Corvo do Palácio Interno Japonesa

Tradução: Kessel

Revisão: Jaque


Volume 2

Capítulo 2: A Voz da Água (Parte 3)

No dia seguinte, Jusetsu tentou perguntar a Kogyo sobre a situação. "Você conhece uma dama da corte chamada An?"

Kogyo costumava frequentar os aposentos de purificação, então havia uma chance de que ela a conhecesse. Ela piscou e inclinou a cabeça para o lado por um momento, como se estivesse refletindo sobre o assunto. Kogyo parecia tão pálida quando Jusetsu a encontrou pela primeira vez nos aposentos de purificação que qualquer um pensaria que ela estava à beira da morte, mas agora, ela parecia saudável e tinha bochechas rechonchudas. Jusetsu não havia perguntado sua idade, mas ela devia ter por volta de trinta anos. Comparada à impulsiva e temperamental Jiujiu, Kogyo era invariavelmente gentil e calma.

“Era uma senhora idosa que costumava ser dama de companhia da Consorte Pega durante o reinado do imperador retrasado”, acrescentou Jusetsu.

Kogyo assentiu com a cabeça repetidas vezes, como se tivesse entendido. Isso significava que ela a conhecia.

“Ela costumava dizer que conseguia ouvir a voz da falecida Consorte Pega?”

Kogyo assentiu com a cabeça também. "Interessante..."

Jusetsu pegou alguns pedaços de papel que Ishiha estava usando para praticar caligrafia e os colocou sobre a mesa. Ela moeu um pouco de tinta e entregou o pincel para Kogyo.

“Que tipo de pessoa era An?”

Kogyo segurou o objeto enquanto pensava por um instante antes de começar a escrever. "Todos a observavam à distância, porque ela causava arrepios. Ela sempre dizia que havia uma voz vinda da água."

“Isso significa que ninguém mais conseguiu ouvir?”

Kogyo assentiu com a cabeça. "Nunca falei diretamente com ela, então não sei muito sobre sua natureza."

Depois de escrever isso, Kogyo mergulhou o pincel na tinta e o deslizou pela página. Ela traçou uma linha curva. Não estava mais escrevendo, mas sim desenhando. Desenhou olhos, nariz, boca, sobrancelhas... e, no fim, havia uma pessoa.

"Oh, isso ficou muito bom!" exclamou Jusetsu.

Sem perceber, Kogyo já havia terminado de desenhar o rosto de uma senhora idosa. Era definitivamente An, a quem ela conheceu na noite anterior.

“É ela”, disse Jusetsu. “Eu nunca soube que você tinha talento para desenho.”

“Achei que seria mais rápido desenhar”, escreveu Kogyo.

Ela começou a desenhar uma segunda imagem. Era um pouco mais simples do que a anterior. Era o rosto de uma menina. Ela tinha um rosto redondo e delicado e olhos bonitos, como os de uma cotovia. Jusetsu reconheceu imediatamente a quem se referia.

“É Jiujiu.”

Kogyo sorriu e acenou com a cabeça.

"Vamos ficar com este. Não, eu realmente deveria pedir para você desenhar em um papel melhor..." Jusetsu pensou em voz alta.

Kogyo balançou a cabeça, perturbada.

“Não? Então vamos ficar com este.”

Enquanto Jusetsu olhava fixamente para o desenho novamente, Jiujiu trouxe um pouco de chá da cozinha.

“Nossa, o que é esse desenho?” 

“Kogyo que desenhou. É o seu rosto.”

"O quê?!" Jiujiu olhou maravilhada para o desenho, com os olhos arregalados. "Sou eu?! Você é tão boa, Kogyo!" Jiujiu ficou encantada. "Desenharia niangniang também, Kogyo?", perguntou ela.

“Não há necessidade disso”, disse Jusetsu. “Há mais alguma coisa que você possa desenhar?”

Kogyo ficou olhando para o nada, pensando por um momento. Então, lentamente, pegou o pincel novamente e começou a desenhar. Ela esboçou um queixo proeminente, depois uma mandíbula cerrada com uma linha reta para a boca, seguida por um par de olhos inchados.

