
“É uma das penas da andorinha que morreu… Eu pretendia me livrar dela, mas simplesmente não consegui jogá-la fora. Sinto que ela ainda carrega o espírito dele”, disse Shiken.
"Entendo. Uma das penas do pássaro morto", sussurrou Jusetsu, com os olhos fixos nela.
Então ela se virou em direção às portas. "Vou para o Palácio Hien", declarou.
Onkei prontamente deu um passo à frente e abriu os olhos para ela.
Antes de sair, Jusetsu olhou para trás, para Shiken. "Você gostaria de se juntar a mim?"
“Agradeço a oferta, mas tenho trabalho a fazer aqui...”
“Vou pedir permissão à Kajo.”
Jusetsu dirigiu-se rapidamente ao palácio onde Kajo estava, recebeu permissão para pegá-lo emprestado e saiu. Shiken a seguiu, atrapalhada. Jusetsu havia saído do Palácio Yamei com um grupo de três, mas agora eram cinco. O grupo seguiu para o Palácio Hien em bando. Se tantas pessoas estivessem perambulando pelo palácio, a Concubina Andorinha certamente ficaria sabendo — então, por mais problemático que fosse, o grupo entrou pela porta da frente.
“Você é a Consorte Corvo? Bem, isso é assustador…”
A primeira concubina Andorinha que encontraram em frente ao palácio era uma bela dama. Parecia ter pouco mais de vinte anos, talvez até mais, mas seus trejeitos e sua maneira de falar eram imaturos para a sua idade. Ela olhou para Jusetsu com medo, cobrindo a boca com o leque.
“Hã? Você vai para o jardim? Ah, claro, faça o que quiser”, disse a mulher. Ela estava prestes a desaparecer nos fundos, mas de repente olhou para Jusetsu novamente. “Ei, isso não significa que há um fantasma no jardim, significa? Eu não consigo lidar com essas coisas.”
As sobrancelhas da concubina franziram em preocupação. Ela parecia profundamente perturbada com a ideia. Sua expressão era tão inocente, como a de uma garotinha. Um leve sorriso surgiu no rosto de Jusetsu. Ela é muito mais fofa do que eu, pensou. A visão de Jusetsu sorrindo fez a Concubina Andorinha piscar, surpresa.
"Gostaria apenas de dar uma olhada nas íris de flores rasas no jardim. Imagino que sejam belíssimas. Seria tão gentil de me deixar levar uma muda?"
“U-uh… Claro. Pegue o quanto quiser.” Atordoada, o rosto da Concubina Andorinha ficou vermelho.
“Mostre-lhes o jardim”, disse ela à sua dama de companhia que estava por perto, antes de entrar apressadamente no palácio com o leque cobrindo o rosto.
Essa concubina devia vir de uma família ilustre, mas se comportava como uma criança.
Embora Jusetsu soubesse o caminho para o jardim sem precisar ser levada até lá, ela seguiu a dama de companhia mesmo assim. Quando chegaram às íris de flores rasas, a mulher entregou a Jiujiu uma tesoura de poda e foi embora.
Jusetsu arrancou a peônia do cabelo e soprou nela. A fumaça vermelho-clara se afastou de sua mão, indo em direção a um ponto acima das íris. A figura de Yuisa apareceu.
“Yuisa!” Shiken gritou.
Yuisa nem sequer pestanejou. Ele ainda segurava a pena azul na mão.
Jusetsu tirou a pena do bolso do peito. Era a que Shiken havia guardado. Ela a colocou entre as palmas das mãos e soprou levemente. Uma fumaça azul-escura subiu do espaço entre suas mãos. Oscilou para cima e para baixo, como se não soubesse para onde ir, e então gradualmente começou a convergir para um ponto específico. No instante em que parecia finalmente se estabilizar, tremendo suavemente, a fumaça se dispersava e se espalhava novamente.
Jusetsu estendeu o braço e seguiu a fumaça com a ponta dos dedos. Parecia ser guiada por seus movimentos, concentrando-se e coagulando.
A fumaça azul transformou-se em um aglomerado azul, e penas materializaram-se uma a uma para formar uma asa. Em seguida, penas da cauda, de cor mais profunda e vívida, apareceram e se estenderam.
Em seguida, cresceram bico, olhos e pernas. O pássaro soltou um grito claro e agudo e, então, bateu as asas. Jusetsu estendeu um dedo e o pássaro pousou sobre ele.
Os olhos de Yuisa estavam agora fixos no belo pássaro que repousava no dedo de Jusetsu.
Jusetsu moveu o dedo levemente. A andorinha azul bateu as asas e alçou voo. Yuisa deu um passo à frente, pego de surpresa, e estendeu a mão. A andorinha azul voou em pequenos círculos, sem se afastar da área onde todos estavam. Então, desceu em direção a Yuisa e pousou em seu dedo, agarrando-o com suas pequenas garras.
Yuisa ergueu a mão para olhar o pássaro de frente. A andorinha azul enterrou o bico nas asas e se limpou. Os olhos de Yuisa pareceram marejar levemente, e no instante seguinte, Jusetsu percebeu que estavam cheios de lágrimas. Filetes de água escorriam pelo seu rosto.
Então, sua boca começou a se mover e uma voz finalmente escapou de seus lábios. "Me desculpe", ele dizia.
Essa ave era a única coisa que Yuisa lutava para deixar para trás. O remorso por tê-la matado o manteve preso a este lugar durante todo esse tempo — mas agora, ele poderia ser libertado.
A andorinha azul alçou voo do dedo de Yuisa. Ela voou pelo céu por um tempo e, depois de soltar um belo pio, transformou-se em fumaça e desapareceu. Quase parecia que havia se fundido com as cores do céu, deixando seu canto como o único sinal de sua presença.
