Corvo do Palácio Interno Japonesa

Tradução: Kessel

Revisão: Kessel


Volume 1

Capítulo 3: A Princesa Cotovia (Parte 2)

Jusetsu caminhava de um lado para o outro na margem do lago. Era ali que a Princesa Cotovia havia se afogado. Enquanto caminhava, observando as flores que cresciam na beira da água, ouviu o canto de uma cotovia. Era definitivamente aquela cotovia. Olhou em volta, tentando encontrá-la, mas não conseguiu.

Devido à sombra das árvores, a superfície do lago estava sombria, mesmo no final da tarde. Jusetsu, que de alguma forma se viu contemplando a luz do sol que brilhava fracamente nas ondulações da água, de repente ergueu os olhos. Ela podia ouvir passos se aproximando, acompanhados pelo farfalhar de um robe. Esperou, e uma dama da corte — que aparentava ter uns trinta anos — surgiu debaixo de um loureiro. Pelo modo como estava vestida, parecia ser uma dama de companhia de uma das concubinas. Ela segurava um caule de rosa-da-praia junto ao peito. Era uma mulher pálida e de aparência delicada. Seus traços faciais não eram excepcionalmente belos, mas sua figura esbelta e pescoço longo tinham um certo charme. Seus olhos semicerrados, com pálpebras simples, também tinham um tom sombrio que atraía a atenção das pessoas.

A dama de companhia viu Jusetsu parada ao lado do lago e parou abruptamente, parecendo genuinamente surpresa, deixando cair o que segurava. Parecia que ela não esperava encontrar ninguém ali. Apressadamente, pegou a flor que havia caído no chão.

“Você está oferecendo essa flor em homenagem a alguém?”, perguntou Jusetsu.

"O quê?", perguntou a dama de companhia.

“Essa flor. Suponho que seja uma oferenda para a Princesa Cotovia, não é?”

A dama de companhia olhou para Jusetsu, perplexa. "Hum, bem, acho que sim..." admitiu ela, ambiguamente.

A dama de companhia parecia desconfiada da desconhecida que falava com ela.

“Eu sou a Consorte Corvo”, disse Jusetsu. “Quem é você?”

“A Consorte Corvo?” a mulher repetiu, parecendo cada vez mais confusa. Talvez ela não acreditasse no que Jusetsu estava dizendo, pois estava completamente perdida.

“Você deve ser Lady Yo, a dama de companhia da Consorte Grua.”

“Você… sabe quem eu sou?” A dama de companhia ajoelhou-se, visivelmente impressionada. “Você está certa — meu sobrenome é Yo. Meu nome é Jujo. Obrigada pela sua atenção.”

Parecia que Jujo havia presumido que Jusetsu usou algum tipo de poder místico para adivinhar seu nome, mas, na verdade, as damas da corte apenas lhe disseram que aquela era a única dama de companhia que teria vindo oferecer flores à Princesa Cotovia. Jusetsu estava apenas juntando as peças e concluindo que se tratava de Lady Yo, cujo sobrenome era escrito com o caractere para "ovelha". 

"Estava esperando por você."

“Por mim…?”

Jusetsu descobriu que alguém estava de luto pela morte da Princesa Cotovia no dia anterior, quando encontrou uma flor que alguém havia deixado como oferenda perto do lago. Ela tinha certeza de que teria a chance de vê-la, contanto que esperasse naquele lugar.

“Quero saber sobre a princesa”, disse Jusetsu. “Ouvi dizer que você levava as refeições para ela de vez em quando. Vocês eram próximas?”

“Nós…” Jujo ia responder, mas foi acometido por uma pequena crise de tosse. “Peço desculpas”, disse ela.

"Você está doente?", perguntou Jusetsu.

“Não, eu não diria tanto…” disse Jujo. “Eu só costumo ficar com tosse quando as estações mudam.”

Parecia que isso era algo para o qual ela tinha predisposição. Talvez ela fosse fisicamente frágil por ter um corpo tão magro.

“Cuidado. Você vai congelar na beira da água”, disse Jusetsu, conduzindo Jujo para longe da margem do lago e para a sombra das árvores.