“Essa é Keishi.”

Ela capturou perfeitamente sua expressão de mau humor sem sentido. "E quanto a Sua Majestade, Kogyo? Você poderia desenhá-lo?", perguntou Jiujiu, entusiasmada.

Kogyo ergueu as sobrancelhas e gesticulou com as mãos como quem diz: ““sso seria absurdo.”

Jiujiu pareceu desapontada e fez beicinho. "Eu só pensei que, se tivéssemos um retrato dele, poderíamos admirá-lo sempre que quiséssemos."

"Não há necessidade disso — não consigo imaginar aquele tolo ficando longe deste palácio por muito tempo", ironizou Jusetsu.

“Talvez não, mas não podemos simplesmente ficar sentadas olhando para o rosto dele, podemos?”

Será que o rosto dele realmente merece uma inspeção tão minuciosa? Jusetsu pensou. Não era como se a expressão dele mudasse muito alguma vez.

“E se colocássemos um retrato dele, você não sentiria tanta falta dele enquanto ele estivesse fora, não é, niangniang?” acrescentou Jiujiu.

Jusetsu franziu a testa. "Não tenho a menor vontade de exibir uma foto daquele idiota na minha casa. Além disso, não me sentiria sozinho só porque ele não apareceu com aquela cara ridícula na minha porta."

“Você diz isso, mas eu já vi o quão entediada você fica nos dias em que Sua Majestade não aparece, niangniang.”

Jusetsu ficou em silêncio. Ela sentiu que Jiujiu parecia ter uma percepção bastante incomum dela. O que poderia tê-la levado a essa conclusão?

“Então, que tal Ishiha?” Jiujiu perguntou a Kogyo. “Ou até Onkei?”

Kogyo conseguiu desenhar o rosto de Ishiha imediatamente, mas Onkei pareceu um desafio para ela. Ela explicou que nunca tinha conseguido ver o rosto dele com clareza.

“Claro que não. Afinal, ele normalmente não está aqui.”

Onkei era o guarda-costas de Jusetsu e, como tal, era o tipo de eunuco que raramente mostrava o rosto em público. Sempre que Jusetsu saía, ele se escondia em algum lugar próximo para vigiá-la — e quando Jusetsu estava no Palácio Yamei, ele patrulhava a área ao redor do palácio. Parecia ser um trabalho entediante — afinal, Jusetsu não tinha inimigos que pudessem atacá-la.

“Precisamos garantir que você veja bem o rosto dele na próxima vez que tivermos a oportunidade. Ele é um rapaz tão bonito”, disse Jiujiu inocentemente.

“Não devemos atrapalhar o trabalho dele”, escreveu Kogyo, repreendendo-a. Jusetsu observava a interação enquanto tomava seu chá.

“Niangniang”, ela ouviu a voz de Onkei gritar.

Ele não havia dado nenhum sinal de que estava ali, então Jusetsu ficou tão surpresa que quase deixou cair a xícara.

Quando ela se virou, encontrou-o ajoelhado em frente às portas que davam para a passagem externa. "Eu não sabia que você estava aqui, Onkei", disse ela.

“Acabei de retornar.”

“E então? Como foram as coisas?” Ela havia mandado Onkei para os aposentos de purificação naquela manhã.

“Ela faleceu ontem à noite. Ela sofria de uma doença pulmonar”, explicou Onkei. 

“Entendo.”

An havia falecido na noite anterior. Seu fantasma visitou Jusetsu imediatamente, o que sugeria que o que aconteceu com Enrin a perturbava profundamente — embora fosse impossível que ela tivesse esquecido, considerando que ouvia sua voz por todos aqueles anos.

Jusetsu levantou-se de sua cadeira. "Quero ir ao lago no Palácio Jakuso."

Onkei assentiu com a cabeça. "Eu lhe mostrarei o caminho."

“Se você vai até lá, te acompanharei…” Jiujiu começou, dando um passo à frente com entusiasmo.

“Só vai levar um minuto. Sua ajuda não será necessária”, disse Jusetsu, recusando-se a ajudar.

