Príncipe de Olpheia Brasileira

Autor(a): Rhai C. Almeida


Volume 1

Capítulo 44: Um Golpe Preciso

KANARIS, FLORESTA

 

 

Antes mesmo que Raygan pudesse pensar em correr, seus pés já haviam decidido por ele. Num único impulso, lançou-se adiante, despejando cada gota de energia numa corrida desesperada.

Mas ele sabia. Animais selvagens farejam medo — e o medo dele era um perfume pungente, espalhando-se como fumaça no vento.

O javali percebeu. Seus olhos negros, brilhantes como obsidiana, cintilaram com ferocidade. Daemis nem sequer compreendeu a situação, e a besta já estava em movimento, rompendo a neve e o solo sob as patas grossas.

 Um borrão de músculo e fúria. Rápido. Veloz. Incrivelmente veloz.

Daemis viu. Viu Raygan correndo. Notou, também, que ele não era rápido o bastante. Não. Comparado à criatura, era como o gotejar de um riacho frente à queda de um relâmpago.

Não pensou. Não hesitou.

Correu.

Os passos de Daemis foram precisos, com uma exatidão que teria espantado até o mais hábil dos caçadores. Seus dedos agarraram o rabo do animal com uma firmeza quase sobrenatural. Para Joellis, que se escondia atrás de uma árvore retorcida, o movimento fora tão preciso que parecia algo praticado mil vezes. O garoto já preparava os braços para escalar, se necessário fosse — e seria, acreditava nisso.

O punhal caiu. Um brilho prateado desaparecendo sob o branco da neve. Já não tinha importância.

Agora, Daemis era o alvo.

O inimigo.

A ameaça.

Joellis observava. Os olhos do javali voltaram-se para Daemis, selvagens e odientos. Mas havia algo mais ali, algo que o fez prender a respiração. Medo, talvez? Um reflexo dele próprio nos olhos da besta?

— Daemis! — bradou Joellis, a voz rouca de impotência.

Não havia nada que pudesse fazer. Nenhuma flecha em mãos, nenhuma habilidade de luta que soubesse executar em tal situação. Apenas olhar.

Raygan, por sua vez, arfava com dificuldade, o peito subindo e descendo como se houvesse corrido por horas. Ele já alcançava a árvore indicada, e então, com os olhos arregalados, percebeu Daemis parado. Imóvel. Frente a frente com a criatura.

O javali não cedeu.

— Dae! — gritou Raygan, o desespero quebrando sua voz.

O javali avançou. Um trovão em forma de carne e presas. Mas Daemis desviou. O corpo flexionou-se no instante exato em que o par de chifres saudáveis buscou sua pele. Com um giro, livrou-se do ataque. Ao menos, daquela vez.

Mas o animal não aceitava a derrota. Recuou. Preparou-se novamente. O chão tremeu sob as patas, a neve espirrou em todas as direções.

Dessa vez, Daemis não se mexeu.

— O quê…? — sussurrou Joellis, os olhos seguindo a linha rígida do corpo do recruta. 

Raygan observava tudo. E não conseguia controlar a própria respiração.

Daemis fechou os punhos, os olhos verdes fixos, inabaláveis. E, de repente, o ar pesou sobre eles.

— O punhal! Pegue o punhal! — Raygan queria avançar, mas não conseguia. — Idiota!

O javali avançou outra vez.

Rápido. Preciso.

E Daemis… rugiu.

Não com a garganta, mas com o olhar. Um brilho feroz incendiou seus olhos, enquanto os músculos se retesavam como cordas prestes a estourar.

O animal estava próximo. Tão próximo.

— Daemis?! — questionou Joellis, sem esperar resposta.

E então Daemis moveu-se.

O punho direito voou com a força de uma catapulta, encontrando o focinho do javali em pleno avanço. Um estalo surdo, seguido de um rugido. Não de triunfo. Mas de dor. Aguda, lancinante.

O javali cambaleou. Desorientado e confuso. Girou o corpo como se o próprio chão tivesse desaparecido sob suas patas.

Raygan correu. As pernas, antes hesitantes, agora eram um só movimento. Deslizou até o punhal caído, a lâmina gelada em sua mão.

Mas antes que pudesse erguer o braço para o golpe final, algo agarrou seu pulso.

Uma mão. Firme. Quente. Inamovível.

— O que está fazendo?! — rosnou Raygan, virando-se de súbito. — Podemos matá-lo!

Os olhos de Daemis estavam ali, tão perto quanto o aperto que lhe dominava o pulso. Não havia raiva, nem pressa. Apenas uma calma estranha, marcada pelo cansaço.

