Volume 1
Capítulo 19: Cinzas
O ronco do motor assoviava por entre as árvores que cobriam uma das laterais da estrada. Do outro lado, alguns agricultores seguiam cultivando uma pequena plantação, indiferentes ao barulho.
Matheus seguia de carro pela estrada, olhando atentamento os arredores, inclusive entre as clareiras do matagal ao lado.
Caminhando perto da estrada, estava um senhor envelhecido de chinelos e chapéu de palha, carregando consigo um feixe de gravetos.
— Com licença — falou parando o carro ao seu lado — Viu a menina desta foto?
— Ah, sim. É aquela garotinha… — respondeu ajeitando o chapéu — Você deve ser o tio que ela falou.
— O tio?
— Sim, ela disse que estava brincando de pique-esconde com ele, mas… Não é exagero usar o carro pra isso?
— Onde a viu?
— Bem… — falou pausando um pouco para coçar o queixo — Foi do lado do mercado, onde fica a serralheria, sabe?
Sem ao menos dizer obrigado, acelerou o carro sem nenhuma preocupação a respeito do bem-estar do motor.
Nas ruas, quase ninguém podia ser visto.
Os prédios comerciais, e até mesmo residências, estavam fechados. Ainda era uma hora da tarde e a maioria dos estabelecimentos não abriam antes das três. Muitas pessoas ainda usavam este horário para almoçar e tirar uma soneca.
Ele estacionou praticamente arrastando as rodas no asfalto e se aproximou da entrada, que deveria estar fechada, mas o cadeado e as correntes que prendia estavam no chão.
Além do muro de grade, se encontrava apenas um campo com madeiras jogadas por várias partes, entretanto, uma marcação em vermelho se arrastava perto e a volta da porta de entrada para a oficina.
Com a mão na arma por baixo da camisa, seus passos se dirigiram para inspecionar o que poderia ser. Com a ponta do dedo, se apercebeu de ser um líquido viscoso com cheiro a ferrugem.
— Sangue…
Apesar dos fatos, sua postura não se alterou e permaneceu calmo, abrindo a porta com um olhar especialmente atento.
O lugar era pouco iluminado, tanto que só algumas sombras indistinguíveis saltavam da escuridão.
Usando o braço esquerdo, pegou uma pequena lanterna que estava em seu bolso e empunhou a arma por cima do punho.
Várias máquinas de corte, tábuas, toras e ferramentas sugiram a vista, mas o silêncio ainda permanecia invicto, apenas imaculado, em parte, pelo cheiro de serragem característico daquele tipo de dependência.
Passo a passo, avançou aos poucos pelo ambiente.
Mesas, latas, armários, prateleiras e até pedaços de madeira no chão não escaparam de seus olhos, que seguiam as gotas de sangue espalhadas desde a entrada, encontrando seu caminho por entre o labirinto que se seguia.
O padrão deles foi mudando rapidamente, revelando o que lhes deu origem, um cachorro com a garganta cortada.
De repente, o som estridente do bater de lata retumbou pelas paredes.
Quando se voltou para ver o que era, encontrou uma porta que dava para uma sala a parte, bem no interior da construção.
Uma vez de frente para ela, o chute que desferiu teve força suficiente para entortá-la e quebrar a maçaneta no processo.
Lá, entre alguns armários e ferramentas espalhas, a luz de sua lanterna iluminou um rosto prantos, embebido em lágrimas, de uma garotinha amordaça e acorrentada.
Apesar da cena, sua pressa foi nula, mesmo dando uma boa revisada nos arredores antes de prosseguir.
Ela balançou a cabeça de um lado para outro tentando murmurar alguma coisa, até que as mãos dele vieram soltar a mordaça.
— Ela ainda tá aqui!
A expressão de susto, seguida de seu virar repentino, foram interrompidos por uma explosão que o fez cobrir o rosto pelo clarão e a onda de calor que se seguiu.
As chamas consumiram o galpão, transformando-o e um mar ardente.
Matheus cerrou os dentes e segurou a menina, só para descobrir que suas pernas estavam presas a um feixe de fios.
Desesperado, puxou a faca da cintura e começou a tentar cortá-los, uma, cinco, dez vezes.
O incêndio se alastrou rapidamente pelas madeiras espalhas pelo local, mas ele permaneceu parado, impossibilitado de escapar.
De súbito, olhou para suas mãos diante do fracasso de soltar a menina, que chorava e berrava como um recém-nascido. Então uma aura avermelhada, mais escura que as chamas, começou a envolvê-lo, tornado sua prótese escarlate e seus cabelos carmesins.
Sua mão alcançou a lâmina e desferiu uma descarga elétrica que espalhou raios ao redor. Após alguns segundos, ela havia se tornado incandescente, afiada o bastante para cortar os fios no golpe que se seguiu.
Ele ficou ofegante, o suor já escorrendo de sua testa.
O fogo já tinha tomado a maior parte do lugar, até mesmo a entrada e pedaços do teto começavam a desabar, mesmo assim, segurou a vítima em seus ombros e caminhou por entre a fumaça intoxicante.
Enquanto tentava procurar uma saída, uma voz veio a seu encontro.
— Hahaha. Eu te peguei seu tolinho!
— Yuudachi!
— Errou! Ela está longe, bem guardadinha de você…
A vozinha infantil de outrora repentinamente mudou para algo rouco, mesmo monstruoso.
— Queimar como um porco é que você merece por tentar me afastar dela… Mas o verdadeiro prazer será ouvir essa garotinha gritando de desespero, hahahahaha!
A direção de onde vinham as palavras não era clara, e tão pouco parecia humana.
Matheus tentou correr de um lado para outro, sem sucesso. Não havia saída.
Um sedimento caiu sobre eles, atingindo-o na cabeça.
No chão forçou a tora ainda em brasa para longe de si, queimando a mão direita e partes da roupa, então, caminhou cambaleante para a menina ao seu lado.
Tudo a sua volta eram chamas que queimavam com o inferno.
Sua respiração era intensa, seus olhos ameaçavam perder a consciência e a menina seguia em prantos.
Foi a última coisa que seus olhos viram.
— // — // —
Uma tosse compulsiva fez o homem coberto em fuligem e roupas queimadas despertar de seu sono.
Vagarosamente, se virou para ver seus arredores, agarrando sua mão direita queimada.
Ele estava a beira de um rio, cercado por uma vegetação densa de todos os lados.
Já era final de tarde e os raios de sol dourados atravessavam a copa das árvores e se misturavam com o verde da mata.
Sua expressão de repente se transformou em susto, se colocando de pé tentando procurar por algo.
— Ela está bem…
A voz, vinda de trás, se tratava de ninguém menos que Yuudachi, cabisbaixa, igualmente suja de cinzas e com algumas queimaduras evidentes.
Ele virou a cabeça lentamente, sem pressa.
Seus olhos a encararam com afinco, mas uma coisa em sua mão o chamou a atenção mais que tudo. Era o revólver que usava.
— Puxei vocês dois para fora de lá.
A voz que saiu de seus lábios não tinha entonação, tão pouco seu olhar possuía brilho.
— Pegue… — disse oferecendo o cabo da arma para ele, que lentamente, pouco a pouco levantou a mão para pegá-lo.
Quando terminou, ela baixou o braço como um boneco que foi largado pelo dono.
— Por favor, faça… — as lágrimas começaram a correr de seus olhos — Não quero que o pior de mim vença!
Neste grito, as chamas da vida voltaram a sua face, como um náufrago a deriva lutando para não se afogar.
Após alguns segundos, ele empunho a arma e armou o cão, sem expressar qualquer tipo de sentimento.
O tiro veio, o som ecoou pela encosta do rio e pelo bosque, assustando os pássaros que saíram em bando da copa das árvores.
Yuudachi caiu de joelhos, inexpressiva como a morte, sem respirar.
— Pronto, agora está morta…
O som do silêncio foi ensurdecedor, sufocante. Todo ar que fazia as árvores chacoalharem parecia não se capaz de chegar onde estavam.
Os segundos pareceram uma eternidade, mas no fim, o ar voltou a entrar nos pulmões da pequenina jovem.
Seus olhos se encheram de lágrimas, e entre alguns soluços, ela desabou em prantos.
— Porquê?!
— O inferno de desejar algo ao ponto de fazer desse desejo senhor de sua vontade é um caminho onde muitos se perdem. Como posso atirar em quem, por vontade própria, escolheu queimar do que saciar sua própria sede? Muitos se perdem, mas quase nenhum volta.
— Eu não mereço seguir viva! Não depois do que fiz! Não depois de tentar fazer de novo!!
— E é por não ser merecedora que você tem que morrer e das cinzas reconstruir aquilo que ainda há de bom em seu interior… Minha amiga.
Ele estendeu a mão para ajudá-la a se levantar.
— Quem ajudou a salvar aquelas mulheres que o Shinohara seduziu e Hisen aprisionou? Quem nos faz rir todos os dias e mantém vivo o lado inocente que ainda nos resta? Quem resgatou a Mutsuki? Não acredito que vá se tornar uma pessoa santa, sem falhas, mas sei muito bem sobre aquilo que consegue fazer de bom.
Ela limpou se rosto, embora o sujando de cinzas e segurou a mão dele.
— Bem-vinda das cinzas…
— // — // —
A escuridão já começava a tomar conta do cenário além da janela.
Mutsuki estava ajoelhada ao lado de sua cama tentando amarrar a cortina do quarto em uma das patas, usando os dentes e a mão ainda boa.
O som de conversa chegou a ela vindo do andar de baixo.
— Tem certeza que não quer ajuda? — perguntou uma voz masculina.
— Tenho, cozinhar me deixa mais calma… — respondeu Asashio, seguida do barulho de metal batendo na madeira, então continuou — Até quando vão ficar aqui?
— Até Acharem os dois, não podemos arriscar que algo mais fuja do controle, se já não bastasse o incêndio.
Nesse instante a faca parou alguns segundos. Mutsuki seguiu quieta, até barulho voltar a ser ouvido.
Ela novamente pôs os dentes em torno do pano, tetando desajeitadamente dar o último nó.
Quando conseguiu, deu alguns suspiros e agarrou a garrafa d´água ainda sobre a mesa de cabeceira para tomar alguns goles.
Sem fazer qualquer ruido, abriu as janelas e jogou as cobertas para fora, então, com muita dificuldade, projetou seu corpo além dela.
Em uma manobra desengonçada usando a mão boa, o braço da machucada e até mesmo a própria boca, ela fez seu caminho até perto do chão, com um deslize a fezendo chegar a ele.
Suas pernas caíram um pouco mais perto do canteiro, esbarrando os hibiscos, mas seu troncou ficou do lado de fora, deste modo não fazendo muito barulho, ainda que estivesse de dentes cerrados e tocando no lado da perna que havia batido.
— Não se preocupa, eu consigo… — murmurou ao relento.
Um tanto manca, Mutsuki caminhou pelo quintal sem ser notada até o muro, que, por consequência de suas feridas, se apresentava como o maior obstáculo.
— Vou precisar de ajuda — murmurou novamente — Não, eu tenho que ir. Meus amigos precisam de mim.
Sua mão esquerda se apoiou no muro, assim, ela olhou para o chão por alguns segundos, quando voltou a apertar os lábios.
— Acha isso idiotice? Quando descobrir, eu te conto… Soa nostálgico?
Naquele instante um sorriso discreto veio acalmar sua outrora expressão rígida, então, a força surgiu em seus pés e no braço que ainda estava bom. De fato, deste modo ela conseguiu escalar em um único salto.
Sua silhueta era refletida pela luz da lua que já começava a brilhar no meio da noite, asfalto da estrada, entretanto, a caminhada durou pouco.