“Mas…” Jiujiu tentou insistir, mas Kogyo a cutucou e ela se calou.

“Ishiha deve terminar a limpeza em breve e voltará logo. Você e Kogyo devem ficar de olho nele enquanto ele pratica a escrita.”

Jiujiu sorriu alegremente, parecendo satisfeita por ter recebido uma tarefa. "Entendido. Vou garantir que a escrita dele melhore consideravelmente!"

Dito isso, Jusetsu e Onkei saíram do palácio e seguiram em direção ao Palácio Jakuso, que ficava ao sul do Palácio Yamei. Assim que atravessaram os rododendros e loureiros, Onkei olhou para o céu com medo. Eles ouviram o bater de asas e um pássaro passou voando. Era marrom com manchas brancas — um corvo-estrelado. Uma de suas penas pousou aos pés dos dois.

Onkei finalmente relaxou. "Sinto muito por isso", ele se desculpou.

“Sem problemas,” disse Jusetsu.

Jusetsu pegou a pena. Era linda, e ela pensou que, se a desse de presente a alguém, essa pessoa ficaria encantada. Alguns rostos lhe vieram à mente, e Jusetsu soltou a pena novamente. Não era assim que uma Consorte Corvo deveria pensar.

Ela acelerou o passo.

O Palácio Jakuso era caracterizado por suas telhas decorativas em forma de pega e pelas árvores de Judas que circundavam seus edifícios. No início da primavera, suas flores de um magenta intenso deslumbravam os observadores mesmo à distância, e em dias nublados, davam aos edifícios a impressão de estarem envoltas em uma névoa avermelhada. As pegas nas telhas decorativas eram esculpidas em pares e seguravam galhos em seus bicos para fazer ninhos.

“O lago fica no fundo do jardim. Está quase na divisa dos terrenos do palácio.”

Onkei passou pelas árvores de Judas e seguiu em frente. As flores já haviam caído dos galhos e vagens verdes agora pendiam em seu lugar.

"Você trabalhou aqui em algum momento?", perguntou Jusetsu.

"Sim", disse Onkei. Essa breve resposta fez Jusetsu se perguntar se ele havia vindo como espião ou talvez apenas para avaliar como as coisas estavam indo.

“Eisei depende muito de você, não é?” disse Jusetsu.

“Se esse for o caso, me alegra mais do que eu jamais poderia desejar”, ​​respondeu Onkei, sem se virar para olhá-la. “De qualquer forma, já conversei sobre tudo isso com os eunucos que trabalham aqui.”

Sempre que um eunuco começava a trabalhar para um palácio, ele fazia amizade com os outros eunucos que já trabalhavam lá. Provavelmente porque isso lhe seria útil mais tarde — assim como agora.

A dupla contornou a propriedade e entrou por uma porta usada pelas criadas de cozinha. Mais adiante, havia uma cozinha e edifícios que pareciam ser as residências das damas da corte e dos eunucos. Jusetsu teve a impressão de que os palácios das consortes eram construídos da mesma maneira.

O lago estava tenuemente iluminado. An havia dito que a superfície do lago era como um espelho, linda, mas, por mais clara que a água fosse, uma sombra pairava sobre ela. O fato de as pessoas manterem distância da área certamente não ajudava. O salgueiro ainda se refletia na água, mas a hera havia se enroscado nele de forma desordenada. Os galhos caídos da árvore estavam murchos. Com a época do ano como estava, as plantas na margem estavam crescendo agressivamente. O cheiro sufocante de grama no calor do verão, junto com um odor úmido generalizado, era tão forte que dificultava a respiração. Até mesmo as plantas cauda-de-lagarto de que An falara haviam se multiplicado, cobrindo uma área muito maior do que provavelmente antes. Elas cresciam descontroladamente agora.

Resumindo, o lugar estava abandonado agora.

“Este lago fica afastado dos edifícios do palácio e é o local onde uma consorte se afogou. Poucos se atrevem a aproximar-se. Mesmo a atual Consorte Pega evita esta área devido à escuridão. Por tudo isso, o lago foi praticamente esquecido”, disse Onkei.

“Entendo,” disse Jusetsu.

