Raifurori Brasileira

Autor(a): NekoYasha


Volume 1

Capítulo 6: Excêntrico, Requintado e Provavelmente um Tarado

“Como isso acabou assim?” 

— Conforme as leis que regem o reino de Andeavor, uma invasão à propriedade da nobreza é um crime grave, e por ser normalmente causada por monstros como orcs, eles são mortos imediatamente, mas como os invasores desta vez foram humanos estrangeiros, eles serão mandados para a capital real, para julgamento. — O guarda mostrou o livro que tinha em mãos para os companheiros, e, na verdade, ele parecia ser o único alfabetizado ali, pois os outros olharam com estranheza.

Kurone permanecia na cela em silêncio, perguntando-se internamente como acabou sendo preso em seu primeiro dia no outro mundo. Não era assim que acontecia nos mangás e light novels que lia! Na verdade, essa aventura começou errada desde o princípio, com a explicação meia-boca da deusa  Cecily.

“É tudo culpa dessa idiota.” O olhar furioso voltou-se para a garotinha de cabelos prateados — dormindo profundamente.

Rory caiu no chão sem explicação quando ia dar o golpe de misericórdia nos aventureiros da vila. Aproveitando-se de sua brecha, tomaram dela a arma e amarraram tanto a garotinha quanto Kurone, embora tenha sido inútil desarmá-la, pois, alguns segundos depois, o fuzil desmaterializou-se.

— E é porque ela tava sendo tão arrogante… — O jovem recostou a cabeça na parede fria da cela e fechou os olhos lentamente. Nunca se passou pela sua cabeça que fosse passar a primeira noite nesse mundo dentro de uma cela, vigiado por guardas armados até os dentes e sem direito a um jantar decente, e o mais importante, sem a companhia dos seus mangás eróticos ou da sua família.

O cansaço foi tomando conta do corpo, lentamente. O frio da cela o obrigou a usar um lençol velho que estava em cima da cama e, em poucos segundos, o garoto pegou no sono — não era para menos, afinal ele passou o dia sendo arremessado de um lado para o outro por sua pequena companheira de força sobre-humana.

◈◆◇◆◇◆◈

Após fechar os olhos, o tempo passou-se absurdamente rápido, era a primeira vez que experimentava o sono de um assalariado que precisava acordar cedo. A primeira coisa que viu ao abrir os olhos foi um homem, de barba por fazer, encarando-o feio.

Esse era o líder dos guardas que possuía um nome peculiar, mas por ser alguém com aparência de figurante, não lembrava mais.

— O nobre responsável por essa terra veio ver vocês... Ei, você tá me escutando? Acorda logo! — Irritado com Rory, dormindo profundamente, o homem passou a espada nas grades, produzindo um som insuportável.

— Fica quieto, filho de uma rameira mal-comida. Que desagradável me acordar logo cedo. Tá querendo morrer, é? — A loli mal-humorada acordou olhando feio e praguejando em um tom que lembrava muito um delinquente adolescente boca porca.

— Você acordou!? Achei que tivesse morta depois daquilo.

— Faça-me um favor, uma queda daquelas nunca me mataria. 

— Como consegue ser tão arrogante considerando sua situação? 

A conversa da dupla ignorou totalmente a presença do homem do outro lado das grades. O som insuportável da espada correndo pelo metal chamou a atenção de Kurone e Rory novamente.

— Eu não aguento mais vocês. Me acompanhem, o marquês Edward veio ver os famosos invasores. — Segundos antes de abrir a cela, o guarda tremeu diante da sede de sangue vinda da loli de cabelos desarrumados. — N-não tentem nenhuma g-gracinha, tá? Os guardas que estavam de folga já estão todos aqui…

— Alguns guardas a mais não fazem nenhuma diferença para mim. — Rory fez com que o guarda ficasse com mais cautela com relação aos dois estrangeiros. Quantos problemas essa garotinha podia causar em tão pouco tempo?

◈◆◇◆◇◆◈

A cela onde a dupla estava era localizada no subterrâneo, um local reservado para criminosos perigosos, segundo o guarda. Não havia nenhum mais prisioneiros nas outras celas, ou se houvesse, não podiam ser visto por eles, já que as tochas da parede só iluminavam o caminho estreito para fora do subterrâneo, e não o interior do que estava atrás das grades. 

— Esse lugar me dá arrepios.

— Nem me fale — o guarda respondeu ao comentário de Kurone com uma expressão de desgosto.  Ele era bem amigável, no fim das contas.

Adiante, a porta para a saída estava aberta e um jovem de roupas como as desse homem esperava ao lado dela.

— O marquês Edward está no seu escritório, senhor Orcus!

Ah, era Orcus!”

— Ótimo, vou levar os dois delinquentes até lá, continue o bom trabalho.

Diferente do corredor do subterrâneo, o da superfície da prisão era totalmente iluminado pela luz solar adentrando pelas janelas. Uma das portas do corredor, à esquerda, foi aberta pelo guarda — provavelmente, essa era a do escritório citada pelo companheiro. Quem os aguardava lá dentro era a silhueta de homem alto e de cabelos longos presos por uma trança característica.

