Possessão Brasileira

Autor(a): Matheus P. Duarte


Volume 1

Capítulo 32: A Diferença

O som de grunhidos, agarrões e socos seguiu ecoando pelo gramado, agora coberto também por flores dos hibiscos que cercam a casa.

As duas silhuetas brilhavam, com a lua destacando seu suor, machucados e manchas de sujeira, ambas ofegantes.

É só isso que tem?! — esbravejou Mutsuki.

Asashio mordeu o lábio e continuou tentando acertá-la, de forma vagarosa e desleixada.

Depois de desviar por alguns instantes, ela acertou seu estômago com o joelho, socou seu rosto várias vezes, até fazê-la cair no chão.

Uma vez lá, foi arrastada por uma das pernas até a beirado do muro da casa, então arremessada sobre ele.

Enquanto tossia e se contorcia, Mutsuki levou a mão a cabeça e recuo ainda mantendo um punho cerrado.

Queria te bater mais, mas acho que ela não vai me deixar.

Ela pegou sua mentora dos ombos e a colocou contra parede.

Não é a Satsuki a covarde, é você. Seu prazer é machucar os mais fracos, e seu medo é ser como eles… Forte não é o que grita, mas o que sofre em silêncio, que mantém um sorriso mesmo quando tudo parece ruir.

De repente, a expressão severa que vestia se tornou serena, e os músculos relaxaram.

— A Asashio é quem tenho como mais próxima de uma mãe, mas acho que foi você quem me treinou, quem me fez sobreviver. Não quero que nenhuma das duas desapareça, só quero que voltem a ser a Asashio que conheço.

— Por… Que? Eu sou uma pessoa horrível… — falou de volta a seu antigo tom, desta vez com a voz embargada.

— Porque ainda existe algo bom dentro de você que ainda vale a pena lutar. Precisa ser forte para lutar com armas — mudou para seu tom para mais sério e grave — mas precisa ser mais forte ainda para lutar sem elas… Aquilo com força de acalmar o ódio em meu coração não foi atirar nos desgraçados que vi naquele inferno, não vê-los agonizar afogados no próprio sangue, mas o gesto de uma mãe que mesmo atravessando o atravessando ainda foi capaz de sorrir para mim coberto de lama e sangue…

— Quem é você?

Só um soldado, preso aos pensamentos de uma garota de 18 anos que nunca havia visto na vida…

— // — // —

O som das ondas pairava em meio a escuridão, em contraste com o ronco do motor do carro.

Iluminada por um farol, estava uma cabana pacata, cercada por algumas lonas, que cobriam a forma de um barco de pesca.

O motorista estacionou logo em frente, desceu e foi rente ao banco de trás de onde retirou Satsuki de mãos amarradas, mesmo sem resistência.

De forma agressiva, ele continuou empurrando-a cambaleante até a entrada

Quando abriu a porta, imediatamente veio o cheiro de madeira apodrecida e ferrugem.

Ao ligar as luzes, lá estavam equipamentos de pesca, algumas mesas, ganchos de carne pendurados sobre as vigas, com bandes sujos e com um odor repulsivo.

Antes de raciocinar, ele a ergueu pelos ombros e colocou em um dos ganchos, então trancou a porta e colocou o chaveiro amarrado ao pescoço.

Se aproximando lentamente da garota apática, suas mãos foram de encontro as suas calças. Foi o primeiro instante em que expressou reação, chutando o rosto dele.

Visivelmente irritado, agarrou com ainda mais força e puxou arrebentando o cinto que usava.

Satsuki seguiu esperneando, entretanto acabou amarrou com a própria roupa, depois de uma breve luta.

— Cadê aquela arrogância? — falou aproximando se de seu rosto — Já entendeu o que vou fazer com você? — cuspiu.

Com um canivete, começou a cortar a camiseta. A resistência só levou a lâmina de encontro ao abdômen, causando diversos cortes e arranhões.

Ela fechou os olhos e mordeu os lábios amargamente, até sangrarem, mas não tardou até ser despida por completo.

O criminoso parou por um instante ao enxergar as cicatrizes nos braços, então, pegou um balde contendo um líquido e jogou sobre a garota.

Por um instante, seus pulmões chegaram a contrair.

— Agora é uma puta fedendo a mijo. Combina bem com você…

Com o punho, deu um soco exatamente sobre o estômago, deixando-a lutando para suportar a dor e a respiração.

— Eu vou te amaciar primeiro — socou seu rosto — Depois te cortar até você gemer como um… Porco, você disse?! — Exclamou socando o outro lado da face. De fato, ela vestiu uma expressão dolorida em cuspiu sangue.

