Volume 1
Capítulo 15: Emboscada parte 1
Julia dormia profundamente quando, de repente, a porta do apartamento foi arrombada com um estrondo.
O barulho a despertou de imediato. Seu corpo saltou da cama, os cabelos bagunçados, o peito subindo e descendo em um reflexo acelerado. O susto durou apenas um segundo antes de seu instinto assumir o controle.
Num movimento rápido, avançou até a cômoda e puxou seu querido revólver rosa, decorado com adesivos de pandas. Virou-se e apontou a arma para a porta do quarto.
Então, eles entraram.
Quatro homens armados, vestindo jeans e casacos escuros. Bonés e capuzes escondiam parcialmente seus rostos, mas Julia os reconheceu de imediato.
— Filhos da puta! Que merda estão fazendo na minha casa?!
O grito ecoou pelo cômodo, mais raiva do que medo. Sua sonolência desaparecera por completo. Estava apenas de calcinha, mas isso era o menor dos seus problemas. Esses homens não estavam ali para conversar.
Os invasores apontaram suas armas para ela, olhares entre a frieza e algo mais vil. A forma como a encaravam a fez sentir nojo.
Um deles se adiantou, após apertar o interruptor na parede, as lâmpadas tubulares no teto brilharam em um vermelho neon pálido, ele guardou a arma e pegou um pufe rosa para se sentar. Cruzou as pernas e assumiu uma postura arrogante, como se fosse o dono do lugar.
— Opa, Julia! Quanto tempo...
Ela clicou a língua, mantendo a mira firme nele. Mas sabia que não teria coragem de atirar. Se atirasse agora estaria morta mesmo que levasse um com ela.
— Que porra vocês querem, Natan? Se vieram para me cobrar, saiba que Cezar me deu mais um mês pra arrumar a grana.
Natan soltou uma gargalhada seca. Tirou o capuz e o boné, passou a mão pelos cabelos lisos para jogá-los para trás. Em seguida, pegou um cigarro amassado e o acendeu com um isqueiro prata. O cheiro de tabaco maculando o ar perfumado com insenso floral.
— Ah, Julia... Não viemos cobrar sua dívida. — Ele tragou, soltando a fumaça devagar. — Na verdade... viemos porque o chefe descobriu que sua garota favorita ajudou um filho da puta a matar o sobrinho dele, Hugo.
O corpo de Julia gelou.
“Hugo era sobrinho daquele arrombado?! Porra! Eu tô fodida pra caralho!”
Natan percebeu. Notou as mãos trêmulas, o suor frio, o olhar vago. Seu sorriso se alargou.
— Hehehe... Nunca te vi assim, Julia. Sempre era tão confiante, sempre com o nariz e os peitões empinados... Até o chefe te respeitava por isso. Sabiam, caras? Nem ele conseguiu tirar uma casquinha dessa delícia.
Os outros riram. Natan lambeu os lábios.
— Mas agora... você está sozinha. Sem a proteção do chefe.
Levantou-se, abrindo lentamente o zíper do casaco.
— Vamos leva-la para o chefe, mas... antes disso... — Sorriu, maliciosamente. — David, Ramon, deem uma olhada no resto do lugar. Aposto que tem coisa boa pra levar junto.
— Qual é, Natan...
— Vão logo, depois é a vez de vocês.
Os dois resmungaram, mas saíram.
— Olha o que achei, Natan! — chamou Igor, o único que ficou. Ele segurava, em uma mão, um pau de borracha de cor bege e, na outra, um vibrador vermelho. — Porra, olha quantos brinquedinhos!
Natan riu.
— Pelo visto, tá mesmo precisando de um homem.
Julia suspirou. Os ombros caíram levemente. Mas seu olhar permaneceu fixo neles.
E quando dois saíram e os outros dois se distraíram... ela agiu.
Sem hesitar, ergueu o revólver e atirou.
Bang!
Natan tombou para trás, o buraco no meio da testa vazando sangue. As mãos seguravam o zíper do jeans velho.
Igor arregalou os olhos, mas era tarde demais. Mal teve tempo de soltar os brinquedos antes de ser atingido por quatro disparos consecutivos.
Nenhum deles esperou que ela realmente tivesse coragem de atirar.
O silêncio durou um instante.
Julia se moveu com velocidade. Pegou um pente extra na gaveta da cômoda e recarregou a arma em um segundo. Agarrando uma jaqueta branca, correu até a janela e saltou para a escadaria de aço rente ao prédio.
Gritos e passos ecoavam atrás dela. Ouviu disparos, projeteis que por pouco não a atingiram.
