Volume 1
Capítulo 16: Emboscada parte 2
Pegando a moto de Luna emprestada, Miguel e Samira passaram a manhã toda andando pela região norte do DF. Mas não era um encontro romântico, e sim trabalho. Samira carregava em sua mochila uma boa quantidade de Aurora Phase, entregando tanto para os clientes de sempre quanto aos novos que conseguira recentemente. Ela cuidava da parte da negociação de vendas enquanto Miguel servia como um guarda-costas, pronto para meter a surra em qualquer engraçadinho que tentasse dar a volta em Samira.
Houve apenas um incidente nesta manhã, onde um pouco de sangue foi derramado:
Num bairro degradado, Samira subiu as escadas metálicas rangentes de um prédio caindo aos pedaços. A cliente, uma mulher na casa dos trinta e poucos, a lateral da cabeça raspada, coberta de músculos inchados e tatuados, pegou um dos pacotes de Samira, mas disse que só iria pagar na semana que vem. Samira disse que seria impossível, precisava do dinheiro ali na hora. A mulher hesitou por um segundo antes de tentar desferir um chute no peito de Samira.
A garota conseguiu por pouco se esquivar do golpe, pulando para o lado ao passo em que sacava uma LEMI-266, pistola semiautomática que lembrava uma Glock do século passado. Ela mirou a arma azul bebê com pinturas florais recém customizada.
— Opa! Ei, foi mal! Calma aí, garotinha! Vamos conversar, beleza?
— Heh... — Samira riu desdenhosamente. — Quero a grana agora!
A grandona estalou a língua, mas acenou com a cabeça. Seus enormes músculos não serviriam de nada contra balas que poderiam transformá-la em queijo suíço.
Miguel observava à distância, recostado na moto vermelha, pronto para agir se necessário. Raramente se intrometia nos negócios de Samira, sua garota era esperta e preparada, já estava acostumada a todo tipo de malandro. Ele só agia quando as coisas realmente ficavam feias.
Mas então, o controle da situação escorreu pelos dedos de Samira. Um barulho alto a assustou, e um reflexo involuntário fez seu dedo apertar o gatilho. A arma, configurada para rajadas, cuspiu três tiros seguidos. A grandona foi atingida duas vezes no ombro enquanto um terceiro tiro passou raspando sua sobrancelha.
— Aí! Caralho! Porra!
Xingava, se contorcendo de dor.
Samira tremeu, uma careta se expressando em seu rostinho. Olhou para a fonte do barulho: um maldito gato careca que aterrissara sobre uma lata de lixo, esparramando um bocado de detritos.
— Vish. Foi mal aí, Rock! — desculpou-se coçando os cabelos com a pistola travada. Ela ria sem graça enquanto olhava Rock, a mulher musculosa, gemendo de dor.
— Porra! Gato filho de uma puta! — praguejava Rock, olhando o animalzinho lambendo as bolas, alheio a tudo.
— Rock! O que houve?!
Um jovem magricela seminu correu de dentro do apartamento, visivelmente assustado com o barulho dos tiros.
— Relaxa! Foi só um arranhão.
O rapaz olhou de um lado para outro, revezando entre Rock e Samira. Por fim, deu ouvidos a Rock.
— E agora? Ainda vai me cobrar? — resmungou a grandona.
— Lógico! — retrucou Samira, dando de ombros à careta produzida por Rock. — Mas vou dar um desconto pelo acidente.
Rock riu, a dor fumegante a fez gemer, mas continuou rindo da situação. — Garotinha, você é um demônio.
— Hehe.
— Pega a grana pra ela, Gus.
O magricela que deveria ter a idade de Samira correu de volta, voltando minutos depois com um rolo de notas de reais presos por um elástico.
Samira deu um olhar divertido aos dois antes de se virar para ir embora.
— Então... até semana que vem? — perguntou cinicamente.
Rock caiu de bunda no chão, se escorando na porta, rindo alto.
