Pôr do Sol Brasileira

Autor(a): Galimeu


Volume 3 – EI

Capítulo 51: Solidão inquieta


 

[Na ODST do Primeiro Setor, na noite do ataque ao hospital da Cidade Flutuante]

 

O tempo se tornou um assunto delicado demais para os fios loiros. Com o corpo despejado no sofá, esparramado com lanches em volta feito um refúgio do apocalipse, Cortax estava vidrado na única fonte de luz: a TV da sala.

Mais precisamente, estava na sala do prédio dedicado ao terceiro nível, mas havia somente o noticiário para evidenciar sua solidão. Olhos arregalados se recusavam em admitir que detalhes fossem perdidos, especificamente os que fizeram comentar para si:

— Que porra é essa...

Para surpresa de muitos espectadores, a suposta e simples comoção do atentado ao parque flutuante se transfigurou em tons de fervor em sangue. Pela visão de Cortax, algo espetou e levantou um jovem cabelo azul nas proximidades do hospital da Cidade flutuante, embora não soubesse dizer o que com as imagens do helicóptero do noticiário.

Poucos segundo bastaram para a transmissão ser cortada, até sua respiração foi cortada repentinamente. A reportagem foi transformada numa imagem pronta de “erros técnicos”.

Cortax esfregou os cabelos e desenrolou o cachecol, sua pupila tremia e suas pernas se inquietaram.

— Que desgraça tá acontecendo na Cidade Flutuante?

Jogou o cachecol para longe, havia um suor frio que escorria e isso o agoniava aponto de colocar dentes para fora.

Passos acelerados se tornaram a contradição da solidão, ecoando pela sala do térreo até a porta, que abriu e revelou o exterior para o homem loiro que se comportava como vampiro.

O noticiário de tragédias ficou sem a atenção do terceiro nível, que deixou a TV ligada.

As luzes o cercaram e quase o fez sentir como se pesassem. Seu antebraço bloqueou parte do rosto até que a visão se ajustasse para a nova imagem: a calmaria de sua ODST.

Apertou os punhos e o dois momentos vieram como clarões de lembrança: Beatrice foi à Cidade Flutuante; Dourres foi atrás de Beatrice depois de ser atacado, indo também a cidade Flutuante.

Beatrice estava sendo vítima? Xerta, a atual substituta do chefe da ODST, deveria se preocupar com Beatrice, certo? Porque permitiu que saísse de seu posto?

Cortax, no fim, não conseguia tirar sua amiga da cabeça. Um certo perigo desconhecido cochichava no ouvido e isso trazia... arrepios.

— Coincidência demais... O que você está fazendo de verdade, Beatrice? O que vocês estão tramando? Perderam o juízo?!

Nitidez abraçou o rosto, que estava desconfortável ao fazer uma pergunta para quem não podia fisicamente o ouvir. E isso o atingia, machucava. “Ela nem olhou pra mim quando foi embora, nem disse nada”.

O fato de parecer ser o único que não tem todas as informações o irritava; sua presa ficou levemente exposta e se rendeu ao impulso: faíscas esverdeadas; cabelo leve, corpo leve, roupas leves... pensamento mais leve.   

Ascenda.

A ignição sutil contaminou cada átomo de seu ser e uma aura verde tomou conta. Junto do brilho que resplandecia, os pés sentiram o chão se afastar. Seu casaco sentiu a ventania. E sua pele sentiram o poder dos ventos.

Estava flutuando, a gravidade perdeu o sentido e deram controle total ao agente, que voou até o telhado para reconsiderar os próprios pensamentos.

“E Dourres é teimoso demais para me contar algo. Tudo que sabe é repetir que há inimigos por todo lado. Só que...”

Ao circundar o perímetro, averiguando os funcionários da ODST feito formigas devido à distância, encontrou um obstáculo para enxergar a entrada da instalação, pois havia o imenso prédio com aparência de torre no centro, que bloqueou a direção do olhar.

“Ele sempre conta comigo. Ele conta comigo por outra razão. Mas... dessa vez, não posso ignorar”

Inclinou a cabeça e fez o próprio corpo virar uma flecha, voou até a porta de entrada, desviando do grande prédio e assustando a equipe que vigiava ao aguentarem a ventania que os atingiu sem aviso.

— Até eu fiquei tentado a fazer uma caminhada noturna. Hm! Se Xerta não quer me dizer nada também, acho que estou entendendo como o Dourres se sente, essa estátua de uma figa.

Preocupações o rodeavam, fez o sinal para os soldados abrirem o portão e saiu com passos desajeitados.

— Ele tá bem? — perguntou um soldado, cochichando para o colega ao lado.

— Será que a doença do Dourres é contagiosa? — reforçou uma soldada.

