Pôr do Sol Brasileira

Autor(a): Galimeu


Volume 3 – EI

Capítulo 52: Uma Noite Engraçada (Parte 1)


 

Passo a passo, com a noite cada vez mais profunda, a areia recebia quem retornava da caminhada.

Cortax deu três toques no portão. Seu corpo, automaticamente avançou pela porta, mas sua testa recebeu o terrível metal com dureza.

— Só falta o porteiro estar dormindo.

Quando procurou pelos arredores, as câmeras vidraram no seu rosto como um imã. Tentou focar em todas, só que sua atenção se rendeu apenas para que estava diretamente acima, dizendo:

— Pode abrir por favor?

— Cortax.

— Xerta? Cadê o bom-samaritano que devia estar no turno agora?

Perante o rosto confuso, um holograma brotou a meio centímetro do seu nariz.

Reconheceu de cara quem apareceu com a boina roxa, no entanto, havia uma certa hesitação no comportamento robótico da chefe substituta.

— Irei abrir, aguarde um segundo.

Após a voz doce sair da tela suspensa, o portão começou a levantar sutilmente. No outro lado, estava tudo completamente normal. A ODST não para, e naquele dia não era para ser diferente.

— Sei que não devia ter que cuidar do seu antigo papel em guardar a ODST, mas valeu. Você está bem? Acordada essa hora. Não devia exagerar. Xerta?

Com a entrada erguida, o terceiro nível se preocupou mais uma vez no dia, viu o semblante desalmado de Xerta e levantou a sobrancelha.

Sem resposta.

O holograma desligou.

— Xerta?

Uma situação ideal passou pela cabeça: a Xerta devia repreendê-lo por sair sem aviso, ainda mais seguindo o péssimo hábito do seu líder.

Porém, nada foi constado, destacado, detalhado ou mostrado.

A atual chefe, simplesmente, o ignorou.

— Estranho. Estranho mesmo!

Perto do portão, ainda havia o grupo de soldados que atuavam como seguranças, estavam tranquilos numa conversa até verem o assunto na noite andar apressado até eles.

— Se-senhor! — ficaram de prontidão, pegos de surpresa.

— Onde tá o Sierra?! Era pra ele estar no turno agora!

— Senhor, ele não está lá? Foi no banheiro talvez.

Tsc!

Cortax se adiantou em passadas rápidas. Os soldados soltaram a postura rígida, se apoiando na parede próxima.

O terceiro nível estava agoniado. O dente para fora não clamava por raiva ou angústia, era ansiedade.

Qualquer “i” sem o devido pingo descarrilharia seu trem de lógica. Agora, tudo que resumiu mentalmente foi: “não conseguirei dormir sem ter uma boa resposta”.

Apertando os punhos e os escondendo de volta no bolso, realçou o pensamento sincero em tons altos de voz:

— Se tivesse comprado pipoca!

Mirou a visão no objetivo final da noite agitada — o prédio central, sendo mais preciso, o último andar que tinha luzes ainda acesas.

Muitos o observavam com cautela, sua posição de superioridade era clara, mas não numa posição de agir com total impulsividade.

A silhueta centrada de alguém com comentários cômicos se convertia a uma persona insegura.

— O quê?

Seu trote de corrida foi interrompido quando algo foi fisgado pela visão periférica. Um vulto esguio se arrastou pelo chão, correndo para as sombras dos prédios.

Franziu o cenho, incrédulo com o que constou. “Ansiedade não causa alucinações até onde sei”.

Sem pensar uma segunda ou terceira vez, concordou com o instinto de apenas seguir aquilo.

— Tanto absurdo no mesmo dia que diria que estou num pesadelo.

Começou a acelerar os passos, quase à mercê de se declarar um perseguidor veloz. No instante que seu campo de visão entraria em contato com o corpo estranho, via o vulto dobrar a esquina e deixar sua sombra indicar o rasto.

A minicidade que poderia ser descrita como ODST favorecia a fuga entre os labirintos de concreto.

Parou de brincar, Cortax usou sua energia para levitar e adquirir altura para ver o alvo com facilidade. Foi um pulo abençoado pelo vento, o suficiente para o deixar acima do terraço de uma edificação ao lado.

— Como ninguém mais tá vendo. O prédio do terceiro nível?