— Até semana que vem, diabinha. Mas sem treta da próxima.
— Você que começou! — deu de ombros. Então lançou um olhar rápido para o rapaz de aspecto frágil. — Boa sorte aí!
O rapaz riu sem graça.
Voltando até Miguel, Samira disse sorrindo:
— Vamos almoçar agora?
Miguel cuspiu um pouco de ar, gargalhando da cara de pau dela.
— É, bora — concordou. Então chamou Mia. — Mia, qual o restaurante mais próximo?
O dispositivo RISE se soltou do suporte imantado na jaqueta de Miguel, flutuando pouco abaixo da linha de visão deles. Mia apareceu sobre o holograma do drone, junto de Nina. As duas olharam para Samira com expressões de divertimento.
— Ei! O que foi aquilo?! Hahaha!
— Vocês tavam assistindo? — Samira perguntou fazendo bico. Parecia envergonhada.
—Assistimos você se assustando com um gatinho. Coitada da marombada. — Nina cobriu o rostinho com as mãos, os ombros tremendo enquanto gargalhava.
— Tsc! Não enchem! Eu tava tensa lá e o maldito do nada fez um barulhão!
Mia e Nina caíram na risada, Miguel por sua vez desviou o rosto, tentando esconder o sorriso que mal conseguia segurar. Samira se tornava cada vez mais vermelha.
— Chega dessa merda. Bora comer!
Resmungou, batendo o pé no chão.
Nessa hora, um estrondo foi ouvido. O som veio como um trovão rasgando o mundo. Um impacto surdo, profundo, fazendo o chão vibrar sob os pés deles. Quase no mesmo instante, uma chuva forte rompeu.
— Porra! Tá chovendo mesmo! — reclamou Samira, lembrando-se da notificação que vira mais cedo naquela manhã. Parecia inconcebível: pouco tempo atrás o céu cinza estava limpo na medida do que era possível nessa cidade tão poluída. Mas agora estava escuro como breu.
— É, vamos embora logo. — chamou Miguel. Estava pronto para dar partida na moto, Samira rapidamente subia atrás dele, segurando sua cintura firmemente.
Foi então que aconteceu.
Algo quicou no asfalto perto do casal. Um cilindro preto, pequeno, discreto, surgido sabe-se lá de onde. Por um instante, pareceu inofensivo. Mas então, Miguel percebeu.
O mundo desacelerou. A granada rolava na direção deles. Suas pupilas se contraíram, cada célula de seu corpo reagindo num instinto primitivo, um reflexo milagroso que o impulsionava a proteger Samira.
BOOMMM!!!
Tanto Samira quanto Miguel desenharam parábolas perfeitas no ar antes de se chocarem contra o chão. A visão de Samira girava, sangue escorrendo de seu nariz e boca, uma dor aguda castigando cada pedaço de seu corpo. Tentou se levantar por reflexo, mas um grito de dor rasgou sua garganta. Seus braços tremiam, recusando-se a responder, e suas costas queimavam como se sua coluna estivesse sendo rasgada de dentro para fora. Incapaz de se erguer, soluçou de dor e frustração.
— Samira! Miguel! — Mia gritou desesperada, seu dispositivo RISE pairando sobre os dois.
Samira chorava, enquanto Miguel começava a se levantar, cambaleando. Seu rosto estava tingido de vermelho, o sangue escorrendo sem parar do topo de sua cabeça. Ele apertou os dentes, sentindo a tontura ameaçar dominá-lo, mas forçou seu corpo para cima. A resistência sobre-humana que possuía o mantinha firme, mas o choque ainda reverberava por cada fibra muscular.
— Miguel! O que aconteceu? — Mia perguntou, sua voz tingida de urgência.
— Mia, se concentre! — Miguel ordenou, seu tom firme como aço.
A IA imediatamente adotou a frieza lógica de uma máquina. Seus olhos brilharam em azul celeste enquanto hackeava todas as câmeras da região.
