Volume 1
Capítulo 1: O Brinco de Jade (Parte 2)
Após o meio-dia do dia seguinte, Koshun fez-lhe outra visita. Desta vez, ele estava acompanhado não só por Eisei, mas também por uma jovem garota.
“Trouxemos a dama de companhia que você pediu.”
A jovem era de fato Jiujiu. Tendo sido levada ao palácio sem muito aviso prévio, ela olhou ao redor com apreensão.
Jusetsu olhou para o rosto de Koshun. Ele tinha a mesma expressão de sempre. Era o mesmo olhar inexpressivo que tinha quando visitou o Palácio Yamei pela primeira vez.
O que será que ele está pensando? Pensou a Consorte Corvo. Será que ele vai mesmo fingir que não viu nada ontem? E por quê?
Confusa com as intenções dele, Jusetsu ficou perdida em pensamentos — até que ouviu uma voz suave dizendo seu nome, hesitante. Quando olhou para cima, os olhos de Jiujiu estavam arregalados.
“Sou eu mesma”, respondeu Jusetsu. “Obrigada pela sua gentileza ontem.”
Jiujiu também ficou boquiaberta de surpresa. "Espere... o quê? Do que se trata tudo isso? Você não me disse que era uma dama da corte?"
“Eu sou a Consorte Corvo. Peço desculpas por tê-la enganado.”
"O quê?!" Jiujiu exclamou novamente, levando as mãos às bochechas em sinal de perplexidade.
“Gostaria que você fosse minha dama de companhia. Não que eu tenha algo para você fazer, mas…”
“Sua dama de companhia… mas por que eu?”
“Você me disse que queria trabalhar no Palácio Yamei.”
“Bem, claro, mas…” Jiujiu pareceu perplexa.
“Eu interpretei incorretamente?” Jusetsu perguntou.
O entusiasmo inicial de Jiujiu em trabalhar no Palácio Yamei fez com que Jusetsu pensasse que ela seria perfeita para o cargo, e foi por isso que a recomendou a Eisei.
“Veja bem, foi só um comentário casual. Tipo, uma coisa de momento…” Jiujiu olhou para a sala desconfortavelmente enquanto sua voz sumia do ar.
Então era isso, pensou Jusetsu, olhando para baixo.
Após passar o dia anterior com Jiujiu, Jusetsu achou que seria divertido passar mais algum tempo juntos.
“Não seria por muito tempo. Mas se você for contra a ideia…”
Jusetsu nunca teve a intenção de ter uma dama de companhia. Era apenas uma desculpa para consultar os registros da corte, e ela temia que sua dama de companhia descobrisse seu segredo se estivesse constantemente ao seu lado.
"Sei, dê para ela", instruiu Koshun, que observava a conversa das duas em silêncio, ao eunuco ao seu lado.
Eisei estendeu uma bandeja com um robe para Jiujiu. "Este será seu uniforme de dama de companhia. Por favor, vista-o."
Jiujiu encarou o roupão. "S-será que posso mesmo usar isso? É tão chique..."
“E você é a dama de companhia dela”, interrompeu Koshun.
“Se você preferir fazer parte da equipe da cozinha do palácio, posso escolher outra pessoa”, sugeriu Jusetsu.
“Não! Não seja tão irracional! Aceitarei sua oferta com prazer.”
Jiujiu apertou o robe contra o peito. Quando seus olhares se encontraram com os de Koshun, ela baixou o olhar, envergonhada. Seu rosto estava vermelho como um pimentão. Jusetsu tinha sentimentos contraditórios sobre o fato de que aquele robe tivesse sido o que selou o acordo — e tão rapidamente.
Assim que Jiujiu desceu ao camarim da dama de companhia para se trocar, Koshun começou a falar.
“Agora, quanto ao assunto principal em questão”, disse ele, com a mesma indiferença de sempre, “graças a você, conseguimos consultar os registros das damas da corte. Han Ojo tinha duas damas de companhia trabalhando para ela — uma dama de companhia e uma criada que a servia. A criada morreu de uma doença.”
“Uma doença…?”
“Não sei os detalhes. A dama de companhia foi designada para outra consorte após o falecimento de Han Ojo, mas agora ela está nos aposentos de purificação.”
Os aposentos de purificação eram para onde mandavam as damas da corte que estavam ficando idosas ou que haviam cometido algum crime.
“O nome dela é So Kogyo. Aliás, parece que nenhuma outra consorte se enforcou ou foi estrangulada até a morte.”
Nesse caso, o fantasma tinha que ser o de Han Ojo. Jusetsu acariciou o cinto de seu robe. Ela tinha o brinco de jade escondido por baixo.
“Bem, então, preciso ir vê-la.”
“Você vai para os aposentos de purificação?”
Um leve tom de confusão surgiu no rosto inexpressivo de Koshun enquanto ele olhava para Eisei.
“Não é o tipo de lugar onde a Consorte Corvo deveria pôr os pés”, explicou ele.
Jusetsu bufou. Aquilo não era o tipo de coisa que se dizia normalmente a um antigo servo.
“Não me importo. Se a virmos, podemos descobrir se aquele brinco realmente pertencia a Han Ojo.”
Nesse exato momento, Jiujiu apareceu, vestindo seu novo uniforme.
“Jiujiu, vamos sair.”
"Hã? Para onde vamos, minha senhora? Espere, não... quero dizer, para onde partimos, niangniang?" perguntou Jiujiu, ajustando a fala.
Jusetsu não respondeu e afastou as finas cortinas de seda que cobriam a parte de trás do quarto. Suas roupas de dama da corte ainda estavam sobre a cama, no mesmo lugar onde as havia tirado anteriormente.
“Vou me trocar agora. Por favor, saiam”, disse ela a Koshun e Eisei.
Koshun levantou-se silenciosamente de seu assento, e uma expressão de irritação cruzou o rosto de Eisei por um breve instante. Chocada ao ouvir Jusetsu dando ordens ao imperador, Jiujiu olhou ao redor, perplexa.
Antes mesmo que os dois homens tivessem a chance de sair do quarto, Jusetsu fechou as cortinas e desabotoou o cinto.
"V-você vai mesmo lá, niangniang?" Jiujiu perguntou enquanto seguia Jusetsu, à beira das lágrimas.
Niangniang era um termo de respeito usado não apenas para se referir a divindades femininas, mas também para se dirigir a mulheres de status elevado.
“Eu disse isso desde o início. E pare de me chamar de ‘niangniang’. Agora sou uma dama da corte, então fale comigo normalmente.”
“Mas…”
Jiujiu franzia a testa, preocupada. Ela não tinha certeza de qual distância deveria manter entre ela e Jusetsu para ser considerada apropriada.
As duas jovens se dirigiram para a área sudoeste do palácio interno. Ao atravessarem um riacho sobre uma ponte pintada de vermelho, Jiujiu subitamente se encolheu e se escondeu atrás de Jusetsu. Enquanto se perguntava o que estava acontecendo, através das folhas do salgueiro plantado junto ao riacho, Jusetsu avistou uma dama da corte do outro lado. Era a catalogadora do palácio que, com arrogância, ordenou a Jiujiu que costurasse seu manto no dia anterior. A mulher parecia estar correndo em direção ao Palácio Hien e não havia notado Jiujiu e Jusetsu.
“Ela já se foi”, disse Jusetsu.
Jiujiu ergueu a cabeça cautelosamente e olhou para o outro lado do riacho para se certificar de que Jusetsu estava certa. Confirmando, ela soltou um suspiro de alívio.
“Você disse que ela estava falando com um eunuco do Palácio de Hien, não foi? Parece que ela o visita com muita frequência. Certamente ela deve ter seus próprios afazeres.”
“Ela faz isso. Mas negou. Insistiu que jamais pensaria em se associar a um eunuco desprezível e que outras pessoas simplesmente a pediram para fazê-lo. Ela me disse para não contar a ninguém que eles trocam cartas.”
“Outras pessoas?”
“Ela alegou que as outras damas da corte lhe pedem para entregar as cartas em nome delas — mas, se isso fosse verdade, elas não poderiam fazer isso sozinhas? Ela só está escondendo isso porque está envergonhada.”
"Sério?" disse Jusetsu, inclinando a cabeça para o lado. Ela estava intrigada. Aquela dama da corte certamente não parecia ser o tipo de pessoa que ajudaria outras pessoas a trocar cartas por pura bondade.
Recomeçaram a caminhar e atravessaram a ponte. Passaram por vários jardins, desceram o corredor murado e contornaram outro edifício do palácio. Em pouco tempo, a paisagem ao redor tornou-se desoladora. Não havia mais jardins belos à vista, e os edifícios pareciam utilitários. Eram os aposentos onde viviam os assistentes.
Os aposentos de purificação ficavam na periferia dos jardins do palácio interno. Cursos d'água de tamanhos variados atravessavam a propriedade imperial, mas na divisa do palácio interno, o terreno era baixo e a drenagem precária. Consequentemente, a área era constantemente úmida e os edifícios estavam cobertos de mofo e musgo. Essa era a parte do palácio interno para onde os banidos eram enviados, então ali, nos arredores, era quase como um depósito de lixo repleto de eunucos e damas da corte desagradáveis e de baixa patente. Era preciso ter cuidado ali. Quanto mais perto se chegava dos aposentos de purificação, mais evidentes se tornavam os trechos em ruínas do corredor murado. Os telhados também estavam se soltando e desabando em alguns pontos. Enquanto antes o caminho era de cascalho, agora caminhavam sobre um terreno nu e irregular, com ervas daninhas brotando entre as pedras. Um eunuco de rosto avermelhado estava encostado na parede, dormindo — talvez por ter passado o dia bebendo bebida barata —, enquanto outros apenas encaravam Jusetsu e sua companheira, tentando avaliá-las. Jiujiu aproximou-se de Jusetsu por trás, assustada.
"Está tudo bem", Jusetsu a tranquilizou.
Eles não ousariam iniciar uma briga apenas por diversão, e não seria grande coisa se o fizessem — pelo menos enquanto não tivessem intenções assassinas.
Infelizmente, porém, esse cenário não era tão improvável quanto poderia parecer.
Os dois eunucos que encaravam Jusetsu começaram a cambalear em sua direção, com os pés vacilantes. Quando Jusetsu se preparou para se defender, outro par de eunucos surgiu por trás da parede dilapidada do corredor. Todos usavam vestes que os identificavam como eunucos de baixa patente, e os homens tinham olhares penetrantes. Assim que Jusetsu percebeu que não pareciam eunucos grosseiros comuns, eles sacaram adagas dos bolsos do peito. As lâminas brilharam à luz, e Jiujiu soltou um grito rouco. Em questão de segundos, os homens os cercaram.
“O que vocês pensam que estão fazendo?”, perguntou Jusetsu. “Não estamos carregando nenhum objeto de valor.”
Os homens não responderam e se aproximaram lentamente, sem dizer uma palavra. Isso pode não acabar bem, pensou Jusetsu, ficando nervosa.
Ela levou a mão ao coque, mas então lembrou-se de que não tinha uma peônia ali, pois estava vestida como uma dama da corte. Estalou a língua, baixou a mão e virou a palma para o céu.
O calor se acumulou na palma de sua mão. O ar vibrava de uma forma que lembrava a névoa quente de um dia de verão, e naquele exato momento, uma pétala de flor de um tom carmesim claro apareceu em sua mão. Uma pétala após a outra se materializou, uniram-se e, gradualmente, formaram uma flor de peônia do nada.
Ao verem isso, os eunucos ficaram paralisados de espanto. Olharam uns para os outros, perplexos, e tentaram deduzir quais seriam os próximos passos de seus aliados. Jusetsu ainda nutria esperança de que seu truque os assustaria e os faria ir embora, mas não parecia ter surtido o efeito desejado.
Em vez disso, um dos eunucos soltou um grito vigoroso e avançou em disparada.
Jusetsu soprou na flor.
Com um instante, a flor transformou-se numa rajada de vento e avançou em direção aos eunucos. Os gritos dos homens ecoaram contra as lâminas afiadas do ar. Jusetsu aproveitou a oportunidade para agarrar Jiujiu pela mão e tentou passar entre os eunucos.
"Argh!" gritou Jiujiu. Um dos eunucos havia agarrado a jovem pela gola.
