Raifurori Brasileira

Autor(a): NekoYasha


Volume 2

Capítulo 98: A Verdadeira Annie

Realmente, não sabia de onde vinha o ódio com relação “àquela” Annie que conheceu em Eragon. Talvez fosse amaneira dela chamá-lo de aberração ou o seu jeito que lhe passava um ar demoníaco, no entanto, “esta” Annie, a que ele estava com a cabeça apoiada nas coxas, era diferente.

A garota era uma deusa e tinha o mesmo nome da mulher odiosa de Eragon, não podia ser mera coincidência, mas escutaria o que tinha a dizer antes de apontar a escopeta para ela.

— Por que está me olhando assim…? É meio constrangedor — disse a garota com sua voz doce e suave. Havia um abismo de diferença entre as duas Annies.

— Você, por um acaso, conhece uma mulher de cabelos rosas chamada Annie? — indagou sem rodeios. A voz estava se estabilizando gradualmente, mas ainda não conseguia falar com uma dicção perfeita.

Colocando o dedo fino e delicado no queixo, a menina começou a pensar na pergunta do jovem. Kurone não deixou de apreciar a beleza dela, porém tentava não prestar muita atenção, pois ela aparentava ter a mesma idade de Elisabella, mas como um bom conhecedor daquele mundo, acrescentaria algumas centenas de anos na conta.

— Como é o mundo lá fora atualmente? — respondeu com outra pergunta.

— O mundo lá fora? Olha, eu só passei dois meses naquele mundo e visitei apenas Andeavor e Eragon, mas posso dizer que ele é horrível, um verdadeiro inferno. Ei, não tente fugir do assunto, você conhece ou não uma mulher maluca chamada…

— Antigamente… — ela começou em tom melancólico, ignorando o jovem apoiado em suas coxas — existiam três deusas. 

Kurone tentou protestar, mas decidiu ficar quieto e escutar a história ao ver os olhos da garota suplicando para que a escutasse até o fim e prestasse atenção no que dizia, como negar um pedido indireto daqueles, principalmente a uma menina de aparência tão frágil?

— A primeira era Cecily, — ela continuou ao perceber que ele escutaria — a filha Astarte e Agni; a segunda era Lucy, filha de Astarte e Érebos; e a última era Annie, fruto da relação entre Astarte e um ser desconhecido.

O garoto arregalou os olhos quando escutou os nomes de Cecily e Annie sendo citados juntos. Ouvira de Inri que existia uma deusa chamada Lucy, mas nunca vira nenhum devoto dela pelos locais que passou.

Ficou intrigado com o fato de que foi citado apenas uma deusa com o nome “Annie”, mas algo que chamou ainda mais sua atenção foi o nome “Astarte”, escutou ele muitas vezes nos últimos dias. Decidiu voltar toda a sua atenção para aquela história. A menina prosseguiu:

— Alguns diziam que o pai de Annie era um mortal, outros espalharam rumores que seria um demônio, mas ninguém nunca descobriu a verdade, pois a própria Astarte mantinha tudo em segredo e, curiosamente, tinha Annie como sua filha favorita.

Lágrimas escorreram do rosto bonito da garota. Ela voltou o semblante para o local onde o corpo esquelético fora vaporizado e continuou a narração:

— Movidos pela inveja, ódio e ganância, os outros descendentes da deusa Astarte tramaram contra a vida da pobre Annie, que era fraca demais para se defender. — Ela cerrou as mãos e Kurone pôde sentir a tensão do seu corpo. — No fim, tiraram tudo da pobre deusa Annie…

— E-ei, então…

— Sua família, seus poderes, sua liberdade, sua alegria… seu nome… tudo… condenaram ela a viver aprisionada pela eternidade em um salão vazio, apenas esperando o dia em que alguém pudesse aparecer para livrá-la daquele tormento… aguardando alguém que pudesse matá-la — finalizou com um sorriso em meio às lágrimas.

A história teve um desfecho inesperado e o coração do jovem disparou ao assimilar que a Annie da história, a garota que perdeu tudo, era aquela menina frágil ali. Sentiu um aperto no peito, teve uma sensação semelhante a de quando via animais fofos e inocentes sendo maltratados no noticiário.

Estava tendo naquele momento algo que jamais pensou em sentir na vida em relação a outro ser vivo: empatia, a capacidade de sentir a dor insuportável do outro.

— Então se você é a verdadeira Annie, aquela mulher que conheci em Eragon só pode ser…

— Uma das minhas irmãs, a Cecily ou a Lucy — ela concluiu a fala do garoto.

— A Cecily não pode ser, eu conheço aquela mentirosa, então só resta a Lucy… isso quer dizer que a “Lucy” que as pessoas odeiam é você, já que a outra roubou o seu nome… caraca, que complicado! 

Enfim, conseguia compreender algumas coisas. Cecily nunca foi uma boa pessoa — ou melhor, deusa —, apenas queria usar o poder de Kurone e Rory para alcançar seus objetivos egoístas. “Aquela” Annie, a Lucy, também era como ela, mas bem mais irritante.