“Muito obrigada”, respondeu ela. “A princesa também era uma pessoa frágil. Talvez por termos isso em comum, ela foi muito atenciosa comigo — embora eu tenha certeza de que a vida dela era muito mais difícil do que a minha…”

“Ela era frágil?”

“Não acho que fosse grave o suficiente para ela precisar consultar o médico da corte, mas ocasionalmente ela acabava acamada com febre. Ela sempre dizia que conseguia passar dormindo, então nunca tomava nenhum remédio… Quando pedia algum ao departamento de medicamentos, eles se recusavam a fornecer. Eles não podem prescrever remédios sem permissão, e era necessária a permissão de Sua Majestade, ou seja, da imperatriz viúva, para solicitar ao médico da corte, então não havia muito que a Consorte Sha pudesse fazer…”

Se alguém lhe demonstrasse muita gentileza, isso teria o efeito contrário e acabaria atraindo a atenção da imperatriz viúva. Era disso que a Consorte Sha tinha medo.

[Kessel: Lembrando que a Consorte Sha ao qual elas se referem, é a mãe do atual Imperador, a antiga Consorte Grua]

“Ela não tinha dama de companhia, então era capaz de fazer tudo sozinha. A primeira vez que tive o privilégio de vê-la, ela tinha doze anos, a mesma idade que eu. Eu não conseguia imaginar como devia ter sido ser abandonada em um palácio tão solitário em uma idade tão jovem… mas ela nunca culpou ninguém e simplesmente seguiu em frente com a vida, em silêncio. Ela era uma menina muito corajosa. Eu tinha acabado de chegar ao palácio interno, então sentia muita falta da minha família. Às vezes era difícil, mas ela me confortava muito.”

Um sorriso nostálgico surgiu no rosto de Jujo. "Ela era uma menina inocente e ingênua, e cuidar da cozinha e do jardim não a incomodava. Ela cultivava legumes e flores em sua horta, e às vezes eu também a ajudava."

“Ela cuidava deles sozinha?”

“Sim. As flores ainda estão lá até hoje — as madressilvas e as rosas-da-praia. Eu cortei essa do jardim dela. Afinal, era uma flor de que a Princesa Cotovia gostava muito.”

"Entendo", Jusetsu assentiu com a cabeça.

Então, como se de repente tivesse voltado a si, Jujo disse: "Hum... Mas por que você se interessou pela Princesa Cotovia agora, querida Consorte Corvo?"

“Havia uma cotovia que realmente se afeiçoou à princesa, não é?” 

“Ah, sim”, respondeu Jujo imediatamente, assentindo com a cabeça.

Ela provavelmente não precisou pensar muito para se lembrar disso, já que "cotovia" estava no nome da princesa.

“Você sabia que essa cotovia ainda está dentro do palácio interno?”

“Ah…” Jujo respondeu tristemente, soltando um suspiro. “Já ouvi falar disso, mas apenas em boatos. Eram verdadeiros?”

“Sim. E quero fazer algo a respeito”, disse Jusetsu.

Jujo acenou com a cabeça repetidamente em sinal de gratidão. "Muito obrigada. Se esse é o seu objetivo, contarei tudo o que sei, sem omitir nada. Se tiver alguma dúvida, fique à vontade para perguntar."

Então, Jusetsu decidiu interrogá-la sem reservas. "Aquela cotovia era mesmo tão apegada à Princesa Cotovia?"

“A Princesa Cotovia costumava alimentá-la com painço todos os dias e a mimava muito. Acho que ela recebia visitas frequentes de pardais e cotovias, mas aquele pássaro em particular gostava muito dela. Sempre que a via, piava de alegria.”

“Ouvi dizer que o pássaro morreu — quando a Princesa Cotovia faleceu.” 

“Sim…” respondeu Jujo, parecendo hesitante.

Não parecia que ela estivesse insegura quanto à resposta. Provavelmente era apenas uma lembrança dolorosa de se reviver. Jujo abaixou a cabeça.

“A cotovia gritava de dor, mas eu hesitei. Não me apressei o suficiente para ajudar a Princesa Cotovia. Se eu tivesse chegado lá para salvá-la imediatamente, as coisas poderiam ter sido diferentes…”

“A água gelada deste lago teria sido fatal para alguém tão frágil quanto ela. Mesmo que você a tivesse tirado da água mais cedo, tenho certeza de que teria sido difícil salvá-la.”

