Raifurori Brasileira

Autor(a): NekoYasha


Volume 5

Capítulo 228: Sinal De Fumaça

Apesar de ter certeza que dormiu sete horas, acordou tão sonolento quanto dormiu. Não conseguia ter um sono tranquilo sem a presença de Annie, a deusa sempre lhe fazia companhia em seus sonhos e afugentava os pesadelos. 

Esfregou os olhos, devagar, desejando aproveitar a sensação das mãos fazendo movimentos circulares nos glóbulos oculares, e deu passos curtos à janela.

Naquele momento, todas as crianças órfãs ainda dormiam, a irmã Daisy era bem rigorosa quanto ao horário de ir para a cama e levantar, e em vários outros aspectos, por isso aqueles meninos e meninas pareciam tão saudáveis.

O garoto perante à janela suspirou ao constatar a permanência de todas as suas minas terrestres ali, nas bordas, ninguém as tocou desde a última noite.

Sua intenção era retornar à cama quando, de repente, avistou uma fumaça negra vindo de um local próximo. “Pode ser a vila que o Loright foi ontem, mas ainda não sei muito da geografia desse lugar…”

Uma fumaça não deveria significar nada.

Mesmo com a inexistência de bombeiros, havia aqueles responsáveis por preservar a ordem nas vilas e cidades, por isso era algo que Kurone não devia dar atenção, claro, isso se não conhecesse quem era o seu inimigo.

Sem desperdiçar mais tempo, disparou pela porta e seguiu até o escritório da irmã Daisy. A ida ao seu destino demorou mais que o esperado, afinal seu senso de direção, naquele corpo, era lastimável.

— Irmã Daisy! — berrou ao entrar com tudo na sala, no entanto, após ver o clima ali, deu alguns passos para trás. — Ah, foi mal, não queria atrapalhar, depois eu volto…

— I-Iolite, es-espere! Não é o que você pensa!

A mulher religiosa tentou explicar-se, porém Kurone viu perfeitamente aquele momento de ternura entre ela e Loright, não era nada indecente, eles apenas apoiavam a cabeça uma na outra e seguravam as mãos, algo que chegava até a ser fofo.

Loright não fez nada para tentar se defender, apenas virou o rosto e evitou encarar o garotinho de cabelos loiros que lutava para reprimir o seu sorriso presunçoso.

“Parece que não importa a época ou o mundo, eu sempre vou ser assanhado… mas uma freira é o ápice, você tem meu respeito, Loright!”

— Vo-você disse que tinha algo a contar… — comentou a irmã Daisy com a voz trêmula, tentando recuperar a sua postura.

Ah, caraca, é mesmo! Como é que eu fui esquecer? Eu vi uma fumaça vindo daquela direção — apontou para a parede — e pensei que pode se tratar de um incêndio em uma vila.

Sabia como o fogo alastrava-se rapidamente em um espaço pequeno como o de uma vila, afinal já enfrentou uma situação parecida.

Conhecera Frederika, a menina vendada, em um incêndio — trazer as memórias daquela garotinha que chegou a considerar como uma filha foi como cutucar uma velha cicatriz.

Junto ao rosto da menina amável, viu o de Azazel van Elsie, a responsável por ceifar a vida de uma garotinha tão inocente que teve uma vida difícil.

Loright e a irmã Daisy olharam com preocupação ao ver a força usada pelo garoto para ferir a própria mão com as unhas. Rapidamente, o jovem de cabelos negros aproximou-se e, segurando-o pelo braço, começou:

— Não precisa se preocupar, eu vou lá dar uma olhada. Pode ser só um acidente, mas é bom sempre averiguar essas coisas.

— Eu vou com você! — afirmou Kurone, com a voz firme.

— Vai ser perigoso…

— Já disse, vou com você, e, se discordar, falo pra todo mundo o que vocês andam fazendo quando ninguém tá olhando.

Loright só pôde engolir em seco e concordar em silêncio.

Sem Annie ao seu lado, sucumbia à raiva facilmente. As lembranças de Elsie eram sempre bloqueadas pela deusa, mas como ela não estava mais lá, aquelas memórias retornavam com força.

Não apenas aquelas relacionadas a Azazel, mas lembrou-se de Mamon von Faucher e Belphegor Halls, e aquilo serviu para reafirmar o ódio nutrido pelos membros do Conselho do Inferno.

A sua Síndrome do Pensamento Acelerado também parecia estar de volta.

Ahhhh… tudo bem, mas vamos logo, quanto mais cedo aparecermos, menos gente de fora terá, assim conseguiremos agir sem chamar atenção desnecessária — falou Loright, já correndo em direção à porta, mas não sem antes encarar a irmã Daisy para receber um “tome cuidado” da doce mulher religiosa.

Era claro que o jovem não queria a presença de Kurone ao seu lado, por isso disparou em alta velocidade, contudo, ele subestimou o corpo de uma criança.

