Corvo do Palácio Interno Japonesa

Tradução: Kessel

Revisão: Kessel


Volume 1

Capítulo 3: A Princesa Cotovia

Ela conseguia ouvir o grito de um pássaro, mas não era o de Shinshin. Várias cotovias estavam empoleiradas nas janelas gradeadas do palácio. Elas bicavam o painço que Jusetsu havia colocado do lado de fora. Era um desses pássaros que estava cantando.

“Parece que tenho algumas visitas novas.”

Enquanto Jusetsu murmurava isso, Shinshin voou até os pássaros recém-chegados e piou. Então, a cotovia também soltou uma espécie de chamado agudo. Depois disso, Shinshin bateu as asas para intimidar as cotovias, que voaram para longe da janela e correram pelo palácio, tentando escapar.

"Não intimide os passarinhos, Shinshin", disse Jusetsu, mas Shinshin não deu ouvidos.

Ela estendeu a mão em direção às cotovias enquanto Shinshin voava de um lado para o outro, espalhando suas penas pelo chão. Uma cotovia pousou em seus dedos, e ela sentiu um leve arrepio percorrer seu corpo.

"Por que você está hesitando, passarinha?", perguntou ela. "Por que você simplesmente não atravessa para o paraíso?"

Essa cotovia não era como as outras; era por isso que Shinshin estava agindo de forma indisciplinada. O corpo verdadeiro dessa ave já havia esfriado há muito tempo. Era raro encontrar o fantasma de um pássaro.

Os pássaros eram os ajudantes de Uren Niangniang, por isso, quando morriam, eram conduzidos ao paraíso além do mar. Quase nunca se perdiam e se tornavam fantasmas — pelo contrário, muitas vezes guiavam as almas das pessoas.

“Você não sabe que está morta?”

A cotovia deixou a mão de Jusetsu e voou para cima, quase alcançando o teto.

Depois de servir chá para Jusetsu, Jiujiu também notou o chilrear dos pássaros. "Nossa! Cotovias!", exclamou alegremente. "Este palácio é tão tranquilo que seria adorável ouvir o canto dos pássaros para alegrar o ambiente." 

"Essa não é uma cotovia de verdade", explicou Jusetsu.

"O quê?" disse Jiujiu, visivelmente empalidecendo. A jovem continuava tão covarde como sempre.

“Por algum motivo, perdeu a chance de chegar ao paraíso.”

“Ah… Acho que esse tipo de coisa deve acontecer de vez em quando. Ah! Então por que não…” Jiujiu olhou para o pássaro acima de sua cabeça. Sua voz falhou como se ela tivesse acabado de ter uma revelação. “Talvez seja a cotovia da Princesa Cotovia?”, sugeriu ela.

“A Princesa Cotovia?”

“Havia uma princesa com esse nome durante o reinado do último imperador.”

Isso significava que ela era meia-irmã do imperador vigente.

"Por que ela era chamada de Princesa Cotovia?", perguntou Jusetsu.

“Havia uma cotovia que era uma grande amiga dela. Ela…” O sorriso desapareceu do rosto de Jiujiu ao se lembrar da história. “Aparentemente, ela era uma pessoa solitária. Perdeu a mãe muito jovem e ninguém no palácio interno se importou com ela enquanto crescia.”

“Mas ela era uma princesa, não era?”

“Sim. Mas, bem… a mãe dela era apenas uma dama da corte.”

Com uma simples dama da corte como mãe, ela não teria ninguém para apoiá-la. Nesse palácio interno, não ter apoio significava ser abandonada e ficar desamparada.

“A Consorte Pato-mandarim, a Consorte Pega, a Consorte Grua, a Concubina Andorinha e as damas toutinegras… Todas as concubinas do palácio interno recebem nomes assim, com exceção das damas da corte. Algumas concubinas, no entanto, chamam as damas da corte por um único nome: ‘pardais’”.

[Kessel: Caso não tenha ficado muito claro no capítulo anterior, a Kajo é a Consorte Pato-mandarim!]

"Pardais? Que fofas", disse Jusetsu, mas Jiujiu ainda parecia severa, dando a Jusetsu a impressão de que as damas da corte não gostavam desse apelido.

“Dizem que somos pássaros feios, que voamos por aí bicando alegremente qualquer grão que caia no chão…”

“Você não é feia. As palavras de uma pessoa dizem muito sobre quem ela é — o que a torna feia no fundo, por ser capaz de pensar de uma maneira tão cruel.” 

Finalmente, Jiujiu sorriu. “Você é tão gentil, niangniang.”

"Eu não sou…"

Isso foi inadequado da minha parte, pensou Jusetsu, contendo-se. Escapou-lhe por acaso, pois Jiujiu parecia muito triste.

“Seria bom se todos no palácio interno fossem como você e Hua Niangniang, mas… como eu disse antes, a mãe da princesa era uma dama da corte — então eles também a chamavam de ‘Princesa Cotovia’ para zombar disso.”

O segundo dos dois caracteres usados ​​para escrever "cotovia" significava "pardal", daí o nome.

Ela era ridicularizada, ninguém se importava com ela, e sua única amiga era uma cotovia. A imagem dessa jovem surgiu na mente de Jusetsu. Era tão perturbadora que Jusetsu não conseguiu evitar franzir a testa.

“Tudo o que você me contou foi sobre o passado dela… O que aconteceu com ela depois disso?”

“Ela faleceu aos treze anos. Deve ter escorregado e caído no lago, porque quando a encontraram, ela não respirava. O estranho é que, por volta da hora da queda, sua cotovia começou a piar alto e a voar em círculos. Era como se estivesse tentando desesperadamente avisar a todos que a princesa estava em apuros. Ninguém percebeu, porém, e fingiram que não notaram nada. No fim, a cotovia se exauriu, caiu no chão e morreu. Desde então, de tempos em tempos, é possível ouvir o triste canto de uma cotovia no interior do palácio…”

[Kessel: Que triste…]

Jusetsu e Jiujiu olharam para cima. A cotovia ainda soltava um grito agudo, voando inquieta em círculos. De repente, pareceu bater na parede e desapareceu.

“…Parece que foi para outro lugar.”

“Será que você conseguiria enviar um pássaro tão pequeno quanto esse para o paraíso, niangniang?”

“É um pássaro, então… imagino que seja possível.”

Afinal, os pássaros eram todos da família da deusa, então, mesmo que Jusetsu apenas tivesse colocado tudo no caminho certo, Uren Niangniang deveria ter sido capaz de ajudar com o resto. Quando ela contou isso a Jiujiu, sua dama de companhia lançou-lhe um olhar suplicante.

“Por favor, tente salvá-la, então. Seria cruel deixá-la assim.” Como Jiujiu era uma dama da corte, ela certamente se solidarizou profundamente com a Princesa Cotovia e sua amiga cotovia.

“Bem, acho que não me importo de tentar…”

“Ah! Se eu vou te fazer um pedido, terei que te dar algo em troca, não é? O que eu deveria te dar? Não tenho nada para te pagar…”

“Está tudo bem. É só um pássaro.”

"Sério?" perguntou Jiujiu, visivelmente surpresa. Era fácil decifrar essa garota.

“Não há nenhum rumor de que a própria Princesa Cotovia tenha se transformado em um fantasma, há?”

“Não ouvi nada a respeito, mas seria estranho se apenas o pássaro dela ainda estivesse perdido neste mundo, e não a própria princesa, não é? Então talvez haja rumores circulando que eu simplesmente desconheça.”

“Não seria estranho, em si. Quanto mais você quer ver alguém — mesmo que seja apenas um fantasma — menos provável é que essa pessoa realmente tenha se tornado um.”

“Hum! Então é assim que funciona…” disse Jiujiu. Ela não parecia ter entendido muito bem, mas concordou com a cabeça mesmo assim.

Após o meio-dia, Jusetsu saiu do Palácio Yamei, vestida como uma dama da corte. Na visão de Jusetsu, seria problemático se ela e Jiujiu criassem o hábito de fazer coisas juntas.

É libertador estar sozinha, pensou ela enquanto caminhava pela trilha de cascalho branco. A Princesa Cotovia costumava viver em um pequeno palácio chamado Palácio Soro, nos arredores nordeste do palácio principal. Ele ficava ao lado de uma floresta com um lago, e seus arredores eram cobertos por madressilvas e crisântemos. Não havia mais ninguém morando lá, o que aparentemente o tornava um lar conveniente para cães-guaxinim e doninhas. As dobradiças das portas estavam enferrujadas e não havia nenhum tipo de mobília — embora não estivesse claro se sempre fora assim ou se haviam sido removidas após a morte da Princesa Cotovia. Enquanto Jusetsu caminhava pelo cômodo, bichos começaram a fugir das frestas do teto e das paredes de barro dilapidadas, parecendo assustados. Não havia sequer um sinal do fantasma da Princesa Cotovia. Jusetsu tentou ir até o lago onde ela havia caído, mas parecia que ela também não estava lá. Como Jusetsu esperava, parecia que ela não havia se transformado em um fantasma e havia cruzado em segurança para o paraíso.

O lago, cercado por um bosque de zimbros e loureiros, era sombrio e úmido. Em suas margens, cresciam plantas como a sagitária-de-três-folhas, íris e coroas-imperiais. Não parecia um lago formado pelo escoamento de água de um curso d'água, mas sim um lago onde a água brotou do solo. Não havia vento, mas ondulações deslizavam pela superfície da água, que era tão cristalina que quase não tinha cor. Parecia frio, mesmo no verão. Se alguém caísse ali, começaria a perder todo o calor do corpo para a água gelada — e então sua força desapareceria junto.