Ao alcançar o último degrau, pulou. Seu pé descalço aterrissou direto nos cacos de vidro espalhados no chão sujo de urina e cerveja.
— Filho da puta!
Mordeu os lábios para conter um gemido de dor. O sangue manchava a calçada, mas não podia parar.
Mancando, sumiu pelos becos da cidade.
***
Quando Samira acordou, uma sensação de vazio apertou seu peito.
Miguel não estava lá.
Por um instante, o calor do lençol ao seu lado pareceu frio. Ele sempre estava ali quando ela acordava. Mas naquela manhã, a cama ao seu lado estava bagunçada, mas vazia.
Ela bocejou e olhou ao redor, procurando por ele. Nada.
Ainda assim, sorriu. Uma sensação agridoce tomou conta dela. Era estranho o quanto já dependia dele. Não era apenas amor — era quase uma necessidade. Mas gostava disso. Gostava da certeza de que Miguel nunca a deixaria, nunca a desapontaria. Ela acreditava nisso do fundo do coração.
— Hehehe...
Ela riu sozinha, lembrando-se da noite anterior, após a festa de halloween. Quantas vezes haviam transado? Quem sabe. Não tinha contado. Só sabia que não foram uma, duas ou três. Foram muitas. Assim como tem sido desde a primeira vez que começaram a ter relações sexuais. Como dois animais no cio. Mas era normal, não era? O começo de um relacionamento apaixonado entre dois adolescentes sempre parecia algo avassalador.
Samira se espreguiçou preguiçosamente na cama bagunçada, os braços magros se estendendo enquanto suas madeixas vermelhas, já começando a desbotar, balançavam ao menor movimento.
Então, sentiu.
Um aroma salgado e defumado.
Bacon e ovos fritos.
Seu estômago roncou.
Samira sorriu. Era ele. Sabia que era. Desde que Miguel se mudara para sua casa, ele preparava as refeições sempre que podia. Ela e a irmã se deliciavam com seus pratos, mesmo que os ingredientes fossem simples e sintéticos. Miguel dizia que aprendera a cozinhar com a mãe.
Sem hesitar, pulou da cama. O edredom lilás escorregou pelo chão, mas ela não se importou. Vestia apenas uma calcinha rosa, então pegou a primeira coisa que viu: uma camiseta branca dele. Poderia muito bem vestir sua própria roupa, mas... qualquer garota apaixonada gostava de usar as roupas do amado.
A camiseta era larga e cobria apenas um pouco abaixo da bunda.
Antes de sair do quarto, abriu as cortinas e as janelas. A luz inundou o cômodo, fazendo as partículas de poeira flutuarem no ar. O tempo estava seco, mas ao menos a brisa ajudava a aliviar o calor abafado do ambiente.
Pegou o celular. Uma notificação indicava que mais tarde iria chover.
Ela riu sozinha.
“Duvido”.
Olhando para o horizonte acinzentado, não viu o menor sinal de chuva.
Na cozinha, Samira caminhou em passos leves, sorrindo consigo mesma. Queria surpreendê-lo, mesmo sabendo que Miguel provavelmente já percebera sua presença. Mas, ainda assim, continuou. Quando chegou perto o suficiente, enlaçou os braços ao redor dele, sentindo o calor do corpo do namorado e o cheiro delicioso de bacon e ovos fritos misturado ao aroma sutil de sua pele.
Miguel, sem se abalar, olhou por cima do ombro com um sorriso pequeno, divertido.
— Bom dia.
Em vez de responder de imediato, Samira se ergueu na ponta dos pés e capturou seus lábios num beijo lento e preguiçoso.
— Bom diaaa.
Ele riu baixinho. Samira estava radiante. Ele também estava, mas seu jeito reservado tornava difícil que isso transparecesse.
— O cheiro tá ótimo!
— Já já fica pronto.
Ela assentiu, sem pressa de largá-lo, e roubou mais um selinho antes de finalmente se afastar. Sentou-se na cadeira mais próxima e ficou ali, balançando as pernas, os olhos em formato de meia-lua brilhando enquanto observava cada movimento dele.
— Cadê a Mia? — perguntou.
— Está com Nina — Miguel respondeu, pensativo. Depois de um instante, acrescentou: — Nesses últimos dias, elas têm passado bastante tempo juntas...
Samira riu.
— Tá com ciúmes?
Ele negou com a cabeça.
— Deveria estar? Não é isso... Só acho que estão tramando alguma coisa.
Samira quase tombou para trás com a cadeira.
"Droga! Miguel é sempre tão observador. Preciso avisar aquelas duas..."
— O que foi? — ele franziu a testa.