Um par de sombras cambaleantes surgiu do horizonte sombrio, acompanhados de uma tosse seca e uma respiração pesada.
A pequenina Yuudachi tentava servir de apoio para Matheus que, praticamente, se arrastava.
Ela, antes mesmo de ver quem estava vindo a seu encontro, se ajoelhou no chão, com ele obrigado a fazer o mesmo.
— Não falta muito agora — falou o homem de forma ofegante.
Antes de haver uma resposta, a jovem se dirigiu ao som de passos acelerados.
Um braço a envolveu, seguido do restante do corpo, o qual não se importou com o cheiro de fumaça e as cinzas que possuía.
Tentando encontrar as palavras certas, fez os lábios se entreabrirem, ao mesmo tempo que tentava recobrar o ritmo de sua respiração, mas foi tudo em vão, quando de repente um choro baixo chegou a seus ouvidos.
— Estou tão feliz… Tão feliz de não perder outra amiga…
As lágrimas quentes escorreram pelo ombro dela, a mesma também começando a ficar com os olhos marejados.
Ambas ficaram chorando tempo como duas garotinhas, tudo a vista de seu líder.
Movido por um vulto entre as árvores, a atenção dele se focou na figura que delas surgiu, um homem de preto segurando um fuzil.
Sua reação foi acenar de maneira discreta, fitando-o com um olhar, não apenas de reprovação, mas, principalmente, de aviso.
— // — // —
Em frente a casa, todos estavam desesperados pelo pátio procurando a fugitiva que estava no segundo andar, quando foram interrompidos pelo ranger das grades se abrindo.
Asashio, foi a primeira a correr para a onde os três estavam.
— Vocês estão bem?! — perguntou assustada.
— Sim… — respondeu Matheus ainda um pouco ofegante — Só precisando de um banho.
Os olhos dela se dirigiram para as maninas ao seu lado, que desviaram seus olhares.
— Pode ajudar a Mogami, Chikuma?
Mutsuki acenou com a cabeça, então segurou sua amiga pela mão e ambas caminharam melancólicas para dentro de casa.
Quando sua presença desapareceu, Asashio cambaleou, colocou a mão na cabeça e suspirou bem fundo.
— Eu tentei me preparar para o pior, mas ainda sim…
Ele colocou a mão no ombro dela.
— Não dá pra se preparar pra tudo, também somos limitados…
— Alguém se machucou?
— Felizmente, não.
Ela caminhou com a cabeça erguida em direção a lua, então falou ao relento.
— Como vai ser daqui pra frente?
— Boa pergunta… Isso só vai depender delas…
— // — // —
Mutsuki passou a mão na água da banheira para se certificar que não estava muito quente.
Yuudachi estava se encarando no espelho, voltando o foco para suas mãos com o mesmo olhar melancólico que trouxera desde a estrada.
— Já está bom.
Sem demorar ou se apressar, ela entrou na banheira.
A amiga que a acompanhava segurou as roupas que havia tirado e vestiu um risinho desajeitado no rosto.
— Desculpa, mas acho que vou precisar jogar fora, hahaha.
— Brigada, Mutsukinha… — respondeu como uma criança assustada — Vou fazer tudo que puder pra te pagar um dia…
Sua ouvinte ficou sem palavras, com uma expressão de intriga. Logo ela largou o que carregava e se ajoelhou ao lado dela.
— Não fala assim. Eu é que devo a você…
Yuudachi virou a cabeça, encontrado os olhos entreabertos e os lábios curvados para baixo de Mutsuki.
— Você sempre me tratou com carinho e, quando estava triste, sempre conseguia me animar com esse seu jeitinho inocente…
Yuudachi colocou as mãos na cabeça e a balançou de um lado para outro.
— Não, você não sabre nada sobre mim!
Mutsuki, inicialmente assutada, estendeu sua mão para pegar a dela.
A resposta que recebeu foi um olhar desolado, em verdade, uma pergunta.
— Eu quero saber…
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