Primordium Brasileira

Autor(a): Lucas Lima


Volume 1

Capítulo 17: Tão Angustiante Quanto a Chuva que Caía

Cezar tragou fundo, sentindo a erva queimar enquanto a fumaça densa da maconha se misturava ao cheiro amadeirado do whisky puro. A garrafa, uma raridade envelhecida por mais de cinquenta anos, repousava ao lado do copo de vidro sobre sua mesa impecável de madeira nobre. Seu corpo estava largado para trás na cadeira de couro caramelo, os olhos fixos no teto, mas a mente fervilhando.

Julia havia escapado, matando dois dos seus no processo. Talvez tenha subestimado demais a garota? O que ele não sabia é que na verdade seus homens que fizeram merda por causa de seus desejos estúpidos, pensaram mais com a cabeça de baixo do que com a de cima, dando a ela a chance de fugir.

A comunicação com os três enviados ao Karaokê Vênus também havia se perdido. Luna, a irmã da pirralha que ajudou a matar Hugo... Morta ou não, ele já considerava a missão um fracasso. Precisaria mandar mais homens, e melhor armados.

Mas o que mais o deixava puto era o fato do seu alvo principal ter escapado de mais de vinte homens que o emboscaram por todos os lados. Não bastasse isso, ele ainda perdeu uma caminhonete com cinco homens dentro e uma moto com outros dois capangas.

Ele foi notificado de que o casal sofreram um gravíssimo acidente na rodovia, o que fez o carro em que fugiam despencar e explodir segundos depois, mas isso não o satisfez, precisava ver os corpos deles.

Ele precisava de uma garantia. Mesmo que a garota morresse, Cezar tinha a sensação incômoda de que Miguel poderia sobreviver mesmo aquilo. Afinal, aquele desgraçado possuía o maldito Parasita Primordium.

Porém, a polícia acabou entrando no meio, seus homens fizeram bagunça demais.

Parte disso era culpa dele. Só ele viu o vídeo de Miguel exterminando facilmente os homens de Hugo e por fim matando seu sobrinho de forma implacável. Cezar assistiu a filmagem várias vezes, tinha certeza que o garoto possuía aquilo, a coisa mais cobiça do mundo.

O Parasita Primordium.

Ele ainda não conseguia entender como um moleque qualquer havia colocado as mãos no artigo mais valioso do planeta. Vendo as habilidades que Miguel demonstrou, Cezar jamais cogitou subestimá-lo.

Mas nem mesmo ele compreendia a verdadeira profundidade do Primordium. Ninguém compreendia.

As informações sobre essa anomalia biológica eram escassas, enterradas em teorias, rumores e misticismo. Aqueles que detinham esse poder não saíam por aí se exibindo. A única certeza era a longevidade e a saúde aparentemente perfeita que o Primordium concedia — o fator principal que garantiu o monopólio absoluto às famílias da elite que governavam o país acima do governo federal.

Cezar havia ordenado que fossem com tudo para cima de Miguel, mas não esperava que usassem lança-granadas e lança-mísseis no meio da avenida mais movimentada da zona norte do DF.

Era óbvio que até a polícia, mesmo indiferente ao lixo da periferia, seria forçada a agir. Teve sorte de ser apenas os policiais. Se fosse a FEL — Força Especial LEMI —, ele estaria fodido. A FEL era a força militar criada pela corporação LEMI, e boatos diziam que era tão, senão mais forte que o próprio exército brasileiro. Havia um ditado popular nas ruas:

"Se a FEL foi acionada, cus serão comidos."

Nessa hora, seu olho brilhou em um tom azulado.

Senhor, alguns dos nossos foram presos. Já contatamos o delegado Matos, mas ele cobrou o triplo do que geralmente cobra. Filho da puta. Além disso, os Crimson Wolf começaram a se mover. Eles chegarão ao Vênus primeiro, e pelo que vimos, Victor chamou todo mundo.

— Bosta! — Cezar bateu o copo de vidro na mesa, um pouco de uísque derramando sobre a madeira envernizada. — Ligar para Dyn.

A chamada conectou.

Fala, chefe.