Que pena, pensou ela. Tenho certeza de que basta uma arrumação para se tornar um lugar encantador. Enquanto Jusetsu observava rapidamente os arredores, uma figura semelhante a uma silhueta surgiu no canto do seu campo de visão, em meio à grama alta.

Onkei se preparou para lutar contra eles, mas Jusetsu ergueu a mão para impedi-lo. Não era uma pessoa.

A coisa que apareceu era tênue como névoa, ainda sem ter assumido forma humana. Enquanto observavam a névoa, ela gradualmente começou a tomar a forma de uma pessoa. Seu rosto estava coberto de rugas e sua boca escancarada. Vestia uma túnica desbotada, cor de terra, enquanto cambaleava pela beira da água.

Era An—mas ela parecia ainda mais abatida do que na noite anterior. Seus cabelos grisalhos estavam despenteados, e seu corpo era só pele e osso. Sua pele estava rachada e da cor da terra, e suas pálpebras estavam tão fundas que seus olhos pareciam enormes e saltados. A barra de seu robe estava esfarrapada e se rasgava a cada passo que dava.

Ela se agachou na beira do lago. Com um grunhido, inclinou-se e olhou para dentro da água.

“Minha querida Enrin”, ela chamou lentamente, sua voz ecoando pela área.

Enquanto encarava a superfície da água, ela tentava repetidamente pegá-la com as mãos, mas, por ser um fantasma, não conseguia. Suas mãos apenas se moviam no ar. Mesmo assim, An continuou, tentando pegar a água por um tempo que pareceu infinito.

Jusetsu caminhou até a aparição. Ela conseguia ouvir a mulher murmurando algo em voz baixa. Quanto mais perto chegava, mais claramente conseguia entender o que ela dizia.

“Você não vai morrer… Por quê…? Se ao menos… Se ao menos não houvesse água…”

"Você ainda consegue ouvir Enrin falando com você?", perguntou Jusetsu.

An ergueu os olhos e encarou Jusetsu. Em seguida, gemeu e curvou-se aos pés dela, como se tentasse se agarrar a eles.

“Prezada Consorte Corvo, você veio. Por favor, encontre uma maneira de salvar minha querida Enrin.”

Jusetsu encarava o lago. Sua superfície estava calma, com a brisa apenas ocasionalmente criando ondulações. Além de An, não havia outros fantasmas por perto. Também não se ouvia nenhuma voz.

“Enrin… não está aqui. Ela já deve ter ido para o paraíso.”

Os olhos fundos de An se abriram de repente, em choque. "O que você disse? Como isso é possível se eu consigo ouvir a voz dela tão claramente?"

“Não há voz”, disse Jusetsu.

“Escute. Lá vai ela, me chamando de novo. A voz dela me chama, repetidamente…” O fantasma da velha argumentou com ainda mais veemência, ignorando o que Jusetsu disse. Ela olhou com medo para o lago e começou a “pescar” a água novamente.

[Kessel: Não consegui pensar em uma tradução apropriada. Sabe quando fazemos uma conchinha com a mão para coletar água? É isso que ela está fazendo.]

“Preciso esvaziar este lago de toda a sua água… Quando a água acabar, a voz também desaparecerá. Tenho certeza disso…”

Enquanto An tentava inutilmente tirar água do lago, seus dedos ficaram mais ossudos e suas unhas afiadas cresceram. O cabelo da mulher ficou ainda mais desgrenhado e um fogo começou a arder em seus olhos. Os cantos de seus lábios se curvaram para cima e pareciam estar rachando.

“Niangniang…” Onkei chamou, com uma mistura de cautela e preocupação na voz.

Jusetsu insistiu que ela estava bem.

“O que tem nessa voz que te assusta tanto, An?”, perguntou ela.

An parou e olhou para Jusetsu. Parecia que as palavras da consorte ainda estavam surtindo efeito nela.

Se Jusetsu não conseguisse mais alcançá-la e ela mudasse de forma completamente, An não seria mais um fantasma — ela se tornaria um demônio.

“Do que você realmente tem medo?”, continuou Jusetsu.