Indiferente, a encarou como se fosse algum inseto, então olhou para seu dedo enfaixado e levou a mão até ela. Satsuki cerrou os dentes de dor.

— Já sei por onde começar…

Ele arrancou o pano sem piedade, apesar dela se retorcer freneticamente.

— Quebrou bem na junta. Só pra facilitar…

Sem rodeios, começou enfiar a lâmina fundo no osso quebrado.

— Acho que vou colocar no álcool e deixar na minha prateleira, só pra lembrar desta noite e pra mostrar que comigo tem troco — falou apertando o dedo dentro de uma garrafa.

Então, também jogou um pouco do líquido sobre a ferida da jovem que gritou desesperadamente.

— Isso, grita mais!

Satsuki agonizou por alguns instantes, enquanto ele procurava por algo em cima de uma das mesas.

— Obrigado…— falou com uma voz melancólica.

— O que disse?

— Eu… Mereço.

— Pra onde foi a valentia, eim?! Achava que ia ser mais difícil te quebrar.

— fiz isto com tantas pessoas… E agora vou ter o mesmo fim… — falou com o sangue escorrendo do braço até o rosto.

— É tarde pra me pedir desculpas.

— Não a você, a eles… — uma lágrima correu por seu rosto.

Enquanto tentava dar significado aquelas palavras, um estrondo veio da parede atrás.

Uma nuvem de poeira e farpas cobriu aquele canto da cabana com o homem caindo logo a frente.

Uma silhueta surgiu refletida pela luz da lua e caminhou em direção aos dois.

Ele tentou reagir, retirando uma arma de trás da calça, mas um tiro veio a arrancá-la de suas mãos, junto de alguns de seus dedos.

Guilherme imergiu, seguido por outro vulto, observando os arredores com um olhar afiado. Quando olhou para Satsuki, as veias do rosto ficaram saltadas e seus músculos se contraíram imensamente.

Ao agarrar o homem agonizando, o jogou contra o teto, tamanha a força que quebrou as vigas, Depois foi arrastado e arremessado sobre as mesas.

Matheus foi direto em direção a ela, cortou as amarras e começou a tratar imediatamente do sangramento.

— Parem… — falou baixinho.

Ele apenas levantou os olhos, mesmo enquanto enfaixava o dedo.

— Me deixa…

Guilherme continuou a socar o homem sem piedade.

— Não vou. Se bem que é o que todos dizem… — respondeu continuando a enfaixar.

— Porque veio atrás de mim?

— Só achei que fosse o certo.

— Mas você sabe o que eu fiz…

A resposta não veio de imediato, mas continuou a dar os últimos retoques no curativo. Então pegou mais um pouco de tecido e o molhou antes de passá-lo em seu rosto.

— Não o seu lado… — falou limpando o sangue, a sujeira e as lágrimas da outrora bela garota.

Ao se levantar, virou-se para seu colega.

— Pode parar, alguns ossos quebrados já bastam.

— Por mim, terminava de matar.

Matheus retirou a pistola que carregava do coldre alcançou para ele.

Quando olhou para o brasão do exército brasileiro estampado no ferrolho, sua postura relaxou e suspirou fundo.

— Se lembra de quando a gente passou pelo treinamento junto? Queríamos a todo custo mandar aqueles desgraçados pro inferno; os infelizes que matavam pessoas de fome, financiavam terroristas, prendiam e torturavam todos que discordassem disso… Quase nos transformamos iguais a eles…

— Tem horas que queria esquecer disso… — falou soltando o homem que colapsou, se contorcendo de forma estranha, cuspindo sangue e com o rosto inchando.

— Se souber que tocou nela eu juro pelo que é mais sagrado que eu volto pra terminar o serviço!

Dando as costas, caminhou devagar enquanto retirava a camisa e com uma expressão penosa, a colocou sobre os ombros dela, mesmo sem tê-la visto uma única vez.

— Descança e deixa o resto conosco — disse tocando-lhe o braço.

— Quem diria que o valentão tem um lado gentil.

— As mulheres, mano. Elas fazem de tudo com a gente…

— // — //—

Matheus e Satsuki estavam se arrumando sobre o motorista e o carona da moto, respectivamente.

— Aposto que os táxis não vêm pra esse lado. Tem certeza que não quer que eu volte?

— Não, tava pensando em passear mesmo…

— Boa sorte, mano — falou acelerando.

Enquanto ambos estavam na estrada, o sol já começava a nascer no horizonte, pro cima das plantações de arroz a beira da estrada.

— Pra onde vamos?