“Jiujiu!”
Jusetsu tentou usar suas habilidades contra o eunuco que empunhava a adaga novamente, mas não foi rápida o suficiente. Ela se impulsionou com o pé e estava prestes a se colocar entre a lâmina e Jiujiu quando o eunuco caiu de lado.
“Que diabos você pensa que está fazendo?”
Outro eunuco esbarrou no agressor pela lateral. Ele tinha um rosto de aparência amigável, com olhos caídos, e aparentava ter uns trinta anos.
"Por que você iria querer assaltar damas da corte tão encantadoras como essas?", gritou ele, com a voz alterada pela raiva.
O homem bondoso debruçava-se sobre o eunuco caído, tentando tomar-lhe a adaga. O eunuco no chão chutou o estômago, depois sentou-se, ainda segurando a arma. Tentou apontar a lâmina para o homem que veio ajudá-la, mas uma pequena pedra voou em sua direção e atingiu sua mão com força. Ele soltou um grito e deixou cair a adaga ao mesmo tempo.
Então, outro gemido veio de outra direção. Quando se viraram para ver quem estava ali, encontraram um eunuco mais jovem torcendo os braços do eunuco que empunhava a adaga e pressionando-os contra o chão. Ninguém sabia quanto tempo ele estava ali, mas não era só isso que ele tinha feito. Os outros eunucos também se agarravam aos braços e pernas, gemendo de dor. O eunuco mais jovem devia tê-los atingido com força também, rapidamente e antes mesmo que alguém tivesse a chance de piscar.
“Recuar!”
Atordoados, os eunucos briguentos tentaram fugir. O jovem eunuco soltou o homem cujos braços ele prendia ao chão. O homem levantou-se às pressas e correu atrás dos amigos, que haviam escapado primeiro. Ele tropeçou e caiu enquanto corria.
“Você está machucada, niangniang?”
O jovem eunuco se virou para Jusetsu. Ela não o reconheceu, mas notou que seus grandes olhos amendoados, com pálpebras de um só lado, eram particularmente bonitos. Até mesmo a cicatriz que atravessava sua bochecha em forma de linha reta parecia apenas mais um adorno sedutor.
“Meu nome é Onkei, e recebi ordens do Atendente Ei para lhe fornecer segurança. Venho seguindo você em segredo. Por favor, desculpe minha impertinência.”
Com um corpo esguio e bem proporcionado, Onkei curvou-se com os braços cruzados.
"Ah, entendi. Eisei fez..."
Eisei era o tipo de homem que não deixava nada ao acaso.
“Obrigado por me resgatarem. Quem eram aqueles homens? Eles não pareciam ser ladrões armados comuns.”
“Não tenho certeza, mas presumo que trabalhem para a imperatriz viúva.”
“A imperatriz viúva…” Ela não deveria estar trancada? Jusetsu se perguntou. E por que me atacaram agora, justo agora? “Isso me lembra…”
Jusetsu examinou os arredores. Ela procurava pelo eunuco que viera ajudá-la primeiro, mas ele não estava em lugar nenhum.
“Aquele eunuco não era um dos subordinados de Eisei?”
“Não o conheço. Talvez ele estivesse apenas passando por ali.”
Com seu manto cinza-escuro e chapéu preto, o homem estava vestido como um eunuco de baixa patente. Se por acaso estivesse passando por ali, devia ser um homem extremamente cavalheiro para se meter no meio daqueles arruaceiros armados com adagas. Se Jusetsu tivesse a chance de vê-lo novamente, certamente lhe agradeceria.
“Jiujiu, você está bem?” Jusetsu perguntou.
Quando se virou para encará-la, encontrou a jovem encolhida e prestes a chorar.
“Você está bem?”
Quando Jusetsu estendeu a mão, Jiujiu agarrou-a com força e começou a chorar.
“Sinto muito. Eu nunca deveria ter deixado você se envolver nessa situação perigosa. Retorne ao Palácio Yamei — eu me juntarei a você lá mais tarde.”
Jusetsu olhou para Onkei para pedir que ele acompanhasse a jovem até em casa, mas Jiujiu balançou a cabeça e soltou sua mão.
“Não. Eu vou com você”, disse Jiujiu, enxugando as lágrimas.
“Mas…”
“Você tentou me salvar, não é?” Ela se referia ao momento em que Jusetsu se colocou entre Jiujiu e a adaga do eunuco. “Eu vou com você”, repetiu ela, com um soluço audível.
“…Obrigada.”
Por algum motivo, Jusetsu sentiu um formigamento no peito. Era a primeira vez que ela experimentava essa sensação.
Jusetsu estava em frente aos aposentos de purificação, com Jiujiu à sua esquerda e Onkei à sua direita. O portão que servia de entrada estava parcialmente desabado e inclinado para um lado. Os pilares estavam praticamente se desfazendo. Ao atravessá-lo, avistaram algumas damas da corte esfarrapadas, vestidas com ruqun cor de barro, lavando roupa em bacias. Todas as mulheres pareciam doentes, e algumas já eram idosas. Quando Jusetsu passou por elas, nem sequer olharam para cima. Jiujiu se aconchegou no braço de Jusetsu e olhou ao redor com medo.
Eles se referiam a este lugar como o “túmulo das damas da corte”.
Eles entraram em um prédio com telhas cobertas de musgo. O cheiro lá dentro era de mofo — e não era para menos, considerando que as paredes estavam manchadas de bolor. O eunuco responsável pelo local os conduziu a um cômodo nos fundos.
“Este é o quarto de So Kogyo”, disse ele, “mas você está perdendo seu tempo se espera que ela responda às suas perguntas.”
“Por que você diz isso?”
“Quando você a ver, entenderá.”
O eunuco se despediu deles e se afastou. O quarto não tinha porta, mas era protegido por uma cortina ligeiramente manchada. Enquanto Onkei ficava de guarda em frente à cortina, Jusetsu entrou.
No pequeno quarto que a aguardava, ela encontrou uma cama simples junto à janela, com uma mulher deitada nela. O eunuco havia avisado que ela estava de cama com febre havia um dia. Os aposentos de purificação também abrigavam muitas damas da corte que não podiam mais trabalhar devido a doenças.
Suas rugas eram tão profundas que, à primeira vista, Jusetsu a confundiu com uma senhora idosa, mas, ao observá-la mais atentamente, percebeu que ela não parecia tão velha assim.
“Você é a…So Kogyo?” ela perguntou, inclinando-se em direção a cama.
A mulher abriu ligeiramente os olhos e olhou para ela. Deixou o olhar vagar, mas não houve resposta. Quando Jusetsu ia repetir a pergunta, a mulher abriu a boca.
Jusetsu recuou surpresa. Não havia língua dentro da boca da mulher.
A mulher seguiu Jusetsu com o olhar e emitiu um leve ruído, mas nenhuma palavra saiu. Jusetsu imaginou que ela provavelmente estava tentando dizer algo como "sim".
Agora estava claro por que o eunuco lhe disse que estariam perdendo tempo.
Não havia como ela responder a nada do que perguntavam. Jusetsu ouviu dizer que, em raras ocasiões, damas da corte tinham suas línguas cortadas como forma de punição, mas ela realmente não acreditava que isso acontecesse. Era uma coisa terrível de se fazer com alguém.
Vou ter que me ater a perguntas de sim ou não que ela possa responder movendo a cabeça, pensou Jusetsu.
“Eu sou a Consorte Corvo. Moro no Palácio Yamei. Vim aqui porque tenho algumas coisas para lhe perguntar.” Jusetsu tirou o brinco em questão de debaixo do cinto. “Por acaso você reconheceria…?”
Ela tinha planejado acrescentar "este brinco" ao final da frase, mas antes que tivesse a chance, a expressão de Kogyo mudou visivelmente.
A mulher arregalou os olhos e uma mistura de medo e surpresa surgiu em seu rosto. Ela tentava dizer algo, mas tudo o que saía de sua boca eram saliva e gemidos.
“Isso pertencia a Han Ojo?”
Kogyo assentiu repetidamente em confirmação. Então, ela começou a mover a boca incessantemente e a fazer gestos como se estivesse escrevendo algo com a mão.
“…Você gostaria de anotar algo?” perguntou Jusetsu, e Kogyo assentiu com firmeza.
Jusetsu olhou para Jiujiu. “Peça para aquele eunuco nos emprestar um pincel e papel.”
Jiujiu saiu, mas voltou alguns instantes depois, com um semblante derrotado. "Ele disse que não guardam essas coisas por aqui. E ela não sabe escrever, então não conseguiria se comunicar dessa forma de qualquer jeito..."
Jusetsu olhou para Kogyo. Ela balançou a cabeça e a encarou de volta. O olhar de Kogyo era feroz, muito diferente da mulher sem vida que ela parecia ser quando a viram pela primeira vez deitada na cama.
“Nesse caso, vamos levá-la ao Palácio Yamei. Onkei, carregue-a para mim.”
Ele enrolou Kogyo em um cobertor fino e a levantou. Quando estavam prestes a levá-la para fora, o eunuco da guarda os alcançou, perturbado.
“Ei, você não pode simplesmente levá-la embora com você!”
“Eu sou a Consorte Corvo”, disse Jusetsu. “Tenho o direito de levar esta mulher embora. Se alguém reclamar, diga-lhes para virem ao Palácio Yamei.”
Ao ouvir o nome "Consorte Corvo", o eunuco recuou, surpreso. Ela era a Consorte Corvo, conhecida por sua habilidade em lançar todos os tipos de maldições, inclusive amaldiçoar pessoas até a morte. Nem mesmo os eunucos que acendiam as lanternas ousavam se aproximar do Palácio Yamei.
Assim que retiraram Kogyo dos aposentos de purificação, Jusetsu e os outros se apressaram para retornar a casa.
Como não havia damas da corte de plantão no Palácio Yamei, havia vários quartos vazios. Colocaram Kogyo na cama em um deles, e Jusetsu trouxe para ela um pouco de papel de cânhamo e um pincel. Jiujiu moeu um pouco de tinta na pedra de tinta e a colocou na mesa de cabeceira de Kogyo. Kogyo sentou-se e pegou o pincel.
“Consegui que uma das damas da corte no palácio de purificação me ensinasse a escrever”, começou ela, com uma caligrafia horrível. “Tenho certeza de que eles me matariam se descobrissem que eu sabia escrever, então fingi que não sabia.”
Jusetsu franziu a testa ao ler as palavras: "Eles me matariam".
Kogyo continuou escrevendo. “Mataram a criada, mas chamaria muita atenção se matassem uma dama de companhia. Em vez disso, cortaram minha língua para que eu não pudesse falar.”
A empregada doméstica de quem ela falava devia ser a criada. O registro dizia que ela havia falecido por causa de uma doença, mas agora, parecia mais provável que tivesse sido assassinato.
"Eles me obrigaram a trabalhar como dama de companhia de outra consorte, inventaram um crime e cortaram minha língua como castigo."
Seu desejo irresistível de escrever pode tê-la dominado, pois suas letras ficaram todas embaralhadas. Ela mordeu o lábio, com uma expressão de frustração.
“Quem faria uma coisa dessas? Quem foi que quis te matar?”
A mão de Kogyo tremia. Ela respirou fundo e, em seguida, escreveu cuidadosamente as seguintes palavras: "A imperatriz viúva".
Kogyo prosseguiu explicando que a imperatriz viúva havia envenenado a Consorte Pega. A Consorte Pega era a terceira consorte mais importante do imperador. Ela era filha do principal vassalo e era jovem. Dizia-se que estava grávida quando foi assassinada. E esse foi o incidente pelo qual Han Ojo foi acusado.
“A Consorte Pega estava grávida. Seu pai, o principal vassalo, não era aliado da imperatriz viúva, então eles culparam a pobre Han Ojo. Subornaram a criada para que ela guardasse o acônito no armário dela. Eu a vi fazendo isso. Mas…”
Foi aí que Kogyo parou de escrever. Ela deslizou a ponta do pincel pelo ar algumas vezes, repetidas vezes, mas então mordeu o lábio com força e o pousou.
“Acabei obedecendo às ordens do eunuco também. Ele me disse que mataria minha família em casa, então deixei Han Ojo morrer.” Kogyo estremeceu e parou de escrever.