Os olhos de An se arregalaram e suas mãos começaram a tremer violentamente. "Eu... não estou com medo nenhum. É só que é de partir o coração que minha querida Enrin..."

Jusetsu balançou a cabeça em silêncio. "Pare de tentar me enganar", disse ela. "Você não acha isso de partir o coração. Você nem sente pena dela."

An se calou e olhou fixamente para Jusetsu.

A Consorte Corvo prosseguiu: “Não a humilhe apenas para sustentar suas mentiras. Você está usando a pobre garota para seu próprio benefício, mesmo depois da morte dela. Sinto muita pena dela.”

"Mentiras? Como você pôde ser tão cruel a ponto de me acusar de tal coisa?", respondeu a aparição.

Lágrimas escorriam dos olhos de An, mas a água que rolava por seu rosto grotesco não parecia certa. Com unhas afiadas como navalhas, ela cavou o chão, perturbando a terra.

“Dediquei-me a Enrin desde os vinte e dois anos. Duvido que ela jamais teria conseguido entrar no palácio interno se não fossem os meus sacrifícios. Assumi o papel de dama de companhia de uma menina de apenas dez anos, de uma família inferior à minha. Eu não tinha para onde ir! Depois de apenas dois ou três anos sem conseguir ter um filho, fui difamada por ser estéril. A família com a qual me casei me mandou de volta para casa. Não consigo descrever a vergonha que senti ao retornar para a casa dos meus pais. Você já ouviu falar de uma mulher estéril com uma reputação tão ruim se casar novamente? Não — então aceitei o trabalho. Eu não suportava o pai dela, nem a própria menina. Ela me tratava como uma dama de companhia sem questionar nada. E mesmo assim, eu lhe dei uma educação adequada. Não me saí maravilhosamente bem?” E continuou tagarelando, sua voz começando a soar mais como um uivo. “E então! Apesar de tudo que fiz por ela, ela teve a audácia de ser tão chocantemente ingrata!!!”

An socou o chão com o punho. Enquanto a antiga dama de companhia vilipendiava o suicídio de Enrin por ser "ingrata", Jusetsu sentiu-se tomada pela emoção.

“Ela está morta.”

As palavras de Jusetsu foram curtas e concisas, mas suficientes para fazer An parar abruptamente o que estava fazendo.

“Sim, sim. Eu sei que ela está morta. Tenho certeza de que ela está por aí guardando rancor de mim. É verdade — afinal, foi minha culpa. Eu sei disso. É por isso que estou com medo. Estou com medo do ódio que ela nutre por mim”, disse An secamente, parecendo ter assumido uma postura desafiadora. “Por favor, me salve, querida Consorte Corvo. Não consigo parar de ouvir o rancor dela contra mim. Por favor, me proteja dela. Ela continua me chamando repetidamente do fundo do lago. Ela está tentando me puxar para lá. Por favor, vai me ajudar, não vai?” An implorou, quase alcançando sua forma monstruosa final.

Jusetsu ficou ali parada, imóvel. Ela queria enviar o máximo de fantasmas possível para o paraíso, aliviando sua dor... e ainda assim não tinha certeza de qual parte de An deveria ajudar. Como poderia salvá-la?

Quando Jusetsu ficou em silêncio, An tentou se agarrar a ela, mas não conseguiu segurar a túnica de Jusetsu com a mão e acabou apenas abanando o ar.

“Eu não sou quem pode te salvar”, declarou Jusetsu. 

“Consorte Corvo, isso não pode ser verdade…”

“Quem está tentando te puxar para as profundezas da água não é Enrin. É você. A voz que vem do fundo do lago também não é dela — é sua. Escute com atenção.”

De repente, parou de tentar se agarrar à jovem à sua frente. Os olhos do fantasma se encheram de lágrimas, como se algo a estivesse assustando.

“Não é de Enrin que você tem medo. É de você mesmo.”

An balançou a cabeça, seus cabelos despenteados se espalhando enquanto ela fazia isso. "Não... Não!"

Alguém que não sentisse remorso jamais ouviria vozes que sequer existiam. Ela devia ter medo de si mesma, pois foi ela quem levou Enrin à morte.