— Você não faria isso — disse Daemis, a voz baixa, quase um sussurro perdido no vento frio.

— Claro que sim! — Raygan tentou se soltar, mas o aperto se fez mais forte. Ele sabia que não venceria. — Me solte!

Daemis puxou-o. E com passos largos, arrastou-o para longe. Para junto de Joellis.

— Ele se recuperaria antes que você percebesse — explicou, sem olhar para trás.

E o javali? Recuou também. A besta virou-se e trotou para longe, onde a fêmea os filhotes aguardavam entre as árvores. Uma família. Uma que, naquele dia, não perderia seu protetor.

Raygan parou. O punhal pendia frouxo em sua mão.

— Covarde! — exclamou ele, frustrado.

Mas Daemis não respondeu.

Ele apenas seguiu em frente, o olhar fixo em algo que só ele parecia enxergar. Seus passos eram constantes. Então, respirou fundo. Seus ombros relaxaram quase imperceptivelmente quando soltou Raygan, dizendo com a voz calma, ainda carregada de tensão:

— Esse animal estava apenas protegendo a família.

Seus olhos se voltaram para o horizonte esverdeado, onde a linha das árvores encontrava o céu já banhado de cobre. Por um instante, parou, escutando. Depois, inclinou levemente a cabeça para um lado, como se sentisse uma presença que escapava aos sentidos comuns.

— Ele se sentiu ameaçado… — continuou, a voz baixando para um tom quase meditativo — … e então atacou.

Sua atenção foi atraída por um ponto à frente, um espaço entre os arbustos que até então passara despercebido. A testa de Daemis se franziu. Ele avançou, afastando os galhos com cuidado. Ali, à sombra de um velho pinheiro, encontrou o cavalo.

A guia de couro estava amarrada em volta de um tronco grosso, e o animal relinchou suavemente ao vê-lo.

— O cavalo de Asher? — inquiriu Joellis, ofegante e as bochechas com manchas de vermelho vivo. — Mas onde ele está?

Daemis soltou um suspiro pesado, o ar escapando por entre os dentes cerrados.

— Como eu disse… — murmurou. Deu um passo atrás, encarando o espaço ao seu redor com olhos atentos, como se esperasse que algo mais se revelasse de repente. — Está brincando.

Ele caminhou até o local onde a luta havia começado. Lá, fincada na terra úmida, estava a flecha. Daemis a retirou com um movimento seguro. Estudou-a em silêncio, passando os dedos nas penas ásperas e na ponta rude, como um caçador que avalia a armadilha deixada por outro.

— Está nos testando.

Raygan observou quando Joellis se aproximou do cavalo, pegando a guia com mãos hesitantes. Em seguida, o príncipe ergueu o olhar para Daemis.

— O que ele quer que façamos agora? — ponderou, cruzando os braços sobre o peito.

Daemis não respondeu de imediato. Continuou estudando a flecha. Em seguida, ergueu a cabeça e fitou a floresta em volta.

— Que entremos no jogo dele.

As palavras se espalharam pela floresta. Raygan sentiu um arrepio subindo pela espinha. Era a sensação de serem caçados. Existia algo — ou alguém — nas sombras. Um predador invisível. Um vulto sem rosto, caminhando entre as árvores como um véu de trevas.

Daemis podia sentir seus olhos azuis vigiando-os, mesmo que não os visse. E com essa consciência, o silêncio da floresta parecia mais denso, como se sugasse o som e o ar à sua volta.

O sol já caía além da linha do horizonte. O céu se tingia de um rosa pálido que logo cederia ao roxo profundo da noite. Raygan contemplou as últimas nuvens dissipando-se na luz moribunda e apertou o punho. A dúvida pulsava em sua mente, semelhante a uma ferida mal curada.

— Eu realmente não entendo isso… — balbuciou, olhando o chão à sua frente. — Estamos andando em círculos, e então, quando menos esperamos, um caminho surge… ou desaparece. E agora temos que sobreviver, sozinhos, como se fôssemos presas. — Passou a mão pelos cabelos, confuso. — O velhote queria mesmo que isso acontecesse?

— Isso importa? — contrapôs Joellis, afagando a cabeça do cavalo com um gesto lento, quase distraído. — Estamos aprendendo a nos virar. E se não fosse por Daemis… — Lançou um olhar ao garoto de feições austeras. — Estaríamos perdidos.

Raygan arqueou uma sobrancelha, a expressão endurecendo.

— Fale por você — disse, num tom seco. — Eu teria matado aquele javali sem ajuda.