Enquanto Jusetsu caminhava pela margem do lago, parou de repente. Ali, diante dela, estavam algumas flores que alguém havia colhido e deixado para trás. Eram rosas brancas da praia — a mesma variedade que ela vira no jardim do Palácio Soro momentos antes. As flores ainda eram apenas botões, mas vários ramos haviam sido cortados e amarrados com um caule. Essas flores claramente não tinham sido arrancadas e jogadas de lado. Alguém as havia colocado ali deliberadamente — como uma oferenda.

Jusetsu contemplou as flores por um instante, resmungou para si mesma e então se virou. Procurou o edifício mais próximo do Palácio Soro. Um que parecia estar por perto tinha decorações de guindastes nos cantos do telhado de telhas azuis — o Palácio Hakkaku.

Jusetsu contornou a cerca viva de zimbro que circundava o edifício e espiou pelo pequeno portão dos fundos. A poucos passos de distância, algumas damas da corte estendiam as roupas que haviam lavado. As mulheres deviam ser as tintureiras do palácio. Jusetsu caminhou silenciosamente até elas.

“Você poderia me dedicar um minuto para me ajudar com uma coisa?”

"Oh! Você me assustou!" Uma das damas da corte segurava um robe e deu um pulo quando Jusetsu começou a falar com ela.

“O que foi? Quem é você? Você não é uma de nós.”

“Sou do Palácio Yamei”, disse Jusetsu. “Há algo que eu gostaria de lhe perguntar sobre a Princesa Cotovia.”

Ao ouvir as palavras "Palácio Yamei" e "Princesa Cotovia", a dama da corte olhou em volta, perplexa. As outras damas da corte apressaram-se para se juntar a elas, conversando entre si.

“Ela disse Palácio Yamei? Onde vive a Consorte Corvo?”

“O que ela quer?”

“A Princesa Cotovia? Não era essa a princesa do imperador anterior… bem…”

Jusetsu pigarreou, o que fez com que todos se calassem. "O Palácio Soro fica aqui perto. Alguém aqui era próximo dela?"

As damas da corte trocaram olhares com a cabeça inclinada, pensativas.

“Bem, pode até ser considerada próxima, mas…”

“Quer dizer, tudo aconteceu quando o imperador anterior ainda estava no poder.”

“Só sabemos os mesmos rumores que todo mundo sabe.”

Então, outra das damas da corte elevou a voz. "Ah, mas tenho quase certeza de ter ouvido que a Consorte Grua anterior costumava mandar entregar comida no Palácio Soro de vez em quando."

A Consorte Grua anterior — em outras palavras, a Consorte Sha, mãe de Koshun.

"Em certo momento, ela nem tinha o que comer. A imperatriz viúva teria perseguido a Consorte Grua se ela fosse muito gentil com ela, então parece que a ajudou em segredo. A dama da corte que costumava lhe trazer comida ainda está neste palácio, aliás. Ela é a dama de companhia da atual Consorte Grua."

“Qual é o nome dela?”

“Lady Yo.”

“Entendi.”

Jusetsu agradeceu às damas da corte, mas quando tentou se dirigir ao palácio, elas a detiveram.

“Se for ela que você vai ver, agora não é uma boa hora. A Consorte Grua está escolhendo o tecido para seu novo ruqun neste momento. Seu quarto está abarrotado de tecidos diferentes… Num minuto ela está ponderando qual combina com qual grampo de cabelo, e no minuto seguinte, está discutindo o que ficaria bem com seus sapatos — e pedindo para trazerem todos esses tecidos diferentes para ela, um após o outro. É um caos lá dentro! Suspeito que isso possa levar o dia inteiro.”

“Passar o dia inteiro só escolhendo tecidos?”

A dama da corte ergueu as sobrancelhas, mas não a confrontou — apenas deu de ombros. Ela devia achar aquilo tão absurdo quanto Jusetsu.

“Os tecidos que a Consorte Grua não escolhe são repassados ​​às suas damas de companhia, então é divertido para elas também. Você pode chamar a dama de companhia com quem deseja falar, mas provavelmente ela ainda não virá. Afinal, existe a possibilidade de ela conseguir um grampo de cabelo ou um ruqun indesejado.”

“A Consorte Grua parece uma pessoa generosa.”

“As damas de companhia dela pareciam satisfeitas. Dizem que há mais vantagens em trabalhar para ela do que para outras consortes.” 

“Vantagens?” Jusetsu repetiu.

“Algumas consortes não distribuem nenhum bem de segunda mão. O apoio de uma consorte desempenha um papel importante, não é? A Consorte Grua vem de uma família rica.” A dama da corte disse isso como se Jusetsu já soubesse.

“É normal que toda consorte ofereça presentes às suas damas de companhia…?”

“Isso não acontece em todos os palácios — depende da generosidade do consorte. Mas é a norma.”

“A norma…”

Jusetsu nunca havia dado nada à sua dama de companhia Jiujiu — e, naturalmente, também não havia dado nada a Kogyo. Reijo não tinha dama de companhia, então não fazia ideia de como essas coisas funcionavam.

Então é isso que funciona.

Como não teria a oportunidade de ver a dama de companhia da Consorte Grua naquele dia, ela retornou pensativa ao Palácio Yamei. O edifício ficava situado no interior dos jardins do palácio — ou, mais precisamente, bem no seu coração. Era preciso atravessar uma densa floresta de loureiros e rododendros para chegar lá, mas o fato de os rododendros venenosos parecerem afastar quaisquer visitantes em potencial deixava bem claro que aquele era o lar da Consorte Corvo. Apesar de estar rodeado por todas aquelas plantas, o palácio não tinha um jardim onde se pudesse apreciar flores da estação. Era incomum nesse aspecto, considerando que até o Palácio Soro possuía plantas floridas exuberantes em seu jardim — e aquele estava abandonado.

Quando Jusetsu voltou, Jiujiu estava tão furiosa quanto se poderia esperar.

"Eu não te disse que te acompanharia se você fosse sair? Por que você sairia sozinha?", disse ela, irritada.

“Não preciso necessariamente que você me acompanhe todas as vezes”, respondeu Jusetsu.

“Se a sua dama de companhia nem sequer a acompanha nos seus passeios, o que mais ela deveria fazer? Está dizendo que não precisa de mim?”

“Não é bem assim…” A voz de Jusetsu silenciou. É verdade. Jusetsu nunca precisou de uma dama da corte. Na verdade, ela preferia não ter uma. Bastava dizer isso a Koshun e ele a designaria para outra consorte ou lhe devolveria seu antigo cargo de dama da corte.

Jusetsu quase quis perguntar: "Você não preferiria trabalhar como dama de companhia de outro consorte?" Em vez disso, ela se conteve e foi até o armário.

Ela tirou o objeto que estava embrulhado em um pano e entregou a Jusetsu. "Fique com isto."

"Hã?" disse Jiujiu, piscando surpresa. "De onde isso surgiu, de repente?"

Jusetsu silenciosamente enfiou o pacote na mão de Jiujiu. A jovem o abriu. Era o pente de marfim que Koshun havia dado a Jusetsu. "Sua Majestade não lhe concedeu isso?", disse Jiujiu, embrulhando-o apressadamente com uma expressão surpresa no rosto. "Não. Você não pode me dar isso!"

“Eu disse para você aceitar. Não acredito que haja nenhum problema.”

“É uma questão séria! Não se pode abrir mão de algo que Sua Majestade tão gentilmente…”

“Você prefere meu robe?”

Por algum motivo, essa sugestão fez Jiujiu parecer ofendida. "Eu nunca disse que queria nada", disse ela.

“Mas ainda assim seria bom ganhar alguma coisa, não é?”

A conversa que Jusetsu teve com as damas da corte mais cedo naquele dia ainda estava fresca em sua mente, mas Jiujiu ficou boquiaberta, consternada.

“Não tenho nenhum desejo de tirar nada de você, niangniang. Por acaso eu pareço tão gananciosa assim?”

“Não, não é isso…”

"Eu só me tornei sua dama de companhia sob suas ordens, mas continuo servindo-a fielmente e da melhor maneira possível. E mesmo assim, você me trata como se eu fosse uma interesseira... É demais."

Jiujiu enfiou o pente enrolado de volta nas mãos de Jusetsu e saiu correndo do quarto, pela entrada da cozinha. Kogyo espiou pela porta, com uma expressão preocupada. Jusetsu ficou parada segurando o pente, sem saber o que fazer. Parecia que ela a tinha irritado.

Jusetsu olhou para o pente em sua mão e o guardou de volta no armário. Abriu suas finas cortinas de seda e sentou-se na cama.

Ela não se importava de verdade se ofendeu Jiujiu. De qualquer forma, momentos antes, ela havia cogitado a ideia de transferi-la para outro palácio.

Jusetsu refletiu em silêncio. Se era mesmo isso que ela queria, por que tentou dar aquele pente para Jiujiu? Era como se estivesse tentando agradá-la porque estava brava.

Jusetsu abraçou os joelhos e fechou os olhos.

 

Jusetsu passou a tarde esculpindo madeira. Pegou lenha da pilha no fundo da cozinha e começou a esculpir silenciosamente com uma faca. Percebeu que não conseguia esculpir da maneira que queria. Jusetsu não era uma artesã habilidosa, nem um pouco. Por fim, em um acesso de frustração, abandonou a madeira esculpida sem muita vontade e foi se deitar na cama. Lascas de madeira estavam espalhadas sobre os tapetes floridos no chão. Shinshin parecia irritado enquanto as bicava para limpá-las. O quarto estava extremamente bagunçado. Nesse momento, porém, Shinshin olhou para a porta e começou a bater as asas, agitado.

Jusetsu soltou um suspiro e, ainda deitada, acenou preguiçosamente com a mão. As portas se abriram e Koshun entrou.

“Para que servem todas essas lascas de madeira?”, perguntou ele. Sem fazer qualquer esforço para se esquivar, pisou nelas enquanto caminhava em direção a Jusetsu.

Eisei encarou o chão, franzindo a testa. Não parecia que ele estivesse muito impressionado com a bagunça que Jusetsu havia feito.

Jusetsu, sem motivação para se sentar, apenas virou a cabeça para encará-los.

“Você não vai ficar bravo comigo hoje?”

Koshun abriu as cortinas, entrou e sentou-se na cama sem cerimônia. Normalmente, isso teria deixado Jusetsu furiosa, e ela teria gritado algo como: "Quem você pensa que é, entrando pelas cortinas sem permissão?" ou "Não ouse sentar na minha cama!". Hoje, porém, as coisas eram diferentes.

"Não está se sentindo bem?", perguntou ele.

“Cala a boca”, respondeu Jusetsu.

“O que está acontecendo? Será que essas lascas de madeira têm algo a ver com isso?” Jusetsu ergueu os olhos. Koshun segurava um pedaço de madeira parcialmente esculpido. “Eu não fazia ideia de que você era uma entalhadora de madeira tão talentosa”, continuou ele. “Isso é… um lagarto gordo?”

"Não", respondeu Jusetsu com raiva. Em seguida, levantou-se. "É um pássaro."

Koshun encarou atentamente o pedaço de madeira, depois olhou para Jusetsu com um toque de pena em seu rosto, que de outra forma estaria inexpressivo. "Algo está te prejudicando aqui, seja sua capacidade de observação ou suas habilidades práticas. Ou talvez sejam ambas?"

“Fique quieto.” Um pedaço de madeira estava preso na saia de Jusetsu; ela o atirou em Koshun. Ele então pegou a faca que ela havia jogado no colchão.

“Não existe apenas um tipo de pássaro, entende? Que tipo você estava tentando esculpir?”

“Não importava, desde que se parecesse com algum tipo de pássaro.”

"Bem, é por isso que acabou assim", ironizou Koshun, horrorizado. "Você poderia ao menos ter usado Shinshin como referência."

"Shinshin não voa muito bem", respondeu Jusetsu, emburrada.

Shinshin bateu as asas em sinal de protesto, mas ela o ignorou.

"Então você preferiria um pássaro que fosse melhor em voar?", perguntou Koshun.

“Precisa ser bom o suficiente para atravessar o mar, no mínimo.”

Ao ouvir essa resposta, Koshun assentiu silenciosamente e começou a manusear a faca. "Uma andorinha-das-barrancas deve servir então. Elas são fantásticas no ar."

As andorinhas-das-barrancas eram uma espécie de andorinha que voava até as terras de Sho no verão e cavava buracos ao longo da costa para construir seus ninhos. Elas chegavam até mesmo à propriedade imperial e faziam seus ninhos sob as telhas ou em ocos de árvores. Essa ave era capaz de atravessar o mar, o que a tornava a escolha perfeita.

Koshun talhava a madeira com uma velocidade impressionante, examinando-a de todos os ângulos enquanto o fazia. Em pouco tempo, ele transformou a figura anteriormente distorcida em algo que definitivamente se assemelhava a um pássaro. Jusetsu ficou compreensivelmente chocada com seu nível de habilidade.

“É um pássaro”, disse ela.

“É uma andorinha-das-barrancas”, corrigiu Koshun.

“Está muito bonito. Suponho que o trabalho em madeira seja mesmo a sua especialidade.”

“Ainda não está terminado”, disse Koshun enquanto acrescentava alguns pequenos retoques ao bico e às asas. “Além disso, não é como se eu tivesse nascido com essa habilidade. Foi algo que me ensinaram.”

“Lembro-me de você ter me dito algo parecido.”

“Um amigo me ensinou a fazer isso quando eu era criança.”

“Um amigo…?”

“Meu amigo Teiran”, esclareceu Koshun. “Ele tinha quase a mesma idade do meu pai, mas eu costumava brincar com ele.”

Jusetsu examinou sua expressão facial. Kajo havia lhe dito para não mencionar aquele nome na frente dele porque, segundo ela, isso apenas reabriria feridas antigas.

Koshun não entrou em mais detalhes. Ele simplesmente continuou a esculpir a imagem da andorinha em silêncio. Jusetsu também ficou quieta e observou as penas da andorinha sendo esculpidas na madeira.

“…Há algo sobre o qual eu gostaria de ouvir sua opinião”, disse Jusetsu enquanto olhava para as mãos de Koshun.

“No quê?”, perguntou ele, sem interromper o trabalho por um único segundo.

“Você costuma dar presentes para as pessoas? Eisei, por exemplo?”

“Presentes? Bem, eu lhe dei uma espada.”

"Ele ficou com raiva?"

Koshun parou e olhou para Jusetsu.

“O que foi?”, perguntou ela.

“Tenho quase certeza de que ele ficou satisfeito”, comentou. Em seguida, chamou Eisei, que estava do outro lado da cortina. “Você ficou satisfeito, não é?”

"Sim", respondeu Eisei educadamente. "Guardarei essa espada com carinho pelo resto da minha vida."

Ele lançou um olhar para Jusetsu como quem diz: "Viu?"

Sentindo-se ainda mais confusa, Jusetsu abraçou os joelhos. "Jiujiu... ficou brava comigo."

"Ela ficou?" perguntou Koshun.

A expressão em seu rosto mudou. Isso era algo raro. Com um olhar surpreso, seus olhos se arregalaram.

“Tentei dar a ela aquele pente de marfim, mas ela ficou brava comigo.”

“Eu não te dei isso?”

“Você me disse para jogar fora se eu não precisasse, não foi? Seria um desperdício, então pensei em dar para a Jiujiu.”

Koshun, com uma expressão ao mesmo tempo de desânimo e resignação, fechou a boca. Jusetsu explicou o que havia acontecido entre ela e Jiujiu mais cedo. Enquanto ela falava, Koshun continuou a esculpir a andorinha em silêncio. Ela não conseguia dizer se ele estava ouvindo ou não, mas assim que terminou, ele parou e começou a falar.

“Você não deve levar tão a sério costumes que conhece apenas superficialmente — nem deve se envolver em coisas que não entende completamente. Se você não sabe por que está fazendo algo, como vai saber por que isso irrita alguém? Algumas mulheres podem se dedicar ao seu trabalho na esperança de receber presentes em troca, mas muitas outras não. Isso significa que a Jiujiu é um exemplo deste último caso.”

Koshun lançou um olhar furtivo para Jusetsu.

“Você pode ser uma garota inteligente e bem-intencionada, mas preciso admitir que sua sabedoria prática deixa a desejar. Não seja uma imitadora sem graça.”

O fato de Koshun lhe dizer que ela era completamente desinformada sobre a situação já era ruim o suficiente, mas o tom de voz dele soou excepcionalmente cruel. Doeu.

Jusetsu franziu a testa, irritada. "Como assim, sem graça?"

“Você ignora as sutilezas emocionais das pessoas ao seu redor, não é? Tenho certeza de que isso também a ofenderia.”

Jusetsu ficou em silêncio e observou atentamente o comportamento do imperador. "...Você está com raiva de alguma coisa? O que houve?"

A mão de Koshun congelou, e ele olhou para Jusetsu.

"Que tipo de pessoa dá um presente para outra só porque está com vontade?", retrucou ele de maneira um tanto rude, pegando Jusetsu de surpresa.

“Mas… você disse que eu podia simplesmente jogar fora.”

“Sim, mas eu não disse que você podia dar para outra pessoa! Se você não tem a menor vontade de ficar com isso, simplesmente jogue fora.”

"Você realmente deveria se chatear com isso?", respondeu Jusetsu. "Duvido que você tenha pensado muito nesse presente."

Dessa vez, Koshun ficou sem palavras. Até Jusetsu conseguia perceber se um presente era realmente significativo ou não. O pente não era o tipo de coisa que você daria de presente para alguém querido.

“Bem… não posso negar isso.” Koshun parecia menos desdenhoso agora. Talvez Jusetsu tivesse acertado em cheio. “Mas também não era um presente que eu não gostasse. Achei que combinaria com você.”

“Você ofereceu à pessoa errada. Dê a outra consorte.”

Koshun largou a faca e se levantou com a madeira entalhada ainda na mão. "Muito bem", disse ele, "não lhe darei mais nenhum acessório. Mas..." Ele colocou a mão livre no bolso do peito e tirou uma bolsa de brocado. "Isso significa que você também não quer isto?"

Koshun ergueu a sacola diante dos olhos de Jusetsu. Provavelmente são damascos secos ou tâmaras, pensou ela.

“É sipaotang”, disse ele.

