Volume 1
Capítulo 21: Mais um Passo
Mesmo na escuridão, aqueles que lá estão procuram a luz…
Nesse momento percebi que a resposta não estava em mim, mas naquilo que buscava.
Meu corpo definhava naquela cama, minha alma tão pouco se mantinha inteira. A vontade de desistir era enlouquecedora…
Acho que se ela não estivesse lá, não teria conseguido dar nem mesmo o primeiro passo.
Caminhar pelos corredores tinha se tornado uma tarefa estranhamente exaustiva, tanto que precisava de um pouco de ajuda pra conseguir.
— Não precisa se apressar, pode tomar seu tempo. Já fez bastante.
Me encostei na parede ao lado, bem cansada, apesar de ter andado só dois lances de escada até os andares acima.
— Posso perguntar uma coisa?
Ela estranhou a pergunta repentina. Não é como se tivéssemos conversado muito naquele meio tempo.
— Claro.
— Quem são vocês?
— Pois é, né? — Coçou o queixo soltando um risinho — Logo o mais básico a gente acaba esquecendo… Somos uma rede de supermercados.
— Que?!
Sinceramente, isso não fez o menor sentido na minha cabeça.
— Acontece que nosso patrão tem muito apreço pela filantropia e diversas parcerias por conta disso. Esta é uma unidade de saúde cuja parte dos atendimentos vai para o tratamento dos funcionários. O restante é privado.
— Então… Vocês precisam tanto de funcionários que vão até nas cadeias?
— É, dá pra dizer que sim. Melhor esperar o Matheus te passar as instruções.
— Ma… Esse nome não é japonês, né?
— Não é, mas já o conhece. É aquele que te trouxe pra cá.
Ela seguiu caminhando, como se quisesse cortar assunto, ao mesmo tempo que minhas dúvidas permaneciam lá.
Filantropia? Quem são exatamente essas pessoas? O que querem de mim?
A única coisa responsável por me manter lá era a culpa que sentia e a fé que a Haruna depositou em mim, uma chance de talvez conseguir compensar aquilo que fiz…
Os dias foram passando, meus movimentos foram melhorando. Já fazia maratonas subindo e descendo as escadarias, tanto que pediam pra mim tomar cuidado com as demais pessoas caminhando pelos corredores.
O sentimento de conseguir superar aquele momento de minha vida me preencheu de esperança de encontrar um sentido pra continuar não desistindo.
Quando me dei conta percebi o reflexo do meu rosto sorrindo na janela. Uma sensação de pavor tomou conta de cada pedaço de mim.
Como alguém como eu era capaz de sorrir?
Meu estômago parecia que ia sair pela boca, então corri para o banheiro, fazendo força pra não colocar tudo pra fora ali mesmo.
Quando o mau estar passou, estava limpando a boca na pia, joguei um pouco de água no rosto e levantei a cabeça, para olhar pra mim mesma no espelho a frente.
Aquele sorriso era uma mistura, tanto da Yui quanto do Eisuke, mas como era mais velha, acabava me lembrando um pouco da Botan também.
Senti uma vontade imensa de poder abraçá-los, fazer carinho até meus braços caírem e pedir desculpas até ficar rouca.
Então, um pensamento me veio a mente: Eles seriam capazes de me odiar?
No mesmo instante, palavras vieram de dentro de minha cabeça, negando o que havia pensando. Era como se uma parte deles vivesse dentro de mim.
Foi quando percebi…
Aquele sorriso, era deles.
A inocência dentro de mim era da Yui, a malandragem do Eisuke e a força vinha da Botan.
Por isso fiz e ainda faço questão de manter esse lado bem vivo dentro de mim. Sorrirei por eles, rirei por eles e viverei por eles, para que quando possamos nos encontrar, possa dizer Vivi a vida o melhor que pude.
Naquele momento, comecei a sorrir e a brincar do jeito que você me conhece agora.
As pessoas da clínica passavam por mim tentando disfarçar a curiosidade pela mudança repentina.
Digo, alguém que nem cumprimentava do nada começava a cantarolar pelos corredores…
Depois de mais alguns dias, recebi alta, aliás, deixaram pra me contar no dia, praticamente na mesma hora que vieram pra me buscar.
Estava na cama olhando alguns mangás.
— Yuudachi… — Me chamou a voz baixinho, meia triste — Hoje você vai pra sua nova casa.
Quando baixei o gibi, vi a Haruna parada ao lado do homem que tinha me visitado na prisão.
Não sabia como reagir. A palavra casa pra mim tinha se tornado muito estranha.
Dai ele jogou uma bolsa vazia e disse — A quanto tempo. Sou Matheus e daqui pra frente serei seu chefe.
Até cair a ficha olhei para seu rosto e depois para a bolsa no meu colo, similar a que ela também tinha mãos.
— Pode nos dar um minutinho?
Ele balançou a cabeça e deu meia volta para o corredor, fechando a porta.
— Você deve estar se perguntando com o que vai encher a sacola.
Ela colocou a dela sobre a cama e abriu.
— Foi meio de repente, mas consegui pegar umas roupas no caminho.
Uma saia preta com uma camisa branca e umas presilhas vermelhas em forma de esfera me chamaram a atenção.
— Essas aqui ganhei de presente, mas acho que fica um pouco meloso pro meu gosto.
Quando me vesti, minha autoestima foi lá pra cima. Podiam ser roupas simples, mas as últimas que me deram havia sido há dois anos.
No meu ultimo aniversário, tudo que tivemos dinheiro pra comprar tinha sido um bolinho pequeno e duas velas.
— Ficou lindo em você.
Por mais vergonhoso que seja admitir, confesso que fiquei um pouco corada.
Caminhei até a sorridente Haruna, com minha bolsa em suas mãos, a segurei, então dei um abraço de despedida nela.
— Muito obrigada.
Quando a soltei, fui para porta e em uma última vista para trás, falei — Até logo — então segui para descobrir onde aquele caminho iria me levar.
— // — // —
Mutsuki estava ajudando Yuudachi a se secar, agora sem quais quer vestígios de sujeira, mas definitivamente com marcas que só o tempo seria capaz de limpar.
— Você tinha que ver. Asashio me recebeu com aquele jeito mãezona dela, até meio exagerado pra uma completa desconhecida como eu. A Kasumi foi simples, só se apresentou e disse prazer. Quanto a Satsuki, não fez absolutamente nada, apenas me encarou de cara emburrada.
Sua acompanhante permaneceu escutando em silêncio, quando observou uma pequena fresta na porta, e alguma coisa contrastando com a luz do corredor.
Ela lentamente abriu a porta, dando uma olhadinha para um lado e para o outro, então foi ver o que o objeto se tratava. Era uma muda de roupas devidamente organizada.
Com o item em mãos, voltou a fechar a porta.
— Veste isso antes que comece a sentir frio.
Yuudachi tratou de começar a se vestir.
— Meu treinamento começou no dia seguinte. No começo fui um pouco parecido com você, só mais familiarizada com o tema militar assim por dizer. Quando me contaram aquela história sobre demônios e perseguir caras maus, bem… Achei que seria o mínimo a se fazer.
— // — // —
Um dia, o Matheus me chamou pra sala dele.
— Você diz não conseguir escutar mais as tais vozes que comentamos, certo?
Eu sei pensei no quão maluco esse tipo de conversa parecia, acontece que depois daquela noite…
— Sim, não consigo escutar.
— Nem quando lê alguma história, pratica luta com a Satsuki ou quando escuta algum tipo de assunto?
Não conseguia pensar em nada, mesmo tentando, então só balancei a cabeça.
Ele cruzou os braços e se reclinou na cadeira.
— Pode me explicar como foi da primeira vez?
Contei do sonho que tinha tido, o que conseguia expressar, com muita dificuldade, e do dia depois.
— Você acordou ouvindo elas?
— Era como uma zombaria…
Precisa respirar fundo um pouco, aquela ainda era uma ferida bem fresca dentro de mim.
— Ela ria de mim, como se tivesse caído em algum tipo de brincadeira doentia…
Mordi os lábios com força pra conseguir dar voz àquela sensação horrível que me atormentou.
— Era a voz de uma mulher?
— Era.
— E lhe soava familiar?
Familiar? Familiar…
Perversidade, rir da desgraça dos outros, achar hilário eles se colocando nas situações mais degradantes… Sim… Aquilo me era muito familiar…
— Haha… Hahaha!
A vontade de rir me veio como um choque, minha consciência ficou turva, quase como um sonho.
O Matheus me levantou com as duas mãos pela gola da camisa e me jogou contra parede. Os olhos dele atravessaram todo aquele torpor e de alguma forma, não deixaram que me perdesse.
— O… Que…?
Aos poucos fui voltando a mim, não era algo instantâneo.
— Quem você viu?
— Eu… Mesma…
Safadinha! Eu sei que você quer, pois sou tudo aquilo que você construiu, a manifestação dos seus desejos carnais!
Um susto veio até mim, ouvindo pela primeira vez aquela voz.
Junto dela, estavam diversas… Formas, muito distorcidas para mim ver, embora conseguisse identificar o que cada uma se tratava.
Jogando pessoas da escada, armando uma trama de vingança, destruindo vidas.
Tudo isso estava associado a mim e as coisas que presenciei com afinco ao longo de minha vida.
— Eu sou um monstro…
Matheus afrouxou um pouco as mãos e relaxou um pouco a tensão do rosto, daí me largou no chão.
Ele caminhou sem pressa alguma para trás da escrivaninha e retirou de lá uma foto bem popular no ocidente, mas não muito conhecida por mim.
— Gosta de Scooby-doo?
— O que isso tem a ver?
— Quando era pequeno, gostava bastante. Um dia chegaram pra mim perguntando se eu tinha parado pra pensar no que cada um dos monstro era. O que os monstros são? Na hora não consegui pensar em nada. Sabe qual resposta me deram?
Ele pegou mais um objeto, caminhou até mim, empurrou ele contra meu peito e falou.
— Todos os monstros são humanos…
Alguns segundos se passaram, tentei recuperar o fôlego. O silêncio se manteve ensurdecedor.
Sem mais nada a acrescentar, ele caminhou lentamente pelo corredor.
Quando fui ver o que ele estava me dando, descobri ser um livro.
— Em busca de sentido…
— // — // —
Yuudachi estava vestida, sentada sobre a tampo do vaso sanitário, terminando de contar sua história.
— A cada folha que folhei as coisas passaram a fazer mais sentido. Num capítulo, o autor falou sobre o uso do humor negro como maneira de tornar a experiência nos campos de concentração por onde esteve mais suportáveis. Rir da sua própria miséria e das mazelas que lhe corroem.
Ela tentava segurar o riso, o oposto de Mutsuki, que tentava apaziguar sua tristeza.
— Em um dos livros dele, ele contou a história de um homem que tinha uma vontade obsessiva em arrancar os olhos das outras pessoas. O psicólogo que tratava ele disse: Tente imaginar fazendo isso, o quão hilário seria se perder neste espetáculo vítreo.
Por mais que tentasse se segurar, o riso veio a escapar de seus lábios, até por entre os dedos da mão.
Depois de alguns instantes, ela veio a se acalmar.
— Essa estratégia ajudou a me aceitar como sou. Quando testava minhas habilidades, inúmeras ideias corriam em minha cabeça, de como encurralar minha presa, de como fazê-la reagir da forma que queria, tudo com uma brincadeirinha de criança. No fim, o sentimento nauseante de ter que conviver com o pior de mim foi diminuindo, se tornou aceitável, mas tudo porque tinha um objetivo muito claro, lutar contra aqueles que são iguais a mim…
Mutsuki olhou para Yuudachi de cabeça baixa. Ela mantinha mãos encolhidas contra o peito, um tanto inquieta, observando os arredores como se procurasse alguma coisa, seus lábios se mexendo como se falasse com alguém, sem som.
A passos lentos, ela caminhou para sua amiga e a envolveu com os braços para encostar sua cabeça contra seu abdômen.
A mesma retribuiu o afeto e deixou seu corpo repousar sobre o dela, de modo que seus músculos perderam a rigidez.
Só o que restou foram os pingos do chuveiro caindo lentamente.
— // — // —
Matheus estava sentado na sala, cercado por homens de preto, com Asashio a seu lado.
— O senhor tem certeza que devemos partir?