Jujo deu um leve sorriso. "Muito obrigado por dizer isso. Mas..."

“Você disse que hesitou... Por quê?”

“Bem…” Jujo baixou o olhar e seu rosto se fechou. “No dia anterior, a Princesa Cotovia e eu tínhamos discutido.”

"O que aconteceu?"

“Eu exagerei e fui indelicada com ela. Senti tanta pena da situação em que ela se encontrava que sugeri que Sua Majestade — o imperador anterior, quero dizer — talvez pudesse ter feito algo a respeito. A princesa balançou a cabeça, insistiu que não queria isso e me garantiu que estava bem com a situação. Por mais corajosa que eu a considerasse, foi extremamente frustrante… Quer dizer, ela não tinha feito nada de errado — por que tinha que ser tratada daquela maneira? Achei que ela deveria estar mais chateada e expressar seus sentimentos.” E, no entanto, a princesa apenas balançou a cabeça.

“A princesa era teimosa demais para me ouvir, e no fim, acabei ficando com raiva… e foi assim que a deixei.”

Um sorriso amargo e autodepreciativo surgiu no rosto de Jujo.

"Tenho certeza de que até eu a considerava menos importante por ser filha de uma simples dama da corte. Foi por isso que consegui falar com ela daquele jeito. Só me dei conta disso quando voltei para o meu quarto. Foi um pensamento assustador. A princesa era uma garota inteligente, então tenho certeza de que ela também percebeu que eu a via dessa forma... Fiquei tão envergonhada que não consegui encará-la novamente."

Por isso, quando a cotovia gritava como se implorasse por ajuda, Jujo hesitou. Então, a princesa morreu.

“Isso me atormenta há todo esse tempo. Deixei-a morrer sozinha. Gostaria de ao menos ter podido segurar sua mão. Queria ter dito a ela que eu estava ao seu lado. Quando penso em quão impotente e triste ela deve ter se sentido ao morrer, eu…”

[Kessel: Para mim, um dos momentos mais tristes de toda a obra. Imagina que horrível deve ser morrer assim, afogada, sem ninguém…]

Com a voz embargada, Jujo cobriu a boca com a manga. Ela tossiu, então Jusetsu deu um tapinha nas costas dela.

“Desculpe. Já vai passar.”

“Você deveria pedir ao departamento de medicina uma receita de fritilária. Vai aliviar sua tosse.”

“Eu irei… Obrigada.”

Jusetsu voltou-se para o lago e o contemplou por um breve instante. "Você tem alguma ideia de por que a princesa caiu no lago?"

Jujo balançou a cabeça. "Não. Ela às vezes vinha passear por aqui, então presumo que ela simplesmente escorregou."

“Entendo…”

Jujo olhou para Jusetsu com apreensão. A Consorte Corvo estava perdida em pensamentos. "Você pode salvar aquela cotovia?"

"Eu posso", respondeu Jusetsu de forma concisa e enfática.

Jujo soltou um suspiro de admiração. "Eu realmente agradeço. Não parece que a cotovia seja a própria princesa. Por favor, ajude-a."

Com isso, Jujo foi para casa e Jusetsu caminhou novamente ao redor da margem do lago.

A princesa…

Uma brisa suave provocava ondulações na superfície da água. O som era como o de areia sendo arrastada. Ela se agachou na beira da água, inalando o cheiro úmido. As flores estavam desabrochando. Quanto mais perto do chão ela chegava, mais forte se tornava o cheiro de vegetação e terra em decomposição.

“Aí está você”, alguém gritou para ela.

Jusetsu se levantou. Koshun surgiu de dentro da floresta, com Eisei atrás dele.

“Fomos ao Palácio Yamei, mas descobrimos que você foi para o Palácio Soro. Estávamos te procurando. Jiujiu ficou chateada por você ter saído sozinha de novo.”

“Não gosto de levar minha dama de companhia comigo para passear.”

“Se você não precisar de uma, devo transferi-la para o Palácio Hien?”

“Não…” disse Jusetsu, virando-se para Koshun e depois de volta para o lago. “Você não precisa fazer isso.”

Então Koshun se aproximou dela. "O que você está fazendo aqui?"