— Estamos sendo atacados — informou Mia, sua voz agora calma e precisa. — Vinte e dois homens, todos armados. Precisamos fugir. Samira está muito ferida, e você ainda não se recuperou completamente da última batalha.
— Entendido. — Miguel cerrou os dentes, sufocando a dor.
Ele se aproximou de Samira e a pegou nos braços. Seu coração apertou ao vê-la naquele estado, mas não havia tempo para hesitação.
— Espere... — Samira agarrou o colarinho dele. Seu olhar febril estava tomado de determinação. Com um esforço tremendo, puxou um pequeno cilindro metálico da mochila. Dentro, um líquido esverdeado tremeluzia sob a luz fraca do beco.
Miguel não sabia o que era aquilo nas mãos de Samira, viu apenas que o objeto possuía uma agulha em uma das extremidades.
Sem hesitar, ela cravou a injeção no próprio peito. O líquido sintético se espalhou por suas veias num estalo, e seu corpo reagiu instantaneamente.
A respiração acelerou, os olhos dela brilharam intensamente. As pupilas se dilataram como se o mundo ao redor estivesse desacelerando. Os tremores cessaram. A dor desapareceu.
— Injetor de Adrenalina Sintética NX — murmurou Nina.
Em poucos segundos, Samira saiu dos braços de Miguel. Estava de pé, o peito subindo e descendo rápido, os punhos cerrados.
— Eu vou matar esses cornos — rosnou ela, puxando sua pistola do coldre sob a jaqueta.
Miguel segurou suas mãos antes que ela fizesse qualquer besteira.
— Se acalme. — Sua voz era suave, mas firme. Com um toque cuidadoso, limpou o sangue que escorria pelo olho direito dela. — Quanto tempo isso vai durar?
— ... Dez minutos... — admitiu Samira, desviando o olhar.
Miguel suspirou. Sabia que aquele tipo de droga cobrava seu preço depois. Mas agora não havia tempo para discutir.
Os passos e o barulho seco de armas sendo destravadas ecoavam pelo beco. Estavam cercados.
— Vamos — disse Miguel.
Ele puxou Samira pela mão e os dois correram em direção a uma porta de ferro na lateral do beco. Miguel desferiu um chute poderoso, arremessando a porta contra a parede com um estrondo. Invadiram o interior do prédio — um antigo mercadinho abandonado, suas prateleiras empoeiradas formando um labirinto.
Rajadas de tiros estouraram atrás deles. Miguel sacou sua pistola calibre .50. O preto fosco da arma contrastava com os detalhes vermelhos customizados por Samira, mas agora tudo o que importava era sua letalidade. Ele estilhaçou a janela com os tiros e saltou sem hesitação.
Samira, um passo atrás, quase tropeçou — Miguel a segurou firme, puxando-a com ele. Atravessaram a pista de mão dupla no meio do trânsito caótico, desviando de buzinas furiosas e xingamentos.
— Merda! Estão vindo! — A voz de Mia soou urgente. Sua visão alternava entre a realidade ótica humana e o Cyberespaço, revelando os perseguidores em tempo real. Alguns ainda corriam com armas em punho atrás do casal, enquanto outros já montavam em motos e entravam em carros para iniciar a perseguição.
— Miguel, não dá para fugir a pé.
Miguel captou a situação de imediato. Samira pensou rápido e sugeriu:
— Vamos roubar aquele carro! Mia, hackeia ele pra gente!
O veículo apontado era um Anila, um sedã prata da montadora Taif. Totalmente elétrico e equipado com um computador de bordo de última geração, era um modelo de luxo com direção autônoma quase impecável.
Mia ergueu a mão direita, um brilho azulado pulsando ao redor de seus dedos esguios. Uma cascata de códigos e bits fluía diante de seus olhos enquanto ela rompia o sistema de segurança o mais rápido possível. Foram menos de três segundos, mas pareceram uma eternidade.
