Volume 1
Capítulo 22: Um Pouco de Cada Vez
Matheus estava dormindo no sofá da sala, de roupas e calçado, apenas com uma coberta por cima do corpo. Uma de suas mãos apoiava a cabeça e a outra estava tapada.
Asashio vinha descendo as escadas, usando um roupão por cima do pijama.
Ela caminhou lentamente em direção a sua cama provisória, se esforçando para não fazer muito barulho.
Quando chegou perto o suficiente, tocou seu ombro para acordá-lo.
Em um piscar de olhos, ele deu um salto, chegando mesmo a sacar o revólver do coldre, mas rapidamente se apercebeu da situação.
— Ah… É você… — suspirou fundo, recoldreou a arma e levou a mão ao rosto para coçar os olhos.
— Desculpa, mas queria saber como está.
— Agora que falou… — balançou a cabeça de um lado para outro — Fora cansado, minhas costas tão me matando… Bem que estava sonhando com…
Novamente soltou um suspiro e encarou a parede, pensativo.
— Têm a ver com seu passado?
Voltando a olhá-la, trocando para uma expressão de intriga, perguntou.
— Como você sabe?
— Bom, eu de vez em quando sonho com ele, coisas que aconteceram lá, coisas que fiz…
— É, também me lembro de algumas coisas… Alguma delas já se levantou?
— Ainda não, aliás, são 6 horas da manhã.
— Tão cedo?
— Não consegui dormir mais. Muitas coisas na cabeça, sabe.
— Entendo. Não é como se tivesse conseguido dormir também, mas por que me acordou?
— Não consegui te avisar ontem, mas a Kasumi vai ter alta hoje. Deve chegar antes do meio dia. Queria deixar a casa arrumada pra ela.
Ele olhou para os arredores, de modo que pôde perceber a sujeira que já queria começar a se acumular por cima da lareira, a volta dos vasos de flores, das cadeiras e das janelas. As marcas de pegadas no chão também não ajudavam a estética do lugar.
— Suja e você nem percebe… Vou pegar uma máscara, depois de ontem, meus pulmões merecem um descanço.
Então, com os primeiros raios de sol, ambos começaram a limpar os arredores, sem nem mesmo trocar de roupa.
Asashio começou retirando o pó dos objetos, primeiro na parte da lareira, onde estavam alguns vasos com flores artificiais.
Matheus seguiu fazendo o mesmo com as janelas, acompanhado de um pano e uma máscara, entretanto, o som que ambos faziam era mínimo, mesmo manipulando vidros e abrindo janelas com tendências a ranger.
— Você tem TOC, Asashio? — perguntou enquanto passava limpa vidros nas janelas.
— TOC? — respondeu segurando as flores de forma intrigada.
— Transtorno obsessivo-compulsivo. É comum que pessoas tão atentas a detalhes o tenham.
Ela largou os itens e escorou uma mão sobre as pedras.
— Eu gosto de arrumar coisas porque me acalma. Me faz sentir no controle.
— Tem a ver com seu antigo trabalho?
Ela não respondeu de imediato, preferindo pensar um pouco.
— Não necessariamente. Era sempre bom manter o máximo de informações possíveis, mas não por uma questão tanto de organização… Era pra saber exatamente onde doía mais…
— Entendo… Agora usa isso para me ajudar a arrumar a casa, só porque quer receber uma amiga de braços abertos.
— É… Eu mudei bastante.
— Nunca perguntei por quê mudou…
Ela ficou quieta alguns instantes, mexendo um pouco a boca como se quisesse falar, mas acabou por apenas balançar a cabeça.
— Matheus… Não quero falar disso agora.
Ele parou o que estava fazendo para encarar o sol tímido que vinha do amanhecer.
Com uma mão retirando a máscara e outra sendo levada ao bolso, pegou seu celular e caminhou até ela.
— Tem mais um motivo do porquê trouxe vocês aqui — falou passando o dedo pela tela — No trabalho falamos de trabalho, nas missões de como proceder, mas e quando não estamos fazendo nada?
Na tela, mostrou a foto de uma mulher fardada no que parecia ser um aeroporto.
— Esta é minha esposa.
Ela pegou em mãos para olhar mais de perto.
— Bonita.
— Eu e ela nos conhecemos a 5 anos na Venezuela — disse parando para sorrir um pouco — Você tinha que ver, ela parecia um anjo. Quando não fazemos nada, é bom falarmos de nós mesmos, nos conhecermos melhor, viver um pouco, entende?
Asashio desviou o olhar e observou o restante da mobilha.
— Acho que ninguém aqui quer falar de si mesmo.
— Nem das coisas boas?
Sua ouvinte se voltou para o rosto sorridente que expressava.
— Como o que temos de bom pode florescer se nos atemos apenas a tragédia? Eu sei, é difícil conviver com nossas falhas, mas percebe o quão parecidos somos com está casa? Ela pode estar suja, com mofo aparecendo daqui e dali e o jardim murcho, mas tudo pode ser limpo. Não é fugindo da luz que vai encontrá-la, mas primeiro é preciso aceitar que ela só existe porque também há sombras.
Sua colega permanecia receosa, porém, colocou a mão sobre seu ombro e falou-lhe em tom ambíguo.
— Vamos continuar limpando?
— // — // —
O horário era pouco antes da 9h da manhã.
No quarto de Mutsuki, tanto ela quanto Yuudahi estavam dormindo de costas na mesma cama, ambas de olhos abertos falando baixinho uma para outra.
— Tá acordada, Mutsukinha…?
— Tô. Não sei se quero levantar ainda…
— Nem eu…
De repente, o som do estômago roncando da dona do quarto mudou o clima.
— Você jantou ontem?
— Não.
— Também não…
Não demorou até começaram a tomar a decisão mais obvia, se levantar.
Yuudachi vestia as roupas que Asashio havia lhe trazido na noite anterior, mesmo elas estando longe de serem consideradas como pijama.
Mutsuki, por outro lado, estava devidamente trajada para a ocasião e foi se trocar enquanto sua amiga arrumava e prendia o cabelo.
Poucos minutos depois, uma gritaria veio do corredor.
A melhor vestida abriu a porta para ver o que era, enquanto a segunda pôs apenas a cabeça do lado de fora, vestindo apenas uma camiseta.
Asashio caminhava para trás, sendo alvo de um travesseiro, almofadas e alguns copos, dos quais caíram estilhaços como pingos de chuva pelo chão.
O bater da porta terminou por encerrar a ação.
Ela escapou ilesa, entretanto, debruçou-se sobre a porta e apoia a cabeça nela, hesitante em descer a mão para bater.
Não demorou a desistir e se afastar.
Quando se virou para descer as escadas, viu suas outras colegas observando-a com curiosidade.
— Já estão acordadas? — forçou um sorriso — Desçam, já vou servir o café.
Sua expressão não era artificial, mas ao mesmo tempo não parecia ser espontânea.
Ela seguiu seu caminhou sem delongas.
Yuudachi olhou para sua amiga, e depois baixou a cabeça, então caminhou lentamente para o andar de baixo.
— Me espera!
Mutsuki pegou o restante da roupa e correu para vesti-la sem jeito. Quando se deu conta já estava quase no pé da escada, terminando de se arrumar e lá estava Yuudachi, olhando sem jeito para a cozinha.
Ela colocou as mãos em seus ombros pequenos, fazendo a mesma se virar, dai respondeu com um aceno de cabeça. Só então as duas continuaram.
Na cozinha, o cheiro de café já havia tomado conta do lugar, este passado em um coador por Matheus, que também preparava algumas torradas.
— Bom dia, senhoritas.
Sua expressão, ainda que com ar de amistosidade, se assemelhava mais a melancolia.
Tanto uma como a outra ficaram observando ele terminar os pratos e colocá-los a sobre a mesa, com suas figuras encolhidas, encostadas uma na outra.
Não tardou a enxergá-las, sem alterar seu humor, então tratou de se aproximar, deixando a já encolhida Yuudachi ainda mais rígida.
Ele levantou a mão para tocar seu rosto, beliscando levemente a bochecha.
— Tudo bem com você?
A jovem sorriu do jeito que pode e acenou.
— Que bom, fico feliz — falou dando um tapinha em seu braço — Vão comer, vi que ontem as panelas nem se mexeram.
O cheiro da comida, ainda que fosse café da manhã, fez Mutsuki perder a descrição e se apressar para sentar-se a mesa.
Matheus deixou ambas para trás ao som de garfadas cada vez mais rápidas, antes mesmo de estarem as duas sentadas.
Mais aos fundos do primeiro andar, havia mais uma sala usada para guardar materiais de limpeza e ao lado, um segundo banheiro. Lá, Asashio estava jogando um pouco de água no rosto.
— O que aconteceu?
Ela olhou para a figura dele parada ao lado da porta, desligou a torneira e sentou-se sobre a tampa do vaso sanitário.
— Satsuki não quer falar com ninguém, muito menos me deixar ver as feridas.
— Foi por isso o barulho agora pouco?
— Fui tentar levar comida pra ela. Descobri que nem tocou no prato que deixei ontem a noite e quando tentei pegar a mão dela…
Matheus ficou um tanto reflexivo, batendo os dedos contra o marco da porta.
— Foque-se em cuidar da Kasumi, por hora.
— Mas… Eu preciso ajudá-la.
— Eu sei, mas se ela não é a única que precisa de ajuda.
Asashio chegou a abrir a boca, mas desistiu, preferindo desviar o olhar e levar a mão a cabeça.
— Por enquanto, vamos deixar como está… Depois do café, estava pensando em podar as flores, cortar a grama, limpar o pátio, nos distrair um pouco.
Com um piscar do olho esquerdo, ele a deixou cabisbaixa com seus pensamentos.
— // — // —
No segundo andar, Matheus caminhou sobre os cacos de vidro que estalavam por debaixo dos coturnos.
Sem se importar, ele bateu na porta do quarto de Satsuki e entrou, sem esperar resposta.
A garota se encontrava no mesmo canto de antes, em posição fetal.
O quarto fechado, escuro e um tanto abafado não era convidativo, entretanto, tudo estava em ordem, até mesmo a comida sobre a cômoda ao lado da cama.
Ele observou atentamente estes detalhes, inclusive o da sujeira que começava a se tornar visível.
— É bom abrir a janela.
Mais uma vez, sem confirmação, tratou de arejar o quarto.
Com os raios de luz refletindo na madeira da mobilha, sentou-se sobre a cama, cujos lençóis não haviam sido arrumados.
— Me lembro quando olhei sua ficha. Menina inteligente, boas notas, rotina extremamente regrada, hobbies como leitura e exportes… Fiquei pensando se você sendo tão certinha iria ser capaz de puxar o gatilho e não me decepcionou…
Então, ele se levantou, tirando de baixo de braço um item que carregava e se pondo de pé em frente a ela para entregar-lhe.
— As vezes você está tão fundo nas trevas que toda luz que chega até você só serve para lhe cegar… Vai gostar desse manga, a Yuudachi adorou.
Satsuki, timidamente, olhou por entre os braços em seu rosto. Após algum tempo, ela o segurou com uma das mãos, encarando sua capa.
Assim, Matheus a deixou, sem olhar para trás e levando o prato de comida velha consigo.
— // — // —
Yuudachi e Mutsuki acompanharam seu chefe até os fundos da casa, onde havia um galpão.
Ele abriu os cadeados do portão de madeira, deixando a corrente deslizar pelo chão, então abriu um lado de cada vez.
A primeira coisa que saltou a vista foi uma figura tapada a direita. Algo como um guidom podia ser visto por cima dos panos.
Na esquerda, haviam algumas prateleiras reviradas de cima a baixo com ferramentas e uma mesa com um torno e materiais de jardinagem, para além de pregos, tábuas, fita isolante, dentro outros, tudo acompanhado o cheiro de serragem e ferro.
— Por que não começam cortando as flores e limpando as folhas? — Falou pegando uma tesoura e uma vassoura de jardim — Querem escolher?
Mutsuki estava atenta, mas Yuudachi estava olhando para o outro lado.
Matheus assentiu com cabeça e largou os objetos.
Com um único movimento, ele revelou aquilo que estava por de baixo dos panos.
Era uma moto velha, mesmo muito antiga, em quase perfeitas condições, pneus novos e até mesmo com o banco do carona.
— Não! Uma R75?! — exclamou pondo as mãos sobre a boca.
Ela caiu de braços abertos sobre o veículo, como uma criança com um brinquedo novo.