Ela soltou um grito agudo e mudou de direção rapidamente, caindo no lago. Agitou as mãos freneticamente, tentando sair da água, mas a superfície permanecia perfeitamente calma. Ofegante, debatia-se, tentando empurrar a água para longe, mas afundava cada vez mais. Cambaleou e seu corpo começou a afundar, pouco a pouco. Sua cintura desapareceu, seguida pelos ombros. Por fim, sua cabeça submergiu.

Seus cabelos grisalhos foram os últimos a afundar.

"Ah... eu não consigo ouvir a voz dela quando estou debaixo d'água", disse An, transbordando de alegria — e esse foi o último som que ela emitiu.

A superfície do lago permaneceu tão calma e límpida como sempre, como se nada tivesse acontecido.

“…Niangniang, o que acabou de acontecer?” Onkei gritou.

Jusetsu apenas balançou a cabeça. "Talvez a água tenha agido e salvado a alma dela para mim", respondeu.

O frio e o peso da água que a envolvia, a luz do sol que cintilava na superfície e as sombras que se projetavam nas profundezas do lago... Juntos, provavelmente haviam polido, lavado e derretido a alma do demônio. Isso era algo que Jusetsu não conseguiria fazer sozinha.

“Onkei, você poderia cortar um pouco dessa hera para mim?”

Jusetsu apontou para a trepadeira que se enroscava no salgueiro.

Onkei aproximou-se e prontamente trouxe um braçado de hera. Jusetsu a enrolou em um laço e, em seguida, tirou um barbante de papel com letras em tinta vermelha do bolso do peito. Ela amarrou a hera com o barbante. Depois, atirou o feixe em direção ao lago. A hera descreveu um arco no ar e caiu na água, fazendo um pequeno respingo, que gerou anéis momentâneos na superfície da água, antes de afundar.

“Essa era uma habilidade na qual os xamãs se especializavam. Um xamã a ensinou a Reijo. Ele não conseguirá sair do lago agora, mas eu ainda aconselharia as pessoas a ficarem longe”, disse Jusetsu. Felizmente, o lago não parecia ter visitantes. “Vamos voltar.”

Jusetsu se virou e Onkei a seguiu.

"Posso ter a honra de lhe fazer uma pergunta?", começou ele.

“Qual pergunta?”

“Você fez isso porque nem você conseguiu exorcizá-la, niangniang?”

Jusetsu pensou por um momento antes de respondê-lo. “…Exorcizar, ou exterminar alguém, é fácil. Mas não é agradável.”

“Por que não?”

“Quando você extermina alguém assim, essa pessoa não vai para o paraíso — sua alma desaparece por completo. Não deveria caber a mim determinar quais almas são dignas e quais não são.”

Os mortos estavam tristes — todos igualmente. Jusetsu estava viva. Seria insolente para uma pessoa viva categorizar os mortos.

“Por sua própria natureza, os vivos e os mortos são mantidos separados”, continuou ela. “Às vezes, eu os junto, e outras vezes, eu os separo. Só isso.”

O desejo de salvar pessoas já era arrogante o suficiente em si, mas às vezes, esse desejo era forte demais para resistir.

Tenho certeza de que a Reijo teria lidado com isso melhor do que eu.

Jusetsu impulsionou suas pernas pesadas para a frente e se afastou do lago abandonado. Nenhuma voz podia ser ouvida do fundo da água.

 

Quando Jusetsu retornou ao Palácio Yamei, Ishiha estava sentado entre Jiujiu e Kogyo. As duas mulheres estavam lhe ensinando a escrever.

“Oh, Consorte Corvo!” disse Ishiha, levantando-se apressadamente. Ele se ajoelhou ao lado de Jusetsu. “Tenho uma carta para você.”

“Uma carta?”, perguntou Jusetsu. “De quem?”

“Do mestre.”

“Jogue fora.”

Ishiha olhou para ela, assustada e sem saber o que fazer. "Mas você não pode..." Sem querer chatear uma criança, ela estendeu a mão. 

"Me dê."

