Corvo do Palácio Interno Japonesa

Tradução: Kessel

Revisão: Kessel


Volume 1

Capítulo 2: Apito de Flor

Logo após o segundo toque do sino—ou seja, entre 21h e 23h—

Jusetsu desceu pelo corredor nos fundos do quarto e abriu as cortinas de sarja de seda. Do outro lado, havia um pequeno cômodo com um altar encostado na parede.

Jusetsu soprou sobre o castiçal. Uma chama branca e esfumaçada surgiu e tremeluziu. Não havia incenso queimando, mas um aroma forte — como de almíscar — pairava no ar.

Jusetsu curvou a cabeça diante do altar. Na parede atrás dele, havia um desenho de uma grande criatura mágica negra, semelhante a um pássaro. Tinha quatro asas lustrosas, o corpo de um javali e as patas de um lagarto-monitor. Contudo, seu rosto, e somente seu rosto, era o de uma bela mulher de pele pálida e lábios vermelhos, com um penteado adornado com gemas de ouro e prata.

Era uma representação de Uren Niangniang, a deusa que veio do além-mar. Ela era a Deusa da noite e da vida de todos os seres vivos.

Na foto, ela estava rodeada por todos os tipos de pássaros, grandes e pequenos — andorinhas, quebra-nozes-pintados, toutinegras-do-mato, patos-mandarim e até alguns pássaros minúsculos cujos nomes eram desconhecidos. Todos eles eram da família de Uren Niangniang.

Jusetsu tirou uma peônia do cabelo e a colocou na tigela de vidro que estava sobre o altar. Ao longe, um sino pareceu tocar e, num piscar de olhos, a flor desapareceu. Jusetsu se virou e saiu do pequeno cômodo e, ao mesmo tempo, a chama branca do castiçal se apagou sem deixar rastro.

Ao retornar à sala principal, ela encontrou Shinshin batendo as asas, fazendo um alvoroço. Jusetsu olhou para as portas. Ela tinha visitas.

"Querida Consorte Corvo, você está aí?" perguntou uma mulher com voz fraca.

"O que você exige de mim?", respondeu Jusetsu secamente.

"Há algo que eu gostaria de lhe pedir, se você fosse tão gentil de aceitar", disse a mulher.

Essas eram frases que Jusetsu já havia ouvido inúmeras vezes, pois todas as mulheres que a visitavam seguiam o mesmo roteiro. Elas usavam essa frase clichê desde a época da antiga Consorte Corvo, e a essa altura, ela já estava cansada de ouvi-la.

“Entre”, disse ela.

Com um gesto de mão, as portas se abriram e o grupo reunido na entrada apareceu. Havia uma dama de companhia de pé ao lado — que devia ser quem havia falado — e outra mulher, cobrindo a boca com um grande leque, atrás dela. Ela devia ser a dama de maior prestígio ali, pensou Jusetsu. Ao lado dela, havia também uma dama da corte que parecia ser outra dama de companhia, além de dois eunucos segurando lampiões, fazendo a guarda. A mulher com o leque entrou lentamente no palácio. Ela tinha uma pinta perto dos olhos serenos. Não parecia ter sido desenhada com maquiagem, mas sim uma característica natural. Seu penteado alto era adornado com um grampo de cabelo cloisonné, mas ela não estava vestida de forma particularmente glamourosa. Apesar disso, era possível perceber, pelo seu porte, que ela não era uma concubina de baixa posição. O curioso é que ela carregava um apito de flor — um belo apito redondo usado para consolar os mortos — pendurado no cinto. Esses apitos eram peças belíssimas e elaboradas, geralmente adornadas com um pingente ou um fio colorido como decoração. Este tinha o formato de uma flor de magnólia e era cravejado de joias.

Ela sentou-se na cadeira que um de seus eunucos havia puxado para ela. Jusetsu, por sua vez, preferiu não se sentar e a encarou fixamente. Não eram apenas seus olhos que estavam calmos — seu rosto e toda a sua aparência exalavam uma aura de frieza e compostura. Ela vestia um shanqun verde-menta com uma saia turquesa por baixo, e seu xale era feito de uma seda tão fina quanto a névoa. Essa vestimenta refrescante parecia combinar muito bem com ela.

“Por que você não se senta?”, disse a mulher com uma voz tão calma quanto sua aparência, gesticulando em direção à cadeira à sua frente.

Jusetsu sentou-se, mantendo os olhos fixos em sua visitante. A mulher fez um sinal, e suas damas de companhia recuaram em direção à porta, aparentemente compreendendo. Então, ela se voltou para Jusetsu mais uma vez.

“Meu nome é Kajo, filha da família Un. Sou a consorte que reside no Palácio Eno.”

Jusetsu ficou surpresa com a facilidade com que ela revelou seu nome e posição. A maioria das pessoas que a visitavam não queria revelar suas identidades. A consorte que vivia no Palácio Eno era a segunda em importância, logo abaixo da imperatriz. Como essa consorte recebeu o Palácio Eno, ela também recebeu o título de Consorte Pato-Mandarim — já que os caracteres usados ​​para escrever o nome de seu palácio também significavam "pato mandarim".

Koshun ainda não tinha uma imperatriz, então essa mulher era essencialmente a consorte de mais alta patente em todo o palácio. O que diabos ela poderia querer de mim? Jusetsu pensou, desconfiada.

"E qual é o seu pedido?", perguntou Jusetsu de forma concisa.

Kajo fitou atentamente o rosto de Jusetsu. Ela estava agindo de maneira bastante franca e desinibida, considerando que era uma consorte.

“Ouvi dizer que Sua Majestade costuma visitar sua residência”, disse ela, com um tom de divertimento. “Por que será?”

Jusetsu franziu a testa sem perceber que estava fazendo isso. "Não sei o que ele quer de mim. Ele só aparece por um tempinho e depois vai embora."

Mesmo com o caso dos brincos de jade resolvido, Koshun continuava vindo. Isso não passava de um incômodo para Jusetsu.

Kajo assentiu com a cabeça, como se tivesse entendido algo. "Então você atua como conselheira dele?"

“Não sou nada disso.”

“Ele não tem nenhum pedido para você?”

Jusetsu olhou para Kajo. Ela era uma mulher esbelta, ainda mais alta que Jusetsu — então, naturalmente, ela teve que olhar para cima para vê-la. "Ele fez isso, em uma ocasião. Não vou te contar sobre o que foi."

Kajo franziu a testa, pensativa. "Ele não... pediu uma maldição da morte, por acaso?"

Que coisa estranha de se dizer, pensou Jusetsu, inclinando a cabeça para o lado, curiosa. "Ele é o imperador. Se quisesse alguém morto, poderia facilmente decapitá-lo sem precisar de uma maldição."

Os olhos de Kajo se estreitaram enquanto ela sorria. Então, ela assentiu com satisfação. "Você tem razão. Mas há muitos no palácio interno que não entendem isso."

"O que você quer dizer?"

“Sua Majestade condenou a imperatriz viúva. Algumas pessoas dizem que ele lhe pediu para realizar uma maldição mortal.”

Jusetsu inclinou a cabeça para o outro lado. "Ela foi executada. Como isso poderia ser uma maldição? É ilógico."

Kajo sorriu ainda mais. "Exatamente. Ela foi simplesmente punida por seus próprios crimes."

“Nesse caso, por que as pessoas diriam que foi uma maldição que matou?”

“Algumas pessoas são irredutíveis. E também existe um pouco de inveja por aí — inveja de você.”

“Inveja de mim?”

“Eles estão com ciúmes porque Sua Majestade está lhe fazendo visitas frequentes, enquanto mal visita suas concubinas de verdade.”

Jusetsu franziu a testa, sentindo-se profundamente desconfortável com o comentário. "Ele não vem me ver nesse sentido."

“Claro que não. Quer dizer, você é a Consorte Corvo”, disse Kajo com um aceno de cabeça sereno. “Tenho certeza de que ele tem suas intenções.”

Jusetsu não sabia se ele fazia isso ou não. Às vezes, ele lhe trazia doces de presente, e outras vezes, simplesmente vinha e cochilava na cama de Jusetsu sem pedir permissão. Ele simplesmente fazia o que queria.

"Você só veio aqui para descobrir o que estava acontecendo?", perguntou Jusetsu.

Kajo olhou para baixo com um leve sorriso. "Vim confirmar por mim mesma. Afinal, o que acontece dentro do palácio é da minha conta."

A consorte de mais alta patente atuava como proprietária do palácio interno. Em outras palavras, Kajo era responsável por todos os acontecimentos no palácio interno.

“Foi um prazer conhecê-la. Você aliviou as minhas preocupações.” Dito isso, Kajo se levantou.

"Você não tinha nenhum pedido para mim?" Ou era apenas uma fachada? Jusetsu se perguntou em silêncio.

Kajo olhou para ela de relance e começou a murmurar algo. Sem emitir som, ela disse: "Até amanhã".

Devia ser algo que ela não queria que suas damas de companhia soubessem. Seja o que for, espero que não seja um grande incômodo, pensou Jusetsu.

Kajo se afastou de Jusetsu, e tanto seu apito de flor quanto as borlas que pendiam abaixo dele balançavam enquanto ela se movia. Por algum motivo, essa imagem ficou gravada na mente de Jusetsu.

Os eunucos reacenderam suas velas, e o grupo partiu da mesma maneira silenciosa com que havia chegado.

“Hua Niangniang é deslumbrante, não é?” Jiujiu disse com um suspiro — ela estava agachada no canto da sala, de prontidão, mas agora voltou para perto de Jusetsu. Jusetsu ainda a mantinha como sua dama de companhia.

“Hua Niangniang?”

“É assim que a maioria das pessoas no palácio interno a chama.”

“Será que é porque o nome dela é escrito usando o caractere para ‘flor’?” O caractere para “flor” também pode ser lido como “hua”.

“Essa é uma das razões — mas você deve ter visto aquele apito de flor pendurado no cinto dela, não viu? Dizem que dá azar usar um, mas ela sempre usa mesmo assim…”

Originalmente, apitos em forma de flor eram pendurados nos beirais dos edifícios no final do inverno para homenagear aqueles que faleceram naquele ano. Dizia-se que os mortos retornariam com o vento que anunciava a chegada da primavera e, ao fazê-lo, o apito soaria. Esses apitos, feitos de pedras preciosas, cerâmica ou argila, tinham o formato de flores e orifícios para a passagem de ar. Sempre que o vento soprava, emitiam um som fraco e agudo, semelhante ao canto de um pássaro.

“Por que ela teria um pendurado no cinto?”

“Ninguém sabe. Aparentemente, ela se recusa a dizer.”

“Minha nossa.”