“Tenho feito algumas investigações sobre a Princesa Cotovia.”

“Ah. Ouvi dizer que ela tinha uma cotovia como grande amiga.” Koshun olhou ao redor do lago. “Pensando bem, este era o lago onde ela morreu.” Ela era meia-irmã de Koshun.

"Você chegou a conhecê-la?", perguntou Jusetsu.

“Não”, respondeu Koshun sucintamente.

“Mas ela era sua irmã, não era?”

“Seria diferente se fôssemos parentes de sangue, mas meio-irmãos só se veem rapidamente em ocasiões cerimoniais. Não éramos próximos.”

Além disso, como a mãe da Princesa Cotovia era uma dama da corte, ela havia sido relegada ao esquecimento.

"Para que serve esta flor?" Koshun avistou o caule de uma rosa-da-praia próxima e o pegou.

“É uma oferenda de uma dama de companhia que conhecia a princesa.”

"Certo", disse Koshun, olhando fixamente para aquilo. "Eu não sabia que havia alguém que deixava oferendas de flores para ela."

“Chama-se rosa-da-praia. Você a conhece?”

“Não particularmente. Sempre esqueço o nome das flores, não importa quantas vezes eu os ouça. Acho que nem temos nenhuma dessas no jardim perto do Palácio Gyoko.”

“Aparentemente, ela mesma as cultivava no jardim. Ela também tinha madressilvas e crisântemos.”

"Ah, é?" disse Koshun com um olhar interrogativo.

“Todas elas têm usos medicinais.”

Koshun soltou outro "oh" em resposta. Desta vez, ele pareceu surpreso.

“A madressilva é um remédio para febre. A rosa-da-praia ajuda a dar energia. O crisântemo tem efeitos antitérmicos e sedativos. Ouvi dizer que a princesa era fraca e tinha febre com frequência, mas não lhe davam nenhum remédio. Provavelmente, ela preparava suas próprias misturas usando essas plantas.”

Jusetsu não sabia onde a princesa havia adquirido esse conhecimento, mas supôs que ela pudesse tê-lo aprendido com sua mãe.

“E…” Jusetsu olhou em direção ao lago, “o motivo pelo qual ela caiu no lago está bem ali.”

"O quê?" perguntou Koshun.

Jusetsu apontou para a planta aos seus pés. Flores em forma de sino, verde-esbranquiçadas com um padrão quadriculado preto no interior, estavam começando a desabrochar.

“São fritilárias.”

“Fritilárias?”

“Seus bulbos funcionam como um xarope para tosse.”

"Estas são medicinais?", perguntou Koshun, ajoelhando-se e contemplando as flores.

Então, ele olhou em volta e disse: "Faz sentido. Ela deve ter escorregado quando estava tentando tirar um deles."

A área onde as fritilárias foram plantadas era inclinada, e a terra estava encharcada.

"Ela não deveria ter se esforçado tanto para pegá-las", sussurrou Koshun.

Jusetsu permaneceu em silêncio. A princesa estava tentando colher a fritilária para Yo Jujo. Ela estava disposta a se esforçar para arrancá-la porque Jujo desenvolvia uma tosse sempre que as estações mudavam. Ela provavelmente queria usá-las para se reconciliar após a discussão.

Seria quase impossível contar isso para Jujo, e foi por isso que Jusetsu evitou lhe contar antes. Era melhor ela não saber.

Jusetsu ergueu os olhos. Ela podia ouvir uma cotovia cantando lá de dentro da floresta. "O que você fez com ele?"

“Com o quê?”

“A escultura em madeira do pássaro. Você me disse que estaria pronta antes da sua próxima visita.”

“A andorinha-das-barrancas? Eu terminei.”

Ele talvez tivesse dificuldade em se lembrar dos nomes das flores, mas certamente não tinha o mesmo problema quando se tratava de animais. Koshun tirou a escultura de madeira do bolso do peito e entregou-a a Jusetsu.

“Você fez um excelente trabalho…”

Jusetsu ficou tomada pela emoção ao contemplar o ornamento de andorinha em sua mão. Quase parecia estar vivo. Suas asas delicadamente esculpidas pareciam macias, e seus olhos pequenos eram adoráveis ​​e cheios de vida. Ao acariciar seu peito rechonchudo, ela sentiu como se pudesse quase ouvir seu pequeno coração bater.

“Você acha que consegue usar isso? Não que eu saiba para que você queria isso, afinal.”

“Eu posso.”

Jusetsu assobiou, imitando o grito agudo de um pássaro. Poucos instantes depois, um pássaro surgiu voando por entre os loureiros e pousou num galho ao lado dela.

Era a cotovia.

Ela tirou uma peônia do penteado, e esta se dissolveu em uma névoa vermelho-clara na palma da sua mão. Soprou sobre ela, e a névoa se transformou em um pequeno vórtice, levantando as mangas do robe de Jusetsu. Com um gesto de mão, o vórtice se dissipou, tornando-se uma brisa suave. Ela ergueu a escultura de madeira da andorinha que segurava na outra mão. A madeira pareceu começar a tremer — e, num instante, transformou-se em uma andorinha de verdade, num movimento fluido.

“Siga o seu caminho”, disse Jusetsu ao pássaro.

Com isso, o pássaro alçou voo de sua mão como se respondesse ao seu apelo. Bateu as asas e ascendeu aos céus.

“Agora, você também deve seguir esse pássaro em sua jornada. A princesa estará esperando por você no final da sua viagem.”

A cotovia alçou voo do galho e também começou a voar. A brisa vermelho-clara envolvia seu corpo. Como se estivesse sendo sustentada pelo vento, a cotovia seguiu a andorinha.

A andorinha e a cotovia aproveitaram o vento enquanto planavam pelo ar, rumo ao mar — e depois além. Assim que a brisa vermelha e os pássaros desapareceram completamente de vista, Jusetsu soltou um suspiro suave.

“Pronto. Aquela andorinha vai guiar ela até o paraíso.”

“Foi por isso que você queria um pássaro que pudesse voar bem, não foi?”

"Sim", disse Jusetsu com um aceno de cabeça. "Tenho certeza de que esse pássaro conseguirá voar sobre o mar sem problemas."

“Ainda bem que fui eu quem fez isso. Acho que o pássaro que você estava esculpindo nem conseguiria sair do chão.”

“Cala a boca.”

Jusetsu lançou um olhar fulminante para Koshun antes de se afastar dele. No entanto, quando estava a apenas dois ou três passos de distância, ela parou.

“Eu… agradeço por você ter feito um pássaro tão bom para mim. Ele se mostrou de grande ajuda.” Então, em voz mais baixa, ela disse: “Obrigada.”

Ela tentou ir embora novamente sem se virar, mas Koshun segurou sua mão e a puxou de volta.

Ao olhar para trás, ela percebeu que o rosto de Koshun estava próximo ao seu. Ele a encarava, sem dizer uma palavra. Ela pôde notar um leve traço de confusão em seu rosto quase inexpressivo.

"O quê? Foi tão chocante assim eu te agradecer?"

“Não, não é isso…” Koshun baixou o olhar e soltou a mão dela de repente. “Foi uma surpresa, com certeza, mas foi mais… revigorante do que qualquer outra coisa.”

“Revirogante?”

“Isso me deixou feliz. Parecia que um gato que nunca se importou muito comigo finalmente estava me dando um pouquinho de carinho. Ah, ei! Espera aí!”

“Não vou te dar nenhum afeto, nem um pouquinho. Nem uma lasca.”

“Tudo bem. Para mim, está ótimo.”

“O que você quer dizer com isso?! Eu estou…”

“Me dê a sua mão.”

“Quê?”

“Sua mão, por favor.”

“Eu me recuso.”

Koshun agarrou a mão de Jusetsu à força e colocou nela um pequeno objeto. Era um charmoso passarinho esculpido em madeira.

“O que é isto?”, perguntou Jusetsu.

“Um chapim-de-salgueiro”, respondeu Koshun, entrando em detalhes mais uma vez. “Você deveria pintá-lo. Parece com você.”

“Porque… é pequeno?”

“Pequeno e fofo.”

Jusetsu não respondeu nada.

Ele deve estar falando do pássaro, pensou Jusetsu. Se ele pensa isso de mim, deve ter perdido o juízo. Quem diria que uma garota rabugenta e irritante como eu é fofa?