"Claro", disse Ishiha, tirando a carta do bolso do paletó com um suspiro de alívio.

A carta do imperador estava em um envelope de papel decorado. Água colorida havia sido usada com estênceis para criar um desenho com dois peixes gêmeos. O envelope estava até mesmo fortemente perfumado. Eisei deve ter feito isso para me provocar, pensou Jusetsu. Koshun não era o tipo de homem refinado que perfumaria suas cartas para mulheres queimando incenso.

Se ele escreveu algo bobo, poderíamos usar isso para o Ishiha praticar a escrita e ele poderia copiar, pensou Jusetsu enquanto abria o caderno. Koshun era um escritor consciencioso e caprichoso, então sua caligrafia seria um bom exemplo.

Assim que Jusetsu passou os olhos pela carta aberta, ela franziu os lábios, pensativa, por um breve instante.

“O que há de errado, niangniang?” Jiujiu perguntou.

“Nada, na verdade…” disse Jusetsu, fechando a carta. Ela a guardou no bolso do peito.

“O Ministro do Inverno, Setsu Gyoei, é um velho amigo de Reijo”, escreveu Koshun. “Você deveria se encontrar com ele e conversar. Vou marcar um encontro em breve.”

Que benefício teria encontrar o Ministro do Inverno? Será que Koshun tinha algum motivo oculto? Jusetsu não conseguiu descobrir apenas lendo a carta.

Ainda assim, uma coisa despertou seu interesse. Um velho amigo de Reijo?

“Você gostaria de responder a ele? Eu ficaria feliz em entregar”, Ishiha interveio.

Preciso mesmo... responder? Jusetsu quase disse, mas os olhos de Ishiha brilhavam enquanto ele aguardava uma ordem dela. Ela cedeu. Ele devia estar gostando muito de fazer o que lhe mandavam.

“Só me dê um momento”, disse Jusetsu, relutantemente.

Ela pegou um papel de cânhamo colorido em seu armário e escolheu uma folha de um tom azul-índigo claro. Em seguida, pegou um pincel para escrever uma coisa simples: "Entendido". Dobrou o papel e o entregou ao jovem eunuco.

"Vou garantir que isso chegue ao meu mestre em segurança!" disse Ishiha com entusiasmo. Suas bochechas estavam coradas de excitação.

"Não é nada importante", disse Jusetsu a ele, mas Ishiha saiu do palácio de bom humor, mesmo assim.

"Ele só quer retribuir o que você fez por ele", disse Jiujiu, sorrindo. Kogyo também estava radiante.

“Me retribuir?”

“Por tê-lo acolhido quando ele não tinha para onde ir.”

“…Eu fui o motivo pelo qual ele não tinha para onde ir em primeiro lugar”, disse Jusetsu.

“Ah, não, você não foi, niangniang. Foi o mestre dele que o expulsou do Palácio Hien, não você”, retrucou Jiujiu. “Aquele homem não teria conseguido continuar como instrutor de qualquer maneira — ouvi dizer que ele ficou doente.”

“Quê?”

Kogyo cutucou o cotovelo de Jiujiu. A jovem cobriu a boca com a mão, e Kogyo, usando da leitura labial, a repreendeu: "Sem fofoca!".

[Kessel: Caso não se lembrem, a Kogyo é muda. Mas pessoas mudas conseguem fazer leitura labial para expressar o que desejam, às vezes, e esse foi o caso nessa cena.]

"Ele está acamado?", perguntou Jusetsu.

“Não, não é nada tão sério”, disse Jiujiu. “Eu não deveria ter mencionado isso. Peço desculpas.”

“Não importa. Se você disser algo que eu não preciso ouvir, simplesmente não darei atenção.”

“Niangniang,” Jiujiu sorriu amplamente, mas então Kogyo rabiscou algo em um pedaço de papel e mostrou para Jusetsu.

"Você não deveria ceder aos seus caprichos", dizia. Jusetsu deu uma risadinha em resposta.