— Para de ser sem noção! — Uma senhora faxineira deu um ligeiro beliscão, desapontada pela postura do que deveriam ser exemplos.

Ai! Nem vem! Você sabe que ele podia só ter voado por cima da entrada! Ele não tem a mínima ideia do que tá fazendo! Que nem o filhinho do papai que tá viajando suavão agora. Ih!.

— Ele precisa manter as aparências fora da ODST, e você sabe que as pessoas de foram não enxergam o lado de dentro — Numa correção ameaçadora, a faxineira rendeu o soldado de joelhos ao apertar as orelhas.

Os soldados foram repreendidos com o argumento fatal, a senhora que os corrigiu forçou o silencio, pois nada iria retrucar o simples soar dos fatos.

Cortax já havia criado uma certa distância, mas pode ouvir os comentários, franziu o cenho e precisou concordar, assentindo a cabeça.

— Eu não devia ser dependente de ordens. Fazer o quê?

A areia estava fria e a luz da cidade adiante estava no horizonte, bastava alguns quilômetros para concluir a rotina do seu líder.

Atravessou um atalho conturbado pela trilha da mata e alcançou a placa de boas-vindas. Adentrou pela cidade e prosseguiu até o centro, o lugar onde sempre havia becos manchados pela estrela; o mesmo lugar que Xerta sempre pediu para alguém vigiar Dourres.

— Ela fez tanta questão para que eu ficasse perto, e deixou ele ir para a Passagem. Isso não tá certo.... Faz só alguns dias, mas ainda não soa certo.

Antes de virar outra esquina, o passo travou pouco depois de subir no meio-fio. Havia finalmente avistado a praça na qual a ida da caminha noturna se encerrava.

O queixo inclinou um pouco. Havia um certo tráfego naquela hora da noite, fez questão de sair enquanto ainda pudesse ver pessoas, ao contrário do seu líder.

Tentou descer a rua para se aproximar do banco próximo, porém, uma certa melancolia nas palavras apareceu:

— “Soa”... A Still tá com ele ao menos... então dá pra dizer que Xerta não está fazendo algo estranho. Ou está? Por que tenho um pressentimento tão ruim?

— Algum problema, senhor? Falando sozinho?

He... Desculpa.

Um homem mais velho o abordou com simpatia, apesar de alguns fios brancos, não era digno de ser enquadrado como idoso.

Cortax virou para trás, após se desculpar, e quase tropeçou ao esbarrar no braço estendido do homem mais velho. De cima a baixo, analisou e constatou algo simples: um carrinho de pipoca.

— Seu rosto tá todo tenso! Tome. Isso vai espantar os problemas por pelo menos alguns segundos. — No braço estendido, havia um pequeno saco de pipoca.

— Desculpe, tenho assuntos pra... Misturada? Doce e salgada? Nunca vi alguém vender assim.

— Você tem muita graça.

Han?

— Este é por minha conta, engole!

— Ca-calma!

Sendo rendido a tentação do gosto contraditório das pipocas coloridas e brancas, deu um passo para trás, tendo o saco enfiado goela abaixo pelo homem, que sorria casualmente.

— Nossa. É bom mesmo.

— Viu? Já esqueceu seus problemas.

— O-obrigado.

Agradeceu com um leve sorriso com os lábios, embora ter-se engasgado inicialmente.

Limpou as bochechas e começou a catar pipoca por pipoca do saquinho em direção à boca.

— Na próxima, comprarei mais. Não só pra mim, espero.

— Vejo que está sentindo-se solitário.

— De certa forma.

O rapaz se aproximou e cutucou o ombro do homem  loiro de olhos puxados, que prestou mais atenção ao sentir o toque.

— Se minha opinião ainda vale algo, diria para aproveitar mais.

— Aproveitar?

— Aproveitar a graça na vida.

O desconhecido apontou para a praça e destacou as famílias que andavam juntas, comiam, brincavam... E continuou, ao direcionar este mesmo dedo para o peito do terceiro nível:

— Todos eles estiveram sozinhos em algum momento. Nada dura para sempre, nem mesmo a solidão. Essa é a graça da vida.

Mais que sentir a ponta do dedo, Cortax foi tocado pelas palavras, abriu um pouco mais os olhos e fechou logo em seguida, aceitando o que ouviu.

“Pode ser a primeira e última vez que fico sozinho para proteger a ODST por alguns dias. Melhor ficar o mais centrado possível”.

Logicamente, não havia como um desconhecido ter ciência das motivações que deram origem a preocupação da noite. Soluções não foram o que ouviu, na verdade, foram maneiras de impedir que o problema piorasse.

No fundo, isso foi captado como uma solução.

— Entendi. Me diz uma coisa, qual é o seu nome?

— Moço! Me vê duas pipocas de doce.

