Volume 1
Capítulo 43: Um Pacto ou um Animal Selvagem?
KANARIS, FLORESTA
Quem já se aventurou por uma floresta poderia descrever a sensação de se perder? Não o simples fato de não saber qual caminho seguir, mas aquela impressão insidiosa, de que um único deslize poderia lançá-lo ao esquecimento — dissolvido entre troncos gastos, rígidos e curvados pelo tempo, ou oculto sob a sombra das copas retorcidas, onde os sussurros do vento se fundiam ao chamado distante de criaturas invisíveis.
No acampamento, o dia, antes claro, tingia-se com os últimos vestígios de luz. O sol, que perdera seu antigo esplendor, projetava um brilho tênue sobre a paisagem. A fogueira crepitava suavemente, atiçada mais de uma vez pelo soldado de guarda — um homem trajado como aldeão, embora a espada embainhada denunciasse um propósito muito além do de um simples viajante ou peregrino em busca de fortuna.
Armaduras prateadas destoavam da estação, e mais ainda daquele lugar.
Oracis, sentado sobre um banco improvisado, lia uma carta sob a luz bruxuleante das lamparinas. Os cabelos claros refletiam o brilho dourado das chamas, enquanto os primeiros traços de uma barba cresciam, espetando-o no rosto.
— Isso é sério? — inquiriu, franzindo a testa diante do conteúdo da carta.
À sua esquerda, Halcan, recostado atrás de uma mesa rudimentar feita de troncos e cordas, despejou um pouco de água de uma jarra em seu copo.
— Mais sério do que todos nós gostaríamos — respondeu, com um sorriso breve.
Oracis soltou uma risada áspera, incrédulo.
— Isso é mais do que loucura! — Passou a mão pelos cabelos, agitado. — Quando esses malditos pássaros vão trazer a próxima mensagem?!
— Cinco dias, talvez uma semana. Depende da urgência.
A resposta de Halcan mal havia saído de seus lábios quando Oracis bateu a costa da mão contra o papel.
— Esse filho da puta está planejando se matar! Escute isso!
Com a voz numa mistura de frustração e preocupação, leu em voz alta:
“Meu caro e estimado irmão, espero que minhas cartas estejam chegando a tempo. Recebi a última que você me enviou. E, sim, garanto-lhe que meu pênis continua exatamente onde deveria estar, em perfeito estado, apesar do frio miserável. Estou bem, muito bem. Tenho me virado, e devo dizer que meus amigos também. Quanto à última vadia que levei para a cama, posso afirmar que ela foi… memorável. Estou são e revigorado. Evitarei enviar mais mensagens por um tempo, pois estamos próximos do destino. Se eu não provar aquela bebida mais uma vez, não serei eu mesmo. Com carinho, Kaleid, seu irmãozinho.”
Oracis jogou a carta sobre a mesa com um gesto brusco.
— Não satisfeito, ele ainda está planejando eliminar outro espião! Em Elfrid, Halcan! Em Balmont!
Halcan, no entanto, permaneceu impassível. Um brilho quase divertido dançou em seus olhos antes que ele tomasse um gole de água.
— Parece que ele está fazendo um bom trabalho com a “vadia memorável”.
— Não me provoque! — Oracis rasgou a carta em um movimento irado. — Se ele morrer, eu juro que o trarei de volta só para espancá-lo!
Halcan soltou um suspiro, pousando o copo sobre a mesa.
— Controle-se, Oracis. Kaleid ordenou que derrubassem algumas árvores em Lorist. Pouco depois, decidiu infiltrar-se nas terras inimigas como se fosse um jogo de gato e rato. Ele sabe o que está fazendo.
Mas Oracis não acreditava nisso. Não tão facilmente.
— Faz quase duas semanas que estamos tentando colocar esse maldito treinamento em prática. Recebemos ordens diretas para transformar esses pirralhos em soldados. — Ele lançou um olhar para Halcan, os punhos cerrados. — Para garantir a segurança dele! E agora, recebo duas cartas do meu irmão, mencionando Balmont sem qualquer outra explicação. Eu me pergunto… podemos mesmo fazer o impossível em três meses?
O silêncio pairou entre os dois. Perguntas demais. Respostas de menos.
Então, como se ponderasse algo que há muito o atormentava, Halcan murmurou:
— Estive pensando no que você disse sobre Daemis.
Oracis ergueu o olhar para ele, atento.