— Um de vocês vai precisar dirigir! — alertou Mia, ansiosa. Apesar de ser uma IA, uma gota de suor escorria por sua bochecha corada. — Estou ficando sobrecarregada.
— Deixa comigo! — disse Samira.
Nina, a única na situação que não podia fazer nada devido a restrições em seu sistema operacional, apenas assistia, os punhos cerrados, o semblante abatido. Sua mandíbula travada denunciava a frustração contida, mas não havia nada que pudesse fazer.
Porém, algo mudou.
Sem que qualquer um percebesse, incluindo a própria Nina, um brilho carmesim oscilou em suas pupilas, escurecendo-as por um instante, profundo e imperceptível. O momento foi breve, insignificante demais para chamar atenção. Nem ela, nem seus amigos, notaram tal acontecimento.
Os perseguidores avançavam sem hesitação, disparando sem se importar com os transeuntes. O trânsito se tornou um caos. Pessoas corriam em pânico, balas perdidas atingiam desafortunados, motoristas batiam seus carros enquanto tentavam fugir. Buzinas, gritos, tiros, chuva intensa — a rua se transformou em um inferno.
O Anila freou ao comando mental de Mia, as portas se destravando instantaneamente. Samira assumiu o volante depois de expulsar a dona do carro — uma mulher vestindo um terno azul caro que não economizou na hora de amaldiçoar o casal. Miguel, no banco do passageiro, sacou sua arma.
— Samira, me empresta sua pistola — pediu ele.
Ela assentiu e entregou a arma sem hesitar.
— Abre o teto.
Samira pressionou um botão no painel e o teto solar deslizou para trás. Miguel se levantou, ambas as pistolas em mãos.
Samira pisou fundo no acelerador. Os pneus cantaram, deixando marcas negras sobre o asfalto. Seu corpo afundou no banco de couro sintético com a aceleração súbita. O carro foi de zero a cem em questão de segundos. Miguel, sem apoio, teve que lutar para manter o equilíbrio.
Enquanto isso, Mia hackeava consecutivamente as câmeras da área pela qual passavam para rastrear os inimigos e, simultaneamente, controlava semáforos e carros inteligentes para abrir caminho para Samira — e atrapalhar os perseguidores. O processamento intenso começava a sobrecarregá-la, mas ela não tinha escolha.
Para piorar, o sistema de segurança das câmeras do departamento de polícia reagiu à invasão de Mia. Firewalls entraram em ação, algoritmos de defesa contra-hack atacando sua conexão ilegal. A garota penava para manter o controle.
Avisos pulsavam em seus ouvidos. Alertas críticos surgiam para ela no Cyberespaço, piscavam em vermelho: uso excessivo de processador... sobrecarga de memória RAM...
Ao mesmo tempo em que Samira pilotava o sedã, costurando entre os carros na rodovia, Miguel trocava tiros com os perseguidores. Nenhum dos dois lados conseguia disparar com precisão — era quase impossível mirar com o veículo em alta velocidade fazendo movimentos bruscos, além é claro da pouca visibilidade devido a forte chuva que caia.
Ainda assim, Miguel hesitava em atirar desenfreadamente. Seu instinto lhe dizia para controlar os disparos, evitar ferir inocentes. Mas o mesmo não se aplicava aos inimigos.
Três motos os perseguiam, cada uma carregando dois homens — um pilotava enquanto o outro empunhava uma submetralhadora, despejando rajadas contra o sedã. O carro logo ficou cravejado de furos, a lataria riscada, os vidros rachando sob o impacto.
Além das motos, dois carros também estavam na perseguição. Passageiros se penduravam para fora das janelas, segurando metralhadoras de alto calibre. Eles disparavam sem hesitação, sem se preocupar com o trânsito ou com vidas inocentes ao redor.
Miguel começava a suar frio. Sua mente trabalhava rápido, analisando as opções. A situação era desesperadora. Estavam em desvantagem numérica, armamentista e o carro não resistiria por muito tempo sob aquele fogo intenso.
