Volume 1
O que dizer a quem se ama?
KANARIS, FLORESTA
Na trilha que ia até um flanco obscurecido pela luz prateada da lua, Daemis caminhava em silêncio. Sua mente não estava quieta, como os ventos frios da noite conseguiam dissipar. Por que Halcan o chamara em particular? E por que agora, quando as estrelas mal haviam se deitado sobre o mundo, a terra parecia prender a respiração?
Os passos de ambos ecoavam, um mais pesado que o outro sobre o solo endurecido, abafado apenas pelo farfalhar das folhas mortas. Diante de si, as costas largas do velho general se moviam com a cadência segura de quem já trilhara mil caminhos e sobrevivido a cada um deles.
Daemis seguiu sem questionar. A língua presa, não pela falta de palavras, mas pelo temor de que, ao soltá-las, perdessem o pouco sentido que ainda tinham.
Porém, Halcan parou bruscamente.
Sem aviso, como se o tempo o tivesse convocado a deter-se no exato ponto, ele se virou. Diante deles, um campo gélido se estendia até onde os olhos alcançavam, prateado pelo reflexo da lua cheia que reinava absoluta no céu.
O ar estava mais rarefeito, e o único sopro que Daemis exalava se desfazia em névoa.
— Sente-se — disse Halcan, quase uma ordem, contudo, gentil o suficiente para que o garoto não se sentisse ansioso.
Com um gesto simples, apontou para um tronco caído, musgoso e sólido. Daemis obedeceu, acomodando-se e rígido, semelhante a alguém que aguarda um julgamento.
O general tomou o lugar ao seu lado, os joelhos estalando de leve ao dobrar-se.
Por um momento, ficaram ali, lado a lado, em silêncio.
Então, sem tirar os olhos do lago que espelhava o firmamento, Halcan perguntou:
— O que achaste do treinamento?
Daemis demorou a responder, porque não havia pensado em uma resposta.
— Não muito diferente do que fazíamos nos arredores de Jighal.
Era isso. Apenas isso.
Halcan emitiu um som que poderia ter sido um riso breve, ou apenas um sopro de ar. Seus olhos, porém, permaneceram fixos no horizonte, onde a linha tênue entre a terra e o céu se perdia.
— E o que Asher conversava com vocês, antes de partirmos?
— Disse que estava orgulhoso… e pediu desculpas por atiçar um javali raivoso — respondeu o menino, e um sorriso quase involuntário lhe subiu aos lábios ao recordar a cena.
Halcan inclinou a cabeça, como quem aprecia um detalhe importante.
— E fizeste o que eu lhe ensinei?
— Sim. Bem no nariz — expôs, com uma fagulha de orgulho.
O velho assentiu, satisfeito.
— Muito bem.
A quietude do ambiente flutuava como a neblina que se adensava ao redor. Nem mesmo a floresta ousou interrompê-los, exceto pelo sussurrar distante das copas, como se a própria natureza respeitasse aquele momento.
Por fim, a voz de Halcan soou novamente, mais branda, quase um murmúrio que se confundia com o rumor das águas próximas.
— Daemis.
— Sim? — O rapaz ergueu os olhos, que antes repousavam no lago, e pousou-os no velho.
Por um instante, Halcan hesitou. Os lábios cerraram-se, e suas feições, marcadas pelas linhas do tempo e da guerra, suavizaram-se diante do brilho verde que habitava o olhar de Daemis. Então estendeu a mão e, com um gesto simples, tocou-lhe os cachos desalinhados.
— Estou orgulhoso — falou, e as palavras soaram como um selo gravado em ferro quente.
Daemis meneou a cabeça, incrédulo.
— Mas… eu não fiz nada para merecer isso. Eu… eu não sei lutar. Nem manejar uma espada como o senhor.
Halcan ergueu uma sobrancelha, uma sombra de divertimento iluminando-lhe o semblante.
— Eu não lhe ensinei o que sei para que se torne uma cópia de mim, Daemis — replicou. — Este corte em sua face, os arranhões em seus dedos e as cicatrizes em seus braços… cada um deles fala da sua coragem. Mostram que lutaste, não com a espada, mas com o espírito. E isso, meu rapaz, é digno de um recruta. Digno de um guerreiro.
Daemis desviou o olhar, e seus dedos, manchados de terra e calos, cerraram-se sobre os joelhos.
— Eu… sou apenas um estrangeiro — sussurrou. A voz, embora séria, emitia uma dor que lhe apertava o peito. — Meu pai é um aleijado… Minha mãe, uma simples dona de casa. E tenho um irmão mais novo. Não sou nada mais do que isso.
Ele não sabia por que dizia, mas a verdade precisava escapar, como água represada por muito tempo.
Halcan, porém, sorriu. Não era escárnio, mas um que aquecia como a primeira luz do amanhecer.
— Não há soldados por perto, Daemis — disse, e seus dedos ásperos ergueram-lhe suavemente o queixo. — Em Jighal, você é Daemis. Em Lorist, um recruta. Em Olpheia, um estrangeiro. Mas aqui, ao meu lado, és mais do que tudo isso.
Os olhos do rapaz brilharam à luz do luar.
— Eu… eu realmente mereço isso?
Halcan o fitou com ternura.
— Desde o dia em que lhe resgatei em Jighal, tornaste-te sangue do meu sangue. Você é como um filho para mim, Daemis.
Os olhos do garoto brilharam com uma intensidade que nem mesmo o sol em seu auge poderia superar. Halcan sentiu-se tomado por tal luz.
Quem era o menino que ele resgatou antes atrás? Quem era Daemis, senão um soldado em formação?
— Jamais se esqueça disso, filho — completou o general, afagando-lhe o ombro.
Foi então que Daemis, tomado por um impulso que não compreendia, lançou-se sobre Halcan. Apertou-o com força, os braços rodeando a cintura do homem que, de um estranho modo, se tornara seu mundo.
— Sim, senhor — balbuciou, a voz embargada.
E Halcan, com os olhos marejados, passou a mão nos cachos do garoto. Sentiu seu calor, sentiu seu amor. E soube que, ali, numa noite tomada pelo silêncio e lua, havia ganhado um filho.
Boa noite, pessoal. Me desculpem por não postar nada semana passada.
Fiquei doente (e continuo). Mas estou me recuperando.
Esse trecho foi de uma ideia que acabei descartando, e que não iria ser usada por agora. Mas acredito que possa servir como um extra para quem quer entender melhor a relação entre Halcan e Daemis.
Uma curiosidade interessante é que tudo que Halcan fez, até então, foi “afastar” Daemis dos olhos de quem ele acredita que possa ser uma ameaça ao garoto. Independente da forma como vocês interpretaram as ações do velho general, talvez esse pequeno texto possa ajudá-los.
Tenham uma noite abençoada!
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