Volume 2
Capítulo 1: A Andorinha Azul (Parte 1)
Nas profundezas do palácio interno, vivia uma mulher conhecida como a Consorte Corvo.
Apesar de ser uma consorte por título, a Consorte Corvo era especial. Ela nunca ofereceu qualquer tipo de entretenimento noturno ao imperador e, em vez disso, mantinha um perfil discreto, passando seus dias dentro de seu palácio escuro como azeviche e raramente saindo de suas portas. Alguns afirmavam tê-la visto de vez em quando, mas seus relatos eram inconsistentes — para cada pessoa que dizia que ela era uma velha, havia outra que dizia que era uma garota jovem.
Em sussurros, as pessoas especulavam que ela era imortal, ou possivelmente um fantasma temível. Diziam até que ela possuía poderes mágicos místicos, e corria o boato de que ela aceitaria qualquer tarefa que lhe fosse solicitada. Desde lançar uma maldição mortal sobre alguém que você odiasse até invocar os espíritos dos mortos ou encontrar objetos perdidos, ela podia fazer tudo.
Mesmo sendo uma consorte que residia no palácio interno, ela nunca recebeu visitas do imperador.
Ela também nunca se ajoelhava diante dele. Assim era a Consorte Corvo.
[Kessel: A Soberana do Inverno! Baita introdução, quase idêntica ao do primeiro volume.]
Jusetsu pressentiu algo estranho e olhou em direção à porta.
“Algum problema, niangniang?” perguntou Jiujiu, sua dama de companhia.
A escuridão azul-índigo profunda do lado de fora da janela treliçada parecia infiltrar-se silenciosamente no quarto. Era exatamente esse tipo de noite. O robe que Jusetsu usava, no entanto, era ainda mais profundo e escuro. Tanto seu shanqun de cetim, bordado com um padrão floral de folhas, quanto sua saia — com um pássaro carregando uma flor — eram tão negros quanto as asas de um corvo. O xale de seda fina e preta que ela usava sobre os ombros tinha obsidiana bordada e brilhava misteriosamente como a luz das estrelas a cada movimento seu.
“Alguém está vindo”, respondeu ela secamente, levantando-se da cadeira.
Sua galinha dourada, Shinshin, corria inquieta a seus pés. E naquele exato momento, uma voz veio do outro lado da porta.
“Querida Consorte Corvo, você está aí?”
Era a voz de uma jovem. Ela devia estar assustada, ou talvez nervosa, porque sua voz estava trêmula e estridente.
"Há algo que eu gostaria de lhe pedir, se você fosse tão gentil de aceitar."
Essa era a frase padrão usada pelos visitantes do Palácio Yamei. Todos a diziam, como se fosse uma espécie de senha. Essas pessoas apareciam porque tinham um pedido para Jusetsu — ou melhor, para a Consorte Corvo.
Eles sempre se aproximavam sorrateiramente e pediam algo a ela — fosse para que ela encontrasse um objeto perdido, invocasse uma alma ou até mesmo amaldiçoasse alguém à morte.
Jusetsu estendeu o braço rapidamente e acenou suavemente com a ponta do dedo, como se estivesse puxando um fio invisível.
Com isso, as portas se abriram silenciosamente. A imagem de uma mulher solitária — imóvel, como se estivesse enraizada no mesmo lugar — emergiu sob a delicada luz do luar. Apenas parte de seu rosto era visível na densa escuridão. Ela parecia ser uma dama da corte. A mulher vestia um ruqun simples, mas seu rosto não era fácil de distinguir, pois estava coberta da cabeça aos pés por um lençol de seda branca e fina. Ela entrou apressadamente — como se temesse ser vista por alguém — e soltou um leve suspiro.
“O que deseja de mim?” perguntou Jusetsu sem rodeios.
A mulher ergueu o olhar de repente. Era evidente que ela estava ofegante, incrédula, por trás do véu de seda — embora a causa de seu choque fosse incerta. Talvez estivesse surpresa ao ver que Jusetsu era uma jovem de apenas quinze ou dezesseis anos, ou talvez fosse seu ruqun negro como azeviche que a havia surpreendido.
“Você é… a Consorte Corvo?” disse ela, parecendo perplexa. Pelo que parecia, era a idade de Jusetsu que a havia deixado atônita.
“Sim, sou eu. Por que pergunta?”
Esse tipo de troca de palavras era incômodo. Após a resposta um tanto rude de Jusetsu, a mulher ficou em silêncio por um breve instante, depois correu até ela sem fazer qualquer reverência.
"Por favor, me ajude", disse a mulher com tanta urgência. Quase parecia que ela ia se agarrar à Consorte Corvo.
Jusetsu recuou um pouco. A mulher sob o fino tecido de seda estava sem fôlego.
“Não tenho outra escolha senão pedir sua ajuda, querida Consorte Corvo. Por favor…”
“E é por isso que pedi que me dissesse o que desejava de mim.”
A mulher recolheu a mão que estendeu em direção a Jusetsu e a levou ao peito. Apertou as mãos trêmulas com força e engoliu em seco.
“Eu gostaria… que você chamasse um espírito de volta para mim.”
Sua voz era tão estridente e trêmula quanto quando Jusetsu a ouviu pela primeira vez, mas a jovem agora percebia que a visitante não estava assustada nem nervosa.
Ela estava desesperada. Jusetsu era sua última esperança.
Ao “chamar um espírito de volta”, ela na verdade pedia para trazer alguém de volta à vida. "Quero que você reviva alguém para mim", reiterou.
As mãos da mulher tremiam violentamente. Ela tentou argumentar com ainda mais veemência, mas Jusetsu ergueu uma das mãos para impedi-la.
“…Não sou capaz de reanimar os mortos.”
A mulher elevou a voz, emitindo um som que não podia ser considerado nem um grito nem um gemido. Imperturbável, Jusetsu continuou falando.
“O que posso fazer é ajudá-la invocando a alma deles. Posso invocar a alma deles apenas uma vez. Só isso. E não é que eu não queira fazer mais — eu simplesmente não consigo”, explicou ela lentamente, de uma forma fácil de entender.
Os ombros da mulher subiam e desciam. Sua respiração estava pesada. Parecia que ela estava prestes a desabar em lágrimas.
“Mas… Não, você deve estar mentindo. Então, quem mais… quem mais eu deveria pedir isso?!” Sua voz, que escapava entre respirações ofegantes e irregulares, soava horrorizada.
“Ninguém é capaz de realizar tal ato.”
A mulher soltou um grito e cobriu o rosto com as duas mãos sobre o fino tecido de seda. Um choro abafado escapou de seus lábios. Vê-la agir daquela forma fez Jusetsu sentir como se uma lama estivesse se acumulando em seu peito. Pedidos como aquele eram raros. Era a primeira vez que alguém pedia algo assim à própria Jusetsu, mas ela já havia presenciado algumas vezes quando a antiga Consorte Corvo ainda estava por perto. Sua mentora sempre dava a mesma resposta que Jusetsu. Recusar a pessoa era a única opção. Jusetsu também não tinha outra escolha. Ela sentiu vontade de se livrar daquela pesada lama dentro de si, mas, em vez disso, apenas soltou um pequeno suspiro e apontou para a porta.
“Recomendo que você se retire.”
A mulher recuou, soltando gemidos baixos. Levantou-se cambaleando ao se virar. Nesse instante, a seda branca escorregou de sua cabeça. Ainda trêmula, a mulher saiu correndo do palácio.
[Kessel: Independente da forma como ela tratou a Juju (gostam desse apelido?!), consigo imaginar quanta dor ela estava sentindo para fazer um pedido desesperado como esse. Já perdi pessoas importantes em minha vida, então…]
Jusetsu moveu o pulso com agilidade, fazendo com que as portas se fechassem mais uma vez.
Jiujiu, que estava parada, prendendo a respiração, piscou como se tivesse acabado de voltar a si. "Aquela moça está bem?", perguntou. Jiujiu então caminhou até o local onde a mulher estava e pegou o fino tecido de seda que havia caído no chão.
"Não sei", respondeu Jusetsu, por falta de algo mais a dizer.
“Se ela queria que você trouxesse uma pessoa falecida de volta à vida… suponho que ela perdeu alguém muito querido”, disse Jiujiu com um suspiro, dobrando delicadamente o tecido. Ela então o ofereceu a Jusetsu. “O que devemos fazer com isso?”
