Volume 3

Capítulo 1: Quando você volta para a cidade inicial com o grupo completo, coisas novas costumam acontecer. (PARTE 4)

No dia seguinte, era 30 de julho, o dia da reunião.

Assim como Hinami havia previsto, deveríamos nos encontrar na Estação Kitayono às duas horas. Cheguei à estação cerca de cinco minutos mais cedo e fiquei lá, assando sob o sol escaldante. Estava usando a calça e os sapatos do conjunto do manequim e a camiseta que Hinami havia escolhido para mim dois dias antes.

Aparentemente, o plano era para nós quatro nos encontrarmos e irmos para a casa da Mimimi para conversar.

Eu já tinha ido ao quarto de uma garota duas vezes antes — uma vez quando Hinami me arrastou para a casa dela e outra vez quando fui à casa da Izumi para ensiná-la Atafami —, mas ambas as vezes foram situações incomuns. A experiência ainda era completamente nova para mim, e não pude deixar de sentir nervosismo.

Olhando ao redor para ver se mais alguém já tinha chegado, avistei Mizusawa encostado em uma parede à sombra, olhando para o telefone.

Tudo nele era puro estilo. Ele estava apenas lá, parado; por que eu estava me sentindo dessa maneira? Com base no que Hinami me ensinou, eu imaginei que era a impressão geral criada a partir de suas roupas, cabelo, postura, expressão — todos os pequenos detalhes.

Mizusawa naturalmente se destacava muito nessas áreas. Meu estômago doía só de pensar que eu teria que mexer com ou desafiar esse cara super normal três vezes hoje.

Dei a mim mesmo uma pequena 2pep talk, me aproximei dele e fiz contato visual quando ele me notou.

— Oi, Fumiya.

— Ei... oi.

Com um sorriso conciliador e descontraído, ele retirou o sufixo educado do meu nome e levantou a mão em cumprimento. Foi uma combinação simples de palavras e ação, mas demonstrou uma elegância poderosa que eu nunca poderia alcançar.

Esses pequenos comportamentos se acumulavam gradualmente para determinar se era aceitável provocá-los um pouco. Eu já estava prestes a desistir. Mas eu tinha que pelo menos tentar.

Provocá-lo ou desafiá-lo. Três vezes.

Mizusawa enxugou o suor das bochechas com a mão.

— Caramba, está quente hoje.

Passou pela minha mente argumentar com ele naquele momento — Sério, você acha que está quente? Discordo completamente — mas como estava indiscutivelmente quente, decidi concordar com ele. Foi por pouco. Eu estava prestes a me tornar aquele cara estranho.

— S-sim.

Pensei que já tinha chegado ao ponto em que poderia dizer — sim — sem gaguejar, mas como estava pensando em como contradizê-lo ao mesmo tempo, não saiu tão suave quanto eu esperava.

— Espero que essa viagem corra bem.

Disse Mizusawa, rindo como uma criança feliz. Seu sorriso era amigável. Sua habitual elegância ainda estava lá, mas havia uma suavidade junto com ela. Talvez esse fosse um daqueles sorrisos que inspiram o instinto materno...

De qualquer forma, eu mesmo sabia que seria estranho discutir com ele sobre esse ponto (Não necessariamente é o melhor se der certo, na minha opinião. Outros caras também podem gostar da Izumi, sabe?), então mais uma vez deixei a conversa fluir tranquilamente.

Além da minha tarefa atual, eu ainda tinha que fazer o trabalho básico de desenvolver um tópico, certo? Ah, estamos falando sobre a viagem... Sim, eu tinha algo memorizado para isso.

— Você quer dizer a estratégia para juntar Izumi e Nakamura?

Puxando um comentário apropriado de meu repertório, entreguei-o com um tom ligeiramente brincalhão.

— Sim!

— Ah, para duas pessoas que gostam uma da outra, eles estão demorando uma eternidade para ficarem juntas.