A pessoa parada ali certamente era o marquês mencionado pelo guarda — Edward alguma coisa. O nobre aparentava ter cerca de trinta anos, esbelto e de cabelos dourados, trajado com roupas elegantes de coloração vermelha e amarela. Era um perfeito nobre que se encontrava com frequência em romances de fantasia.

— S-senhor Edward, esses dois foram os delinquentes que tentaram invadir vossa terra. — O guarda, que até há pouco tempo falava de maneira grosseira, apresentou os prisioneiros educadamente para o homem à sua frente enquanto se curvava.

O nobre — Edward —, não parecia prestar muita atenção nas palavras do homem. A atenção dele estava voltada totalmente para a dupla que invadiu suas terras, mais precisamente para Rory — ela também o encarava, era bem provável estar imaginando diversas maneiras de matá-lo.

— É um prazer imenso conhecer os famosos senhores invasores, meu nome é Edward Soul Za, responsável pelas terras de Soul Za, posso saber quais seriam vossos nomes?

— E-eu sou Kurone Nakano!

— Meu nome é Rory, só Rory.

— Entendo… então, se permitem minha intromissão grosseira, vós não tendes nenhum parentesco?… Ah! Perdão, peço perdão pela indelicadeza, é que vós tendes certas semelhanças no semblante, então…

Edward — que falava de maneira exageradamente rebuscada — tentou explicar o motivo de sua pergunta que foi rebatida na hora com um “NÃO" frio de Rory e um olhar repulsivo. A aura de perigo emanada pela garotinha era sufocante.

O nobre não tinha culpa em fazer essa confusão, afinal os rostos semelhantes se deviam ao fato de que Rory tinha o mesmo rosto da irmã de Kurone. Foi um capricho da deusa para o jovem não esquecer de seus familiares e manter-se firme em momentos difíceis… pelo menos foi isso que Cecily explicou, mas tinha suas dúvidas.

Mas, em contrapartida, a personalidade da garotinha era o extremo oposto de sua irmã gentil. Aquela loli ao lado de Kurone era sádica e não tinha nenhuma empatia pelos outros; um verdadeiro demônio de cabelos prateados e olhos vermelhos-carmesins.

— Perdoem-me se for rude, mas por que vossas pessoas invadiram a minha humilde vila? Creio que não possuo uma relação de inimizade com vocês, só consigo pensar que foram pagos pelos serviços.

— Bem, se nos permite explicar… na verdade, seu Edward…

Hã? Sério que todos os nobres são tão burros assim? Eu queria tomar essa vila para mim e transformá-la em minha base pessoal. Também queria fazer dos aventureiros meus escravos e usar os guardas para saber notícias da capital, esses seriam úteis para evitar qualquer problema burocrático, providenciando documentos falsos.

Direto ao ponto! 

Kurone tentou dar uma explicação à pergunta do nobre, porém sua companheira logo interveio. Rory falou, sem demonstrar nenhuma hesitação, que sua intenção era a mais horrível possível, ela enunciou como alguém que já havia feito isso antes.

Houve um breve silêncio no escritório até que… 

— Quêêêêêê??? — os três gritaram quando finalmente processaram o que foi dito pela garotinha. Até mesmo o próprio Kurone não esperava a resposta direta, precisa e diabólica de sua companheira. 

— V-você... que-quero d-dizer, a senhorita d-deve ser bem forte para ter uma i-ideia dessas… não é?... — O marquês limpava as gotas de suor, descendo da testa, enquanto tentava se recompor. Até mesmo seu sotaque requintado foi perdido por um momento devido ao choque.

— Claro que sou, agora mesmo, se quisesse, já teria matado todos vocês — Rory ameaçou com uma expressão sombria. — O que foi? Vai me atacar? Pfff!

Argh!!! — Orcus gritou assombrado, colocando a mão na altura da cintura, pronto para empunhar sua arma a qualquer movimento em falso da garotinha.

— A s-senhorita também não tem medo. Saiba que, se quisesse, eu já teria mandado executar vocês dois. — Edward, com uma expressão feia, tentou recuperar o controle da conversa. Até o momento, o nobre manteve-se calmo, mas era inevitável se alterar ao interagir com a loli delinquente.

— Pode tentar — a garotinha respondeu sem qualquer hesitação à ameaça do nobre, flexionando os joelhos e entrando em base de combate. As mãos dela formavam um espaço em que o fuzil podia se acomodar em problemas a qualquer momento.

O silêncio tomou conta novamente do escritório, todos se entreolharam sem dizer uma única palavra — com uma expressão de aflição estampada no rosto —, exceto Rory, que permanecia com sua calma diabólica de sempre. 

Essa era uma situação em que poderiam acabar sendo decapitados assim que Edward perdesse a paciência completamente e, mesmo assim, a garotinha agia de maneira imprudente.