Jusetsu olhou fixamente para o tecido. Tinha um brilho aveludado, sugerindo que era seda da mais alta qualidade. O tecido também exalava uma fragrância suave, provavelmente perfumada com incenso. Tinha um aroma refrescante e doce de lírios.
“O Aroma do Desejo…”
Jusetsu se lembrou dessa fragrância. A antiga Consorte Corvo, Reijo, também a usava. Uma onda de nostalgia a atingiu. Jusetsu frequentemente se emocionava quando algo repentino e inesperado trazia à tona as lembranças de sua antecessora, e o perfume estava fazendo isso agora.
“É um incenso que se queima para o(a) amado(a), não é? As pessoas o oferecem de presente à pessoa amada.” Jiujiu cheirou o fino tecido de seda, inalando o aroma.
“Por que não colocamos na prateleira? Aquela dama da corte pode voltar para buscá-lo.”
Isso parecia improvável. Considerando que ela cobriu o rosto para entrar sem ser vista, era difícil imaginar que ela se daria ao trabalho de voltar até o palácio para buscar algo que havia esquecido.
Apesar de pensar isso, Jusetsu se virou para Jiujiu. "Se você quiser."
Talvez tenha sido o perfume que impregnou o fino tecido de seda que a fez parecer tão descontraída.
Jusetsu então se virou para o fundo do quarto, as mangas de seu shanqun preto esvoaçando enquanto ela se movia. Ao fundo, cortinas de seda fina em camadas pendiam do teto em frente à sua cama.
"Você já vai se recolher para dormir?", perguntou Jiujiu.
“Sim.”
“Nesse caso, deixe-me ajudá-la a se vestir com sua…”
“Eu consigo fazer isso sozinha.”
"Não vou deixar, niangniang", disse Jiujiu desafiadoramente. Ela fez beicinho e a seguiu através das cortinas.
Antes da chegada de Jiujiu, Jusetsu nunca tinha tido uma dama de companhia, então fazia tudo sozinha — desde se trocar e lavar o rosto até qualquer outra coisa. Além disso, ela queria cuidar de si mesma. Só aceitou a ajuda de Jiujiu porque a jovem insistiu que, do contrário, não haveria motivo para ela estar ali.
Jusetsu desistiu de discutir e deixou que Jiujiu cuidasse dela. Por mais estranho que fosse para uma consorte se preocupar com o humor de sua dama de companhia, ela se sentia desconfortável sempre que magoava os sentimentos de Jiujiu. Ela ainda não conseguia se acostumar a ter alguém ao seu lado.
Quando Reijo ainda estava viva, ela não tinha sequer uma dama da corte, muito menos uma dama de companhia. A única ajuda que ela tinha no palácio era uma serva idosa. Desde a morte de Reijo, apenas Jusetsu e sua galinha dourada, Shinshin, habitavam os aposentos.
Era assim que a Consorte Corvo deveria ser.
Atualmente, Jusetsu não tinha apenas Jiujiu, mas também uma dama da corte chamada Kogyo. Ela até recebia visitas de pessoas curiosas de vez em quando. Jusetsu constantemente se perguntava se tudo aquilo era realmente certo — afinal, a Consorte Corvo não deveria se misturar com os outros nem permitir que se aproximassem dela.
Jiujiu estendeu a mão para o robe de Jusetsu e desabotoou seu cinto. Enquanto Jusetsu a observava distraída, sentiu uma mistura de hesitação, arrependimento e alívio.
Então, abruptamente, ela virou o rosto em direção à porta. "...Jiujiu, espere", disse ela. Shinshin estava batendo as asas de forma caótica.
“Nossa, chegou mais alguém?”
“Parece que sim.”
“Poderia ser Sua Majestade?”
“Nem pensar”, negou Jusetsu categoricamente. “Ele esteve aqui ontem à noite. Não se atreveria a ser tão insistente com suas visitas.”
“Ora, ora. Você está falando dele desse jeito de novo.”
Mesmo assim, sempre que Koshun — o imperador — aparecia, Jusetsu conseguia reconhecê-lo antes mesmo de vê-lo. Era outra pessoa.
Jusetsu apertou novamente o cinto que estava desabotoado e passou pelas cortinas. Ela ouviu uma voz fraca vinda do outro lado da porta.
“Hum… Com licença? Você se importaria de abrir a porta?”
Parecia a voz de um menino tímido — embora, por se tratar do palácio interno, ele certamente seria um eunuco.
“Reverenciada Consorte Corvo… Hum… Meu nome é Ishiha. Hum…”
Jusetsu não conseguiu ouvir o nome dele direito, então inclinou levemente a cabeça para o lado.
“Oh, céus”, sussurrou Jiujiu, fazendo Jusetsu se virar para olhá-la. “Eu o conheço. Ele é um dos eunucos do Palácio Hien.”
Aquele era o palácio onde Jiujiu trabalhava antes. Com um movimento de mão, Jusetsu abriu as portas.
Um garotinho estava parado ali, vestido com um robe cinza claro, olhando ao redor com certa inquietação. Devia ter uns dez anos de idade. Sardas espalhavam-se por sua pele bronzeada. Seus olhos, que percorriam o interior do palácio Yamei, eram redondos e cativantes. Era um menino de aparência honesta, com um ar um tanto ingênuo. Quando viu Jusetsu, piscou surpreso, mas ao avistar Jiujiu, um sorriso de alívio surgiu em seu rosto.
“Jiujiu…!”
O menino estava prestes a se virar para encará-la, mas, tomado pela emoção, caiu de joelhos, incrédulo. Juntou as duas mãos e curvou a cabeça.
“P-por favor, aceite minhas mais sinceras desculpas, querida Consorte Corvo. Meu nome é Ishiha. Trabalho para o Palácio Hien.”
Ele estava com dificuldades para cumprimentá-la adequadamente. Devia ser novo no palácio interno.
“Ele é um neófito do Palácio Hien… Um aprendiz de eunuco. Ele é um recém-chegado — Ishiha só chegou no início da primavera”, explicou Jiujiu, estendendo a mão para ajudar o menino.
“Entendo”, respondeu Jusetsu. “Olhe para cima. Você deve se levantar.”
“Sim, senhorita”, disse Ishiha, levantando-se em silêncio. Ele parecia assustado, talvez por nervosismo. Estendeu os braços para baixo e ficou em posição de sentido.
“Não precisa ficar parado desse jeito. Venha sentar-se aqui.”
Jusetsu apontou para a mesa e as cadeiras no centro da sala e sentou-se em frente ao lugar onde queria que ele se sentasse. Ishiha piscou hesitante. Normalmente, eunucos jamais seriam vistos sentados à frente de uma consorte — especialmente não em frente a ela. Contudo, aquele era o Palácio Yamei, a residência da Consorte Corvo. Ela não precisava seguir as mesmas regras do restante do palácio interno.
"Sente-se", repetiu Jusetsu secamente.
Ishiha ficou ali parado, inquieto, como se algo o estivesse incomodando.
“Não precisa se preocupar. Ela não vai ficar brava com você depois que você se sentar. Fique à vontade para se sentar”, acrescentou Jiujiu, incentivando-o a obedecer.
Ishiha continuava imóvel. O menino simplesmente baixou a cabeça, como se estivesse prestes a chorar. Enquanto encarava os próprios pés, ele mexia as pernas.
O jeito como ele estava agindo deu a Jusetsu uma ideia do porquê de ele estar tão hesitante em se sentar. "Você machucou as pernas, não é?", disse ela.
As palavras dela assustaram o garoto, e seus ombros estremeceram. Devo estar certa, pensou Jusetsu. Pensando bem, ele havia agido com cautela ao se levantar novamente, e seu rosto também estava rígido.
"Imagino que você não consiga se sentar por causa da dor. Deve ser na parte de trás das coxas, então?"
Jusetsu aproximou-se dele e levantou a barra de seu robe. Ishiha estremeceu, nervoso. Sem se deixar abalar, Jusetsu enrolou o tecido e pediu a Jiujiu que a ajudasse a abaixar as calças dele, revelando coxas pálidas que claramente não viam o sol há algum tempo.
Ao vê-las, Jiujiu levou a mão à boca. "Que horror."
A parte posterior de suas coxas estava completamente coberta de hematomas. A região central era a mais afetada, com a pele descamando e sangue escorrendo dos ferimentos. Toda a área estava vermelha e inchada.
“Você deve ter apanhado muito com uma bengala para ter ferimentos como esses. Você foi açoitado como punição?” Jusetsu conseguiu deduzir a causa dos ferimentos tão rapidamente porque se lembrava do que era passar por isso. Como serva, apanhar era algo cotidiano. Graças ao seu passado, ela tinha uma ideia do que Ishiha estava enfrentando.