Yuisa olhou para o lugar onde a andorinha azul havia desaparecido. Jusetsu percebeu que ela estava desaparecendo lentamente. O pequeno fantasma baixou a cabeça e soltou um leve suspiro.
“Yuisa”, Shiken o chamou.
Finalmente, Yuisa se virou e encarou seu velho amigo. Olhou para ele com um olhar de espanto. Então, abriu um sorriso largo e gentil. Jusetsu conseguiu ouvi-lo dizer algo enquanto ria, e então ele desapareceu.
Foi como se o vento o tivesse levado embora. O som de sua risada suave e fraca permaneceu por um instante em seus ouvidos.
A pena azul de andorinha finalmente caiu, pousando sobre as íris de flores rasas. Jusetsu a pegou e a devolveu a Shiken. Shiken contemplou a pena que ela lhe dera. Era de um tom de azul profundo e fascinante, como o de um céu azul no verão.
“...Ele provavelmente nem sabia que era o Shiken no começo”, murmurou Ishiha. “Por isso ele ficou tão surpreso. Mas quando percebeu, sorriu. Você ouviu o que ele disse no final?”
“Eu o ouvi dizer algo, mas não consegui entender o quê”, respondeu Jusetsu. “Ele estava falando a língua Hatan?”
“Sim”, disse Ishiha, “Ele disse ‘vurenda’”.
“O que isso significa?”
“‘Amigo’. É uma forma de se dirigir a alguém. Uma saudação — como ‘olá, meu amigo’, por exemplo.”
Shiken prendeu a respiração. Ele encarou o lugar onde Yuisa apareceu acima das íris de flores rasas. Parecia que ele sussurrava o nome de Yuisa, mas nenhum som saiu. Sua mão tremia enquanto ele apertava a pena.
Jusetsu olhou fixamente para a pena que Shiken segurava na mão.
"Amiga..." Jusetsu sussurrou, mas sua voz era baixa demais para que alguém mais a ouvisse.
Naquela noite, durante a segunda vigília noturna — o período entre as 21h e as 23h — Koshun chegou ao Palácio Yamei carregando alguns lírios.
"Nunca imaginei que você fosse capaz de me trazer flores", comentou Jusetsu, um tanto surpreso.
“Não fui eu quem os comprou para você”, disse Koshun, com o rosto revelando uma mistura de leve constrangimento e desagrado. Era raro eles demonstrarem tais emoções. “Foi Sho Koei.”
"Quem é ela?" perguntou Jusetsu.
“A Concubina Andorinha. Você não a conheceu esta tarde? Quando fui ao Palácio Hien, ela me pediu para trazer isto para você.”
Aquela mulher? Jusetsu pensou, o rosto dela vindo à sua mente. Ela jamais teria conseguido dizer aquilo em voz alta, mas não conseguia acreditar que estava fazendo o imperador se comportar como seu mero serviçal.
“Ouvi dizer que você pegou uma muda daquelas íris de flores rasas e deu para ela. Ela ficou muito satisfeita com elas.”
“Elas murchariam se eu as exibisse aqui, então não tive escolha a não ser dá-las a ela. As flores vieram do Palácio Hien, então não faz sentido ela me dar um presente em troca.”
“Ela gostou de você, sabia? Pelo visto, você até deu um sorriso para ela.”
"Não me lembro disso", retrucou Jusetsu. "A Concubina Andorinha deve estar enganada. Ela estava com medo de mim."
“Ela disse que sempre imaginou você como uma consorte misteriosa e assustadora, mas você acabou se revelando adorável.”
Jusetsu fez uma pausa. "A Concubina Andorinha é um pouco incomum, não é?"
“Ela teve uma educação protegida no interior da sua mansão, por isso sabe muito pouco sobre o mundo exterior. Ela insiste que homens e mulheres mais velhas a assustam. Ela tem até medo do Kajo. Eu sou mais nova que ela, então ela parece se dar bem comigo. Ela prefere brincar com crianças ou outras meninas.”
E mesmo assim seus pais a jogaram no palácio interno? Jusetsu pensou. "Por que você não planta alguns crisântemos no Palácio Hien?"
Sho Koei compartilhava o nome com um espírito de crisântemo de um conto famoso, o que trouxe essa ideia à mente de Jusetsu.
"Por que eu faria isso?", perguntou Koshun, genuinamente confuso.
Jusetsu ficou horrorizada. "Não me diga que você nunca lhe deu uma flor de crisântemo?"
“Bem… não. Eu não fiz isso.”
“Ela deveria ser sua esposa! Você me disse uma vez que eu era alheio ao funcionamento interno das pessoas ao meu redor. É o sujo falando do mal lavado — você não entende nada de mulheres.”
Koshun ficou paralisado, boquiaberto. Parecia que não conseguia encontrar palavras para rebater. Kajo provavelmente já lhe havia dito isso também.
Enquanto Koshun permanecia sem palavras, Eisei—que estava atrás dele—a encarou com raiva.
Koshun pigarreou. "...Seja como for, você é gentil com as meninas, não é?", disse ele.
“Não me lembro de alguma vez ter sido gentil com elas.”
"Bem, posso contar nos dedos de uma mão as vezes que você sorriu na minha presença — e você nunca me deu flores", retrucou ele.
“Então estamos quites.”
“Eu trouxe flores para você hoje, não trouxe?”
“Pensei que fossem da Concubina Andorinha”, disse Jusetsu sem rodeios.
Koshun falava de forma direta, com uma expressão impassível no rosto, de modo que ela nunca conseguia saber se ele estava brincando ou falando sério. Dito isso, ela sabia que ele não era o tipo de homem que fazia piadas. Independentemente de estar brincando ou falando sério, era mais problema do que valia a pena.
Farto da situação, Jusetsu decidiu mudar de assunto. "O que aconteceu com Ishiha?" Ele havia sido confiado a Eisei, então Koshun olhou para trás, para ele.