“Aprendi a escrever na esperança de que um dia, ao menos, pudesse fazer com que as pessoas soubessem a verdade. Presumo que você esteja do lado de Han Ojo, já que possui o brinco dela.”
“O quê?”
Kogyo ergueu os olhos. "Estou errada?", escreveu ela.
Jusetsu não sabia por que Kogyo presumiu que ela era aliada de Han Ojo, mas então explicou que Koshun havia encontrado o brinco no palácio interno e que ele era assombrado pelo fantasma dela.
Ao ouvir a palavra "fantasma", Kogyo empalideceu. "O fantasma de Han Ojo?", escreveu ela.
"Se este brinco pertence a ela, então deve ser", respondeu Jusetsu, mostrando-lhe o brinco que estava na palma da mão dela.
“O brinco é definitivamente dela. Lembro-me bem dele. Ficou gravado na minha memória porque ela só tinha um, entende?”
“Só um?”
“Sim. Ela só tinha um, mas niangniang sempre insistia em usá-lo mesmo assim.”
O “niangniang” a que ela se referia devia ser Han Ojo. Kogyo ficou olhando para o nada — parecia estar pensando em algo.
“Ela me contou sobre isso uma vez. Disse que deu um dos brincos ao noivo dela em sua cidade natal.”
“Noivo?”
“Niangniang estava prometida a alguém desde criança, mas seu pai, que era um oficial aqui, a obrigou a entrar para o palácio interno. Antes de ir, ela lhe deu um de seus brincos. Sempre que o tocava, pensava nele.”
Ela continuou escrevendo. “Niangniang não era uma pessoa alegre, mas era gentil. Minha família tinha uma pequena loja de macarrão, mas fui escolhida para trabalhar lá como dama de companhia. A maioria das outras damas de companhia vinha de origens surpreendentemente respeitáveis, e eu tinha dificuldades porque não sabia ler nem escrever muito bem e não tinha instrução. Niangniang não podia se dar ao luxo de ficar parada assistindo, então me acolheu como sua dama de companhia. E ainda assim…”
Kogyo parou por um instante. Logo em seguida, porém, pareceu se recompor e continuou. "Um dia, Niangniang acabou dando aquele brinco para alguém."
“Sério?”
“Quando ela voltou do pátio, não estava mais usando ele. Fiquei surpresa e pensei que o tivesse deixado cair, então perguntei onde estava. Em vez disso, ela sorriu e me disse que o havia dado a alguém — alguém que estava chorando, aparentemente. Talvez estivesse chateada com algo que aconteceu no palácio interno. Tenho certeza de que sabiam o quão bondosa Niangniang era. Niangniang jamais sonharia em envenenar alguém. Por isso, fiquei em dúvida se você era a pessoa para quem ela deu o brinco, ou alguém que a conhecia. Se fosse o caso, você saberia que ela era inocente.
Kogyo largou o pincel e expirou. Jusetsu colocou a mão na testa dela. Estava quente. A temperatura da mulher provavelmente havia subido devido ao esforço.
“Muito bem. Você deveria descansar um pouco”, disse Jusetsu, mas Kogyo tinha outros planos.
Ela pegou o pincel novamente e rapidamente anotou algo. “Niangniang não foi apenas incriminada por algo que não fez. Ela foi assassinada. Os eunucos a assassinaram. Por favor, encontrem uma maneira de puni-los. Eu também aceitarei minha punição.”
Isso foi tudo o que Kogyo conseguiu escrever antes de desmaiar. Jusetsu a deixou deitar e usou o resto do papel de cânhamo para anotar os nomes de três itens — flor de cera, fio de ouro chinês e pinellia — e entregou o papel a Onkei.
“Diga ao departamento médico para preparar esses medicamentos para mim”, disse ela.
Onkei saiu imediatamente do quarto com o papel na mão. Jusetsu deixou Jiujiu cuidando de Kogyo e voltou para o seu quarto. Ela colocou o brinco sobre a mesa e ficou olhando para ele.
Ela foi morta por um crime que não cometeu. Deve ter sido por isso que Han Ojo acabou como um fantasma e passou a assombrar o brinco.
Para quem ela deu? Essa pessoa provavelmente deixou cair. Já que foi encontrado no interior do palácio, isso significa que essa pessoa ainda devia estar trabalhando lá. Poderia ter sido uma dama da corte de longa data, ou talvez um eunuco que estivesse por lá desde a época do imperador anterior?
Jusetsu pressionou as têmporas. O que estava acontecendo? De qualquer forma, ela precisava contar a Koshun o que havia descoberto. Passou o dedo sobre o jade. Se conseguissem vingar Han Ojo, isso a satisfaria o suficiente para salvar sua alma? Por outro lado, se deixassem a injustiça impune, nem mesmo um ritual de repouso da alma resolveria o problema.
Jusetsu pegou o brinco e o balançou diante dos olhos dela.
Jusetsu usou os ingredientes que Onkei trouxe para preparar uma poção e deu para Kogyo beber. No dia seguinte, a temperatura da mulher havia baixado. Quando a alimentou com um mingau contendo ginseng e alcaçuz para fortalecer seu corpo, sua aparência doentia melhorou consideravelmente. Eles passaram o dia inteiro cuidando da mulher doente e, quando se deram conta, o sol já havia se posto. Logo depois, Koshun apareceu no palácio, pois Jusetsu havia enviado uma mensagem solicitando sua presença.
“Você sabe o nome do eunuco que cortou sua língua e matou Han Ojo?”
Quando explicaram a Koshun a sequência de eventos, Koshun não pareceu particularmente surpreso. Ele simplesmente fez essa pergunta a Kogyo. Kogyo assentiu e então escreveu seu nome em um pedaço de papel. Koshun deu uma olhada rápida antes de entregar o papel a Eisei.
“Aquele homem não é ninguém importante, mas é o lacaio da imperatriz viúva”, comentou. “Ele trabalha no setor de registro do palácio agora.”
“Ainda bem que optamos por não nos livrar dele naquela época”, acrescentou ele num murmúrio tão baixo que apenas aqueles ao seu lado, Eisei e Jusetsu, puderam ouvir. “Você sabe o nome do noivo de Han Ojo?”, perguntou Koshun também.
“Niangniang sempre o chamava de Juro”, escreveu Kogyo imediatamente. Em seguida, pareceu que estava refletindo por um instante.
O nome “Juro” referia-se à posição hierárquica de uma pessoa dentro de sua família. Era sempre usado para se referir ao décimo homem nascido em uma determinada geração.
Pouco tempo depois, algo pareceu lhe vir à mente, e ela rabiscou apressadamente mais algumas letras. "Kakuko", escreveu ela.
Esse era seu nome.
“Kakuko…” Koshun sussurrou, curioso.
“Você o conhece?” Eisei perguntou.
Koshun levou a mão ao queixo, tentando se lembrar. "Tenho a impressão de já ter ouvido esse nome antes. Tenho certeza de que foi Meiin quem o mencionou."
Meiin era o erudito que atuava como conselheiro do imperador.
“Ele se destacou no exame imperial, sendo aprovado com a nota máxima. Agora trabalha na biblioteca imperial como contador.” Ele tem uma boa memória, observou Jusetsu.
Koshun cruzou os braços e ficou perdido em suas reflexões. "Se a família dela era respeitável o suficiente para conseguir um cargo para a filha como concubina do palácio, o noivo devia vir de uma família igualmente respeitável. Não me surpreende que ele seja um oficial. Mesmo assim..."
Como o noivo de Han Ojo se sentiu em relação ao que lhe aconteceu? Ela foi arrancada de seus braços pelo palácio interno — ou seja, pelo imperador — e posteriormente morreu lá.
Jusetsu pressionou a mão contra o cinto. Ela havia guardado o brinco em algum lugar embaixo dele novamente.
"Será que eu... poderia conhecê-lo?" Jusetsu perguntou a Koshun, olhando para ele.
“Conhecer ele?” ele perguntou de volta.
Via de regra, as consortes do palácio interno não tinham permissão para se encontrar com pessoas de fora, a menos que fossem parentes.
“Parece que Han Ojo se lembrava com carinho do noivo, mesmo depois de ter ido para o palácio interno. Gostaria de perguntar a ele que tipo de relacionamento eles tinham.”
Se Han Ojo o amava tão profundamente, talvez fosse ele quem a mantinha ancorada a este mundo. Se ele estivesse em sua cidade natal, seria mais difícil encontrá-lo, pois Jusetsu não poderia deixar a propriedade imperial, mas como ele era um oficial do palácio, isso deveria ser possível. Koshun só precisava ajudar a facilitar o encontro.
Koshun pareceu pensar um pouco, mas logo respondeu: "Certo. Vamos combinar para vocês se encontrarem."
Jusetsu contemplou o rosto de Koshun por um instante. Apesar de ter sido ele quem solicitou a investigação, o imperador se dera ao trabalho de visitar uma simples dama da corte para ouvir sua história, e agora atendia prontamente aos desejos de Jusetsu. Por que aquele brinco de jade era tão importante para ele?, pensou Jusetsu.
“Eu te fiz essa pergunta desde o início, mas… por que você está se esforçando tanto com isso? Por mais insensível que isso possa parecer, não passa de um brinco que você encontrou no chão.”
Esse não era um comportamento normal para um imperador.
Koshun lançou um olhar para Jusetsu e se levantou sem dizer uma palavra. Irritada por ele ter ignorado sua pergunta, Jusetsu o seguiu até ele sair da sala.
Assim que saíram do palácio, Koshun parou abruptamente. Ele nem se deu ao trabalho de se virar para encará-la enquanto falava. "Acho que deixei isso claro quando vim vê-la pela primeira vez", começou ele em voz baixa.
Jusetsu ficou ao lado dele, olhando para o seu rosto.
"Só quero saber quem deixou cair esse brinco.", continuou ele.
“Eu te disse que não sei te responder…”
“Pensei que, se descobríssemos quem estava assombrando o brinco, eu seria capaz de investigar."
“…Então você me obrigou a procurar?”
“Graças a você, descobrimos que o brinco pertencia a Han Ojo. Agradeço muito.”
“Mas isso não nos ajuda a descobrir quem o deixou cair.”, esclareceu ela.
A pessoa que perdeu o brinco devia ser aquela a quem Han Ojo o havia presenteado. Era um eunuco ou uma dama da corte da época do imperador anterior, mas eram tantos que seria impossível contar.
“Você ainda não me disse por que quer saber isso”, argumentou Jusetsu.
Koshun podia parecer estar dando uma resposta adequada, mas estava se esquivando da verdadeira pergunta. Ele vinha fazendo isso desde o início. Por mais sincero que parecesse, o imperador não era um homem confiável.
Koshun olhou para Jusetsu de canto de olho, depois inclinou-se ligeiramente para a frente. O rosto dele aproximou-se do dela e ela quase recuou, mas o que aconteceu a seguir fez com que ela permanecesse imóvel.
Em voz ainda mais baixa, ele disse: "Acho que perguntar isso só lhe causaria mais problemas." Ele provavelmente não queria que ninguém soubesse a verdade.
“Você já me causou problemas suficientes — duvido que mais algum faça alguma diferença.”
“Não fui eu que peguei aquele brinco.”
Jusetsu olhou para o imperador. "Então, quem fez isso?"
“Meu espião no palácio interno.”
“Espião…” Jusetsu repetiu.
“A pessoa que deixou cair pode ter testemunhado a execução de um determinado complô. E, se for esse o caso, ela poderia me ser de grande ajuda.”
"Mestre", chamou Eisei, "não precisa entrar em muitos detalhes." Koshun lançou-lhe um breve olhar para que se calasse.
Uma conspiração? Então a pessoa que deixou cair o brinco era uma testemunha.
Jusetsu franziu a testa. "Entendo. É por isso que você estava se esforçando tanto nisso. Não pelo fantasma."
Tudo era mentira — até mesmo o que ele disse sobre sentir pena dela.
A expressão no rosto de Koshun permaneceu inalterada. Ele simplesmente disse: "Estou apenas respondendo à sua pergunta". E com isso, começou a se afastar.
Jusetsu permaneceu onde estava e lançou-lhe um olhar feroz enquanto ele se afastava na distância — mas então, uma lembrança de algo que Koshun disse voltou à sua mente.
“Você não vai salvá-la para mim?”
Ela aliviou a tensão da testa franzida.
Se ele só quisesse encontrar a pessoa que deixou cair, não teria precisado fazer aquela exigência. Mas quando Jusetsu percebeu isso, ficou confusa. O que era aquilo? Ela tinha certeza de que Koshun ainda não estava lhe contando a verdade.
Jusetsu observava Koshun desaparecer de vista em silêncio, mas de repente deu um passo à frente.
"Espere!", gritou ela para o imperador, que se dirigia para a passagem.
Quando ele se virou, ela acrescentou: "Ainda tenho algo que quero te dizer", e se aproximou ainda mais.
“Se for algo relacionado ao brinco, então eu não…”
“Não é!” Jusetsu o interrompeu.
Havia uma coisa que ela precisava perguntar. Ela não podia simplesmente deixar para lá.
Koshun encarou Jusetsu por um instante, depois fez um sinal para Eisei. Eisei o olhou hesitante, mas curvou-se e foi embora. Koshun se virou para caminhar em direção ao lago. Não havia brisa naquela noite, e o reflexo da lua flutuava na superfície escura da água.
“…Por que você ignorou o que viu? Não entendo suas intenções”, perguntou Jusetsu, olhando para Koshun à beira do lago.
Ela não conseguia nem começar a compreender por que ele fingiria não saber sua verdadeira identidade. O que poderia estar passando pela cabeça dele? Esse pensamento não parava de rondar sua mente.
Koshun olhou para ela de cima e começou a falar. "Eu não ganharia nada revelando a verdade." Sua voz era calma, sem emoção, tão suave quanto um raio de sol no inverno. Não era possível inferir nenhuma emoção nela, e sua expressão facial era exatamente a mesma.
“Pelo contrário, isso causaria mais problemas do que benefícios. Se eu a executasse, não teria mais uma Consorte Corvo, e meu povo me condenaria por tamanha crueldade. Meu avô foi longe demais”, disse ele, encarando a superfície da água. “Assim que se tornou imperador, transformou-se em uma pessoa terrível. Quanto mais velho ficava, mais paranoico se tornava, e convenceu-se de que todos ao seu redor estavam tentando lhe roubar o trono. Isso o levou até mesmo a matar os próprios filhos.”
O Imperador das Chamas de fato mandou executar seus dois filhos por traição.
“Não preciso mandar te matar. Mas se você quisesse me matar, aí seria outra história.” Koshun olhou para Jusetsu.
“…Não tenho qualquer desejo de fazer isso”, respondeu ela.
Koshun examinou sua expressão, tentando descobrir se ela estava mentindo. "Você não me odeia? Ou meu avô? Ou meu pai?"
Jusetsu evitou encará-lo. O luar brilhava na água, sua superfície fria reluzindo. "Não sei. Nunca senti ódio por outra pessoa. Se eu odiasse alguém, seria a mim mesmo."
Koshun ergueu uma sobrancelha. "Por quê?"
“Porque deixei minha mãe morrer. Quando minha mãe foi pega, eu estava sentada no chão, tentando prender a respiração… para que não me encontrassem.” Para que eu, sozinha, fosse poupada.
"Deixei minha mãe morrer", sussurrou ela, olhando para o reflexo da lua na água.
Esse sentimento atormentava e dilacerava o coração de Jusetsu há todo esse tempo. Tudo o que ela fez naquele dia foi tapar os ouvidos e tremer. Ela ingenuamente pensou que, se apenas esperasse a situação passar, tudo voltaria a ser como antes. Que tolice a dela.
Ao ver a cabeça da mãe, seu coração se despedaçou de arrependimento. Por que ela havia ficado parada e deixado aquilo acontecer? Por que não teve coragem de sair correndo e fazer alguma coisa?
A tristeza corroía as profundezas do seu coração, e nada podia cicatrizar as feridas que ela havia causado.
"Se você não me mataria porque não lhe traria nenhum benefício... isso deve significar que você poderia me matar no futuro, se algum dia trouxesse", disse Jusetsu casualmente, virando-se nos calcanhares. Apesar de ter dito isso, aquilo não a incomodou particularmente.
“Jusetsu.”
Aquela foi a primeira vez que o imperador a chamou pelo nome. O som era estranhamente suave e silencioso enquanto batia contra o peito de Jusetsu.
Quando ela se virou, ele havia tirado algo do cinto e estava estendendo para ela.
"O que é isso?", perguntou ela, franzindo a testa, sem entender o que ele estava tentando fazer.
Koshun pegou uma das mãos de Jusetsu e colocou a decoração nela. Era um pequeno ornamento em forma de peixe, feito de âmbar. "Estou lhe dando isso como um símbolo da minha promessa. Aceite."
“Que promessa?”
“Minha promessa de que não vou lhe matar.”
Jusetsu olhou alternadamente para Koshun e para o peixe âmbar. Seus olhos eram de um preto profundo e tão claros quanto a água corrente de uma nascente.
Por algum motivo, ela não sentiu que conseguia encará-los diretamente por mais tempo. Ela desviou o olhar.
"Pode ficar com ele", disse ela. "Não gostaria que ninguém pensasse que eu o roubei de você."
Jusetsu estendeu a mão onde o peixe âmbar estava apoiado. Koshun não aceitou e simplesmente virou as costas.
“E-Espere!”
Ele olhou para trás, para Jusetsu, que tentava alcançá-lo.
“Jusetsu, a mesma coisa aconteceu comigo”, disse ele.
“Perdão?”
“Deixei minha mãe morrer também.”
Suas palavras eram desprovidas de emoção, e seus olhos negros e profundos pareciam quase absorver a escuridão que o cercava. Pareciam vazios. O coração desse homem também sentia falta de algo, e nada preencheria esse vazio, Jusetsu pressentiu.
O luar brilhava sobre ele enquanto caminhava e desaparecia na distância. Até mesmo o peixe âmbar que repousava na palma da mão de Jusetsu era delicadamente iluminado por sua luz branca e pura.
***
Koshun tinha dez anos quando sua mãe morreu.
Sua mãe era frequentemente atormentada por melancolia naqueles dias, mas Koshun ainda lhe fazia visitas regulares. Esses episódios de depressão eram causados pelo assédio que ela sofria da imperatriz viúva — que, naquela época, ainda era a imperatriz.
Mesmo quando Koshun foi nomeado príncipe herdeiro, sua mãe permaneceu como consorte. O apoio que ela recebia era fraco, e essa foi justamente a razão pela qual seu filho acabou se tornando o príncipe herdeiro. O próprio herdeiro da imperatriz havia morrido na infância, então Koshun, que não tinha nenhum parente poderoso por parte de mãe para interferir, era o candidato perfeito.
O imperador era tímido e detestava conflitos, por isso evitava a todo custo criar problemas. Temia tanto a imperatriz e seus parentes que nada fez para proteger a mãe do príncipe herdeiro, deixando-a à própria sorte. Simplesmente pensava que, se se mantivesse afastado, a imperatriz acabaria por se cansar. Era o tipo de homem que não tinha a menor noção do sofrimento alheio.
A imperatriz, por outro lado, conhecia muito bem o sofrimento — e para prejuízo de todos os outros. Ela sabia exatamente como causar dor aos outros.
A mãe de Koshun detestava lutas tanto quanto o imperador, e talvez fosse por isso que eles se deram tão bem. Ninguém jamais saberia.
Ela se esforçou ao máximo para não magoar ninguém ao seu redor. Mesmo quando seu próprio pai — um funcionário de baixa patente — foi ridicularizado na frente de todos, ou quando ela mesma foi forçada a dançar — algo que detestava — e se tornou motivo de chacota, ela suportou tudo. Sem nunca lutar, ela aguentou tudo o que lhe impuseram. Da perspectiva de Koshun, ela parecia patética — mas ele era apenas uma criança na época. Ele não fazia ideia.
“Pare de vir aqui com tanta frequência”, disse ela. “Tenho certeza de que você tem muito o que fazer no seu palácio.”
Essas palavras fizeram Koshun sentir como se ela o estivesse abandonando. Por que ele estava sendo tratado como um estorvo quando estava tão preocupado com o bem-estar de sua mãe?
Ele havia aprendido muito, mas por dentro ainda era imaturo.
"Ótimo", disse Koshun, levantando-se furiosamente da cadeira. "Você não vai me ver de novo."
Ele então retornou ao seu palácio a leste — aquele que o príncipe herdeiro chamava de lar.
Por que eu disse uma coisa dessas?
Essa foi a última vez que ele viu sua mãe viva.
Após o funeral de sua mãe, Koshun visitou mais uma vez o palácio vazio dela. Sua mãe obviamente não estava em lugar nenhum — nem em seu quarto, nem em sua cama. Koshun sentou-se sem rumo em uma cadeira e ficou olhando para o jardim que se podia ver através da porta.
“Sua mãe não se rebelou contra a imperatriz por medo de que algum mal lhe acontecesse, jovem”, disse-lhe o Grão-Mestre Un. Aparentemente, era por isso que ela também o desencorajou a visitá-la com tanta frequência.
Ao ouvir isso, Koshun quis visitá-la novamente, mas antes que tivesse outra oportunidade, ela faleceu.
Sempre que se lembrava de suas últimas palavras para ela, sentia uma dor aguda, como uma lâmina perfurando seu peito e o derrubando. Essa lâmina fantasma deixava um buraco enorme onde antes estava. Ele estava vazio por dentro.
Diante das peônias no jardim, Koshun chorou.
Sempre que pensava em sua mãe morrendo sozinha, sem poder pedir ajuda ao imperador, e com seu próprio filho, de todas as pessoas, proferindo palavras duras contra ela, ele não sabia como compensar aquilo. Não havia nada que ele pudesse fazer — ela estava morta agora.
Naquele instante, uma sombra surgiu de algum lugar atrás dele.
“Quem é você? O que houve? Você está chorando?”, perguntou uma vozinha.
Koshun ainda se lembrava claramente da garota que se aproximou dele.
“Mestre?”
Tendo acabado de despertar de seu sono, Koshun olhou para Eisei. Colocou a mão na testa e levantou-se da poltrona. Eisei preparou um bule de chá perfumado para ele, e o primeiro gole fez com que a mente de Koshun se sentisse muito mais lúcida.
Com os seus compromissos oficiais da manhã concluídos, deitou-se em seu quarto no pátio interno. Sua carga de trabalho havia aumentado ultimamente e, por isso, frequentemente ficava acordado até tarde da noite. Seu corpo estava sofrendo com isso.
No entanto, as coisas estavam chegando a um ponto crucial.
Não havia a menor possibilidade de ele estragar tudo agora. Observou o vapor subindo e mergulhou em contemplação silenciosa. Para não perturbar seu mestre, Eisei concentrou-se em servir discretamente tigelas de tâmaras cozidas em mel. Acrescentou também algumas lichias e passou uma tigela para Koshun. O imperador levou uma à boca enquanto seus pensamentos vagavam. As lichias estavam frescas e deliciosamente doces. Ele podia sentir seu cansaço se dissipando.
“Mestre, tenho uma mensagem para você do Palácio Yamei.”
Eisei pegou o bilhete que um eunuco auxiliar havia trazido e o entregou a Koshun. Ao abri-lo, encontrou um pedaço de papel com estampa de água e uma caligrafia elegante rabiscada. Devia ser a letra de Jusetsu.
Assim que o imperador leu o documento, um leve sorriso surgiu em seu rosto.
“O que foi?” Eisei perguntou.
“Ah, nada.” Koshun fechou a carta e a guardou no bolso do peito. Em seguida, fez um gesto para que Eisei se aproximasse. "Kakuko foi chamado ao Instituto Koto?"
“Sim,” Eisei respondeu.
O Instituto Koto era para onde os melhores estudiosos do palácio eram enviados para compilar e organizar livros. Como o candidato mais impressionante no exame imperial, Kakuko foi convocado para interpretar um certo manuscrito clássico — mas isso era apenas um disfarce.
“Tragam dois uniformes de eunuco e enviem-nos ao Palácio Yamei.”
