Volume 1
Capítulo 18: Fragmentos
Por debaixo das cobertas da cama já iluminada pelos raios de sol da manhã, Mutsuki mexia sua cabeça, mordendo os lábios e arfando, ainda de olhos fechados.
De repente, seu braço direito bateu na mesa de cabeceira, deixando um copo de água cair no processo. O barulho do vidro quebrando a fez acordar, com a mesma se sentando com um salto e ofegando com uma expressão de pavor no rosto.
Enquanto, tentava se acalmar, voltou a olhar para suas mãos trêmulas. O som do ranger da porta a fez voltar a si.
— Teve outro pesadelo, querida?
— Sim… Dói…
Sua tremedeira permanecia quase inalterada. Vendo isso, Asashio foi até cabeceira e pegou algumas pilulas para lhe alcançar, então entregou-lhe uma garrafa d´água que tinha em mãos.
— Pode ficar, vou pegar a vassoura.
Mutsuki a segurou com a mão esquerda, apertando a outra contra o peito e bebeu com um longo e barulhento gole.
— Quer falar sobre ele? — perguntou se ajoelhando com uma pazinha em cima dos cacos.
Ela desviou seu olhar, mas após alguns segundos abriu sua boca.
— Sonhei com as pessoas que matei… O sangue delas escorria nas minhas mãos… Eu…
— Se não se sente pronta, pode deixar pra terminar de me contar outra hora — falou sua ouvinte colocando os cacos de vidro em uma lixeira ao lado da escrivaninha.
— No fim dele, segurei as mãos da Misato e pedi desculpas… Com todas as forças que consegui…
As lágrimas correram por seu rosto. Estranhamente, seus músculos não se enrijeceram a volta da boca.
— Isso ainda te incomoda?
Mutsuki se virou para vê-la nos olhos.
— Quando encontrei com meu irmão antes de ontem, percebi que sô consegui porque fiz o que fiz.
Suas lágrimas deram origem a um sorriso esperançoso seu abriu no rosto, que se transformou em convicção.
— Aquela mulher que eles pegaram só foi salva porque puxei o gatilho, assim como meu irmão, além do mais — pausou para ver suas mãos tremendo — Ele, o Matheus e... Aquela voz, todos tem razão. Não posso me culpar por ter sobrevivido. Hoje agradeço por encontrar vocês.
Por alguns instantes, ambas se encararam, até que uma fala de Asashio veio para cortar o clima.
— Quer dizer que até 3 dias atrás você não gostava de nós? Nem de mim?
— Não, calma! Eu sempre gostei de você!
Ela falou emocionada, mas acabou ficando vermelha com a confissão.
Ouvindo isso, Asashio abriu os braços bem abertos e se atirou sobre ela.
— Que fofa! Repete que me ama de novo?
— Cama, Num diss ixo!
Ela tentou falar, porém, suas bochechas estavam apertadas pelos braços de Asashio. Chegou até tentar se soltar, mas desistiu antes de tocá-la.
— Estou morrendo de amores, mas, como uma boa mãe que sou, não posso negligenciar seu almoço.
— Almoço?
— Então, estava vindo aqui pra te acordar. Já passou do meio-dia
Mutsuki tratou de se colocar de pé, colocar um casaco sobre o pijama, e correr para o banheiro.
Ela atravessou a porta com velocidade, sem fazer questão de fechá-la, agarrou sua escova de dentes no armário e os escovou de forma desleixada, de efeito questionável. Depois de enxaguar a boca, atirou um pouco de água no rosto e fechou o espelho. Uma sombra refletindo sobre sua superfície e a fez se virar, derrubando a saboneteira no chão.
— Yuudachi!
Estava parada no canto atrás da porta, encolhida e trêmula. Seus cabelos estavam cobrindo seu rosto, sem as maria chiquinhas que costumava usar, com parte da blusa para fora da saia, mangas sujas e descalça. Seu olho esquerdo, o único visível, transmitia um profundo medo.
— Preciso me esconder…
— De quem?
— Das crianças… — respondeu tremendo os lábios — Elas não podem e ver assim…
— Mas não tem criança alguma aqui.
— Não! Ela vai me achar! — gritou colocando as mãos na cabeça e deixando seu corpo escorrer pela parede até se sentar no chão, quase em posição fetal.
Mutsuki de um passo para trás. Sua amiga permaneceu imóvel, então, ela caminhou lentamente e estendeu a mão para tocá-la.
Seu dedos estavam prestes a encostar em sua cabeça, quando ela saltou dando uma gargalhada.
— Hahaha, você acreditou, Mutsukinha?!
— Yuudachi… Mas seu braços estão vermelhos.
Invés de uma resposta, a pequena garota saiu correndo, entre risos e cantaroladas.
Logo ela desapareceu pelos corredores, entretanto, antes de Mutsuki deixar o banheiro, uma última couse veio a sua vista. Se abaixando perto do canto ao lado da posta, estava uma pequena boneca de pano, que teve seus braços e pernas arrancados, o estômago aberto com o estofamento para fora e uma cara sorridente feita com canetinha vermelha em seu rosto.
— // — // —
Pouco a pouco, o som de passos foi ouvido vindo de forma lenta da escada de madeira.
De cabeça baixa, pensativa, deslizando a mão esquerda pelo corrimão, Mutsuki desceu os degraus.
O som de talheres já era audível, entretanto, seguiu estagnada a alguns passos antes de entrar, com apenas uma parte de seu corpo a mostra, o suficiente para Asashio enxergá-lo.
— Está esfriando.
Como se voltasse a si, ela caminhou até a cozinha, onde estavam os outros três membros da casa.
— Bom dia.
Satsuki se manteve calada, sendo a única a não responder, levando quantias ínfimas de comida a boca, com um olhar distante.
— Quer uma faca pra cortar a carne? — Perguntou Asashio alcançando o objeto.
Ao ver seu reflexo sobre a lâmina, seus braços começaram a tremer, sua respiração ficou pesada e os dedos ao redor do garfo se apertaram até ficarem roxos.
Matheus segurou a parte pontiaguda com sua mão protética, erguendo o braço dela no ar, então, quase imediatamente, ela deixou o braço cair, como uma marionete que teve as cordas cortadas.
Aos poucos a luz voltou a brilhar em seus olhos, quando então, levou a mão a boca e correu para dentro de casa, arrastando e derrubando ruidosamente a cadeira no processo.
Asashio correu atrás dela, deixando Mutsuki encolhida contra a parede para dar-lhe espaço. Seu corpo se inclinou para olhar em que direção haviam ido, entretanto, logo após dar seu primeiro passo, uma voz a impediu.
— Chikuma, deixe-as.
Ela olhou para ele com desconfiança, depois de volta para o corredor, mas se virou e fez como foi pedido.
— Pode comer a parte dela — disse pondo a cadeira de volta no lugar.
— Tem certeza?
Sua resposta foi apenas um aceno com a cabeça. Ao se sentar novamente, continuo como se nada tivesse acontecido, mas foi apenas o som metálico do garfo se chocando contra a louça que a tirou da inércia.
— Aqui. Não vai querer usar o dos outros — falou Matheus alcançado-lhe um novo talher que estava sobrando na mesa.
Suas mãos tentavam desengonçadamente segurar a carne e passar a faca ao mesmo tempo. O único sucesso que teve foi deixar ainda mais dolorido a mão machucada.
— Deixa que eu corto pra você.
— Não precisa, eu consigo.
O garfo escorregou, atirando um punhado de arroz sobre a mesa, alguns grãos inclusive acertando o rosto de seu acompanhante.
— Desculpa!
— Não quer ajuda mesmo…?
De bochecas rosadas, respondeu baixando a cabeça.
Matheus continuou cortando a comida em pedaços pequenos, enquanto a mesma continuava a olhar o resto da cozinha sem um alvo específico. Seu estômago roncando acabou por fazê-la ficar ainda mais vermelha.
— Bom saber que está com fome… — falou brincando, mas rapidamente mudou de tom ao continuar — A Satsuki falou alguma coisa com você desde que chegamos?
Sua frustração prontamente foi jogada de lado, abrindo um olhar interrogativo em seu rosto.
— Agora que você falou… Não me lembro nem de ouvir a voz dela.
— Exato — confirmou alcançado o prato de volta — Desde aquele dia, ela não disse uma única palavra. Exceto alguns sussurros que por acaso escutei.
— Pra si mesma…?
— Ouviu também?
— Pela Yuudachi.
Matheus se inclinou na cadeira e cruzou os braços.
— Sabe o que isso se significa?
— As vozes… Encontrei ela a pouco encolhida no banheiro, com medo “dele” a encontrar.
Ele olhou para o corredor ao lado, antes de continuar.
— Satsuki não come e não fala com ninguém, parece até que está em seu próprio mundo. Yuudachi, mesmo depois de ter surtado aquele dia, segue agindo como se nada tivesse acontecido.
Novamente ele se focou em seus pensamentos. Vendo isso, Mutsuki tirou algo do bolso do casaco e o pôs sobre a mesa.
— Mais cedo, ela parecia a mesma de antes só que muito assustada, depois voltou a ficar… como… Como tá agora…
Abrindo a palma da mão, os pedaços da boneca esquartejada caíram sobre a mesa.
Ele franziu o cenho e enrijeceu os musculos, em uma mistura de medo e dúvida.
— Onde ela está agora?
— Lá em cima.
Por alguns segundos Matheus ficou em silêncio, olhando com o canto dos olhos para o teto.
— Parece que está bem quieto. Pode terminar de comer, vou ver como estão — disse se levantando e tocando seu ombro.
Não demorou a alcançar a escadaria e, perto dos últimos degraus, conseguiu escutar sua companheira mais velha fazendo um apelo.
— Abre a porta Satsuki. Só quero ver como está.
Ela encostou a cabeça na madeira por alguns instantes e suspirou ao ouvir apenas o silêncio.
— Se trancou no quarto?
A resposta veio apenas com um aceno da cabeça.
— Parece coisa de filme de adolescente…
Asashio respondeu com as pálpebras flexionadas e os lábios curvados em desdém.
— Desculpe — falou pondo o ouvido perto da dobradiça, então colocou o indicador sobre a boca.
A respiração que podia ser escutada era sufocante, semelhante a alguém congelando, seguindo de uma tosse seca compulsiva.
— Aquela faca fez isso…? — perguntou de forma retórica.
Um par de mãos correram, de maneira lenta e fria, sobre os olhos de Matheus.
— Adivinha quem éeee…
Ele lentamente levantou o braço para ir para dentro da farda em direção ao revólver.
— Não Precisa ficar brabinho, só vim contar um segredinho! — cantarolou antes de mudar o tom — Na primeira noite que passei aqui, ouvi umas coisinhas, da Sat. Eu sei, ela anda tão quietinha, mas vi quando ela caminhou pelo corredor até o banheiro, gemendo que nem agora… Que saber o que ela fez lá?
Yuudachi deu alguns passos para trás sorrindo como se aquilo fosse hilário e apontou para a maçaneta.
Naturalmente, a porta não se abriu, até um chute arrebentar a fechadura.
Asashio entrou atrás de seu líder e imediatamente levou a mão a boca com a cena que se desenrolou diante de seus olhos.
Satsuki estava cortando seu braço esquerdo com a lâmina de um aparelho de barba, embebendo o chão ao redor de sangue.
Ele correu como uma sombra para segurá-la.
— Não!!! — gritou se debatendo com veemência.
Ela empurrou Matheus que atingiu uma mesinha ao seu lado, quebrado sua patas que soltaram lascas de madeira pelo chão.
Asashio correu para tentar nocauteá-la. Seus braços se juntaram a volta da parte diagonal do peito de Satsuki e a arremessaram no chão, entretanto, foi revidado com a jovem puxando o tapete por baixo dos pés dela, que caiu no chão.
O som de gritos e dos moveis sendo quebrados logo chegou a parte de baixo da casa.
Mutsuki deixo os talheres cair e abandonou sua refeição para ir de encontro com a escadaria, a qual estava sendo usada por Yuudachi.
— O que aconteceu?!
Ela, chorando e assustada, respondeu se jogando de braços abertos sobre sua amiga.
— Eles tão brigando!
Vendo as lágrimas correram por seu rosto, ela cerrou os dentes e subiu.
O som de batidas e gritos ecoaram pelo corredor, antes mesmo dos olhos dela adentrarem o cômodo.
Ela correu até chegar porta do quarto. Com a mão esquerda na porta, seus olhos observaram o momento em que Matheus ergueu Satsuki pelo pescoço e a eletrocutou de forma agressiva, tudo no mesmo movimento, de dentes cerrados. O grito que dera ficou abafado pela força usada em sua garganta.
Os olhos dele observaram o corpo dela desabar no chão, enquanto seus pulmões tentaram, por um tempo, recuperar o fôlego. Asashio, por outro lado, levantou-se cambaleante com um corte na lateral na cabeça por onde o sangue escorria pela bochecha.
Mutsuki se apressou em se colocar ao lado de sua tutora.
— Satsuki! — gritou desviando a atenção imediatamente para as feridas em seus braços.
— Isso ela fez consigo mesma — respondeu Matheus para a expressão de horror que vestiu no rosto.
— Porquê ela faria algo assim?
— Boa pergunta. Foi a Yuudachi que descobriu e nos avisou, então…
Ele congelou no meio de sua fala e dirigiu seu olhar para o corredor.
— Onde ela está?
— Eu… Cruzei com ela na escada e…
Então, ele caminhou para a janela. O punho em sua mão direita se fechou, abruptamente seguido de um pisar muito forte no chão de madeira em direção a saída, seus passos retumbando com extrema velocidade pelos degraus que desceu.
Mutsuki foi ver do que se tratava. O que encontrou foi o portão da frente aberto.
— // — // —
O som do ringir de um baú, acompanhado do cheiro de veludo púrpuro em seu interior atingiu os sentidos do único ocupante do quarto.
Dentro estavam diversos itens pertencentes a alguém, como um uniforme militar, um par de medalhas, um álbum de fotos, um colete à prova de balas, uma faca tática e uma espingarda sem coronha, além de algumas caixas de munição.
O dono da casa pegou os conteúdos, a exceção da arma longa e vestiu uma camisa para cobrir o colete. No meio do processo, batidas foram ouvidas da porta.
— Entre.
Atrás dela se revelou Asashio, que a fechou ao entrar.
— Ligou pro Amon?
— Sim, mas ainda vão demorar pelo menos mais uma hora até chegarem aqui.
— Você vai sozinho?
— Não posso perder tempo, nem deixar Satsuki e Mutsuki sem ninguém para vigiá-las… Como estão?
— Satsuki ainda está inconsciente. A coitadinha da Mutsuki resolveu ficar encolhida no quarto. Ouvi ela chorando baixinha quando fui vê-la e resolvi deixar.
Matheus terminou de fechar a camisa, tocou em seus bolsos e pegou seu revólver de cima da penteadeira ao lado para checar as munições antes de seguir falando.
— Algemou Tone como eu pedi?
Um aceno de cabeça refletido no espelho logo a sua frente veio a responder sua pergunta.
Então, ele se virou para se aproximar, daí olhou para os olhos dela de cabeça erguida.
— Está com sua arma?
Os olhos dela se desviaram e não houve resposta, nem intenção dele em perguntar ou tomar outra ação se não deixar a casa.
No instante que ficou sozinha, a mulher outrora resiliente caiu de joelhos e levou as mãos para cobrir o rosto.
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