Volume 1
Capítulo 16: Depois da tempestade
Sobre o céu estrelado de Tóquio, um helicóptero cortava o ar por entre os prédios.
Matheus observava o colorido show de luzes da cidade, com o vento das hélices balançando seu cabelo ainda que de forma discreta. Suas costas estavam reclinadas sobre a traseira do banco do co-piloto, com uma das pernas fora e a outra esticada sobre o chão de metal com seu antebraço sobre o joelho.
Seu olhar reflexivo desviou-se da paisagem para o restante dos tripulantes.
Yuudachi estava sentada em posição fetal, com o rosto escondido por entre as pernas. Satsuki, ao lado dela, se mantinha em silêncio com um olhar austero para o horizonte escuro. Kasumi estava deitada em uma maca no centro, inconsciente, sendo cuidada por Asashio que segurava sua mão. Por fim, Mutsuki, estava com as mãos enroladas em volta do abdômen olhando para baixo e contorcendo um pouco os cantos da boca, como se estivesse com dor.
Ele balançou a cabeça de um lado para outro, depois respirou fundo.
Não tardou até começarem a fazer uma volta em um dos edifícios, o qual possuía algumas pessoas em seu terraço, observando a aeronave pousar.
Rapidamente eles pegaram a maca de Kasumi e correram para dentro das instalações, enquanto Matheus se pôs de pé e saltou para fora.
— Vamos — Ordenou para os que ainda estava lá, com Satsuki caminhando para fora com exatamente a mesma expressão que estava durante o trajeto, Yuudachi andando de cabeça baixa acompanhada de Asashio, e Mutsuki seguindo atrás cambaleante, de forma dolorida.
— Deixe eu te ajudar — disse ele segurando sua mão esquerda.
Ela imediatamente cerrou os dentes e deu um grito abafado.
— Desculpe — respondeu colocando sua mão direta sobre o ombro oposto dela e a outra em sua cintura para ajudá-la a se equilibrar.
O helicóptero levantou voo e deixou apenas Matheus e Mutsuki sobre o terraço, ao mesmo tempo que os demais desciam por um elevador.
Ambos caminharam sem pressa, escutando o som do das hélices ficarem cada vez mais distantes.
— Você sabia? — perguntou ela.
— Sobre o que? — respondeu apertando o botão do elevador.
— Sobre meu irmão.
Ele então a soltou e ambos ficaram de frente. De forma explicita e direta, sua resposta veio desprovida de qualquer emoção.
— Sim…
A reação dela foi, por um instante, cerrar os dentes e logo o punho, mas a expressão de dor voltou a lhe assolar. O que restou foi o seu já bem conhecido olhar melancólico.
— Por quê?
— Não podia confiar que fosse manter o controle se soubesse.
— Mas eu precisava saber!
— Você não poderia ajudar ninguém se tornando mais uma vítima.
Ela ficou estática, segurando até a respiração, então ele prosseguiu.
— Nosso ego nos limita no que diz respeito a receber críticas, mas nossa consciência sempre vem cobrar a coisa certa a se fazer, mesmo assim, coisas como essa tiram meu sono.
Ele colocou a mão sobre o ombro de Mutsuki e falou.
— Não posso pedir que me desculpe. Se quiser me bater está tudo bem…
Ela cerrou os dentes e ofegou algumas vezes como se estivesse cansada.
— Eu morro de vontade de fazer isso, mas… Tenho mais raiva ainda de vocês terem razão… — deu um suspiro de alívio e continuou — Só quero ficar quieta um pouco, isso vale pra vocês dois…
O tinir do elevador rendeu olhares de ambos para a luz, então, Matheus colocou-se de volta em posição para ajudá-la a entrar.
— // — // —
Os dois caminharam pelos corredores brancos como os de um hospital, ainda que pequenos, silenciosos, gelados e desprovidos de pessoas, reverberando apenas alguns ecos indistinguíveis.
Matheus, que ajudava Mutsuki a se locomover, abriu uma sala cheia de prateleiras com frascos, alguns equipamentos médicos, uma cama para exames e alguns itens de escritórios para além de pôsteres sobre saúde.
Ele soltou ela sobre a cama, a mesma gemendo de dor e caminhou para os armários. Poucos instantes depois voltou com algumas pílulas, pegando o cantil de sua cintura.
— Tome. É pra ajudar com a dor.
Ela com dificuldade e mãos trêmulas conseguiu levar o remédio até a boca, mas, quando tentou pegar a água, derrubou o recipiente, soltando um breve grito.
Matheus o pegou rapidamente antes que o chão ficasse encharcado.
— Eu seguro — falou levando o gargalo para sua boca.
Ela bebeu com avidez, como se não o fizesse a muito tempo.
— Preciso ver as suas mãos… Consegue fazer isso?
Mutsuki deixou seus dedos repousarem sobre as palmas dele, mesmo contorcendo o rosto.
Ele permaneceu observando em silêncio por alguns longos segundos, de modo que seus olhos já davam sinais de estranhar a demora.
Matheus olhou para o lado, seguido dela, então, em um único movimento puxou os dedos de sua mão direita e segurou seu ombro, soltando o som perturbador de ossos estalando.
O grito de Mutsuki podia ser ouvido ecoando pelos corredores, mas foi breve, dando lugar a uma respiração freneticamente desesperada, que foi se acalmando com o tempo.
— Seu dedo mediano estava deslocado, vou precisar enfaixar junto dos outros pra ficar imóvel — disse ele pegando esparadrapo para enfaixar.
— Como eu me machuquei assim? — perguntou fazendo força para suportar a dor.
— Foi durante a luta contra Hisen… Você pegou ela.
— Eu…?
Estas palavras reverberaram de maneira retórica, cuja única resposta foi o som das bandagens passando por sua mão.
Suas feridas terminavam de serem cobertas quando o som de vidro quebrado chamou a atenção de ambos.
— Deite um pouco, nem que seja pra fechar os olhos — disse dando um tapinha no ombro dela.
Ela deu um aceno tímido e colocou sua cabeça no pequeno travesseiro que lá estava. Matheus sorriu para ela e fechou a porta do quarto, desligando as luzes, porém, Mutsuki manteve seus olhos bem abertos.
Caminhando pelos corredores, um alarde podia ser ouvido com som de gritos e batidas. Estranhamente, isso não alterou o ritmo de seus passos, que seguiam devagar.
No virar da esquina, Yuudachi estava lutando contra dois dos mesmos homens que a haviam ajudado recentemente.
Um deles tentou segurá-la com um mata-leão, mas foi prensando contra a parede três vezes até entortar o corrimão e cair cambaleante no chão
O outro usou um cassetete para tentar acertá-la, entretanto, ela desviu e puxou o cinto de seu capacete para jogar sua cabeça contra a parede, depois secou algumas vezes seu estômago e o arremessou para o chão.
Ela pegou seu bastão e caminhou em direção a ele. Prestes a baixá-lo, Matheus o segurou e chutou a pequena de modo a arrancá-lo de sua mão. Seu corpo deslizou sobre o chão branco como se fosse de papel. Quando se virou para tentar se levantar, uma mão metálica veio em direção a seu pescoço e a eletrocutou.
Seu grito foi seguido quase imediatamente da perda de sua consciência.
Matheus ficou olhando seu corpo desacordado sem nenhuma emoção e apenas a largou no chão, caminhando com a exata expressão que usava quando caminhou até lá.
Próximo a extremidade oposta do corredor, Asashio seguida de mais dois guardas vieram em sua direção.
— A Yuudachi…!
Antes de terminar sua frase Matheus apontou para onde ela estava, depois respondeu — Dormindo…
Os três não perderem tempo e correram para socorrê-la.
Matheus observou a cena por alguns instantes, até o som de um salto alto lhe chegar aos ouvidos.
Uma médica de cabelos ruivos volumosos na altura dos ombros, baixa e bem jovem se apressava.
Sem olhar para ele, voltou-se imediatamente para onde os demais estavam.
Sua respiração era intensa, assim como sua concentração que parecia estar cega para a presença do outro indivíduo a seu lado.
— Boa noite, Haruna.
Ela olhou para sua postura extremamente calma com estranheza nos olhos, apoiando sua mão direita na parede.
— O que aconteceu?
Sua resposta veio na forma de um tapa que estalou alto pelo lugar.
— Pra onde você mandou elas?!
— Pra onde você pensou que eu mandaria?
— Elas são mentalmente instáveis! Você sabe o quão difícil foi pra ela que não conseguia nem mesmo comer sem ajuda?! — disse apontando para Yuudachi.
— E se não fossem elas, quem mandaríamos no lugar?
— Poderíamos ter mandado alguns dos nossos agentes!
— Igual aqueles dali? — perguntou apontando para os dois guardas que estavam sendo socorridos.
Haruna abriu a boca como se quisesse falar algo, mas recorreu ao silêncio e preferiu suspirar olhando para o chão.
Ele então andou até os outros sendo seguido a passos lentos por ela. Asashio, que estava ao lado de sua colega desmaiada, olhou para ele, que se colocou de joelhos ao seu lado, levando a mão direita acariciar as bochechas de Yuudachi com um sorriso melancólico no rosto, dai a colocou em seus braços e caminhou logo atrás de Haruna.
No meio do caminho, falou mais uma coisa a sua colega antes de ir.
— Kumano, deixei a Mutsuki na enfermaria perto da entrada. Se ela dormiu, achou que vai gostar de companhia quando acordar.
As duas silhuetas desaparecerem dos olhares dos que ficaram, seguidos pelos guardas carregando seus companheiros.
Asashio ficou esperando com um olhar preocupado até Yuudachi finalmente sair de sua vista.
— // — // —
Haruna abriu a porta de uma das várias salas, um quarto que outrora seria digno de uma clínica de alta classe, mas que no momento se encontrava em farrapos.
A cama havia sido jogada contra a parede e quebrado uma das janelas. Um vaso com flores coloridas agora espalhava terra e água pelo chão branco. Até mesmo uma televisão de quase 50 polegadas não escapou de ser quebrada.
— Coloca ela na poltrona e me ajuda a desvirar a cama — pediu Haruna.
Matheus deitou Yuudachi sobre o couro marrom e reclinou o assento para deitá-la, a mesma dormindo profundamente.
Ele agarrou o móvel e a desvirou, sem deixar esperar pela ajuda.
— Não estou mais tão fraco quanto costumava… Graças a você, minha querida amiga.
Ela arrumou as cobertas de volta em seu lugar e depois se sentou sobre o colchão bastante generoso. Seu olhos logo encontraram Yuudachi dormindo serenamente.
— Nem parece que ela fez isso…
— Eles nunca se parecem com o que são.
— Tem razão… Eu deveria saber disso melhor que ninguém. Acho que nunca vou deixar de ser ingênua.
— Não fale assim. Todos gostamos de você justamente por sua delicadeza, compaixão e empatia… Eu não seria nada sem você… Não deixe o mundo tirar o que você tem de melhor.
— Obrigada… — respondeu balançando levemente para frente e para trás, genuinamente tentando sorrir, então continuou — Yuudachi não tem ferimentos físicos, mas como pôde ver, sua psique se desorganizou muito.
Seus pés tocaram os cacos de vidros sobre o chão, organizando-os de maneira lenta, quase como se para matar o tempo.
— Satsuki não está bem… O silêncio dela me preocupa, ainda que ela nunca tenha falado, nem mesmo comigo, sobre seus problemas. Dá pra ver que está abalada, já o quanto não sei dizer.
Haruna se levantou para caminhar até a televisão e tocar em seu vidro trincado.
— Kasumi está na sala de cirurgia. Seu estado não é grave, entretanto, vai precisar tirar a bala das costas e levar alguns pontos. Considerando quão resiliente ela é, acho que é só questão de tempo até estar recuperada.
Matheus olhou para as cortinas que balançavam com o vento.
— Temos ainda a novata, Mutsuki, que você ainda não conheceu.
Ela levou a mão ao peito, abriu os olhos e respondeu com espanto.