“Os novos eunucos apanham dos seus instrutores eunucos o tempo todo. Mas isto já é demais…” O rosto de Jiujiu estava branco como um papel.
“Não tenho prestado atenção suficiente à minha linguagem…” disse Ishiha baixinho. “Meu shifu sempre fica bravo comigo por causa disso.” Eunucos mais jovens geralmente chamavam seus instrutores de “shifu”.
“Não é sua culpa que esteja cometendo erros. Deve ser bastante difícil aprender o idioma que eles falam por aqui”, comentou Jiujiu.
“…De onde você é?” perguntou Jusetsu.
O nome Ishiha não era local. Existiam inúmeros clãs na terra de Sho, tanto grandes quanto pequenos. Até mesmo Jusetsu, se fosse possível rastrear suas raízes o suficiente, teria sua origem em um clã minoritário do norte.
“Sou do clã Hatan, de Roko. Roko fica no sul da província de Gei, perto do mar.”
“Isso é bem longe”, disse Jusetsu.
“É verdade, mas muitas crianças Hatan se tornam eunucos. Afinal, não dá para sustentar uma família inteira só com a pesca.”
Em resumo, eles mandavam seus filhos para o serviço doméstico para terem menos bocas para alimentar. Uma vez que uma criança se tornasse eunuco, ela receberia um salário e, se fosse promovida, poderia até enriquecer no futuro. Para cada criança que se tornava eunuco por vontade própria, na esperança de ficar rica, havia outra que — como Ishiha — foi forçada a isso. Tornar-se eunuco envolvia abrir mão da masculinidade, biologicamente falando. Alguns até perdiam a vida durante a cirurgia. Embarcar em uma jornada para se tornar eunuco era algo completamente diferente de simplesmente entrar para o serviço doméstico de outras maneiras. Isso fez Jusetsu se perguntar o que Ishiha estava pensando quando aceitou esse caminho.
[Kessel: Foi a mesma situação que a Xiaolan, em Diários de uma Apotecário, passou. Ela também foi vendida pelos pais para que eles tivessem uma boca a menos para alimentar. Que realidade cruel…]
Enquanto examinava os ferimentos de Ishiha, Jusetsu pediu a Jiujiu que buscasse sua maleta de remédios. Em seguida, arrastou a poltrona que estava num canto e fez Ishiha deitar de bruços nela. Tirou um pacote e o abriu. Dentro havia pólen de taboa, um remédio eficaz para tratar feridas. Ela aplicou o pólen na ferida, colocou algodão por cima e enrolou com um pano de algodão alvejado. Ishiha permaneceu imóvel enquanto ela tratava de seus ferimentos.
“Muito bem. Pode se levantar agora.”
“O-obrigado…” Ishiha ajeitou o robe, parecendo envergonhado.
“Contanto que você se sente sem encostar as coxas no assento, não deve ser muito doloroso”, disse Jusetsu. Em seguida, ela o fez sentar-se ali mesmo na espreguiçadeira.
Então, Jusetsu virou a cadeira para encará-lo e sentou-se também. "Então", disse ela, "qual era o seu pedido?"
Ele não poderia ter vindo visitá-la apenas para tratar seus ferimentos. Claramente havia algo mais importante sobre o qual ele queria conversar. Ishiha juntou os joelhos e colocou as mãos sobre eles. O jovem parecia estar tentando encontrar as palavras certas para dizer.
“Bem…”
Ishiha olhou para Jusetsu como se tentasse decifrar sua expressão. Havia medo em seus olhos. Ele devia estar se perguntando se ela ficaria brava com ele. O tormento que sofreu nas mãos de seu mestre certamente havia incutido esse terror nele. Só de pensar nisso, Jiujiu sentia pena dele.
“Você deve ter algum pedido para mim. Todos que passam por aquelas portas querem alguma coisa”, disse Jusetsu, tentando obter alguma informação dele.
Ishiha assentiu timidamente, e então, corajosamente, começou a falar: "Há uma criança em pé ali."
“Uma criança?”, perguntou ela.
“Uma criança da minha idade, ou talvez um pouco mais velha. Ele é um eunuco. Está parado no jardim do Palácio Hien.”
Um fantasma de um jovem eunuco?
Jusetsu assentiu levemente com a cabeça e o incentivou a continuar. “Há íris de flores rasas desabrochando na beira do jardim, e há um local úmido e pantanoso. Ele fica parado ali, olhando para o palácio. Não se move. Apenas o encara, com uma expressão de profunda tristeza. Mas…”
Seu olhar se voltou para o chão.
“Só eu consigo vê-lo”, disse o menino. “Contei aos outros, mas eles disseram que não conseguem vê-lo. Meu mestre me repreendeu, dizendo para eu não falar besteira.”
Ele também deve tê-lo agredido por isso.
Ishiha fez uma careta, como se estivesse revivendo toda a dor. "Ele definitivamente está lá — não importa como eu veja — mas as pessoas ainda insistem que estou louco. Talvez eu esteja? Nem sei." O rosto do jovem eunuco se contraiu. Ele estava assustado. Fosse um fantasma ou não, o que ele viu o estava apavorando.
"Nunca ouvi falar de um fantasma aparecendo no Palácio Hien..." Jiujiu sussurrou, perplexa.
Ishiha fez uma careta e pareceu prestes a cair em lágrimas.
Jiujiu tentou confortá-lo às pressas. "Quer dizer, as pessoas que eu conhecia só falavam de boatos sobre os fantasmas de damas da corte e consortes. Talvez eu nunca tenha ouvido falar dos fantasmas de eunucos...?"
Essa consolação, porém, não surtiu o efeito esperado. Ishiha começou a soluçar convulsivamente. Jiujiu olhou para Jusetsu em busca de ajuda.
Não me olhe assim!, pensou Jusetsu, mas sentiu-se compelida a dizer algo mesmo assim.
“Se eu for com você, poderei descobrir se realmente existe um fantasma”, explicou Jusetsu brevemente. “Mas… Seu mestre disse: ‘Não diga coisas tão estúpidas’, não disse?”
“Sim,” disse Ishiha.
“Ele não disse: ‘Não conte mentiras’, disse…”
“Hum…” Ishiha piscou. “Não, você tem razão… Ele não disse isso. Ele me repreendeu para não repetir o que eu dizia, mas não me acusou de mentir.”
“Nesse caso, não poderia ser mentira. O fantasma está lá”, disse Jusetsu simplesmente.
Ishiha ficou surpreso. "Você... realmente pensa isso?"
“Sim.”
Se alguém repreendesse uma criança por dizer que conseguia ver algo que ninguém mais conseguia, provavelmente diria para ela parar de mentir. O mestre de Ishiha não disse isso, e ainda mandou o menino ficar quieto. Isso sugeria que ele sabia que o que Ishiha havia dito era verdade. Seu mestre precisava ser questionado.
Ishiha parecia mais alegre agora. A perspicácia de Jusetsu certamente aliviou um pouco o fardo.
“Então, o que você deseja? Você se sentiria melhor se eu confirmasse se esse fantasma realmente existe?”
“Não, não é isso…” disse Ishiha, balançando a cabeça de um jeito infantil. “O menino parece muito triste. Você acha que há algo que eu possa fazer para ajudar? Se eu sou o único que pode vê-lo, pensei que talvez houvesse algo que eu pudesse fazer por ele. Afinal, ele é como eu… Ele é uma criança do clã Hatan.”
Ishiha percebeu à primeira vista que o fantasma pertencia ao mesmo clã que ele, devido à sua aparência. Aparentemente, o fantasma tinha sardas na pele, resultado do sol, olhos negros como carvão, traços faciais planos e lábios grossos.
"Entendo", disse Jusetsu, encarando Ishiha atentamente.
Ela percebeu que o jovem eunuco não possuía nenhum dos traços típicos de tolice que justificariam uma punição implacável por parte de seu mestre. Na verdade, talvez fossem justamente a inteligência e o caráter íntegro do rapaz que estivessem jogando contra ele.
“Você é inteligente, mas não é astuto. Acho que você é honesto demais para o seu próprio bem”, comentou Jusetsu.
Ishiha pareceu não conseguir entender o que ela estava dizendo e inclinou a cabeça para o lado, confuso.
“Conheço alguém como você”, acrescentou ela.
