Volume 1
Capítulo 31: Soldados
O porta-malas se abriu, Satsuki esperneou, mas seus agressores a puxaram a força, posta em pé por aquele cujo irmão foi morto, que ficou segurando-a por trás.
Ao redor era repleto de caixas e prateleiras, um tanto mal iluminado, com cheiro de madeira e mofo pelo ar.
— Quieta sua vagabunda!
A moça, cambaleante, tossiu algumas vezes, antes de vomitar no chão. Ele, enojado, a empurrou e mais uma vez começou a chutá-la, que grunhia enquanto tentava suportar a dor e a falta de ar ao mesmo tempo.
— Que merda é essa! — esbravejou um homem alto, musculoso, com uma tatuagem de aranha sobre a cabeça raspada enquanto se aproximava por entre a pequena multidão — Desde quando sequestramos mulheres?!
— Chefe, foi essa vadia quem matou meu irmão!
— Você tá louco?! Uma garotinha dessas não teria como ter feito aquilo!
Um dos capangas estendeu a mão com a carteira ensanguentada para ele.
— Achamos perto do corpo…
O homem olhou com afinco para a foto dela.
Encolhida no chão, segurando o estômago, um par de tênis vieram a vista.
— Quem fez isso? — perguntou em tom calmo, mas firme.
Incomodado com o silêncio, a ergueu pelos cabelos.
— Foi você?!
Contorcendo o rosto de forma ambígua entre riso e pesar, ela falou com uma voz rouca forçada.
— Foi… Gostei dele gemendo feito um porco.
Com raiva, jogou os a cabeça dela contra o chão e voltou a chutar-lhe o estômago.
— Não consigo acreditar…
— Viu só chefe? Ela tem que pagar!
— Tem… — disse-lhe colocando a carteira sobre o ombro — Mas não aqui. Nem os subornos que pagamos vão parar a polícia desta vez. Sabe o esconderijo perto do riacho? Lá ninguém vai escutar o serviço sendo feito…
— // — // —
Mutsuki olhava cabisbaixa para a ponta da mesa onde estava Asashio, então subiu os olhos para encontrar os dela, um pouco marejados.
— Essa que você conhece não sou eu de verdade. É minha possessão, a mulher por quem não pude fazer nada… Nem mesmo com toda minha sede de sangue… — Mudou drasticamente o tom da voz — Como tem dias que sinto falta daqueles olhares de medo…
Mutsuki ficou acuada, mexendo a mão por debaixo do casaco, sem desviar o olhar.
— Foi tudo culpa da minha fraqueza. Quando exito, sinto raiva, quando vejo a pessoa cada vez mais fraca que estou me tornando, me encho de rancor. Depois de passar beirando a fome e o frio, depois de rastejar naquela lama imunda, só o pensamento de ter pena de alguém como a Satsuki indo pelo caminho mais fácil, eu não suporto! Nem "ela" consegue me fazer sentir menos raiva de gente tão fraca!.
— O… Caminho mais fácil?
— Aquela idiota tentou…
De repente, ela ficou trêmula, levando a mão a cabeça, de forma dolorida. Depois de alguns segundos, cerrou o punho e bateu contra a mesa.
— Eu vou falar! Não importa o que você acha!
— Por favor, Asashio, eu preciso saber
Assim, sua mentora se acalmou o suficiente para falar.
— Ela tentou se matar…
Mutsuki abriu os olhos em espanto, flexionando as pernas para se levantar, mas não o fez, preferindo levar a mão esquerda para boca.
— Quando vi aquilo, a única vontade que tinha era de socar ela.
A jovem perdeu o pouco de compostura que ainda tinha e levantou.
Indiferente a ação, continuou
— Se não você aquele idiota aparecer, poderia ter terminado de quebrar os dedos dela.
A reação de sua pupila foi dar um passo adiante, com força, mas parou, respirou fundo e soltou lentamente o casaco com a arma ainda escondida sobre a mesa.