Jusetsu contemplou a escultura do chapim-de-salgueiro. Podia ser menor que a andorinha-das-barrancas que ele havia feito, mas o desenho era igualmente primoroso. Suas penas finas pareciam macias, e seu pescoço estava levemente inclinado para um lado de uma forma adorável. Era, sem dúvida, uma peça bem-feita.

“…O homem que lhe ensinou essa habilidade devia ser um artesão incrível.”

“Ele sonhava em trabalhar com pedras preciosas um dia, porque se fizesse esse tipo de trabalho manual, não precisaria falar.”

"O que você quer dizer?", perguntou Jusetsu, inclinando a cabeça em curiosidade.

Koshun olhou com saudade para o chapim-de-salgueiro.

“Teiran era mudo. Ele nasceu em uma boa família, mas quando perceberam que ele não seria capaz de se tornar um oficial, foi colocado para adoção. Depois, foi até mesmo transformado em eunuco por ganância e enviado para o palácio interno. Ele trabalhava no escritório dos jardins, mas sua lealdade foi notada e ele acabou sendo designado para a administração do príncipe herdeiro, tornando-se meu cuidador.”

Com seu impressionante trabalho manual e habilidade para criar qualquer coisa que se possa imaginar, Teiran conquistou o coração do jovem Koshun em pouco tempo.

“Ele era um homem alegre e gentil. Talvez não conseguisse falar, mas, por algum motivo, eu sempre conseguia saber o que ele estava pensando. Eu sabia quando ele estava feliz, quando estava triste ou quando algo o incomodava. Devia ser porque estávamos juntos há muito tempo.”

O olhar de Koshun suavizou-se enquanto ele falava sobre seu velho amigo, mas então a expressão desapareceu repentinamente de seu rosto.

“Teiran morreu quando eu estava no Palácio Gyoso, depois de ter meu direito de sucessão anulado. Naquele dia, ele tinha ido buscar raízes de malva no departamento de jardinagem do palácio. Era a época perfeita para colhê-las, e malva em conserva era a minha favorita. Eu disse a ele que não precisava, mas Teiran saiu com um sorriso no rosto mesmo assim. Essa foi a última vez que o vi vivo. No caminho de volta do departamento de jardinagem, alguns eunucos da imperatriz viúva o pegaram. Ela sabia muito bem o quanto eu dependia dele e estava procurando uma oportunidade para tirá-lo de mim. Eles o acusaram de roubar as malvas e o torturaram até a morte. Quando cheguei lá, já era tarde demais. Os ferimentos causados ​​pelas chicotadas, espancamentos e chutes incontáveis ​​deixaram seu corpo em farrapos.”

Em contraste com a monstruosidade do que ele descrevia, a maneira como Koshun falava era assustadoramente calma. Sua voz soava despreocupada, tão serena quanto a superfície da água sem vento — ou como a quietude da noite. Era o tipo de silêncio que fazia você acreditar que monstros insondáveis ​​aguardavam, prendendo a respiração, nas profundezas da escuridão.

Jusetsu sentiu como se tivesse vislumbrado o ódio silencioso que residia nas profundezas dele. Seu ódio estava faminto, sedento por uma válvula de escape. Mesmo após a decapitação da imperatriz viúva, essa fome não havia se dissipado. Quanto mais tempo permanecesse silenciosa, mais aquela fera devoraria os recônditos mais profundos de seu coração.

“Você e Jiujiu voltaram a ser amigas?”, perguntou Koshun.

A mudança de assunto foi tão repentina que, por um breve momento, Jusetsu não conseguiu entender o que lhe haviam perguntado. Assim que compreendeu, porém, ela respondeu.

“Nós… nunca fomos realmente amigas, para começo de conversa.”

Jusetsu ainda não havia dado o doce sipaotang para Jiujiu, e elas também não tinham tido nenhuma conversa propriamente dita. Mesmo assim, as duas eram apenas uma consorte e sua dama de companhia — não amigas — então não era como se “fazer as pazes” ou “não fazer as pazes” fossem sequer opções na mesa.

“Não precisa ser tão desafiador. É cansativo. Tenho certeza de que você quer se dar bem com ela, não é?”

“Nunca pensei nada desse tipo.”

"Tem certeza disso? Você pareceu levar muito a sério quando ela ficou brava com você."