— Não há o que fazerem aqui. Já recapturamos ela.
Todos se entreolharam, cochichando algumas coisas um para o outro.
— O senhor Amon deixou bem claro que estávamos sob suas ordens, mas isso me parece insensato. E se ela tentar algo a mais?
— Todos os dias caçamos monstros. Se chegar a esse ponto, então ela será mais um. Por hora, estou disposto a dar uma segunda chance.
Novamente trocaram olhares, até chegarem a uma conclusão.
— Pois bem, confiaremos no senhor. Boa sorte.
A turma caminhou quase em fila para fora de casa em direção aos carros do lado de fora.
Matheus ficou olhando eles partirem portão afora, escorado na porta de casa.
— Chegou a ver como estavam?
— Deixei uma muda de roupas pra Yuudachi. Ela estava desabafando com a Mutsuki.
— Imagino que estivesse precisando…
Suas palavras cessaram por alguns instantes, somente enquanto seus colegas terminavam de fechar o portão.
Seus olhos correram mais um momento pelos arredores antes dele fazer o mesmo com a porta de casa.
— Asashio, pode fazer alguma coisa pra nós comermos? Vou ver se as duas terminaram pra poder me lavar — falou suspirando, de costas e cabeça encostada na porta.
— Como pode ainda ter fome depois de tudo que aconteceu?
Ele deu um breve sorriso antes de responder.
— Porque ainda estou vivo. Em dias ruins como esse, só dá pra esperar que o tempo os deixe pra trás.
Sem mais delongas, foi sua vez de deixar o recinto, porém, no meio do caminho, uma última frase foi dita a sua colega, sem se virar.
— Não se esqueça de trancar a porta… E as janelas…
Logo após, pode-se escutar seus pés batendo na madeira, primeiro da escada e logo do piso acima.
Quando passou ao lado do banheiro, viu a porta entreaberta, com luzes desligadas. Ninguém estava lá.
Seu quarto foi a próxima parada.
No primeiro passo para seu interior, começou a retirar a roupa cheia de fuligem e marcas de queimado. Quando olhou para os coturnos, uma parte do solado estava derretida e um deles possuía um furo.
— Que desperdício…
O telefone no bolso da calça tocou. Por sorte, parecia estar intacto, rendendo um suspiro de alívio de sua parte, entretanto, uma expressão de susto veio ao descobrir de quem se tratava a ligação.
Com o dedo hesitando por alguns segundos sobre a opção de atender, ele esperou quase até a chamada cair.
— Mary…
— Oi, Querido. Saudade?
Seus músculos tensos relaxaram após um longo suspiro seguido de uma risada que claramente tentava segurar.
— Muita… Você não faz ideia.
— Aí, não fala assim… Cuidou bem das minhas calcinhas?
Ele levou a para coçar a testa e limpou o breve momento de alívio do rosto.
— Mary, eu não tô no clima pra esse tipo de coisa, sabe.
— Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu. Várias delas aliás…
— Onde você está? Quer que eu vá te ver?
Sua reação foi fechar os olhos e respirar fundo, depois continuou com uma voz penosa.
— Não… Estou com problemas, e você sabe muito bem que quando digo isso, é porque são realmente sérios. Não posso sair daqui, nem deixar que você venha, é algo que preciso resolver com as próprias mãos.
Neste momento foi a vez dela suspirar alto.
— Tá… Tem certeza?
— Infelizmente tenho…
Um silêncio momentâneo se abateu entre eles, até ela poder responder.
— Te amo, Matheus.
— Também te amo, Mary.
Ele desligou o telefone e ficou encarando a parede por alguns instantes.
Mesmo sem ninguém nos arredores, dirigiu algumas palavras ao relento.
— Os maus se alegram do vinho que transborda de suas taças, enquanto nós que tentamos pará-los nos afastamos dos amigos, de nossas famílias e renunciamos dos prazeres que a vida nos traz, somente pra que haja justiça… Cada um carrega sua cruz, não é?
Em contraste com aquilo que dizia um sorriso melancólico veio a seu rosto, seguido de um balançar positivo com a cabeça. Não tardou até dar algumas risadas.
— Hahaha, é rir pra não chorar…
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