Joellis revirou os olhos, mas sua voz suavizou quando voltou a falar — desta vez para Daemis.

— Obrigado. Sem você, não teríamos chegado tão longe.

Daemis não respondeu imediatamente. Um sorriso discreto surgiu, e suas covinhas ficaram visíveis, como se, por um momento, a dureza de sua expressão fosse quebrada.

— Precisamos voltar. — Seus olhos estavam fixos no cavalo, mas sua mente estava em outro lugar, analisando possibilidades.

— Pensou em algo? — perguntou Joellis, percebendo a mudança sutil em sua postura do recruta.

— Por que ele deixaria o cavalo tão perto de nós? 

— Porque ele está por perto — arriscou Joellis, o cenho franzido, atento à sugestão. — Talvez observando?

Raygan ouviu tudo em silêncio. Cada palavra pesava, mas nenhuma resposta parecia fazer sentido. Ele observava o terreno com olhos cansados, tentando reunir as peças dispersas daquele enigma.

Foi então que uma lembrança antiga aflorou, como uma onda retornando à praia.

Uma voz ecoou em sua mente.

 

“Você é muito novo para ler um livro como esse.”

Era um jovem que lhe dizia — um adolescente sardento, de olhos dourados, com um sorriso fácil.

— Pensei que estivesse viajando — expôs o menino. 

— Estou, mas fiz uma pausa hoje.

— Pela minha irmã?

Silêncio.

— Edrick diz que ler é importante — continuou Raygan, sua versão criança e enfiado até a cintura entre os livros empoeirados da biblioteca real.

— Um livro infantil combina mais com você — brincou o outro. — Não um livro como… “A Voz que Domina”? Sobre o que fala?

— Persuasão — respondeu o príncipe, com uma seriedade que, agora, lhe parecia desproporcional à idade.

O garoto ruivo abriu um largo sorriso, o riso ecoando. — Sua Alteza precisa de um bom livro de fantasia. E eu sei exatamente qual. — Sorriu. 

 

Voltando ao presente, o príncipe respirou fundo. Sua convicção, embora vacilante, crescia em seu peito. 

— Ele quer que voltemos. — Sua voz era firme, carregada de certeza. — Desde o início, ele nos guiou nesse sentido.

— Como assim? — Joellis franziu o cenho.

— Ele deixou rastros. Desde que saímos do acampamento, ele nos deu sinais: o rio, as trilhas que pareciam surgir no momento certo. Sabia que seguiríamos pelo caminho que ele marcou. Nos deixou à própria sorte para que tivéssemos de lidar com os perigos sozinhos. Não foi um aviso, nem uma provocação. Foi um teste. Para ver o que Daemis faria. E agora, o cavalo. Não está perdido. Foi deixado. Ele quer que desistamos e voltemos ao acampamento. É isso que Halcan espera.

Um silêncio pesado se instalou. Joellis olhou para o príncipe, absorvendo as palavras.

— Como um jogo de xadrez — falou, reflexivo.

— Xadrez? — Daemis ergueu uma sobrancelha, sem entender.

— Sacrificar peças importantes para vencer a partida — explicou Joellis. — Mas… então por que ele nos deu uma arma de verdade?

Raygan permaneceu em silêncio. Seus olhos repousavam sobre a lâmina fria em suas mãos. Assim, como se o peso de tais palavras já estivesse decidido, esboçou um sorriso — sem calor, sem humor — e ergueu o olhar na direção dos outros dois.

— Porque, no fundo… ele quer que cacemos.

Mal a sentença deixou seus lábios, um ruído repentino cortou o ar — uma lebre saltou dos arbustos.

Por um instante breve, que pareceu se estender como o último fio de luz antes do anoitecer, os jovens se entreolharam. E em seus olhos, um único pensamento se entrelaçou, como raízes buscando a mesma seiva.

— Eu não vou fazer isso. — A voz de Daemis quebrou o silêncio, o tremor escondido perceptível.

Joellis franziu o nariz, hesitando antes de responder. — Tem certeza? — perguntou, junto do receio e fascínio pelo que via em Raygan, principalmente na serenidade cruel em seu semblante.

— Não — admitiu o príncipe, com um sorriso mordaz —, mas temos amoras. Eu faço isso.

O modo como ele lidava com a situação era perturbador, quase antinatural. Joellis observava-o como quem contempla uma peça de marfim delicadamente talhada, e ainda assim disposta a partir-se ao meio sem aviso.

— Já matou algum animal antes? — indagou Daemis, a pergunta saindo mais rápida do que a própria respiração, uma tentativa de agarrar algum resquício de normalidade.