Jusetsu tentou responder, mas, sem conseguir encontrar as palavras, desistiu.

“Cabe a você decidir se quer ou não manter uma dama de companhia”, continuou Koshun. “Foi seu desejo tê-la desde o início, então por que está negando isso?” Jusetsu mordeu o lábio.

"Você rejeita as pessoas por causa dessa... parte de você?", ele perguntou.

Koshun estava falando sobre ser uma sobrevivente da família Ran. Jusetsu se afastou dele.

“É da minha natureza”, disse ela.

“Você só vai conseguir sustentar suas mentiras por um tempo limitado. Você não é fria o suficiente para conseguir ir contra a lógica.” 

“Que mentiras?!”

“Será porque você é a Consorte Corvo?”

Jusetsu olhou para Koshun. "O que você acabou de dizer?!"

“Estou perguntando se você precisa manter as pessoas à distância por ser a Consorte Corvo — e não por causa da sua origem.”

Jusetsu examinou o rosto de Koshun cuidadosamente. O quanto esse homem sabia?

Ela desviou o olhar em silêncio.

“Jusetsu,” chamou ele.

“Não sou obrigada a responder às suas perguntas, e você também não pode me obrigar a responder a nada.”

Assim era a Consorte Corvo. Jusetsu virou as costas para Koshun e começou a se afastar.

“Jusetsu!” ele chamou novamente.

Sem parar, Jusetsu simplesmente perguntou: "O que é?"

"Acho mesmo que você deveria fazer as pazes com ela."

Jusetsu parou abruptamente. Pensou em dizer-lhe que não era da sua conta, mas em vez disso permaneceu em silêncio e se virou.

“Quando ela se for, será tarde demais”, disse Koshun.

Suas palavras foram suaves, mas ressoaram profundamente em Jusetsu. Ela o encarou por alguns instantes e depois saiu.

Ao retornar ao Palácio Yamei, encontrou Jiujiu limpando uma janela com treliças. Como não tinha nada para fazer, costumava limpar o palácio durante o dia — assim como fazia agora. Ao ver que Jusetsu havia retornado, parou o que estava fazendo e fez uma leve reverência.

“Nós ajudamos aquela cotovia”, informou Jusetsu a ela.

O rosto de Jiujiu se iluminou. "Você a ajudou? Muito obrigada!"

Jusetsu ficou aliviada ao ver Jiujiu tão feliz. Graças a essa notícia positiva, parecia que ela escaparia de mais uma bronca por sair sozinha. Jusetsu sentou-se em sua cadeira.

"Acho mesmo que você deveria fazer as pazes com ela."

A voz de Koshun ecoava em sua mente. Elas nunca tiveram um relacionamento de verdade. Jiujiu apenas cumpria seus deveres como dama de companhia, enquanto Jusetsu simplesmente não conseguia ter um relacionamento. E ainda assim…

“…Sinto muito pelo que aconteceu ontem.”

Jiujiu, que estava se preparando para ferver água, ficou paralisada de surpresa.

Jusetsu prosseguiu: "Ouvi dizer que as consortes deviam dar presentes às suas damas de companhia, então pensei que deveria lhe dar algo. Achei que isso... a deixaria mais feliz."

Isso mesmo. Ela queria fazer Jiujiu feliz. Queria que Jiujiu ficasse contente por ela ter se tornado sua dama de companhia. Era tudo muito bobo.

Os olhos de Jiujiu se arregalaram e ela caiu de joelhos, tomada por uma imensa gratidão.

“Não… Você não deveria se desculpar, niangniang. Eu não teria te culpado se você tivesse me batido pelo que eu disse. Foi grosseria, vindo de uma dama de companhia. Nenhuma serva responde mal à pessoa para quem trabalha! Kogyo também me repreendeu por isso. Você é tão gentil que me fez esquecer o meu lugar.”

Ela explicou que ficou se perguntando quando seria punida ou expulsa por causa de seu comportamento.

“Eu não sou esse tipo de pessoa. Esta é a primeira vez que tenho uma dama de companhia, então simplesmente não sabia o que fazer.”

“Isso significa que… você vai ficar comigo?”

“Você quer ficar?”

"Bem, eu só estou preocupada em te deixar sozinha", disse Jiujiu.