— No início, achei que o melhor era contar uma mentira — continuou o velho, pensativo. — Convenci os outros de que os pais dele vieram até mim e o entregaram voluntariamente. E sei que ele não acredita nisso. Na época, achei que ele era jovem demais para entender… Mas quando o peguei nos braços, soube…
A hesitação de Halcan fez com que Oracis se adiantasse.
— Que ele era mais velho do que você gostaria?
Halcan soltou um longo suspiro, os ombros caindo sob o peso de algo que nem ele sabia nomear. Não havia o que discordar.
— Da mesma forma que você se preocupa com seu irmão, Daemis não está pronto.
Oracis estreitou os olhos, e Halcan continuou, dizendo:
— Eu apenas sigo ordens. Talvez tudo isso seja uma distração conveniente… algo para fazer Balmont acreditar que estamos nos preparando para a guerra.
Oracis soltou uma risada amarga.
— Que bobagem. — Ele inclinou-se para frente, estudando a hesitação no rosto do outro. — E o que pretende fazer? Continuar escondendo a verdade?
Halcan não respondeu. Seu rosto endurecido cedeu por um instante à dúvida, e Oracis percebeu o medo ali contido.
— Pelo amor de Deus! Ele já é um homem!
— Ele ainda fará dezesseis anos.
— Que diferença faz?! Todos os garotos da idade dele vão lutar. — Fitou o semblante do velho. Incerto, vacilante. — Quando foi a última vez que se sentou com ele para trocar algumas palavras? — Oracis gesticulou para a floresta ao redor. — Aproveite o treinamento. Uma boa conversa pode ser a última coisa que você lhe oferece antes da guerra.
A floresta estava imersa no vazio, na escuridão.
Não tanto quanto as regiões ocultas, mas o bastante para envolver os três que caminhavam em silêncio entre as árvores. O cheiro de pinho e terra molhada transbordava o ar, e o vento sussurrava entre os galhos, como uma voz esquecida da própria natureza solitária.
Não havia sinal de Asher. Nenhuma pegada visível na neve, nenhum eco dos cascos de seu cavalo. Nem mesmo o menor ruído de uma presa à espreita.
Joellis, no meio do trio, lançou um olhar desconfiado ao jovem de cachos revoltos que os liderava. Havia algo no jeito de Daemis — a firmeza nos passos, como observava a floresta sem realmente procurar nada — que despertava sua curiosidade. Ele os guiava, mas para onde?
— Tem certeza do que está fazendo? — questionou Joellis.
Não era que duvidasse das habilidades do recruta, mas o sol já mergulhava além do horizonte, e isso parecia um aviso.
Mas Daemis não hesitou.
— Já fez trilha alguma vez? — perguntou, com um toque de humor.
— Algumas. Mas não em uma floresta como essa. — Joellis lançou um olhar aos pinheiros que se erguiam à frente. A neve caía em flocos dispersos, dançando na brisa gelada.
— Em Lorist, aprendemos o que chamamos de “pacto selvagem”. — Daemis falava como se estivesse contando uma velha lenda. — Os caçadores de Lorist nos levavam para o coração da floresta, onde a mata era mais densa e traiçoeira. Nosso objetivo era simples: retornar antes do anoitecer. Sem ajuda, sem atalhos. Apenas instinto e aprendizado.
Ele fez uma pausa, ouvindo a respiração da floresta. A quietude. O murmúrio distante da água.
— Aprendemos a caçar como verdadeiros lobos. Bem, os recrutas sabem o básico de caça, mas há quem goste de matar.
— Acho que você não é como eles — supôs Joellis, com um sorriso.
— Detesto o cheiro de sangue — brincou. — Então, ao menos, posso guiá-los para fora da floresta.
Havia um leve sorriso em seus lábios, um que Joellis não sabia dizer se era de saudade ou orgulho.
— Então é isso? Estamos no meio do “pacto selvagem”?
Daemis riu, um som baixo e despreocupado.
— Isso? Não. — Ele olhou para frente, onde as sombras se fechavam ainda mais. — Asher está brincando conosco.
Enquanto isso, Raygan franziu a testa, capturando a frase no ar como quem segura um punhado de areia escorrendo entre os dedos.
— O que isso quer dizer?
O garoto não respondeu de imediato. Seus olhos varreram as árvores, em seguida, para o céu.
— Significa que ele está por perto. Observando. Mas nós não conseguimos vê-lo… — A ponta de seus lábios se ergueu em um sorriso fugaz. — É a arte da camuflagem mercenária.
Raygan ponderou por um instante, sua mente traçando paralelos.
— Como os elfos… — murmurou para si.
Contudo, ao ouvi-lo, Joellis soltou uma risada curta e debochada.