Na carta, Jusetsu exigia ver Kakuko o mais rápido possível. Na verdade, era uma carta com um tom bastante arrogante.
"Tudo bem..." Eisei concordou com relutância.
Não havia como levar Jusetsu ao Instituto Koto com suas vestes de Consorte Corvo, já que o instituto ficava fora do palácio interno. Por mais surpreendente que fosse, as consortes podiam sair desde que tivessem permissão, mas seria um transtorno e atrairia muita atenção se ela saísse apenas para falar com um mero oficial do palácio.
Vestir-se com roupas masculinas estava bastante na moda naquela época, e até mesmo algumas damas da corte usavam robes feitos para homens. Apesar disso, se Jusetsu simplesmente se vestisse com roupas masculinas, ainda pareceria uma mulher. No entanto, o imperador achou que havia uma pequena chance de ela conseguir se disfarçar de eunuco.
"Sempre que aquela consorte está envolvida", murmurou Eisei baixinho, "você não age como você mesmo, mestre."
Koshun detestava quebrar as regras, mas agora estava ignorando o fato de que Jusetsu era uma sobrevivente da última dinastia e a estava levando para fora do palácio interno, vestida de eunuco.
“Às vezes, essas coisas são necessárias”, respondeu Koshun.
Eisei parecia longe de estar convencido. Apesar de ter sido ele quem disse isso, Koshun também não entendia muito bem. Ele só queria ver o que aquela garota ia fazer. Fazia muito tempo que não se sentia assim — não desde que perdeu a mãe e o amigo.
Koshun levantou-se e tirou um pequeno estojo de um armário. Levantou a tampa e guardou o conteúdo no bolso do peito.
A contragosto, Eisei mandou chamar uma criada e instruiu-a a buscar alguns uniformes de eunuco.
***
“São todos homens!” disse Jusetsu.
Ela olhava ao redor, dominada pela curiosidade.
Eisei olhou para ela. Seus olhos pareciam dizer, bem, obviamente.
Koshun não disse nada.
Eles caminhavam pelos corredores do Instituto Koto. Acadêmicos entravam e saíam. Seu anfitrião era um acadêmico conhecido como Meiin, cujo nome verdadeiro era Kajun. O homem parecia inteligente e tinha pelo menos quarenta anos. Ao ver Jusetsu e Jiujiu vestidos de eunucos, ele simplesmente lançou um olhar para Koshun, com o rosto inalterado.
“Por aqui”, disse Meiin, guiando o grupo em direção a uma sala específica.
O destino deles era a sala de armazenamento de livros. As prateleiras junto à parede estavam abarrotadas de pergaminhos e rolos de bambu, e o cheiro de tinta velha impregnava o ar. No centro da sala, ainda mais rolos e papéis estavam empilhados sobre uma mesa, e num canto, um jovem estava sentado. Ao notar Koshun, ele se levantou de um salto, perturbado, e ajoelhou-se diante dele.
“Você é o Kakuko?”
“Sim, Sua Majestade.”
Koshun sentou-se em uma cadeira. Jusetsu, por sua vez, permaneceu parada, em choque, desde o momento em que viu o rosto de Kakuko.
"Você é..." Jusetsu começou, surpresa.
Koshun se virou, e Kakuko se juntou a ele, olhando para ela também. Por um instante, ele pareceu confuso, mas então soltou um grito de reconhecimento. Seu rosto ficou tão azul que quase se podia ouvir o sangue pulsando em suas veias.
Bastou um olhar para ela ter certeza. Ela percebeu pelos olhos caídos e pela expressão amigável. Ele podia estar vestindo um uniforme oficial agora, mas com certeza era o eunuco que ajudou Jusetsu quando ela foi atacada outro dia.
“Como isso é possível? Você não é aquele eunuco? Como veio parar aqui?”
“Bem, entenda…” O suor começou a escorrer pelo rosto de Kakuko e seus lábios tremeram enquanto ele falava. Então, ele fechou os olhos à força e se prostrou no chão. “Por favor, aceite minhas mais sinceras e profundas desculpas!”
"O que está acontecendo?" perguntou Koshun, pedindo uma explicação a Jusetsu — mas ela não sabia de nada melhor do que ele.
“Ele foi quem me ajudou quando aqueles eunucos me atacaram”, disse ela a ele.
“Ah”, comentou ele, arqueando as sobrancelhas. “Isso significa que ele se infiltrou no palácio interno, então.”
"É mesmo?" disse Jusetsu, olhando para o jovem de rosto pálido.
A julgar pela falta de desculpas apresentadas, parecia que o imperador tinha razão.
“Por que você faria uma coisa tão tola?” Meiin o repreendeu. “Quem sabe o que teria acontecido se você tivesse sido pego!”
“Isso significa que… ele arriscou ser descoberto para me poupar.” Jusetsu caminhou até Kakuko, que estava agachada no chão, e se ajoelhou também. “Qual foi o seu motivo para entrar sorrateiramente no palácio interno?”, perguntou ela.
Kakuko baixou a cabeça. Parecia indeciso se deveria ou não lhe contar a verdade.
"Tinha algo a ver com Han Ojo?"
Kakuko ergueu o olhar, surpresa. "Como você..."
“Ouvimos dizer que você era o noivo dela”, disse Koshun.
“Você está ciente de tudo isso?”
“A dama de companhia de Han Ojo nos contou.”
“A dama de companhia dela…” O olhar assustado desapareceu do rosto de Kakuko. Ele se aproximou sorrateiramente de Koshun. “Onde ela está?!”
Eisei prontamente se colocou entre os dois homens, impedindo que Kakuko se aproximasse demais. Kakuko continuou falando.
“Quero falar com ela. Tenho certeza de que sua dama de companhia saberia que Shosui jamais teria envenenado alguém…”
Kakuko ficou tão animado que Eisei teve que empurrá-lo para longe. Jusetsu o ajudou a se levantar do chão.
“…‘Shosui’ era o nome de batismo de Han Ojo?”, perguntou Koshun em voz baixa.
Sua voz calma também ajudou Kakuko a recuperar um pouco a compostura. "Sim, foi."
“Você gostaria de falar com a dama de companhia dela sobre o envenenamento da então Consorte Pega?”
“Sim. Não há como Shosui ter feito uma coisa dessas — ou se enforcado também…” disse Kakuko. Sua voz embargou com as lágrimas e ele baixou o olhar.
“Você se infiltrou no palácio interno para procurá-la?”
“Eu queria… eu queria descobrir o verdadeiro motivo da morte de Shosui.” Então, ele cerrou o punho sobre o joelho.
“Quando soube da morte de Shosui, ninguém me disse que ela havia se enforcado ou que supostamente havia envenenado outra consorte. Seu pai simplesmente disse que ela faleceu devido a uma doença. Eu sabia que ela não era fisicamente frágil, mas não é incomum que as pessoas morram de doenças que estão se espalhando. Naquele momento, eu simplesmente lamentei sua morte, como seria de se esperar.”
Ele só soube dos detalhes da morte dela depois de se tornar um funcionário do palácio.
“Ouvi muitos rumores sobre o imperador anterior — coisas sobre as consortes e também sobre a imperatriz viúva. Quando a história do nome de Shosui surgiu na conversa, não consegui acreditar no que estava ouvindo.”
Kakuko mordeu o lábio. "Shosui seria a última pessoa a envenenar alguém. Ela também não se mataria só porque era suspeita de fazê-lo."
“…Isso ainda não significa que você tinha o direito de entrar sorrateiramente no palácio interno”, disse Koshun, e Kakuko baixou a cabeça novamente.
“Vossa Majestade jamais poderá compreender. Jamais saberá o que é ter sua noiva arrebatada pelo imperador.”
“Que grosseria”, comentou Eisei.
O jeito como Kakuko falava fez Eisei lançar-lhe olhares fulminantes. Koshun ergueu a mão para impedi-lo.
“Estávamos noivos desde jovens. Nenhum de nós jamais pensou por um minuto que não conseguiríamos nos casar. Então, de repente, descobri que nem sequer me seria permitido vê-la novamente, pois ela iria para o palácio interno. Na noite anterior à sua partida para a capital, Shosui veio me ver em segredo, sem que seus pais soubessem. Ela tirou um de seus brincos e me disse para guardá-lo como lembrança. Era um brinco de jade que havia sido herdado de sua mãe.”
Ele fez uma careta. Parecia que ia chorar. "Eu também perdi isso, no palácio interno...", disse ele baixinho.
Jusetsu olhou para ele boquiaberto. "Com licença?"
Ele perdeu isso no palácio interno? Não pode ser.
Jusetsu tirou o brinco que estava guardando no cinto.
Os olhos de Kakuko se arregalaram tanto que pareciam que iam saltar das órbitas. "É isso! O fecho de metal estava danificado... Sim, é! É o brinco da Shosui!" Ele pegou o brinco com a mão trêmula, corando de excitação.
Então, este era o brinco que o noivo dela tinha, pensou Jusetsu. Isso foi uma surpresa — ela tinha certeza de que era o brinco que Han Ojo deu a alguém no palácio interno. Afinal, foi lá que ele foi encontrado. Não lhe ocorreu que seu noivo pudesse ter entrado sorrateiramente e deixado cair um.
“Foi você quem encontrou?”
“Não. Foi este cara”, disse Jusetsu, olhando para Koshun — embora ela soubesse que na verdade tinha sido o espião dele.
Foi então que Jusetsu se lembrou de que Koshun estava procurando a pessoa que deixou cair o objeto — porque ela era uma testemunha. Isso significava que a testemunha era Kakuko, mas até então, Koshun não havia demonstrado qualquer intenção de mencionar nada. Não cabia a Jusetsu tocar no assunto, então ela se manteve em silêncio.
Kakuko ficou surpreso com a maneira casual como Jusetsu se referiu ao imperador, mas ninguém a repreendeu por isso. Ele parecia entender o que estava acontecendo.
“Um fantasma está assombrando o brinco que você está segurando. Aquele cara quer salvá-la, então acabou me obrigando a ajudá-lo.”
“O imperador quer isso?” Kakuko olhou para Koshun e depois para Jusetsu. “Espere, você disse ‘fantasma’? Você não está falando do fantasma da Shosui… está?”
“Isso mesmo.”
Kakuko lançou-lhe um olhar de dor, depois fitou o brinco. "Ela ainda está sofrendo, mesmo depois da morte...?", sussurrou ele, inclinando-se para Jusetsu. "Se você foi 'forçada' a salvar o espírito dela, então suponho que você deva ser a... Consorte Corvo, não é? Ouvi dizer que você possui algumas habilidades mágicas..."
“Ah, com certeza”, disse Jusetsu com arrogância.
“Isso significa que você poderia salvar Shosui?”
Essa pergunta deixou Jusetsu perplexa. "Eu... não tenho certeza", respondeu ela sinceramente.
Kakuko estava visivelmente abatido.
“Se eliminarmos seus arrependimentos, ela poderá seguir para o paraíso sem a nossa ajuda. Se ela se tornou um fantasma porque busca vingança pelo seu assassinato, então talvez haja uma maneira de aliviar esse ressentimento.” Jusetsu se virou para Koshun em busca de confirmação. “Há, não é mesmo?”
Koshun assentiu com a cabeça. "Estamos nos preparando para prender o eunuco que a matou."
Algo entre um grito suave e um suspiro escapou dos lábios de Kakuko.
“Então isso significa que Shosui era definitivamente inocente? E… que ela foi assassinada? Assim, sem mais nem menos?” Ele caiu no chão como se toda a sua força tivesse abandonado o corpo. Seu rosto se contorceu em frustração. “Mas por quê? Por que Shosui teve que ter um destino assim?”
“Eles estavam visando a Consorte Pega. Han Ojo era a pessoa mais conveniente para eles incriminarem, pois ela morava no mesmo palácio. Essa foi a única razão.”
Kakuko cobriu o rosto com as mãos. Respirou fundo, tentando conter a indignação desmedida que crescia dentro dele. Por fim, ergueu o olhar, endireitou-se e voltou-se para Jusetsu. "Eu imploro, Consorte Corvo."
"O que?"
“Por favor, você não me deixaria ver o fantasma dela?” Ele agarrou-se firmemente à manga dela, como uma criança agarrada à mãe. “Eu imploro”, suplicou ele, com um olhar atormentado nos olhos.