— Dyn, junta quem der por aí e fecha essa área da zona norte. Tá vendo a foto que mandei? Se encontrar qualquer um desses dois, me informe na hora. Não é pra meter o louco, a porra da polícia provavelmente estará rondando a área por causa da confusão que o Bruno fez.

Belê!

— Ligar para Roni.

Que que tu manda, Antigão?

— Manda todo mundo ficar esperto. Não quero ninguém andando por aí sozinho, principalmente enchendo o cu de cachaça. Fala pra todo mundo se ligar nos Crimson Wolf, talvez role uma treta das grandes com eles. Todo mundo armado, mas sem baderna, caralho! Dê uma folga para as garotas, os puteiros ficarão fechados por enquanto e sem trabalho nas ruas também. Não vamos poder deixar guarda-costas pra elas. Se alguma ainda quiser ir dar a porra da buceta, deixa bem claro que, se der merda pro lado delas, é culpa delas. E avisa a galera que vende os bagulho pra ficarem ligeiros. Não vai dar pra cobrir todo mundo, então é pra vender as paradas só pra quem já é conhecido até segunda ordem.

— Caralho... tá, pode deixar. Vou avisar todo mundo.

Cezar hesitou por um momento, depois fez outra ligação.

Ligar para Victor Wolf.

Enquanto aguardava a chamada ser atendida, Cezar sincronizou seu implante ocular Odin ao projetor holográfico embutido na mesa.

A voz do outro lado veio fria e carregada de raiva, ao mesmo tempo que seu rosto se materializava no painel holográfico. Era jovem, por volta dos vinte anos. Olhos afiados como os de um lobo, brincos prateados em ambas as orelhas, o cabelo carmesim bagunçado, um estilo rebelde. Tatuagens adornavam seu pescoço e cobriam ambos os braços.

Parecia estar dirigindo sozinho — a projeção mostrava apenas parte de seu busto e um vislumbre do interior do veículo.

Tá me ligando pra explicar por que caralhos invadiu um dos meus negócios e tentou matar uma das minhas colaboradoras?

— Heh... Muito engraçado, pivete. Um dos teus mata meu sobrinho e agora que eu tô revidando, ainda quer satisfação? — Cezar soltou uma risada seca. — Tô atrás só dos filhos da puta que fizeram isso. Não se mete. Aliás, pode até me ajudar entregando esses arrombados. Estaria fazendo um favor a si mesmo… já cagaram no pau agora, podem fazer o mesmo no futuro.

Que porra você tá falando? Tá chapado?! Quando foi que um dos meus matou seu sobrinho? A gente nem pisa naquela boate de merda.

Cezar franziu o cenho. O tom de Victor transparecia uma confusão genuína, assim como suas sobrancelhas unidas. Se ele estivesse fingindo, então era uma atuação digna de Oscar.

— Heh... Você realmente não sabe?

— ...

Victor parecia visivelmente incomodado.

— Pelo visto tem uns lobos aí precisando de coleira — debochou Cezar. — Se não mantiver teu pessoal na linha, vai acabar se fodendo.

— Ah, é? Então me diz... quem matou o Hugo?

Cezar sorriu de canto. Ao seu comando de voz, algumas imagens foram enviadas a Victor.

A projeção holográfica piscou, e assim que Victor bateu os olhos nas fotos, sua expressão mudou. Primeiro, uma surpresa nítida, ele reconhecia Samira. Mas então, veio a confusão. Sua testa franziu levemente, os olhos se estreitando ao encarar a outra figura nas imagens. Quem era esse garoto com Samira? Ele nunca o vira antes.

Cezar observou em silêncio, os dedos girando lentamente o copo de whisky sobre a mesa.

***

— Aí! Porra!

— Aguenta! Já tirei. Ju, pega o CytoFix na minha mochila. Não... no outro bolso, no outro!

Soltando um “Ah!”, Julia chacoalhou a mochila de Miranda, espalhando tudo sobre a mesa de centro de um dos quartos da Vênus. Miranda revirou os olhos, fuzilando os objetos espalhados — brinquedinhos eróticos, drogas, tudo misturado. Mas, no fim, soltou um suspiro cansado.

— Pega. — O spray branco foi atirado por Julia.