Mesmo tendo treinado pouco, a jovialidade estava ao seu favor. Alcançar alguém como Loright era impossível, lógico, mas seu ritmo era suficiente para acompanhar o jovem com uma diferença de poucos metros.

— Você será um grande guerreiro, Iolite, você parece estar acostumado a correr com cuidado na floresta.

O silêncio foi a resposta de Kurone, ele mantinha a língua fixa ao céu da boca, na intenção de respirar melhor enquanto corria, um truque aprendido com Lao Shi, para evitar o cansaço.

Também tentava posicionar os pés em uma posição que não causassem câimbra, enquanto as mãos foram jogadas para trás, de maneira que ele corresse como os ninjas dos mangás.

Comparado a ele, Loright tinha uma posição que não explorava todo o potencial da sua corrida, podia escutar dali a respiração desordenada, mas não tinha o que fazer, afinal, estava atrás daquele que supostamente “corria errado”. 

Estava imerso, focado em correr, seu único objetivo era alcançar as costas à sua frente, mas saiu do transe ao sentir uma mão tocando o seu peito com força.

— Acho que chegamos tarde…

Kurone cerrou os dentes ao ver a vila, ou melhor, os restos carbonizados dela. Tentou avançar, mas a mão do jovem continuava em seu peito, impedindo-o de dar mais um passo.

— Não, quem fez isso ainda pode estar aqui. Precisamos voltar, agora, a Luminus pode estar em apuros. Droga, achei que fosse um acidente qualquer…

Saber que diversos moradores foram queimados até a morte por culpa de Azazel van Elsie era revoltante, uma fúria inexplicável tomava conta do seu ser, contudo, sua prioridade era a garotinha.

Os músculos ainda ardiam devido à última corrida, mas ignorou aquilo e forçou as pernas a empurrarem o chão com o máximo de força que podiam.

Quem não parecia tão cansado era Loright, mantendo o mesmo ritmo de antes, contudo, uma concentração incomum podia ser percebida em seus olhos, ele não fazia mais os movimentos desnecessários que tanto roubavam sua velocidade.

“Esse cara é realmente como eu…”, pensou, já sabia a resposta para aquela seriedade repentina do jovem de cabelos negros à sua frente. Lógico, era Luminus.

Ambos corriam e corriam além do seu limite para proteger aquela menina.

Enquanto levava o seu corpo ao limite, uma ideia passou-se pela cabeça de Kurone. Era imprudente, mais uma ação para a lista de coisas que Annie nunca concordaria.

— Sabe… arremessar bem? — perguntou, quase sem fôlego, a Loright.

— Nem pense nisso, você vai morrer.

Claro, eram um só. Loright ponderou a mesma coisa que aquele garotinho: arremessá-lo com força até o orfanato, assim como Rory fez, no tempo que invadiram a vila de Grain.

— Não vou, nesse ritmo nós vamos demorar!

Aquele jovem cerrou os dentes com força, sua prioridade era Luminus, mas, mesmo assim, ainda achava terrível a ideia de arremessar uma criança com força total.

— Não me culpe se você morrer na queda. — Ele suspirou, indo em direção ao menino. — Se ela estiver em apuros, sua prioridade é tirá-la de lá, não se importe com os outros, o único alvo desses desgraçados é a Luminus.

— Conte comigo.

— Leve isso. — Ao chegar perto o suficiente, Loright entregou um embrulho a Kurone. — É uma espada que eu comprei recentemente, nem tive a chance de ver se ela funciona, mas é melhor do que nada.

Mais nenhum som foi emitido, os dois encararam-se uma última vez e fizeram um aceno com a cabeça.

— Seja o que os deuses quiserem. — Sem perder tempo, Loright levantou a mão e tocou as costas do garotinho, algo que parecia um tapinha de incentivo, contudo, aquele simples toque foi suficiente para arremessar Kurone.

Era um feitiço de repulsão. Diferente das habilidades da Classe, feitiços como aqueles podiam ser usados com qualquer pessoa com um nível mínimo de mana, mas esse não parecia ser o caso de Loright.

Com um único contato físico, o jovem de cabelos negros foi rápido suficiente para lançar Kurone em uma velocidade insana.

Do alto, podia ver a floresta passando rapidamente. Mas bastou alguns segundos para acertar sua postura e preparar-se para o impacto.

A mão tocou instintivamente o embrulho dado por Loright. Podia sentir uma aura forte, aparentemente divina, vinda do orfanato. 

“Porra, Cecily já deve ter chegado ali, ela se aproveitou da nossa ausência para entrar.”

Irritado, e ainda no ar, sacou a lâmina embrulhada. Não tinha muita experiência em lutar com espadas, porém aquilo lhe serviria, mas, quando assim pensou, viu um brilho intenso e arroxeado emergindo da arma.

“Parece que tu continuas muito imprudente, senhor Kurone.”

O tempo parou, o próprio corpo do garoto ficou estático no ar, mas o mais inquietante era que conhecia aquela voz, conhecia a voz de Azrael, o Suserano da Morte.

 



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