"O quê?!" Jusetsu se pegou dizendo, um pouco alto demais. Sipaotang era um doce feito de um feixe de tiras finas de bala. O interior de cada uma era oco, então tinha uma textura crocante e leve que derretia instantaneamente na língua. Era muito doce — frutas e outros tipos de confeitaria nem chegavam perto.

"Você não quer?", repetiu Koshun.

Jusetsu engoliu em seco e hesitou, mas finalmente conseguiu articular algumas palavras. "...Eu aceito."

Ela perdeu essa batalha.

Koshun colocou a sacola na mão de Jusetsu. Era frustrante para ela ter sido tão tentada pela comida, mas estava tão hipnotizada pelo conteúdo da sacola que não conseguiu resistir.

“Se você quiser dar alguma coisa para a Jiujiu, que tal dar um pouco de comida? Se até você gosta, duvido que ela fique brava.”

"Posso dar isso a ela, então?", perguntou Jusetsu.

Koshun piscou algumas vezes, talvez surpreso com a pergunta dela. Então sua expressão suavizou. "Se você quiser", disse ele.

Isso poderia animar Jiujiu, pensou Jusetsu. Agora, ela sentia como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros.

“Jusetsu,” disse Koshun.

Assim que ele a chamou pelo nome, ela ergueu o olhar. Ele a encarava de cima.

“O que aconteceu com aquele peixe âmbar? Você o jogou fora? Você não deu para ninguém, deu?”

“Não, está…” disse Jusetsu, olhando para o armário da cozinha. “Está guardado.”

"Certo." Koshun soltou um pequeno suspiro, parecendo aliviado. "Se há uma coisa que você não deve dar pra ninguém, certifique-se de que seja isso."

Sua voz soava um tanto sofrida, o que fez Jusetsu franzir a testa. "Não me diga que foi você quem fez?"

“Não. Foi feito por… Teiran.” Koshun olhou para o horizonte.

Jusetsu ficou atônita. Então, levantou-se. "Não posso ficar com uma coisa dessas. Vou devolvê-lo", disse ela.

Este era um objeto que o falecido amigo de Koshun havia feito. Devia ser muito especial para ele. Não era certo que Jusetsu o possuísse.

“É a prova da minha promessa para você. Não precisa devolvê-lo. Contanto que o guarde em segurança, isso já me basta.”

“Mas… você não poderia ter me confiado outra coisa? Por que me daria algo assim?”

Koshun ficou em silêncio por um instante, depois olhou nos olhos de Jusetsu. "Não sei", disse baixinho, e se virou. De costas para Jusetsu, ergueu a madeira entalhada. "Terminarei isso antes de nos vermos novamente." Então, atravessou as cortinas e saiu.

Assim que a porta se fechou atrás dele, Jusetsu sentou-se na cama e abriu a bolsa que Koshun lhe deu. O conteúdo tinha um cheiro doce.

Jusetsu nem se deu ao trabalho de tirar os doces da embalagem, mas simplesmente ficou sentada ali, olhando para eles.

 

Assim que a reunião do conselho imperial terminou, Koshun não foi para o pátio interno, onde ficava o Palácio Gyoko. Em vez disso, dirigiu-se para a parte sul da propriedade imperial. Afastado de uma fileira de importantes escritórios governamentais — incluindo os da secretaria imperial e do departamento do palácio — havia um santuário discretamente escondido atrás de um muro de barro coberto. Partes dele estavam se desprendendo em alguns pontos, e a placa emoldurada pendurada acima do portão — cuja tinta vermelha estava descascando — estava ligeiramente inclinada para um lado. Ao chegar em frente ao santuário, Koshun desceu de sua liteira. Independentemente de ser o imperador ou qualquer outra pessoa, era costume desmontar do cavalo ou descer da liteira ali.

[Kessel: Liteira é um meio de transporte antigo, frequentemente usado pela nobreza ou realeza. Trata-se de uma carruagem sem rodas, normalmente carregada por escravos ou servos. Ela era bem comum, não só na China, como na Europa.]

Koshun olhou para a placa emoldurada. Lá estava escrito "Santuário Seiu".

Este santuário era dedicado a Uren Niangniang e também era o local onde o Ministro do Inverno, também conhecido como ministro do culto, exercia suas funções. Quando Koshun passou pelo portão, encontrou paralelepípedos conduzindo ao santuário, mas todos estavam rachados e lascados. A torre de cobre que sustentava a lateral estava obscurecida pela ferrugem azul, e os três grandes queimadores de incenso em frente ao santuário estavam escuros e imóveis. Originalmente, o incenso era aceso e usado para perfumar as roupas até que as brasas se reduzissem a fumaça.

O santuário estava visivelmente deteriorado, com a tinta descascando em alguns pontos. Muitas das lanternas de papel penduradas nas beiradas do telhado estavam quebradas e apresentavam remendos. As serpentinas também haviam sido consertadas em algum momento, mas ainda estavam bastante danificadas. Por dentro, o santuário parecia vazio e desolado, fazendo com que a imagem de Uren Niangniang na parede à sua frente se destacasse como um espectro horrendo sob a fraca luz do sol. O altar havia sido limpo, mas era impossível esconder o verniz antigo e descascado.

Os funcionários do Ministério do Inverno estavam em peso, aguardando a visita do imperador — embora fossem apenas onze. Vestiam túnicas cinza-escuras como um céu nublado, mas um ancião à frente usava uma túnica ainda mais escura, cinza-preta — o próprio Ministro do Inverno. Túnicas cinzas eram o símbolo dos criados de Uren Niangniang. O ancião tentou se curvar diante de Koshun, mas, talvez por causa da idade, acabou cambaleando e caindo de joelhos. Koshun pediu-lhe que levantasse a cabeça, e dois jovens de túnicas cinza-escuras, que estavam atrás dele, o ampararam enquanto ele se esforçava para se levantar. Eram os subordinados do Ministro do Inverno.

“Eu sou o Ministro do Inverno, Setsu Gyoei”, disse o velho. Ele se apresentou com uma voz mais firme do que se esperaria de sua aparência.

“Ouvi dizer que o senhor esteve acamado devido a uma doença por algum tempo”, disse o imperador. “O senhor está bem agora?”

“Agradeço muito a sua preocupação, Majestade. Como pode ver, sou um homem idoso, então devo evitar ficar tão doente. No entanto, parece que estou muito melhor nestes últimos dias.”

Koshun entrou no santuário e sentou-se num banquinho ao lado da janela de treliça. Eisei ficou à sua espera.

“Soube que enviou um mensageiro para mim. Peço desculpas por todo o transtorno causado. Além disso, é uma verdadeira honra tê-lo aqui, Vossa Majestade. Como certamente já notou, este santuário já viu dias melhores. Lamento dizer isso, mas simplesmente não temos orçamento para repará-lo… Peço desculpas pela aparência desagradável.”

O tom de Gyoei era educado, mas também havia um toque de humor. Questionando-se se ele o estava subestimando por causa da idade, Koshun examinou a expressão no rosto do velho.

“De qualquer forma, o que você queria de mim?” Gyoei continuou.

Koshun apertou os olhos contra a luz do sol que entrava pela janela de treliça e contemplou o mural de Uren Niangniang. "Gostaria de lhe perguntar sobre a Consorte Corvo", disse ele.

“Meu Deus. Em que sentido…?” Gyoei piscou surpreso, os olhos obscurecidos por suas longas sobrancelhas brancas. Koshun notou que aqueles olhos eram inesperadamente penetrantes.

“A Consorte Corvo foi confinada ao palácio interno para que um imperador da dinastia anterior pudesse monopolizar seu poder”, começou o imperador. “Pelo menos, foi isso que consta no Registro do Comunicador Divino. Não há menção a isso na Enciclopédia Duo da História, embora essa seja a versão oficial dos fatos. Creio que foi o Ministro do Inverno da dinastia anterior quem redigiu o Registro do Comunicador Divino, então imaginei que a pessoa que ocupava esse cargo pudesse saber mais sobre ela.”

Gyoei acariciou a barba pensativamente. "Tenho certeza de que tudo está conforme estipulado por lei. Trabalho para Uren Niangniang, não para a Consorte Corvo."

Koshun lançou um olhar para Gyoei. Que velho difícil, pensou consigo mesmo.

“A lei apenas nos diz como devemos tratá-la. Eu quero saber sobre a própria Consorte Corvo. Sempre achei a situação um tanto misteriosa. Meu avô — o penúltimo imperador — desprezava encantamentos, tanto que expulsou todos os xamãs da capital imperial. Então, por que ele permitiria que a Consorte Corvo, alguém que possuía o mesmo tipo de poderes místicos, permanecesse?”

Aquela vaga sensação de que algo não fazia sentido vinha crescendo dentro dele há algum tempo. O relatório que Onkei lhe entregou e as palavras de Hyogetsu só pioraram as coisas.

“Por que você se contenta em se isolar no palácio interno? Se quisesse, poderia ter tudo.”

Gyoei passou a mão pela barba com um semblante solene. “…O Imperador das Chamas só detestava xamãs porque o imperador da dinastia anterior os nomeou para cargos tão importantes. O Imperador das Chamas desprezava todos os tipos de maldições. Mas, então, um fantasma apareceu.” 

“O quê?”