Miranda o pegou no ar, o chacoalhou e logo aplicou o conteúdo no ferimento na região lombar de Luna. O jato frio foi um alívio instantâneo, as substâncias químicas abafando a dor. O ferimento foi selado rápido, finalizado com gazes e esparadrapo.

— Teve sorte de não atingir nenhum ponto vital. — Miranda suspirou, enxugando o suor da testa. — Alex, traz algo pra gente beber. Dan, você e o Caio vão lá tirar aqueles caras do saguão, ajudem os tios a limparem também.

Os três homens, descalços e vestidos apenas da cintura para baixo, saíram rápidos, deixando o pequeno cômodo mal iluminado, banhado em vermelho e violeta. A atmosfera densa e envolvente do lugar era acentuada pela fumaça avermelhada que escapava pelas frestas das paredes.

— Seus namorados são tão obedientes. — Luna murmurou, com um sorriso irônico.

— Humpf, se não forem, apanham.

Miranda, jovem de cabelos curtos e louros, magra, mas voluptuosa graças aos implantes de silicone, era um pouco mais velha que Luna, tinha seus vinte e seis anos. Como as outras, tatuagens decoravam seu corpo. Trabalhava como enfermeira em um hospital clandestino nas redondezas de Ceilândia, sendo também uma das melhores clientes da Vênus.

Além de seu trabalho, ela vendia medicamentos e utensílios hospitalares roubados da clínica onde trabalhava. Foi sorte ela estar ali hoje.

O barulho da troca de tiros alertou todo mundo na Vênus, e, ao perceberem o perigo, alguns clientes e funcionários saíram para ver o que estava acontecendo, sacando armas, prontos para meter chumbo em quem quer que fosse maluco de tretar ali. Era prova do respeito e carinho que os clientes tinham pelo lugar.

Mas Luna e Julia já haviam matado os invasores. A maioria dos clientes voltou para suas cabines depois que Luna garantiu que estava tudo bem, exceto por Miranda, que, com seus três amantes, ficou para ajudar.

Luna foi até a cabine que Miranda alugara, e o cheiro de sexo e melancia do narguilé pesava no ar, enjoativo. Camisinhas usadas, latas de cerveja, garrafas de vodka vazias e embalagens de Aurora Phase estavam espalhadas pelo carpete vermelho.

Era óbvio o que estava rolando ali a pouco tempo, mas bem, isso não era novidade no lugar.

— Quem eram esses idiotas? — perguntou Miranda, acendendo um cigarro, se recostando no sofá.

Luna colocou uma blusa nova e se deitou. — Julia disse que eram homens do Cezar.

Miranda ergueu as sobrancelhas. — O líder dos Cães de Rua? — Julia acenou com a cabeça. — Por que ele mandaria seus homens virem aqui pra te matar?

Julia se sentou no lado oposto delas. Tirou o casaco ensopado, mas logo se cobriu com uma blusa emprestada por Miranda. Colocou uma perna sobre a outra e, enquanto limpava e tratava o ferimento no pé, falou: — De forma resumida... rolou uma treta semana passada na Rosa Azul... Hugo raptou Samira pra fazer você sabe o quê, conhecia aquele merda e sabe o quão doente o filho da puta era. O novo namorado da Samira foi atrás dela, eu o ajudei, bem, ele nem precisava da minha ajuda... No final, Miguel, o namorado da Samira, matou Hugo. O que a gente não sabia era que esse bosta era sobrinho de Cezar. Pelo visto o filho da puta descobriu o que a gente fez e quer vingança.

— Puta que pariu... que azar do caralho. — Miranda balbuciou, a fumaça escapando por seus lábios pintados de pêssego. Essa situação era bem ruim. — Mas, caramba hein, esse novo namorado da Samira é tão pirocudo assim?

Alex entrou no quarto bem na hora, trazendo uma garrafa de vodka e latinhas de energéticos. Luna o chamou com a mão, pegou a garrafa e a virou na boca, bebendo como se estivesse bebendo água. Miranda o pediu para deixarem-nas a sós, ele saiu rapidamente.