O marquês foi em direção à mesa do escritório, sem dizer uma única palavra, apoiou uma das mãos na mesa, e…

— HAHAHAHAHAHA! Hahahaha! AHHHH! Hahaha! 

Todo ar de nobreza desapareceu de Edward. O nobre riu sem parar, segurando a borda mesa com a mão direita e batendo nela com a esquerda.

Kurone e Orcus olharam confusos para o marquês, que perdeu a compostura e lacrimejava de tanto rir.

— Há quanto tempo... hahaha... eu não encontro uma pessoa tão ousada quanto você... hahaha… ou é muito corajosa, ou tem um parafuso a menos… Hahaha! — Ele continuou rindo enquanto apontava para a garotinha.

Ao perceber a intenção de Rory, Kurone tampou sua boca, a fim de que ela não pudesse entoar qualquer feitiço para atacar o marquês, que ria sem parar de sua coragem — ou falta de sanidade. Não sabia se ela podia usar magia sem falar algo, mas sua tentativa era melhor que nada.

— Muito bem! Ahhh… perdoem-me, mostrei-vos um lado deveras vergonhoso por um momento. Em consideração a vós, recebê-los-ei de braços abertos, como meus convidados em minha humilde mansão. Desejo dialogar um pouco mais com vós e fazerdes perguntas...

Apesar de dizer “vós”, toda a atenção de Edward — que retomou a postura elegante — era voltada a Rory. Bem, ele não tinha culpa, considerando que, até esse momento, Kurone permaneceu a maior parte do tempo calado, sem demonstrar nada de especial em sua personalidade, diferente da garotinha. 

O jovem reencarnou há pouco tempo nesse mundo e estava confuso, não havia muito o que fazer além de tentar seguir o fluxo para sobreviver.

— Eu recuso — Rory respondeu sem pensar duas vezes.

“Você não cala essa boca, mini-desgraça?!”

Pela terceira vez, todos ficaram em silêncio por alguns minutos. 

— Desculpe, mas a senhorita não tem escolha. Caso recuse, mandarei que os executem agora mesmo por suspeita de serem espiões de reinos inimigos ou mesmo enviados dos demônios. — Apesar de falar sério, o nobre, dessa vez, manteve seu tom de voz suave e os olhos fechados.

— É claro que vamos aceitar sua proposta, seu Edward! — Kurone respondeu enquanto tampava novamente a boca de Rory, para ela não dizer nada que pudesse irritar o nobre. Ele decidiu que não deixaria a garota falar mais nada mesmo.

— Vejo que é um homem sensato, senhor Nakano — disse Edward, fechando seus olhos e abrindo um sorriso elegante, dando um ar de quem tinha tudo sob controle.

Kurone deu um sorriso amarelo de volta, tentando esconder a expressão de sofrimento — já que Rory chutou uma parte delicada de seu corpo para ele tirar a mão de sua boca.

— Orcus, venha comigo, precisamos resolver algumas pendências. 

— Sim, senhor!

O marquês saiu do escritório acompanhado pelo guarda.

◈◆◇◆◇◆◈

Alguns papéis foram assinados para a libertação de Kurone e Rory — eles também tiveram que assinar. A dupla acabou demorando mais que o esperado, pela falta de documentos desse mundo e pelo fato do jovem não conseguir ler. 

Não foi fácil pedir o cancelamento do julgamento pelo “Santo” na capital, afinal a dupla de invasores foi considerada como espiões enviados pelos demônios, e o comportamento de Rory fez Edward perder a postura diversas vezes durante o dia.

A narração dos episódios nessa prisão, durante o período da assinatura dos documentos, seria cômica e talvez até relevante, mas para o bom entendedor, um parágrafo de resumo basta.

Ahhh… que demora, já é quase noite. — O jovem apreciava o pôr do sol enquanto saía com Rory da construção. 

Passou-se quase um dia durante o tempo em que assinavam as pilhas e mais pilhas intermináveis de papéis.

— Aquele homem esquisito estava olhando de maneira obscena para mim. Se ele olhar novamente para mim assim, eu corto a cabeça dele. 

— Por favor, não faça isso ou seremos presos de novo. Lembra que ele nos ajudou com os documentos e tudo mais. — “E nem acho que você tenha idade suficiente para ser alvo do olhar obsceno de algum homem são.” 

Conhecendo Rory, tinha ciência que ela certamente não estava brincando sobre decapitar o marquês por um motivo idiota.

Uma carruagem em frente à prisão aguardava a dupla.

“Com sua licença, vou na frente preparar a recepção”, essas foram as últimas palavras de Edward, mais cedo. Ele falou algo sobre providenciar um veículo para eles e foi embora.  

Mesmo aparentando ser alguém legal, Kurone ainda tinha a impressão de que a carruagem poderia os levar até alguma armadilha ou os jogar para morrer em algum deserto. Por enquanto, apenas seguiria o fluxo, afinal não tinha muitas opções, devido à menininha ao seu lado. 

Podia ser apenas paranoia, mas, por algum motivo, o marquês lhe dava calafrios, porém devia estar mais seguro com ele que na companhia de Rory.





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