Corvo do Palácio Interno Japonesa

Tradução: Kessel

Revisão: Kessel


Volume 1

Capítulo 2: O Apito de Flor (Parte 2)

Os dias eram longos nessa época do ano. Após o primeiro jing — que durou das sete às nove da noite — o céu começou a adquirir um tom índigo profundo e um mensageiro partiu do Palácio Eno. A dama de companhia que chegou estava com tanta pressa que praticamente corria. Isso era incomum, pois as damas de companhia que trabalhavam para consortes raramente se apressavam. O fato de essa tarefa ter sido dada a uma dama de companhia, em vez de uma dama da corte de baixa patente ou um eunuco, dizia a Jusetsu uma coisa: por mais urgente que fosse, eles queriam manter a mensagem em segredo.

"Seria tão gentil de vir ao Palácio Eno?", implorou a dama de companhia com uma reverência apressada.

“O que houve?”

“É que…”

A dama de companhia estava com uma crise de tosse e bebeu um pouco da água que Jiujiu havia trazido para ela. Jusetsu percebeu que seria mais rápido simplesmente ir embora do que ouvir sua explicação, então decidiu ir até a residência de Kajo. Desta vez, ela foi vestida com seu habitual robe preto. Sob o céu do início da noite, tudo parecia muito mais escuro. Com um leve esvoaçar de seu fino xale de seda — tão delicado quanto um aglomerado de estrelas — ela apressou-se em direção ao Palácio Eno.

"Você quer que eu encontre um item perdido para você?", Jusetsu repetiu para a dama de companhia ao seu lado enquanto corriam em direção ao Palácio Eno.

“Sim. É um dos itens que um comerciante nos ofereceu outro dia…”

Jusetsu se sentiu decepcionada. "O quê? Pensei que fosse algo mais sério."

A dama de companhia, no entanto, continuava tão pálida quanto antes. "Acredite em mim, é sério. Era uma oferenda, portanto pertence a Sua Majestade."

“Não a Kajo, então?”

“Foi um presente que Sua Majestade concedeu a Niangniang. Se desaparecer, a responsabilidade recairá sobre os ombros das damas da corte ou das damas de companhia que o trouxeram.”

“Responsabilidade…?”

Isso significava pena de morte? Jusetsu se perguntou. Devia ser por isso que a dama de companhia parecia tão preocupada. E, no entanto, havia mais.

“Uma de nossas damas de companhia também desapareceu.”

“Você quer dizer que ela fugiu com o objeto desaparecido?”

“Não tenho certeza… mas pelo que as outras damas de companhia estão dizendo, ela não parece ser o tipo de pessoa que cometeria um ato tão horrível. É que…” A dama de companhia balançou a cabeça, perplexa. “Elas também disseram que ela estava agindo de forma estranha ultimamente.”

"Estranha? O que eles queriam dizer com isso?", perguntou Jusetsu.

“Por vezes, parecia que toda a sua personalidade tinha mudado…”

Jusetsu teve a sensação de já ter ouvido essa história em algum lugar. "Como se... ela fosse uma pessoa completamente diferente?"

“Exatamente.”

O que está acontecendo?, pensou Jusetsu.

Ao chegarem ao Palácio Eno, o ambiente era agitado. As damas da corte estavam agitadas e confusas, talvez procurando pelo item desaparecido — ou até mesmo pela própria dama da corte em questão. Kajo saiu do palácio e cumprimentou Jusetsu.

“Qual é o objeto que desapareceu?”

“É uma panela. Uma panela de cobre com um lacre.”

“Que tipo de lacre?”

“Um de papel. O inventário o listava como um pote de piche…”

Este era um pote usado para atirar flechas em um tipo de jogo.

“Não parece que havia nada dentro, mas eu pretendia abri-lo assim que tivesse a aprovação do imperador.”

“E quanto à dama da corte que fugiu?”

“Ela era uma das costureiras do palácio. Quando percebemos que o vaso havia desaparecido e estávamos procurando por ele, descobrimos que ela também havia sumido com ele.”

Jusetsu deu uma olhada rápida no local e perguntou: "Leve-me ao quarto daquela dama da corte."