— Elfos? — repetiu, torcendo o nariz. — Acredita em contos de fadas?
O príncipe lançou-lhe um olhar frio e desinteressado, não se dando ao trabalho de responder. Em vez disso, estreitou os olhos e voltou sua atenção para Daemis.
— Ele está aqui, não está?
Daemis escutou o silêncio à sua volta, avaliando presença sutil da brisa entre os galhos.
— Difícil dizer. A água abafou nossos passos, então estamos em desvantagem. E está começando a escurecer…
Raygan suspirou, exasperado.
— Então andamos por horas para nada?! Meus pés estão me matando!
Daemis, no entanto, ignorou sua reclamação. Seus olhos estavam fixos em uma árvore à frente, diferente das demais, como se algo nela estivesse ligeiramente fora do lugar.
— Ray, me empresta o punhal?
O príncipe hesitou, trocando um olhar incerto com Joellis antes de entregar a lâmina.
— O que foi?
Daemis se aproximou do tronco, os dedos deslizando sobre a casca com uma familiaridade cuidadosa. Havia ali uma seção quase imperceptível, como se tivesse sido cortada e recolocada.
— Hm… parece que Asher passou por aqui. Estão vendo?
Ele pressionou a ponta do punhal contra a madeira, erguendo levemente a parte solta. Não precisou descascar o tronco para revelar o corte oculto.
Raygan cruzou os braços, impaciente.
— Tá, e o que isso significa?
— Ele nos deixou um recado.
— Grande coisa! — bufou Raygan. — E daí? Estou com fome, e ele disse que íamos caçar!
Joellis permaneceu em silêncio. Ele olhou ao redor e depois para o pequeno saco de amoras preso à sua cintura.
— Nós já estamos caçando… — expôs, pegando uma amora e comendo-a. — Acho que o caçador está se tornando a caça.
Raygan lançou-lhe um olhar confuso, mas antes que pudesse questioná-lo, algo chamou sua atenção. Ele se aproximou do tronco ao lado de Daemis, apertando os olhos.
— Ei, idiota… — disse, apontando. — O que é isso?
Cravada na madeira, uma seta discreta apontava para a direita.
Os três se entreolharam. Nenhuma palavra precisou ser dita. A mensagem estava clara.
Sigam a seta.
Alguns minutos se passaram. Para Raygan, eram dois, talvez até cinco, mas o tempo parecia se distorcer enquanto ele contava, cada segundo pesando mais em sua mente. Seus olhos observavam o cenário que se estendia à sua frente, mas sem realmente ver.
A vastidão da floresta parecia se repetir indefinidamente: árvores altas, cobertas de neve, e gramados finos, ainda imaculados pelo toque humano. Tudo estava tão igual, e tão quieto. Raygan sentia a exaustão tomar conta de si, como se cada passo fosse mais pesado que o anterior.
Desviar-se do rio não parecia ser uma escolha sábia, considerando as instruções de Asher. Mas, por outro lado, o que mais poderia fazer senão seguir? Sua curiosidade parecia refletir a mesma inquietude dos dois à sua frente. Como eles conseguiam continuar sem questionar?
Com uma expressão de cansaço e impaciência, Raygan tocou no bolso, no punhal guardado. Era isso que os jovens de sua idade aprendiam? A caçar com frieza, sem dó, sem piedade? Matar, sem hesitar, ou morrer tentando. Uma escolha simples, mas cruel, não muito diferente do que Asher gostaria de ensinar.
O príncipe observou o chão coberto pela neve, a mente afastada. Seus fios claros — às vezes ruivos, às vezes loiros — captavam os últimos raios do sol, mas a escuridão iminente parecia sugar sua energia. As olheiras mais profundas davam-lhe um ar fatigado, mas ele se recusava a demonstrar fraqueza. Não ali, não em frente aos outros.
Joellis, logo atrás de Daemis, sentiu o peso do olhar do príncipe. Não era que ele estivesse sendo observado diretamente, mas a postura de Raygan estava distante, fazendo Joellis se perguntar o que realmente passava pela mente dele. E assim, os minutos se arrastaram, imersos em um silêncio desconfortável, até que Raygan parou abruptamente.
Seus passos cessaram, e um olhar profundo de dúvida surgiu em seu rosto.
— Vocês não ouviram? — perguntou em voz baixa, os olhos atentos à floresta.
Joellis e Daemis trocaram olhares rápidos, e o silêncio foi quebrado por um estalo nítido vindo das sombras da floresta. O som de um galho quebrando, seguido por outro som peculiar, como se algo estivesse farejando nas proximidades.
— De novo! — Raygan sussurrou com mais intensidade.
Os três avançaram silenciosamente, subindo uma pequena colina de neve. O som do farejo aumentou, seguido de um grunhido baixo, quase inaudível.
— Um javali? — perguntou Joellis, surpreso. Enquanto falava, os três se agacharam, observando o movimento na vegetação. E Raygan, com um joelho no chão, observava o animal com uma careta de desdém.
— Não está sozinho — disse Daemis, a voz empolgada, mas contida. — Vejam, ele tem filhotes!
Raygan balançou a cabeça, sem perder o olhar.
— É uma fêmea, idiotas — retrucou, seu tom sarcástico. — Uma fêmea e três filhotes. E agora? Matamos ela e vendemos os filhotes?
Joellis, irritado, não conseguiu conter a resposta:
— Raygan! — exclamou, sua voz carregada de reprovação.
Mas antes que ele pudesse continuar, seus olhos se arregalaram ao perceber a gravidade da situação.
Daemis, com um olhar perplexo, virou-se para Raygan.
— Raygan…? — Ele parou, procurando entender. — Como o príncipe?
Raygan paralisou. Não tinha respostas. Não ainda.
O som crescente do farejo se intensificou, e Raygan, com um movimento rápido, olhou para o animal, que agora parecia mais imponente. Sua postura era mais séria.
— Merda… — disse, seu olhar fixo nas presas do animal. — Ela chamou o pai dos filhotes.
Daemis se levantou devagar, e, com um gesto de mão, ajudou Joellis a se erguer também. Raygan permaneceu agachado, imóvel, ainda observando.
— Não façam movimentos bruscos — avisou Daemis. — Vamos sair daqui. Devagar.
Com uma calma quase inquietante, Daemis estendeu a mão para Raygan, que a agarrou, sem protestar, mas com os músculos tensos. A movimentação foi cuidadosa enquanto desciam a colina coberta de neve.
Mas o destino — doce e amargo destino — não permitiria que fosse tão simples.
Quando Joellis deu o primeiro passo, o pé escorregou em um buraco escondido pela neve, fazendo um ruído estrondoso.
O animal, imediatamente, se agitou, o som de suas patas batendo na neve ressoando na floresta.
— Droga! Desculpa! — Joellis disse, seus olhos aterrados.
— Fique tranquilo — Daemis respondeu, sem pressa, sua voz calma como sempre. — Apenas me siga. Olhe para mim.
Raygan, no entanto, não podia se calar. O javali estava alterado, furioso.
— Estamos em vantagem — disse Raygan, desenvainando o punhal com precisão, seus olhos fixos no animal.
— Não! — Daemis gritou, segurando a mão de Joellis. — Você não sabe como esse bicho é forte! Ray, faça o que eu fizer! Por favor, só confie em mim!
Raygan olhou para a faca em sua mão, ainda trêmula. Sua confiança estava se esvaindo, mas ele não podia desistir agora.
— Está brincando?! — vociferou Raygan. — Eu sei o que esse animal pode fazer! Não podemos virar as costas agora, ele vai atacar!
— Ray! — Daemis respirou fundo, a tensão em sua voz aumentando. — Me dê o punhal. Agora.
No instante seguinte, uma flecha cortou o ar, aterrissando ao lado do animal, que se sobressaltou, emitindo um grunhido feroz.
Em um segundo, o javali disparou em direção ao trio, seu grito ecoando como um rugido de guerra, pronto para a luta.
Daemis, com agilidade, empurrou Joellis para o lado e, com todo o seu peso, forçou Raygan à direção oposta, o meio exposto para o animal avançar. Eles se moveram com rapidez, desviando do animal que avançava, até que o mesmo parou de súbito diante do amontoado de neve.
— Suba na árvore! — Daemis gritou para Joellis, a voz cortante. Uma ordem.
Mas o javali não estava disposto a deixar o trio escapar.
Raygan viu o animal com olhos aflitos, e Joellis, lutando para se levantar, tentou alcançar a árvore mais próxima.
E antes que o animal disparasse outra vez, Daemis, com uma precisão letal, pegou uma pedra coberta pela neve e a atirou contra o javali, distraindo-o momentaneamente.
— Por que fez isso?! — Raygan gritou, ainda ofegante, surpreso pela ação de Daemis.
— Fique atrás de mim! — Daemis ordenou, grave e implacável. — Quando eu disser, você corre para aquela árvore.
Raygan tentou protestar, mas a voz de Daemis não deixou espaço para dúvidas.
— Agora!
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Ribeira dos Desejos.
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