A pequena mancha escura contornava cada esquina e obstáculo a ponto de nenhum soldado, cientista ou qualquer funcionário estivesse apto de enxergá-lo.

Veloz e sorrateiro. Cortax contraiu a cara em agonia. “É perigoso ou não?!” Neste dia, não tinha o luxo de ter a ignorância, precisaria verificar por conta própria o que parece ter invadido a instalação.

O caminho era um zig-zag que tendia a direção do mesmo prédio que começou a noite; logo, passou a mão pelo pescoço e acabou a deixando ir para o cabelo, receoso pelo que faltava:

— Tinha que ter trazido o cachecol. Hoje não é meu dia!

Subiu na platibanda e declarou a insatisfação quando a gravidade reforçou cada átomo. O corpo inclinou e se atirou da platibanda, deixando a inércia cuidar do resto.

Ascenda!

A ignição floresceu mais forte, invés de um simples impulso, a aura verde iluminou como uma estrela.

Voou rapidamente para o mesmo alvo do invasor, mas notou algo esquisito. A velocidade dele não foi a única que aumentou.

— Ele me viu?

A figura desapareceu ao entrar em contato com a porta. Na sua visão, era óbvio que aquela coisa misteriosa iria provocar uma colisão devida.

E nenhum barulho veio.

Cortax parou o voou logo acima do prédio do terceiro nível, girando o corpo ao redor, na tentativa de achar o novo paradeiro.

— Só falta aquilo ter entrado lá.

Vagarosamente, abaixou a altura para que seus pés pudessem sustentá-lo no chão invés de sua energia.

Adiante, a porta estava intacta. Painel desligado, sem arranhados, marcas ou uma procedência de um convidado inconveniente.

Levantou a palma até o painel e abriu a porta quando sua mão foi reconhecida.

O barulho do interruptor, que acendeu as lâmpadas do interior, reverberou e deixou o silêncio tomar conta.

Seu cabelo ficou estático, similar as roupas que perderem o toque dos ventos e sentiram a frieza tocar cada canto; Cortax varria cada milímetro da sala, cozinha, lavabo... até atrás da porta.

O sinal do ser estranho desapareceu.

— Aparece! Já notei você, é bom se apresentar antes que eu perca a paciência! O quê?

Poderia haver a possibilidade de ser um evento combinado, somente poderia. A TV, que ainda estava com os erros técnicos num alerta da reportagem, assumiu o silêncio, destruindo por definição:

— Boa noite... O jornal regional do Primeiro Setor está tomando deste sinal momentaneamente para avisos urgentes: os eventos recentes na Cidade Flutuante estão... sendo controlados pelas forças responsáveis pelo local e não exigem a preocupação das regiões... próximas. O estado de calamidade, que havia sido declarado pela prefeitura da Cidade Flutuante, será normalizado até o...

Antes de ser interrompido pelo controla remoto, um apresentador retomou com atualizações sobre a situação catastrófica. Houve uma expressão desconcertada, como se lesse algo que não acreditava.

Os dedos do agente tocaram no controle, desligou a tv e colocou de volta no rack lentamente, havia ligeiros toques incomuns no piso que vinham de suas costas.

Se tornaram ranhuras, batidas, deslizadas que se repetiam centenas de vezes para o escalar do perigo.

Um grunhido veio, algo se contorceu e tremeu a sala num bote para acertar o homem loiro.

A agitação foi interrompida com precisão. Cortax só apertou o punho, a aura reagiu ao comando e segurou o invasor, que estava a centímetros de o atingir, pondo em prática sua energia de gravidade.

— Poderia ter te matado agora, mas... QUE TROÇO É ESSE?!

Enquanto se virava de costas de olhos fechados, havia a imagem mental de ser outra pessoa com a energia, afinal, Dourres havia o alertado que essa possibilidade existia.

Contudo, algo abismal foi constado por seus olhos: uma centopeia de escala surpreendente que continha uma boca próxima de dilacerar sua alma pelas inúmeras camadas de dentes.

Completamente preta, quase não havia silhueta o suficiente para dar noção de profundidade, podia mesmo parecer uma mancha que se mexia.

Grunhidos, estalos dos dentes, patas se debatendo... a criatura tentava se libertar da aura de Cortax, que deu um passo para trás, com olhos arregalados.

— Como uma desgraça do satanás entrou aqui? ERA JUSTO O QUE ME FALTAVA.