Jusetsu não sabia exatamente o que fazer.
O fantasma era muito diferente da bela Shosui que Kakuko conhecera. Estrangulada até a morte, ela estava em um estado deplorável. Jusetsu hesitou em deixar Kakuko vê-la daquele jeito.
“Aquele fantasma não se parece com a Shosui que você conhecia. Seu ressentimento e arrependimentos não vingados se condensaram na forma de um fantasma…”
“Não me importa a aparência dela. Contanto que eu consiga vê-la uma vez, já me basta.” Kakuko tornou-se cada vez mais veemente. Invadir o palácio interno era um crime punível com a morte. Ele devia saber disso, e era por isso que seu apelo soava tão desesperado. “Só mais uma olhada”, disse ele.
Jusetsu sentiu uma pontada de amargura se espalhar por seu peito. "...Entendido", respondeu ela, estendendo rapidamente a mão à sua frente.
A palma da sua mão ficou quente, e uma pétala surgiu sobre ela — depois outra, e depois outra. Finalmente, todas se juntaram para formar uma única peônia.
A peônia brilhou fracamente antes de se transformar lentamente em uma chama pálida. Jusetsu pegou a mão de Kakuko e recolheu o brinco de jade que segurava entre os dedos dela. Assim que ela fez isso, Jusetsu soprou a chama trêmula e vermelho-clara.
A chama cresceu como fumaça e envolveu o brinco de jade. A figura de uma pessoa apareceu diante dele. Era a figura de uma mulher com um ruqun vermelho — Shosui. Ela estava igual a como a viram no Palácio Yamei — seu rosto estava inchado e roxo, e um xale de seda apertava seu pescoço.
A visão avassaladora fez Kakuko engolir em seco, surpreso, mas ele ainda assim não desviou o olhar. "Shosui... Shosui." Ele estendeu a mão para o fantasma, mas não conseguiu tocá-lo. Shosui não se virou para ele e, em vez disso, simplesmente olhou para o vazio. Ela não conseguia ouvi-lo.
Kakuko olhou para baixo, abatido, e continuou murmurando seu nome.
Ela costumava pensar nele com saudade sempre que tocava em seus brincos, e ainda assim seu espírito não tinha mais nenhum sentimento por ele. Ou era isso, ou aquele brinco era o que ela dera a Kakuko — e o que ela usava para se lembrar dele estava em algum outro lugar.
Mesmo assim, ela não tinha tempo a perder procurando o que Shosui havia dado a alguém no palácio interno. Será que Kakuko conseguiria fazer a voz dele chegar até ela de alguma forma? Jusetsu se sentiu frustrada enquanto refletia sobre isso, mas então Koshun a chamou. "Jusetsu", disse ele.
Sempre que aquele homem a chamava pelo nome, ela se sentia estranha. A voz de Koshun era suave e gentil. Apesar de não demonstrar nenhuma emoção no rosto, sua voz tinha uma ternura sutil e calorosa, que lembrava a luz tênue do sol. Aquilo a comoveu profundamente.
Ela tentou conter a sensação no peito, que era tão perturbadora quanto arrepios. Olhou para ele. "...O que foi?"
“Tome isto”, disse ele, tirando algo do bolso do paletó.
Jusetsu estendeu a mão automaticamente, mas quando viu o que ele havia colocado em sua palma, seus olhos se arregalaram em surpresa. "Eu não entendo..." O objeto que Koshun lhe dera era um brinco de jade — um brinco com uma grande gota de jade pendurada. “Esse brinco...?"
Parecia bastante semelhante ao outro brinco de jade. Não, era totalmente idêntico.
Jusetsu ergueu os dois brincos à sua frente e os comparou. Eram, sem dúvida, um par — dois brincos de ouro com pingentes de jade.
"Por que você o tinha?", perguntou Jusetsu, intrigada. Shosui deu um dos brincos para Kakuko e o outro para alguém no palácio interno.
Alguém.
“Você está me dizendo…”
“Aconteceu quando eu tinha dez anos. Eu a encontrei em um jardim no palácio interno, depois do funeral da minha mãe”, disse Koshun devagar e em voz baixa. “Eu não sabia quem ela era, mas ela estava usando apenas um brinco. Achei estranho, e quando perguntei por que, ela disse que tinha dado o outro para alguém especial. Não sei como ela conseguiu falar com tanta franqueza sobre isso, mas provavelmente foi para me distrair do fato de que eu estava chorando.”
Ele admitiu que estava chorando de forma natural. Isso lembrou Jusetsu de algo que ele havia dito antes.
“Eu deixei a minha mãe morrer também.”
Ela se perguntou como ele teria se sentido enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto.
“…Eu fiz algo terrível com ela”, continuou ele. “Pedi que ela me desse o brinco dela. Eu estava com ciúmes porque a pessoa por quem ela tinha tanto carinho ainda estava viva, mesmo que ela não pudesse vê-la. Eu não conseguia suportar isso.” A voz de Koshun era suave como água penetrando em uma rocha. As emoções que Koshun estava sentindo naquele momento penetraram o coração de Jusetsu em pequenas ondas.
“Então ela me deu este brinco. Ela sorriu enquanto o fazia. Ela não me deu porque eu era o herdeiro — ela me deu porque eu era uma criança chorona e ela queria me consolar…” Koshun fez uma pausa. Piscou, com os olhos marejados. Soltou um leve suspiro e então falou novamente.
“Sempre me arrependi de ter tirado aquele brinco dela, mas perdi a oportunidade de devolvê-lo.” Koshun encarou a pedra de jade. “Sempre tive esperança de poder devolvê-lo algum dia.”
Por isso ele estava tão preocupado em descobrir quem o havia deixado cair. Seus sentimentos finalmente fizeram sentido para Jusetsu.
"Você não vai salvá-la para mim?", Koshun perguntou a ela certa vez — e, como se viu, seu apelo era genuíno.
Jusetsu ofereceu o par de brincos a Kakuko. Ele os observou atentamente e, em seguida, os retirou cuidadosamente de sua mão. Envolveu-os com a mão e os pressionou contra o peito, como se os estivesse abraçando.
“Shosui…”
De repente, Kakuko ergueu os olhos, assustado. O fantasma à sua frente havia mudado. Seu rosto roxo e inchado agora era esguio, pálido e belo. O xale de seda que a estrangulava havia desaparecido, e suas roupas desalinhadas deram lugar a um ruqun de cores vibrantes, tão verde quanto a grama fresca. Os cantos de sua boca se curvaram em um sorriso gracioso.
Kakuko se levantou. Ele estendeu a mão para tocar sua bochecha, mas, naturalmente, isso era impossível. Mesmo assim, o jeito como Shosui estreitou os olhos e sorriu quase fez parecer que ela havia sentido o toque dele. Ela estendeu um dedo longo, delicado e pálido, deslizou-o pela bochecha dele e tocou seus lábios. Então, levou o dedo aos seus próprios lábios. Foi um beijo.
Lágrimas escorreram dos olhos de Shisui, mas ela ainda sorria. Seu sorriso mostrava que ela não poderia estar mais feliz.
E isso era tudo que bastava.
A visão de Shosui começou a oscilar como fumaça. Tornou-se menos nítida, dissipou-se e começou a desaparecer como um rastro de fumaça de tabaco. Kakuko estendeu a mão e a fumaça permaneceu relutantemente em seus dedos por um momento, como se não quisesse ir embora. Então, evaporou-se no ar.
Eles podem ter se reencontrado por meros segundos, mas para Shosui, foi o suficiente para salvar a alma dela. A cena fez o peito de Jusetsu se contorcer com uma dor dilacerante.
Kakuko desabou no chão, segurando os brincos contra o peito enquanto soluçava. Seu lamento era a única coisa que se ouvia no silêncio absoluto do cômodo.
[Kessel: Simplesmente lindo. Imagina ter a oportunidade de se despedir da pessoa que você ama dessa forma.]
"Muito obrigado", disse Kakuko a Jusetsu assim que seus soluços cessaram, e ele enxugou o rosto.
Então ele se virou para Koshun e fez uma reverência. “Você a libertou de seus arrependimentos. Estou disposto a pagar minha invasão ao palácio interno com a minha própria morte. Mas antes disso, há algo sobre o qual eu gostaria de ter a honra de falar com você, Vossa Majestade.”
Algo que ele quer falar com o Koshun?
Jusetsu olhou na direção de Koshun, mas o imperador simplesmente incentivou Kakuko a continuar com uma breve frase: “Prossiga."
Koshun ergueu o olhar com uma expressão reverente no rosto.
“Sempre que eu me infiltrava no palácio interno, fingia ser um membro do exército de patos e entrava com os homens que limpavam a lama das sarjetas do palácio.”
O exército de patos era o nome dado aos eunucos de baixa patente que realizavam trabalhos braçais. Havia muitos desses eunucos, e os membros desse grupo mudavam com frequência. Mesmo quando entravam ou saíam do palácio interno, os porteiros não se davam ao trabalho de identificá-los individualmente. Kakuko explicou que isso facilitava a infiltração na multidão. Detalhes sobre como ele se esgueirou para dentro do palácio seriam necessários para garantir a segurança do palácio interno no futuro.
No entanto, o que ele revelou em seguida chocou Jusetsu.
“As damas da corte adoram fofocar. Eu costumava me esgueirar atrás dos arbustos e escutar atentamente enquanto elas conversavam. Eu queria saber o que tinha acontecido com Shosui, entende? Enquanto fazia isso, acabei ouvindo por acaso o que um certo eunuco e uma dama da corte estavam dizendo. Era noite, e eles estavam debaixo de uma árvore, sem ninguém por perto. A princípio, as palavras deles não eram claras, então não me dei conta, mas parecia que estavam planejando secretamente envenená-lo, Vossa Majestade.”
“Envenená-lo?!”
O clima ficou tenso. Jusetsu olhou para Koshun, mas ele permanecia perfeitamente sereno, sem demonstrar qualquer emoção no rosto. Talvez seu espião o tivesse avisado disso, e ele já soubesse.
“Onde você ouviu isso?”, perguntou Koshun em voz baixa.
“No jardim do Palácio Kinko.”
O Palácio Kinko — era lá que ficavam os arquivos.
“O eunuco e a dama da corte estavam debaixo de um jasmim-do-imperador, e eu estava num arbusto próximo.”
Koshun assentiu com a cabeça diante da resposta e disse: “Há uma dama da corte que trabalhou como dama de companhia da imperatriz viúva e agora trabalha como catalogadora nos arquivos daquele mesmo palácio. Aquele eunuco também trabalhava para a imperatriz viúva. Ele foi rebaixado para o instituto de eunucos. A maioria dos eunucos e damas da corte que eram lacaios da imperatriz viúva foram punidos, mas nem todos foram caçados.” Koshun continuou a falar sem parar.
“Foi por isso que incumbi meus espiões de vigiar qualquer eunuco ou dama da corte que tivesse tido alguma ligação com a imperatriz. Eu também sabia que havia acontecimentos suspeitos envolvendo essas pessoas. No entanto, meus espiões não conseguiram obter nenhuma prova conclusiva. Então, certa noite, eles flagraram um eunuco e uma dama da corte conversando em segredo.”
O imperador lançou um olhar para Kakuko.
“Meus espiões não conseguiram ouvir a conversa de onde estavam. Assim que os dois terminaram de falar, foram embora, mas depois disso, meus espiões viram alguém correndo apressadamente de um arbusto próximo. Ele parecia um eunuco, mas eles não tinham certeza. Os espiões o perseguiram, mas o perderam de vista na escuridão da noite. Ele, no entanto, deixou algo para trás, talvez caído enquanto fugia em pânico. Era um brinco de jade.”
Em outras palavras, esse era o brinco que Koshun trouxe para Jusetsu.
A boca de Kakuko estava aberta em descrença. "Então... Então você já sabia do plano de envenenamento?"
“Não”, disse Koshun. “Como eu disse, meus espiões não conseguiram obter nenhuma informação ou prova definitiva. É por isso que você foi uma testemunha importante. O que você me contou foi extremamente importante. Por favor, aceite minha sincera gratidão.” Kakuko olhou para o chão, com uma expressão de conflito.