Mutsuki ficou boquiaberta tentando entender.
— Essa moto foi feita em 1944 e usada pelo exército alemão durante a guerra.
— Entendi. Coisas militares.
Um sorriso veio ao rosto dela, principalmente ao ver a alegria de sua amiga.
— Como conseguiu ela?! — perguntou com os olhos brilhando.
— Hum… Vamos fazer assim, quando terminarem o serviço, vou fazer uma pipoca e sentar pra conversar na sala, ok?
A Jovem correu para pegar a tesoura e disparou em direção ao canteiro de flores, sendo acompanhada logo em seguida.
— // — // —
Mais de uma hora já havia se passado.
O quintal estava longe de ficar pronto. De fato, a limpeza feita podia deixava falhas aqui e ali que precisavam ser corrigidas.
Mutsuki estava limpando o suor da testa, escorada na vassoura.
— Como cansa! — exclamou em um suspiro.
Yuudachi estava a seu lado, cortando os hibiscos com velocidade e maestria, sem se importar tanto com o trabalho.
— Toma cuidado como segura pra não fazer bolhas nas mãos, principalmente na sua machucada.
— Eu sei, lá em casa eu deixava tudo arrumadinho, mas aqui tem que fazer força pra catar as folhas que ficam grudadas na grama, por isso tô forçando muito a minha mão boa.
Por alguns instantes, ela observou o trabalho de sua amiga.
— Tá ficando bonito.
— Minha esposa ia gostar.
Matheus seguia mais atrás, carregando um carrinho de mão cheio de restos de folhagens nas mãos.
— Você é casado?
— Essa eu não sabia, Matheuzo.
Todas pararam pela surpresa, enquanto o mesmo continuava a juntar os entulhos antes de responder.
— Que sou um ser humano?
— Sim… Digo, não! Que você tem mulher.
— Estou vivo, né…? Iriam gostar dela. Ela é oficial dos fuzileiros navais americanos.
A tesoura de jardinagem saiu voando com a mesma intensidade do quão incrédula estava sua dona.
— Me conta tudo! — pediu saltando como uma criança animada.
— Tá, mas sem gazear o trabalho.
Ambas voltaram ao que estavam fazendo, desta vez com todo foco voltado aos ouvidos.
— Ela é da terceira divisão de fuzileiros navais, 4th regimento de infantaria, lá em Okinawa. Tinham que ver a vez em que fomos a praia. Nos conhecemos a 6 anos, mas estamos juntos ainda não faz 1 ano. Não posso dizer que ela é a mulher mais refinada. Adora encher a cara, música alta, dançar como louca…
Quando se levantou, seus olhos encontraram a silhueta de Satsuki no andar de cima lendo o mangá que havia dado a ela, mas também era visível que seu ouvido estava colado a janela.
— Credo, não combina em nada com você.
— Pois então — falou e dai tirou seu olhar do andar de cima — Não dizem que os opostos se atraem? Sou eu quem cuida da casa, lavo as roupas, compro elas, faço a comida, porque a única coisa que ela consegue fazer é no micro-ondas, e por mais que ela tenha esse jeito bruto, consegue ser justa e elegante, meiga a seu jeito.
Seu olhar se virou para o horizonte em admiração, ao mesmo tempo melancólico.
Mutsuki parou o que estava fazendo para encará-lo, observando suas feições ambíguas.
Após refletir por alguns instantes, se voltou para elas.
— E vocês, não têm alguém que gostem?
Elas coçaram a cabeça, desviaram o olhar e tentaram daqui e dali encontrar palavras, mas o que conseguiram foram dar apenas sons de é ou hum.
A integrante extraoficial da conversa, vestiu-se também de melancolia, então mordeu os lábios, apertou os punhos e se afastou da janela, para voltar a se fechar em posição fetal.
Antes dos demais seguiram com a conversa, um carro parou em frente ao portão.
— Olha, parece que chegaram mais cedo.
Ambas ficaram receosas o verem novamente os homens de preto da noite anterior.
— Não deram falta de uma de vocês?
— Falta…? — falou Mutsuki reflexiva, até a resposta vir com espanto — A Kasumi!
— Sabia que esqueceria dela… Bom, vamos dar as boas vindas pra nossa velha amiga?
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