Fiz um esforço consciente para avançar a discussão por conta própria. Eu tinha gravado e praticado a entrega descontraída várias vezes, então acho que não soou estranho.

 Ainda assim, parecia mais difícil do que o normal porque eu também tinha que procurar oportunidades para provocá-lo.

— Antes de lançarmos esse plano, perguntei à Yuzu quando diabos eles iam começar a namorar.

— Ah, é mesmo?

— Ela disse que quer namorar com ele, mas não consegue dar o primeiro passo... Ela é muito covarde.

— Er, h-ha-ha, sim, Izumi não é muito corajosa quando se trata de coisas assim.

Sorri enquanto tentava soar como um normie. Devo ter pensado demais sobre como provocar Mizusawa, porque acabei provocando alguém que nem estava presente. Tenho quase certeza de que Hinami não contaria isso.

— Aqueles dois falam pelos cotovelos, mas quando se trata disso, são super ingênuos. Esses dois idiotas estão nos fazendo fazer todo o trabalho.

Ele sorriu amigavelmente novamente. Enquanto eu tropeçava para encontrar algo apenas um pouco rude para dizer, com resultados questionáveis, ele simplesmente me mostrou como se fazia com esse comentário leve, suave, conciliador e totalmente cruel.

A crueldade dele estava direcionada às pessoas que não estavam ali, assim como a minha, mas droga, ele era bom. Senti como se estivesse observando um exemplo clássico.

— Então não é só a Izumi, né? Estou surpreso que o Nakamura seja assim também.

Lembrei-me do momento em que Izumi deu o presente para Nakamura. A reação dele me fez pensar que ele estava bastante interessado. Até eu vi um pouco de esperança ali.

Mizusawa baixou a voz de forma cômica.

— Basicamente, ele é um cara simples. Quer dizer, veja só como ele fica todo empolgado com Atafami.

— Verdade.

Concordando, ajustei meu humor para se igualar ao casual de Mizusawa.

Consegui afastar a pergunta revoltantemente fraca que ficava passando pela minha mente sobre se eu sequer tinha permissão para falar em termos tão iguais com Mizusawa.

Eu tinha que pensar nele como um igual... mas não, era impossível me ver em pé de igualdade com alguém tão legal.

— Claro, você não pode falar quando se trata de Atafami, não é mesmo? Você também é um idiota nesse assunto.

— Ah-ha-ha... você está certo.

Com isso, Mizusawa conseguiu me provocar antes mesmo de eu mexer com ele. E para piorar, nem me importei muito. Total fracasso.

— Eu nem sei se ele sabe como se preparar para alguma coisa. Não tenho certeza se o chamaria de honesto ou apenas burro.

Seu sorriso estava ao mesmo tempo exasperado e vagamente divertido.

Incrível. Esse tempo todo, ele estava fazendo natural e facilmente o que eu estava me esforçando tanto para conseguir. Sorri junto, mas ao mesmo tempo, estava procurando minha oportunidade para dar uma alfinetada. Foi então que Mimimi e Hinami apareceram.

 Droga. Até agora estou com zero pontos.

— Oi! Vocês estão bem adiantados!!

Mimimi caminhou na nossa direção, balançando os braços energeticamente.

Ela estava usando uma camiseta e jeans, que até eu podia ver que era um visual realmente simples, mas ela era naturalmente atraente o suficiente para chamar a atenção.

— Desculpe por fazê-los esperar!

Hinami estava usando algo branco com mangas fofas e uma saia meio acinzentada.

Uma bolsa com uma alça amarelo-claro estava pendurada em seu ombro. Eu nunca tinha visto essa bolsa antes. Então notei que ela também estava usando um relógio azul grande — também novo para mim — e tinha algum tipo de joia brilhante na orelha esquerda.

O que me fez pensar que ela tinha sido muito cuidadosa ao escolher seu visual. Não sou de reparar, mas parecia perfeito para mim.