Um certo jovem lhe veio à mente. Ela o viu na noite anterior. Ele estava tão imóvel quanto uma montanha no inverno. Era austero, mas também transmitia tranquilidade. Jusetsu grunhiu e, em seguida, afastou a imagem dele de seus pensamentos.
“Você me perguntou se havia algo que você pudesse fazer, não é? Mas você já fez. Você veio até aqui.”
Jusetsu sorriu, mas seus olhos não demonstraram nenhuma emoção.
Já era tarde da noite, então Jusetsu mandou Ishiha para casa e foi ao Palácio Hien no dia seguinte. Se ele não dormisse o suficiente, isso prejudicaria o progresso do jovem eunuco, e ele acabaria apanhando novamente. Jusetsu sentiria pena dele se isso acontecesse. Reijo sempre dizia a Jusetsu que as crianças precisavam de uma boa noite de sono.
No dia seguinte, Jusetsu deixou o Palácio Yamei, acompanhada por Jiujiu. Ela se destacaria muito se usasse seu habitual ruqun preto, então optou por seu shanqun roxo com saia amarela. Aquela roupa fora um presente de Kajo, outra consorte do palácio interno.
[Kessel: A Consorte Pato-mandarim! A “cunhada” dela, hehe!]
"Por que você não usa esse pente?" Jiujiu reclamou. "Combinaria perfeitamente com seu conjunto." Ela se referia ao pente de marfim em forma de pássaro, adornado com ondas ondulantes. Koshun até o havia dado a Jusetsu para combinar com aquela roupa em particular.
"Eu me recuso", disse Jusetsu simplesmente.
“Mas por quê?” Jiujiu continuou. “Sua Majestade ficará muito chateado.”
Jusetsu ficou em silêncio, cabisbaixa. Ela não sabia como expressar o que sentia — e mesmo que soubesse, não era como se pudesse conversar com Jiujiu sobre isso.
“Quero me tornar um bom amigo seu.”
Jusetsu e Koshun agora eram oficialmente “amigos”. Quando Jusetsu se lembrou da expressão no rosto de Koshun enquanto ele fazia aquela promessa, sentiu algo que era ao mesmo tempo doloroso e reconfortante. Algo que parecia prestes a transbordar e explodir dentro dela. Ela jamais seria recompensada por todas as emoções que sentia até então, nem pela dor que ainda suportaria... contudo, as palavras dele realmente tocaram seu coração. Elas se tornaram um raio de luz para ela.
Era uma luz fraca e suave, mas, mesmo assim, oferecia-lhe alguma salvação.
Por mais que se sentisse bem, aquilo a deixava insegura sobre como tratar o jovem imperador. Ele costumava visitar seu palácio para tomar chá e conversar, mas ela ainda estava confusa sobre qual atitude deveria adotar perto dele. Deveria recebê-lo calorosamente, como se recebe um amigo?
Ela nem sabia como fazer isso. Mal sabia o que era um amigo, para começar — e, para piorar a situação, Koshun também não estava muito familiarizada com o conceito.
Jusetsu caminhava em direção ao Palácio Hien com uma expressão carrancuda. "Por que você parece tão descontente?", perguntou Jiujiu.
Sua dama de companhia percebia cada pequena mudança nas expressões faciais de Jusetsu e a questionava sobre elas. Me deixe em paz, pensava Jusetsu — mas a verdade era que ela se sentiria sozinha se Jiujiu não a questionasse. Ela nunca havia se sentido assim antes, mas agora que sabia como era, não havia volta.
Assim que entraram no bosque de loureiros e rododendros que circundava o Palácio Yamei, Jiujiu parou abruptamente. Ela apontou para um galho.
“Nossa, nossa, niangniang. Olha só que pássaro de aparência incomum!”
Havia um pássaro com manchas brancas espalhadas por suas asas marrom-escuras, empoleirado em uma árvore. Parecia estar observando-os com seus olhos negros.
“Esse é um corvo-estrela”, disse Jusetsu.
Corvo-estrela era outro nome para o quebra-nozes-pintado. Muitos chamavam as aves assim devido às suas manchas brancas que lembravam estrelas. Dizia-se que a ave era como um membro da família da deusa Uren Niangniang. No mural de Uren Niangniang, na parte de trás do Palácio Yamei, os corvos-estrela eram maiores do que qualquer outra ave representada. O Santuário Seiu — um santuário localizado na propriedade imperial — também recebeu o nome em homenagem a ele. "Seiu" era até escrito usando os mesmos caracteres que se usavam para "corvo-estrela".
“Nunca vi um antes… Nem sabia que havia algum vivendo no palácio interno”, disse Jiujiu.
“Chegou aqui recentemente. Deve ter gostado deste bosque e o adotado como lar”, raciocinou Jusetsu.
Não havia corujas de nenhum tipo no palácio interno, supostamente porque Uren Niangniang as detestava. Seu ódio por elas era tão intenso que até mesmo a palavra "coruja" era considerada uma abominação, e as pessoas se referiam a elas como "pássaros noturnos" ou "strixes" apenas para evitar pronunciá-la. O fato de pequenos pássaros poderem viver vidas tão pacíficas no palácio interno, no entanto, pode ter sido um efeito positivo disso. Era possível que o corvo estelar tivesse se instalado ali por esse mesmo motivo. Ele tinha um chilrear bastante alto e surpreendente. Mesmo agora, ele apontava o bico para cima e, assim que soltava um grasnido, voava para longe.
[Kessel: Ih. Tem uma coruja na capa do volume! E ela tá voando atrás da Ryuu de forma ameaçadora, enquanto o Corvo aparentemente defende ela. Elementar meu caro Watson!]
"É um corvo muito bonito", disse Jiujiu. "A gente pensa em corvos como animais totalmente pretos, mas é uma graça ver como esse tinha pequenas manchas brancas."
Jiujiu parecia ter gostado do pássaro. Ela não parava de falar sobre ele, imaginando o que ele comia e fazendo outras reflexões.
Assim que os dois saíram do bosque e caminharam um pouco pelo corredor, as roseiras de banks que circundavam o Palácio Hien surgiram à vista. As flores já haviam murchado, mas a vegetação ainda estava linda. As telhas azuis do telhado do palácio brilhavam intensamente sob a luz branca do sol da manhã. Telhas decorativas em forma de andorinha adornavam o telhado, sobre as quais vários pardais repousavam suas asas.
[Kessel: As Roseiras de Banks são uma espécie de trepadeira com flores lindíssimas! Recomendo pesquisarem no google…]
Jusetsu contornou a casa até a entrada dos fundos, por onde as damas de companhia e os servos costumavam entrar e sair. Seria problemático chamar pela porta da frente. Jusetsu nem sequer conhecia nenhuma das Concubinas Andorinha que ali residiam, muito menos sabia seus nomes.
Nos fundos do Palácio Hien ficavam a cozinha, a sala de costura e os dormitórios das damas da corte. Jusetsu podia senti-las ocupadas com seus afazeres dentro do prédio. De repente, uma dama da corte mais velha saiu pela porta de um prédio à direita. Ela avistou Jusetsu e sua dama de companhia.
“É você mesma, Jiujiu?”, perguntou ela. A mulher segurava uma cesta com pedaços de tecido dentro.
"Gugu!" Jiujiu exclamou, cumprimentando-a de forma amigável.
[Kessel: Perdão pelos mil comentários, hehe. Gugu é uma forma carinhosa de chamar a irmã do seu pai, uma tia querida e afetuosa com você. Não acho que a Jiujiu seja parente da Ashu, portanto, ela com certeza usou pela proximidade e carinho que sente por ela!]
A mulher mais velha era Ashu, uma das damas da corte que trabalhava como tintureira de tecidos no palácio. Até mesmo Jusetsu já a havia encontrado uma vez.
“Você não foi enviada ao Palácio Yamei para se tornar uma dama de companhia? O que está fazendo aqui? Não me diga que é…”
Ashu lançou um olhar cético para Jusetsu. Quando se encontraram anteriormente, Jusetsu usava um ruqun coral simples — a roupa que os funcionários da limpeza do palácio vestiam. Agora, porém, Jusetsu estava vestida com o tipo de ruqun extravagante e estampado que se esperaria de uma consorte.
“Ela é a Consorte Corvo, gugu!”
“O quê?” disse Ashu, encarando Jusetsu.
Jiujiu explicou que Jusetsu estava fingindo ser uma dama da corte da última vez que se encontraram. Isso só fez Ashu parecer ainda mais cética, mas mesmo assim ela colocou sua cesta no chão e juntou as mãos para se curvar perante a Consorte Corvo.