Ela era, sem dúvida, uma consorte singular. Era misterioso que escolhesse usar um apito de flor consigo, mas também não parecia possuir a paixão obsessiva que as outras mulheres que visitavam Jusetsu compartilhavam. A única sensação que emanava era a de uma brisa refrescante. Ela era…

“Ela nem sequer ficou zangada com as frequentes visitas de Sua Majestade. Eu sabia que não ficaria”, disse Jiujiu, admirada.

“Ela provavelmente só sabia que ele estava ali para perder tempo.”

“Ora, não é isso. Ela não estava zangada porque não tinha motivo para estar. Ela e Sua Majestade se conhecem como a palma da mão.”

“Isso já era esperado, visto que ela é considerada sua segunda consorte. Enquanto ele não tiver uma imperatriz, ela estará no topo.”

“Você não está entendendo! Os dois são amigos de infância. Acho que ela é uns três anos mais velha que ele.”

“Amigos de infância?”

“Ela é neta do Grão-Chanceler Un, sabe? A família Un faz parte do grupo das ‘Cinco Sobrenomes, Sete Clãs’, um grupo de famílias respeitáveis. O Grão-Chanceler Un tem sido um conselheiro próximo do imperador desde que era príncipe herdeiro, e foi por causa dessa ligação que eles costumavam brincar juntos quando crianças. Ela o trata com condescendência porque o conhece há muito tempo.”

O grupo a que ela se referia era uma renomada coleção de sete clãs prestigiosos, dois dos quais compartilhavam o mesmo sobrenome com outros clãs.

"É mesmo?", respondeu Jusetsu, mas ficou claro que era apenas uma tentativa tímida de fingir que se importava.

"Você realmente deveria se interessar mais pelo que acontece no palácio interno", disse Jiujiu, irritada. "Não adianta nem conversar com você sobre isso."

Jusetsu, sinceramente, não se importava nem um pouco com os relacionamentos que aconteciam em seu palácio interno. No entanto, o assobio de flor de Kajo havia despertado sua curiosidade, ainda que levemente. Jusetsu dispensou Jiujiu e foi dormir.

Kajo disse: "Até amanhã". Ela devia estar planejando voltar com um pedido.

 

Na manhã seguinte, Jusetsu acordou, levantou-se da cama e dirigiu-se à cozinha, ainda vestida com seu pijama. A senhora idosa que trabalhava como sua criada estava debruçada sobre a lareira, acendendo o fogo. Ao lado dela, So Kogyo picava salsa. Assim que percebeu a presença de Jusetsu, fez-lhe uma reverência educada. Agora que estava bem, Jusetsu a acolheu. Jusetsu lhe disse que isso se devia ao fato de sua criada idosa estar começando a se sentir insegura em assumir todo o trabalho da cozinha sozinha.

Jusetsu aproximou-se do jarro de água no canto da sala, pegou um pouco de água com uma concha e despejou-a em uma tina de prata. Quando estava prestes a levá-la embora, ouviu uma voz vinda de trás dela.

“Ei, niangniang! Eu não disse que traria água para você se quisesse?!” Jiujiu gritou.

Os cabelos soltos de Jusetsu cobriam parcialmente seu rosto, e ela olhou ao redor discretamente.

“Já que estou aqui, posso muito bem te ajudar a se arrumar de manhã. Senão, qual o sentido de eu ficar?”

Jiujiu estava ansiosa para ajudar. Afinal, ela estava ali sob o pretexto de ser dama de companhia de Jusetsu.

“Eu me virei muito bem sozinha durante todo esse tempo. Não preciso de nenhuma ajuda.” “Mas isso significa…” Jiujiu deixou os ombros caírem, desanimada.

Jusetsu hesitou. "Tudo bem então", ela cedeu. "Ajude-me a preparar o café da manhã. Tenho certeza de que você já tem experiência mais do que suficiente nessa área."

Jiujiu aceitou a ordem de bom grado e começou a trabalhar na cozinha, adaptando-se como peixe na água.

Jusetsu voltou para a sala principal e suspirou. Que transtorno.

Ela sabia que ter pessoas desnecessárias no palácio não seria uma boa ideia. Na verdade, planejava mandar Kogyo e Jiujiu de volta assim que não precisasse mais delas. Se permanecessem ali para sempre, ela não sabia quando sua verdadeira identidade poderia ser revelada. Koshun talvez tivesse ignorado, mas se viesse a público, nem mesmo ele poderia protegê-la. A lei determinava que todos os membros da família imperial da dinastia anterior deveriam ser eliminados.

Apesar disso, ela já havia se acostumado com a personalidade extrovertida de Jiujiu e seu chilrear estridente, assim como com os olhares protetores que Kogyo lhe lançava. Aquilo a consumia por dentro. Sempre que tentava imaginar como seria o lugar sem elas, seu coração congelava — era como o frio que subia debaixo de seus pés no inverno, como se a estivesse gelando até os ossos.

Por mais brutal que pudesse parecer, ela não tinha nenhum desejo de criar laços emocionais com ninguém. Isso só acabaria por causar rachaduras em sua fachada.

Algo que Reijo — a antiga Consorte Corvo — lhe disse certa vez voltou à sua mente. "Não contrate uma dama de companhia", insistiu ela, "e você só precisa de uma serva. Quanto mais perto das pessoas você baixar a guarda, mais perigo correrá."

Ela lavou o rosto com a água da banheira e o secou com uma toalha de mão. Em seguida, passou os braços pelas mangas do seu robe preto e prendeu o cabelo. Olhou-se no espelho octogonal, que tinha uma incrustação de madrepérola. Seu rosto estava pálido e seus cílios prateados tremulavam tristemente. Ela jamais poderia deixar Jiujiu e Kogyo a verem assim. Depois de se maquiar, checou seu reflexo mais uma vez, só para ter certeza de que nenhum fio de cabelo havia desbotado, e se afastou do espelho.

Ao abrir as cortinas, ela encontrou o café da manhã pronto. Mingau de arroz com salsa e pinhões estava disposto sobre a mesa, junto com pãezinhos cozidos no vapor (mantou), tudo à sua espera.

Enquanto ela comia, Jiujiu trouxe leite de soja morno.

“Gostaria que eu lhe trouxesse uma segunda porção?”

"Não", disse Jusetsu com um pãozinho cozido no vapor na boca, balançando a cabeça.

Koshun sabia seu segredo, e Jiujiu e Kogyo agora moravam com ela. Aos poucos, parecia que rachaduras começavam a aparecer em sua máscara — mas nem mesmo Jusetsu sabia até onde essas rachaduras iriam. Ela apenas sentia como se uma escuridão a aguardasse e uma sombra pairasse sobre seu coração. Será que Uren Niangniang seria capaz de lhe dar as respostas que ela procurava?

A principal causa de seus problemas, no entanto, era Koshun. Todos os problemas começaram com a primeira visita dele.

E o próprio autor do crime chegou depois do pôr do sol.

“Ouvi dizer que Kajo te fez uma visita.”

Essa foi a primeira coisa que saiu da boca dele. Eisei estava atrás dele, como sempre. O imperador sentou-se calmamente em uma cadeira como se estivesse em seu próprio quarto. Jusetsu o encarou com uma expressão de desagrado.

“Ela só veio porque você continua vindo aqui. Você deveria se apressar e visitar suas outras consortes.”

“Eu os visito sempre que preciso — o suficiente para que elas não comecem a me importunar sobre isso.”

“Então não precisa se incomodar em vir aqui. Vá embora.”

"Kajo tinha algum pedido para você?" perguntou Koshun, ignorando o que Jusetsu havia dito.

“…Não. Ela disse que me faria um pedido na próxima visita.”

"Certo", disse Koshun simplesmente. Sua atitude sugeria que ele talvez soubesse qual seria o pedido de Kajo.

“Você sabe o que o pedido dela implica?”, perguntou Jusetsu.

Após uma breve pausa, Koshun respondeu: "Acho que sim."

Era impossível inferir o que ele estava pensando a partir de sua expressão impassível. Esse homem me faz sentir como se o inverno estivesse no ar, pensou Jusetsu. Quieto e imóvel, seu semblante transmitia uma sensação de aconchego nos cantos ensolarados, mas havia algo à espreita nas sombras.

“Aquela consorte—” Jusetsu começou a dizer, mas então desviou o olhar para as portas.

Shinshin estava batendo as asas.

“…Olá.” Ela ouviu a voz de uma mulher. Essa voz pertencia a… Kajo. “Sou eu. Poderia me deixar entrar?”

Jusetsu moveu a mão, como que para convidá-la a entrar. As portas se abriram. Kajo estava lá, acompanhada por duas damas de companhia. Kajo lançou-lhes um olhar significativo e entrou sozinha. Suas damas de companhia permaneceram do lado de fora, e as portas se fecharam diante delas. Assim que Kajo se aproximou de Jusetsu e Koshun, fez uma reverência ao imperador.

Koshun se levantou. "Se você tem algum pedido para a Consorte Corvo, provavelmente devo me retirar."

“Não precisa disso. Fique à vontade para ficar”, disse Kajo com um sorriso.

Como só havia dois lugares, Jiujiu e Kogyo trouxeram às pressas uma cadeira de outro cômodo. Assim que fizeram isso, Kajo sentou-se nela.

“Pode falar”, disse ela. “Fico feliz que Vossa Majestade esteja ouvindo.”

“…Se você insiste.”

Koshun sentou-se novamente. De certa forma, parecia que Kajo estava tomando a iniciativa. A dinâmica entre eles lembrava mais a de um irmão mais novo e uma irmã mais velha do que a de um homem e uma mulher ou um casal — e provavelmente não era apenas por causa da diferença de idade. Essa dupla era…

“Gostaria que você desse uma olhada nisso.”

Kajo pegou o apito em forma de flor que estava pendurado em sua cintura e o colocou sobre a mesa. Era feito de pedras preciosas e tinha uma tonalidade verde-mar pálida. Tinha o formato de uma magnólia. Havia vários furos em suas pétalas para que pudesse emitir sons, mas…

“Este apito sempre foi silencioso. Foi feito para uma pessoa em particular, mas nunca emitiu som. Por que você acha que isso acontece?”

Jusetsu pegou o apito em forma de flor. Era bem feito e certamente não apresentava defeitos.

“Será que é porque essa pessoa não vai voltar para mim?”

O som do apito era um sinal de que a pessoa por quem você estava de luto havia retornado. Se não houvesse som, significava que a pessoa não havia voltado.

“…Quem era essa pessoa, exatamente?”, perguntou Jusetsu.

“Ele era meu amante”, respondeu Kajo, mantendo a mesma expressão.