— Deixa pra mim — sussurrou — quero te mostrar uma coisa.
Então caminhou pela cozinha até perto da porta da rua, a abriu e apontou para o lado de fora, sem se virar.
Asashio, visivelmente desconfiada, caminhou lentamente até lá.
Quando chegou para espiar, foi agarrada pelo braço e a arremessada para o lado de fora.
Mesmo rolando pelo chão, tratou de reagir e ficar de pé.
No instante em que seus olhos se encontram com os dela, a garota falou baixinho.
— Vai ser só uma conversa entre soldados, minha cara — disse tocando o lado esquerdo do rosto.
Caminhando de maneira um tanto mecânica, ela se preparou para atacá-la.
— Acho que está confundindo as coisas — falou levando o punho em direção ao rosto dela.
Sem exitar, Asashio desviu e aproveitou a abertura para chutar-lhe o joelho.
Caída, logo veio mais um chute a caminho de sua nuca.
Ela se abaixou e deu uma rasteira atrás do único calcanhar firme no chão.
Assim, ambas se separaram mais uma vez.
— Tem habilidade, mas falta força. Não bate como um soldado.
Mutsuki avançou extremamente rápido, socando as costelas de sua companheira como um lutador de boxe.
Com os dentes cerrados após o golpe, tratou de separá-las mais uma vez, desviando do próximo soco, usando o joelho para chutá-la, arremessando-a em direção às flores perto da entrada da casa.
— Raiva ajuda, mas não é o bastante.
Com alguns arranhões dos galhos, se levantou para continuar a trocar socos com sua mentora. Diferente de quando treinaram juntos, a balança pendia esmagadoramente ao lado dela, que permaecia desviando quase na última hora, recuado de forma descoordenada.
O som dos grilos, junto do vento na copa das árvores próximas sufocava o barulho de grunhidos e dos socos, tanto quanto a respiração ofegante de Asashio.
— // — // —
O ronco do motor seguia rua abaixo, até a moto surgiu por trás dos prédios, se escondendo em um beco.
Os dois ocupantes desceram, olhando para os arredores. Foi quando Matheus abriu a bolsa grande no banco do carona.
— Não quero perder tempo — falou retirando uma máscara com o símbolo de uma cobra enrolada em uma caveira, fumando um cigarro.
— Mano, isso não vai te deixar todo ferrado?
— Conhecendo você, deve estar transbordando de raiva tanto quanto. Sabe o quão covardes eles podem ser.
Encarando-o com afinco, Guilherme acenou com a cabeça.
— Tu tá certo. Vou usar a minha também.
Por de baixo da camisa, Guilherme retirou uma máscara parecida, mas com a imagem da mandíbula de um tubarão com um cigarro
— Dorme com ela por acaso?
Ele riu, mas voltou a ficar sério.
— Sabe que sim…
Respondido com uma aceno lento de cabeça, ouviu mais uma pergunta.
— E as pernas?
Levantando a calça, mostrou uma prótese semelhante à de Matheus, mas com uma arquitetura que lembrava a de músculos e brilhosa como de aço
— Agora eu consigo tancar até um RPG… — Disse com um grande sorriso no rosto.
— Segura — falou atirando a uma espingarda e uma bandoleira para ele — Vou seguir com meu velho amigo — completou com o fuzil em mãos…
Ambos se armaram, colocando os porta carregadores por cima das roupas e, finalmente as máscaras.
Quando terminaram seus olhares se encontraram com um quê de satisfação.
— Demônios camuflados
— Urra!
— // — // —
O armazém permanecia envolvido em um silêncio enquietante.
As duas sombras se aproveitaram do escuro para pular o muro na parte de trás.
Guilherme auxiliou Matheus, quase o atirando por cima do muro, então saltou sobre ele como se não fosse nada.