Raygan apenas inclinou levemente a cabeça. — Eu gosto de frango — respondeu, tocando a bolsa de couro pendurada ao lado, a lâmina brilhando em sua mão. — Mas só o da minha irmã.

E da escuridão, Asher permitiu-se sorrir. Um sorriso breve, e ainda assim, traiçoeiro. Mesmo envolto na penumbra, não podia esconder o brilho satisfeito nos olhos.

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Bem, muitos escolhem permanecer escondidos, enterrando-se no conforto da ignorância, do que ousar encarar o desconhecido. Sair da toca é, muitas vezes, mais desafiador do que prever o que se esconde além dela. Mas para a natureza — aquela mãe doce e ao mesmo tempo impiedosa —, não existe abrigo que perdure. Até mesmo a mais frágil criatura é compelida a enfrentar o destino.

E a lebre, que aventurou para além do seguro abrigo de raízes e folhas, farejando o mundo com seu focinho trêmulo, não suspeitou que aquele seria seu último dia olhando as nuvens tingidas de escarlate pelo pôr do sol. 

Talvez, em algum canto obscuro de sua alma animal, sonhasse que ainda haveria outro dia… Mas para os olhos do príncipe, seu destino já fora traçado. 

E, como sempre fora, o animal nada pode fazer além de aceitar.

O crepúsculo caiu sobre a floresta com o silêncio de um véu esfiapado.

No acampamento, os únicos sons eram os passos arrastados de jovens retornando de suas expedições fracassadas. Seus mestres cavalgavam ao lado, com a postura rígida de quem não compartilhava das mesmas derrotas. Mas todos vinham de mãos vazias e com expressões murchas: cansaço, desânimo… e para alguns, como Oracis, espelhava a derrota completa.

Um dos guardas os conduzia até um grande caldeirão de sopa, servido por outro homem de armadura leve. Os garotos se amontoavam na fila, uns ávidos, outros desmotivados, aguardando o magro prêmio pela volta sem glórias.

Ao lado de Halcan, três dos caçadores já aguardavam, prontos para apresentar seus relatos. Clyvan foi o último a falar, sempre o mais direto.

— Desde o centro até os limites da floresta, nenhum sinal de inimigos. Quanto aos rapazes, agiram com eficiência para uma primeira vez. Os recrutas souberam como guiá-los. Estão prontos. — Houve um peso de certeza na última frase.

Halcan acenou brevemente com a cabeça. — Estão dispensados — disse ele, já se afastando em direção a Oracis.

O comandante observava em silêncio, os braços cruzados, fitando os meninos que se amontoavam ao redor do caldeirão. A quietude era incomum ali.

— Estão exaustos — comentou Oracis, com um leve tom de escárnio.

— Foi um dia longo — replicou o general, lacônico.

— Hmmm… Não vejo o grupo do leãozinho do Imperador. Asher ainda não voltou?

A pergunta pareceu apertar algo invisível na garganta de Halcan.

— Tens certeza? — retrucou ele, mais rápido do que gostaria.

— Brincadeira — falou Oracis, com um sorriso que não chegou aos olhos. — Estão logo ali — apontou, despreocupado.

Seguindo a direção indicada, Halcan avistou o trio emergindo da trilha. Mas o que lhe chamou atenção, de imediato, foi a lebre, sem vida, pendurada pelas orelhas na mão do príncipe. 

Ele se adiantou sem pensar, atravessando a fila e contornando as barracas até alcançar o grupo.

— Pensei que tivesse sido claro quanto à caça. — Seu tom fora tão frio quanto o aço.

Asher deu de ombros com aquele humor insolente que sempre exalava, ajustando a bolsa no ombro antes de pegar a guia do animal.

— Talvez eles saibam mais do que pensávamos — replicou ele, antes de pegar a lebre das pequenas mãos do jovem príncipe. — Preciso dar um destino a esta recompensa. Boa noite, garotos. — E com um aceno formal, inclinou-se diante de Halcan. — General.

Halcan observou a partida deles em silêncio. Joellis parecia imperturbável. Raygan, por sua vez, limpava as mãos cobertas de sangue seco com um pano gasto, os olhos distantes, como se o ato não passasse de um ritual vazio. Mas Daemis… Daemis estava diferente. Em seu olhar, um reflexo de pensamentos longínquos, como se tentasse compreender algo maior do que ele mesmo.

— Daemis — chamou Halcan, uma ordem. — Caminhe comigo.

O jovem obedeceu sem protesto, enquanto Joellis e Raygan observavam. Não ousaram interromper.


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