— Você nem faz ideia... quando o ver, achará que ele é só um garoto lindo, mas a verdade é que o filho da mãe é um lobo em pele de cordeiro. Miguel mata sem nem piscar, como se fosse a mesma coisa que respirar. Além disso, é forte pra caralho, nunca vi ninguém lutando como ele, parece até aqueles agentes de elite da LEMI. Talvez ele tenha uns implantes sinistros...

Julia fez uma careta de dor, mas seu rosto suavizou após cobrir a ferida do pé com o CytoFix.

— Me dê um pouco, tô precisando também. Luna jogou a garrafa para ela. Julia bebeu a vodka igual a Luna.

Miranda abriu uma latinha de energético e bebeu um bom gole. — E onde ele tá? Esse tal... Miguel? Aliás, e Samira?

— Eles saíram pra trabalhar... — Luna tentava ligar outra vez para o casal. Nenhum deles atendia. Ela xingou e atirou o celular na parede. — Porra! Não me atendem de jeito nenhum! Alguma coisa aconteceu! Porra... porra...

Era compreensível o estado desesperado de Luna, Julia falou: — Tente se acalmar... Miguel irá proteger Samira, tenho certeza disso. — Sua certeza advinha de sua memória sobre os eventos daquela noite. — Eu sei disso, Luna. Tenha um pouco de fé.

Luna assentiu, mas suspirou profundamente.

A porta da cabine se abriu. Não era Alex, nem os outros namorados de Miranda.

A silhueta que surgiu no batente lembrava a de Miguel, mas com um porte físico mais robusto. Seus cabelos tingidos de carmesim caíam um pouco sobre os olhos, e tatuagens marcavam seu pescoço, clavícula e braços. Um sobretudo negro cobria boa parte do corpo, encharcado e pingando, enquanto as calças fumê pareciam absorver a pouca luz do ambiente. Os coturnos de couro sintético estavam sujos de lama e água da rua.

— Victor! Você demorou! — reclamou Luna.

Victor assentiu, seu olhar cansado, mas carregado de preocupação.

— Você tá bem, Luna?

Antes que ela respondesse, outra figura surgiu ao lado dele, fechando a porta atrás de si. Menor, mais delicada, do tamanho de Samira. Os cabelos lisos e carmesim escorriam pelos ombros, com as pontas levemente onduladas e úmidas. Como o irmão, a pele era pálida e coberta por tatuagens, e o sobretudo negro que usava pingava no carpete, deixando pequenos rastros escuros. No entanto, o que mais chamava atenção nela eram os olhos: pupilas multicoloridas que vibravam em tons vivos, alternando-se aleatoriamente, lentes cibernéticas que estavam se tornando populares no mercado.

Seu nome era Victoria.

Ela correu até Luna, analisando-a rapidamente. Seu jeito enérgico e a preocupação sincera traziam uma leveza que contrastava com o clima tenso do lugar. Depois, virou-se para Julia, examinando seus ferimentos com a mesma atenção. A familiaridade entre elas era evidente.

— Ainda bem que estão bem! — Victoria sorriu, mas logo franziu a testa. — E a Samira?

O tom animado se dissipou quando Victor, agora sério, cruzou os braços e lançou um olhar afiado para Luna e Julia. Uma gota d’água escorreu da barra de seu sobretudo, pingando no chão silenciosamente.

— Precisamos conversar. Onde está sua irmã... e o cara que estava com ela quando mataram Hugo?

***

Samira abriu os olhos lentamente. Estava escuro, a pouca iluminação que atravessava a cortina da janela criava sombras abstratas na parede. Sentia seu corpo pesado, mas não doía. Um cobertor grosso a cobria no sofá onde estava deitada. Logo sentiu uma mão delicadamente acariciar sua bochecha.

— Como se sente?

Miguel perguntou. Seus olhos negros carregavam muita ternura, como se olhasse para a coisa mais preciosa em sua vida.

— Tô com fome.

Respondeu Samira, sorrindo suavemente. Miguel riu, suspirando aliviado.

— Onde estamos? O que aconteceu depois que...

Samira sentiu a cabeça doer ao tentar se lembrar dos acontecimentos desta tarde.

— Estamos em um lugar seguro — disse suavemente. — O carro capotou, mas os airbags nos salvaram da queda. Consegui tirar a gente de lá antes de explodir. Aliás, você dirige muito bem. Se não fosse aquela barricada da polícia, teríamos conseguido escapar sem problemas — acrescentou.

Samira segurou as costas da mão dele, se aninhando ainda mais em seu carinho. O calor de Miguel a confortava.

— Julia me ensinou a dirigir.

— É mesmo?

Ela acenou com a cabeça.

— Pensei que a gente ia morrer...

Sua voz vacilou. Samira apertou os lábios, tentando conter a emoção, mas falhou. Lágrimas silenciosas escorreram pelo seu rosto. Sim, ela era forte. Muito forte e madura para alguém de sua idade, mas ainda continuava sendo apenas uma garota que acabara de fazer quinze anos. Sua vida nunca foi fácil. Pelo contrário, desde tenra idade sabia que precisaria fazer de tudo se quisesse sobreviver nesse mundo injusto. Na verdade, ela até poderia se considerar sortuda de ter sua irmã mais velha, que conseguiu sustentá-las durante os anos mais difíceis.

Mas hoje foi diferente. Pela primeira vez, a morte a encarou nos olhos da forma mais implacável.

Miguel se aproximou, tocando sua testa na dela.

— Eu estou aqui. Não deixarei você morrer.

— Hm.

Samira adormeceu novamente após Miguel dizer para ela descansar. Amanhã, ele contaria sobre tudo o que aconteceu enquanto ela estava inconsciente.

Depois de beijar sua testa, ele se retirou do cômodo, fechando a porta com cuidado.

O corredor estreito da clínica veterinária estava mal iluminado, o ar carregado com um cheiro misto de desinfetante e pelo molhado. E também... de sangue.

Pegadas de um vermelho escuro tingiam a cerâmica que um dia fora branca. Um rastro deixado pelo garoto que agora caminhava com dificuldade, quase se arrastando. Sua visão embaçada oscilava entre sombras e borrões de luz, exigindo um esforço brutal para manter os olhos abertos.

Do bolso da calça pegou o dispositivo RISE. O display continuava apagado. Independente das inúmeras tentativas de fazê-lo ligar, não havia o menor sinal de funcionamento. Por um instante ele parou, a mão tremendo enquanto pressionava o pequeno aparelho contra o peito. Aquilo doía mais que as feridas em seu corpo.

— Mia... Mia...

Sussurrava de forma sufocada, tomado por uma impotência tão angustiante quanto a chuva que caía nesse dia.

Quando chegou ao hall de entrada da clínica, ouviu uma voz rouca.

— E aí, sua mina tá bem? — perguntou um velhote de jaleco sujo, encostado em uma cadeira reclinável que rangia sob o menor movimento. Na mão cromada, segurava uma garrafinha de pinga pela metade.

Miguel assentiu. Pegou uma cadeira e a arrastou até a janela, afastando levemente a persiana com os dedos. Lá fora, a rua era engolida pelas sombras, apenas algumas luzes piscando ao longe.

A chuva fina tamborilava nos telhados e escorria pelos becos infestados de ratos. A penumbra dificultava enxergar qualquer coisa, ainda mais na condição critica em que estava, mas ele ainda assim se forçava a observar a movimentação no beco, mantendo-se alerta.

— Ei, moleque... é melhor relaxar.

Miguel permaneceu em silêncio por um instante antes de ceder, apoiando a cabeça na parede.

— Tem razão... — murmurou. — E desculpa forçá-lo a nos ajudar.

— Tô de boa — resmungou o velho, tomando mais um gole. Seus olhos percorreram Miguel dos pés à cabeça, avaliando seu estado. — Eu até perguntaria o que diabos aconteceu com vocês, mas... é melhor tratarmos logo esses machucados. Parece que tu vai bater as botas a qualquer instante.

Miguel expirou lentamente, exausto.

— Tudo bem. Mas enquanto isso, o senhor poderia me dizer onde posso... encontrar... um... bom... técnico... de...

A voz dele desapareceu enquanto sua consciência era levada a escuridão. Mesmo depois de cair inconsciente no chão, sua mão direita não largou o dispositivo RISE...

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