Ambos pararam em uma porta lateral, quando o segundo chamou a atenção de seu amigo
— A polícia tá fervorosamente procurando por esses caras, então, sem modéstia — disse com breves correntes elétricas correndo por seu braço esquerdo.
Então, colocou a prótese sobre uma caixa de fusíveis e a explodiu, soltando fagulhas, fumaça e o cheiro característico de queimado.
Guilherme contraiu os músculos por de baixo da máscara, como um riso, então suas coxas contraíram abruptamente, de forma inumana.
Com um chute brutal o aço da porta chegou a se retorcer, sendo arremessada por cima de um homem que passava atrás dela.
Mesmo no chão, ele tentou pegar sua arma, mas a espingarda foi disparada primeiro, o que arrancou parte de sua mandíbula.
Matheus entrou logo atrás dele, o som da poça de sangue estalando sob seus coturnos.
Ambos estavam em um corredor, iluminado apenas pelo vermelho das luzes de emergência, com feixes de lanternas vindo da esquina mais a frente.
Com o passo acelerado, os dois andaram colados na parede em fila. Quando os primeiros vultos apareceram por entre o breu, foram recebidos por uma salva de balas e rolaram pelo chão.
Continuando, passaram por cima dos corpos sem pararem de apontar as armas para frente, até terem plena visão do restante do caminho, coberto por diversas portas nas laterais. Uma respiração intensa se ouvia por trás da mais próxima.
Matheus colocou a mão sobre a maçaneta e lançou uma descarga elétrica e no mesmo instante um grito estridente foi ouvido.
Tiros atravessaram o compensando, atirando lascas em direção eles. Guilherme atirou contra as dobradiças e bateu nela com a coronha, derrubando-a.
Então seu colega jogou uma granada de atordoamento para dentro, a explosão deixando um zunido estridente.
Guilherme entrou, a sala quase totalmente escura, então atirou na escuridão. Foi quando se ouviu o barulho de carne caindo ao chão
Uma sombra pulou sobre ele com uma lâmina refletindo a luz carmesim das lâmpadas de emergência. Seu antebraço foi atingido em cheio, mas o sangue não veio, apesar de estar enterrada nele.
Guilherme virou o rosto para encará-lo, que apesar de apenas ver sua sombra, tremeu ao vê-lo se mexer.
Com um um balançar, atirou o facão para longe, que ficou fincado em um armário, e o socou com força suficiente para ouvir-se o estalo das costelas no lado direito do peito.
Sem demora, ouvi mais tiros vindos do corredor.
Quando olhou para o lado enxergou uma silhueta metálica refletindo a luz vermelha, a pegou e correu em direção a entrada.
— Segura — disse alcançando um cabo longo para seu amigo, então empunhou uma grande lâmpada fluorescente como uma lança e atirou contra os homens mais a frente.
Ao chegar perto deles, Matheus lançou uma corrente elétrica que a fez explodir, lançando estilhaços de vidro e ferro por todo lugar
Avançando lentamente, apenas um dos criminosos continuava se contorcendo com as mãos ensanguentadas sobre o olho esquerdo.
Ajustando o fuzil, se ajoelhou ao lado dele e perguntou — Onde ela está? — Sua prótese soltando descargas elétricas.
Com a mão ensanguentada, ele apontou para uma porta no fim do corredor.
Eles chutaram as armas para longe dele e seguiram adiante.
Logo chegaram a última porta, e, quando abriram, estavam diante de um depósito cheio de caixas de madeira, paletes e até uma empilhadeira.
De repente, uma salva de tiros partiram de trás delas.
Matheus correu para trás das prateleiras com velocidade sobre humana. De fato, já estava dando cobertura a seu amigo ainda no meio do caminho.
— Tem muita cobertura, isso vai levar uma eternidade… — disse trocando o carregador.
Guilherme, uma vez ao lado dele, tocou as barras de aço.
— E se não tiverem onde se esconderem?