— Pra mim também, moço! Mas quero duas de sal.

Quando reabriu os olhos, fez uma pergunta para conseguir marcar mais o rapaz que o ajudou com simples palavras sensatas.

Sua pergunta foi abafada pela animação de duas crianças que pediam pelo gosto saboroso que provou. Mais pessoas viam para fazer a fila repentinamente.

Teve a sensação de que vieram do nada, mas relevou, ao piscar algumas vezes.

Cortax, conquanto de precisar ter sua atenção do conselheiro roubada, sentiu-se aliviado. Afinal, o rapaz merecia a atenção de pessoas que podiam retribuir melhor com os seus serviços.

Deu meia volta e prosseguiu seu caminho enquanto o pipoqueiro fazia milagre para atender todos com seu carrinho.

Avançou pela rua, passeou pela praça, que estava iluminada com enfeites nas árvores. Enfim, observou o movimento, sentado num banco.

— Talvez... Dourres só quisesse um pouco de paz. Na próxima, caminharei com ele.

Após alguns minutos de contemplação da calmaria fora do perímetro da instalação militar, decidiu ir na direção do banco.

Estava cedo demais para que qualquer malfeitor começasse a fazer seus respectivos trabalhos. Se atentava a cada esquina ou canto dos becos com olhadelas aceleradas na visão periférica.

E nada suspeito vinha à tona.

Passou a mão pelas paredes e arrastou a pegada pelos objetos até tocar em um que mirava desde o início.

— Continua piscando. E parece que consigo te tocar. Não estou numa ilusão ou...

Atropelou as próprias palavras.

— Estou realmente achando que tem inimigos aqui?

Sem deixar aviso, abaixou a cabeça e se rendeu por completo. Cortax estava aos poucos começando a acreditar em Dourres.

Bufou aos ares. Seria conveniente acreditar no líder quando começou a suspeitar dos colegas? Ou foi a solidão que o deixou sensível?

Independente da forma que interpretasse, havia só uma afirmação que havia certeza que não seria desmentida ou suspeitada:

— Tanta coincidência... Xerta nos pede pra vigiar o Dourres dobrado, o chefe desaparece, dispositivos da ODST sendo usados pela estrela, a operação no morro da lei. Beatrice também some, e fui abandonado... como um tipo de “última linha de defesa”.

O poste piscou três vezes seguidas. Quando olhou para cima, a luz ficou estática por mais tempo que o normal.

— Dourres me contou, senhor poste, que é um bom psicólogo. Vou perguntar como é sua voz quando eu encontrar o dito cujo.

Depois da caminhada terapêutica com direto a uma sessão grátis de coach, meditação e tratamento psicológico; encerrou o trajeto ao se deparar de frente ao banco.

Para a surpresa de um total somado de zero pessoas, a fachada estava normal, exceto no porta levemente mais reforçada por cadeados grossos.

Hi! Acho que não dá pra hackear um trambolho desses.

Passou a mão pelo pescoço e respirou fundo. Retornou ao virar à direita para dar continuar a volta para a instalação.

O movimento ainda era satisfatório para os pais deixarem crianças brincarem pelas ruas. Andava pela calçada enquanto ria de alguns meninos com jogadas desajeitadas ao brincarem.

— Caramba! Minha bola!

Um dos meninos chutou a bola na tentativa desesperada de evitar o gol do adversário; contudo, o outro — vulgo dono da bola — gritou em lágrimas quando notou a direção fatídica.

Um carro vinha em direção ao brinquedo, estava longe o suficiente para ter nenhum contato com as crianças, mas sua velocidade era alta o bastante para impossibilitar que o desvio ou a parada fosse realizada.

A bola tinha seu destino selado pelo pneu que explodiria as esperanças de um menino choroso.

O indicador de Cortax, que esteve escondido dentro do bolso, se revelou ao fazer um micro gesto — simplesmente empurrou a bola.

No arrastar da ponta da unha pelo vento, o brinquedo reagiu. Uma aura verde apareceu, num nono de piscada, e envolveu o brinquedo.

Ahhhh! Ufa!

O menino limpou o suor frio com o braço e suspirou. Na sua visão, calhou de a bola passar entre as rodas e sair ilesa.

Para Cortax, foi a reação de milésimos que salvou a noite da criança de ser um trauma de vida. Assim, seguiu o caminho como se nada houvesse acontecido.

Um espectador conveniente para o momento pontual.

— De nada.

Colocou as mãos por trás do pescoço e relaxou. O menino apenas deu uma olhadela para o pedestre comum de cabelo loiro e prosseguiu para exibir suas jogadas estranhas.

Mesmo que agradecimentos fossem o bastante para acabar com a melancolia, precisava manter sua identidade firme feito aço.

— Como eu queria só sair voando do nada...

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