“Os fantasmas do imperador da dinastia anterior e da família imperial começaram a aparecer em seus aposentos. O Imperador da Chama ficou tão perturbado com isso que acabou recorrendo à Consorte Corvo em busca de ajuda e pediu que ela fizesse algo a respeito.”

“…Tem certeza de que não era apenas um boato?” Koshun havia presumido que essa história era uma bobagem insignificante.

“É a verdade”, assegurou Gyoei. “A Consorte Corvo exorcizou os fantasmas deles. Depois disso, o Imperador das Chamas finalmente conseguiu dormir à noite e não pôde mais tratá-la com aspereza. Foi isso que aconteceu.”

Koshun cruzou os braços. "Entendo. Sabe de mais alguma coisa?"

“Deixe-me pensar…” respondeu Gyoei, acariciando a barba. “Sou apenas o Ministro do Inverno deste velho santuário desolado, então estou longe de ser uma fonte de conhecimento.”

“Tudo bem. Vou pedir ao oficial-chefe do departamento de finanças que lhe envie o reembolso das despesas com esses reparos.”

Gyoei ergueu as sobrancelhas. Com seus olhos grandes e amendoados, ele parecia ser um jovem muito bonito.

“Vossa Majestade, eu não estava ocultando nenhum conhecimento numa tentativa de barganhar com Vossa Majestade dessa forma. Sinto-me ofendido por Vossa Majestade sequer pensar tal coisa. Se este santuário perder sua popularidade e a fé das pessoas em Uren Niangniang se afastar, então essa é apenas a direção para a qual o mundo está caminhando. E que assim seja.”

Koshun foi informado de que os santuários de Uren Niangniang estavam sendo abandonados, e não apenas na capital imperial — o mesmo acontecia em todos os cantos do país. O Ministério do Inverno não tinha muito o que fazer há muito tempo, e a situação no campo provavelmente não seria diferente.

“Dizem que a Consorte Corvo já foi sacerdotisa do santuário de Uren Niangniang”, disse Koshun.

“Sim, ela já foi.”

“Com a sacerdotisa confinada no palácio interno, não resta nada para os sacerdotes fazerem.”

O bigode de Gyoei se contraiu. Parecia que ele estava rindo. "Isso não me incomoda, Vossa Majestade."

Koshun aproximou-se do rosto de Gyoei e, em voz baixa o suficiente para que ninguém mais ouvisse, sussurrou: "...Mesmo que a Consorte Corvo pudesse ter tudo, se assim o desejasse?"

A fachada de "velho rabugento" de Gyoei desmoronou. Seus olhos se arregalaram. Ele ficou sem palavras. "Onde você ouviu isso?"

“Ainda existem algumas coisas que acho peculiares. O Palácio Yamei, onde vive a Consorte Corvo, fica bem em frente ao meu Palácio Gyoko. Por quê?”

Os caracteres usados ​​para escrever “Yamei” sugeriam que se tratava de um palácio que brilharia intensamente, mesmo durante a noite — enquanto o nome “Gyoko” significava iluminação requintada. O Palácio Yamei estava situado bem no coração do palácio interno, quase como se fosse seu ponto focal.

“Quem é a Consorte Corvo?”

 

"Seu velho astuto..." Koshun praguejou baixinho enquanto se balançava para frente e para trás dentro de sua liteira.

“Você está dizendo coisas estranhas. Tenho certeza de que a Consorte Corvo é exatamente quem ela afirma ser: a Consorte Corvo.”

Gyoei logo voltou a agir como antes, sendo evasivo com o imperador e dizendo coisas sem fundamento.

“Não tenho qualquer ligação com o palácio interno, então, infelizmente, não sei nada sobre ela. Por que você não faz essas perguntas à própria Consorte Corvo? Ah, sim, também ouvi dizer que ela tem a capacidade de expulsar espíritos malignos que interferem no seu sono. Por acaso, você tem tido problemas nesse sentido? Por que não pede a ajuda dela? Devo dizer que você não parece estar muito bem.”

Apesar de insistir que não sabia muito sobre a Consorte Corvo, ele parecia saber algumas coisas curiosas. Koshun esfregou a testa. Era verdade que ele vinha tendo dificuldades para dormir ultimamente. Será que ele realmente parecia tão doente? Eisei certamente começaria a se preocupar com ele agora.

Koshun suspirou e abriu as cortinas ligeiramente.

“Sei—mudança de planos”, disse ele. “Esqueça o Palácio Gyoko. Vamos para o palácio interno.”

“Entendido”, disse Eisei.

 

Jusetsu caminhava de um lado para o outro na margem do lago. Era ali que a Princesa Cotovia havia se afogado. Enquanto caminhava, observando as flores que cresciam na beira da água, ouviu o canto de uma cotovia. Era definitivamente aquela cotovia. Olhou em volta, tentando encontrá-la, mas não conseguiu.

Devido à sombra das árvores, a superfície do lago estava sombria, mesmo no final da tarde. Jusetsu, que de alguma forma se viu contemplando a luz do sol que brilhava fracamente nas ondulações da água, de repente ergueu os olhos. Ela podia ouvir passos se aproximando, acompanhados pelo farfalhar de um robe. Esperou, e uma dama da corte — que aparentava ter uns trinta anos — surgiu debaixo de um loureiro. Pelo modo como estava vestida, parecia ser uma dama de companhia de uma das concubinas. Ela segurava um caule de rosa-da-praia junto ao peito. Era uma mulher pálida e de aparência delicada. Seus traços faciais não eram excepcionalmente belos, mas sua figura esbelta e pescoço longo tinham um certo charme. Seus olhos semicerrados, com pálpebras simples, também tinham um tom sombrio que atraía a atenção das pessoas.

A dama de companhia viu Jusetsu parada ao lado do lago e parou abruptamente, parecendo genuinamente surpresa, deixando cair o que segurava. Parecia que ela não esperava encontrar ninguém ali. Apressadamente, pegou a flor que havia caído no chão.

“Você está oferecendo essa flor em homenagem a alguém?”, perguntou Jusetsu.

"O quê?", perguntou a dama de companhia.

“Essa flor. Suponho que seja uma oferenda para a Princesa Cotovia, não é?”

A dama de companhia olhou para Jusetsu, perplexa. "Hum, bem, acho que sim..." admitiu ela, ambiguamente.

A dama de companhia parecia desconfiada da desconhecida que falava com ela.

“Eu sou a Consorte Corvo”, disse Jusetsu. “Quem é você?”

“A Consorte Corvo?” a mulher repetiu, parecendo cada vez mais confusa. Talvez ela não acreditasse no que Jusetsu estava dizendo, pois estava completamente perdida.

“Você deve ser Lady Yo, a dama de companhia da Consorte Grua.”

“Você… sabe quem eu sou?” A dama de companhia ajoelhou-se, visivelmente impressionada. “Você está certa — meu sobrenome é Yo. Meu nome é Jujo. Obrigada pela sua atenção.”

Parecia que Jujo havia presumido que Jusetsu usou algum tipo de poder místico para adivinhar seu nome, mas, na verdade, as damas da corte apenas lhe disseram que aquela era a única dama de companhia que teria vindo oferecer flores à Princesa Cotovia. Jusetsu estava apenas juntando as peças e concluindo que se tratava de Lady Yo, cujo sobrenome era escrito com o caractere para "ovelha". 

"Estava esperando por você."

“Por mim…?”

Jusetsu descobriu que alguém estava de luto pela morte da Princesa Cotovia no dia anterior, quando encontrou uma flor que alguém havia deixado como oferenda perto do lago. Ela tinha certeza de que teria a chance de vê-la, contanto que esperasse naquele lugar.

“Quero saber sobre a princesa”, disse Jusetsu. “Ouvi dizer que você levava as refeições para ela de vez em quando. Vocês eram próximas?”

“Nós…” Jujo ia responder, mas foi acometido por uma pequena crise de tosse. “Peço desculpas”, disse ela.

"Você está doente?", perguntou Jusetsu.

“Não, eu não diria tanto…” disse Jujo. “Eu só costumo ficar com tosse quando as estações mudam.”

Parecia que isso era algo para o qual ela tinha predisposição. Talvez ela fosse fisicamente frágil por ter um corpo tão magro.

“Cuidado. Você vai congelar na beira da água”, disse Jusetsu, conduzindo Jujo para longe da margem do lago e para a sombra das árvores.

“Muito obrigada”, respondeu ela. “A princesa também era uma pessoa frágil. Talvez por termos isso em comum, ela foi muito atenciosa comigo — embora eu tenha certeza de que a vida dela era muito mais difícil do que a minha…”

“Ela era frágil?”

“Não acho que fosse grave o suficiente para ela precisar consultar o médico da corte, mas ocasionalmente ela acabava acamada com febre. Ela sempre dizia que conseguia passar dormindo, então nunca tomava nenhum remédio… Quando pedia algum ao departamento de medicamentos, eles se recusavam a fornecer. Eles não podem prescrever remédios sem permissão, e era necessária a permissão de Sua Majestade, ou seja, da imperatriz viúva, para solicitar ao médico da corte, então não havia muito que a Consorte Sha pudesse fazer…”

Se alguém lhe demonstrasse muita gentileza, isso teria o efeito contrário e acabaria atraindo a atenção da imperatriz viúva. Era disso que a Consorte Sha tinha medo.