— Eu me esqueci de…
— Tudo bem — respondeu ele levantando a mão esquerda pedindo calma — Eu já cuidei dela. Depois pode dar uma olhada melhor. Coloquei um dos dedos da mão direita dela no lugar, mas gostaria que fizesse um raio x pra termos certeza… Resolver está situação vai dar dor de cabeça…
O silêncio foi quebrado uma voz lenta, mas imponente.
— Matheus, que coincidência, estava te procurando agora…
Um homem envelhecido de cabelos grisalhos vestindo um terno preto estava parado na porta do quarto.
— Boa noite, Amon…
— Boa noite…
Ambos se olharam, com o segundo respondendo de forma serena, contrariando o ar de intimidação que ele exercia.
— Por favor, queiram ajudar Haruna a arrumar o cômodo — falou para alguém que estava no corredor, que logo se revelaram como sendo homens vestido de preto, semelhante ao dele.
Matheus cruzou por eles andando lentamente de encontro a seu mestre, que começou a andar pelos corredores até uma saída de emergência, que ele fez questão de se segurar para que passasse, mesmo sendo seu superior.
Uma vez nas escadas, ambos começaram a subir, momento no qual Amon fez uma pergunta.
— Foi ferido?
— Não, senhor, infelizmente não posso dizer o mesmo da equipe. Atualmente temos quatro baixas, duas das quais sofreram danos mentais por causa de um poder psíquico vindo de Hisen.
— Dois terços da equipe… Isso é pior que Stalingrado.
Terminando estas palavras, ele abriu a porta para o terraço, deixando soprar o vendo escada a baixo.
Caminhando a passos lentos olhando para o céu estrelado, seus olhos repousaram sobre o horizonte que já começava a ficar um pouco mais claro.
— Devo entender que nosso experimento foi um fracasso?
Matheus ficou alguns segundos quieto, reflexivo, encarando suas costas.
— Olhando somente para os danos, sim, podemos dizer que fracassamos, mas ao mesmo tempo, não tivemos nenhum ferido fatal, então é só uma questão de tempo até estarmos recuperados. Em contrapartida, eliminamos um dos lideres do esquema de Makimoto.
Amon balançou discretamente a cabeça algumas vezes, como se estivesse concordando com os pensamentos que cruzavam por sua mente.
— É possível, entretanto, isso também é um problema. Estamos com uma unidade, das mais importantes, parada. Temos cinco mulheres instáveis das quais não temos pleno controle, alias, nem mesmo elas o tem, ainda sim, as estamos jogando contra o mais vil da escória deste mundo, na esperança de que vençam…
— Isso soa familiar pro senhor?
Mais uma vez ele gesticulou, acenando com a cabeça, desviando seu olhar de um canto para outro e mexendo os lábios de modo que dava a entender que estava concordando.
— Acho que para ambos de nós, meu amigo. Seja nas ruas do Japão, da Venezuela ou da União Soviética, nós sempre estamos contando com a esperança de que as coisas vão melhorar…
— E se não fosse por isso, não estaríamos aqui.
— De fato…
Amon finalmente se virou para vê-lo.
— Muito bem. Quero que cuide delas durante seu tratamento. De todo modo, nossos inimigos estão mais alertas do que nunca, então faz bem esperar a poeira baixar, entretanto, tenha em mente uma coisa.
Ele proferiu estas palavras caminhando lentamente para sua direção, dai tocou seu ombro antes de continuar.
— Você sabe que é fundamental esperar pelo melhor, mas no fim, aquilo para o qual nos preparamos é sempre o pior… — Amon levantou um pouco o rosto e respirou mais alto antes de terminar sua sentença — E, as vezes, ele acontece…
Matheus observou com os olhos entre abertos o chão, enquanto deixava a presença de seu lider desaparecer com o som de seus passos.
A solidão veio trazida pelo som do vento uivando no alto do terraço do prédio.
O momento durou apenas alguns instantes, até algo começar a tocar-lhe o rosto de maneira gentil e calorosa.
Sobre o outrora sombrio horizonte, os raios de sol começavam a brilhar, iluminando sua existência, seu presente e passado, mas ousando não se aproximar das trevas que cobriam seu futuro.
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