Jusetsu lançou um olhar para Koshun. Ele parecia tão impassível como sempre. Ele devia saber algo sobre esse homem.

“Há três anos, ele… O Genyu, ele faleceu. Naquela primavera, pendurei este apito de flor pela primeira vez e esperei que sua alma retornasse, mas…” O apito de flor não emitiu nenhum som.

“Por que será que isso aconteceu? Por que ele não voltou para mim?”

O tom de voz de Kajo era calmo, mas Jusetsu sentiu como se fosse a primeira vez que via um vestígio de emoção nela. Seus sentimentos estavam ali, por seu falecido amado. Jusetsu olhou para Koshun novamente e, em seguida, encarou Kajo.

“Você poderia tocar o apito de flor para mim? Talvez você possa usá-lo para chamá-lo.”

“É esse o seu pedido?”

Kajo assentiu. “Sim.”

Jusetsu colocou o apito de flor de volta sobre a mesa. "Muito bem. Vamos tentar invocar sua alma."

Os olhos de Kajo se arregalaram de surpresa. "Você poderia fazer isso por mim?"

“Só consigo invocar uma alma do paraíso uma única vez. Certifique-se de que você entende isso.”

Jusetsu trouxe um tinteiro e um pincel de um armário. Enquanto esmagava a tinta, perguntou: "'Genyu' era o nome que lhe deram depois de atingir a maioridade?"

Era costume que os meninos recebessem um novo nome ao atingirem a idade adulta.

“Sim.”

“Qual era o seu verdadeiro nome?”

“Ele se chamava Sho.”

Ela tirou um pequeno pedaço de papel em forma de pétala de lótus do bolso do peito e escreveu o nome verdadeiro dele, "O Sho", nele. Colocou-o sobre a mesa e, em seguida, pôs o apito em forma de flor por cima.

Jusetsu então tirou uma peônia do penteado e soprou nela. A flor se transformou em fumaça, envolvendo o apito. O apito gradualmente se fundiu com a fumaça e se dissipou na obscuridade. Kajo se levantou, mas ao ver que Jusetsu não se incomodava, sentou-se novamente. Jusetsu estendeu a mão direita para dentro da fumaça. A fumaça estava fria e grudava em seus dedos como lama macia e suave. Jusetsu tentou atrair a alma para perto dela — como se estivesse puxando algo por um fio — mas algo parecia errado. Ela franziu a testa.

Isso significa…?

Jusetsu retirou a mão e soltou um sopro de ar para dissipar a fumaça. Ela se dispersou e o apito de flor começou a tomar forma novamente. Quando a fumaça desapareceu completamente, o apito de flor havia retornado à sua forma original.

"Não consigo fazer isso", declarou ela, envergonhada.

"O quê?" respondeu Kajo. "O que você quer dizer?"

“A alma que você procura não foi encontrada no paraíso, então minha invocação de sua alma sequer obteve resposta.”

“Isso significa…?”

“Ou esse homem, Genyu, ainda está vivo, ou sua alma não pode ser invocada por algum outro motivo.”

Os olhos de Kajo pareciam estar cheios de lágrimas. Ela estava claramente perplexa. "Ele não está vivo. Eu mesma identifiquei o corpo dele, e o funeral aconteceu há muito tempo. O que você quis dizer com 'outro motivo'?"

“Não sei. Esta é a primeira vez que não consigo invocar a alma de alguém.”

Reijo havia dito a Jusetsu que nem sempre era possível, mas esta era a primeira vez que ela mesma experimentava isso.

"Em que circunstâncias ele faleceu?", perguntou Jusetsu.

Dessa vez não foi Kajo quem respondeu, mas sim Koshun.

“Há três anos, O Genyu foi designado para a província de Reki como conselheiro militar e subordinado ao governador. Ele se viu envolvido na revolta que ocorreu lá e perdeu a vida. Alguém atirou uma pedra e, por azar, ela o atingiu na cabeça.”

Como se descobriu, Koshun também conhecia Genyu e viu seu cadáver. Tudo isso aconteceu antes de ele ascender ao trono.

“Ele era um excelente funcionário. Foi por isso que foi designado para a província de Reki. Na época, uma religião chamada Verdadeiros Ensinamentos da Lua estava ganhando força. Havia rumores de que ela tinha ligações preocupantemente estreitas com o governo, então nomeamos um novo governador para investigar. A revolta foi instigada pelos seguidores da religião.”

No fim, a revolta foi reprimida e a religião desapareceu.

“Os Verdadeiros Ensinamentos da Lua… Nunca ouvi falar disso.”

Não era incomum que as pessoas afirmassem ter recebido um oráculo divino e construíssem um santuário do nada, ou venerassem um pedaço de madeira trazido pela maré como se fosse uma divindade. No pior cenário, talvez até existissem mais santuários novos como esses do que santuários dedicados a Uren Niangniang. Venerá-la parecia coisa do passado.

“Aparentemente, não se tratava de adorar a lua. Existia apenas uma pessoa conhecida como Ancião do Luar, que era reverenciada como um deus vivo. O primeiro caractere do nome pelo qual era conhecido era o caractere para ‘lua’. Havia rumores de que ele era capaz de prever o futuro e adivinhar o passado, mas me disseram que ele talvez fosse algum tipo de xamã. Era algo extremamente suspeito, mas ele foi capturado após a revolta. Recebeu uma surra de vara como punição por enganar o público e depois foi exilado.”

“Um xamã…?”

Isso significava que ele era um feiticeiro civil. Enquanto alguns eram altamente habilidosos em encantamentos, outros eram simplesmente vigaristas. Esse tal Ancião do Luar poderia ser qualquer um dos dois — eles simplesmente não sabiam.

Após um momento de reflexão, Jusetsu olhou para Koshun. "Gostaria de saber um pouco mais sobre essa pessoa chamada 'Luz da Lua'."

“O Ancião do Luar? Tudo bem. Mas talvez ele não esteja vivo”, explicou o imperador.

A punição chamada açoite parecia simples, mas na verdade envolvia até cem chicotadas com uma vara dura. Era praticamente pena capital. Mesmo que alguém não morresse durante o açoite em si, a maioria das pessoas ficava quase morta quando era libertada e falecia pouco depois.

Kajo segurou o apito de flor cuidadosamente nas mãos e o observou atentamente. "Será que este apito vai emitir som?"

Jusetsu hesitou por um instante. Finalmente, deu à outra mulher uma resposta sincera: "Não sei."

Kajo sorriu levemente e acariciou o apito de flor com os dedos. "Conto com a sua ajuda." Ela se levantou graciosamente, acenou com as mangas do robe e caminhou em direção às portas. Até mesmo o suave farfalhar de suas roupas soava refrescantemente belo.

Depois que Kajo saiu, levando consigo suas damas de companhia, Jusetsu olhou para Koshun de relance. "Por que ela está no palácio interno?"

"O que você disse?", respondeu Koshun, com as sobrancelhas franzidas. "O que você quer dizer com isso?"

“Ela ainda sente falta do seu falecido amante e nem sequer tenta esconder isso de você. E mesmo assim, você tolera. Ela não pode ser sua esposa.”

Isso também explicava por que ela não parecia ter nenhum sentimento de paixão por Koshun.

Um leve constrangimento surgiu no rosto, até então inexpressivo, do imperador. "Kajo é como uma irmã mais velha para mim."

“Então por que você a colocou no palácio interno?”

“O avô dela é meu assessor próximo, além de meu mentor. Era a melhor coisa a fazer para manter nossa relação forte. E também…” Koshun olhou por um instante para a porta por onde Kajo havia saído. “Depois que Genyu morreu, ela não tinha para onde ir. Agora que seu parceiro estava morto, ela foi obrigada a se casar com outra pessoa. Ela não achou isso certo, então eu lhe ofereci um lugar aqui.”

A implicação era que ela poderia ter optado pelo suicídio caso fosse forçada a se casar com outro homem.

“Pensei que ela pudesse viver uma vida tranquila e honrar a memória dele aqui, mas… as coisas não saíram como eu esperava.” Ele disse essas últimas palavras com um leve suspiro. “Nunca imaginei que o apito de flor não funcionaria. Não está com defeito, está?”

Koshun parecia preocupada, então — embora Jusetsu achasse o comportamento dele suspeito — ela balançou a cabeça negativamente.

“Entendo. Que bom, então. Fui eu quem fez ele, sabia?”

"Você fez?" perguntou Jusetsu, e a surpresa com a declaração de Koshun a fez soltar uma reação inadequada. Ela tossiu para tentar distraí-lo. "Você não quis dizer que alguém tinha feito?"

“Eu faço coisas assim como passatempo. Alguém me ensinou a fazer isso há muito tempo.”

Dizia-se que todos possuíam algum tipo de habilidade especial. Ao que parecia, Koshun era habilidoso em trabalhos manuais.

“Talvez eu devesse fazer algo para você também”, disse ele.

A expressão no rosto dele era tão vazia que Jusetsu não conseguia dizer se ele estava brincando ou não. "Eu não quero nada", respondeu ela sem hesitar.

Eisei lançou-lhe olhares fulminantes enquanto permanecia atrás de Koshun.

“Se você não precisa de nada de mim, pode ir embora também. E nunca mais volte.”

"Eu voltarei", respondeu o imperador.

Parecia que ele não estava prestando atenção em uma palavra do que ela estava dizendo.

“Este não é um lugar que o imperador deveria visitar. A Consorte Corvo e o imperador não combinam.”

Isso fez Koshun franzir um pouco a testa. "O que você quer dizer com...?"

Antes que ele pudesse terminar sua pergunta, Jusetsu abriu as portas com um gesto de mão e silenciosamente o incentivou a sair. Koshun obedeceu e se levantou. Ele sabia que, se a desafiasse, Jusetsu simplesmente usaria suas habilidades para expulsá-lo à força.

Depois que Koshun e Eisei saíram, Jusetsu passou um tempo sentada em sua cadeira, pensando.

Por que será que aquele apoio de flor não fez efeito?

 

No dia seguinte, após terminar o café da manhã, ela vestiu o ruqun de dama da corte que Koshun lhe deu há algum tempo atrás e saiu do Palácio Yamei. Se ela pretendia passear pelo palácio interno, aquela roupa era mais prática.

“Niangniang, espere por mim!” Jiujiu chamou Jusetsu enquanto seguia Jusetsu, que caminhava rapidamente à sua frente. "Então você vai mesmo? Vai mesmo ver Hua Niangniang?"

“Sim,” respondeu Jusetsu.