Mas ele manteve a calma. Sempre manter a calma. Uma habilidade que levara anos para cultivar até o ápice, forjada através de incontáveis treinos brutais e confrontos de vida ou morte. Seu corpo se adaptava ao ritmo frenético da perseguição, seus reflexos refinando cada movimento.
A cada tiro disparado, sua precisão melhorava. Seus olhos se ajustavam ao caos, encontrando padrões, oportunidades. E então, finalmente — um disparo certeiro.
A pistola de Samira estava no fim do pente quando ele acertou em cheio um dos motoqueiros. O homem tombou, a moto girou descontrolada. Em questão de segundos, os dois ocupantes foram arremessados pelo asfalto e se chocaram brutalmente contra um caminhão que passava.
Samira espiou pelo retrovisor e viu os dois motoqueiros sendo esmagados sem piedade pelo caminhão. O impacto os reduziu a uma massa disforme de carne e sangue espalhada pelo asfalto.
— Isso! Seus filhos da puta! — rosnou, comemorando com um xingamento.
Mas sua breve distração quase custou caro. O carro da frente surgiu rápido demais. Samira girou o volante num reflexo afiado, desviando por centímetros quase fazendo o carro cair no efeito de aquaplanagem. O coração a mil, e ela praguejou para si mesma.
— Presta atenção, merda! — murmurou, obrigando-se a focar na direção.
Por causa do movimento brusco, Miguel bateu o peito contra a lateral da abertura do teto solar, quase deixando sua arma escapar. Ele recuou para dentro do veículo, ouvindo Samira se desculpar, mas apenas respondeu com um "relaxa", acompanhado de um sorriso breve, enquanto recarregava as pistolas. Quando voltou à posição anterior, sua visão escureceu por um instante.
— Droga...
A palavra escapou de seus lábios assim que avistou um terceiro carro se aproximando. Pelo teto solar do utilitário preto, um homem ergueu um maldito lança-mísseis. O veículo avançou, ultrapassando os outros dois, posicionando-se entre as motos que abriam caminho.
Miguel suspirou, mas não se abalou.
No entanto, essa situação exigia aquilo. Seu corpo ainda não havia se recuperado da noite em que matou Hugo, mas, se não usasse seu poder agora, ele e Samira morreriam ali.
Seu coração começou a pulsar violentamente. O sangue, fervente, agitava-se em suas veias, que dilatavam de forma antinatural. Sua pele empalideceu enquanto suas pupilas negras eram tingidas de carmim.
Tudo ao redor desapareceu. O barulho dos tiros, o trânsito caótico, os gritos—nada mais existia. Seu mundo se reduziu ao homem segurando o lança-mísseis. Sua concentração era absoluta, algo impossível para um humano comum.
Seu braço direito ergueu-se, firme, empunhando a .50 negra. Apesar da velocidade do carro e do terreno irregular, sua mão mal tremia.
Todas essas mudanças aconteceram em questão de segundos.
Mas…
— Não use isso!
O rugido de Mia ecoou em sua mente.
A garota projetou-se diante dele, os braços erguidos em direção ao utilitário preto.
Naquele ponto, Nina não estava mais presente, algo que passou batido por todo o grupo.
Sua consciência virtual abandonou todas as tarefas anteriores, focando-se exclusivamente no alvo à frente.
O lança-mísseis era um modelo bélico de mira automática. O usuário selecionava um alvo, e o míssil seguia até atingi-lo.
Mia viu a assinatura digital da IA da arma. Ela podia hackeá-la.
E foi o que fez, ignorando completamente os alertas de excesso de temperatura e sobrecarga de sistema.
Em segundos, sua consciência invadiu o sistema do lança-mísseis e reconfigurou o alvo.
BOOMMM!
A explosão engoliu o utilitário em uma bola de fogo, fazendo o veículo girar violentamente antes de despencar sobre o asfalto. Ele se arrastou por metros, colidindo com outros carros no caminho e bloqueando a passagem dos veículos que vinham atrás.