“Eu fazia tudo sozinha antes de você chegar.”

“Isso não vem ao caso. Você devia estar se sentindo sozinha.”

Jusetsu piscou. "...Nem um pouco."

“Como isso é possível? Não sei absolutamente nada sobre as suas circunstâncias, mas você está sempre tensa. Você deve estar muito cansada todos os dias.”

Essas palavras atingiram Jusetsu em cheio, atravessando seu coração. Aquela garota havia conseguido enxergar Jusetsu como ela realmente era — e fez isso apenas por estar perto dela. Ela não sabia nada sobre a situação de Jusetsu.

Ela tem razão. Estou cansada, pensou Jusetsu. Mas, por mais exausta que eu esteja, não há ninguém a quem eu possa recorrer.

Seus olhos se encheram de lágrimas e ela soltou um pequeno suspiro. "...O chá está fervendo."

“Ah não!”

Jiujiu adicionou um pouco de sal à panela e mexeu com uma colher. O vapor subiu e o aroma do chá preencheu o ar. Jusetsu fechou os olhos e respirou fundo, escondendo os dedos trêmulos nas mangas.

“Aqui está, niangniang.”

Jiujiu ofereceu a Jusetsu uma xícara que ela serviu. Jusetsu ficou olhando para ela por alguns segundos, absorvendo o vapor quente e a fragrância.

Então, do nada, Jiujiu disse: "Eu sei que você pinta o cabelo." Jusetsu abriu os olhos.

“Mas Kogyo e eu jamais contaríamos a ninguém — tenho certeza de que você tem seus motivos — então você poderá relaxar mais estando dentro do seu próprio palácio”, disse Jiujiu com um sorriso.

Jusetsu olhou para a xícara. "...Obrigada", disse ela, estendendo a mão para pegá-la.

E com isso, Jusetsu acabou com mais uma coisa da qual não conseguiu se desfazer ou abandonar.

Ela não sabia para onde se virar. Aqueles pesos enormes — por mais quentes e suaves que fossem — pareciam ter se enrolado em suas pernas, impedindo-a de seguir em frente. Camadas e mais camadas de correntes envolviam seu corpo.

Ao descer pela garganta, o chá parecia extremamente quente.

***

Koshun acordou no meio da noite, mas não era como se tivesse dormido profundamente. Ele apenas cochilava, sonhando intermitentemente enquanto oscilava entre a consciência e a inconsciência. Koshun sentou-se na cama e olhou para as cortinas. Assim que seus olhos se ajustaram ao ambiente, o fino tecido de seda parecia vagamente branco na escuridão. No entanto…

Ao perceber as sombras de várias figuras do outro lado, ele se levantou da cama, abriu as cortinas e entrou. Avistou duas pessoas paradas em frente à entrada do quarto. Nenhuma delas se moveu um centímetro sequer — permaneceram ali, imóveis. Apareciam no mesmo lugar todas as noites. Incrivelmente, suas formas eram facilmente distinguíveis, mesmo no escuro. Isso provava que não eram humanos comuns. Contudo, mesmo que não fossem, Koshun ainda assim saberia que eram fantasmas.

“Mãe… Teiran,” disse ele.

As duas pessoas paradas em frente às portas eram, de fato, a mãe de Koshun e Teiran. Koshun aproximou-se lentamente deles, mas nenhum dos dois se moveu. Permaneceram imóveis, como se estivessem guardando a entrada. Nenhum dos dois estava em boas condições. A mãe de Koshun estava pálida e cuspia uma enorme quantidade de sangue pela boca, e seu manto estava manchado de vermelho-vivo. Afinal, ela havia sido envenenada. Teiran, que estava ao lado dela, vestia um manto rasgado, sujo de terra e sangue. Seu rosto, que sempre ostentava aquele sorriso sereno, estava inchado pelos socos que levou e coberto de manchas vermelho-escuras e azuladas. Sangue escorria de suas mãos e pés, pingando no chão.

Os dois ficaram ali parados, encarando Koshun, mas ele não achou aquilo assustador.

A cena era sempre a mesma, e pela manhã, Koshun já estava dormindo profundamente em sua cama, sem nenhum vestígio de que seus dois entes queridos sequer tivessem estado ali.


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