Naquela noite, Jusetsu estava sentada sozinha à mesa. Pedaços de papel de cânhamo colorido em todos os tons estavam espalhados sobre ela — vermelho claro, amarelo, damasco, cor de palha… Cada um deles tinha pedacinhos de folha de ouro e prata espalhados. Ao lado, havia um pincel com a ponta em forma de cabeça de pardal e cabo de bambu manchado. Era chamado assim porque sua ponta era tão delicada quanto a cabeça de um pardal. Havia também um recipiente de tinta em forma de barco com o local de fabricação gravado. Era uma especialidade local do leste e da melhor qualidade.

Quando Ishiha foi entregar a resposta de Jusetsu, voltou carregando esses itens, embora com alguma dificuldade. Eram presentes de Koshun. Parecia uma forma de dizer: "Escreva-me com mais frequência".

Não é como se fôssemos amantes, pensou Jusetsu. Será que realmente podemos trocar cartas com tanta frequência? Dito isso, "amigos" provavelmente também trocavam cartas. Por mais surpreendente que fosse, Koshun parecia ter uma inclinação para a escrita. Aparentemente, ele enviava bilhetes para suas consortes com bastante frequência.

Que coisa mais sem sentido.

Jusetsu juntou o papel de cânhamo e o colocou em uma bandeja laqueada.

Ela guardou o pincel e a tinta em seu estojo de cartas. Quando se levantou para guardá-lo no armário, porém, sentiu como se algo se quebrasse dentro dela.

"O que foi isso?" Ela agarrou o braço com medo. Sentiu que algo estava quebrado.

Ela correu em direção às portas. Shinshin bateu as asas violentamente, mas ela o ignorou. Assim que saiu do palácio, começou a refazer os passos que havia dado naquela tarde. O destino de Jusetsu era o Palácio Jakuso.

O luar iluminava seu caminho. As sombras que as árvores projetavam no chão eram diferentes daquelas que espalhavam durante o dia. As sombras agora eram azul-escuras e pareciam que iriam engolir você se chegasse muito perto.

Jusetsu ouviu alguns insetos à distância, mas ainda não eram altos o suficiente para chamar sua atenção. O verão ainda não estava em pleno andamento, e então os insetos seriam muito mais barulhentos.

Ela passou pelas árvores de Judas e contornou os jardins do Palácio Jakuso até a parte de trás. Uma luz ainda mais intensa que a da lua emanava dos edifícios do palácio. As lanternas suspensas no corredor externo estavam acesas e brilhavam intensamente. Mas, apesar do brilho das lanternas, a área ao redor estava particularmente silenciosa. Jusetsu dirigiu-se ao lago.

Talvez fosse por causa da escuridão, mas a área não parecia tão selvagem quanto mais cedo naquele dia. A hera e as plantas crescidas agora exibiam uma elegância melancólica, iluminadas pelo luar... mas ainda havia algo de desolador naquela paisagem.

Eu sabia.

A magia do laço de hera que Jusetsu jogara na água mais cedo já não funcionava. O que ela sentiu momentos atrás era um sinal de que havia se dissipado. E, para piorar a situação…

Jusetsu encarava a superfície do lago. Estava calmo, com a lua lançando uma luz gélida sobre ele. A sombra negra do salgueiro cobria parte da superfície.

Não havia sinal de An lá dentro. Será que ela havia quebrado o feitiço e escapado?

Não, ela não era capaz disso.

Alguém havia quebrado o feitiço por fora. Jusetsu podia sentir An pairando fracamente no ar. Havia vestígios dela aqui e ali, tênues e sutis.

Jusetsu estava começando a sentir dificuldade para respirar enquanto tentava entender o que havia acontecido.

Por que ela sentia pedaços de An espalhados por toda parte? Era como se tivesse sido devorada... e os vestígios fossem apenas os restos deixados para trás.

Sem pensar duas vezes, Jusetsu recuou lentamente. Estava tomada pelo terror e com muito medo para correr.

Ela percebeu que já havia sentido esse medo antes — na noite de lua nova, quando Uren Niangniang viu aquele jovem na cidade portuária.

Era exatamente o mesmo tipo de medo.

[Kessel: Carambolas, que fim de capítulo intrigante! O que diabos está acontecendo?! Preciso ler o próximo!!!]


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