Desta vez, após tantas interrupções, decidiu por interromper a própria fala. A tela desligada da TV cobriu um dos lados de sua visão.

— Essa coisa também esteve lá?

Pelo reflexo, podia ver a si mesmo, afastado da sua aura que colocava forças gravitacionais que atuavam para conter um alvo, emitindo um chiado constante. O detalhe crucial era que... a aura segurava o simples nada.

A criatura estranha, que invadiu a ODST sem problemas numa velocidade impressionante, estava completamente invisível no reflexo.

Seu comentário não foi um simples blefe, foi um raciocínio direto.

As imagens da reportagem vieram na sua cabeça, ver as pessoas morrerem pelo nada no parque do festival flutuante, a luta estranha que desconhecidos tiveram com o ar e, finalmente, um jovem empalado de repente.

— Não aparece nas câmeras, nem no reflexo, o sistema de segurança não o detecta... Droga de dia! Hoje. Não. É. Meu. Dia!

A raiva o consumiu, veias apareceram na testa e mal aguentou a ansiedade, disparando pela sala o afirmar cruel de um péssimo dia. Cada palavra potencializou o campo de energia que continha a centopeia.

Mais e mais a aura era comprimida, mais e mais grunhidos vieram, mais e mais nervos apareceram nos punhos do homem loiro.

Por fim, um grito final. A centopeia implodiu na sua frente, jorrando um líquido negro pelo interior do prédio.

No mesmo instante, a aura segurou o suficiente para que nenhuma gota o atingisse, desenhando sua projeção perfeita do corpo do agente no chão, atrás dos seus pés.

— Eu vou acordar do pesadelo logo em breve. Posso até estar alucinando... ou eu fui pra um isekai... É. Tá tudo bem!

Um barulho estranho de metal reverberou no mesmo instante da implosão, tremeu o piso enquanto Cortax foi sincero consigo mesmo.

Foi uma bela sincronia, começou a andar de volta em direção às escadas e, quando seu sapato tocou no primeiro degrau...

— Se eu dormir no pesadelo, pode ser que acabe mais... rápido?

A pisada desajeitada ressoou outro temor.

Havia coincidências em exageros para considerar no mesmo instante.

Cortax começou a revirar o pescoço lentamente para a porta da entrada, que emitiu um alerta vermelho no painel.

Pipocos abafados, tremores sequenciais e, por fim, vozes:

— Socorro!

— Fogo!

O olhar afinou em tensão, vozes de soldados vieram do lado de fora. Seu punho se firmou e projetou seu corpo até a entrada para sair.

Cortax reagiu instantaneamente, mas foi parado pela voz robótica que disparou pelo prédio do terceiro nível:

Começando interrogatório.

— Quem ativou isso?! Droga! Abre a porta!

A sala começou a se isolar e fechar quaisquer aberturas, antes que pudesse examinar o lado de fora, as janelas reforçadas se tamparam e mecanismos fizeram a estrutura se encurtar.

Uma mesa longa apareceu; uma cadeira surgiu entre suas pernas e dobrou seus joelhos perfeitamente para o derrubar em cima do assento.

— Quem ativou o interrogatório? Não consigo sair!

Estava grudado à cadeira, preso na posição de sofrer pelas perguntas hipotéticas que este modo de segurança havia sido projetado.

Esperneou e nada o tirou de lá.

— Desativar interrogatório!

Comando de voz não autorizado.

— Onde está o terceiro nível?! Ahhh! — Uma voz feminina e abafada penetrou vagamente dentro da sala, vindo do lado de fora.

Poha!

O chão trêmulo demonstrou presença como se uma manada de animais se locomovesse reunidos para um único ponto. Pouco a pouco, reconheceu que os pipocos sequenciais eram tiros.

Barulhos aumentaram e mais vozes começaram a surgir.

— Desgraça! Me. Solta!

A raiva vigou em cada célula. Dentes amostra e cabelo solto, Cortax fez seu cachecol flutuar de volta e enrolar no pescoço ao ter a aura cada vez mais forte.

— Foda-se os protocolos!

Completo pelo cachecol seu poder começou a se expandir e tomar controle do prédio inteiro. Rachaduras, trincas, ferros retorcendo.

Falha crítica estrutural. Por favor, evacuem o perímetro da edificação.

— Disse a droga do robô que me prendeu aqui.