A única resposta que teve foi um aceno com a cabeça. Foi neste momento que músculos dele começaram a se contrair de maneira violenta, aumentando cada vez mais de tamanho. A roupa ficou apertada, os braços cresceram de forma sobre-humana e as veias em torno do pescoço mais pareciam tubos.
Grunhindo e ofegante, ele apoiou as mãos na prateleira a sua frente e começou a empurrar. De fato, o ferro onde estava segurando começou a se contorcer, e ela começou a virar com todas as caixas que tinha sobre si.
Então, desabou sobre a outra mais a frente. Com o primeiro estrondo, alguns gritos de incredulidade surgiram e logo em seguida ele a chutou com força suficiente para derrubar a segunda e causar um efeito domino que se entendeu até a última.
Enquanto se recuperava do esforço, Matheus levou a mão atrás da calça, retirou sua faca e colocou como baioneta no fuzil.
Ele avançou como um raio por entre a poeira e os entulhos, com faíscas saindo brotando pelo corpo e seu cabelo ficando tingido de vermelho.
Através das sombras disparou com precisão quase perfeita em direção a 3 inimigos desorientados e assustados.
Um quarto saltou vindo de trás de algumas caixas no lado oposto, tentando atingi-lo com uma pá. Com a própria arma, parou o ataque de vindo em direção ao pescoço, soltando uma descarga elétrica que o estremecer, momento no qual usou para cravar a baioneta em seu peito e erguê-lo no ar.
Outro homem atrás dele rastejava pelos escombros a conta-gotas, tentando mirar com uma pistola, no instante que tentava recuperar sua arma do corpo sem vida.
Um caixa veio voando rente a ele, quebrando em pedaços ao do chegar a lateral de seu rosto e esparramando diversos cacos de frascos de vidro que estavam no interior.
Guilherme apareceu vindo da mesma direção que ela, colocando munições no tubo da espingarda.
— Mais algum? — perguntou com uma respiração como se estivesse sufocado.
No fim, apenas silêncio, se não pelos grunhidos do homem acertado.
Matheus o ergueu pela gola da camisa em meio a quase completa escuridão
— Bela tatuagem.
— Como consegue ver?
— Não é difícil, só tive que vender a alma… Você vai me contar agora sobre a garota que trouxeram pra cá.
— Ah, aquela vagabunda…
Imediatamente bateu com a máscara em sua boca, fazendo-o enchê-la de sangue.
— Só não arranco sua língua porque preciso que fale.
— Chegou... Tarde... Depois de ter matado um dos meus homens que nem um animal, nada mais justo que deixar o irmão dele se vingar…
Ele começou a ficar cercado de faíscas carmesins que criavam sombras de ambos em meio a escuridão.
— Onde ela está?
— Como se eu fosse te dizer.
Imediatamente, recebeu uma descarga elétrica que o fez salivar pela boca.
— Onde ela está?!
— Pro… inferno…
Ele foi jogado ao chão, seu rosto pressionado sobre a pedra e arrastado com brutalidade.
Quando o levantou, a bochecha direita e partes da testa sangraram em carne viva.
Matheus o olhou com fúria no olho que ainda conseguia manter aberto. A resposta a esse gesto foi cuspir em sua cara.
Então, foi arremessado contra as prateleiras, de modo que o ferro estremeceu com o impacto.
— Espera! — gritou Guilherme que arrastava outro homem como um saco de batatas.
— Ela não tá aqui. Foi pra um esconderijo perto do riacho.
Com a respiração abafada como em uma máscara de gás, voltou a olhar para o homem de punho cerrado, algumas faíscas vermelhas ainda iluminando o breu do lugar.
Nesse instante, levou o braço para o coldre, sacou a pistola e disparou contra ele.
— Mano!
Antes de racionar sobre o que havia acontecido, ele já estava caminhando em sua direção.
Perto um do outro, guardando novamente a arma, falou sem se virar para olhar seu companheiro.
— Eu errei…
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