— Pra casa — falou olhando de canto de olho para ela, que segurava a mão enfaixada — a polícia está atenta demais pra te levarmos ao hospital. Vamos esperar…

— Para…

Matheus prontamente desacelerou, até parar no acostamento.

— Quer conversar? — perguntou ainda sobre a moto.

Ela respondeu acenando com a cabeça

Então desceu e sentou acima da parte frontal do carona, de lado, virado para o amanhacer.

— Essa é a terceira vez que vejo o sol nascer… — falou olhando para o as nuvens rosadas e depois virou — Pensando por onde começar?

— Não… Quero que tudo acabe.

Colocando a mão no coldre, retirou vagarosamente a pistola, encarando seu reflexo sobre ferrolho azul-marinho.

— Sente culpa?

Não houve reposta.

— Você amava ele?

Mais uma vez o silêncio permaneceu.

Aos poucos seu rosto foi de encontro aos olhos da jóvem.

— O que foi que a Hizen fez com vocês?

— Ela mostrou, quem realmente somos…

— Ah, agora entendi. Por isso que todas surtarem de repente.

— Me fez reviver aquela noite. Sentir tudo como na primeira vez… — Falou com a voz embargada — Um monstro como eu não merece viver… Asashio tem razão, sou só uma covarde…

— Hum, entendo… Já assistiu scooby-doo?

Ela negou com a cabeça.

— É um desenho de caçadores de fantasmas. Eles sempre corriam atrás do cavaleiro sem cabeça, do lobisomem e de vários outros monstros, só para descobrirem que eram apenas pessoas fantasiadas.

Ele retirou a gandola, expondo sua prótese e retirou a proteção do rosto.

— Por debaixo das máscaras, todos eram humanos… — disse a encarando fundo nos olhos.

Então, se ajoelhou no chão, a seu lado e segurou sua mão, que tentou puxar.

— Você não fala com ninguém, nem mesmo comigo. Prefere guardar tudo pra si, vivendo no próprio inferno. Não me admira querer se cortar.

— Um dia fui assim como você, preso em mim mesmo e desamparado, com o peso de uma guerra inteira em minhas costas. Você aceitou ser humilhada por aquele verme, perdeu o dedo, foi espancada, além de você mesma se machucar.

Uma brisa veio, juntamente com uma pausa para respirar fundo.

— Muitas vezes me perguntam por que sigo me esforçando tanto por vocês, e não vou mentir — riu — vocês me dão trabalho pra caramba, mas não se trata sobre o que eu quero da vida é sim, sobre o que a vida quer de mim… Se não der uma segunda chance para que salvem o que ainda há de bom em vocês, então quem vai? Por isso digo, Satsuki Tone, não pense na morte, não irá resolver nada, mas no que a vida quer de você…

— Mas não sou diferente deles…

Matheus a encarou nos olhos, entretanto não disse nada.

— Por que tenho que enfrentar demônios se eu mesma sou um?!

Ele assentiu e deixou a pergunta pairar sobre o ar, olhando para o sol recém-nascido.

— Sabia que somos iguais? Aliás nossas outras amigas também. Sou tentando pelo dinheiro, também desejo fazer pessoas sofrerem, principalmente aqueles que me traíram, por quem tanto sinto amargura. Quando fui pra guerra, vi coisas de quebrar o coração, fiz coisas que meu estômago se contorce só de lembrar e… Também tenho muito sangue nas mãos… Não acredito no ser humano, mas, mesmo assim, ainda luto por ele e quando consigo salvar uma única pessoa, sinto como se eu mesmo estivesse sendo salvo… Ainda que a escuridão paire dentro de nós, segue existindo um pingo de esperança atrelado àquilo que é eterno. Para alguns é Deus, outros são valores, coisas importantes, mas o que todos tem em comum é um propósito, forte suficiente para que nós consigamos nos tornar maiores que nós mesmos.

Por isso digo:

A beleza da vida é encontrar a luz onde ela não existe.

Uma lágrima escorreu de um dos olhos dela.

— Não existe luz nenhuma em mim…

— Nem em mim… — Respondeu sorrindo, tão melancólico quanto alguém que aceita a própria derrota.

Então, se aproximou e a segurou pelos ombros, com um aperto caloroso.

— Vamos pra casa, e se sentir que precisa falar com alguém, tenho certeza que a Mutsuki vai te receber de braços abertos.

— Ela vai?

— Vai, porque é a melhor de nós…

— // — // —

O pátio estava repleto de pétalas de hibisco coloridas, com várias falhas na grama. As pequenas árvores estavam em frangalhos, as paredes da casa repletas de terra, o muro arranhado e a porta da frente aberta.

Mutsuki estava sentada na cozinha, enfaixando a mão direita com uma tala. Asashio limpava alguns cortes no rosto com álcool.