Enquanto caminhava pela trilha de areia branca, um magnífico palácio surgiu à sua frente. Seu telhado era adornado com azulejos decorativos representando patos-mandarim, e a mesma ave também adornava as lanternas suspensas. As colunas de um vermelho vivo, que se destacavam ainda mais sob o sol, eram um espetáculo à parte. O palácio era cercado por uma sebe de rosas vermelhas em plena floração, cujo aroma doce e puro perfumava o ar. Jusetsu pisou nas pedras de calçada em frente ao palácio e dirigiu-se à entrada.

"Você também deveria plantar algumas flores no Palácio Yamei..." disse Jiujiu, com inveja. Ela olhou para as rosas vermelhas que cresciam ao lado das pedras da calçada.

“As flores não crescem lá”, explicou Jusetsu.

“O quê? Sério? Como assim?”

Antes que Jusetsu pudesse responder, eles ouviram uma voz vinda de trás deles. "Pode ficar com uma, se quiser."

Era Kajo, acompanhada por várias damas de companhia. Era assim que se esperava da vida de uma consorte. Ela ordenou à dama de companhia ao seu lado que cortasse uma das rosas e a entregou a Jusetsu. Até os espinhos haviam sido devidamente removidos. Jusetsu colocou a flor vermelha no cabelo de Jiujiu. Era uma flor pequena, quase do tamanho de um botão de rosa, mas combinava perfeitamente com Jiujiu. A jovem sorriu timidamente. Então, Kajo pegou outro caule e, desta vez, o entregou a Jiujiu. Em seguida, colocou-o no cabelo de Jusetsu.

“Ficou lindo em você, niangniang”, disse ela.

Ela não conseguia ver a flor, mas tocou delicadamente as pétalas com o dedo. "...Obrigada." A ponta do dedo com que tocou as pétalas estava um pouco mais quente agora.

“De qualquer forma, por favor, deixe-me te mostrar o caminho”, disse Kajo, gesticulando em direção ao palácio bem à sua frente.

Jusetsu e Jiujiu juntaram-se a Kajo nas pedras da calçada, com o grupo de damas de companhia seguindo-os de perto. Jusetsu voltou-se para a passagem que ligava ao palácio vizinho. Nos últimos minutos, damas da corte a utilizavam, entrando e saindo apressadamente. Todas carregavam caixas com cuidado, usando ambas as mãos.

“São itens trazidos pelos mercadores marítimos”, disse Kajo, seguindo o olhar de Jusetsu. “Eles têm de tudo, desde tigelas de vidro e tinas de prata até cintos adornados com joias… Eles trazem todo tipo de objeto único das terras além-mar.”

Resumindo, esses eram presentes dos mercadores que serviam ao palácio interno.

"Você gostaria de dar uma olhada?" perguntou Kajo, mas Jusetsu balançou a cabeça negativamente.

Jiujiu parecia desapontada.

Quando estavam na casa de Kajo, a consorte disse às suas damas de companhia para irem separar os presentes. Em seguida, preparou um chá em uma panela de ferro sem ajuda. "É por causa do apito de flor?", perguntou ela.

Tapetes com estampas florais adornavam seus pés, e biombos com brocados esplêndidos serviam de divisórias. Até mesmo a toalha de mesa era bordada com imagens de patos-mandarim.

“Eu queria te perguntar sobre O Genyu”, disse Jusetsu.

Kajo estava mexendo a água quente com uma colher, mas sua mão congelou imediatamente. "Sobre Genyu...? O que você queria saber?"

“Qualquer informação que você tiver será suficiente. Quero saber o que você sabe sobre ele.”

Ela já havia pedido a Koshun que lhe contasse sobre o Ancião do Luar, então agora Jusetsu queria reunir informações sobre o próprio Genyu.

“Bem… Genyu ficou como água fervida depois de esfriar.” Enquanto olhava para a água quente dentro da panela, um sorriso surgiu em seu rosto.

“Ele era afetuoso e gentil... Apesar de sua paixão, jamais usou esse fervor para ferir os outros. Mas, uma vez que a água fervida esfria um pouco, ela só se mantém na temperatura ideal por um certo tempo. Seu destino foi semelhante — a ira o atingiu antes que percebêssemos.”

Kajo retirou as folhas de chá com uma colher, serviu um pouco em uma xícara e a passou para Jusetsu.

“Água fervida e resfriada faz bem”, disse Jusetsu simplesmente, soprando na bebida. Depois de deixá-la esfriar, ela tomou um gole lento do chá. Ela se viu envolvida pela fragrância e o calor gradualmente preencheu seu estômago.

“Ele não vinha de uma família ilustre”, continuou Kajo. “Ele galgou posições depois de passar no exame imperial e se tornou um oficial. Meu avô lhe deu atenção especial e o enviou para a Província de Reki. Se ele tivesse sucesso lá, conseguiria uma promoção. Genyu sabia que não conseguiria se casar comigo sem um título respeitável, então, corajosamente, decidiu fazer isso acontecer. Eu deveria tê-lo impedido. Era um preço alto demais a se pagar…”

A voz trêmula de Kajo foi se perdendo. Seu rosto se distorceu por um segundo com o vapor que subia à sua frente. Então, ela pegou sua xícara e bebeu todo o chá de um só gole.

“…Essa não é a maneira correta de apreciar um chá.” Kajo serviu-se de outra xícara. Dessa vez, soprou levemente sobre ela e levou a bebida à boca. “Talvez sua alma tenha se perdido em algum lugar na província de Reki. Por mais inteligente que fosse, às vezes podia ser muito descuidado…”

“Isso é algo que acontece com frequência”, disse Jusetsu.

Kajo estava encarando a xícara dela, mas de repente olhou para cima. "Sério? Nesse caso, você seria capaz de guiá-lo na direção certa?"

“É uma possibilidade. Poderíamos invocar sua alma e enviá-la para o paraíso.”

O olhar de Kajo sugeria que aquilo lhe dava esperança. Jusetsu sentiu-se um pouco culpada, pensando se não teria soado otimista demais. Não era que a alma de Genyu estivesse perdida — simplesmente não podia ser encontrada. Reijo disse certa vez que a Consorte Corvo não deveria ser excessivamente compassiva com aqueles que pediam ajuda — mas, diante de Kajo, ela não conseguia evitar o desejo de soar um pouco encorajadora.

Jusetsu não costumava ser assim. Ela nunca havia interagido com pessoas. Nada de bom jamais resultou de emoções descontroladas — elas nublam o julgamento. As emoções deixam você confuso, sem ideia de como prosseguir.

“Consorte Corvo. O que Sua Majestade significa para você?”

Um tanto abalada, Jusetsu levou um tempo para reagir à pergunta de Kajo. "...Com licença? O que você quer dizer?"

“Sua Majestade parece um pouco diferente ultimamente. Tudo começou quando ele te conheceu.”

Jusetsu inclinou a cabeça para o lado, confusa, enquanto Kajo continuava a explicar seus pensamentos.

“Por algum motivo, ele nunca foi de demonstrar suas emoções, mas quando se trata de você, ele demonstra.”

“Ele continua com a mesma expressão impassível de sempre quando o vejo.”

“Isso pode muito bem ser verdade, mas sempre que Sua Majestade fala comigo sobre você, ele parece mais emotivo do que o normal.”

É só porque ele baixa a guarda perto de você, pensou Jusetsu. Duvido que tenha algo a ver comigo. Ela percebeu, porém, que expressar essa opinião seria um incômodo, então decidiu não fazê-lo.

"Não consigo imaginar esse homem sendo minimamente 'emotivo'", comentou Jusetsu, dando um gole em seu chá.

Kajo sorriu cansado. "Sim... Pode ser difícil de imaginar agora, mas quando era pequeno, ele não se controlava com as emoções. Um dia estava rindo alto e no dia seguinte estava com raiva. Ele só parou de demonstrar seus sentimentos quando o incidente com Teiran aconteceu, e então..." 

"Teiran?" repetiu Jusetsu.

“Você não o conhece?”

"Não", respondeu Jusetsu, fazendo com que Kajo hesitasse por um breve momento.

“Ele era um eunuco que trabalhava para Sua Majestade desde muito jovem. Apesar de seu papel, Sua Majestade afeiçoou-se muito a ele. Infelizmente, porém… ele teve uma morte terrível. Pelas mãos da imperatriz viúva.”

Ela baixou a cabeça com um olhar melancólico no rosto. Provavelmente estava refletindo sobre aqueles dias dolorosos.

Jusetsu lembrou-se de algo que Koshun disse certa vez: "Aquela mulher matou minha mãe e meu amigo."

A mulher de quem ele falava era a imperatriz viúva. Ele disse isso na noite da execução dela.

“Ele seria o ‘amigo’ que Koshun mencionou?”

Kajo olhou para ela e piscou. "Sim. Era ele. Sua Majestade se referiu a ele como um amigo", Kajo assentiu, baixando um pouco a voz. "Certifique-se de não mencionar o nome dele na frente de Sua Majestade. Você não gostaria de reabrir feridas antigas."

Parecia que essa perda o havia magoado profundamente. Jusetsu quase se lembrou de como Koshun havia agido naquela noite, mas balançou a cabeça para afastar a imagem da mente. Era melhor não pensar muito nessas coisas. Não lhe cabia imaginar como ele poderia estar se sentindo. Ela já estava perigosamente perto de se deixar levar pelas próprias emoções.

“Ele e eu nunca tivemos uma conversa amigável”, disse Jusetsu bruscamente. Em seguida, ela se levantou.

"Você já vai para casa?", perguntou Kajo, levantando-se também.

Jusetsu correu em direção às portas, e Jiujiu, que estava esperando ao seu lado, teve que alcançá-la às pressas.

Ela desceu os degraus e se preparava para sair da área do palácio, mas de repente parou abruptamente. Olhou para o palácio ao lado. Parecia que as damas da corte ainda estavam lá, ocupadas organizando os presentes.

Jusetsu inclinou a cabeça para o lado. Talvez fosse apenas imaginação sua, mas ela tinha uma estranha sensação de que havia um fantasma por perto. Se algo estivesse ali, devia ter ficado apenas por um instante, pois logo depois, ela não conseguia mais senti-lo. Havia muitos fantasmas no palácio interno que apareciam do nada, apenas para desaparecerem segundos depois. Talvez este fosse um deles. Afinal, ela não podia se dar ao luxo de se preocupar com cada um deles.

Ela recomeçou a caminhar, seus sapatos tilintando contra o calçamento de pedra. Sem que ela percebesse, porém, um par de olhos a seguia de longe enquanto ela voltava para casa.

 

Ao longe, ela podia ouvir os eunucos de vigia noturna anunciando as horas, acompanhados pelo som de tambores. Assim que terminaram, Jusetsu abriu os olhos. Levantou-se da cama e abriu as finas cortinas de seda. Shinshin estava fazendo um alvoroço.

"Ele está aqui?", sussurrou ela para o pássaro. Em seguida, abriu as portas com um gesto de dedo.

Koshun havia chegado — com Eisei, naturalmente, seguindo-o como sua sombra.

"Isso não será nenhuma surpresa, mas descobrimos que o Ancião do Luar está morto", anunciou ele assim que se sentou.

“Você tem certeza?”

“Ele foi condenado a receber açoites e ao subsequente exílio da província, mas, aparentemente, morreu antes de completar as cem chicotadas. Estava tão enfraquecido que seu corpo não suportou.”

“Isso é compreensível, se ele fosse idoso.”

“Não exatamente. Ele podia ser chamado de ‘Ancião’, mas não era velho.”

“Então por que o chamariam assim?”

“Ninguém sabia ao certo. Seu nome verdadeiro também é um mistério. Ele apareceu do nada e, em pouco tempo, ganhou reputação por suas adivinhações e previsões. Dizem que ele também podia usar magia ilusória. Além disso…”

Koshun parou por um momento para examinar rapidamente a sala. Jiujiu já havia sido dispensada, então não havia mais ninguém por perto.

“…Ouvi outro boato sobre ele também. Aparentemente, ele era membro da família imperial da dinastia anterior.”

Jusetsu sentiu o rosto se contrair. "Certamente que não?"

“Não sei ao certo qual era a base desses rumores. Só sei que houve boatos a respeito. Pode ter sido apenas um comentário aleatório — uma artimanha para ajudá-lo a angariar seguidores, talvez.”

Com certeza. Golpistas frequentemente convenciam as pessoas de que eram filhos ilegítimos de um imperador ou sargentos ligados a alguma família prestigiosa.

“Que tipo de adivinhação, leitura da sorte e magia ilusória ele praticava?”

“Coisas bobas. Encontrar pertences perdidos, acusar pessoas de assassinatos que ninguém sabia e expor casos secretos. Um dos seus pontos fortes era prever o tempo. Quanto à magia ilusória, certa vez ele fez um tigre fantasma atacar alguém que estava zombando dele, e em outra ocasião, transformou um graveto em uma serpente. Quem sabe o quanto disso é verdade?”

“Um fantasma? Isso deve ter sido magia de metamorfose…”

Era nisso que os xamãs se especializavam, mas Jusetsu não conseguia compreender exatamente o quão poderoso era o Ancião do Luar. Encontrar objetos perdidos e prever o tempo eram coisas que até mesmo vigaristas conseguiam fazer. Se aquela magia ilusória fosse real, no entanto, ele devia ser mesmo um xamã.

Koshun observou Jusetsu se perder em pensamentos e continuou falando. "Há outro boato também. Dizem que não existiu apenas um Ancião do Luar. Às vezes, ele parecia ser outra pessoa — como se estivesse possuído por uma divindade."

“Então não era um gêmeo?”

“Um funcionário do governo suspeitou que isso pudesse ser verdade e realizou uma investigação minuciosa, mas se fosse esse o caso, o outro teria conseguido permanecer em liberdade. No entanto, não parecia ser esse o caso.”

“Ah…” Quanto mais Jusetsu ouvia, menos entendia.

Quem era, de fato, o Ancião do Luar?

“É só isso. Se eu descobrir mais alguma coisa, aviso você.”

Dito isso, Koshun levantou-se prontamente. Isso era incomum — ele sempre ficava perambulando pelo palácio dela, mesmo quando Jusetsu tentou expulsá-lo à força.

“Vou ver a Kajo hoje à noite”, disse ele.

“Eu não perguntei”, respondeu Jusetsu.

Koshun enfiou a mão no bolso do peito e tirou uma sacola de tecido brocado com cordão, atirando-a em direção a Jusetsu. Enquanto a sacola voava em sua direção, ela não teve escolha a não ser estender a mão e apanhá-la. A sacola pousou em sua mão.

“Não atire coisas em mim.”

“São damascos secos”, disse o imperador. “Fique com eles.”

Koshun frequentemente deixava coisas assim com Jusetsu quando ele a visitava. Ela não gostava desse comportamento — era como se ele estivesse alimentando um macaco de estimação —, mas a comida era gostosa.

“…Kajo disse que você tem se comportado de forma estranha ultimamente”, disse Jusetsu enquanto olhava dentro da bolsa.

“Estranha? Em que sentido?”

“Ela disse que você se tornou mais ‘emocional’”.

Jusetsu não mencionou que isso supostamente aconteceu sempre que falava dela. Com uma expressão vazia no rosto, Koshun inclinou a cabeça para o lado, curioso.

“Ela deve estar enganada”, disse ele, encerrando o assunto com uma frase simples.

Com isso dito, ele saiu do palácio.

Como um homem assim poderia ser "emotivo"? Jusetsu pensou consigo mesma. Ela colocou um damasco na boca e passou um breve momento observando-o se afastar na distância.

 

O aroma de rosas vermelhas era intenso no ar calmo da noite. Koshun caminhava entre as flores, envolto em escuridão, e se aproximava do Palácio Eno. Kajo esperava em frente à escadaria com suas damas de companhia. Eisei, segurando uma lanterna, deu um passo para trás. Kajo se ajoelhou para se curvar diante de Koshun. Ela costumava ser um verdadeiro moleque — sempre vencendo Koshun nas brincadeiras de pega-pega — mas havia se tornado uma mulher graciosa. Por mais que isso impressionasse Koshun, ele sabia que só receberia uma resposta extremamente sarcástica se lhe dissesse isso, então decidiu ficar em silêncio.

Após dispensar suas damas de companhia, ela ofereceu chá ao seu convidado. "Vossa Majestade já visitou a Consorte Corvo?", perguntou Kajo.

“Visitei.”

Kajo lançou a Koshun um olhar estranho e silencioso. Ela tinha um sorriso no rosto, mas era evidente que se tratava de um sorriso de reprovação. Criticar as pessoas sem usar palavras era um hábito antigo dela.

“Eu só fui contar uma coisa para ela”, continuou ele. Naturalmente, seu tom dava a entender que estava dando desculpas. A cena parecia a de um irmão mais novo sendo repreendido pela irmã.

Kajo suspirou. "Você não deveria visitá-la com tanta frequência. Isso faz com que rumores desagradáveis ​​se espalhem."

“Não vou com tanta frequência”, argumentou Koshun.

“A Consorte Corvo não é como suas outras consortes. Ela não é o tipo de mulher com quem o senhor pode fazer o que quiser, Majestade. O senhor está sendo um estorvo, até mesmo para ela. Por que está se apegando de forma tão infantil?”

“Apegando?”

“Você tem que estar.”

“Eu… só quero me encontrar com ela e conversar. É só isso.”

As respostas de Jusetsu o interessaram. Ele queria saber o que ela diria sobre as coisas, que tipo de expressões faciais faria... Ele não conseguiu resistir à tentação de ir vê-la.

“Se o senhor só quer conversar, então converse com uma de suas outras consortes. Bater papo não é função da Consorte Corvo. O senhor está se aproveitando da gentileza dela, Majestade.”

“Que gentileza?”

Jusetsu era o tipo de garota que usaria a força imediatamente para se livrar de você se não gostasse do que estivesse acontecendo.

“Ela é uma pessoa atenciosa. Ela jamais seria capaz de menosprezar alguém. Por isso, teve a gentileza de atender ao meu pedido.” Koshun olhou para sua xícara de chá. Um vapor suave subia dela.

Kajo tinha razão. Mesmo quando estavam investigando o brinco de jade, Jusetsu teve pena do fantasma. Foi essa compaixão que a motivou a se esforçar para remediar a situação.

“Não cause problemas que acabem por prejudicá-la desnecessariamente. Vossa Majestade se arrependerá disso.”

“…Tudo bem”, respondeu Koshun obedientemente.

Ele nunca tinha conseguido se opor a ela.

Durante o terceiro jing — o período entre as 23h e a 1h da manhã — Koshun saiu do Palácio Eno. Estava ainda mais escuro e o perfume das flores era tão intenso quanto antes. Enquanto caminhava entre as rosas vermelhas, Koshun parou abruptamente.

"Há algo de diferente em mim?", perguntou ele a Eisei, que o seguia de perto como sua sombra.

Eisei ficou em silêncio por um momento. "Com todo o respeito, acredito que você possa ter mudado em alguns aspectos." Ele fez uma pausa e acrescentou: "Você é diferente quando a Consorte Corvo está envolvida."

“Bem, isso é uma surpresa”, disse o imperador em tom de reconhecimento — embora parecesse que ele já tivesse esquecido que a conversa era sobre ele.

Não era que ele não soubesse disso. Ele estava interessado em Jusetsu. Ele chegou até a convidá-la para ser uma de suas consortes oficiais — embora, como ela mesma insinuou, ele estivesse meio adormecido quando disse isso.

Por exemplo, às vezes ele se perguntava o que ela estaria aprontando naquele palácio escuro como breu em uma noite como esta.

Koshun olhou para o céu. As nuvens pareciam seda fina, com a lua brilhando através delas. O céu negro infinito o fez lembrar de outra coisa: as asas de um corvo.

Jusetsu agora tinha uma dama de companhia e uma dama da corte trabalhando para ela. Antes disso, ela vivia apenas com uma serva que a ajudava com o mínimo permitido. Jusetsu tentava manter-se discreta, longe dos olhos do público.

“A Consorte Corvo…”

Eisei percebeu que o imperador estava murmurando algo. "O que disse, mestre?"

“Não, nada”, disse Koshun, e então começou a passar novamente pelas rosas vermelhas.

A noite estava calma, mas o imperador mal imaginava que um incidente estava prestes a acontecer no dia seguinte.

 

Os dias eram longos nessa época do ano. Após o primeiro jing — que durou das sete às nove da noite — o céu começou a adquirir um tom índigo profundo e um mensageiro partiu do Palácio Eno. A dama de companhia que chegou estava com tanta pressa que praticamente corria. Isso era incomum, pois as damas de companhia que trabalhavam para consortes raramente se apressavam. O fato de essa tarefa ter sido dada a uma dama de companhia, em vez de uma dama da corte de baixa patente ou um eunuco, dizia a Jusetsu uma coisa: por mais urgente que fosse, eles queriam manter a mensagem em segredo.

"Seria tão gentil de vir ao Palácio Eno?", implorou a dama de companhia com uma reverência apressada.

“O que houve?”

“É que…”

A dama de companhia estava com uma crise de tosse e bebeu um pouco da água que Jiujiu havia trazido para ela. Jusetsu percebeu que seria mais rápido simplesmente ir embora do que ouvir sua explicação, então decidiu ir até a residência de Kajo. Desta vez, ela foi vestida com seu habitual robe preto. Sob o céu do início da noite, tudo parecia muito mais escuro. Com um leve esvoaçar de seu fino xale de seda — tão delicado quanto um aglomerado de estrelas — ela apressou-se em direção ao Palácio Eno.

"Você quer que eu encontre um item perdido para você?", Jusetsu repetiu para a dama de companhia ao seu lado enquanto corriam em direção ao Palácio Eno.

“Sim. É um dos itens que um comerciante nos ofereceu outro dia…”

Jusetsu se sentiu decepcionada. "O quê? Pensei que fosse algo mais sério."

A dama de companhia, no entanto, continuava tão pálida quanto antes. "Acredite em mim, é sério. Era uma oferenda, portanto pertence a Sua Majestade."

“Não a Kajo, então?”

“Foi um presente que Sua Majestade concedeu a Niangniang. Se desaparecer, a responsabilidade recairá sobre os ombros das damas da corte ou das damas de companhia que o trouxeram.”

“Responsabilidade…?”

Isso significava pena de morte? Jusetsu se perguntou. Devia ser por isso que a dama de companhia parecia tão preocupada. E, no entanto, havia mais.

“Uma de nossas damas de companhia também desapareceu.”

“Você quer dizer que ela fugiu com o objeto desaparecido?”

“Não tenho certeza… mas pelo que as outras damas de companhia estão dizendo, ela não parece ser o tipo de pessoa que cometeria um ato tão horrível. É que…” A dama de companhia balançou a cabeça, perplexa. “Elas também disseram que ela estava agindo de forma estranha ultimamente.”

"Estranha? O que eles queriam dizer com isso?", perguntou Jusetsu.

“Por vezes, parecia que toda a sua personalidade tinha mudado…”

Jusetsu teve a sensação de já ter ouvido essa história em algum lugar. "Como se... ela fosse uma pessoa completamente diferente?"

“Exatamente.”

O que está acontecendo?, pensou Jusetsu.

Ao chegarem ao Palácio Eno, o ambiente era agitado. As damas da corte estavam agitadas e confusas, talvez procurando pelo item desaparecido — ou até mesmo pela própria dama da corte em questão. Kajo saiu do palácio e cumprimentou Jusetsu.

“Qual é o objeto que desapareceu?”

“É uma panela. Uma panela de cobre com um lacre.”

“Que tipo de lacre?”

“Um de papel. O inventário o listava como um pote de piche…”

Este era um pote usado para atirar flechas em um tipo de jogo.

“Não parece que havia nada dentro, mas eu pretendia abri-lo assim que tivesse a aprovação do imperador.”

“E quanto à dama da corte que fugiu?”

“Ela era uma das costureiras do palácio. Quando percebemos que o vaso havia desaparecido e estávamos procurando por ele, descobrimos que ela também havia sumido com ele.”

Jusetsu deu uma olhada rápida no local e perguntou: "Leve-me ao quarto daquela dama da corte."

O prédio onde as damas da corte residiam ficava nos arredores do Palácio Eno, e várias delas compartilhavam cada quarto. Ao entrarem no quarto onde a dama da corte desaparecida costumava morar, Jusetsu foi até a cama e parou ao lado dela. Havia uma caixa sobre o travesseiro. Ela a abriu e encontrou alguns objetos dentro, incluindo um pente, uma tesoura e uma toalha de mão. Parecia que ela guardava seus pertences pessoais ali. Seu robe estava pendurado no biombo ao lado de onde Jusetsu estava. Todos os itens pareciam pertencer a qualquer outra dama da corte. Jusetsu olhou para a cama e estreitou os olhos ligeiramente, percebendo que sentia um leve sinal de um fantasma. Ele pairava sobre a cama como uma fumaça tênue e difusa. Isso significava que o fantasma esteve naquele lugar em um passado não muito distante.

Jusetsu refletiu sobre o assunto por um tempo, depois pegou algumas mechas de cabelo que estavam sobre o colchão. Em seguida, virou-se para as damas da corte que a aguardavam na entrada do quarto, tentando entender o que estava acontecendo.

“Qual é o nome da dama da corte que desapareceu?”

As damas da corte trocaram olhares, depois olharam para trás e abriram caminho para que alguém mais pudesse passar. Era Kajo.

“Seu nome é Yo Senjo.”

Jusetsu assentiu levemente com a cabeça e pediu tinta e um tinteiro. Em seguida, tirou uma pequena boneca de madeira do bolso e escreveu "Yo Senjo" com um pincel. Seu sobrenome, Yo, foi escrito com o caractere para "folha". Ela enrolou o cabelo na boneca e a colocou sobre o colchão. Feito isso, tirou uma peônia do cabelo e soprou nela. Suas pétalas se espalharam como cacos de vidro, brilhando enquanto caíam sobre a boneca.

A boneca começou a tremer levemente. Inchou além do seu tamanho normal e ficou deformada. Os cabelos que a envolviam foram sugados para dentro e a boneca ficou preta. Seu corpo amoleceu como doce. Gradualmente, começou a tomar a forma de um pássaro, criando asas e até mesmo um bico. Seu corpo — que momentos antes era maleável — agora estava coberto de penas, tremendo violentamente. Seus olhos escuros brilharam e ela bateu as asas para cima e para baixo. Era um corvo.

O corvo moveu as asas mais algumas vezes para se orientar e então alçou voo. Voou pelo ar e saiu rasgando o ar da sala, fazendo as damas da corte soltarem gritos fracos. Enquanto Jusetsu se esgueirava entre elas, disse a Kajo e seus servos para ficarem onde estavam antes de seguir o corvo em seu caminho.

Ela perseguiu o pássaro, saindo do Palácio Eno e correndo bem ao lado das rosas vermelhas. Não conseguiria segui-lo se ele saísse dos jardins do palácio, mas provavelmente ainda não tinha chegado tão longe. Ela pisou no cascalho e correu — através dos salgueiros brancos e passando pelo lago. O corvo estava indo em direção à parte oeste do palácio interno. Depois de um tempo, o corvo voou em círculos no ar e começou a descer. Estava em uma área densamente coberta por pinheiros antigos. Jusetsu também foi para onde o corvo havia parado.

Ao entrar na floresta de pinheiros, Jusetsu avistou o corvo e parou abruptamente. O corvo estava pousado na mão de uma garota que vestia o uniforme das costureiras do palácio. Ela deve ser a dama da corte fugitiva, deduziu Jusetsu. Na outra mão, ela segurava a panela de cobre.

“Você é Yo Senjo?”, ela perguntou.

Com a expressão impassível no rosto, a menina abriu a boca para falar. "Eu nem sei meu próprio nome", explicou ela.

A voz dela soava estranha — era como uma voz fragmentada, ou como se fossem dois sons combinados. Jusetsu sabia exatamente o que isso significava.

Tratava-se de uma vocalização dupla — quando a voz de uma pessoa soava como se tivesse se dividido. Isso acontecia quando a alma de alguém estava em estado de instabilidade, ou seja, quando estava possuída por um espírito.

Quando Reijo ainda gozava de boa saúde, teve um encontro com uma dessas pessoas. Depois de ouvi-la emitir um som como aquele, ela soube que estava possuída por um espírito maligno. Essa pessoa também não estava agindo como de costume — e era exatamente isso que as pessoas diziam sobre essa dama da corte. Havia outra pessoa que Jusetsu ouviu ser descrita dessa forma recentemente também — o Ancião do Luar.

"Quem é você?", perguntou Jusetsu, encarando a garota.

Ela apenas riu. Jusetsu então olhou para o pote que segurava. Sua abertura estava coberta por um lacre de papel com algumas letras estranhas escritas nele.

"Você tem alguma ligação com o Ancião do Luar?", perguntou Jusetsu.

A garota ergueu as sobrancelhas. "Meu Deus. Por que você pensaria isso?"

“Você domou meu corvo. Isso é algo que nenhuma pessoa comum seria capaz de fazer. E a inscrição naquele vaso... é a palavra xamânica para ‘selo’. Você é um xamã. Dizem que o Ancião do Luar muitas vezes parecia ser outra pessoa. Ele deve ter sido possuído por um fantasma. Mas também ouvi dizer que ele era habilidoso em magia ilusória e metamorfose. Se ele era capaz disso, não pode ter sido possuído. Isso significa que o fantasma que o possuía era um xamã talentoso — um xamã talentoso como você.”

"Entendo", disse a garota, rindo novamente — mas no instante seguinte, ela espantou o corvo com um rápido golpe de mão.

Um baque seco ecoou no ar. O corvo transformou-se numa névoa negra e desapareceu.

Jusetsu mordeu o lábio. Aquele pássaro mensageiro tinha sido fácil de criar, mas nenhum xamã comum teria sido capaz de esmagar a magia de Jusetsu com tanta facilidade.

“Quem é você?”, perguntou ela.

Não devia haver muitos xamãs habilidosos que agora fossem fantasmas — e ainda menos que possuíssem um humano para tentar manipulá-lo. Esse fantasma havia possuído o Ancião do Luar, e agora estava tomando posse também dessa dama da corte.

“Hyogetsu.”

Hyogetsu, um nome que significa "lua de gelo".

Por mais inesperado que fosse, o fantasma prontamente revelou seu nome — mas as coisas estavam prestes a ficar mais complicadas.

“Meu nome é Ran Hyogetsu, querida Consorte Corvo.” Jusetsu engoliu em seco. Ran?

Esse era o sobrenome da família imperial da dinastia anterior.

“Temos o mesmo nome. Estou certo, não estou?”

Jusetsu observou cautelosamente o rosto da dama da corte, mas era quase impossível discernir as verdadeiras intenções do fantasma, já que seu corpo estava sendo usado como receptáculo pelo espírito que a possuía.

“…Meu sobrenome é Ryu”, disse ela cautelosamente. “Não sou membro da família Ran.”

Esse, porém, era um nome falso que Reijo lhe havia dado.

“Seu pseudônimo não me interessa. Meu sangue me diz que compartilhamos raízes, você e eu. Você se saiu bem, sobrevivendo até aqui — especialmente em um lugar como este.” Havia ternura na voz do fantasma. “Fiquei surpreso ao encontrá-la aqui. Quem diria que alguém da família Ran seria a Consorte Corvo? Pensei que todos vocês tivessem sido caçados e extintos há muito tempo…”

Sua voz soava triste, como se ele tivesse afundado em um abismo escuro de tristeza.

“Eu também fui preso e decapitado. Posso não ter mais um corpo físico, mas sempre que volto à capital imperial, meu sangue ainda gela.”

Então por que você viria aqui? Jusetsu pensou. O fantasma a encarou atentamente através do corpo da garota, e então deu um leve sorriso.

“Mas deve ter sido uma grande sorte eu ter conseguido encontrar alguém da família Ran aqui. Eu estava tão desesperado para falar com você que pedi que viesse até mim.”

Ah, pensou Jusetsu. Deve ser por isso que o fantasma roubou o pote, deixou seus rastros no quarto das damas da corte e me fez segui-lo até aqui.

“Eu era um homem da família imperial, mas também era um xamã. Não sei se você sabe disso, mas durante a dinastia anterior, havia vários xamãs na propriedade imperial. A atual família imperial, porém, os odiava e expulsou todos da capital. É por isso que existem tantos xamãs no interior agora. Aquele homem que chamavam de Ancião do Luar era um deles — embora suas habilidades fossem do tipo clássico de enganação.”

Reijo certa vez contou a Jusetsu que a propriedade imperial costumava ser repleta de xamãs. Eles não possuíam um cargo oficial, mas eram favorecidos em particular pelo imperador, pela família real e por altos funcionários. Chegavam a ter permissão para entrar e sair do palácio interno à vontade. Contudo, o fantasma de Hyogetsu — sendo ao mesmo tempo membro da família imperial e xamã — encontrava-se numa posição incomum, mesmo entre seus pares.

“Mesmo assim, aquele xamã fracassado era uma figura interessante. Quando eu possuía o corpo dele, ele espalhou boatos dizendo que era a encarnação de Deus. Ainda não sei se era só mais um golpe ou se ele realmente acreditava nisso no fundo, mas ele ganhou muito dinheiro com isso. Ele extorquia dinheiro tanto de ricos quanto de pobres, guardava tudo num pote e enterrava. Ainda está lá até hoje. Quer que eu te conte como encontrá-lo?”

Jusetsu respondeu simplesmente franzindo a testa para ele.

Hyogetsu bufou — apesar de nem sequer parecer divertido — e continuou falando. "Se você consegue ler isso, presumo que saiba para que serve este pote. Não sabe?" Hyogetsu ergueu o pote. 

Jusetsu o encarou com raiva. O rótulo continha o termo xamânico para "selo", mas não se referia a qualquer selo — este era especificamente um selo usado para selar uma alma. "De quem é a alma selada lá dentro?", perguntou Jusetsu.

“Bem, definitivamente não é a alma do Ancião do Luar.” Hyogetsu acariciou a panela. “Um passarinho me contou que algumas pessoas queriam invocar a alma de um homem que morreu na revolta da Província de Reki.”

Jusetsu franziu ainda mais a testa. "Como você...?"

“Quando uma alma morre longe de sua cidade natal, ela não sabe para onde ir. Havia algumas vagando pelo ar naquela época, então eu as recolhi e as selei aqui. Eu planejava usá-las como mensageiras, mas…” Hyogetsu encarou Jusetsu. “Encontrei outra utilidade para elas que eu não esperava.”

"O que você quer dizer?"

Hyogetsu apagou o sorriso presunçoso do rosto. "Você pode ficar com a alma de O Genyu. Mas em troca... tenho um pedido para você."

"Um pedido?", repetiu Jusetsu.

“Foi por isso que vim para cá, para o palácio interno.”

Sua voz vinha da dama da corte cuja forma física ele havia incorporado, mas seu zelo sincero ainda era palpável. Esse fervor deixou Jusetsu perplexo.

“Diga-me qual é o seu pedido. Quais eram as suas intenções ao vir aqui?”

“Se você estiver disposta a me ouvir, eu lhe direi. Mas se não puder…” Hyogetsu tirou uma faca de um ornamento que usava no cinto e a pressionou contra o pescoço dela. “Eu matarei essa mulher.”

Jusetsu sentiu o impulso reflexo de correr até ele, mas Hyogetsu pressionava a lâmina com tanta força contra o pescoço da dama da corte que ela se conteve.

"Vou matar essa mulher e fugir", ameaçou ele. "A alma de O Genyu jamais retornará. Então, o que me diz? Não há tempo para hesitar. Se mais alguém aparecer aqui, eu fugirei."

Jusetsu olhou em volta. Independentemente de Kajo e suas damas de companhia terem obedecido à sua ordem para permanecerem onde estavam, não havia sinal de mais ninguém na área naquele momento. Ela também não conseguia ouvir ninguém correndo naquela direção.

“Duvido que alguém o faça”, disse Jusetsu. “Não precisamos ter pressa. Imploro que guarde a faca.”

Hyogetsu não disse uma palavra e simplesmente continuou pressionando a faca contra a pele da dama da corte.

“Você não precisa me ameaçar para que eu te ouça. Basta me dizer o que seu pedido envolve.”

“Eu—”

De repente, a expressão da dama da corte se contorceu. Era como se fosse possível ver a mudança de humor de Hyogetsu através dela. Ele afastou a faca do pescoço. Surpresa, Jusetsu tentou se mover, mas antes que pudesse, ouviu o som agudo de algo voando pelo ar.

A faca escapou da mão da dama da corte e uma pedra rolou para longe do local onde havia caído no chão. A pedra atingiu a mão da dama, derrubando a faca. Jusetsu prontamente arrancou uma peônia do cabelo, esmagou-a na mão e atirou-a na mulher possuída. Por um instante, pareceu que suas pétalas vermelho-pálidas flutuavam para baixo, mas logo se espalharam pelo ar como uma fina fumaça, envolvendo o vaso. Com um movimento rápido da mão de Jusetsu, o selo de papel se rasgou silenciosamente e o vaso se partiu em dois.

Os galhos do pinheiro balançavam e farfalhavam acima de suas cabeças. Uma luz semelhante a uma faísca tremeluziu dentro do vaso e, um instante depois, ele estourou. O som foi como um trovão rasgando o ar, e a dama da corte caiu no chão. Jusetsu afastou a manga que cobria o rosto e caminhou até o vaso quebrado.

Os rasgos tanto no vaso quanto no papel eram limpos — quase como se tivessem sido cortados com uma espada. Jusetsu olhou para o céu. Algumas tênues esferas de luz flutuavam acima dela como vaga-lumes. Eram quatro, na verdade.

“O Sho”, Jusetsu chamou-as, estendendo uma das mãos. Uma das esferas errantes pareceu deslizar em sua direção e pousou em sua mão. Jusetsu a acariciou delicadamente. Em suas palmas, ela se transformou em um pente de cor âmbar pálida. Jusetsu o colocou em seu cabelo por um instante.

"Consorte Corvo!", gritou alguém.

Jusetsu se virou e um jovem eunuco de olhos grandes e estreitos estava ajoelhado diante dela.

“Foi você, Onkei.”

Ele era o eunuco designado como guarda de Jusetsu. Foi ele quem atingiu a mão da dama da corte com a pedra. Há quanto tempo ele está aqui? Jusetsu se perguntou. Ela não tinha a menor ideia de que ele estivesse por perto.

Jusetsu olhou para trás, para a mulher. A dama da corte estava deitada junto às raízes de um dos pinheiros, aparentemente inconsciente.

“What kind of state is she in?”

“Fique tranquila, Consorte Corvo, ela apenas desmaiou”, explicou o guarda de Jusetsu, “embora possa apresentar algum inchaço na mão.”

Jusetsu assentiu com a cabeça e então observou a cena ao seu redor. Havia um jovem parado sob uma árvore um pouco mais adiante. Seu rosto estava pálido e, embora seus olhos amendoados estivessem brilhantes, estavam nublados de melancolia. Ele vestia um robe de seda bordado com magníficas aves míticas — conhecidas como “ran” — e seus longos cabelos estavam presos e jogados sobre os ombros. Eram de um tom prateado tão extraordinário que quase se poderia acreditar que o próprio luar havia convergido para eles.

“Eu falhei, Consorte Corvo… Desta vez, eu perdi. Mas não se preocupe — eu voltarei”, disse o homem. Reminiscente do ar fresco e límpido de uma noite de outono, sua voz era tão triste quanto sua aparência.

“Espere. E quanto ao seu pedido?”

“Consorte Corvo”, disse ele, “por que se contentas em se isolar no palácio interno? Se quisesses, poderias ter tudo.”

[Kessel: A fala dele estava extremamente formal nessa parte, optei então por formalizar ao máximo na tradução também. Dito isso, que personagem interessante!]

Dito isso, Hyogetsu se atrasou. Seus cabelos prateados pareciam ondulantes ao vento, e então ele começou a desaparecer de vista.

Jusetsu quase começou a caminhar em sua direção, mas em vez disso, rapidamente se virou e olhou para Onkei. Sua postura e expressão permaneceram inalteradas, e seus olhos estavam voltados para baixo.

“Você ouviu o que ele disse?”, perguntou Jusetsu.

“Não, minha senhora. O que teria sido?”

Jusetsu encarou Onkei por alguns instantes, depois desviou o olhar. "Vamos retornar ao Palácio Eno."

Ela ordenou a Onkei que trouxesse a dama da corte consigo, e então voltou-se.

Kajo esperava apreensiva no Palácio Eno. Quando viu a dama da corte que Jusetsu e Onkei carregavam, correu até eles.

“Ela está…?”

“Ela está apenas inconsciente. Ela foi possuída por um fantasma. Cuide dela, por favor.”

Uma das damas de companhia de Kajo acompanhou Onkei até o pavilhão das damas da corte. Jusetsu insistiu para que Kajo convencesse as outras damas a lhes concederem privacidade, e elas entraram no palácio.

Jusetsu retirou o pente que havia colocado no cabelo. "Esta é a alma de O Genyu", disse ela, estendendo-a na palma da mão.

Kajo parecia surpresa.

O pente começou a perder a forma e se transformou em uma esfera de luz pálida, semelhante a um vaga-lume.

Kajo estendeu a mão com cautela. A esfera brilhante flutuou até ela e pousou em sua palma. Ela suspirou e a observou atentamente. "Está... quente."

Kajo segurou a luz nas mãos. "Mas não está quente de jeito nenhum. É como... água fervendo, depois de esfriar..."

Seus sussurros foram diminuindo, até se extinguirem em silêncio. Ela segurou o orbe brilhante contra o peito.

Nem todas as almas se tornam fantasmas. Algumas não têm problema em chegar ao paraíso, independentemente de como morreram, enquanto outras acabam como fantasmas, presas em um lugar para sempre. As outras almas que haviam sido seladas no caldeirão pareciam ter evitado esse destino e ido para o paraíso. Genyu provavelmente faria o mesmo — Jusetsu estava apenas o atrasando por um tempo.

“Oh…”

A esfera brilhante deixou a mão de Kajo e flutuou no ar. "Espere. Fique um pouco..." protestou Kajo.

A esfera brilhante girava ao redor dela. Um vento começou a soprar, e os enfeites pendurados em seu cabelo produziam um leve tilintar ao se chocarem uns contra os outros. A esfera brilhante roçou os cabelos e as bochechas de Kajo como uma tênue fumaça. O apito em forma de flor que pendia de sua cintura balançou — e, com um assobio agudo, finalmente soou.

Seu som permaneceu no ar. Então veio um segundo e um terceiro som. Era amigável e alegre, como alguém cantando.

Então o vento, impregnado de um brilho suave, deixou Kajo e subiu alto no céu. As portas do palácio se abriram sozinhas, e a rajada saiu voando. Kajo tentou perseguir o vento enquanto ele deslizava para o alto do céu e seguia para o oeste — em direção ao mar.

“Genyu…!”

Até mesmo o grito que escapou da boca de Kajo pareceu ser levado pelo vento brilhante.

Em pouco tempo, todos os vislumbres do tênue brilho deixado pelo vento desapareceram de vista, mas Kajo continuou de pé.

"Ele voltará", assegurou Jusetsu. "Ele estará de volta quando chegar a primavera."

Kajo apenas assentiu em silêncio. Em seguida, cobriu o rosto e deixou-se cair no chão.

***

Algum outro dia, Kajo chegou ao Palácio Yamei carregando um robe de seda.

“Por favor, aceite isto como um agradecimento por ter invocado a alma dele.”

Sua dama de companhia colocou uma bandeja sobre a mesa. Jusetsu pegou o robe de seda que estava sobre ela. Era um shanqun. Seu tecido púrpura era decorado com um padrão batik com pássaros e ondas. Vinha acompanhado de uma saia de sarja com um padrão circular de pérolas entrelaçadas no tecido. O traje também incluía um xale da cor de flores de cerejeira, feito de seda tão fina que parecia que se dissolveria ao toque.

"Nossa! Que deslumbrante!" Jiujiu não conseguiu conter a exclamação ao lado de Jusetsu. Mas, ao perceber o que tinha feito, cobriu a boca com as mãos.

“Mandei fazer tudo no meu palácio. A saia foi costurada pela costureira que você tão gentilmente ajudou, Consorte Corvo.”

Jusetsu empurrou a bandeja de volta para ela. "Não tenho utilidade para nada disso."

“Não seria útil ter um robe que não fosse preto? Você poderia usá-lo quando quisesse andar incógnita — ficaria muito melhor em você do que aquele uniforme de dama da corte”, disse Kajo gentilmente. Ela empurrou a bandeja de volta para Jusetsu.

Jusetsu, sem saber o que fazer, olhou alternadamente para Kajo e para o robe.

“Se você insiste que não tem utilidade para ele, então terei que jogá-lo fora. Seria uma pena, considerando o cuidado que minhas damas da corte tiveram ao tingi-lo e costurá-lo para você…”

Nesse momento, Jusetsu perdeu a paciência. Não era hora para tanta teimosia. "Tudo bem. Eu aceito", disse ela.

“Agradeço sua gentileza”, respondeu Kajo. “Tenho certeza de que minhas damas da corte ficarão encantadas. Por favor, use-o quando vier me visitar no Palácio Eno.”

“Mas eu…”

“Terei dim sum preparado para você quando decidir me visitar. E não só isso — pãezinhos cozidos no vapor com mel branco incorporado à massa, fuliubing e… Ah! Também alguns baozi com pasta de semente de lótus. Me disseram que você gosta muito deles.”

Jusetsu não conseguiu dizer nada.

Não era apropriado para a Consorte Corvo desfrutar de chá e conversas com outra consorte em plena luz do dia. A Consorte Corvo vivia uma vida solitária e cuidava de seus afazeres durante a noite. E, no entanto…

“Você é muito bem-vinda, sempre que quiser”, disse Kajo, com um sorriso tranquilo.

Se eu tivesse uma irmã mais velha, será que ela seria assim? Jusetsu se perguntou. O vapor subia do chá que Jiujiu havia servido, acompanhado de damascos cozidos em calda. Kogyo havia preparado os doces para eles.

Da mesma forma que a neve mais teimosa, que resistia até a primavera, aos poucos cederia à luz do sol, um calor se insinuava no coração de Jusetsu. Era um calor convidativo e suave, extremamente difícil de resistir. Era praticamente veneno.

[Kessel: Aos poucos estamos vendo a Juju (rs) se acostumando com receber carinho e afeto daqueles que a cercam. O Imperador, a Jiujiu e a Kogyo que trabalham para ela e agora também a Kajo. Para quem passou a vida inteira apenas com a companhia de sua própria mãe (até o fatídico momento) e depois disso, com a antiga Consorte Corvo, é uma baita evolução!]

 

Naquela noite, Koshun apareceu no palácio. Dessa vez, Jusetsu o chamou, dizendo que tinha um favor a pedir.

“Então, o que você precisava de mim?”, perguntou ele.

Jusetsu meio que esperava que ele dissesse algo sarcástico, mas tudo o que ela ouviu foi essa simples pergunta.

“Quero saber mais sobre Ran Hyogetsu”, respondeu Jusetsu simplesmente.

“Ah…” disse Koshun, engolindo um gole de chá. “Eu também não sei muito sobre ele. Acredito que ele era filho do filho mais novo do imperador — ou seja, neto do imperador. O filho mais novo do imperador não tinha envolvimento com o governo central, e seu filho, Hyogetsu, era um herege que também se juntou às fileiras dos xamãs. Mesmo assim, dizem que ele tinha um dom raro e notável. Ele foi decapitado no mesmo dia que seu pai e o imperador. Isso é tudo que eu sei.”

“Você pode descobrir um pouco mais?”

No fim das contas, Jusetsu ainda não sabia por que Hyogetsu estava tão obcecado com o palácio interno, nem qual teria sido seu pedido. Essas perguntas atormentavam a mente de Jusetsu.

“Não posso prometer nada, mas talvez pudéssemos verificar os registros, ou…”

Koshun lançou um olhar instrutivo a Eisei. Ele inclinou a cabeça respeitosamente, embora de maneira um tanto contrariada, ao ouvir o pedido indireto de Jusetsu.

"Tenho certeza de que ele voltará para me ver", disse Jusetsu.

“Ah”, respondeu Koshun simplesmente.

Jusetsu observou atentamente o rosto de Koshun. Ela não conseguiu decifrar nenhuma emoção em sua expressão impassível. Será que Onkei não lhe relatou nada? Jusetsu se perguntou. Será que ele decidiu não lhe contar o que Hyogetsu disse porque não entendeu, ou será que realmente não ouviu?

Koshun começou a falar. "Por que Ran Hyogetsu possuiria o Ancião do Luar?" Jusetsu desviou o olhar e pegou sua xícara de chá.

“Eu também não sei. No entanto, parece que ele tinha alguma motivação para vir ao palácio interno. Provavelmente, ele possuiu várias pessoas na Província de Reki e as convenceu a trazer aquele pote com as almas seladas dentro…”

“Ele deve ter possuído o mercador marítimo que entrega mercadorias ao palácio interno — aquele que trouxe os itens que eu presenteei ao Palácio Eno. Ele reside naquela província. Nos últimos meses, ele vinha sentindo que não estava totalmente presente, mas presumiu que fosse por estar exausto.”

Isso deve ter acontecido quando ele foi possuído pelo espírito de Hyogetsu. Depois que o vaso foi levado para o palácio interno, Hyogetsu transferiu seu corpo para a dama da corte.

“…Por que ele se daria a tanto trabalho para entrar no palácio interno? O que ele quer?” murmurou Jusetsu.

Koshun olhou fixamente para ela. Jusetsu percebeu o olhar e ergueu os olhos. "O quê?", disse ela.

"Nada", disse Koshun, e então se levantou. Parecia que ele ia embora.

"Você vai ver a Kajo?" perguntou Jusetsu.

“Não, é só que…” Koshun começou, evasivamente.

Ele procurou algo no bolso do paletó. Então, tirou algo embrulhado em um lenço de seda e colocou sobre a mesa. Ele mesmo o desembrulhou. Dentro, havia um pente de marfim em forma de pássaro — um rouxinol-do-mato, ao que parecia — junto com algumas ondas ferozes.

"O que é isso?" perguntou Jusetsu.

“Ouvi dizer que Kajo te deu um robe. Achei que este combinaria bem com ele.”

“Eu não quero.”

"Então jogue fora", disse ele, tentando se afastar.

"Foi a Kajo que te ensinou essa fala?", perguntou Jusetsu.

Koshun saiu do palácio sem lhe responder.

Não havia mais como escapar. Ela sabia que deveria ter recusado aquele robe.

Ao aceitar as coisas, você também aceitava as conexões emocionais que vinham com elas. Jusetsu inevitavelmente iria visitar o Palácio Eno agora que Kajo a havia convidado. Mesmo quando Koshun aparecia ultimamente, ela se via incapaz de expulsá-lo como fez quando se conheceram.

Jusetsu mordeu o lábio. Foi até o armário e pegou uma caixa preta como azeviche. Abriu a tampa. Havia um peixe âmbar dentro — o mesmo que Koshun lhe deu. Jusetsu olhou para ele com uma expressão de desagrado no rosto e fechou a caixa novamente. Em seguida, guardou-a no armário, junto com o pente que ele havia embrulhado e lhe dado.

Será que um dia desses eu deveria entregar para a Jiujiu?, pensou ela. Ou isso só criaria mais um vínculo?

Jusetsu não sabia o que fazer. Como ela poderia voltar a ficar sozinha?

Ela queria deixar de lado seus sentimentos, elevando-se acima deles, e viver uma vida discreta e solitária na noite.

 

“Sei”, Koshun chamou baixinho enquanto caminhavam pelo corredor, “amanhã à tarde, chame o Ministro do Inverno ao Instituto Koto”.

“O Ministro do Inverno?” disse Eisei, hesitante. “Tem certeza, mestre?”

O Ministro do Inverno era o oficial do palácio responsável pelos assuntos religiosos. Ele vivia em um palácio antigo e de aparência deserta na parte sul da propriedade imperial.

“O atual Ministro do Inverno é Setsu Gyoei, não é?”

“Já faz muito tempo que o senhor Setsu ocupa o cargo. Como o de Ministro do Inverno é um posto sem importância, ninguém está interessado em assumi-lo, então a mesma pessoa está no cargo há muitos e muitos anos. E também não ouvimos nenhuma reclamação sobre isso.”

“Entendo. Informe-o de que quero lhe perguntar algo sobre a Consorte Corvo.”

“O quê?!”

Eisei aceitou o pedido humildemente, mas não conseguiu esconder a expressão de perplexidade em seus olhos.

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