— Nada, nada!
Miguel arqueou uma sobrancelha, desconfiado, mas resolveu deixar passar. Talvez fosse um daqueles assuntos que só garotas discutiam.
— Tá pronto. Você vai acordar a Luna?
Samira abriu um sorriso travesso. Ao mesmo tempo começou a lentamente abrir as pernas...
— ... Ei... não quer...
Ela nem precisou terminar a frase. Miguel ficou vermelho como um tomate e desviou o olhar, mas Samira percebeu muito bem a reação dele. Soltou uma risadinha, satisfeita. Ele era tão fofo. Seus olhos violetas brilharam ao notar que apenas algumas palavrinhas foram o suficiente para provocar uma resposta bem visível.
No entanto...
— Uaaaahhh! Que cheiro delicioso!
Luna apareceu, bocejando, os cabelos bagunçados e o corpo à mostra sem um pingo de pudor. Vestia apenas uma calcinha preta, os seios nus como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Miguel imediatamente virou o rosto, a vergonha queimando em sua pele. Samira fez um bico, cruzando os braços, claramente irritada. Como sempre, a irmã aparecia para atrapalhar.
— Mana, vai colocar uma blusa!
— Ai, qual o problema? Ele já me viu assim várias vezes.
Luna mostrou a língua, se divertindo. Notou como Miguel desviava os olhos de forma mais aflita do que o normal. Então, percebendo a situação, abriu um sorriso malicioso.
— Hehehe... Por acaso atrapalhei alguma coisa?
Os olhos dela desceram discretamente para a virilha do rapaz. Miguel tentou disfarçar, mexendo-se na cadeira, mas era tarde demais.
— Oh... então eram dois cafés da manhã? Minha irmãzinha e depois bacon com ovos?
Miguel olhou para o nada, escapando da realidade. Em sua mente, uma música melancólica tocava: Max Richter – On The Nature Of Daylight.
Samira bufou, os punhos cerrados.
— Hehehe. Quando é que vai dividir ele com sua irmãzona?
— Nunca!
Luna deu de ombros, rindo. Voltou ao quarto e, alguns minutos depois, reapareceu vestindo uma camiseta curta, ao menos cobrindo os seios.
O café da manhã prosseguiu com sua típica animação. Miguel já começava a se acostumar com as provocações de Luna e, em algum momento, parou de se preocupar com suas investidas. No fundo, sabia que eram apenas brincadeiras… eram apenas brincadeiras, repetia para si mesmo, por mais desenfreadas que fossem. Samira também não se irritava de verdade. A relação das duas irmãs era estranhamente funcional e agradável.
***
Entediada, Luna soltava arcos de fumaça violeta pela boca enquanto assistia pelo projetor holográfico um grupo de garotas que recentemente se tornaram populares na indústria musical.
— Cantam bem e são gostosas. Não é à toa que fazem tanto sucesso. O empresário delas deve estar ganhando uma fortuna dos punheteiros de plantão.
Outro trago no vaper roubado do quarto de Samira. Jogada na cadeira, balançava o corpo devagar, empurrando o balcão com os pés num tédio preguiçoso. O grupo, composto por cinco meninas que pareciam ter entre dezesseis e dezoito anos, vestia blusas apertadas e semitransparentes, deixando quase amostra os mamilos sob o tecido. Minissaias vibrantes subiam a cada passo de dança, revelando bundas perfeitas e empinadas, além de calcinhas tão finas e sensuais que mal tampavam suas partes mais preciosas.
Luna riu sozinha. No final das contas, essa indústria sempre gerou dinheiro fácil. O segredo estava no “quase”. Quase ver aquela certa parte escapando da calcinha, quase ver os mamilos por baixo da camiseta apertada. Esse jogo de insinuações fazia o público-alvo gastar cada centavo.
O debate sobre idade ainda existia, mas já era tratado como uma conversa sem importância. Em uma cidade onde havia até anúncios holográficos que projetavam corpos nus, geralmente de mulheres se masturbando com vibradores exóticos, a fim de promover a venda de brinquedos eróticos em plena avenida, quem ainda se chocaria com dançarinas vestindo quase nada?
Foi então que a porta da loja abriu.
— Estamos lotados — mentiu. Ainda havia duas salas livres dentro da Vênus, mas estava com preguiça de trabalhar.
Os recém-chegados — três homens de capuz e boné — se fizeram de surdos e entraram no ambiente com cheiro de tutifruti, seus calçados sujando o chão do lugar com lama. Luna franziu o cenho, prestes a gritar o que já dissera antes, acrescentando xingamentos pesados, mas um arrepio percorreu sua espinha. Seus instintos gritavam perigo iminente.