Eisei ajoelhou-se e respondeu à pergunta de Jusetsu: "Por enquanto, ele está trabalhando para mim como empregado doméstico no Palácio Gyoko."
“Ele é um menino inteligente, não é?”
“Ele é de fato inteligente.”
Parecia haver algo mais por trás da declaração dele, então Jusetsu decidiu investigar mais a fundo. "Você não gosta dele?", perguntou ela.
“Não é isso”, explicou Eisei. “É só que ele é um pouco sincero demais.”
“Isso é ruim?”
"Ele é muito bruto", disse ele categoricamente. "Ele tem dificuldade em se expressar de forma sutil."
Jusetsu gemeu. "Então ele não lhe serve para nada?"
“Eu não iria tão longe, mas…” Eisei olhou para Jusetsu. “Não posso garantir que ele sairá vivo.”
Jusetsu franziu a testa. A imperatriz viúva podia não estar mais por perto, mas parecia que ainda havia perigo à espreita na sombra de Koshun.
"Por que você não o acolhe?", sugeriu Koshun a Jusetsu. Ainda franzindo a testa, ela baixou o olhar.
“Deve ser muito inconveniente para você não ter nenhum eunuco por perto”, continuou ele.
"Eu nem sequer tinha uma dama da corte até recentemente. Nunca me causou nenhum inconveniente em particular", respondeu ela.
"É que você ainda não percebeu o quão inconveniente isso é. Seria bom ter mais algumas pessoas trabalhando aqui."
“Mas, eu…”
“Uma vez que um neófito é abandonado por seu mestre, ele terá dificuldades onde quer que vá. Já que foi você quem o colocou nessa situação, precisa garantir que ele esteja bem cuidado. Não é cruel interferir em sua vida apenas para abandoná-lo depois e dizer-lhe para viver uma boa vida?”, disse Koshun.
Sua voz era tão suave e calma que quase se podia ouvir num sussurro — mas para Jusetsu, suas palavras a atingiram em cheio, penetrando-a profundamente. Ela se lembrava de Eisei lhe dizendo algo semelhante. Perguntou-se se, talvez, algo parecido tivesse acontecido entre os dois.
“…Você está dizendo que cuidou dele?”
Koshun ficou em silêncio por um instante, depois olhou para Eisei.
“Sim”, respondeu ele. “Quando recrutei Eisei como meu assistente pessoal, ele tinha cerca de doze ou treze anos. Tirei-o de seu mestre na época e o empreguei na administração do príncipe herdeiro.”
Ele não disse muita coisa, mas o mestre de Eisei provavelmente era um eunuco cruel.
"Causei-lhe muito sofrimento quando me retiraram o título real, por isso não tenho a certeza se foi uma boa decisão", disse Koshun calmamente.
Eisei arregalou os olhos, como que dizendo: "Não seja tão absurdo."
"Do que você está falando?", disse Eisei em voz alta. "Eu não sofri nem um pouco. Comparado à angústia que senti antes, isso não foi nada.”
“Se você diz”, disse Koshun com uma leve risada.
Jusetsu encarou o chá sobre a mesa, ponderando sobre o assunto. Será que o que eu fiz não foi o equivalente ao que a antiga Concubina Andorinha fez com Yuisa?
A bondade e a benevolência desenfreadas eram um veneno invisível. Ela não deveria ter lhe oferecido ajuda de forma tão impensada. Cometeu um erro desde o início. O que ela deveria fazer agora?
“E quanto à antiga Consorte Corvo?”, perguntou Koshun, fazendo Jusetsu olhar para ele. “Ela te ensinou a ler e escrever, a falar corretamente e transmitiu seu conhecimento e sabedoria. Mas isso não era exatamente necessário, não é? O que eu quero dizer é… isso é o que chamamos de amor.”
Jusetsu conseguia visualizar Reijo em sua mente. Desde o dia em que a levou ao Palácio Yamei, sua mentora parecia uma senhora muito idosa. Ela não era do tipo que sorria muito, mas tinha muita perseverança. Ela se esforçou obstinadamente para preencher o vazio no coração de Jusetsu com amor.
“Você também deve ter pessoas ao seu redor a quem você demonstra amor. Não importa se é apenas uma ou duas pessoas, ou quantas você quiser. Recomendo que você reflita sobre isso.”
Jusetsu olhou para baixo. Ela não tinha certeza se havia entendido o que Koshun estava dizendo. Ele estava fazendo algo complicado parecer muito fácil.
“Ishiha ficará no Palácio Gyoko por um tempo. Me avise quando estiver pronta para recebê-lo”, disse Koshun, antes de se levantar. “Se tiver alguma dúvida, terei prazer em conversar com você.”
“Tem certeza?”
“Claro.”
Jusetsu se viu sorrindo levemente. "Isso não será necessário. Você é sempre sincero demais."
“Desejava um conselho falso? Vou ver o que posso fazer.”
Koshun se virou e foi em direção à entrada. Eisei abriu as portas. Era aquele tipo de noite em que o céu parecia ter sido banhado em tinta preta. A lua não era visível e as estrelas não brilhavam muito. Eisei foi acender seu castiçal, mas naquele mesmo instante, Jusetsu tirou uma peônia do cabelo e a ofereceu a ele. A flor oscilou e se desfez, criando uma chama vermelho-pálida na ponta da vela.
“Esta noite é lua nova. Tome isto para que Yeyoushen não te pegue.”
Corria o boato de que Yeyoushen — o deus que patrulhava a noite — encontraria quem vagasse pelas ruas à noite, por isso as pessoas eram desencorajadas a sair depois do anoitecer. Consequentemente, os portões da cidade eram fechados para impedir a entrada e saída de pessoas.
“Você disse que Uren Niangniang vagueia na forma de Yeyoushen nas noites em que não há lua no céu, não disse?” Koshun aparentemente se lembrou do que Jusetsu lhe disse antes.
Jusetsu não respondeu e mudou de assunto. "Não me visite amanhã."
"Amanhã?", perguntou Koshun, hesitante. "Por que não?"
“Estarei cansada.”
“Por que você estará…?”
Koshun tentou interrogá-la, mas Jusetsu resistiu e insistiu para que ele voltasse para casa imediatamente.
Ele olhou para ela. "...Eu já mencionei isso antes", começou ele, "mas eu quero que a gente se comunique. Eu quero que você fale comigo."
“Comunique?”
“Quero saber o que está te incomodando, o que te deixa infeliz e o que te traz alegria”, disse Koshun.
Dito isso, ele começou a voltar para casa. Quando se virou, o enfeite de vidro pendurado em sua cintura balançou e brilhou à luz da chama vermelho-clara. Seu enfeite era um peixe de vidro em miniatura. Jusetsu tinha um igual, pois Koshun havia lhe dado. O de Koshun era de vidro transparente, enquanto o de Jusetsu era branco leitoso com um leve tom avermelhado. Esses objetos serviam como prova do juramento que haviam feito um ao outro.
Jusetsu guardava a sua em seu armário, junto com as outras coisas que Koshun lhe deu — o peixe de âmbar e a rosa esculpida em madeira. De vez em quando, Jusetsu simplesmente contemplava-as — como em noites sem lua como esta.
Quando o luar desaparecia, a luz das estrelas a envolvia. A escuridão era mais densa e sombria do que qualquer céu noturno jamais poderia ser. Ela conseguia ouvir farfalhar nas sombras. Algo estava lá fora, tentando fazer-se ouvir.
Jusetsu sentiu um impulso de gritar "Não!", mas cobriu a boca para se conter. Ela conseguia ver a chama vermelho-clara no topo do castiçal de Eisei, tremulando fracamente à distância, indicando onde Koshun estava. Se ela levantasse a voz, ele poderia voltar para ver como ela estava — o que aconteceria então?
A escuridão parecia ficar ainda mais pegajosa, agarrando-se a ela como argila.
Ela voltou para dentro e fechou a porta atrás de si.
Naquela noite, ela já havia dispensado Jiujiu e a mandado descansar.
Jusetsu abriu as cortinas ao redor da cama e entrou. Havia uma porta no fundo do quarto que dava para uma passagem estreita. Jusetsu abriu a porta e seguiu pelo corredor.
No final do corredor havia um pequeno cômodo. Na parede, havia uma pintura de um grande pássaro negro misterioso com o rosto de uma mulher — Uren Niangniang — e um altar em frente. Jusetsu soprou no castiçal e uma chama branca surgiu num instante, tremeluzindo diante dela. Um aroma almiscarado pairava no ar.
Jusetsu tirou outra peônia do cabelo e a jogou na tigela de vidro. Um som ressoou como o de um sino, e a flor pareceu se dissolver no nada.
Esse era um ritual que ela realizava a cada três noites.
Ela saiu do pequeno quarto e voltou para o quarto onde estava antes. Jusetsu soltou os cabelos que estavam arrumados e deitou-se na cama. Trocar de roupa e vestir o pijama dava muito trabalho.
Em noites sem lua como esta, ela tinha medo de fechar os olhos.
E, no entanto, seus olhos se fecharam involuntariamente, apesar de tudo. Suas pernas ficaram tão pesadas que ela não conseguia movê-las. Ao fechar os olhos e a escuridão a envolver, ela sentiu seu corpo afundar cada vez mais. A escuridão que a envolvia era fria e densa. Era difícil respirar. A sensação era de estar sendo arrastada para o fundo do oceano.
Mesmo que afundasse até as profundezas mais extremas, ela ainda emergiria à superfície. Ela subiria muito longe do ponto onde afundou, mas, enquanto tentava retornar à superfície, seu corpo pararia repentinamente. Seu coração, e somente seu coração, seria a única parte dela capaz de continuar até a superfície.
Jusetsu soltou um grito silencioso. Enquanto seu coração se elevava, seu corpo parecia contraído, como se fios de seda a prendessem. A dor que sentia era como se estivesse sendo dilacerada. E ainda assim, sem nenhuma preocupação no mundo, seu coração flutuou sozinho até a superfície da água — repousando sob um céu noturno muito, muito distante daquele sob o qual seu corpo havia sido deixado.
A linha a prendia. Estava emaranhada em seu corpo e cravava-se em seus membros. Então, por fim, arrancou-a completamente.
Ela agora contemplava a propriedade imperial. Fogueiras brilhantes iluminavam a noite escura. Ignorando tudo isso, seu coração voou para outro lugar. Seu coração tinha asas — asas tão negras e brilhantes que pareciam molhadas. Asas negras que pareciam sugar tudo. As asas continuavam a bater amplamente, cada vez mais longe. A cada batida, uma pontada de dor percorria o corpo de Jusetsu. A dor era tão intensa que parecia que sua carne estava sendo arrancada de seus membros decepados em pedaços.
Essas asas, porém, não eram as asas do seu coração. Eram as asas negras como azeviche de um pássaro misterioso com cabeça humana — a deusa que cruzou o mar.
Uren Niangniang.
Jusetsu nutria ressentimento por Kosho, a primeira Consorte Corvo. Por que ela tinha que aceitar esse sofrimento? Será que ela realmente amava Ran Yu — o Soberano do Verão — tanto assim? Como ela podia sentir isso por um homem que a confinou no palácio interno e lhe tirou o título?
Kosho acabou se tornando a guardiã de Uren Niangniang. Ela garantiu que Uren Niangniang não pudesse escapar, tornando-se uma só com ela.