“Gostaria de ver íris de flores rasas no jardim”, disse Jusetsu.
O olhar de Ashu sugeria que ela queria perguntar o porquê, mas a mulher decidiu não se intrometer. Em seguida, acompanhou-a até o local sem fazer mais perguntas.
O jardim ficava no meio dos terrenos do palácio. Eles desceram por um caminho de paralelepípedos e passaram por árvores-pagode japonesas cobertas de folhas verdes. Jusetsu então avistou um espetacular conjunto de íris à frente. Os salgueiros que as cercavam balançavam suavemente com a brisa. Havia um forte cheiro de umidade no ar. Havia também um magnífico edifício do palácio em frente ao canteiro de íris. Era fácil presumir que ali viviam as Concubinas Andorinha. A área que levava ao palácio era dividida por paralelepípedos e ladeada por íris roxas, cálamo-aromáticos, íris amarelas e outras flores semelhantes. Embora essas flores parecessem semelhantes umas às outras, todas tinham suas próprias preferências distintas — algumas prosperavam em terrenos pantanosos, enquanto outras detestavam a umidade. Deve ter sido uma tarefa árdua cuidar de todas elas.
Enquanto Jusetsu contemplava em silêncio as íris de flores rasas sob o céu pálido, não havia nenhum sinal visível de fantasma — mas ela pressentia algo. Ela podia sentir sua presença entre as íris, tremeluzindo como uma névoa de calor.
Jusetsu ficou parada na sombra das árvores e estreitou os olhos enquanto contemplava as flores por um instante. Então, chamou Ashu, que estava atrás dela, esperando por ela.
“Você já ouviu alguém mencionar o fantasma de um eunuco aparecendo neste local?”
Uma expressão pensativa surgiu no rosto de Ashu enquanto ela parecia quebrar a cabeça por um momento, mas então respondeu simplesmente: "Não, nunca ouvi falar de nada parecido."
Ashu era uma dama da corte veterana, então estava bem informada sobre os rumores que circulavam no palácio. Se ela não tivesse ouvido falar de algo, provavelmente ninguém mais também teria.
No entanto, ela acrescentou algo inesperado.
"Lembro-me de ter ouvido uma história sobre um eunuco do Palácio de Hien, mas não sobre um fantasma."
“Que tipo de história?”
“Uma história sobre um eunuco que se apaixonou por uma concubina.”
“Oh, meu Deus.” Jusetsu se virou para encarar Ashu enquanto a mulher mais velha contava a história.
“Isso aconteceu durante o reinado do imperador anterior. Havia um eunuco do clã Hatan que trabalhava neste palácio… alguns dizem que ele tinha apenas dez anos. Nessas regiões, muitas crianças se tornam eunucos para que seus pais não tenham tantas bocas para alimentar. A região é até apelidada de ‘centro de produção de eunucos’ por causa disso. Ele era uma dessas crianças.”
O jeito de Ashu falar era bem diferente de antes — agora que ela sabia que estava falando com a Consorte Corvo, estava sendo muito mais educada. Por ser bem mais velha, parecia ter dominado a arte de alternar entre diferentes níveis de formalidade.
“Ele ainda era um jovem aprendiz, mas acabou se apaixonando pela Concubina Andorinha da época. Bem, ele era apenas uma criança, então chamar isso de ‘amor’ seria um exagero, mas… acho que a Concubina Andorinha era uma jovem de uns quinze ou dezesseis anos. Dizia-se que ela era muito gentil e era o tipo de pessoa que falava com os eunucos como se fossem seus iguais. Ela ficou muito apegada às penas de pássaro que o eunuco lhe deu de presente, por exemplo.”
“Penas?”
“Penas de uma andorinha azul. Eram muito bonitas. Ela as usava como enfeite de cabelo.”
As andorinhas-azuis tinham asas de um azul profundo e viviam nas florestas e bosques do palácio interno. Tão belas quanto suas penas, essas aves também eram conhecidas por seus gritos excepcionalmente cristalinos.
“Naturalmente, nada daria certo entre os dois. Afinal, ele era uma criança. Ouvi dizer que o eunuco faleceu depois disso, mas não sei a história completa. Acredito que a Concubina Andorinha se casou com o General Yo, do exército de defesa imperial do norte, após a morte do imperador anterior.”
Quando um imperador morria, esperava-se que suas concubinas deixassem o palácio interno. Algumas retornavam para suas casas familiares e viviam o resto de suas vidas como viúvas, mas outras se casavam novamente. A maioria se casava com vassalos do imperador, mas algumas se uniam em matrimônio com pessoas mais comuns, como mercadores. A única concubina que não partia — mesmo após a morte de um imperador — era a Consorte Corvo.
[Kessel: Ok, só para explicar antes de uma possível confusão. Toda consorte é uma concubina, mas nem toda concubina é uma consorte. Porque a posição de consorte, significa essencialmente, que a mulher é uma esposa do imperador. Enquanto as concubinas não possuem esse status social elevado, tratando-se apenas de mulheres que o imperador têm para si. Fez sentido?]
Ou, talvez mais precisamente, ela não podia ir embora.
“Foi tudo o que ouvi. Não conheço nenhuma outra história sobre eunucos no Palácio de Hien.”
"Você sabe o nome daquele eunuco?", perguntou Jusetsu.
"Peço minhas sinceras desculpas, mas não sei."
“Entendo. Você saberia dizer quais eunucos trabalharam aqui na época do imperador anterior?”
"Não", disse Ashu, balançando a cabeça, com uma expressão perplexa. "Acho que nenhum deles ainda está no Palácio Hien, mas não posso afirmar com certeza."
“Entendo. Bom, isso é tudo que preciso saber por enquanto. Desculpe por atrapalhar seu trabalho. Agradeço muito a ajuda”, disse Jusetsu.
Ela então agradeceu a Ashu e a dispensou. Ashu lançou um olhar furtivo para Jusetsu enquanto se curvava — seus olhos brilhando de curiosidade — e então começou a voltar para o seu posto. Jusetsu se perguntou que tipo de fofoca ela contaria às outras damas da corte mais tarde. "Adivinha? Eu conheci a Consorte Corvo", ela podia imaginá-la dizendo. "Quem diria que ela realmente existia?"
Jusetsu olhou para trás, para a profusão de íris de flores rasas. Levou a mão ao cabelo, que estava preso em dois coques no alto da cabeça. Usava também uma peônia, manifestação física de suas habilidades mágicas. Quando estava prestes a arrancar a flor, ouviu alguém chamá-la.
“Consorte Corvo!”
Jusetsu baixou a mão e olhou na direção deles. Ela viu um eunuco atravessando correndo o calçamento de pedra — Ishiha.
“Co… Consorte Corvo…”
O menino devia ter corrido apressadamente todo o caminho até lá, pois estava ofegante, com os ombros tremendo enquanto corria. Ele tentava se ajoelhar para cumprimentá-la, mas Jusetsu o impediu.
“Não precisa se curvar. Está tudo bem você se afastar do seu mestre?”
“Vai… ficar… tudo bem. Meu mestre… está verificando como está… a Concubina Andorinha. Eu ainda… não tenho permissão… para aparecer diante dela…”
Ele só conseguia articular algumas poucas palavras entre cada respiração.
Os neófitos, que eram apenas eunucos em treinamento, não tinham permissão para se mostrarem diante de seus mestres — ou, neste caso, da Concubina Andorinha. Cabia ao seu shifu decidir quando eles estariam prontos para fazer suas primeiras aparições “oficiais”.
Ishiha enxugou o suor da testa. Jusetsu duvidava que algo como verificar a Concubina Andorinha demorasse muito. Precisavam se apressar. Seria um problema se a Concubina Andorinha os visse.
Jusetsu arrastou Ishiha para a sombra das árvores para que ficassem mais difíceis de serem vistas. Em seguida, apontou para as íris de flores rasas.
"Você consegue ver o fantasma?", perguntou ela.
Ishiha virou o rosto em direção às flores e assentiu imediatamente. "Sim. Ele está lá."
Jusetsu acenou com a cabeça em resposta e tirou uma flor do penteado. Assim que a colocou na palma da mão, ela começou a mudar de forma lentamente. Uma a uma, suas pétalas vermelho-claras se transformaram em fumaça — como se estivessem desabrochando — e então se dissiparam. Jusetsu soprou uma baforada de ar sobre elas.