[Kessel: Lembrando que a Consorte Sha ao qual elas se referem, é a mãe do atual Imperador, a antiga Consorte Grua]

“Ela não tinha dama de companhia, então era capaz de fazer tudo sozinha. A primeira vez que tive o privilégio de vê-la, ela tinha doze anos, a mesma idade que eu. Eu não conseguia imaginar como devia ter sido ser abandonada em um palácio tão solitário em uma idade tão jovem… mas ela nunca culpou ninguém e simplesmente seguiu em frente com a vida, em silêncio. Ela era uma menina muito corajosa. Eu tinha acabado de chegar ao palácio interno, então sentia muita falta da minha família. Às vezes era difícil, mas ela me confortava muito.”

Um sorriso nostálgico surgiu no rosto de Jujo. "Ela era uma menina inocente e ingênua, e cuidar da cozinha e do jardim não a incomodava. Ela cultivava legumes e flores em sua horta, e às vezes eu também a ajudava."

“Ela cuidava deles sozinha?”

“Sim. As flores ainda estão lá até hoje — as madressilvas e as rosas-da-praia. Eu cortei essa do jardim dela. Afinal, era uma flor de que a Princesa Cotovia gostava muito.”

"Entendo", Jusetsu assentiu com a cabeça.

Então, como se de repente tivesse voltado a si, Jujo disse: "Hum... Mas por que você se interessou pela Princesa Cotovia agora, querida Consorte Corvo?"

“Havia uma cotovia que realmente se afeiçoou à princesa, não é?” 

“Ah, sim”, respondeu Jujo imediatamente, assentindo com a cabeça.

Ela provavelmente não precisou pensar muito para se lembrar disso, já que "cotovia" estava no nome da princesa.

“Você sabia que essa cotovia ainda está dentro do palácio interno?”

“Ah…” Jujo respondeu tristemente, soltando um suspiro. “Já ouvi falar disso, mas apenas em boatos. Eram verdadeiros?”

“Sim. E quero fazer algo a respeito”, disse Jusetsu.

Jujo acenou com a cabeça repetidamente em sinal de gratidão. "Muito obrigada. Se esse é o seu objetivo, contarei tudo o que sei, sem omitir nada. Se tiver alguma dúvida, fique à vontade para perguntar."

Então, Jusetsu decidiu interrogá-la sem reservas. "Aquela cotovia era mesmo tão apegada à Princesa Cotovia?"

“A Princesa Cotovia costumava alimentá-la com painço todos os dias e a mimava muito. Acho que ela recebia visitas frequentes de pardais e cotovias, mas aquele pássaro em particular gostava muito dela. Sempre que a via, piava de alegria.”

“Ouvi dizer que o pássaro morreu — quando a Princesa Cotovia faleceu.” 

“Sim…” respondeu Jujo, parecendo hesitante.

Não parecia que ela estivesse insegura quanto à resposta. Provavelmente era apenas uma lembrança dolorosa de se reviver. Jujo abaixou a cabeça.

“A cotovia gritava de dor, mas eu hesitei. Não me apressei o suficiente para ajudar a Princesa Cotovia. Se eu tivesse chegado lá para salvá-la imediatamente, as coisas poderiam ter sido diferentes…”

“A água gelada deste lago teria sido fatal para alguém tão frágil quanto ela. Mesmo que você a tivesse tirado da água mais cedo, tenho certeza de que teria sido difícil salvá-la.”

Jujo deu um leve sorriso. "Muito obrigado por dizer isso. Mas..."

“Você disse que hesitou... Por quê?”

“Bem…” Jujo baixou o olhar e seu rosto se fechou. “No dia anterior, a Princesa Cotovia e eu tínhamos discutido.”

"O que aconteceu?"

“Eu exagerei e fui indelicada com ela. Senti tanta pena da situação em que ela se encontrava que sugeri que Sua Majestade — o imperador anterior, quero dizer — talvez pudesse ter feito algo a respeito. A princesa balançou a cabeça, insistiu que não queria isso e me garantiu que estava bem com a situação. Por mais corajosa que eu a considerasse, foi extremamente frustrante… Quer dizer, ela não tinha feito nada de errado — por que tinha que ser tratada daquela maneira? Achei que ela deveria estar mais chateada e expressar seus sentimentos.” E, no entanto, a princesa apenas balançou a cabeça.

“A princesa era teimosa demais para me ouvir, e no fim, acabei ficando com raiva… e foi assim que a deixei.”

Um sorriso amargo e autodepreciativo surgiu no rosto de Jujo.

"Tenho certeza de que até eu a considerava menos importante por ser filha de uma simples dama da corte. Foi por isso que consegui falar com ela daquele jeito. Só me dei conta disso quando voltei para o meu quarto. Foi um pensamento assustador. A princesa era uma garota inteligente, então tenho certeza de que ela também percebeu que eu a via dessa forma... Fiquei tão envergonhada que não consegui encará-la novamente."

Por isso, quando a cotovia gritava como se implorasse por ajuda, Jujo hesitou. Então, a princesa morreu.

“Isso me atormenta há todo esse tempo. Deixei-a morrer sozinha. Gostaria de ao menos ter podido segurar sua mão. Queria ter dito a ela que eu estava ao seu lado. Quando penso em quão impotente e triste ela deve ter se sentido ao morrer, eu…”

[Kessel: Para mim, um dos momentos mais tristes de toda a obra. Imagina que horrível deve ser morrer assim, afogada, sem ninguém…]

Com a voz embargada, Jujo cobriu a boca com a manga. Ela tossiu, então Jusetsu deu um tapinha nas costas dela.

“Desculpe. Já vai passar.”

“Você deveria pedir ao departamento de medicina uma receita de fritilária. Vai aliviar sua tosse.”

“Eu irei… Obrigada.”

Jusetsu voltou-se para o lago e o contemplou por um breve instante. "Você tem alguma ideia de por que a princesa caiu no lago?"

Jujo balançou a cabeça. "Não. Ela às vezes vinha passear por aqui, então presumo que ela simplesmente escorregou."

“Entendo…”

Jujo olhou para Jusetsu com apreensão. A Consorte Corvo estava perdida em pensamentos. "Você pode salvar aquela cotovia?"

"Eu posso", respondeu Jusetsu de forma concisa e enfática.

Jujo soltou um suspiro de admiração. "Eu realmente agradeço. Não parece que a cotovia seja a própria princesa. Por favor, ajude-a."

Com isso, Jujo foi para casa e Jusetsu caminhou novamente ao redor da margem do lago.

A princesa…

Uma brisa suave provocava ondulações na superfície da água. O som era como o de areia sendo arrastada. Ela se agachou na beira da água, inalando o cheiro úmido. As flores estavam desabrochando. Quanto mais perto do chão ela chegava, mais forte se tornava o cheiro de vegetação e terra em decomposição.

“Aí está você”, alguém gritou para ela.

Jusetsu se levantou. Koshun surgiu de dentro da floresta, com Eisei atrás dele.

“Fomos ao Palácio Yamei, mas descobrimos que você foi para o Palácio Soro. Estávamos te procurando. Jiujiu ficou chateada por você ter saído sozinha de novo.”

“Não gosto de levar minha dama de companhia comigo para passear.”

“Se você não precisar de uma, devo transferi-la para o Palácio Hien?”

“Não…” disse Jusetsu, virando-se para Koshun e depois de volta para o lago. “Você não precisa fazer isso.”

Então Koshun se aproximou dela. "O que você está fazendo aqui?"

“Tenho feito algumas investigações sobre a Princesa Cotovia.”

“Ah. Ouvi dizer que ela tinha uma cotovia como grande amiga.” Koshun olhou ao redor do lago. “Pensando bem, este era o lago onde ela morreu.” Ela era meia-irmã de Koshun.

"Você chegou a conhecê-la?", perguntou Jusetsu.

“Não”, respondeu Koshun sucintamente.

“Mas ela era sua irmã, não era?”

“Seria diferente se fôssemos parentes de sangue, mas meio-irmãos só se veem rapidamente em ocasiões cerimoniais. Não éramos próximos.”

Além disso, como a mãe da Princesa Cotovia era uma dama da corte, ela havia sido relegada ao esquecimento.

"Para que serve esta flor?" Koshun avistou o caule de uma rosa-da-praia próxima e o pegou.

“É uma oferenda de uma dama de companhia que conhecia a princesa.”

"Certo", disse Koshun, olhando fixamente para aquilo. "Eu não sabia que havia alguém que deixava oferendas de flores para ela."

“Chama-se rosa-da-praia. Você a conhece?”

“Não particularmente. Sempre esqueço o nome das flores, não importa quantas vezes eu os ouça. Acho que nem temos nenhuma dessas no jardim perto do Palácio Gyoko.”

“Aparentemente, ela mesma as cultivava no jardim. Ela também tinha madressilvas e crisântemos.”

"Ah, é?" disse Koshun com um olhar interrogativo.

“Todas elas têm usos medicinais.”

Koshun soltou outro "oh" em resposta. Desta vez, ele pareceu surpreso.

“A madressilva é um remédio para febre. A rosa-da-praia ajuda a dar energia. O crisântemo tem efeitos antitérmicos e sedativos. Ouvi dizer que a princesa era fraca e tinha febre com frequência, mas não lhe davam nenhum remédio. Provavelmente, ela preparava suas próprias misturas usando essas plantas.”

Jusetsu não sabia onde a princesa havia adquirido esse conhecimento, mas supôs que ela pudesse tê-lo aprendido com sua mãe.