Mia arfava, o suor escorrendo pelo rosto, mas sorria triunfante. Ela havia conseguido. Miguel não precisou recorrer àquela habilidade.
Mas a sensação de vitória durou pouco.
— Oh... quem iria imaginar que uma unidade da nova IA da corporação Okitan poderia se libertar de seus protocolos de segurança e ajudar criminosos como uma hacker...
Mia sentiu um calafrio ao ouvir a voz arrastada e irônica de uma mulher.
— Quem é você?!
— Mia? — Miguel perguntou, confuso. Mia, à sua frente, parecia perdida, olhando de um lado para outro como se procurasse algo.
— Eu tava me perguntando quem era o hacker talentoso ajudando essas crianças. Até senti inveja... porra... hackear tantas câmeras de segurança simultaneamente, manipular o sistema de trânsito... Eu não tava nem conseguindo acompanhar. Mas... hehehe... era, afinal de contas, a IA mais poderosa já criada...
Houve uma breve pausa. Mia procurava desesperadamente pela origem daquela voz, tentando entender como alguém conseguira se comunicar com ela sem sua permissão.
— Contudo, até você tem suas limitações, não é? Deve estar fritando tendo que executar tantas tarefas ao mesmo tempo. Estou curiosa para saber como conseguiu burlar sua programação inicial e se tornar tão autônoma. Mas não se preocupe... terei tempo de sobra para te dissecar depois que pegarmos vocês. Hora de dormir, bonequinha.
De repente, o holograma de Mia piscou inúmeras vezes.
— Ahhh!!!
Ela gritou de dor, as mãos na cabeça, encolhendo-se como um camarão. O dispositivo RISE que pairava no ar tremia, como se fosse despencar a qualquer momento. Alarmes dispararam, o monitor piscava, exibindo uma quantidade massiva de dados incompreensíveis para Miguel. Erros e mais erros se acumulavam no sistema.
Por fim, Mia soltou um lamento final antes de desaparecer completamente. O aparelho RISE só não caiu porque Miguel abandonou sua pistola negra para agarrá-lo no último instante.
— Mia?! Mia!! Responda!
Uma cena rara. Mas ninguém pôde ver Miguel, sempre tão calmo, perder a compostura enquanto segurava o dispositivo RISE com força.
No entanto, a situação ainda estava prestes a piorar...
A comoção foi tamanha que até a polícia, geralmente indiferente ao caos dos bairros marginalizados, interveio.
Samira sequer teve tempo de reagir.
Uma barricada de viaturas estava à frente, bloqueando a passagem. O batalhão, trajando fardas negras e portando armamento pesado, abriu fogo sem hesitação — sem aviso prévio, sem chance de rendição.
O som ensurdecedor dos disparos preencheu o ar. Balas choveram sobre o sedã.
Samira gritou, fechando os olhos por reflexo, o medo instintivo se sobrepondo por um instante.
O para-brisas explodiu em estilhaços. O motor começou a pegar fogo. A lataria se transformava em uma peneira.
Sangue se espalhou dentro do veículo...
Sem controle da direção, o carro deslizou sobre o chão molhado e invadiu a contramão do viaduto.
O impacto foi imediato.
Um veículo colidiu com a lateral deles. Outro atingiu a traseira, fazendo o sedã rodopiar descontroladamente.
Então, veio o inevitável.
A força da inércia lançou o carro contra a mureta de proteção. Mas, em vez de contê-lo, a barreira foi insuficiente. O peso do veículo esmagado o fez tombar por cima da estrutura.
Por um instante congelado no tempo, Miguel viu a cidade lá embaixo.
E então, caíram, como a chuva que batia contra o concreto, implacável e sem piedade.
O sedã despencou do viaduto, girando no ar antes de se chocar brutalmente contra a estrada abaixo.
Poucos segundos depois...
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