— Tá com muita dor, querida?

Vou… Viver… — falou colocando a amarra por cima da cabeça — Você tá mais arrebentada que eu.

As duas riram alto uma da outra.

— Eu merecia essa…

De repente vieram alguns passos sobre a madeira das escadas e uma figura sonolenta apareceu.

— Sonhei que tava numa festa essa… O que aconteceu?!

Yuudachi saltou para cima de sua amiga mais íntima.

— É que a festa foi de arromba…

— E não me chamaram?! Digo… Pra ajudar vocês?!

— Nós não estávamos conseguindo dormir e a Mutsuki e eu decidimos treinar um pouco, mas nos empolgamos demais…

Asashio! — exclamou correndo em sua direção — me dá esse álcool!

A cena que se desenrolou contra intuitiva. A pequena garota estava cuidando daquela cuja figura materna era mais exacerbada.

Mutsuki, abrindo um sorriso discreto no rosto, levantou e caminhou em direção a elas, então deu um abraço a volta de ambas.

— Eu amo vocês…

— Ué, do nada?! — exclamou a pequena ao dar um salto.

Apesar da expressão de afeto, Yuudachi ficou acuada, mas Asashio, por outro lado, passou a mão por de baixo do braço dela e lhe acariciou as costas.

A beira da escada, olhando para a cena a distância, estava Kasumi, feliz, mas também melancólica.

Foi quando um barulho de o motor apareceu em frente ao portão.

Ela colocou a mão sobre a maçaneta e girou. Lentamente os passos das outras vieram atrás dela.

Abrindo a porta devagar, a primeira visão que a luz dos raios de sol trouxeram foi de Matheus ajudando Satsuki a caminhar pelo portão.

Mutsuki correu até ambos, com um sorriso estampado no rosto, enquanto as outras duas ficaram para trás, com Kasumi colocando a mão nas costas da entristecida Asashio.

Ela saltou sobre sua colega, eufórica.

— Tô tão feliz que você tá bem… — falou com os olhos se enchendo de lágrimas.

Apesar de irresponsiva em primeiro momento, lentamente começou a envolvê-la com os braços e a encher os olhos de lágrimas, até ambas ficarem de joelhos, chorando como garotinhas.

— // — // —

A porta do quarto se abriu com um ranger tímido, mas o silêncio o tornava bem mais alto.

A figura por trás dela tinha os cabelos molhados caídos sobre o rosto, com um olhar longínquo.

Quando deu o primeiro passo, Mutsuki entrou junto dela, perguntando em voz serena.

— Quer ajuda pra se vestir?

— Não, quero te contar uma coisa.

Ela fechou a porta e caminhou segurando sua amiga até sentá-la na cama, então ajoelhou em frente com uma mão sobre o joelho direito, o olhar muito mais centrado que o de costume.

De repente, seus olhos se arregalaram e voltou sentar sobre ambos os joelhos, ao estilo japonês.

— Desculpa, andei pegando umas manias dele.

Satsuki ficou encarando com desconfiança.

— Tá tudo bem, meio que já me entendi com ele.

— Se entendeu?! — respondeu dando um salto da cama.

Em vez de recuar seguiu firme e agarrou os braços da amiga.

— Calma, não é o que você pensa.

Apesar de rígida, voltou para cima da cama, com Mutsuki sentando a seu lado. Apesar de hesitar, começou a passar a mão em suas costas.

— No começo, achei que tinha ficado louca quando descobri as vozes, principalmente depois… daquela noite. Um pouco de cada vez foram ficando mais nítida e foi quando comecei a escutar a voz dele. Estava confusa demais pra saber se focava em ficar sentindo medo, culpa… Então, ele e o Matheus começaram a falar a mesma coisa, que eu era muito ingênua, e precisava seguir protegendo este meu lado. Hoje, ele me me encoraja, faz eu conseguir levantar e fazer meu trabalho — Falou olhando para as mãos.

— Como isso é possível…? — Suspirou Satsuki.

— Ele não é uma pessoa ruim… Digo, ele matou as pessoas que tentaram me sequestrar e… — Mutsuki parou e engoliu seco – A Misato era minha amiga, me vendeu, deixou retalharem a sachiko…

Uma lágrima correu por sua bochecha.

— Mas aquilo que mais me dói é saber que perdi minha amiga…

— Você é mesmo ingênua…

A garota melancólica baixou a cabeça e limpou as lágrimas.

— Mas…

O silêncio seguido desta frase chamou atenção de sua ouvinte, que levantou a cabeça para vê-la.

— Eu também sei como é essa dor…

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