— Há quanto tempo, não é?! Ei, Cérebro!

Mimimi bateu no meu ombro com sua força excessiva característica. Doeu, mas fiquei feliz de vê-la de volta ao seu antigo eu animado.

Mizusawa estava nos olhando com suspeita.

— Cérebro? Ah, é, eu meio que me lembro de você ter mencionado isso na sala de jantar.

— Sim!

Mimimi disse, dando-lhe um polegar para cima. Lembrei-me da vez em que encontramos a Facção Nakamura durante uma de nossas reuniões estratégicas do conselho estudantil na cafeteria. Dissemos a ele que eu era o — cérebro — da campanha dela e estava ajudando a escrever o discurso dela.

— Ah, é, hum... Ha-ha-ha.

Ri, esperando que ele não descobrisse que o truque que fizemos durante o discurso foi totalmente coreografado. O rosto de Mizusawa ficou em branco por um segundo, mas depois ele olhou ao redor para o grupo e continuou falando.

— Então devemos ir? Vamos para a casa da Mimimi, certo? Para que lado fica?

— Ah, desculpa, pessoal....

Disse Mimimi, juntando as mãos na frente do rosto como se estivesse rezando pelo nosso perdão.

— Minha avó acabou vindo hoje. Podemos ir a um restaurante ou algo assim em vez disso?

Ela piscou e olhou para cada um de nós em vez.

— Claro, sem problemas. Acho que tem um Saizeriya por aqui e um Jonathan's também, não é?

— Ah, droga!

Mimimi gritou, como se tivesse acabado de perceber algo.

— O que foi?

Mizusawa perguntou.

— Eu acabei de lembrar.

Ela disse, olhando para mim por algum motivo.

— Sua casa também é perto de Kitayono, não é, Tomozaki?

— Huh?

Isso foi inesperado; não sabia como reagir.

— Sim, é, mas...

— Então, por que não vamos lá?!

Ela juntou as palmas das mãos novamente, suplicando dessa vez.

— Uh, um, é...

Enquanto eu tentava encontrar palavras, Hinami aproveitou para concordar.

— Ah, ótima ideia!

Isso seria bom para você, Tomozaki?

Droga. Era uma ordem dela para que eu concordasse com isso. Não sabia se isso fazia parte do meu treinamento especial ou se era apenas o lado sádico dela se manifestando, mas não tinha outra escolha.

— Um... não tem problema.

— Yay, Tomozaki! Salvando o dia!

— A casa do Fumiya, né? Estou ansioso para isso.

Acrescentou Mizusawa.

Mimimi se adiantou, liderando o caminho.

— Ok, vamos nessa!

Mas ela estava indo na direção oposta da minha casa.

— Uh, é o caminho errado. É na mesma direção da sua casa, acho.

— Ah, é verdade!

Mimimi voltou na minha direção, rindo do erro, e depois continuou a andar. Ela era sem esperança. Eu a segui de forma um pouco tímida.

— Vamos vasculhar a casa dele.

— Com certeza!

Atrás de mim, Mizusawa e Hinami estavam me provocando. Droga, eu estava sendo zoado sem parar, e não tinha conseguido uma única alfinetada. Acho que essa é a sina dos personagens de nível mais baixo.

— H-Hinami-senpai... e Nanami-senpai... e Mizusawa-senpai...?!

Minha irmãzinha tinha descido até a porta quando chegamos lá, e ela nos olhava com ambas as mãos sobre a boca e o nariz, como se estivesse testemunhando um desastre natural.

— Um, vocês se importam se usarmos a casa por um tempo? Prometo que não vamos sair do meu quarto...

— N-nenhum problema! E não se preocupem, vocês podem sair do quarto!

Ela olhava para os três mais velhos com olhos brilhantes e excitados.

 

 

O que era isso? Não, eu conseguia entender o que estava acontecendo. Eu estava ali com a heroína perfeita da nossa escola, Aoi Hinami, junto com o cara legal e bonitão que tinha feito um discurso a apresentando durante as eleições do conselho estudantil, e o segundo membro mais importante da equipe de atletismo que tinha desafiado a equipe dourada da Hinami nas eleições.

Os três deles provavelmente eram os estudantes do segundo ano mais famosos da Sekitomo High School no momento. Dada a empolgação da minha irmã, ela estava claramente muito animada em ver esses três ídolos pessoalmente. Além de mim, do fundo da hierarquia, o que tinha virado todo o mundo dela de cabeça para baixo.

— Mãe! O Tomozaki trouxe alguns amigos... Amigos? Er, alguns garotos legais da turma dele para a nossa casa!!

— O quê?! Fumiya... trouxe amigos da turma dele?! Amigos?! O que está acontecendo?!

— Não sei! É estranho, não é?!

— O que devemos fazer?! Devo ir comprar um bolo ou algo assim?!

— Não sei! Talvez um feijão tropeiro?

— Devo começar a cozinhar alguma coisa?!

— Ah, calem a boca, vocês dois! Me deixem em paz!

Mimimi começou a rir enquanto minha família caía no caos.

— ...O que?

— Nada! Sua família é engraçada!

— Sinto que isso não foi um elogio...

Nesse ponto, Mizusawa começou a rir também.

— Nah, eu acho que foi, cara!

— O quê? Sério...?

Nesse momento, lembrei-me da minha tarefa.

— Não, tenho certeza de que não foi.

— Ha-ha-ha! Sério?

— Uh, sim.

Eu tinha conseguido uma pequena revolta contra Mizusawa. Isso contaria como uma vez? Foi uma contradição muito pequena. Por outro lado, se eu não tivesse essa tarefa, nunca teria dito isso. E agora que eu tinha, senti que tinha expressado meus próprios pensamentos de alguma forma. Estava começando a ver como fazer isso repetidamente poderia levar a um relacionamento igualitário.

Enquanto todas essas ideias passavam pela minha cabeça, tirei os sapatos para poder levar todos até o meu quarto. Depois que Mimimi e Mizusawa tiraram os deles, eles sorriram e olharam para mim e para a sala de estar, onde minha mãe e minha irmã estavam.

Olhei para Hinami para ver se ela tinha percebido meu comentário para Mizusawa. Ela estava alinhando os sapatos de todos de maneira organizada na entrada, como se não tivesse feito nada especial. Em seguida, ela se levantou como se não tivesse feito nada de especial e veio até mim.

— ...O que?

Ela perguntou.

— Ah, nada...

Ela era incrível de várias maneiras. Todos nós subimos para o meu quarto.

— Ooh, Brain, vejo algo suspeito!

Com isso, Mimimi, Mizusawa e Hinami começaram uma inspeção minuciosa do meu espaço privado. Tinha minha cama e minha escrivaninha, uma pequena TV de tubo que eu usava para jogar jogos antigos e um console para jogar Atafami. Além disso, havia um pequeno laptop na minha cama. Fora isso, não havia muito no meu quarto ocidental sem graça. Pesquisem o quanto quiserem, pessoal. Vocês não vão encontrar nada!

— O que é isso?! Tem tantos controles aqui dentro!

Mimimi disse animada ao tirar um saco plástico da minha escrivaninha. Estava cheio de controles que eu tinha usado até gastar e planejava me livrar depois.

— Ah, esses são apenas controles de treino para Atafami. Eles não estão mais bons...

— Você usou tantos assim?!

— Sim, você usa isso em dois ou três anos. Não consigo me convencer a me livrar deles porque ainda servem para outros jogos...

Os manches não estavam muito desgastados para uso regular, então não parecia certo jogá-los fora. Eles simplesmente não funcionariam em Atafami por exigir movimentos tão delicados do manche.

— Huh... você é realmente intenso quando se trata disso.

Mimimi disse, devolvendo o saco suavemente para a gaveta.

— Sim, acho que sou.

Mizusawa começou a rir diante da minha resposta bastante confiante.

— O quê?

— Nada... É só que—você é realmente estranho.

Eu não entendi. Espera... ele está me provocando de novo?

— O que há de tão estranho nisso?

Retruquei, esperando conseguir mais um ponto com isso.

— É engraçado, cara.

Ele disse, gargalhando.

— Certo, Ao—

Ele olhou para Hinami e parou no meio da frase. Achando isso estranho, segui seu olhar e vi que Hinami estava alcançando o saco plástico de controles e tocando cada um com o dedo para ver como estavam gastas as alavancas.

— Aoi?

Ela deu um pequeno sobressalto quando Mizusawa chamou seu nome, o que não era típico dela. Aos poucos, o olhar dela passou da total seriedade de volta para a perfeita heroína.

— É um desperdício jogar isso fora... Se eu fosse sua mãe, ficaria tão chateada...!

— Ha-ha-ha! Do que você está falando? Eu não sabia que você era tão econômica!

— Mas é um desperdício...! Estou horrorizada!

Ela improvisou junto com Mizusawa, interpretando um personagem bobo. Ela era realmente incrível.

— Mas sério.

Mizusawa disse, sentando-se ao lado de Hinami.

— Isso mostra um comprometimento real.

Ele olhou para o rosto de Hinami. Ele estava falando sobre meu comprometimento com Atafami? Mais importante, eles estavam sentados muiiito perto um do outro. Uma verdadeira conversa de frente entre um cara bonito e uma garota bonita.

— ...Hã? Foi isso que eu disse?

Hinami olhou nos olhos dele, aparentemente relutante em acompanhá-lo. O que ela estava fazendo? É verdade, ela tinha falado sobre desperdício de recursos, não comprometimento. Ainda assim, ela estava tão perto dele, com aqueles olhos brilhantes. Será que essa era uma tática normie? Eu estava impressionado. Uma batalha entre dois personagens fortes.

— O quê? Eu totalmente assumi que era isso que você estava pensando. É incrível. Mostra o quão sério ele é.

Mizusawa sorriu. Mesmo como cara, eu sabia que ele era atraente, e ele estava sorrindo para ela de perto. Um contra-ataque com um sorriso e olhos suplicantes. Será que conseguiria infligir algum dano em Hinami? Além disso, por alguma razão, o tom dele estava irônico, mas não tenho certeza por quê.

— Talvez você tenha razão.

Hinami sorriu também. Nenhum dano visível. Um empate, então.

— ...De qualquer forma, vamos começar essa reunião.

Mizusawa se levantou e virou-se para nós três. A batalha acabou, e tinha sido intensa. Eu não entendia o que eles estavam dizendo, mas a intensidade da troca deles era palpável.

Enquanto isso, Mimimi ignorou toda a batalha e estava vasculhando meu quarto em busca de DVDs pornô.

— Eles estão aqui?

Ela murmurou, revirando meu armário.

— Onde poderiam estar?

Estava se sentindo muito em casa, eu diria.

Pena para ela, eu sou o tipo de pessoa que guarda tudo na pasta de Matemática no meu laptop.

— Um teste de coragem vai ser essencial! Eu digo que o básico é o melhor!

Mimimi propôs animadamente seu plano para juntar Nakamura e Izumi.

— Acho que você está certa. Se não fizermos algo assim, nenhum dos dois tomará a iniciativa.

Mizusawa concordou.

Pensei em contradizê-los, mas tudo o que consegui pensar foi algo que abalaria toda a base da viagem, tipo, — Não, acho que os dois vão acabar ficando juntos sozinhos de alguma forma. Vamos acreditar neles.

Então desta vez decidi seguir o plano de Mimimi.

— Sim. Dizem que o efeito da ponte suspensa é algo poderoso.

— Exatamente! Aumente a temperatura e eles pularão um nos braços do outro! Eu sabia que você entenderia, Tomozaki!

Hinami entrou no clima animado de Mimimi.

— Deixe os dois a sós e eles serão inseparáveis!

— Sim! Ah, o amor jovem!

Mimimi disse, pegando carona nas palavras de Hinami. A onda dessa conversa era algo incrível. Eu mal conseguia acompanhar — droga, talvez eu já estivesse fora — e eu ainda tinha que pensar na minha tarefa ao mesmo tempo? Coloquei meu cérebro em alta velocidade.

— Vocês estão realmente se divertindo!

Mizusawa riu.

— Agora só precisamos pensar numa desculpa.

Hinami assentiu.

— Eu já falei com a Yuzu, então não há dúvidas sobre o que ela sente.

— E o Nakamu está completamente interessado nela! Eu posso sentir essas coisas!

— Qualquer um consegue perceber isso.

Mizusawa disse, provocando rapidamente.

— O quê?! De jeito nenhum?!

— Sim, estou falando sério. Até você consegue perceber, não é, Fumiya?!

— Sim, até eu.

— Sério?!

Mimimi fez um grande show de surpresa. Secretamente, eu estava satisfeito por ter me juntado tão facilmente a essa conversa animada, mas também estava me preparando para a próxima onda.

Além disso, eu tinha que ficar atento para encontrar minha chance de discordar de Mizusawa novamente. Para fazer isso, eu teria que ignorar a necessidade de seguir a onda até certo ponto. Ahhh... era demais para pensar.

Ou talvez a onda não fosse vir, e eu tivesse que criá-la eu mesmo. Hum, algo assim?

— Nós vamos fazer um churrasco, certo?

— Hum, sim.

— Que tal darmos a eles algumas tarefas onde eles acabarão sozinhos juntos?

Eu deveria estar fazendo propostas?

— Ei, isso é uma boa ideia!

Mizusawa disse.

— Tipo, fazê-los acender a fogueira ou algo assim!

Sim! Consegui tirar uma resposta para minha própria proposta que eu poderia contradizer! Com base em algumas pesquisas que eu tinha feito antecipadamente, apresentei meu argumento.

— Ou melhor... que tal fazê-los cortar os ingredientes?

Eu nem mesmo hesitei na conversa.

— Você acha mesmo?

Mizusawa perguntou diretamente, olhando diretamente para mim.

Ok, é melhor pensar em uma razão...

— E-eu quero dizer, acender a fogueira é um trabalho difícil, então não tenho certeza se devemos deixar isso para esses dois...

— Ha-ha-ha! É por isso? Você pode estar certo!

Mizusawa riu. Acabei fazendo uma piada sobre Izumi e Nakamura de novo. Parece que esse é o resultado inevitável quando estou pensando em contra-argumentar ao mesmo tempo.

De qualquer forma, ponto dois ganho!

 Vamos continuar — mais um!

Ou pelo menos, esse era o meu plano, mas a conversa estava seguindo sem mim.

— Algo está me incomodando.

Mizusawa murmurou enquanto a estratégia começava a se encaixar.

— O que é, jovem?.

Mimimi estava agindo de forma boba novamente.

— Em breve seremos alunos do terceiro ano nos preparando para os exames de admissão na universidade.

— Você prometeu que não mencionaria isso...!

O rosto de Mimimi ficou branco.

— Não é isso, mas...

Enquanto Mizusawa esfregava a testa, Hinami falou do seu lugar ao lado dele.

— Você está dizendo que não temos muito tempo para brincadeiras, então é melhor garantirmos que eles fiquem juntos nessa viagem?

Ela sorriu.

— Sim... basicamente.

Mizusawa disse suavemente, desviando o olhar dela.

Aha! Parece que ele é muito mais pensativo do que parece à primeira vista... Esta é minha chance?

Respirei fundo. Mentalmente, revisei os tons que eu tinha praticado no gravador de voz e as habilidades que roubei de Mimimi, Hinami e até mesmo de Mizusawa. Isso permitiria que meu corpo fizesse o trabalho necessário mesmo que minha mente estivesse toda tensa e nervosa.

— Ei, Mizusawa, você não está ficando sentimental, está?

Provoquei — levemente, com meu melhor tom de brincadeira.

Mimimi riu.

— Está sim! Eu percebi a mesma coisa! Você está envergonhado, Takahiro? Que cara legal!

Enquanto Mimimi acrescentava mais uma provocação, Mizusawa sorriu.

— Ha-ha-ha, não é? Eu sou um cara legal.

Ele bateu no peito de forma cômica.

Uau. Ele pegou nossa provocação e imediatamente a transformou para mostrar sua posição como líder. A habilidade magistral de um normie.

De qualquer forma, isso fazia três pontos. Tarefa cumprida.

— Mas eu entendo o que você quer dizer! Eles gostam um do outro, e parecem um par tão perfeito; é um desperdício que eles não estejam juntos! E nós não podemos ficar jovens para sempre...

Mimimi fingiu chorar, mas parte dela parecia séria.

— Sim.

Mizusawa concordou, acenando solemnemente.

A troca deles me surpreendeu um pouco. Eu tinha assumido que, embora estivessem falando sobre juntar Izumi e Nakamura, o ponto principal da viagem era se divertir. Mas aparentemente, todos estavam levando a sério o objetivo.

Até recentemente, eu assumia que os normies levavam uma vida despreocupada e nunca pensavam profundamente sobre nada. Eu estava enganado? Afinal, aqueles que estavam aqui comigo pensavam de maneira muito sincera sobre seus amigos.

Minha empolgação com toda essa ideia de me tornar um normie aumentou um pouco.

Vinte ou trinta minutos depois, tínhamos acertado todos os detalhes do nosso plano e estávamos por aí, conversando.

— Enfim, naquele momento os pais do Shuji ligaram para ele, e ele teve que ir para casa.

— Ah-ha-ha-ha! Foi uma hora perfeita! Acho que os pais dele são realmente rigorosos!

— Sim. Quero dizer, pense nisso. Shuji é um completo idiota, e ele odeia estudar. Ele nunca entraria em Sekitomo High se sua família não fosse tão focada na educação.

— Muito verdade!

Mimimi riu alto, com risadas exageradas.

A conversa estava esquentando com essa história de como Nakamura teve que ir para casa justamente quando estava prestes a entrar numa briga no fliperama com alguns caras de outra escola.

Hinami deu sua própria risada fofa e sofisticada antes de ampliar o tópico.

— Shuji geralmente é tão convencido, mas mal pode levantar o dedo contra os pais. Por que será.

— Bem, eu nunca a vi pessoalmente, mas pelo que ouvi nas conversas dele pelo telefone... a mãe dele é casada com um gangster.

Mizusawa imitou cortar a base do seu mindinho direito com o indicador esquerdo, indicando o infame castigo yakuza.

— Caramba, não faça isso! Isso foi assustador!

Eu disse. Eu tinha terminado minha tarefa, mas queria tomar a iniciativa para provocá-lo um pouco mais. Mesmo enquanto dizia isso, senti que minha entrega estava fora do tom.

— Sério? Mas eu estou falando a verdade.

— Quer dizer, as esposas de gangster ainda têm seus mindinhos.

Não havia como voltar atrás agora, então mergulhei mais fundo. Eu estava perdendo o controle.

Mizusawa apenas me encarou por um minuto antes de finalmente dizer: — Ha-ha-ha. É, acho que sim.

Sua risada curta e cínica foi seguida por um comentário que soou desconfortável.

Olhei para Mimimi. Ela parecia confusa.

— Uh, quer dizer, não...

Foi então que voltei à realidade. Eu tinha me empolgado e dito algo estranho. Hinami me disse para fazer isso apenas três vezes, e agora eu tinha exagerado e estragado as coisas. O que fazer agora? Isso estava tão constrangedor. P-por favor, não olhem!

Fiquei em silêncio por um minuto, afundando numa depressão por causa daquele pequeno momento de constrangimento. Tenho certeza de que todos pensaram que eu era um daqueles esquisitos que fazem comentários estranhos... e Hinami estava me lançando olhares exasperados. Mas pelo menos eu terminei minha tarefa!

Para escapar do desconforto do olhar dela, eu trouxe um tópico que eu tinha memorizado.

— Enfim, mudando de assunto... vocês não acham que a Erika Konno tem estado meio rabugenta ultimamente?

Isso provocou uma forte resposta de Mimimi.

— Ah sim, eu também notei isso!!

— Ela tem agido de forma estranha.

Disse Hinami, concordando.

— Ela provavelmente está chateada porque parece que a Yuzu vai tirar o Shuji dela.

— Definitivamente é uma possibilidade!

Mimimi disse, aderindo à análise de Mizusawa.

Ufa, eu estava fora de perigo. Obrigado, memorização de tópicos. Acho que dominei a técnica o suficiente para usá-la quando necessário.

Depois disso, com o desastre evitado por pouco e minha tarefa concluída, consegui introduzir mais alguns tópicos que eu havia memorizado especialmente para essa ocasião e de alguma forma continuar parte da conversa. Como não estava tentando mais desafios estranhos, consegui passar despercebido pelo resto do dia. Minha especialidade.

Ainda assim, o eu antigo nem conseguiria imaginar ter uma conversa comum com três normies — e não apenas qualquer normies, três mestres da conversa. Parecia que eu tinha alcançado algo.

Mais do que isso, provavelmente a coisa mais surpreendente foi que eu realmente gostei da conversa.

Por volta das seis, Mimimi olhou para o relógio do seu telefone e ficou chocada.

— Caramba, eu preciso ir embora! Eu tenho um compromisso com a minha avó e o resto da minha família para o jantar hoje à noite!

Hinami também olhou para o relógio.

— É mesmo? Então deveríamos ir embora logo?

— Sim, eu estava pensando em jantar no Jonathan's, mas vamos encerrar por hoje! Já falamos o suficiente!

— Ha-ha-ha, é verdade.

Eu disse, concordando. De qualquer forma, eu já tinha esgotado os tópicos memorizados.

— Ah, Tomozaki — vou te adicionar ao nosso grupo do LINE, ok?

Hinami disse com sua voz falsa.

— Podemos usar isso para reuniões estratégicas durante a viagem!

— Ah, ok.

Eu respondi.

Mizusawa se levantou e olhou para o grupo como se fosse nosso líder ou algo assim.

— Ok, pessoal, vamos embora. Não esqueçam nada aqui.

Mimimi me saudou.

— Pena que não encontrei nenhum DVD no seu quarto!

— Você ainda está falando sobre isso?

Hinami disse com um sorriso exasperado, mas de alguma forma também carinhoso.

Os quatro de nós descemos as escadas. Eu os acompanhei até a porta, lançando um olhar para minha irmã enquanto ela os convidava animadamente para voltar a qualquer momento. Ela estava praticamente derretendo quando Mizusawa disse tchau para ela.

E assim terminou o inacreditável encontro de normies na minha casa. Voltei para dentro e fechei a porta, e imediatamente minha irmã me atacou com uma pergunta totalmente sem tato.

— Ei!! Por que você é amigo de todas as pessoas legais? Será que a estratégia antinerd está funcionando?

Deixe-me te contar uma coisa, querida irmã. Eu posso estar buscando subir na hierarquia social, mas não vou me livrar do meu lado nerd. Meu amor por Atafami é eterno.



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