O prédio onde as damas da corte residiam ficava nos arredores do Palácio Eno, e várias delas compartilhavam cada quarto. Ao entrarem no quarto onde a dama da corte desaparecida costumava morar, Jusetsu foi até a cama e parou ao lado dela. Havia uma caixa sobre o travesseiro. Ela a abriu e encontrou alguns objetos dentro, incluindo um pente, uma tesoura e uma toalha de mão. Parecia que ela guardava seus pertences pessoais ali. Seu robe estava pendurado no biombo ao lado de onde Jusetsu estava. Todos os itens pareciam pertencer a qualquer outra dama da corte. Jusetsu olhou para a cama e estreitou os olhos ligeiramente, percebendo que sentia um leve sinal de um fantasma. Ele pairava sobre a cama como uma fumaça tênue e difusa. Isso significava que o fantasma esteve naquele lugar em um passado não muito distante.

Jusetsu refletiu sobre o assunto por um tempo, depois pegou algumas mechas de cabelo que estavam sobre o colchão. Em seguida, virou-se para as damas da corte que a aguardavam na entrada do quarto, tentando entender o que estava acontecendo.

“Qual é o nome da dama da corte que desapareceu?”

As damas da corte trocaram olhares, depois olharam para trás e abriram caminho para que alguém mais pudesse passar. Era Kajo.

“Seu nome é Yo Senjo.”

Jusetsu assentiu levemente com a cabeça e pediu tinta e um tinteiro. Em seguida, tirou uma pequena boneca de madeira do bolso e escreveu "Yo Senjo" com um pincel. Seu sobrenome, Yo, foi escrito com o caractere para "folha". Ela enrolou o cabelo na boneca e a colocou sobre o colchão. Feito isso, tirou uma peônia do cabelo e soprou nela. Suas pétalas se espalharam como cacos de vidro, brilhando enquanto caíam sobre a boneca.

A boneca começou a tremer levemente. Inchou além do seu tamanho normal e ficou deformada. Os cabelos que a envolviam foram sugados para dentro e a boneca ficou preta. Seu corpo amoleceu como doce. Gradualmente, começou a tomar a forma de um pássaro, criando asas e até mesmo um bico. Seu corpo — que momentos antes era maleável — agora estava coberto de penas, tremendo violentamente. Seus olhos escuros brilharam e ela bateu as asas para cima e para baixo. Era um corvo.

O corvo moveu as asas mais algumas vezes para se orientar e então alçou voo. Voou pelo ar e saiu rasgando o ar da sala, fazendo as damas da corte soltarem gritos fracos. Enquanto Jusetsu se esgueirava entre elas, disse a Kajo e seus servos para ficarem onde estavam antes de seguir o corvo em seu caminho.

Ela perseguiu o pássaro, saindo do Palácio Eno e correndo bem ao lado das rosas vermelhas. Não conseguiria segui-lo se ele saísse dos jardins do palácio, mas provavelmente ainda não tinha chegado tão longe. Ela pisou no cascalho e correu — através dos salgueiros brancos e passando pelo lago. O corvo estava indo em direção à parte oeste do palácio interno. Depois de um tempo, o corvo voou em círculos no ar e começou a descer. Estava em uma área densamente coberta por pinheiros antigos. Jusetsu também foi para onde o corvo havia parado.

Ao entrar na floresta de pinheiros, Jusetsu avistou o corvo e parou abruptamente. O corvo estava pousado na mão de uma garota que vestia o uniforme das costureiras do palácio. Ela deve ser a dama da corte fugitiva, deduziu Jusetsu. Na outra mão, ela segurava a panela de cobre.

“Você é Yo Senjo?”, ela perguntou.

Com a expressão impassível no rosto, a menina abriu a boca para falar. "Eu nem sei meu próprio nome", explicou ela.

A voz dela soava estranha — era como uma voz fragmentada, ou como se fossem dois sons combinados. Jusetsu sabia exatamente o que isso significava.

Tratava-se de uma vocalização dupla — quando a voz de uma pessoa soava como se tivesse se dividido. Isso acontecia quando a alma de alguém estava em estado de instabilidade, ou seja, quando estava possuída por um espírito.