“Você não deveria agradecê-lo, mestre”, interrompeu Eisei com voz fria. “Se esse homem tivesse lhe relatado imediatamente, você não teria precisado passar por todo esse processo para encontrar a pessoa que deixou cair o brinco. O único motivo pelo qual ele manteve isso em segredo por todo esse tempo é porque isso revelaria que ele se infiltrou no palácio interno. Ele estava mais interessado em se manter seguro do que em manter você seguro.”
A última frase de Eisei foi especialmente dura. Kakuko olhou para os próprios pés.
“Quando ouvi o que estavam dizendo… não me ocorreu imediatamente que eu precisava te contar. Para ser honesto, não tenho uma opinião muito positiva sobre a família imperial. Afinal, foram eles que roubaram a minha noiva.”
Kakuko não tinha mais arrependimentos persistentes, o que talvez explicasse por que não fez nenhum esforço para esconder o que realmente sentia. Eisei e os outros ergueram as sobrancelhas.
“Mas você fez o seu melhor para salvar Shosui. Foi graças ao cuidado que você dedicou ao brinco dela durante todos esses anos que conseguimos salvá-la. Para retribuir esse cuidado, contei tudo o que ouvi. Mas… todo esse esforço foi só para me encontrar, Vossa Majestade? Foi tudo para que Vossa Majestade ouvisse meu depoimento?” Kakuko tinha um olhar desesperado. Koshun não respondeu.
Não pode ter sido, pensou Jusetsu. O fato era que Koshun guardou o brinco de Shosui por todo esse tempo e pediu a Jusetsu que a salvasse. Seu desejo de salvá-la não devia ter relação com seu objetivo de encontrar Kakuko. Era um desejo pessoal dele.
Se ele só quisesse encontrar uma testemunha, poderia ter mantido silêncio sobre o assunto da espionagem. E se o fizesse, Kakuko não teria nada além de gratidão para com o imperador. Koshun não era tolo o suficiente para não perceber isso. Será que ele estava revelando tudo simplesmente porque era o certo a fazer?
Esse homem não é lá muito esperto, pensou Jusetsu.
Ela finalmente começou a entender o que estava acontecendo. Koshun era incapaz de expressar suas emoções e não tinha como comunicar como realmente se sentia. Isso poderia ser devido à morte de sua mãe, ou talvez ao período em que sua herança lhe foi tirada — ela simplesmente não sabia.
Jusetsu começou a falar. “…Se o único desejo dele era encontrar você, havia várias maneiras mais eficientes de fazê-lo. Pedir minha ajuda foi uma forma excessivamente indireta de conseguir isso. E, no entanto, tinha que ser eu a ajudar, porque ele me pediu para salvá-la.”
Essa foi a resposta mais importante de todas.
Kakuko olhou fixamente para Jusetsu, depois para o brinco em sua mão. Se pensasse com calma, até ele deveria ter sido capaz de entender o que Jusetsu estava dizendo.
“Sim”, disse Kakuko alguns instantes depois, assentindo com a cabeça. “Você tem toda a razão, Consorte Corvo. Graças ao imperador, pude ver Shosui novamente. Peço minhas sinceras desculpas por ter sido tão descortês.”
Então ele baixou a cabeça e curvou-se diante de Koshun mais uma vez. "Obrigado por tudo que você fez por ela."
“Eu estava apenas retribuindo um favor”, disse Koshun, antes de se levantar. “Você pode ir para casa — e não diga uma palavra a ninguém sobre o nosso encontro.”
"Hã?" Os olhos de Kakuko se arregalaram. "'Ir para casa?' Você não vai me mandar para o centro de justiça?"
O centro de justiça era o órgão que administrava as punições aos criminosos.
“Os homens são condenados à morte ao se infiltrarem no palácio interno sem permissão, mas desde que tenham a permissão do imperador, são bem-vindos. Você se infiltrou no palácio interno sob minhas ordens para descobrir o que aquele eunuco pretendia fazer.”
O imperador estava dizendo que iria ignorar o crime do homem. De jeito nenhum ele permitiria que uma testemunha importante como Kakuko fosse morta.
"V-você tem certeza?" perguntou Kakuko, olhando para o imperador.
“Mas eu não te contei o que eles disseram para implorar pela minha vida. Eu não tinha a menor intenção de te pedir para me poupar…”
Kakuko estava ficando irritado. Que tolo emotivo, Jusetsu não pôde deixar de pensar, por mais inapropriado que fosse naquele momento. Ela percebeu que, em parte, estava apenas com ciúmes — era porque ele era um homem tão apaixonado que tinha conseguido fazer tanto por Shosui.
“Eu já te disse, não disse? Eu queria retribuir a Han Ojo pelo que ela fez por mim. Você faz parte disso”, Koshun disparou. “Não que isso vá trazer Han Ojo de volta à vida, mas…”
Por mais direto que fosse, a última frase que ele sussurrou continha uma profunda tristeza. Temendo que até Kakuko pudesse ter percebido, ele se calou.
“Seria uma pena perder um dos nossos funcionários mais competentes por algo tão trivial. Além disso, gostaria de descobrir onde estão escondendo esse veneno.” Koshun olhou para Eisei, mas o atendente balançou a cabeça negativamente.
“De acordo com os relatórios que os espiões nos forneceram, não foram encontrados vestígios de veneno no Palácio Kinko nem no instituto de eunucos do palácio.” Parecia que eles já haviam investigado isso.
“Eles não tiveram nenhuma oportunidade de obter o veneno em primeiro lugar.”
Eles sabiam que os espiões estavam os procurando e, sendo esse o caso, não tinham como obter veneno de fora.
“Mas podemos presumir, pela conversa deles sobre o plano, que conseguiram obter uma pequena quantidade. Antes de confrontá-los, quero garantir algumas provas. Poderíamos obrigá-los a revelar o paradeiro do veneno depois de prendê-los, mas se houver algum colaborador que desconhecemos, eles se livrarão dele nesse meio tempo. Não consigo imaginar que esconderiam uma arma de assassinato tão importante em algum lugar totalmente fora de vista”, disse Koshun.
Ele parecia perplexo. Havia um limite para o número de lugares onde poderiam esconder o veneno sem que seus espiões o encontrassem. Também não havia nenhum vestígio de comunicação com outros colaboradores. Enquanto Koshun e Eisei discutiam isso, Jusetsu refletia sobre alguns pensamentos próprios.
Então, algo a agarrou e fez soar alarmes em sua cabeça.
O Palácio Kinko… Uma dama da corte que trabalhava como catalogadora do palácio… Um eunuco.
Não ouvi algo sobre isso há pouco tempo? Jusetsu pensou consigo mesma. Qual era o contexto?
“Uma dama da corte que trabalhava como catalogadora do palácio… Um eunuco…” ela sussurrou, enquanto repassava essas palavras em sua memória.
Devia haver algo que ela estava esquecendo.
"Oh!" exclamou Jusetsu em voz surpreendentemente alta, fazendo com que Koshun e os outros olhassem para ela.
"O que foi?" perguntou Koshun.
Jusetsu não respondeu e, em vez disso, virou-se para Jiujiu, que estava atrás dela. "Jiujiu", disse ela, "você se envolveu com aquela dama da corte, a catalogadora do palácio, que é bem difícil, não é?"
“Hã? Ah, certo, sim.”
“Ela é recém contratada como você?”
“Sim, ela é.”
“Oh…”
"Do que você está falando?" perguntou Koshun. Ele olhou para Jiujiu, fazendo-a corar.
“Não, é só que… Tem uma dama da corte que eu conheço que trabalha como catalogadora do palácio. Ela troca cartas com um eunuco no Palácio Hien, e… Espera, ela não queria que eu contasse isso para ninguém!”
Jiujiu conteve-se rapidamente. As damas da corte pertenciam ao imperador, portanto, qualquer envolvimento romântico entre elas e eunucos não devia ser comentado publicamente — embora, na realidade, as pessoas fingissem não ver.
No entanto, aquela dama da corte devia ter outro motivo para proibir Jiujiu de revelar seu segredo.
“Você disse que ela lhe contou que não foi ela quem trocou as cartas com o eunuco, mas sim outra pessoa, não foi?” Jusetsu confirmou.
“Sim”, respondeu Jiujiu. “Outras pessoas pediam para ela entregar cartas. Devem ter sido seus superiores, já que a estavam usando para fazer recados, e provavelmente havia algum tipo de troca envolvida.”
Superiores — isso indicava damas veteranas da corte. Koshun lançou um olhar feroz.
“Jiujiu. Aquela dama da corte estava lhe impondo essas exigências absurdas como pretexto.”
"Um pretexto?" Jiujiu repetiu, atônito.
“Um pretexto para transportar essas cartas.”
Ele achava estranho o fato de a dama da corte importunar Jiujiu sempre que aparecia. A facilidade com que uma recém-chegada como ela conseguia abandonar seu posto com tanta frequência só aumentava suas suspeitas. Se um de seus superiores a estava dispensando, ela poderia ter acobertado isso de qualquer maneira que quisesse.
“Qual era o nome do eunuco do Palácio Hien com quem ela trocava cartas?”, perguntou Koshun em voz grave e baixa.
Jiujiu enrijeceu ao ouvir o tom intenso dele. Então, respondeu com uma expressão nervosa no rosto: "O nome dele é Choeki."
“Aquele eunuco não trabalhava para a imperatriz viúva”, disse Koshun. “E quanto à catalogadora que estava cuidando das cartas?”
“Ela é a décima quarta filha da família Ri. Seu nome é Shuyo. Seu pai é assistente do comitê de comércio.”
“Você sabe o nome da dama da corte que pediu a ela para entregar as cartas?”
“Não…” disse Jiujiu, movendo os olhos inquietamente enquanto se esforçava ao máximo para se lembrar. “Hum, mas… ela me disse uma vez que havia outra dama da corte que cuidava muito bem dela… Ela disse que ia pedir para a dama interceder por ela para que conseguisse um emprego como dama de companhia um dia desses. O nome dela era Shin.”
Eisei lançou um olhar chocado para Koshun. Koshun simplesmente ergueu as sobrancelhas em surpresa por um instante, mas Jusetsu então viu essa onda de emoção se dissipar novamente como a maré.
“Shin era dama de companhia da imperatriz viúva”, disse Koshun calmamente. “Ela era a dama da corte que conversava secretamente com o rapaz do instituto de eunucos do palácio. Não sei se Choeki é amante ou amigo dela, mas ela estava usando esse recém-chegado como fachada para desviar a atenção do fato de que os dois estavam se comunicando. Talvez não fossem apenas cartas que ela estava lhe entregando. Sei, o veneno não está no Palácio Kinko nem no instituto de eunucos do palácio — está no Palácio Hien. Procure no quarto de Choeki.”
"S-sim, mestre", respondeu Eisei com uma reverência, e saiu da sala.
Ao descobrir que alguém que ela conhecia estava envolvido em um plano de assassinato, Jiujiu empalideceu.
“Shuyo não sabia necessariamente com o que estava cooperando”, disse Jusetsu. “Não consigo imaginar que ela tivesse tanta coragem. Eles usaram as investidas dele como isca.”
“Sim…” Jiujiu assentiu sem ânimo.
Jusetsu olhou para Koshun. Ele estava com o olhar perdido, aparentemente contemplando algo. Ela se lembrou da emoção que brilhou em seu rosto quando ele ouviu que a dama da corte se chamava Shin. Quase parecia uma expressão de alegria.
De perfil, ele parecia tão imóvel quanto uma árvore, com o olhar fixo à frente. Era impossível discernir a emoção por trás de seus olhos.
Lady Shin, a dama da corte catalogadora do palácio, e Kogen, o eunuco do instituto de eunucos do palácio, foram presos pouco depois.
Um pacote de Gelsemium elegans, um tipo de planta venenosa, foi descoberto no quarto de Choeki no Palácio Hien. Choeki não tinha ideia de que era venenoso, nem que seria usado para matar o imperador. Ele disse que sua namorada, Lady Shin, lhe pediu para guardá-lo para que não fosse encontrado, então ele o escondeu.
[Kessel: Infelizmente a planta não possui nome popular no Brasil, então optei por usar o nome científico. Em inglês, ela é conhecida como “the heartbreak grass”, o que em uma tradução livre seria: a planta do desgosto. Heartbreak seria traduzido como coração partido, em uma tradução literal.]