A vida da Consorte Corvo também era a de Uren Niangniang. A consorte assegurou que Uren Niangniang jamais poderia escapar. Para isso, ela aprisionou a deusa sob o Palácio Yamei.
Contudo, nas noites em que não havia lua no céu e a escuridão da noite era mais profunda que o normal, Uren Niangniang não conseguia se conter. Ela se dissolvia lenta e firmemente na escuridão e começava a vagar. Conforme Uren Niangniang se movia, a Consorte Corvo sentia uma dor excruciante, como se estivesse sendo dilacerada.
Em algumas ocasiões, Uren Niangniang passava a noite inteira voando por aí. Em outras noites, ela dava apenas uma volta pela propriedade imperial antes de voltar. Mas naquela noite, parecia que ela estava fazendo o primeiro. Ela passou zunindo pela propriedade imperial, sobrevoou a região e foi planando cada vez mais longe. Algo cheirava a água parada — havia um rio lá embaixo, e Uren Niangniang voava ao longo dele. O rio serpenteava, cruzava uma vasta planície, cortava vilarejos e passava por cima de uma colina coberta de rochas de formatos estranhos.
Para onde será que ela está indo?
Dominada pela dor, Jusetsu só conseguia contemplar a paisagem. A luz de uma cidade finalmente começava a aparecer. As pessoas haviam acendido lanternas e as pendurado por toda parte, temendo a chegada de Yeyoushen — o que não a surpreendeu. Uren Niangniang pairava sobre as casas. As casas eram feitas de pedras empilhadas, e as portas e janelas estavam cobertas com tecido. As lanternas nos beirais tinham um formato incomumente redondo. As ruas eram estreitas, sinuosas e íngremes. Não havia sinal de ninguém do lado de fora das casas. O ar cheirava a sal. Esta cidade devia estar perto do mar.
Então, um pouco de luz escapou do segundo andar de uma das casas.
Alguém havia aberto uma escotilha de madeira, levantando o pano. Um jovem espiou pela abertura. Ele tinha pele clara e longos cabelos negros que lhe caíam pelas costas.
Ele olhou para cima.
Ele estava olhando na direção dela.
A Coruja!
Jusetsu não entendia o que a fez pensar aquilo, mas essas palavras ecoaram em sua mente no momento em que viu o rosto daquele jovem — ou melhor, seus olhos encontraram os dele.
Jusetsu abriu os olhos sobressaltada. Tudo estava em silêncio novamente.
Respirando com dificuldade, ela moveu o pescoço lentamente mais uma vez. Estava de volta ao Palácio Yamei, em cima de sua cama.
Suas costas estavam úmidas e suadas — desconfortavelmente úmidas. A dor e a sensação de estar sendo dilacerada haviam passado, mas ela sentia que toda a sua força havia desaparecido por completo. Não tinha energia para se sentar, então se virou na cama — embora com dificuldade. Assim que se deitou de lado, sentiu um frio sombrio percorrer toda a sua coluna.
No instante em que Uren Niangniang avistou o jovem, ela retornou ao Palácio Yamei num piscar de olhos. Jusetsu percebeu um lampejo de emoção na reação de Uren Niangniang — um toque de medo.
"Apenas... Quem... era aquele?" Jusetsu conseguiu desabafar.
Com a língua trêmula e a garganta seca, ela não conseguia articular as palavras corretamente.
Ninguém conseguia responder ao sussurro rouco de Jusetsu. Afinal, só havia uma coisa pairando ao lado dela: a escuridão.
“…Abaixe a escotilha, Shogetsu.”
Ho Ichigyo advertiu seu aprendiz, que — apesar da lua nova — acabou de abrir a janela.
"Certo, profe", disse Shogetsu com uma expressão vazia no rosto. Obedientemente, ele abaixou a escotilha de madeira.
[Kessel: Não esperava ler um “profe” em Raven, haha!]
O homem tinha um rosto pálido e deslumbrante, e cabelos negros que lhe caíam pelas costas.
Embora falasse de forma rude, era um jovem obediente. Cerca de um mês antes, Ho o encontrou caído na rua e o amparou. Desde então, ele permaneceu ao seu lado como aprendiz, mas era, na prática, apenas um parasita que fazia pequenos trabalhos para ele. Shogetsu nem sequer reclamava — simplesmente o seguia sem rumo. Apesar de tudo isso, ele nunca sorria nem se irritava. Nenhuma emoção, por menor que fosse, jamais transparecia em seu rosto. Ainda havia algumas coisas que Ho não compreendia totalmente sobre ele.
Ho largou o pincel e esfregou os olhos. Sendo um homem idoso, escrever à noite cansava sua vista. Pediram-lhe que escrevesse uma carta em nome de alguém. Havia poucas pessoas em sua pequena cidade portuária que soubessem escrever, então Ho era muito requisitado como escritor fantasma — embora essa não fosse originalmente sua profissão. Existiam muitas cidades portuárias como essas na terra em que viviam, uma grande ilha cercada por várias ilhas menores.
[Kessel: Escritores fantasmas são pessoas pagas para escrever obras que serão lançadas por outras pessoas mais famosas (ou simplesmente picaretas), porém que não tem o mesmo talento para a escrita. Geralmente celebridades fazem isso.]
Shogetsu preparou a cama de Ho para ele. Mas antes de Ho se deitar, ele tirou suas ferramentas da bolsa e as verificou, como sempre fazia.
Cartões com escritas ilegíveis e desleixadas, cartões em branco, tinta vermelha, cinábrio, cera de colmeia, uma agulha… Ele espalhou rapidamente os itens sobre a mesa para inspecioná-los, depois os guardou cuidadosamente de volta em sua bolsa. Ao lado da mesa também havia uma glaive.
Ho era um xamã, e essas eram todas ferramentas usadas no xamanismo. No entanto, ele raramente utilizava essas habilidades. Quando a dinastia anterior entrou em colapso, Ho abandonou essa vida e fugiu do país. Foi muito difícil para ele, especialmente considerando que tinha um jovem aprendiz na família imperial da dinastia anterior. Ho até havia planejado adotar esse jovem.
“Profe, terminei”, disse Shogetsu, apontando para a cama que havia preparado para ele.
Ho apoiou as mãos na mesa e levantou-se lentamente com um gemido. Seus joelhos rangiam e doíam. Shogetsu estendeu-lhe a mão e ajudou-o a ficar de pé. Ho olhou para o rosto dele, que agora estava perto do seu. Shogetsu tinha o rosto pálido e cabelos negros brilhantes, e seus olhos penetrantes e amendoados eram intensos, mas brilhantes. Seus traços delicados lhe conferiam um ar um tanto andrógino.
Ele não se parece com ele…
Shogetsu não se parecia em nada com o aprendiz que Ho pretendia adotar. Aquele aprendiz de anos atrás tinha cabelos prateados — tão radiantes quanto o luar — e possuía uma beleza brilhante que parecia dissipar a escuridão da noite. Mesmo assim, Ho deu a este jovem — aquele que encontrou caído na rua, dizendo que nem sequer sabia o próprio nome — parte do nome que seu antigo aprendiz costumava ter. Provavelmente porque ele tinha mais ou menos a mesma idade e a mesma altura.
Hyogetsu.
Sempre que esse nome lhe vinha à mente, um amargo pesar e uma tristeza profunda invadiam o peito de Ho. Hyogetsu era descendente do imperador e havia sido executado. Ho, por outro lado, fugiu da capital imperial sem sequer ver o corpo de seu aprendiz, embarcou furtivamente em um barco ancorado e escapou do país. Naquela época, havia sido emitida uma ordem de prisão contra os xamãs em quem a família imperial da dinastia anterior confiava. Muitos desses xamãs foram executados.
Ho tinha medo de morrer. Ele conhecia fantasmas, então sabia que a morte lhe era familiar e não deveria ser temida — mas quando surgiu a possibilidade de ser morto ele mesmo, fugiu — deixando Hyogetsu para morrer.
Ele se deitou na cama e soltou um suspiro profundo. Desde que retornou à terra de Sho, ele havia perambulado de cidade portuária em cidade portuária, sem nunca se dirigir à capital imperial. Não planejava pôr os pés lá novamente. Não se permitiria curvar-se diante do santuário da família Ran por amor a Hyogetsu — não seria certo.
"Profe", Shogetsu o chamou, ficando ao lado de Ho.
O que havia de estranho naquele jovem era a sua voz. Não era indistintamente grave nem aguda, mas tinha um timbre que cativava qualquer um que a ouvisse.
"O que foi?"
"Há algo que eu gostaria de lhe perguntar."
Talvez tivesse algo a ver com o lugar onde ele morava antes, mas Shogetsu parecia achar tudo ao seu redor estranho. Ele sempre tinha uma pergunta sobre praticamente tudo. Esperando que ele fizesse uma dessas perguntas novamente, Ho assentiu e o incentivou a continuar.
“Pergunte”, disse ele.
"Quero ir à capital imperial. Como posso fazer isso?", perguntou Shogetsu.
***
A manhã finalmente chegou, mas Jusetsu ainda não conseguia se levantar da cama. Ela não tinha forças. Precisou reunir muita força de vontade só para mover a ponta de um dos dedos.
Jiujiu estava extremamente preocupada. "Vamos, levante-se", disse ela a Jusetsu, mas a jovem estava tão apreensiva que enviou um mensageiro ao departamento médico. Em seguida, trouxe para Jusetsu um mingau de gengibre e pinhão, acompanhado de leite de soja. Jusetsu não tinha apetite, mas como Jiujiu e Kogyo a observavam com tanta ansiedade, obrigou-se a pegar a colher.
“Se você não estiver com vontade de comer nada, beba o leite de soja primeiro. Eu coloco um pouco de mel para adoçar”, explicou Jiujiu.
O leite de soja era adocicado e parecia descer rapidamente pela sua garganta. Depois de tomá-lo, Jusetsu conseguiu comer também o mingau. A comida estava ajudando-a a recuperar um pouco das suas forças.
Agora que Jusetsu estava com o rosto mais corado, Jiujiu e Kogyo se sentiram um pouco menos preocupados e pousaram suas bandejas. Onkei chegou em seguida para ocupar o lugar deles e ficar de olho nela. Como estava muito preocupada com Jusetsu, Jiujiu o havia importunado para que fosse ao departamento médico como mensageiro.
“A cor voltou ao seu rosto”, disse ele. Onkei tinha um remédio que preparou na cozinha, numa bandeja, para ela.
Jusetsu deu uma olhada rápida. "Ah. Sinto muito que você tenha tido que sair como mensageiro sem motivo." Ela estava tentando fazê-lo ir embora.
"Imagino que seu corpo esteja debilitado, então acredito que seria melhor se você tomasse isso", disse ele.
“Hunf…”
O remédio parecia ser feito de uma infusão de cenouras, dedaleira e raízes de astrágalo. Supostamente, ajudaria a recuperar suas forças físicas. Onkei tinha razão — ela deveria tê-lo tomado —, mas remédios eficazes também costumavam ter um gosto amargo.
Onkei a seguia em silêncio, então ela não teve escolha a não ser aceitar o remédio dele. Estava frio, mas o cheiro que emanava era definitivamente amargo. Naturalmente, Jusetsu franziu a testa, mas não podia dizer que não queria bebê-lo por causa do gosto. Determinada, prendeu a respiração e engoliu todo o remédio de uma só vez.
Definitivamente, era amargo. Incapaz de suportar o gosto ruim que deixou em sua língua, ela fez uma careta.
"Devo trazer água quente para você?" perguntou Onkei. Jusetsu gemeu em resposta.
Onkei escapuliu até a cozinha e trouxe um pouco para ela. "Tem mel dissolvido", disse ele.
A água morna que lhe enchia a boca tinha um leve toque adocicado. O leite de soja que acabou de beber era igual. Jusetsu imaginou que devia ter sido sua serva, Keishi, quem lhe disse para adicionar mel. Aquela mulher estava ali há muito, muito tempo. Quando Reijo ainda estava viva, sempre lhe trazia água quente com mel depois de lhe dar o remédio. Keishi era uma velha mal-humorada e antipática, mas seus movimentos eram ágeis e, surpreendentemente, suas ações eram ponderadas.
“Nunca contrate uma dama de companhia. Uma empregada doméstica já basta.”
Jusetsu se lembrou do que Reijo costumava lhe dizer. As instruções de sua mentora ecoavam constantemente em sua mente. Junto com essa frase, ela também a advertia repetidamente de que ter eunucos estava completamente fora de cogitação. Seu argumento era que eles tendiam a formar panelinhas.
A Consorte Corvo não deveria ter pessoas reunidas ao seu redor. Elas se transformariam em grupos e panelinhas, que cresceriam cada vez mais. Por fim, acabariam se tornando as tropas de elite do Soberano do Inverno.
Para evitar que isso acontecesse, Jusetsu deveria viver uma vida solitária — e, no entanto, Jusetsu já havia contrariado os ensinamentos de Reijo.
Jusetsu colocou a tigela de volta na bandeja, mas Onkei não demonstrou nenhuma intenção de ir embora. Ele simplesmente continuou parado ali. Achando isso curioso, Jusetsu olhou para ele. Parecia que ele queria dizer algo.
“Qual é o problema?”, perguntou ela.
“Você pode achar que estou ultrapassando os limites, mas... você se importaria de ouvir o que tenho a dizer?”
“Não me importo. Pode dizer.”
Onkei agradeceu, colocou a bandeja em uma mesinha próxima e então falou: "Tem a ver com Ishiha."
Ao ouvir o nome dele, Jusetsu desviou o olhar para o chão. "Você se arrepende de tê-lo ajudado, niangniang?"
“Se eu não tivesse me envolvido, Ishiha não teria sido destituído pelo seu mestre”, disse Jusetsu. “Ele provavelmente teria sido promovido, como é típico. Afinal, ele é um garoto inteligente.”
“Na verdade, vindo de uma tribo minoritária regional, ele teria permanecido um eunuco sem posição social pelo resto da vida, a menos que alguém o tivesse escolhido especificamente. Os açoites também teriam continuado”, respondeu Onkei.
Isso pode ser verdade, pensou Jusetsu. Mas mesmo assim... O fato de ela ter se metido onde não devia ainda permanecia — e a verdade era que o rumo da sua vida havia sido alterado por causa disso. A ideia de se envolver com alguém e mudar o curso da vida dessa pessoa assustava Jusetsu — independentemente de quem fosse Jiujiu, Kogyo ou qualquer outra pessoa.
“A vida de Ishiha mudou porque eu me envolvi. Independentemente de ter sido para o bem dele ou não, é o próprio Ishiha que deve trilhar esse novo caminho agora. Eu não deveria ter feito nada.”
Eisei e Koshun estavam certos. Jusetsu havia se intrometido irresponsavelmente em algo que não lhe dizia respeito. Ishiha foi lançado em um caminho novo, sem qualquer sinalização.
Houve alguns instantes de silêncio, mas Onkei o quebrou. "Eu costumava ser acrobata em uma trupe de aves canoras..."
“Você já me disse isso antes”, disse Jusetsu, lembrando-se de como havia mencionado isso anteriormente.
“Certa vez, fomos contratados para servir a um determinado juiz”, começou ele. “Éramos chamados sempre que ele organizava um banquete, por exemplo. Alguns membros da nossa trupe tocavam música, enquanto outros se especializavam em truques de mágica.”
Havia muitos acrobatas como eu também. E... certa noite, o juiz convidou seus amigos para um banquete — embora eu não me lembre agora do que estavam comemorando. O juiz e seus convidados beberam muito álcool. Depois de sermos chamados, voltamos aos nossos aposentos, mas um dos convidados nos pediu que enviássemos um membro da nossa trupe para seus quartos. A pessoa que ele havia pedido era uma jovem que tocava pipa, um tipo de alaúde. Ela tinha apenas treze anos.
Onkei ficou em silêncio por um instante. Jusetsu não sabia por que ele começara a lhe contar essa história, mas a ouviu com a respiração suspensa.
“Não fazíamos esse tipo de negócio, então recusamos a oferta dele. Mas depois…”
Ele pareceu hesitante em continuar, mas depois de se recompor, Onkei prosseguiu contando a história mais uma vez.
“O hóspede arrastou a jovem tocadora de pipa para seus aposentos à força. Ela era uma garota bondosa, mas dócil, então nem conseguiu levantar a voz quando ele a ameaçou. Mais tarde, ela havia desaparecido, então fui procurá-la. Quando finalmente a encontrei, ela estava perto do poço no quintal. Ela estava lavando o rosto e enxaguando a boca. Seus soluços baixos eram abafados pelo som da água. Mesmo agora, sinto como se ainda pudesse ouvi-la soluçando... Depois disso, fui até o quarto do hóspede — ele estava dormindo e roncando alto — e o espanquei. Quando o lacaio do juiz me separou dele e me conteve, o homem estava coberto de sangue. Minha intenção era matá-lo, mas não consegui. E é por isso que vivo a vida que vivo agora.”
Onkei não demonstrou nenhuma expressão no rosto enquanto contava sua história calmamente, mas sua voz tornou-se cada vez mais fria à medida que prosseguia.