Quando Reijo ainda gozava de boa saúde, teve um encontro com uma dessas pessoas. Depois de ouvi-la emitir um som como aquele, ela soube que estava possuída por um espírito maligno. Essa pessoa também não estava agindo como de costume — e era exatamente isso que as pessoas diziam sobre essa dama da corte. Havia outra pessoa que Jusetsu ouviu ser descrita dessa forma recentemente também — o Ancião do Luar.

"Quem é você?", perguntou Jusetsu, encarando a garota.

Ela apenas riu. Jusetsu então olhou para o pote que segurava. Sua abertura estava coberta por um lacre de papel com algumas letras estranhas escritas nele.

"Você tem alguma ligação com o Ancião do Luar?", perguntou Jusetsu.

A garota ergueu as sobrancelhas. "Meu Deus. Por que você pensaria isso?"

“Você domou meu corvo. Isso é algo que nenhuma pessoa comum seria capaz de fazer. E a inscrição naquele vaso... é a palavra xamânica para ‘selo’. Você é um xamã. Dizem que o Ancião do Luar muitas vezes parecia ser outra pessoa. Ele deve ter sido possuído por um fantasma. Mas também ouvi dizer que ele era habilidoso em magia ilusória e metamorfose. Se ele era capaz disso, não pode ter sido possuído. Isso significa que o fantasma que o possuía era um xamã talentoso — um xamã talentoso como você.”

"Entendo", disse a garota, rindo novamente — mas no instante seguinte, ela espantou o corvo com um rápido golpe de mão.

Um baque seco ecoou no ar. O corvo transformou-se numa névoa negra e desapareceu.

Jusetsu mordeu o lábio. Aquele pássaro mensageiro tinha sido fácil de criar, mas nenhum xamã comum teria sido capaz de esmagar a magia de Jusetsu com tanta facilidade.

“Quem é você?”, perguntou ela.

Não devia haver muitos xamãs habilidosos que agora fossem fantasmas — e ainda menos que possuíssem um humano para tentar manipulá-lo. Esse fantasma havia possuído o Ancião do Luar, e agora estava tomando posse também dessa dama da corte.

“Hyogetsu.”

Hyogetsu, um nome que significa "lua de gelo".

Por mais inesperado que fosse, o fantasma prontamente revelou seu nome — mas as coisas estavam prestes a ficar mais complicadas.

“Meu nome é Ran Hyogetsu, querida Consorte Corvo.” Jusetsu engoliu em seco. Ran?

Esse era o sobrenome da família imperial da dinastia anterior.

“Temos o mesmo nome. Estou certo, não estou?”

Jusetsu observou cautelosamente o rosto da dama da corte, mas era quase impossível discernir as verdadeiras intenções do fantasma, já que seu corpo estava sendo usado como receptáculo pelo espírito que a possuía.

“…Meu sobrenome é Ryu”, disse ela cautelosamente. “Não sou membro da família Ran.”

Esse, porém, era um nome falso que Reijo lhe havia dado.

“Seu pseudônimo não me interessa. Meu sangue me diz que compartilhamos raízes, você e eu. Você se saiu bem, sobrevivendo até aqui — especialmente em um lugar como este.” Havia ternura na voz do fantasma. “Fiquei surpreso ao encontrá-la aqui. Quem diria que alguém da família Ran seria a Consorte Corvo? Pensei que todos vocês tivessem sido caçados e extintos há muito tempo…”

Sua voz soava triste, como se ele tivesse afundado em um abismo escuro de tristeza.

“Eu também fui preso e decapitado. Posso não ter mais um corpo físico, mas sempre que volto à capital imperial, meu sangue ainda gela.”

Então por que você viria aqui? Jusetsu pensou. O fantasma a encarou atentamente através do corpo da garota, e então deu um leve sorriso.

“Mas deve ter sido uma grande sorte eu ter conseguido encontrar alguém da família Ran aqui. Eu estava tão desesperado para falar com você que pedi que viesse até mim.”

Ah, pensou Jusetsu. Deve ser por isso que o fantasma roubou o pote, deixou seus rastros no quarto das damas da corte e me fez segui-lo até aqui.

“Eu era um homem da família imperial, mas também era um xamã. Não sei se você sabe disso, mas durante a dinastia anterior, havia vários xamãs na propriedade imperial. A atual família imperial, porém, os odiava e expulsou todos da capital. É por isso que existem tantos xamãs no interior agora. Aquele homem que chamavam de Ancião do Luar era um deles — embora suas habilidades fossem do tipo clássico de enganação.”