“E…” Jusetsu olhou em direção ao lago, “o motivo pelo qual ela caiu no lago está bem ali.”

"O quê?" perguntou Koshun.

Jusetsu apontou para a planta aos seus pés. Flores em forma de sino, verde-esbranquiçadas com um padrão quadriculado preto no interior, estavam começando a desabrochar.

“São fritilárias.”

“Fritilárias?”

“Seus bulbos funcionam como um xarope para tosse.”

"Estas são medicinais?", perguntou Koshun, ajoelhando-se e contemplando as flores.

Então, ele olhou em volta e disse: "Faz sentido. Ela deve ter escorregado quando estava tentando tirar um deles."

A área onde as fritilárias foram plantadas era inclinada, e a terra estava encharcada.

"Ela não deveria ter se esforçado tanto para pegá-las", sussurrou Koshun.

Jusetsu permaneceu em silêncio. A princesa estava tentando colher a fritilária para Yo Jujo. Ela estava disposta a se esforçar para arrancá-la porque Jujo desenvolvia uma tosse sempre que as estações mudavam. Ela provavelmente queria usá-las para se reconciliar após a discussão.

Seria quase impossível contar isso para Jujo, e foi por isso que Jusetsu evitou lhe contar antes. Era melhor ela não saber.

Jusetsu ergueu os olhos. Ela podia ouvir uma cotovia cantando lá de dentro da floresta. "O que você fez com ele?"

“Com o quê?”

“A escultura em madeira do pássaro. Você me disse que estaria pronta antes da sua próxima visita.”

“A andorinha-das-barrancas? Eu terminei.”

Ele talvez tivesse dificuldade em se lembrar dos nomes das flores, mas certamente não tinha o mesmo problema quando se tratava de animais. Koshun tirou a escultura de madeira do bolso do peito e entregou-a a Jusetsu.

“Você fez um excelente trabalho…”

Jusetsu ficou tomada pela emoção ao contemplar o ornamento de andorinha em sua mão. Quase parecia estar vivo. Suas asas delicadamente esculpidas pareciam macias, e seus olhos pequenos eram adoráveis ​​e cheios de vida. Ao acariciar seu peito rechonchudo, ela sentiu como se pudesse quase ouvir seu pequeno coração bater.

“Você acha que consegue usar isso? Não que eu saiba para que você queria isso, afinal.”

“Eu posso.”

Jusetsu assobiou, imitando o grito agudo de um pássaro. Poucos instantes depois, um pássaro surgiu voando por entre os loureiros e pousou num galho ao lado dela.

Era a cotovia.

Ela tirou uma peônia do penteado, e esta se dissolveu em uma névoa vermelho-clara na palma da sua mão. Soprou sobre ela, e a névoa se transformou em um pequeno vórtice, levantando as mangas do robe de Jusetsu. Com um gesto de mão, o vórtice se dissipou, tornando-se uma brisa suave. Ela ergueu a escultura de madeira da andorinha que segurava na outra mão. A madeira pareceu começar a tremer — e, num instante, transformou-se em uma andorinha de verdade, num movimento fluido.

“Siga o seu caminho”, disse Jusetsu ao pássaro.

Com isso, o pássaro alçou voo de sua mão como se respondesse ao seu apelo. Bateu as asas e ascendeu aos céus.

“Agora, você também deve seguir esse pássaro em sua jornada. A princesa estará esperando por você no final da sua viagem.”

A cotovia alçou voo do galho e também começou a voar. A brisa vermelho-clara envolvia seu corpo. Como se estivesse sendo sustentada pelo vento, a cotovia seguiu a andorinha.

A andorinha e a cotovia aproveitaram o vento enquanto planavam pelo ar, rumo ao mar — e depois além. Assim que a brisa vermelha e os pássaros desapareceram completamente de vista, Jusetsu soltou um suspiro suave.

“Pronto. Aquela andorinha vai guiar ela até o paraíso.”

“Foi por isso que você queria um pássaro que pudesse voar bem, não foi?”

"Sim", disse Jusetsu com um aceno de cabeça. "Tenho certeza de que esse pássaro conseguirá voar sobre o mar sem problemas."

“Ainda bem que fui eu quem fez isso. Acho que o pássaro que você estava esculpindo nem conseguiria sair do chão.”

“Cala a boca.”

Jusetsu lançou um olhar fulminante para Koshun antes de se afastar dele. No entanto, quando estava a apenas dois ou três passos de distância, ela parou.

“Eu… agradeço por você ter feito um pássaro tão bom para mim. Ele se mostrou de grande ajuda.” Então, em voz mais baixa, ela disse: “Obrigada.”

Ela tentou ir embora novamente sem se virar, mas Koshun segurou sua mão e a puxou de volta.

Ao olhar para trás, ela percebeu que o rosto de Koshun estava próximo ao seu. Ele a encarava, sem dizer uma palavra. Ela pôde notar um leve traço de confusão em seu rosto quase inexpressivo.

"O quê? Foi tão chocante assim eu te agradecer?"

“Não, não é isso…” Koshun baixou o olhar e soltou a mão dela de repente. “Foi uma surpresa, com certeza, mas foi mais… revigorante do que qualquer outra coisa.”

“Revirogante?”

“Isso me deixou feliz. Parecia que um gato que nunca se importou muito comigo finalmente estava me dando um pouquinho de carinho. Ah, ei! Espera aí!”

“Não vou te dar nenhum afeto, nem um pouquinho. Nem uma lasca.”

“Tudo bem. Para mim, está ótimo.”

“O que você quer dizer com isso?! Eu estou…”

“Me dê a sua mão.”

“Quê?”

“Sua mão, por favor.”

“Eu me recuso.”

Koshun agarrou a mão de Jusetsu à força e colocou nela um pequeno objeto. Era um charmoso passarinho esculpido em madeira.

“O que é isto?”, perguntou Jusetsu.

“Um chapim-de-salgueiro”, respondeu Koshun, entrando em detalhes mais uma vez. “Você deveria pintá-lo. Parece com você.”

“Porque… é pequeno?”

“Pequeno e fofo.”

Jusetsu não respondeu nada.

Ele deve estar falando do pássaro, pensou Jusetsu. Se ele pensa isso de mim, deve ter perdido o juízo. Quem diria que uma garota rabugenta e irritante como eu é fofa?

Jusetsu contemplou a escultura do chapim-de-salgueiro. Podia ser menor que a andorinha-das-barrancas que ele havia feito, mas o desenho era igualmente primoroso. Suas penas finas pareciam macias, e seu pescoço estava levemente inclinado para um lado de uma forma adorável. Era, sem dúvida, uma peça bem-feita.

“…O homem que lhe ensinou essa habilidade devia ser um artesão incrível.”

“Ele sonhava em trabalhar com pedras preciosas um dia, porque se fizesse esse tipo de trabalho manual, não precisaria falar.”

"O que você quer dizer?", perguntou Jusetsu, inclinando a cabeça em curiosidade.

Koshun olhou com saudade para o chapim-de-salgueiro.

“Teiran era mudo. Ele nasceu em uma boa família, mas quando perceberam que ele não seria capaz de se tornar um oficial, foi colocado para adoção. Depois, foi até mesmo transformado em eunuco por ganância e enviado para o palácio interno. Ele trabalhava no escritório dos jardins, mas sua lealdade foi notada e ele acabou sendo designado para a administração do príncipe herdeiro, tornando-se meu cuidador.”

Com seu impressionante trabalho manual e habilidade para criar qualquer coisa que se possa imaginar, Teiran conquistou o coração do jovem Koshun em pouco tempo.

“Ele era um homem alegre e gentil. Talvez não conseguisse falar, mas, por algum motivo, eu sempre conseguia saber o que ele estava pensando. Eu sabia quando ele estava feliz, quando estava triste ou quando algo o incomodava. Devia ser porque estávamos juntos há muito tempo.”

O olhar de Koshun suavizou-se enquanto ele falava sobre seu velho amigo, mas então a expressão desapareceu repentinamente de seu rosto.

“Teiran morreu quando eu estava no Palácio Gyoso, depois de ter meu direito de sucessão anulado. Naquele dia, ele tinha ido buscar raízes de malva no departamento de jardinagem do palácio. Era a época perfeita para colhê-las, e malva em conserva era a minha favorita. Eu disse a ele que não precisava, mas Teiran saiu com um sorriso no rosto mesmo assim. Essa foi a última vez que o vi vivo. No caminho de volta do departamento de jardinagem, alguns eunucos da imperatriz viúva o pegaram. Ela sabia muito bem o quanto eu dependia dele e estava procurando uma oportunidade para tirá-lo de mim. Eles o acusaram de roubar as malvas e o torturaram até a morte. Quando cheguei lá, já era tarde demais. Os ferimentos causados ​​pelas chicotadas, espancamentos e chutes incontáveis ​​deixaram seu corpo em farrapos.”

Em contraste com a monstruosidade do que ele descrevia, a maneira como Koshun falava era assustadoramente calma. Sua voz soava despreocupada, tão serena quanto a superfície da água sem vento — ou como a quietude da noite. Era o tipo de silêncio que fazia você acreditar que monstros insondáveis ​​aguardavam, prendendo a respiração, nas profundezas da escuridão.

Jusetsu sentiu como se tivesse vislumbrado o ódio silencioso que residia nas profundezas dele. Seu ódio estava faminto, sedento por uma válvula de escape. Mesmo após a decapitação da imperatriz viúva, essa fome não havia se dissipado. Quanto mais tempo permanecesse silenciosa, mais aquela fera devoraria os recônditos mais profundos de seu coração.