O ambiente ao redor se retorceu para libertá-lo do interrogatório — paredes se esticaram e destroços começaram a fazer uma órbita ao redor do agente.

Sem que percebesse, no segundo que resplandeceu a aura nos olhos, o painel piscou numa interferência, o que vazou um sorriso desconhecido que emergiu na tela.

A cada estouro das vigas e pilares que não foram dimensionadas para campos gravitacionais, lajes abriam um buraco que permitiu Cortax abrir caminho até o telhado.

Luz do luar o recebeu, ajeitando o cachecol, livre das garras da cadeira que o prendia, pode apreciar a doce surreal vista do absurdo.

— Quantos...

A palavra escapou.

Compreensível.

Afinal, os monstros que quase não tinham perspectiva tridimensional haviam tomado a ODST.

Um pouco de fogo ali, cadáveres lá, destroços ao redor. Houve só uma casual e singela invasão por criaturas que desafiavam a imaginação humana.

Para finalizar a noite normal, havia pálpebras que conduziam espasmos sinceros de um absurdo simples.

— São muitos! Recuem para o setor de pesquisa! Corram!

O soldado que guardava o portão levantou um fuzil para escoltar alguns funcionários, que corriam junto a outros grupos maiores para se protegerem.

Bestas em formas de animais distorcidos, insetos com dentes em dentes, demônios com formas de chifres. Peixes que pareciam nadar pelo ar.

— Merda! O inferno veio dar um oi? Hein?! Hein?! Uhh!

Bravura reinou nos movimentos precisos, mas só precisos, faltava agilidade ou destreza para deter alvos que inundavam a visão.

Ahhh!

Uma criatura humanoide, com o braço fino como uma lâmina, cortou os braços do soldado numa investida que durou nem uma piscada.

A pose séria se diluiu em lágrimas de dor e medo.

Camadas de presas foram apontadas para a vítima que desenhava o rastro de sangue, usando sua última vitalidade para se arrastar para longe.

— Não. Não. Não. Nãoooo!

As bocas sedentas abriram e revelaram os infelizes que foram surpreendidos por último: cada soldado que importunou com Dourres e Cortax tinham suas cabeças dentro de cada criatura.

Aahhhh! Demônios! Demônios! Nãaaao! Por favor! Nã...

Miraram na cabeça do homem sem braços e o maior queimou a largada — um lagarto com ossos negros expostos pulou para abocanhar e completar a coleção de cabeças.

Antes do último suspiro ser finalizado, o homem travou a própria respiração ao desviar o olhar num choro.

Poeira do concreto invadiu a vista, cobrindo qualquer detalhe de repente.

Um pilar, uma placa, uma porta, outro pilar e, por fim, uma estaca. Cada elemento estrutural perfurou os monstros, ainda de bocas abertas.

Quando a poeira abaixou, apenas evidenciou a pintura saborosa de espetos monstruosos. A ventania apareceu e limpou a acabada batalha pontual, restando apenas os tiros de fundo de outros locais.

— Co-Cortax! Obrigado! Muito obrigado!

Um pano flutuou até os braços decepados e fizeram uma amarração para estancar o sangue, sendo majestosamente guiados pelo indicador do terceiro nível.

— De onde vieram?

— Eles... Eles vieram das sombras! Literalmente das sombras como poças de petróleo! Eu-Eu... Eu... São muitos!

— Eu vou cuidar deles. Retorne ao grupo que estava escoltando, peça para toda a força se reunir e tornar o setor de pesquisa um forte. Ilumine cada canto e transmita mais essa mensagem...

— Cortax?

Feito um balão, o soldado levitou e foi direcionado em alta velocidade para o mesmo grupo que mandou se afastaraem.

— Vou encerrar esse pesadelo.

O rapaz foi arremessado, ficou à mercê da pegada de um outro soldado que o agarrou, foi socorrido e levado até o enorme grupo que evacuava da área próxima à entrada.

Tudo que pode ver por último foi o olhar esmeralda que irradiou o campo de sangue, coletando cada destroço para usar como arma.

Uma marca em sua mão brilhava e reagia aos poderes, como se dissesse que não há limites capazes de segurá-lo.

Cada forma geométrica do cachecol se reordenou num arranjo simétrico.

Assim, deu início à noite mais engraçada da sua vida:

Uma noite de pesadelos e coincidências.

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