Reijo certa vez contou a Jusetsu que a propriedade imperial costumava ser repleta de xamãs. Eles não possuíam um cargo oficial, mas eram favorecidos em particular pelo imperador, pela família real e por altos funcionários. Chegavam a ter permissão para entrar e sair do palácio interno à vontade. Contudo, o fantasma de Hyogetsu — sendo ao mesmo tempo membro da família imperial e xamã — encontrava-se numa posição incomum, mesmo entre seus pares.

“Mesmo assim, aquele xamã fracassado era uma figura interessante. Quando eu possuía o corpo dele, ele espalhou boatos dizendo que era a encarnação de Deus. Ainda não sei se era só mais um golpe ou se ele realmente acreditava nisso no fundo, mas ele ganhou muito dinheiro com isso. Ele extorquia dinheiro tanto de ricos quanto de pobres, guardava tudo num pote e enterrava. Ainda está lá até hoje. Quer que eu te conte como encontrá-lo?”

Jusetsu respondeu simplesmente franzindo a testa para ele.

Hyogetsu bufou — apesar de nem sequer parecer divertido — e continuou falando. "Se você consegue ler isso, presumo que saiba para que serve este pote. Não sabe?" Hyogetsu ergueu o pote. 

Jusetsu o encarou com raiva. O rótulo continha o termo xamânico para "selo", mas não se referia a qualquer selo — este era especificamente um selo usado para selar uma alma. "De quem é a alma selada lá dentro?", perguntou Jusetsu.

“Bem, definitivamente não é a alma do Ancião do Luar.” Hyogetsu acariciou a panela. “Um passarinho me contou que algumas pessoas queriam invocar a alma de um homem que morreu na revolta da Província de Reki.”

Jusetsu franziu ainda mais a testa. "Como você...?"

“Quando uma alma morre longe de sua cidade natal, ela não sabe para onde ir. Havia algumas vagando pelo ar naquela época, então eu as recolhi e as selei aqui. Eu planejava usá-las como mensageiras, mas…” Hyogetsu encarou Jusetsu. “Encontrei outra utilidade para elas que eu não esperava.”

"O que você quer dizer?"

Hyogetsu apagou o sorriso presunçoso do rosto. "Você pode ficar com a alma de O Genyu. Mas em troca... tenho um pedido para você."

"Um pedido?", repetiu Jusetsu.

“Foi por isso que vim para cá, para o palácio interno.”

Sua voz vinha da dama da corte cuja forma física ele havia incorporado, mas seu zelo sincero ainda era palpável. Esse fervor deixou Jusetsu perplexo.

“Diga-me qual é o seu pedido. Quais eram as suas intenções ao vir aqui?”

“Se você estiver disposta a me ouvir, eu lhe direi. Mas se não puder…” Hyogetsu tirou uma faca de um ornamento que usava no cinto e a pressionou contra o pescoço dela. “Eu matarei essa mulher.”

Jusetsu sentiu o impulso reflexo de correr até ele, mas Hyogetsu pressionava a lâmina com tanta força contra o pescoço da dama da corte que ela se conteve.

"Vou matar essa mulher e fugir", ameaçou ele. "A alma de O Genyu jamais retornará. Então, o que me diz? Não há tempo para hesitar. Se mais alguém aparecer aqui, eu fugirei."

Jusetsu olhou em volta. Independentemente de Kajo e suas damas de companhia terem obedecido à sua ordem para permanecerem onde estavam, não havia sinal de mais ninguém na área naquele momento. Ela também não conseguia ouvir ninguém correndo naquela direção.

“Duvido que alguém o faça”, disse Jusetsu. “Não precisamos ter pressa. Imploro que guarde a faca.”

Hyogetsu não disse uma palavra e simplesmente continuou pressionando a faca contra a pele da dama da corte.

“Você não precisa me ameaçar para que eu te ouça. Basta me dizer o que seu pedido envolve.”

“Eu—”

De repente, a expressão da dama da corte se contorceu. Era como se fosse possível ver a mudança de humor de Hyogetsu através dela. Ele afastou a faca do pescoço. Surpresa, Jusetsu tentou se mover, mas antes que pudesse, ouviu o som agudo de algo voando pelo ar.