“Você e Jiujiu voltaram a ser amigas?”, perguntou Koshun.

A mudança de assunto foi tão repentina que, por um breve momento, Jusetsu não conseguiu entender o que lhe haviam perguntado. Assim que compreendeu, porém, ela respondeu.

“Nós… nunca fomos realmente amigas, para começo de conversa.”

Jusetsu ainda não havia dado o doce sipaotang para Jiujiu, e elas também não tinham tido nenhuma conversa propriamente dita. Mesmo assim, as duas eram apenas uma consorte e sua dama de companhia — não amigas — então não era como se “fazer as pazes” ou “não fazer as pazes” fossem sequer opções na mesa.

“Não precisa ser tão desafiador. É cansativo. Tenho certeza de que você quer se dar bem com ela, não é?”

“Nunca pensei nada desse tipo.”

"Tem certeza disso? Você pareceu levar muito a sério quando ela ficou brava com você."

Jusetsu tentou responder, mas, sem conseguir encontrar as palavras, desistiu.

“Cabe a você decidir se quer ou não manter uma dama de companhia”, continuou Koshun. “Foi seu desejo tê-la desde o início, então por que está negando isso?” Jusetsu mordeu o lábio.

"Você rejeita as pessoas por causa dessa... parte de você?", ele perguntou.

Koshun estava falando sobre ser uma sobrevivente da família Ran. Jusetsu se afastou dele.

“É da minha natureza”, disse ela.

“Você só vai conseguir sustentar suas mentiras por um tempo limitado. Você não é fria o suficiente para conseguir ir contra a lógica.” 

“Que mentiras?!”

“Será porque você é a Consorte Corvo?”

Jusetsu olhou para Koshun. "O que você acabou de dizer?!"

“Estou perguntando se você precisa manter as pessoas à distância por ser a Consorte Corvo — e não por causa da sua origem.”

Jusetsu examinou o rosto de Koshun cuidadosamente. O quanto esse homem sabia?

Ela desviou o olhar em silêncio.

“Jusetsu,” chamou ele.

“Não sou obrigada a responder às suas perguntas, e você também não pode me obrigar a responder a nada.”

Assim era a Consorte Corvo. Jusetsu virou as costas para Koshun e começou a se afastar.

“Jusetsu!” ele chamou novamente.

Sem parar, Jusetsu simplesmente perguntou: "O que é?"

"Acho mesmo que você deveria fazer as pazes com ela."

Jusetsu parou abruptamente. Pensou em dizer-lhe que não era da sua conta, mas em vez disso permaneceu em silêncio e se virou.

“Quando ela se for, será tarde demais”, disse Koshun.

Suas palavras foram suaves, mas ressoaram profundamente em Jusetsu. Ela o encarou por alguns instantes e depois saiu.

Ao retornar ao Palácio Yamei, encontrou Jiujiu limpando uma janela com treliças. Como não tinha nada para fazer, costumava limpar o palácio durante o dia — assim como fazia agora. Ao ver que Jusetsu havia retornado, parou o que estava fazendo e fez uma leve reverência.

“Nós ajudamos aquela cotovia”, informou Jusetsu a ela.

O rosto de Jiujiu se iluminou. "Você a ajudou? Muito obrigada!"

Jusetsu ficou aliviada ao ver Jiujiu tão feliz. Graças a essa notícia positiva, parecia que ela escaparia de mais uma bronca por sair sozinha. Jusetsu sentou-se em sua cadeira.

"Acho mesmo que você deveria fazer as pazes com ela."

A voz de Koshun ecoava em sua mente. Elas nunca tiveram um relacionamento de verdade. Jiujiu apenas cumpria seus deveres como dama de companhia, enquanto Jusetsu simplesmente não conseguia ter um relacionamento. E ainda assim…

“…Sinto muito pelo que aconteceu ontem.”

Jiujiu, que estava se preparando para ferver água, ficou paralisada de surpresa.

Jusetsu prosseguiu: "Ouvi dizer que as consortes deviam dar presentes às suas damas de companhia, então pensei que deveria lhe dar algo. Achei que isso... a deixaria mais feliz."

Isso mesmo. Ela queria fazer Jiujiu feliz. Queria que Jiujiu ficasse contente por ela ter se tornado sua dama de companhia. Era tudo muito bobo.

Os olhos de Jiujiu se arregalaram e ela caiu de joelhos, tomada por uma imensa gratidão.

“Não… Você não deveria se desculpar, niangniang. Eu não teria te culpado se você tivesse me batido pelo que eu disse. Foi grosseria, vindo de uma dama de companhia. Nenhuma serva responde mal à pessoa para quem trabalha! Kogyo também me repreendeu por isso. Você é tão gentil que me fez esquecer o meu lugar.”

Ela explicou que ficou se perguntando quando seria punida ou expulsa por causa de seu comportamento.

“Eu não sou esse tipo de pessoa. Esta é a primeira vez que tenho uma dama de companhia, então simplesmente não sabia o que fazer.”

“Isso significa que… você vai ficar comigo?”

“Você quer ficar?”

"Bem, eu só estou preocupada em te deixar sozinha", disse Jiujiu.

“Eu fazia tudo sozinha antes de você chegar.”

“Isso não vem ao caso. Você devia estar se sentindo sozinha.”

Jusetsu piscou. "...Nem um pouco."

“Como isso é possível? Não sei absolutamente nada sobre as suas circunstâncias, mas você está sempre tensa. Você deve estar muito cansada todos os dias.”

Essas palavras atingiram Jusetsu em cheio, atravessando seu coração. Aquela garota havia conseguido enxergar Jusetsu como ela realmente era — e fez isso apenas por estar perto dela. Ela não sabia nada sobre a situação de Jusetsu.

Ela tem razão. Estou cansada, pensou Jusetsu. Mas, por mais exausta que eu esteja, não há ninguém a quem eu possa recorrer.

Seus olhos se encheram de lágrimas e ela soltou um pequeno suspiro. "...O chá está fervendo."

“Ah não!”

Jiujiu adicionou um pouco de sal à panela e mexeu com uma colher. O vapor subiu e o aroma do chá preencheu o ar. Jusetsu fechou os olhos e respirou fundo, escondendo os dedos trêmulos nas mangas.

“Aqui está, niangniang.”

Jiujiu ofereceu a Jusetsu uma xícara que ela serviu. Jusetsu ficou olhando para ela por alguns segundos, absorvendo o vapor quente e a fragrância.

Então, do nada, Jiujiu disse: "Eu sei que você pinta o cabelo." Jusetsu abriu os olhos.

“Mas Kogyo e eu jamais contaríamos a ninguém — tenho certeza de que você tem seus motivos — então você poderá relaxar mais estando dentro do seu próprio palácio”, disse Jiujiu com um sorriso.

Jusetsu olhou para a xícara. "...Obrigada", disse ela, estendendo a mão para pegá-la.

E com isso, Jusetsu acabou com mais uma coisa da qual não conseguiu se desfazer ou abandonar.

Ela não sabia para onde se virar. Aqueles pesos enormes — por mais quentes e suaves que fossem — pareciam ter se enrolado em suas pernas, impedindo-a de seguir em frente. Camadas e mais camadas de correntes envolviam seu corpo.

Ao descer pela garganta, o chá parecia extremamente quente.

***

Koshun acordou no meio da noite, mas não era como se tivesse dormido profundamente. Ele apenas cochilava, sonhando intermitentemente enquanto oscilava entre a consciência e a inconsciência. Koshun sentou-se na cama e olhou para as cortinas. Assim que seus olhos se ajustaram ao ambiente, o fino tecido de seda parecia vagamente branco na escuridão. No entanto…

Ao perceber as sombras de várias figuras do outro lado, ele se levantou da cama, abriu as cortinas e entrou. Avistou duas pessoas paradas em frente à entrada do quarto. Nenhuma delas se moveu um centímetro sequer — permaneceram ali, imóveis. Apareciam no mesmo lugar todas as noites. Incrivelmente, suas formas eram facilmente distinguíveis, mesmo no escuro. Isso provava que não eram humanos comuns. Contudo, mesmo que não fossem, Koshun ainda assim saberia que eram fantasmas.

“Mãe… Teiran,” disse ele.

As duas pessoas paradas em frente às portas eram, de fato, a mãe de Koshun e Teiran. Koshun aproximou-se lentamente deles, mas nenhum dos dois se moveu. Permaneceram imóveis, como se estivessem guardando a entrada. Nenhum dos dois estava em boas condições. A mãe de Koshun estava pálida e cuspia uma enorme quantidade de sangue pela boca, e seu manto estava manchado de vermelho-vivo. Afinal, ela havia sido envenenada. Teiran, que estava ao lado dela, vestia um manto rasgado, sujo de terra e sangue. Seu rosto, que sempre ostentava aquele sorriso sereno, estava inchado pelos socos que levou e coberto de manchas vermelho-escuras e azuladas. Sangue escorria de suas mãos e pés, pingando no chão.

Os dois ficaram ali parados, encarando Koshun, mas ele não achou aquilo assustador.

A cena era sempre a mesma, e pela manhã, Koshun já estava dormindo profundamente em sua cama, sem nenhum vestígio de que seus dois entes queridos sequer tivessem estado ali.

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