— Há quantos anos você tá presa aqui?

— Não faço ideia, mas chuto que estou aqui há alguns milhares de anos. Passo todos os dias sentada naquele trono, esperando o meu salvador… — ela direcionou o olhar para o jovem — ainda bem que você chegou para me livrar de tudo isso.

— Pera aí! — Kurone gritou ficando de pé. O corpo dele tremeu por conta de todas as feridas espalhadas pelo seu corpo, mas aquilo não importava.

— Cuidado… você vai acabar se machucando — falou Annie preocupada. 

— Pelo que entendi, você tá querendo que eu te mate para você parar de sofrer, é isso? Tudo isso porque suas irmãs te traíram e tiraram tudo o que você tinha, é isso? 

— S-sim, é isso, eu… — Ela abaixou o rosto em frustração e vergonha.

Era visível que a garota não suportava respirar por mais um minutos, queria apenas sentir o abraço gelado da morte, as palavras de Kurone só serviam para fazê-la sofrer mais, ele estava “chutando o cachorro morto”.

— Bem… — respirou profundamente antes de prosseguir. Quase gritou com a dor do ar adentrando os pulmões danificados, porém ele falou quase cuspindo sangue: — Tá fudida — concluiu com uma expressão séria.

— H-hã?! O que você quer dizer com “t-tá fudida”? — A voz da garota saiu trêmula por conta da surpresa, não imaginou que receberia uma resposta incompreensível como aquela.

— Como assim “o que quer dizer”? Você acabou de dizer que meu dever é matar uma garota bonita como você, mas o que mais irrita é que essa garota que tenho que matar tá querendo morrer por aceitar a derrota. Por isso, tá fudida, já vi gente demais morrendo hoje, não tô a fim de sujar minhas mãos com uma covarde como você… Hã?

— E-eu… e-eu… n-não… e-eu… Ahhhhhhhh! — A garota começou a chorar e soluçar como um criança após ser repreendida pelos pais.

— E-ei, calma aí, eu acho que exagerei um pouco, mas não precisa chorar, assim vou ficar mal — Kurone falou desesperado enquanto balançava os braços rapidamente.

— Eu não estou chorando por conta do que você falou, é que agora me sinto culpada pelo que fiz… — explicou ainda soluçando.

O jovem voltou para ela um olhar que perguntava “e o que você fez?”, fazendo Annie enrijecer o corpo e corar o rosto. A garota começou a falar devagar:

— Eu não aguentava mais… quando percebi que meus anos aprisionada iam dobrar, acabei usando o que me restava de poder para mudar um pouco do novo mundo… orei desesperadamente para que alguém aparecesse, clamei para que uma pessoa que jamais deveria existir naquela linha temporal nascesse e viesse ao meu encontro e me livrasse de todo esse sofrimento… então você apareceu…

— E-espera, então eu não devia ter nascido?!

— Você disse naquela hora que é um tipo de quimera, certo? — ela falou enxugando as lágrimas — Pois aqui, bem na sua frente, está a sua criadora, você nasceu do desejo desesperado de uma deusa que queria morrer. Provavelmente agora sou a pessoa que você mais odeia nesse mundo, então, por favor, me mate, não importa se for por amor ou ódio, apenas tira minha vida e livre meu coração desse sofrimento!

A ideia de xingar aquela garota se passou na sua cabeça, mas decidiu se acalmar. Ele suspirou novamente sentindo os efeitos colaterais da batalha e falou no tom mais calmo que conseguiu:

— O quão idiota você é? Sério, já vi muita gente burra nesse mundo, mas você é a pior de todas. Por que eu teria ódio de alguém que permitiu que eu nascesse e conhecesse pessoas tão amáveis como as minhas irmãs?

A deusa arregalou os olhos e ficou de pé, em frente ao jovem. Kurone era vinte centímetros mais altos que aquela garota de pele pálida.

— Mas você viveu uma vida miserável por minha culpa, você nunca foi como os outros do seu mundo, deve ter sido rejeitado, maltratado, espancado, humilhado…

— … Xingado, taxado de louco, desprezado por todos os que tavam ao meu redor, usado como um simples utensílio por aqueles que queriam meu dom, enganado tantas vezes… sim, é verdade, já passei por tudo isso.

— Então…

— Porém eu nunca desisti porque também tiveram pessoas ao meu redor que me aceitaram, lutaram ao meu lado, ajudaram quando mais precisei, me amaram e juraram lealdade… alguns sacrificaram própria vida para que eu continuasse… é por essas pessoas que continuo lutando. Se você quer desistir porque não suporta mais a solidão, então por que não luta ao meu lado? — ele concluiu esticando a mão para a garota à sua frente — Se ninguém te aceita, então lute ao lado da aberração que você mesma criou, nada mais justo, não?

— Hã?! — ela deixou o grito escapar e recuou alguns passos.



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