A faca escapou da mão da dama da corte e uma pedra rolou para longe do local onde havia caído no chão. A pedra atingiu a mão da dama, derrubando a faca. Jusetsu prontamente arrancou uma peônia do cabelo, esmagou-a na mão e atirou-a na mulher possuída. Por um instante, pareceu que suas pétalas vermelho-pálidas flutuavam para baixo, mas logo se espalharam pelo ar como uma fina fumaça, envolvendo o vaso. Com um movimento rápido da mão de Jusetsu, o selo de papel se rasgou silenciosamente e o vaso se partiu em dois.

Os galhos do pinheiro balançavam e farfalhavam acima de suas cabeças. Uma luz semelhante a uma faísca tremeluziu dentro do vaso e, um instante depois, ele estourou. O som foi como um trovão rasgando o ar, e a dama da corte caiu no chão. Jusetsu afastou a manga que cobria o rosto e caminhou até o vaso quebrado.

Os rasgos tanto no vaso quanto no papel eram limpos — quase como se tivessem sido cortados com uma espada. Jusetsu olhou para o céu. Algumas tênues esferas de luz flutuavam acima dela como vaga-lumes. Eram quatro, na verdade.

“O Sho”, Jusetsu chamou-as, estendendo uma das mãos. Uma das esferas errantes pareceu deslizar em sua direção e pousou em sua mão. Jusetsu a acariciou delicadamente. Em suas palmas, ela se transformou em um pente de cor âmbar pálida. Jusetsu o colocou em seu cabelo por um instante.

"Consorte Corvo!", gritou alguém.

Jusetsu se virou e um jovem eunuco de olhos grandes e estreitos estava ajoelhado diante dela.

“Foi você, Onkei.”

Ele era o eunuco designado como guarda de Jusetsu. Foi ele quem atingiu a mão da dama da corte com a pedra. Há quanto tempo ele está aqui? Jusetsu se perguntou. Ela não tinha a menor ideia de que ele estivesse por perto.

Jusetsu olhou para trás, para a mulher. A dama da corte estava deitada junto às raízes de um dos pinheiros, aparentemente inconsciente.

“What kind of state is she in?”

“Fique tranquila, Consorte Corvo, ela apenas desmaiou”, explicou o guarda de Jusetsu, “embora possa apresentar algum inchaço na mão.”

Jusetsu assentiu com a cabeça e então observou a cena ao seu redor. Havia um jovem parado sob uma árvore um pouco mais adiante. Seu rosto estava pálido e, embora seus olhos amendoados estivessem brilhantes, estavam nublados de melancolia. Ele vestia um robe de seda bordado com magníficas aves míticas — conhecidas como “ran” — e seus longos cabelos estavam presos e jogados sobre os ombros. Eram de um tom prateado tão extraordinário que quase se poderia acreditar que o próprio luar havia convergido para eles.

“Eu falhei, Consorte Corvo… Desta vez, eu perdi. Mas não se preocupe — eu voltarei”, disse o homem. Reminiscente do ar fresco e límpido de uma noite de outono, sua voz era tão triste quanto sua aparência.

“Espere. E quanto ao seu pedido?”

“Consorte Corvo”, disse ele, “por que se contentas em se isolar no palácio interno? Se quisesses, poderias ter tudo.”

[Kessel: A fala dele estava extremamente formal nessa parte, optei então por formalizar ao máximo na tradução também. Dito isso, que personagem interessante!]

Dito isso, Hyogetsu se atrasou. Seus cabelos prateados pareciam ondulantes ao vento, e então ele começou a desaparecer de vista.

Jusetsu quase começou a caminhar em sua direção, mas em vez disso, rapidamente se virou e olhou para Onkei. Sua postura e expressão permaneceram inalteradas, e seus olhos estavam voltados para baixo.

“Você ouviu o que ele disse?”, perguntou Jusetsu.

“Não, minha senhora. O que teria sido?”

Jusetsu encarou Onkei por alguns instantes, depois desviou o olhar. "Vamos retornar ao Palácio Eno."

Ela ordenou a Onkei que trouxesse a dama da corte consigo, e então voltou-se.

Kajo esperava apreensiva no Palácio Eno. Quando viu a dama da corte que Jusetsu e Onkei carregavam, correu até eles.

“Ela está…?”

“Ela está apenas inconsciente. Ela foi possuída por um fantasma. Cuide dela, por favor.”

Uma das damas de companhia de Kajo acompanhou Onkei até o pavilhão das damas da corte. Jusetsu insistiu para que Kajo convencesse as outras damas a lhes concederem privacidade, e elas entraram no palácio.

Jusetsu retirou o pente que havia colocado no cabelo. "Esta é a alma de O Genyu", disse ela, estendendo-a na palma da mão.

Kajo parecia surpresa.

O pente começou a perder a forma e se transformou em uma esfera de luz pálida, semelhante a um vaga-lume.

Kajo estendeu a mão com cautela. A esfera brilhante flutuou até ela e pousou em sua palma. Ela suspirou e a observou atentamente. "Está... quente."

Kajo segurou a luz nas mãos. "Mas não está quente de jeito nenhum. É como... água fervendo, depois de esfriar..."

Seus sussurros foram diminuindo, até se extinguirem em silêncio. Ela segurou o orbe brilhante contra o peito.

Nem todas as almas se tornam fantasmas. Algumas não têm problema em chegar ao paraíso, independentemente de como morreram, enquanto outras acabam como fantasmas, presas em um lugar para sempre. As outras almas que haviam sido seladas no caldeirão pareciam ter evitado esse destino e ido para o paraíso. Genyu provavelmente faria o mesmo — Jusetsu estava apenas o atrasando por um tempo.

“Oh…”

A esfera brilhante deixou a mão de Kajo e flutuou no ar. "Espere. Fique um pouco..." protestou Kajo.

A esfera brilhante girava ao redor dela. Um vento começou a soprar, e os enfeites pendurados em seu cabelo produziam um leve tilintar ao se chocarem uns contra os outros. A esfera brilhante roçou os cabelos e as bochechas de Kajo como uma tênue fumaça. O apito em forma de flor que pendia de sua cintura balançou — e, com um assobio agudo, finalmente soou.

Seu som permaneceu no ar. Então veio um segundo e um terceiro som. Era amigável e alegre, como alguém cantando.

Então o vento, impregnado de um brilho suave, deixou Kajo e subiu alto no céu. As portas do palácio se abriram sozinhas, e a rajada saiu voando. Kajo tentou perseguir o vento enquanto ele deslizava para o alto do céu e seguia para o oeste — em direção ao mar.

“Genyu…!”

Até mesmo o grito que escapou da boca de Kajo pareceu ser levado pelo vento brilhante.

Em pouco tempo, todos os vislumbres do tênue brilho deixado pelo vento desapareceram de vista, mas Kajo continuou de pé.

"Ele voltará", assegurou Jusetsu. "Ele estará de volta quando chegar a primavera."

Kajo apenas assentiu em silêncio. Em seguida, cobriu o rosto e deixou-se cair no chão.

***

Algum outro dia, Kajo chegou ao Palácio Yamei carregando um robe de seda.

“Por favor, aceite isto como um agradecimento por ter invocado a alma dele.”

Sua dama de companhia colocou uma bandeja sobre a mesa. Jusetsu pegou o robe de seda que estava sobre ela. Era um shanqun. Seu tecido púrpura era decorado com um padrão batik com pássaros e ondas. Vinha acompanhado de uma saia de sarja com um padrão circular de pérolas entrelaçadas no tecido. O traje também incluía um xale da cor de flores de cerejeira, feito de seda tão fina que parecia que se dissolveria ao toque.

"Nossa! Que deslumbrante!" Jiujiu não conseguiu conter a exclamação ao lado de Jusetsu. Mas, ao perceber o que tinha feito, cobriu a boca com as mãos.

“Mandei fazer tudo no meu palácio. A saia foi costurada pela costureira que você tão gentilmente ajudou, Consorte Corvo.”

Jusetsu empurrou a bandeja de volta para ela. "Não tenho utilidade para nada disso."

“Não seria útil ter um robe que não fosse preto? Você poderia usá-lo quando quisesse andar incógnita — ficaria muito melhor em você do que aquele uniforme de dama da corte”, disse Kajo gentilmente. Ela empurrou a bandeja de volta para Jusetsu.

Jusetsu, sem saber o que fazer, olhou alternadamente para Kajo e para o robe.

“Se você insiste que não tem utilidade para ele, então terei que jogá-lo fora. Seria uma pena, considerando o cuidado que minhas damas da corte tiveram ao tingi-lo e costurá-lo para você…”

Nesse momento, Jusetsu perdeu a paciência. Não era hora para tanta teimosia. "Tudo bem. Eu aceito", disse ela.

“Agradeço sua gentileza”, respondeu Kajo. “Tenho certeza de que minhas damas da corte ficarão encantadas. Por favor, use-o quando vier me visitar no Palácio Eno.”

“Mas eu…”

“Terei dim sum preparado para você quando decidir me visitar. E não só isso — pãezinhos cozidos no vapor com mel branco incorporado à massa, fuliubing e… Ah! Também alguns baozi com pasta de semente de lótus. Me disseram que você gosta muito deles.”

Jusetsu não conseguiu dizer nada.

Não era apropriado para a Consorte Corvo desfrutar de chá e conversas com outra consorte em plena luz do dia. A Consorte Corvo vivia uma vida solitária e cuidava de seus afazeres durante a noite. E, no entanto…

“Você é muito bem-vinda, sempre que quiser”, disse Kajo, com um sorriso tranquilo.

Se eu tivesse uma irmã mais velha, será que ela seria assim? Jusetsu se perguntou. O vapor subia do chá que Jiujiu havia servido, acompanhado de damascos cozidos em calda. Kogyo havia preparado os doces para eles.

Da mesma forma que a neve mais teimosa, que resistia até a primavera, aos poucos cederia à luz do sol, um calor se insinuava no coração de Jusetsu. Era um calor convidativo e suave, extremamente difícil de resistir. Era praticamente veneno.

[Kessel: Aos poucos estamos vendo a Juju (rs) se acostumando com receber carinho e afeto daqueles que a cercam. O Imperador, a Jiujiu e a Kogyo que trabalham para ela e agora também a Kajo. Para quem passou a vida inteira apenas com a companhia de sua própria mãe (até o fatídico momento) e depois disso, com a antiga Consorte Corvo, é uma baita evolução!]

 

Naquela noite, Koshun apareceu no palácio. Dessa vez, Jusetsu o chamou, dizendo que tinha um favor a pedir.

“Então, o que você precisava de mim?”, perguntou ele.

Jusetsu meio que esperava que ele dissesse algo sarcástico, mas tudo o que ela ouviu foi essa simples pergunta.

“Quero saber mais sobre Ran Hyogetsu”, respondeu Jusetsu simplesmente.

“Ah…” disse Koshun, engolindo um gole de chá. “Eu também não sei muito sobre ele. Acredito que ele era filho do filho mais novo do imperador — ou seja, neto do imperador. O filho mais novo do imperador não tinha envolvimento com o governo central, e seu filho, Hyogetsu, era um herege que também se juntou às fileiras dos xamãs. Mesmo assim, dizem que ele tinha um dom raro e notável. Ele foi decapitado no mesmo dia que seu pai e o imperador. Isso é tudo que eu sei.”

“Você pode descobrir um pouco mais?”

No fim das contas, Jusetsu ainda não sabia por que Hyogetsu estava tão obcecado com o palácio interno, nem qual teria sido seu pedido. Essas perguntas atormentavam a mente de Jusetsu.

“Não posso prometer nada, mas talvez pudéssemos verificar os registros, ou…”

Koshun lançou um olhar instrutivo a Eisei. Ele inclinou a cabeça respeitosamente, embora de maneira um tanto contrariada, ao ouvir o pedido indireto de Jusetsu.

"Tenho certeza de que ele voltará para me ver", disse Jusetsu.

“Ah”, respondeu Koshun simplesmente.

Jusetsu observou atentamente o rosto de Koshun. Ela não conseguiu decifrar nenhuma emoção em sua expressão impassível. Será que Onkei não lhe relatou nada? Jusetsu se perguntou. Será que ele decidiu não lhe contar o que Hyogetsu disse porque não entendeu, ou será que realmente não ouviu?

Koshun começou a falar. "Por que Ran Hyogetsu possuiria o Ancião do Luar?" Jusetsu desviou o olhar e pegou sua xícara de chá.

“Eu também não sei. No entanto, parece que ele tinha alguma motivação para vir ao palácio interno. Provavelmente, ele possuiu várias pessoas na Província de Reki e as convenceu a trazer aquele pote com as almas seladas dentro…”

“Ele deve ter possuído o mercador marítimo que entrega mercadorias ao palácio interno — aquele que trouxe os itens que eu presenteei ao Palácio Eno. Ele reside naquela província. Nos últimos meses, ele vinha sentindo que não estava totalmente presente, mas presumiu que fosse por estar exausto.”

Isso deve ter acontecido quando ele foi possuído pelo espírito de Hyogetsu. Depois que o vaso foi levado para o palácio interno, Hyogetsu transferiu seu corpo para a dama da corte.

“…Por que ele se daria a tanto trabalho para entrar no palácio interno? O que ele quer?” murmurou Jusetsu.

Koshun olhou fixamente para ela. Jusetsu percebeu o olhar e ergueu os olhos. "O quê?", disse ela.

"Nada", disse Koshun, e então se levantou. Parecia que ele ia embora.

"Você vai ver a Kajo?" perguntou Jusetsu.

“Não, é só que…” Koshun começou, evasivamente.

Ele procurou algo no bolso do paletó. Então, tirou algo embrulhado em um lenço de seda e colocou sobre a mesa. Ele mesmo o desembrulhou. Dentro, havia um pente de marfim em forma de pássaro — um rouxinol-do-mato, ao que parecia — junto com algumas ondas ferozes.

"O que é isso?" perguntou Jusetsu.

“Ouvi dizer que Kajo te deu um robe. Achei que este combinaria bem com ele.”

“Eu não quero.”

"Então jogue fora", disse ele, tentando se afastar.

"Foi a Kajo que te ensinou essa fala?", perguntou Jusetsu.

Koshun saiu do palácio sem lhe responder.

Não havia mais como escapar. Ela sabia que deveria ter recusado aquele robe.

Ao aceitar as coisas, você também aceitava as conexões emocionais que vinham com elas. Jusetsu inevitavelmente iria visitar o Palácio Eno agora que Kajo a havia convidado. Mesmo quando Koshun aparecia ultimamente, ela se via incapaz de expulsá-lo como fez quando se conheceram.

Jusetsu mordeu o lábio. Foi até o armário e pegou uma caixa preta como azeviche. Abriu a tampa. Havia um peixe âmbar dentro — o mesmo que Koshun lhe deu. Jusetsu olhou para ele com uma expressão de desagrado no rosto e fechou a caixa novamente. Em seguida, guardou-a no armário, junto com o pente que ele havia embrulhado e lhe dado.

Será que um dia desses eu deveria entregar para a Jiujiu?, pensou ela. Ou isso só criaria mais um vínculo?

Jusetsu não sabia o que fazer. Como ela poderia voltar a ficar sozinha?

Ela queria deixar de lado seus sentimentos, elevando-se acima deles, e viver uma vida discreta e solitária na noite.

 

“Sei”, Koshun chamou baixinho enquanto caminhavam pelo corredor, “amanhã à tarde, chame o Ministro do Inverno ao Instituto Koto”.

“O Ministro do Inverno?” disse Eisei, hesitante. “Tem certeza, mestre?”

O Ministro do Inverno era o oficial do palácio responsável pelos assuntos religiosos. Ele vivia em um palácio antigo e de aparência deserta na parte sul da propriedade imperial.

“O atual Ministro do Inverno é Setsu Gyoei, não é?”

“Já faz muito tempo que o senhor Setsu ocupa o cargo. Como o de Ministro do Inverno é um posto sem importância, ninguém está interessado em assumi-lo, então a mesma pessoa está no cargo há muitos e muitos anos. E também não ouvimos nenhuma reclamação sobre isso.”

“Entendo. Informe-o de que quero lhe perguntar algo sobre a Consorte Corvo.”

“O quê?!”

Eisei aceitou o pedido humildemente, mas não conseguiu esconder a expressão de perplexidade em seus olhos.


Entre em nosso servidor no Discord para conversar sobre essa obra, além de conhecer os nossos outros trabalhos: https://discord.gg/wJpSHfeyFS

Atenciosamente,
Scan Moonlight Valley

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora