Raifurori Brasileira

Autor(a): NekoYasha


Volume 2

Capítulo 70: 17° Criança

Outro tremor sacudiu a ilha. O intervalo entre eles estava diminuindo e era fato que, quando chegasse a certa altitude, a Cidade-Estado despencaria de vez, extinguindo as vidas dos moradores e visitantes. No entanto, aquela era a menor das preocupações deles, conforme a explicação apressada de Kawaii.

— O Orbe Amarelo é o que faz a cidade flutuar, fornece energia e mantém a barreira ligada — explicou a garotinha ofegante.

— Então alguém mexeu nesse sei lá o que amarelo? — perguntou Orkus, recebendo um meneio de cabeça como afirmação.

O grupo composto pela semi-humana, o guarda, Rory e, estranhamente, o Santo Bishop corria o mais rápido possível em direção à catedral de Eragon, local onde a fonte de energia da cidade era guardada.

Repentinamente, a loli arrogante sentiu uma presença familiar e diminuiu o passo, olhando fixamente para o jovem, ao lado de duas garotas, tentando acompanhar o grupo. Por algum motivo, os insetos irritantes não atacavam o garoto, apenas abriam caminho em meio ao caos para ele.

— Nakano! — gritou o guarda cansado.

Ratatatatata! A Ingram rugiu e transformou dois insetos que se aproximavam do guarda em pó. A semi-humana olhou feio para o homem assustado e disse:

Nyão parem ou seremos atacados! Corram myas rápido!


Os dois grupos mantiveram 15 metros de distância até chegarem ao local. A grande construção de mármore branca no centro da Cidade-Estado tinha três estátuas da deusa Annie na entrada e, aparentemente, os insetos não gostavam de catedrais, pois nenhum os seguiu até lá.

— O Orbe Amarelo fica no subterrâneo — falou Avios Bishop, mais para si mesmo que para os outros.

— Caraca… cansei! Ei, como vamos entrar? Tá tudo trancado.

— O idiota se tornou um criminoso de primeira mesmo, quem diria. Matando pessoas, fugindo da prisão, querendo arrombar a porta da igreja e assediando crianças.

— De onde você tirou esse último! A Frederika só tá nas minhas costas porque ela não consegue correr!!

— Chega, chega. Aqui nyão é lugar para vocês demonstrarem seu amor fraternyal — provocou Kawaii. — Vamos logo acabar com isso.

Ratatatatatatata! Em poucos disparos, as portas enormes de madeira foram ao chão, destruindo a entrada da igreja. Eles entenderiam, afinal era por uma boa causa como salvar a cidade de gafanhotos e demônios.

Dentro do local, estavam as figuras assustadas dos líderes religiosos e sacerdotisas, escondidos como ratos em uma barricada feita com bancos da igreja. Um deles deu um passo à frente ao ver o rosto conhecido de Avios e Kawaii.

— O que aconteceu com o Orbe? — perguntou o Santo da Annie, em seu tom irritante como sempre. As palavras dele sempre saiam em um tom imperativo, semelhante ao de uma criança mimada pedindo algo aos pais.

— N-nós não sabemos… — respondeu o homem com roupas semelhantes às de Kurone e Bishop. — Mas escutamos barulhos vindos do local onde o veículo metálico está.

— Isso fica no lado oposto ao do Orbe — completou Kawaii.

Diferente do lado de fora, um silêncio mortal reinava no interior da catedral, as pessoas escondidas lá dentro tentavam até respirar o mais baixo possível, não sabiam que os insetos não podiam entrar no local.

O grupo ignorou os religiosos assustados e se dirigiu para o seu destino. Por sorte, a deusa Annie não apareceu mais para perturbar o jovem, embora fosse desconfortável ver o rosto dela esculpido ou ilustrado em cada sala.

— Fica ali! — gritou Kawaii apontando para uma porta enorme no fim do corredor.

Um som de passos vindos do outro lado os fez parar. Havia mais alguém perambulando pelos corredores da catedral e, certamente, não era um daqueles religiosos covardes encolhidos na entrada. Kurone franziu o cenho e viu uma figura andando de maneira despreocupada se aproximando. 

O estranho oculto por um manto negro caminhava lentamente, jogando um objeto para cima e depois o segurando novamente, como se fosse um brinquedo, porém a semi-humana logo percebeu o que era.

— Encontramos o ladrão e o Orbe Amyarelo!

Sem perder tempo, Rory materializou o fuzil, Kawaii apontou a Ingram e Orcus sacou a espada da cintura. O estranho não falou nada, apenas continuou andando em direção ao grupo hostil.

— Que boas-vindas calorosas vosso grupo me dá, senhor Kurone.

Ele congelou no mesmo momento ao escutar aquelas palavras, era uma voz feminina, como a de uma criança, porém o que fez o jovem ficar paralisado foi as palavras usadas por aquela pessoa. A maneira de falar era semelhante a…

— Ei, que palhaçada é essa…?

— Você conhece ela, myaninho?

— Eu espero que não. Por favor, que não seja o que eu estou pensando.

— Nós não temos de pensar, idiota.

Bam! Bam! Bam! Rory atirou impiedosamente contra a invasora, mas ela foi rápida o suficiente para se esquivar das balas em poucos saltos.

— Cuidado! Nyão podemos quebrar o Orbe.

— Tsc.

— Senhorita Rory não mudou nada desde a última vez que a encontrei — assim dizendo, o estranho, ou melhor, a estranha, revelou o rosto, se livrando do manto negro e falou: — Desculpem por aparecer de repente e não me apresentar, meu nome é Edward Soul Za e, no momento, estou aqui a mando de senhorita Azazel.

— Eh? — Kurone resfolegou ao descobrir a identidade do invasor. Embaixo da franja anormal, as pupilas do jovem se contraíram e as pernas perderam as forças, fazendo ele cair de joelhos no chão frio do corredor. — M-mas que porra tá… — ele falou enquanto tentava processar o que estava acontecendo.

— Ahhhhhh! DESGRAÇADO, EU VOU TE MATAR!!! — Orcus gritou e partiu para cima da garotinha Edward…

O guarda reduziu a distância entre os corpos em questão de segundos e atacou com força o suficiente para cortar uma árvore, mas Edward, com o novo corpo esguio, saltou por cima da cabeça do homem e aterrissou no outro lado. 

Orcus não parou e continuou a desferir golpes mortais que eram desviados facilmente pelo adversário. Ninguém jamais viu o guarda com uma fúria naquele nível antes, nem mesmo na luta contra os orcs. Ele normalmente era covarde e cansava rápido, alguém inadequado para o posto de líder da guarda de Grain. 

Porém, Kurone sabia a verdade por trás do rosto oleoso sempre sorridente e o jeito rude. Enquanto estavam a caminho de Eragon, em uma conversa, o homem contou que entrou na guarda três meses após perder a filha no ataque à vila de dez anos atrás. Após anos de treino insuportável e alguns feitos notáveis, Orcus ganhou o título de líder, ele agradeceu ao marquês Edward por todo o apoio que deu a ele, mas só não imaginou que o nobre fizera tudo aquilo para usá-lo como um peão fim.

Edward Soul Za era o grande vilão, o homem envolvido na morte de sua filha, responsável pelo ataque de orcs e, agora, pelo roubo do Orbe Amarelo. Aquele desgraçado precisava morrer e, dessa vez, o guarda estava disposto a cortar pedacinho por pedacinho do corpo do nobre para ter certeza que ele não retornaria uma segunda vez.

— Ahhhhhh! — Ele investiu mais uma vez e quase decapitou Edward, mas teve que puxar a espada, pois o oponente quase jogou o Orbe Amarelo na espada.

Myaninho, vamos! O que deu em você!? — Kawaii segurou com força o ombro do jovem ajoelhado. A expressão dele estava horrível.

Avios apenas observou toda a situação, olhando fixamente para o objeto na mão de Edward e, após alguns segundos, recitou um tipo de cântico que reverberou por todo o corredor:

Bendita és tu, fortaleza do justo coração puro, exaltado seja vosso nome, grande deusa da que expurga toda a abominação. [Godbearn Colla]!

Uma luz amarelada saiu das mãos estendidas do Santo e foi em direção a Edward, Orcus sentiu o ataque se aproximando e saltou para proteger a própria vida, no entanto, o marquês não teve a mesma sorte e foi engolido pelo ataque e jogado contra a parede, atravessando-a em seguida.

— Porra… — balbuciou o jovem ajoelhado.

— Rory, o que deu no myaninho?

— Tsc, é aquela maldita aberração ali. — Rory apontou para o local onde o marquês com o corpo infantil foi arremessado.

Só havia um motivo para Kurone ter entrado naquele estado de choque: a nova aparência de Edward Soul Za. Ele tinha um corpo infantil de uma garotinha de dez ou doze anos, vestia roupas comuns de aldeão, mas nada disso importava, o jovem teria atacado da mesma maneira se fosse qualquer outro rosto, no entanto, aquele rosto…

Naquele mundo a magia estava em seu ápice e, por conta da influência dos reencarnados, existiam máquinas semelhantes às da Terra, uma delas era um tipo de máquina fotográfica que funcionava com mana. Kurone não chegou a usar ela, mas viu uma foto tirada pela máquina, era a imagem de uma garotinha em preto e branco, porém o rosto daquela foto e aquele à sua frente era inconfundível.

No incidente dos orcs, dezessete crianças foram sequestradas, porém, apenas dezesseis foram resgatadas, o que aconteceu com a 17° criança era um mistério, mas Kurone jurou à mãe chorosa que encontraria sua filha, por isso a mulher o deu a foto da filha, para ajudar na identificação da menina.

Ele dissera que traria a filha dela em segurança, afirmou com todas as forças, no entanto, de alguma maneira… Edward foi contra todas as leis da natureza mais uma vez e, além de voltar à vida, roubou o corpo da 17° criança, a qual o jovem deveria salvar.



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