A fumaça vermelho-clara saía de sua mão e descia em direção às íris de flores rasas, como se estivesse deslizando até elas. A fumaça gradualmente se aglomerou em um ponto, e a figura indistinta de uma pessoa apareceu atrás dela. Aos poucos, a pessoa foi ficando mais nítida. Jiujiu levou as mãos à boca em pânico e soltou uma leve exclamação de surpresa.
De fato, havia um eunuco em meio à tênue fumaça. Ele parecia jovem o suficiente para ainda ser considerado uma criança. Seus traços eram muito semelhantes aos de Ishiha — ele tinha pele bronzeada e sardas, grandes olhos escuros e as mesmas feições planas. Certamente era um jovem eunuco do clã Hatan.
Ele estava de pé entre um grupo de íris de flores rasas em plena floração, de frente para o palácio da Concubina Andorinha. Simplesmente o contemplava, com os olhos tão claros que quase pareciam transparentes — e, no entanto, repletos de tristeza. Parecia prestes a desabar em lágrimas a qualquer momento, e seu olhar era capaz de inspirar compaixão.
Nada desperta mais a vontade de ajudar do que o rosto de uma criança em lágrimas. O menino segurava algo azul na mão. Seria possível…?
“Penas de andorinha azul…”
O jovem eunuco segurava as penas da cauda de uma andorinha azul em sua mão.
Jusetsu se lembrou da história que Ashu acabou de lhe contar: como um jovem eunuco do clã Hatan deu as penas de uma andorinha azul de presente à Concubina Andorinha. Seria este o fantasma do menino daquela história?
Jusetsu deslizou até ele. Sua boca se movia e ele sussurrava algo com uma voz aguda e fraca. Ele murmurava alguma frase, mas ela não conseguia entender o que significava. Jusetsu se virou para Ishiha e imediatamente correu até ela sem que ela precisasse dizer nada. Ele era um garoto muito esperto.
“O que ele está dizendo?”, perguntou Jusetsu.
Ela supôs que fosse algo na língua do clã Hatan. Ishiha escutou o fantasma com atenção.
“Ele está dizendo… ‘desculpe’”, explicou o jovem eunuco.
"'Desculpe?'" Por que ele estaria se desculpando?
Jusetsu quase se perdeu em pensamentos, mas não era hora para divagações. Ela soprou na fumaça vermelho-clara, que se dissipou. Ao mesmo tempo, a figura do fantasma desapareceu e tornou-se invisível. Não que tivesse sumido, mas apenas Ishiha era a única que conseguia vê-la.
“Imagino que você consiga vê-lo porque ele tem mais ou menos a mesma idade que você e pertence ao mesmo clã”, disse Jusetsu com um olhar sereno e tranquilo. “Por hoje é só. Vá.”
Ela afastou a mão dele com um gesto brusco, incentivando-o a voltar. Ishiha fez uma reverência e saiu, mas seu rosto demonstrava uma dolorosa relutância enquanto ele olhava novamente para as íris de flores rasas.
“Oh, como fui tola. Esqueci de perguntar o nome do mestre dele…” Jusetsu só percebeu isso depois que Ishiha foi embora. Ela sabia que precisava ouvir a versão dele da história.
"Por que você não pede a um dos outros eunucos que o traga até você...?" Jiujiu perguntou, curiosa.
“E simplesmente exigir que chamem o mestre de Ishiha por mim? Se eu perguntar sobre o fantasma em questão, eles saberão que Ishiha veio até mim em busca de conselhos. Duvido que isso seja bom para ele, considerando que lhe disseram para ficar calado.”
Ele poderia acabar levando outra surra.
“Eu poderia dizer que por acaso vi o fantasma com meus próprios olhos… mas seria tedioso abordar cada um dos eunucos.”
Todos os eunucos usavam vestes cinzentas, mas o tom exato de cinza variava de acordo com sua posição hierárquica. Jusetsu precisava encontrar um eunuco com uma veste cinza escura, mas não sabia qual era seu grau de senioridade.
"Que incômodo", resmungou Jusetsu enquanto se dirigia ao palácio.
“Você está mesmo bastante preocupada com Ishiha, não é, niangniang?” disse Jiujiu.
A dama de companhia a seguiu por trás. "Não particularmente", respondeu Jusetsu.
“Há algo que você ainda não percebeu sobre si mesma."
“O quê?”
“Você não percebeu o quão gentil você é."
Jusetsu olhou para Jiujiu. "Quem não teria compaixão por uma criança que está sendo punida? Isso não é bondade. É pena."
“Sim, é isso que te torna uma pessoa gentil. Você não fica pensando em como sente pena dele — você faz tudo ao seu alcance para ajudar. A gentileza é uma ação, não um sentimento.”
Jusetsu ficou sem palavras por um momento. "Você é muito bondosa, Jiujiu... Deveria ter mais cuidado", disse ela com um suspiro.
“Muito obrigada!” Jiujiu riu.
Os dois contornaram o palácio e entraram em um de seus edifícios, mas, ao saírem pela porta dos fundos, Jusetsu ouviu um som que lhe incomodou os ouvidos. Parecia uma espécie de batida. Ela franziu a testa.
Não é...?
Jusetsu teve um mau pressentimento em relação ao som. Começou a correr, desviando-se entre os edifícios do palácio, e emergiu em frente às roseiras de banks que circundavam o palácio. Não havia pedras naquela área, então o chão estava nu. Os edifícios do palácio ao redor deviam ser os alojamentos dos eunucos. Vários eunucos estavam aglomerados, bloqueando seu caminho. Dois deles forçavam um menino eunuco a se ajoelhar, e o eunuco atrás dele segurava uma bengala. Ao lado deles, estava um eunuco com um manto cinza ainda mais escuro do que o dos outros. Ele olhava para o menino eunuco com uma expressão severa no rosto. Jusetsu nem precisou ver o rosto do menino eunuco ajoelhado para saber que era Ishiha.
Quando Jusetsu percebeu o eunuco levantar a bengala que tinha na mão, ela elevou a voz.
"Parem!" Seu grito cortou o ar, fazendo com que todos olhassem para ela, surpresos. Jusetsu acelerou o passo enquanto se aproximava deles. "O que vocês pensam que estão fazendo? Soltem-no."
Ela lançou um olhar furioso para os eunucos que seguravam Ishiha, e ambos o soltaram apressadamente, impressionados com a reação de Jusetsu.
“Sinto muito que você tenha tido que ver isso, niangniang”, disse o eunuco de túnica cinza-escura, ajoelhando-se respeitosamente e juntando as mãos.
Ele não sabia quem era Jusetsu, mas percebeu que ela era uma concubina e curvou-se em sinal de respeito. O eunuco tinha as bochechas lisas, mas a pele era pálida. Seus lábios eram finos e claros. Possuía uma testa proeminente, o que lhe conferia um ar inteligente, e também era bonito — mas o modo como suas pálpebras pendiam sobre as íris, com a esclera visível por baixo, dava-lhe uma aparência de temperamento explosivo. Esse eunuco devia ser o mestre de Ishiha. A cor de seu manto era mais escura que a dos eunucos de patente inferior, mas não tão escura quanto a dos eunucos de alta patente.
"Entendo que provavelmente a assustamos, mas essa é uma forma comum de punição para nós, eunucos. Sugiro gentilmente que nos deixe em paz."
Seu tom de voz era educado, mas, na prática, ele estava dizendo a Jusetsu para cuidar da própria vida. Provavelmente, ele concluiu que Jusetsu era uma concubina de baixa posição, já que tinha apenas uma dama de companhia. Essencialmente, ele a estava tratando como uma tola.
Jusetsu olhou para Ishiha. Ele estava mordendo o lábio, tentando não chorar. "Qual é o seu nome?", perguntou ela ao homem.
“É-é Koran.”
“Então, Koran?” disse Jusetsu. “Bem, você pode me conhecer como a Consorte Corvo.” Pela primeira vez, o rosto de Koran, que vinha estudando o dela com perspicácia, pareceu inquieto.
“A Consorte Corvo? Não…” Parecia que ele estava lutando para determinar a maneira correta de agir. Afinal, ela era a enigmática Consorte Corvo, que diziam possuir poderes misteriosos.
"Por que esse jovem estava sendo punido?", perguntou Jusetsu, olhando para Ishiha.
Koran baixou a cabeça e respondeu: "Estamos punindo-o por abandonar seu posto sem permissão e desaparecer de vista."
“A culpa foi minha”, respondeu Jusetsu.
"O quê?" Koran levantou parcialmente a cabeça, mas logo voltou a olhar para baixo.
Não era permitido aos eunucos olharem para o rosto das consortes.
“Encontrei esse jovem e ordenei que me levasse ao jardim. Seu nome era Ishiha, não era? Ele me disse seu nome quando estávamos juntos mais cedo.”
“O quê…? Bem, esse é o nome dele.”
“A culpa, portanto, é minha. Peço desculpas. Perdoe ele.”
“É verdade…? Entendido”, respondeu Koran, mas não parecia convencido.
Talvez eu devesse ameaçá-lo um pouco, pensou Jusetsu. Ela não queria que ele simplesmente começasse a bater no garoto novamente assim que ela fosse embora.
“A propósito”, disse ela, “há algo que eu queria perguntar.”
“Ah? Do que se trata?”
“Havia um eunuco que faleceu no Palácio Hien durante o reinado do imperador anterior, não é?”
Surpreso, o rosto de Koran congelou.
“Um eunuco do clã Hatan”, continuou ela. “Ele ainda era criança — mais ou menos da mesma idade que Ishiha aqui. Ele está no jardim, em pé entre as íris de flores rasas, segurando uma pena de andorinha azul…”
“Foi Ishiha quem te contou essa bobagem?” Koran a interrompeu. Apesar da carranca severa, seu rosto estava pálido como um fantasma.
Jusetsu olhou para ele de cima, com um olhar frio. "Estou apenas lhe dizendo o que vi com meus próprios olhos. Você está chamando isso de bobagem?"
“N-não…”
“Koran,” disse Jusetsu, dirigindo-se a ele enquanto o olhava diretamente nos olhos.
Isso assustou Koran, e desta vez, ele ergueu o olhar. Encontrou o olhar dela de verdade e congelou, como se estivesse hipnotizado. Os olhos de Jusetsu tinham um brilho semelhante ao da obsidiana. Embora a escuridão que carregavam fosse infinitamente profunda, eles também eram mortalmente calmos e claros — assustadoramente claros, na verdade.
“Você não pode esconder segredos de mim”, disse ela.
“Eu... eu sei, claro que não. Sei que houve um eunuco do clã Hatan que morreu aqui no Palácio Hien há muito tempo.” O suor escorria da testa de Koran e sua voz tremia levemente. “Ouvi dizer que ele cometeu um ato insolente e foi decapitado por isso. Não sei os detalhes. Essa é a verdade.”
Então, ele foi executado. Será que foi porque ele estava apaixonado pela consorte?
“…E mesmo sabendo disso, você me acusou de dizer bobagens?”
“M-minhas sinceras desculpas, Consorte Corvo. Eu apenas temia que, se a Concubina Andorinha ouvisse, ela pudesse ficar chateada.”
"Foi por isso que você decidiu manter silêncio sobre o aparecimento do fantasma?", perguntou Jusetsu.
“M-minhas sinceras desculpas”, repetiu Koran. “O palácio da Concubina Andorinha fica bem em frente ao local onde crescem as íris de flores rasas, então aquele lugar tem a melhor vista de todo o jardim. Se é ali que o fantasma está aparecendo, então…”
"Você sabe o nome do eunuco que morreu?", perguntou Jusetsu, interrompendo sua longa explicação.
“Não,” Koran respondeu.
Jusetsu prosseguiu com outra pergunta: "Você conhece algum eunuco que trabalhou aqui durante o reinado do imperador anterior?"
Ele insistiu que não.
Acho que terei que pedir ajuda a Koshun com isso, pensou Jusetsu. Ela não queria pedir nada a ele, mas não tinha outra escolha.
“Escute, chega de surras desnecessárias, entendeu? Saiba que, se continuar assim, nada de bom virá disso. Agora eu sei o seu nome”, disse ela.
Contanto que Jusetsu soubesse o nome de alguém, ela podia lançar um feitiço sobre essa pessoa.
Jusetsu perguntou o nome dele no início da interação para poder ameaçá-lo dessa forma. Koran baixou a cabeça para se curvar diante dela, o rosto ainda pálido como se estivesse doente. Jusetsu olhou para Ishiha e percebeu que ele parecia um pouco aliviado.
Assim que Jusetsu saiu do Palácio Hien e estava voltando para casa, ela chamou por um certo nome.
“Onkei!”
No momento certo, o eunuco desceu agilmente de uma árvore e ajoelhou-se ao lado de Jusetsu.
Este eunuco tinha um rosto deslumbrante — embora com uma cicatriz em forma de linha reta na bochecha — e ainda nem tinha vinte anos. Ele também era o guarda-costas de Jusetsu. Abaixou o rosto e aguardou as ordens de sua senhora.
“Gostaria que transmitisse uma mensagem a Koshun por mim. Diga-lhe para vir ao Palácio Yamei assim que lhe for possível.”
Onkei respondeu com apenas uma palavra: "Sim", e saiu andando imediatamente.
[Kessel: Lembram do eunuco que salvou elas daquela emboscada no primeiro capítulo do volume anterior?! Ele mesmo!]
Assim que Jusetsu desapareceu de vista, Koran finalmente se levantou. Ele talvez não estivesse correndo para lugar nenhum, mas mesmo assim estava sem fôlego.
"Você está bem?", perguntou um subordinado, ansioso e com um tom de dúvida. Por mais misteriosa que a Consorte Corvo supostamente fosse, o outro eunuco não achava que houvesse motivo para tanto medo dela.
Koran nem se deu ao trabalho de enxugar o suor gelado da testa e engoliu em seco.
“…Estava nos olhos dela”, disse ele, com a voz rouca enquanto as palavras saíam de seus lábios atropeladas. “Estava nos olhos dela. O monstro.”
Koran começou a tremer repentinamente.
***
Durante a primeira vigília da noite — entre as 19h e as 21h — Koshun apareceu no Palácio Yamei.
“É incomum você me fazer um pedido, não é?”, disse ele com naturalidade, sem esboçar o menor sorriso. “Há algo te incomodando?”
“Quero saber o nome do eunuco que trabalhava no Palácio Hien durante o reinado do imperador anterior, que foi executado. Ele ainda era criança na época e pertencia ao clã Hatan. Também quero saber onde estão os eunucos daquela época atualmente”, explicou Jusetsu sucintamente.
Sem se dar ao trabalho de perguntar o porquê, Koshun simplesmente fez um sinal com os olhos para Eisei, que esperava atrás dele. Eisei, o eunuco mais bonito da região, respondeu prontamente.
[Kessel: Ué, kkkkkkk. Tá, né! É o mais bonito da região, então!]
“Vou pedir a alguém do instituto de eunucos do palácio para examinar o registro.”
O olhar momentâneo que ele lançou a Jusetsu, no entanto, dizia claramente:
“Não se atreva a fazer nada que possa causar problemas ao meu senhor.”
Jusetsu desviou o olhar, ignorando-o.
“Há também um jovem eunuco do clã Hatan no meu palácio”, explicou Koshun. “Muitas crianças dessa tribo se tornam eunucos ainda muito jovens.”
“Deve ser para que eles tenham menos filhos para alimentar.”
“Bem, essa é uma razão, mas…” Koshun hesitou em terminar a frase, o que era incomum para ele. Parecia um pouco preocupado.
“O que foi?”
Como Koshun não lhe respondia, ela olhou para Eisei.
Eisei falou com relutância. "Eles podem vender as crianças por um preço alto."
“Vender? A corte imperial os compra?”
“São os corretores que os compram. Depois, o Administrador-Chefe Urubu — cuja função é trazer eunucos para o palácio interno— compra-os deles. Quanto maior a ‘qualidade’ de um jovem, mais ele custa — mas eles também podem cobrar um preço alto por crianças pequenas. É mais fácil educar um menino enquanto ele ainda é criança, e ele será mais leal. Um bebê bonito alcançará um preço muito alto. Afinal, muitas das consortes gostam de eunucos assim.”
Após terminar essa explicação, Eisei acrescentou friamente: "Peço desculpas por ter lhe contado uma história tão vulgar, mestre — e à Consorte Corvo também. Não deve ter sido nada agradável ouvi-la." Essencialmente, ele estava dizendo a Jusetsu para não abordar esse tipo de assunto novamente na frente do imperador.
“Foi aquele idiota que tocou no assunto”, disse Jusetsu.
Ao ouvi-la se referir ao imperador dessa maneira, Eisei a encarou com raiva.
Lidar com Eisei era um transtorno, então Jusetsu abordou outro assunto com Koshun. "É normal que punições com vara façam parte da educação de um novo eunuco?"
"Você viu alguém sendo açoitado?", perguntou Koshun. Jusetsu assentiu.
“…Pelo instrutor deles”, disse Koshun, com relutância. Ele nunca foi muito falante, mas aquele parecia ser um assunto particularmente difícil para ele abordar.
“Não é uma prática louvável”, explicou Jusetsu. “Foi simplesmente deplorável ver vários adultos segurando aquela criança pequena e infligindo-lhe dor quando…”
“Jusetsu,” Koshun interrompeu ela.
Ela parou de falar imediatamente. Sempre que Koshun a chamava pelo nome, ela se sentia estranha. A voz dele tinha um calor suave, como a de um raio de sol tênue num dia de inverno.
“Não entre em tantos detalhes sobre isso — não quando há um eunuco por perto.”
Jusetsu olhou em direção a Eisei.
Ele olhava para baixo e sorria levemente. "Pessoalmente, isso não me incomoda, mestre. Não precisa se preocupar com isso."
Jusetsu pôde deduzir, apenas pela expressão no rosto dele, que Eisei provavelmente também havia levado uma surra daquelas em algum momento do passado — tão severa que ele nem queria se lembrar.
“…Me desculpe.”
O pedido de desculpas de Jusetsu fez Eisei olhar para cima, surpreso. Ele tinha uma expressão um tanto constrangida no rosto.
“Afinal, existe algum fantasma de um eunuco no Palácio Hien?” perguntou Koshun calmamente. Às vezes, sua voz era um pouco baixa demais. Havia nela uma serenidade e uma gentileza que não condiziam com a de um imperador. Seus traços, de aparência corajosa, eram marcantes — ou até mesmo poderiam ser descritos como frios —, mas seus olhos eram gentis, conferindo-lhe uma maturidade que desmentia sua idade.
Jusetsu sabia que uma chama de ódio gélida e cortante ardia sob aquela aparência calma, mas ninguém jamais adivinharia isso apenas olhando para ele.
“É o fantasma de uma criança do clã Hatan. Ele está segurando a pena de uma andorinha azul.”
“Uma andorinha azul… É uma das aves mais belas do palácio interno. Às vezes, vejo consortes usando suas penas como enfeites de cabelo ou penduradas na cintura como acessórios”, refletiu Koshun.
"Não sabia que você dava tanta atenção ao que as mulheres vestiam." Ela presumiu que ele fosse chato demais para ter qualquer interesse real em tal galanteria, então isso foi uma surpresa.
"Suponho que sim", respondeu Koshun evasivamente.
Ao longe, eles podiam ouvir os eunucos de vigia noturna anunciando as horas em voz alta.
Koshun se levantou. Parecia que ele já estava indo para casa. "Uma das minhas consortes está acamada, doente. Vou lá ver como ela está."
"Não preciso saber de cada detalhe do que você vai fazer, garanto", brincou Jusetsu.
"Só fiquei com pena de não poder ficar muito tempo, já que foi você quem me chamou", respondeu ele.
“Eu só te chamei porque precisava de algo. Não precisa ficar aí parado.”
“Mas eu queria ficar e conversar. Afinal, somos amigos.” Ao ouvir isso, Jusetsu ficou em silêncio.
Koshun havia dito isso com tanta seriedade que ela não conseguiu se obrigar a falar.
Ele tinha um olhar tão sincero que não havia a menor chance de ela lhe dirigir um comentário irônico.
"Eu... na verdade não sei o que significa ser amiga", revelou ela, amargamente.
“Não? Eu também não”, respondeu Koshun em tom calmo. “Se nenhum de nós sabe, então teremos que analisar a situação com calma e chegar a um acordo juntos.”
Koshun tirou uma bolsa de brocado do bolso do peito e a colocou na mão de Jusetsu. Quando ela abriu a parte superior, um aroma levemente adocicado se espalhou. Havia alguns mijian lianzi dentro — sementes de lótus cristalizadas. Jusetsu não conseguia desviar o olhar das guloseimas açucaradas.
"Imagino que seja o seu gosto gastronômico que eu mais conheço", disse Koshun.
Sementes de lótus eram as favoritas de Jusetsu. Ela também gostava muito de frutas secas, doces e pães cozidos no vapor. Koshun trazia comida para ela praticamente todas as vezes que a visitava — e era sempre maravilhosamente deliciosa.
Apertando a sacola contra o peito, Jusetsu lançou um olhar furioso para Koshun. "Você acha que tudo o que precisa fazer é me alimentar, não é?"
"Eu só queria ver minha amiga sorrindo." Jusetsu ficou em silêncio mais uma vez.
Ele realmente queria aquilo, ou estava apenas fazendo uma piada? Não, Koshun era o último homem no mundo que faria uma piada. Jusetsu desviou o olhar, sem saber o que fazer. Ela não conseguia ser tão direta com seus sentimentos quanto ele.
Jusetsu era prisioneira do Palácio Yamei, mas Koshun não. O motivo pelo qual Jusetsu precisava ser confinada ao palácio era para o bem do imperador, o Soberano do Verão.
Existiu um Soberano do Verão e uma Soberana do Inverno. O Soberano do Verão não podia existir sem a Soberana do Inverno, e vice-versa. A existência dos dois foi sepultada nos confins da história. Um se tornou imperador, e a outra, a Consorte Corvo. A antiga Soberana do Inverno — a Consorte Corvo — foi discretamente relegada ao palácio interno para que o imperador mantivesse seu status imperial.
Quando se encontrava com Koshun, por vezes, os sentimentos que nutria em relação a todas as injustiças afloravam dentro dela. Era um sentimento que não chegava a ser raiva, nem resignação.
No entanto, Koshun tentou compreender seu sofrimento. Ele estendeu a mão para ela, e ela aceitou a mão dele.
Essa era a única salvação que ela tinha. Seu raio de luz.
Jusetsu mordeu o lábio e olhou para Koshun. "...Eu não sei o que te faz feliz."
"Eu?" Os olhos de Koshun se arregalaram ligeiramente, como se ele estivesse surpreso com o que Jusetsu havia dito. Apesar disso, sua expressão facial não mudou muito.
"Não há... nada que eu ache particularmente prazeroso", murmurou ele após alguns instantes de reflexão minuciosa. "Conforme fui me aproximando do que queria realizar, acabei perdendo de vista o que realmente me fazia feliz."
Devia ser assim que ele realmente se sentia. Ele vinha vivendo uma vida onde evitava qualquer alegria ou prazer. Não queria demonstrar nenhuma fraqueza diante da imperatriz viúva, a mulher que lhe causou tanta dor — mas ela não estava mais por perto.
“Você... parecia gostar de esculpir aqueles pássaros”, sugeriu Jusetsu.
Koshun era habilidoso com as mãos e exímio entalhador. Ele aprendeu essa arte com um eunuco a quem adorava desde criança.
"Será?" perguntou Koshun, acariciando o queixo com a ponta dos dedos enquanto pensava consigo mesmo. "É. Talvez eu gostasse. Bom, você me ensinou uma coisa." Ele soltou uma risadinha, o que era incomum para ele. Talvez tivesse achado aquela conversa "agradável".
"Eu voltarei", disse ele. "Enviarei um mensageiro assim que descobrirmos algo sobre o eunuco no Palácio Hien."
Dito isso, ele saiu do palácio. Uma dúzia de eunucos, mais ou menos, estava reunida do lado de fora e ajoelhou-se diante dele. Normalmente, apenas Eisei o acompanhava quando vinha ao palácio. Naquela noite, porém, ele iria visitar outra consorte depois — o que devia explicar a presença de tantos eunucos.
Eisei deveria ter seguido Koshun enquanto ele descia as escadas, mas abruptamente retornou para o lado de Jusetsu.
Ele sussurrou algo rapidamente para ela. "Consorte Corvo, percebo que você está preocupada com o eunuco sendo açoitado, mas, por favor, deixe-os em paz."
“O quê?”
“Se você não estiver preparado para assumir a responsabilidade pelo destino dele, nem pense em ajudá-lo. Não vai... acabar bem para ele”, disse. E, tão rápido quanto chegou, seguiu Koshun como uma sombra novamente — como sempre fazia.
Jusetsu permaneceu imóvel na entrada do palácio e passou um tempo observando a comitiva se afastar.
[Kessel: Adorei essa cena deles! Parece que estão aprendendo a como lidar um com o outro, igualzinho um certo casal que conhecemos em outro universo imperial…]
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