“O juiz manteve o assunto em segredo e pretendia resolver as coisas em privado. O convidado que eu deixei ensanguentado disse: ‘Faça dele um furen.’”
"Furen" era outro nome para eunuco, significando "pessoa podre". Escusado será dizer que era um termo pejorativo.
“Fui levado para a Câmara do Castigo. É lá que eles te transformam em eunuco. O convidado assistiu e riu enquanto eles… ‘cortavam fora’”.
Jusetsu ficou gelada até os ossos. Ela mal conseguia falar — mal conseguiu sussurrar: "Que crueldade".
Onkei olhou para ela. "Nenhuma pessoa entre o juiz e seus comparsas jamais disse isso. Nem quando seu lacaio me imobilizou. Nem quando seu convidado me espancou até eu ficar em frangalhos pelo tempo que quis. Nem quando as pessoas ao seu redor descobriram o que o convidado fez. Nem quando fui levada para a Câmara de Castigo. Nunca. Ninguém tentou impedir também. Afinal, eu era membro de uma trupe de aves canoras populares — éramos pessoas simples.”
Existiam dois tipos de cidadãos: os bons cidadãos, que respeitavam a lei, e os plebeus.
Escravos, prostitutas, artistas e outras pessoas de status inferior eram considerados plebeus e não tinham permissão para casar com cidadãos "bons".
“Niangniang, não são muitas as pessoas que se manifestariam quando algo é cruel — e menos ainda as que interviriam ao ver um eunuco sendo açoitado. Você não percebe isso. Se ao menos uma única pessoa tivesse se manifestado e dito que a forma como fui tratado foi ‘cruel’, isso poderia ter salvado minha alma — mesmo que não tivesse resolvido o problema por completo.”
A voz de Onkei transbordava dor. Era como se sangue fresco jorrasse de suas feridas daquela época, que ainda não haviam cicatrizado.
“Você sabe o quão difícil é para pessoas como nós encontrar alguém como você? Você sabe quanta esperança nos dá saber que existe alguém disposto a estender a mão aos mais fracos? Por favor, não se culpe por nada.”
Onkei caiu de joelhos diante dela, tocando a testa no chão em sinal de admiração.
“Como eunuco, agradeço. Obrigado por ajudar Ishiha.”
Jusetsu não conseguia encontrar as palavras certas para dizer a Onkei enquanto ele se prostrava diante dela. Ela desceu da cama, ajoelhou-se no chão e colocou a mão nas costas de Onkei.
“Onkei…”
Onkei chorava sem emitir um único som. Seus ombros tremiam incontrolavelmente. Jusetsu simplesmente acariciou suas costas.
“Peço desculpas… Não só corrompi seus ouvidos com a minha história, como agora você também está sujando as mãos.”
Após um breve instante, Onkei ergueu o olhar mais uma vez. Ele tinha novamente sua expressão habitual no rosto.
"Você não fez isso", disse Jusetsu a ele, embora tenha lhe custado muito esforço dizer essas palavras.
Ela usou a mão que estava usando para acariciar as costas de Onkei para ajudá-lo a se levantar. Não havia sequer uma lágrima no rosto de Onkei, mas seus olhos estavam úmidos, como se estivessem cobertos por uma película de água.
"Posso te perguntar uma coisa?", disse Jusetsu.
“O que seria?”
Jusetsu aproximou o rosto do ouvido de Onkei e sussurrou: "Posso saber os nomes do 'juiz' e do 'convidado' que você mencionou?" Sua voz soou tão cortante que até a própria Jusetsu se surpreendeu.
Onkei ficou em silêncio por um momento, depois suavizou o olhar. "Não importa mais, niangniang. O atendente Ei me perguntou a mesma coisa quando contei a história para ele há algum tempo."
Em outras palavras, Eisei já havia resolvido tudo de alguma forma. "Ah", disse Jusetsu, arregalando os olhos. "Entendo. Eisei resolveu, não é?"
“Niangniang, recomendo fortemente que você aceite Ishiha como seu eunuco. Tenho certeza de que ele lhe será de grande utilidade. Posso ser seu guarda-costas, mas como trabalho para o Atendente Ei, pode haver momentos em que não poderei ajudá-lo. Acho que seria bom se você treinasse um eunuco como ele.”
"Criar um eunuco está definitivamente além das minhas capacidades", disse ela.
“Basta pedir que ele faça algumas tarefas para você. Ele aprenderá dessa forma. Mas você também deveria ensiná-lo a ler e escrever.”
“Como ler e escrever? Reijo me ensinou isso…” Jusetsu recordou com carinho. “Quando ele atingir seu potencial máximo como eunuco, poderá até mesmo assumir outro cargo. É difícil encontrar alguém que treine um eunuco a esse nível depois de ter sido abandonado por seu mestre como ele foi. É por isso que…”
“É por isso que eu deveria fazer isso?”
Onkei assentiu. "Correto. Você se preocupa com sua própria responsabilidade, mas insiste que não pode mantê-lo no Palácio Yamei para sempre. Se for esse o caso, essa linha de ação parece a mais adequada, não acha?"
“Entendo”, respondeu Jusetsu. “Você é muito esperto, não é?”
“É uma honra receber tal elogio de você, niangniang.”
Por um lado, o plano parecia bom, mas uma parte dela sentia que até mesmo fazer isso era uma má ideia. Mesmo assim, Jusetsu hesitou por apenas um instante antes de concordar com a proposta de Onkei. Ela provavelmente vinha procurando uma desculpa para manter Ishiha no palácio o tempo todo.
Jusetsu não sabia se aquela era a escolha certa... e provavelmente não era.
[Kessel: Certa ou não, parece que a decisão foi tomada. Que história pesada a do Onkei, mas imagino que seja isso que se espera de um eunuco desta época. Tempos difíceis…]
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