Raifurori Brasileira

Autor(a): NekoYasha


Volume 3

Capítulo 158: Pelo Bem Da Lothus

“Chegou a hora”, pensou Lou Suen Eiai ao ver o clarão no céu. Era certo, mesmo daquela distância, que a luz tinha origem na ilha Lou Souen. 

A garota artificial estava mais nervosa que surpresa, afinal ela já sabia que aquilo aconteceria, Lao Shi explicara na última comunicação que não podiam mais esperar pela ronda no final do mês. 

Apesar de estar infiltrada na base inimiga, não tinha mais no que a sacerdotisa ser útil, ela foi essencial para a troca de informações, mas ali, cercada de inimigos, não poderia fazer algo nem se quisesse sem levantar suspeitas. 

Sabendo disso, a jovem rapidamente seguiu em direção ao quarto de Lothus. Ainda se sentia culpada por não ter contado aos outros sobre a sua relação amigável com a demônia, o máximo que dissera fora: “O Arquiduque tem uma irmã.” Nada mais.

Sabia que era errado esconder a informação que quem matinha o controle mental nas garotas artificiais era, na verdade, Lothus. Sem ela, o Arquiduque não conseguiria controlá-las de maneira eficiente.

Mas era inteligente o suficiente para saber que, se caso contasse a Lao Shi sobre a menina, ele pediria para que Lou Souen a matasse, afinal já seria uma grande ajuda. No entanto, a sacerdotisa não podia fazer isso, apesar de ter sido por pouco tempo, ela sabia que Lothus era uma boa pessoa.

Sendo assim, para evitar a morte da sua nova amiga e ajudar os seus amigos antigos, ela decidiu agir. 

Após cinco minutos caminhando e descendo escadas, Lou Souen chegou ao quarto da irmã do Arquiduque. A menina acabava de fechar a janela do seu quarto, seu rosto bonito e de tom um pouco alaranjado continha uma expressão de susto.

— Você viu aquilo?! — questionou Lothus atravessando o pequeno quarto rapidamente. — Veio da ilha Lou Souen.

— Sim, eu vi, mas creio que este não é nosso único problema. — Após as últimas palavras, a menina olhou para Lou Souen com um rosto confuso, então a sacerdotisa continuou: — Enquanto andava pela ilha, encontrei uma criança humana escondida em uma casa.

Lothus demorou algum tempo para processar a informação, ela achava que não havia mais ninguém na ilha principal, afinal fazia quase quatro meses que os humanos fugiram.

Vendo a incredulidade no rosto da outra, Lou Souen prosseguiu em seu tom frio:

— Ela está muito fraca, provavelmente não come há muito tempo. 

A garota artificial estava se aproveitando do fato da menina ter um coração bom. Tanto ela quanto o irmão não desejavam machucar nenhum inocente, só desejavam um lugar para viver em paz, longe de toda a loucura do Conselho do Inferno.

Uma dúvida pôde ser vista no rosto de Lothus. Com o clarão na ilha Lou Souen, sua prioridade era ficar ao lado de Asmodeus, no entanto não podia ignorar uma criança naquele estado.

— Vamos rápido, preciso ajudar meu irmão se ele precisar — disse ela correndo em direção à porta do quarto.

As duas jovens atravessaram o corredor rapidamente, chegando ao primeiro andar em poucos minutos. As garotas artificiais lá estavam agitadas, apesar de não serem controladas diretamente por Asmodeus, elas ainda sabiam que deviam obedecê-lo.

A maneira como a lavagem cerebral foi usada era intrigante, Lothus mexeu no grande Orbe Amarelo e conseguiu ter os mesmos direitos que alguém da família Sophiette, porém ela usou uma fórmula arbitrária instável, se outras pessoas mexessem naquilo, o grande orbe poderia explodir.

— Vão ajudar o meu irmão, agora! — ela ordenou às outras sacerdotisas que ainda estavam confusas. 

Rapidamente, elas atravessaram o pátio onde as carruagens estavam estacionadas. Lou Souen notou que os cavalos ficaram mais gordos nos últimos dias, afinal Lothus adorava alimentá-los.

Ir e voltar do centro da ilha levaria pelo menos vinte minutos e, pela expressão da menina, Lou Souen podia supor que ela estava preocupada com o clarão de pouco tempo atrás.

Era uma garota artificial realmente incomum, como podia ficar triste por trair uma inimiga? Lou Souen aceitou fazer “experimentos” com Lothus apenas para descobrir a verdade sobre si, mas, ao decorrer dos dias, acabou apegando-se à menina. Não chegaram a lugar nenhum, mas passaram os dias tomando chá e conversando.

Quanto mais escutava as histórias dela, mais ficava mal. Quem estava certo ali, afinal? Aparentemente, vilões em uma guerra pela sobrevivência eram inexistentes, tudo o que havia eram apenas pessoas tentando defender algo importante.

O tempo passou como o vento, elas corriam como verdadeiros ninjas pelas ruas de Lou Xhien Pi’yan. Mesmo após todo aquele tempo, todo o local ainda continuava limpo, afinal era varrido constantemente pelas garotas artificiais.

— É ali! — falou Lou Souen apontando para a menor casa de toda a rua, elas estavam próximas ao Distrito Urbano Shi.

No entanto, Lothus diminuiu a velocidade até parar. Junto ao suor, ela mantinha uma expressão difícil no rosto. Como não era uma guerreira, ofegava muito, diferente da sacerdotisa à frente, que mal tinha uma gota de suor no rosto.

— Qual o problema? — perguntou a garota artificial.

— Não sei, estou com um mau pressentimento. Tem certeza que só havia uma criança ali? 

— Sim, era apenas uma criança assustada. Não podemos perder tempo, ele deve estar agonizando.

— Ei, Lou Souen… — Lothus murmurou em tom melancólico. — Você não está mentindo, certo?

— Claro que não, por que eu mentiria sobre haver uma criança aqui? É algo totalmente irracional.

Por sorte, a sacerdotisa conseguiu manter uma expressão indiferente mesmo mentindo para uma pessoa tão próxima. A expressão confusa no rosto da menina cortava o seu coração.

Lothus era inteligente, uma verdadeira estrategista ao nível de uma Pregadora da Razão, só estava ali porque confiava em Lou Souen. Caso tivessem pelo menos um pouco menos de intimidade, a sacerdotisa já teria sido executada.

Assentindo após um suspiro, a menina caminhou lentamente em direção à pequena casa, a desconfiança era clara em seu semblante. A garota artificial sabia como era duro desconfiar de alguém próximo, ela ainda se sentia culpada pelo que aconteceu em frente ao torii, quando acusou Kurone de algo que ele não fez.

Sim, ela ainda tinha as memórias. A magia de Lao Shi não fora suficiente para fazê-la esquecer de tudo aquilo, mas decidiu manter todo o incidente em segredo.

As duas garotas saltaram pela janela aberta da pequena casa. O local estava escuro e fedia a comida estragada.

— Ela está no porão — falou Lou Souen apontando para uma portinha no canto da casa. Todo o piso era de madeira, então a portinha conseguiu se esconder da visão dos mais desatentos.

Lothus virou-se para a entrada do porão e, quando se agachou para segurar a maçaneta da portinha, sentiu algo quente tocando o seu pescoço. 

Em instantes, a irmã do Arquiduque desmaiou.

— Você já sabia, não era? — murmurou Lou Souen em um tom desgostoso, pois viu uma lâmina curta na mão da menina. Ela estava pronta para atacar a sacerdotisa se visse que não havia ninguém no porão.

Com cuidado, a garota artificial moveu o corpo desacordado de Lothus para o lado e abriu a porta do porão. Ela deu um golpe leve em um ponto vital, não mataria, mas daria uma enorme dor de cabeça à menina quando ela acordasse.

O pequeno porão da casa estava limpo, pois Lou Souen o preparara no dia anterior. Havia comida, água e lençóis para proteger a menina do frio. Não sabia quanto tempo duraria a batalha contra o Arquiduque, por isso preparou o local para manter a garota bem durante esse tempo.

Quando tudo acabasse, Lothus não seria mais uma ameaça, e conhecendo os seus companheiros, Lou Souen sabia que eles deixariam a menina ir embora sem problemas, principalmente se essa decisão dependesse de Kurone.

Após acomodar sua amiga no canto do porão e cobri-la com o lençol mais quente, a sacerdotisa trancou o porão e deixou a pequena casa, correndo rapidamente de volta à grande torre.

Ela conseguiu se misturar com as outras garotas artificiais que faziam ronda anteriormente e, naquele momento, seguiam para a grande torre. 

Quando chegou ao pátio, sentiu a presença tanto do Arquiduque Asmodeus quanto da Duquesa Mamon no primeiro andar, mas essas presenças eram sobrepujadas pela energia emanada do grande Orbe Amarelo no outro lado do andar.

Lentamente, as garotas artificiais faziam fila em frente ao demônio de expressão irritada, ele olhava para o cenário a todo momento, como se buscasse algo ou esperasse alguém. E se esperava alguém, não podia ser ninguém menos que Lothus, sua irmã.

Ao notar que o primeiro andar da torre estava quase lotado de sacerdotisas de kosodes brancos, hakamas vermelhos e cabelos negros, o Arquiduque começou com uma voz claramente irritada:

— Quero a porra de todos os barcos prontos para ir em direção à ilha de onde veio aquele clarão! Peguem as armas que temos disponíveis no depósito e matem qualquer bastardo que encontrarem pelo caminho!

Em contraste com a expressão preocupada do homem que tinha quase o dobro da sua altura, a Duquesa Mamon von Faucher brincava com os cabelos com um sorriso no rosto, ao fim do anúncio, ela cantarolava uma música estranha.

— Finalmente uma ação nesse lugar! — comentou Mamon alongando as mãos magras. — Você vai também, Deus?

— Não, eu preciso encontrar a Lothus…

— Senhor! — gritou uma sacerdotisa chegando atrasada. — O senhor tem que ver isso, o mar… eu não sei dizer que está acontecendo!

Sem perder tempo, Asmodeus correu para o exterior do templo, subindo no muro ao redor para ter uma visão melhor da extremidade da ilha. Todas as garotas artificiais e a Duquesa repetiram o feito e ficaram suspensas no muro como pombos no fio telefônico. 

O Arquiduque mal pôde acreditar no que os seus olhos vislumbravam. Na mesma direção da origem do clarão, na ilha Lou Souen, as águas do mar começaram a se agitar, formando diversas ondas violentas.

Asmodeus di Laplace quase caiu do muro com a boca aberta ao ver o mar abrindo-se ao meio. Aquilo só podia ser o feito de um deus, não tinha como humanos terem tanto poder para realizarem um milagre como aquele. 

Lou Souen formou um sorriso diabólico no rosto, a impressão do Arquiduque estava certa, um humano comum não podia fazer aquilo, mas o mestre de Kurone, um Arquifeiticeiro Grau 10, estava longe de ser um homem qualquer.



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