Os pais de Lady Shin tinham uma loja de remédios e ela mantinha em segredo a Gelsemium elegans. Esta era a mesma planta com a qual a mãe de Koshun, Consorte Sha, havia sido morta na época do imperador anterior. Depois que a imperatriz viúva foi colocada em confinamento, Lady Shin conseguiu um emprego temporário como catalogadora do palácio. Kogen a abordou com uma trama de assassinato, e ela concordou. No entanto, por mais que quisessem levar o plano adiante, os olhos atentos dos espiões de Koshun significavam que tinham que manter as aparências. Eles se aproveitaram de Ri Shuyo e fizeram com que ela ficasse com ele.
Kogen confessou que a imperatriz viúva o subornou para conspirar para assassinar o imperador.
O eunuco que incriminou Han Ojo e a matou foi capturado ao mesmo tempo. Ele também admitiu que a imperatriz viúva o havia subornado.
Depois de os assuntos acima mencionados terem sido solenemente examinados no ministério do outono – o centro da justiça – a imperatriz viúva foi condenada à execução.
Jusetsu sentiu a presença de alguém e ergueu os olhos. As portas se abriram e Shinshin saiu voando naquele exato momento. Eisei pegou o pássaro mágico que desceu sobre ele com facilidade, segurando-o pela nuca. Koshun entrou depois. Jusetsu, ainda sentada em sua cama, dentro das finas cortinas de seda, observou-os entrar.
Koshun foi até as cortinas e deu uma ordem a Eisei. “Solte o pássaro.”
Koshun então abriu ligeiramente as cortinas. Jusetsu olhou para ele.
“Eu te dei permissão para entrar?”
“Se isso te incomoda, tranque a porta.”
"...Por que você está aqui esta noite? Não achei que você precisasse mais de mim."
Não afetado pelas palavras cruéis de Jusetsu, Koshun olhou ao redor da sala. Seu olhar pousou em um queimador de incenso que estava em cima de um armário. "Quando cheguei aqui, achei o cheiro de incenso nesta sala bastante intenso. Isso foi para encobrir o cheiro da sua tintura de cabelo?"
Jusetsu franziu a testa. Foi isso que ele veio perguntar? "Saia." Jusetsu tocou uma das peônias em seu cabelo.
“Não, espere”, disse Koshun, parando-a de forma relaxada. “Você fez tanto por mim que senti que precisava lhe trazer uma recompensa.”
“Uma recompensa? Não preciso de dinheiro.”
Koshun entrou pelas cortinas sem permissão e ficou na frente de Jusetsu.
Ela recuou um pouco e recuou. “O q-que é isso?”
Koshun colocou a mão no bolso da camisa e jogou uma bolsa de brocado com cordão na direção dela. Aterrissou no joelho de Jusetsu. Que comportamento estranho, Jusetsu notou ao abri-lo. Lá dentro, ela encontrou algumas tâmaras secas de jujuba. “Uma ‘recompensa’ bastante… mísera, você não acha?”
Era o tipo de coisa que você daria a uma criança para fazer suas tarefas.
"A ideia me ocorreu há pouco e aconteceu de eu ter algumas. Vou providenciar uma recompensa oficial para você em outra ocasião, completa com um certificado."
"Não quero nada grandioso. Isso é o suficiente para mim", disse Jusetsu, pegando uma tâmara de jujuba nos dedos e colocando-a na boca. Quanto mais ela mastigava, mais sua doçura única se espalhava por sua boca.
Koshun se sentou na cama.
"Por que você está sentando?" perguntou Jusetsu, deslocando-se ligeiramente para o lado.
“…A partir de hoje, acabou”, Koshun disse a ela em um sussurro baixo.
Jusetsu quase perguntou o que ele queria dizer, mas então ela percebeu. Hoje foi o dia da execução da imperatriz viúva.
O olhar de Koshun vagou pela sala. Ele parecia cansado.
“Eu queria vê-la morta todo esse tempo”, disse Koshun, suas palavras tão calmas e firmes quanto um respingo de lama escorregando de uma parede. “Aquela mulher matou minha mãe e meu amigo – e fez isso com facilidade, como se estivesse arrancando as asas de um inseto indefeso.”
“Seu amigo…?” Jusetsu sabia o que aconteceu com sua mãe, mas foi a primeira vez que o ouviu mencionar um amigo.
“E, mesmo assim, decidi não matá-la por ódio. Decidi levá-la a julgamento da maneira certa, de acordo com a lei, e depois executá-la. Eu não faria nada dissimulado. Afinal, não sou como ela. É por isso que fiquei tão feliz quando pensei que conseguiria alguma prova, pensando que finalmente seria capaz de condená-la à morte.”
Ele se recostou e deitou no colchão. Jusetsu queria dizer: “Quem você pensa que é, deitado na cama de outra pessoa sem permissão?!” mas Koshun parecia tão excepcionalmente exausto que acabou fechando os olhos. Jusetsu perdeu a chance de expressar qualquer objeção.
“Acontece que não existe uma maneira certa de matar alguém”, ele murmurou indistintamente antes de abrir um pouco os olhos. "A única coisa que me resta é o meu arrependimento por não ter conseguido salvar nenhum deles. Todo esse tempo, fui capaz de usar meu desejo de matá-la para me consolar... mas não consigo mais fazer isso."
Koshun olhou para Jusetsu. "Você me disse que não odiava ninguém, não é? Como você conseguiu se manter firme?"
Jusetsu olhou para ele e depois desviou o olhar. — Não sei. Me senti vazia por um tempo. Foi a Consorte Corvo anterior que me fez sentir completa novamente.
“Entendo,” Koshun soltou um suspiro profundo. “Deve ser esse vazio que estou experimentando agora.”
Sua voz estava rouca. Jusetsu não disse nada. Ela estava dolorosamente ciente do motivo pelo qual ele tinha vindo visitá-la naquela noite, mas simplesmente não conseguia encontrar palavras para consolá-lo adequadamente.
Koshun quase estendeu a mão para ela, perguntando-se o que ela estava pensando, mas se conteve. Lentamente, ele se levantou e começou a falar, afrouxando a gola da camisa.
“Sobre aqueles eunucos que atacaram você…”
“O quê?”
Do que ele está falando agora? Jusetsu se perguntou, mas a lembrança de como ela foi atacada no caminho para os aposentos de limpeza em uma ocasião anterior veio à mente.
"Acontece que a imperatriz viúva foi quem os induziu a fazer isso, exatamente como eu pensava. Ela ficou sabendo do fato de que você estava fazendo algo sob minhas ordens."
"Como diabos a imperatriz viúva conseguiu tanta informação? Sua vigilância é..."
Muito relaxada, ela quis dizer, mas se conteve antes de terminar a frase. Foi intencionalmente negligente. Ele havia afrouxado a rede para poder esperar que as pessoas caíssem na armadilha.
"Graças a essas táticas, também conseguimos expulsar o restante dos apoiadores da imperatriz viúva. No entanto, peço desculpas por deixar você ser pego no fogo cruzado. Sinto muito."
Seu tom era tão indiferente que era difícil acreditar que ele realmente se sentisse mal. Jusetsu ficou quieta e Koshun continuou falando.
"Como você tinha um guarda-costas, presumi que você ficaria bem. Esse foi meu erro."
Parecia que ele estava sentindo remorso, embora de uma maneira única. Sua expressão facial ainda era totalmente ilegível.
Então Koshun piscou levemente e olhou diretamente para o rosto de Jusetsu.
“Que foi?" ela perguntou.
“…Você estaria interessada em se tornar uma das minhas verdadeiras consortes?”
"O que?!" Jusetsu franziu a testa. "Isso veio do nada! Tem certeza de que ainda não está com sono?"
“Estive tão ocupado até hoje que não dormi direito… Mas quando eu disse que queria que você fosse uma das minhas consortes, não estava falando enquanto dormia.”
"Você deve estar. Eu sou a Consorte Corvo e..."
“Não há regra que diga que o imperador não pode tomar a Consorte Corvo como uma de suas consortes pessoais.”
“Apenas porque todos já sabem que não é possível.”
Não havia como Koshun não saber disso. Ele estava falando bobagens e isso irritou Jusetsu. Ela não poderia se tornar uma consorte adequada e também não poderia ir a lugar nenhum. Ela não podia desejar nada. Gritar e reclamar sobre o absurdo de sua posição para este homem não mudaria nada. Jusetsu simplesmente desviou o olhar.
"Eu me recuso a continuar com esse absurdo. Apresse-se e vá embora", disse ela insensivelmente, mas Koshun não demonstrou intenção de se mover.
Talvez eu devesse forçá-lo a sair, Jusetsu pensou consigo mesma - mas ela congelou, porque naquele momento Koshun estendeu a mão e tocou o cabelo dela.
“…Quando eu vi você na beira do lago, você parecia como eu imaginava que uma deusa seria.” Koshun olhou para baixo, talvez tentando se lembrar do que viu naquela época. "Seu cabelo prateado brilhava ao luar. Nunca tinha visto nada tão lindo em minha vida..."
Seu suave sussurro de voz veio de cima dela. Jusetsu não tinha ideia de como responder. Seus olhos se moveram desconfortavelmente, Koshun se aproximou e Jusetsu ficou ainda mais confuso. “O que…?”
Ela tentou gritar: “O que você está fazendo?” mas antes que ela pudesse fazer isso, Koshun inclinou-se e caiu direto no colchão.
“Ãhn…?”
Quando Jusetsu olhou para ele novamente, ela o encontrou roncando com os olhos fechados.
Ele estava dormindo.
“…Vamos,” disse Jusetsu, mas Koshun não abriu os olhos.
Em vez de falar, tudo o que ela conseguia ouvir era ele respirando pacificamente. Jusetsu balançou os ombros em pânico.
"Vamos, acorde logo! Esta é a minha cama! Você não pode dormir aqui."
Koshun não mostrou sinais de se mexer – e, para piorar a situação, ele estava segurando o cabelo dela. Ela tentou afastá-lo, mas ele não parecia querer soltá-lo. Em vez disso, seu aperto forte aumentou ainda mais.
"Huh?! Eisei? Eisei! Você deve estar aí. Esse idiota adormeceu na minha cama! Leve-o para casa!"
Ela ouviu a voz dele vindo do outro lado da cortina. "Seria um ato atrevido da minha parte acordar o mestre e levá-lo para casa, então, infelizmente, estaria além das minhas capacidades fazê-lo. Você não entenderia. Eu apreciaria se você pudesse, pelo menos, mostrar-lhe algum respeito, permitindo-lhe dormir em paz."
"O que...? Se você não está brincando, então onde eu devo dormir?"
"Talvez você pudesse gentilmente colocar a cabeça no chão?" ele respondeu. Ele então aparentemente desapareceu por trás da cortina sem esperar por uma resposta. Jusetsu já percebia isso há algum tempo, mas sua atitude em relação a ela era extremamente hostil.
“Você…”
Jusetsu fez uma careta para as cortinas e depois olhou amargamente para Koshun. Pode ter sido a cama de outra pessoa, mas ele se sentiu mais do que confortável dormindo nela. Ele também não parecia querer largar o cabelo de Jusetsu.
No entanto, ela tinha uma maneira fácil de expulsá-lo que funcionaria, independentemente de ele estar dormindo ou acordado. Jusetsu tocou uma peônia na nuca e a removeu do cabelo. Bastaria uma única respiração na flor e Koshun estaria fora da porta.
Jusetsu olhou para o rosto adormecido do imperador. Por que ele parecia tão pacífico assim?
A peônia na palma da mão se transformou em uma chama vermelha pálida. Jusetsu gentilmente envolveu-o com as mãos e segurou-o sobre a cabeça de Koshun. Quando ela afastou as mãos, a chama se transformou em uma série de pétalas levemente brilhantes, e elas lentamente flutuaram em direção a ele.
"Esta noite, e somente esta noite..." Jusetsu sussurrou, "deixe-me lhe dar um bom sonho."
As pétalas desapareceram quando pousaram em Koshun. Jusetsu nunca descobriu que tipo de sonho ele teve naquela noite, nem o que aconteceu nele.
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