Sem hesitar, puxou sua LEMI-980, uma espingarda pump de dez balas. O cano de aço vermelho brilhava sob a fraca iluminação. O guarda-mão e a coronha ostentavam um belíssimo dragão oriental colorido. Manteve-a escondida atrás do balcão, mas pronta para agir.
O mais alto dos três ergueu o braço, puxando uma LEMI-355, uma submetralhadora 9mm com pente estendido de seu sobretudo. Sem uma palavra, puxou o gatilho.
— Filho da puta!
O ra-ta-ta-ta zumbiu no ar. O balcão de madeira explodiu em lascas enquanto Luna se jogava para o chão.
Os outros dois puxaram armas idênticas e juntaram-se à saraivada de tiros.
Uma bala rasgou de leve sua bochecha, deixando um risco quente. Seu coração quase saltou do peito. Então, sangue pulverizou o ar — sua coxa esquerda queimou. Luna gritou, os músculos rígidos de dor e pavor. Tentou rastejar para uma posição melhor, mas outra fisgada queimou seu braço. Ao olhar, viu um buraco sangrento no bíceps.
— Porra... porra...
Os passos pesados dos invasores se aproximavam. Ela segurou firme a espingarda contra o peito, esperando uma chance de reagir. O calor do próprio sangue ensopando sua camiseta amarela aumentava seu desespero.
Foi então que sentiu um impacto brutal na lombar. Algo a perfurou.
O grito de dor ecoou, enquanto rolava pelo chão, tentando desesperadamente encontrar refúgio. O balcão já estava em frangalhos.
Os tiros cessaram por um instante. Luna, arfando, perguntou-se o que estava acontecendo.
Então ouviu um grito:
— Luna! Eu te dou cobertura!
A voz soou pelo ambiente escuro e coberto pela névoa artificial. A iluminação fraca, que tornava o lugar misterioso e charmoso, revelou um dos homens caído, as mãos pressionando as costas ensanguentadas. Fora alvejado.
A atiradora: Julia.
— Julia!
A troca de tiros recomeçou. Agora, Luna não estava mais na linha de fogo. Com esforço, se apoiou no que restava do balcão. O primeiro inimigo estava próximo. Mirou.
BANG!
O estrondo reverberou pelo local. O disparo atingiu o braço do homem, que explodiu em uma mistura grotesca de sangue, ossos e pele. Ele urrou de dor, mas seus gritos logo cessaram.
— Morre, filho da puta!
Puxou o ferrolho, ejetando um cartucho fumegante. Antes que o desgraçado pudesse implorar, um novo tiro despedaçou sua cabeça, espalhando fragmentos de crânio e miolos pelo chão.
O segundo homem virou-se para atirar em Luna, mas Julia disparou primeiro. Dois tiros certeiros. Ele caiu. Luna finalizou, transformando-o em carne moída.
O último rastejava pelo chão. Tentou alcançar sua submetralhadora, mas Luna a chutou para longe e, sem piedade, atirou em suas pernas.
— AARGH!! PORRA!!!
O homem berrou, debatendo-se. Luna o chutou, apontando a espingarda para sua cabeça.
— Quem são vocês?! Me fala, e eu te dou uma morte rápida.
— Vai pro inferno, sua putinha do caralho!
Ela o chutou de novo, mas gemeu ao sentir a dor lancinante em seu próprio corpo.
— Luna, você tá ferida! — Julia correu até ela, segurando-a firmemente. Estava completamente encharcada, sua jaqueta branca colando-se à pele. Fios de cabelo rosados grudavam em seu rosto pálido, e gotas d’água escorriam pelo queixo, pingando sobre o chão manchado de sangue. Os pés descalços e feridos. A chuva lá fora caía como se o mundo estivesse prestes a desabar. O revólver rosa em sua mão ainda fumegava.
Sem hesitar, ergueu a arma e disparou.
— Porra, Julia! A gente tinha que saber quem eram esses arrombados!
— Eu já sei quem são! Eles me atacaram mais cedo. Cadê Samira e Miguel?
Luna hesitou.
— Eles saíram pra trabalhar. Espera...
Seu estômago embrulhou.
— Esses caras estão atrás da gente. É a gangue do Cezar. Aquele corno do Hugo era sobrinho desse filho da puta!
Luna empalideceu.
— Porra! Não fode!
Puxou o celular e ligou para Samira.
Chamou.
Ninguém atendeu.
Tentou Miguel.
Silêncio.
O pressentimento ruim virou um nó sufocante no peito.
— Buceta...
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios