Volume 11
Capítulo 4: Não importa o quanto você evolua: se a sorte e o acaso estiverem contra você, o jogo acaba
NO DIA SEGUINTE, segunda-feira, depois da aula, invadimos a sala do conselho estudantil.
— Chegamos! Podem ir entregando a faixa!
Mimimi declarou em voz alta ao escancarar a porta. Ei, para com isso, não exige coisa desnecessária.
— Mimimi-senpai, o que está acontecendo?
Os membros do conselho estudantil, surpresos com a invasão repentina, começaram a murmurar. Havia cerca de cinco alunos e um professor na sala, e todos os olhares agora estavam voltados para nós.
— He-he-he, viemos ajudar!
— Hã?
Ela respondeu algo completamente incompreensível ao aluno mais novo que educadamente perguntara o que estava acontecendo, deixando todo mundo ainda mais confuso.
Ainda assim, ela continuava popular — prova de como é importante construir confiança aos poucos, ao longo do tempo. Enquanto toda a atenção estava voltada para a Mimimi, aproveitei para observar a sala do conselho estudantil. Em qualquer nova missão, o primeiro passo é observar. Essa é uma lição que minha mentora gravou fundo em mim.
Alguns alunos pareciam jogar algo parecido com um jogo de tabuleiro, com as mesas juntas; outros faziam trabalho administrativo nos computadores — embora alguns estivessem apenas brincando com algo que parecia um chatbot. Ninguém parecia particularmente focado em atividades reais do conselho.
Não sabia dizer se aquele clima relaxado já existia antes da saída da Hinami ou se surgira depois disso, mas suspeitava da segunda opção. Era como se a pessoa central que mantinha tudo funcionando tivesse ido embora, deixando o lugar operando no automático.
— Ajudar… em quê, exatamente? — perguntou um dos alunos.
— Ora, ajudar o conselho estudantil, é claro!
Alguns reagiram com entusiasmo, soltando um "oh!". Não era surpresa. Mimimi, que havia disputado a eleição do conselho contra Hinami e causado bastante impacto mesmo perdendo, aparecia justamente agora. Era praticamente a candidata perfeita para preencher o vazio deixado pela saída da Hinami.
— É que… na verdade, estamos meio encrencados agora…
— Será que a Mimimi-senpai pode nos ajudar…?
Os membros do conselho iam, pouco a pouco, se animando com a ideia. Eu estava pronto para intervir caso surgisse algum problema, mas tudo parecia caminhar bem.
— Esperem. Um momento.
Quem interrompeu o fluxo foi o Muramatsu-sensei, o professor orientador do conselho. Era um homem forte, na casa dos quarenta anos, e, se eu me lembrava bem, também era o responsável pelas turmas avançadas. Seus lábios firmemente cerrados transmitiam uma determinação que o tornava um adversário difícil em negociações.
— O que foi, Muramatsu-sensei? — perguntou Mimimi, animada, enquanto ele franzia as sobrancelhas grossas e dava um passo à frente.
— Agradecemos a ajuda, mas não podemos permitir que pessoas que não fazem parte do conselho se juntem a ele.
Uma muralha sólida chamada "regras". Como professor responsável, era uma linha que ele não podia cruzar. Enquanto eu pensava em como contornar a situação, também observava como a Mimimi reagiria.
— Mas, sensei, quando eu perdi a eleição do conselho, o senhor não disse que, se eu não me importasse em não ser presidente, ainda poderia entrar para o conselho?
— Ah… acho que disse algo assim… — Muramatsu-sensei inclinou a cabeça. — Mas você recusou, não foi, Nanami?
— Recusei!
Ela recusou?! Isso não é bom… Justo quando eu pensava se já era hora de intervir com algum argumento esperto, Mimimi continuou:
— Mas o senhor também disse isso, não disse? Que, se eu mudasse de ideia, poderia voltar a qualquer momento!
— Ah… acho que disse mesmo…
A expressão de Muramatsu-sensei ficou mais tensa. Então, com um sorriso triunfante, Mimimi lançou o golpe final:
— Pois bem, eu mudei de ideia!
— Espera, espera, calma…
A reação dele me deu uma ideia.
— Com licença… — falei, num tom quase conspiratório. — Se o senhor já a havia convidado antes, não acho que permitir que a Nanami-san entre agora possa ser considerado tratamento especial.
O que preocupava Muramatsu-sensei não era exatamente a entrada da Mimimi. Dada a situação atual, o conselho provavelmente a receberia de braços abertos. O problema era o precedente: permitir que alguém que não era membro inicialmente entrasse com base em uma decisão pessoal. Como responsável, ele não podia abrir exceções às regras.
Por outro lado, ambos os lados tinham um interesse em comum — revitalizar o conselho estudantil, que estava praticamente paralisado. Conectei os pontos por ele, oferecendo uma saída:
— Talvez o senhor tenha deixado essa porta aberta justamente para o caso de algo assim acontecer…
— Hmm… bem, essa é uma forma de interpretar… hmm.
Enquanto eu lhe entregava essa justificativa, vi os lábios tensos de Muramatsu-sensei relaxarem um pouco. Então Mimimi desferiu o golpe final.
— Por favor, Muramatsu-sensei! Eu imploro!!
Ela falou com sinceridade e em alto e bom som. Quando se está desesperado, o volume faz diferença. Um pedido alto pode multiplicar seu poder de persuasão. Muramatsu-sensei ergueu as sobrancelhas e suspirou.
— Sinceramente… do jeito que as coisas estão, eu já estava começando a duvidar se conseguiríamos sequer realizar o evento…
Ele olhou ao redor da sala, como se medisse a reação dos alunos. Era quase possível sentir o ambiente se iluminar com a chegada inesperada de um ás.
— Bem, já que ninguém parece se opor, e certamente nos beneficiaremos de ajuda extra, o conselho estudantil aceita a sua colaboração.
— Muito obrigada!!
Mimimi e eu agradecemos juntos. Então ela ergueu a voz, fazendo uma declaração ousada:
— Muito bem, pessoal! Eu, Minami Nanami, declaro-me a presidente interina do conselho estudantil! Conto com todos vocês!
— Ei, você acabou de se nomear para um cargo importantíssimo?!
— E isso quer dizer, claro… Tomozaki-kun, você vai ser…?
Mimimi cutucou meu braço com o cotovelo, sorrindo de forma travessa. Suspirei diante do entusiasmo dela, mas, ao lembrar dos momentos divertidos que já tínhamos vivido, não consegui deixar de sorrir.
— Eu sou o cérebro, certo?
— Exatamente!!
Mimimi riu com pura alegria, sem nenhum resquício da hesitação que costumava ter.
— Então, vamos trabalhar juntos!
Ela ergueu o punho no ar, triunfante.
— Tá, tá, tudo bem — respondi meio sem entusiasmo, mas, no fundo, eu também estava um pouco animado. Afinal, aqueles tempos em que jogávamos juntos tinham sido realmente divertidos.
— Snap.
O som de uma nova parceria ecoou agradavelmente pela sala do conselho estudantil.
*
— Então, Brain, qual é o próximo passo?
— Haha, ainda sem plano como sempre, né?
Naquela noite, enquanto caminhávamos para casa, começamos nossa reunião estratégica.
— Claro! É por isso que eu tenho você, o Brain!
Mesmo assim, não havia muito no que pensar. Depois que a Mimimi reuniu algumas informações com os membros atuais do conselho, ficou claro que eles dependiam quase exclusivamente das conexões da Hinami para contatar possíveis palestrantes para o evento de orientação profissional. Mas, com a Hinami fora de cena, ninguém ocupou seu lugar, e todas as pessoas contatadas haviam recusado.
Em outras palavras…
— Nada está andando, né?
— Chega a ser impressionante o quanto nada foi passado adiante!
Mimimi caiu na gargalhada, e eu acabei rindo junto.
— Então… a próxima pergunta é: quem a gente convida? Tem alguém em mente?
— Hmm… tem que ser alguém famoso, né?
— Provavelmente… pelo que eu ouvi.
Sinceramente, eu nunca tinha me interessado muito por esse evento. Na época em que eu não tentava "vencer na vida", meus dias de escola se misturavam numa lembrança vaga de quase nada acontecendo. Então não desperdicei espaço mental com isso. Bem eficiente, não acha?
— Minha mãe trabalha numa empresa de cosméticos, então talvez conheça alguém, mas… chamar uma modelo ou algo assim não parece muito adequado para esse evento, né?
— Hmm… não é totalmente fora de questão, mas… não sei.
Não parecia o encaixe perfeito, e também soava caro.
— E você, Brain? Tem algum conhecido famoso?
— Bom, eu não diria que… — comecei, mas parei ao ter uma ideia. Ah. Pensando bem, recentemente eu vinha entrando no mundo adulto e conhecendo pessoas que antes jamais teria conhecido. E, entre elas, talvez houvesse alguém perfeito para isso.
— Uau! Então você tem alguém!
Assenti. Pensando de forma realista, não era uma má ideia.
Essa pessoa teria uma profissão que provavelmente interessaria a estudantes do ensino médio, saberia falar em público e, o mais importante, seria fácil para eu pedir ajuda.
— Talvez eu tenha alguém em mente. Alguém que eu, pessoalmente, gostaria muito de ouvir.
*
No dia seguinte, durante o intervalo do almoço:
— Então… você está ajudando o conselho estudantil agora…
— É. Achei melhor te contar, Kikuchi-san.
— Obrigada… por me contar.
Eu estava de volta à biblioteca pela primeira vez em um bom tempo, contando à Kikuchi-san sobre a conversa que tive com a Mimimi. Também falamos sobre a Haruka-chan e sobre minha decisão de ajudar o conselho.
— Mas… isso é um pouco interessante… — disse Kikuchi-san, pousando o livro de astronomia que segurava sobre a mesa. — Quando alguém que você admira parece infeliz… não é?
— Hã?
Fiquei um pouco surpreso por isso ter chamado a atenção dela. Em vez de falar do conselho, ela se prendeu a algo que eu havia dito antes para a Mimimi. Aquilo devia ter ressoado nela de alguma forma. Repetindo aquelas palavras para si mesma, ela baixou o olhar, pensativa, e então levantou a cabeça de repente, como se tivesse percebido algo.
— Ah… e o evento de orientação profissional, vai dar certo?
— Vai sim. Na verdade, eu já tenho alguém em mente.
Ao assentir, Kikuchi-san arregalou os olhos, surpresa.
— Sério? Um convidado, né?
— Sim. Estou pensando em chamar alguém que conheci recentemente num encontro presencial. Por isso pretendo ir a um torneio em breve e falar com essa pessoa.
— Um torneio… entendo.
Ela provavelmente deduziu quem eu estava pensando em convidar. Ao mesmo tempo, notei sua expressão escurecer.
— Ah… vai ter… Não, esquece.
Ela começou a dizer algo, mas hesitou e parou no meio.
— Kikuchi-san — decidi dizer eu mesmo. — Quero que você venha comigo a esse torneio.
— O quê…?
Os olhos dela se arregalaram.
— Mas eu não tenho nada a ver com o conselho estudantil…
— Nem eu, na verdade. Quero dizer, eu só estou substituindo temporariamente a presidente e, além disso, sou mais o estrategista deles.
— Mas…
— Eu não quero que você fique preocupada.
Kikuchi-san abriu levemente a boca, surpresa. Tenho certeza de que o que ela ia perguntar antes era se a Rena-chan estaria lá. E talvez também estivesse preocupada comigo indo sozinho com a Mimimi.
Se for esse o caso, então, tanto para fazer o que eu quero quanto para ser atencioso com a Kikuchi-san, preciso equilibrar tudo com cuidado enquanto sigo em frente. Provavelmente, essa é a forma de lutar contra a vida.
*
Alguns dias depois, no domingo. Eu estava em um local de eventos na cidade com a Kikuchi-san e a Mimimi.
— Uau! Então é aqui que acontece!
— É bem espaçoso…
Mimimi e Kikuchi-san olhavam ao redor, trocando impressões. Estávamos em um estúdio de e-sports em Ikebukuro. O lugar tinha um visual em preto e branco, e cerca de oitenta PCs gamer com monitores estavam alinhados de forma impecável. Embora não estivéssemos usando todos, ao que parecia, o aluguel do espaço dava acesso completo a tudo.
Na parte da frente havia um palco para transmissões ao vivo, equipado com uma enorme tela de múltiplos displays. O que estava sendo realizado ali era um torneio de Atafami organizado por voluntários.
— É a minha primeira vez aqui também. É bem mais legal do que eu imaginava.
— É mesmo, o interior é super estiloso!
Como a Mimimi concordava comigo, não era só meu senso otaku achando aquilo incrível — o lugar realmente tinha um ar moderno. Por outro lado, a Kikuchi-san parecia um pouco intimidada, então imagino que nem todo mundo se impressione da mesma forma.
Embora o torneio de hoje fosse menor do que os realizados durante feriados prolongados, ainda assim estava sendo transmitido ao vivo no YouTube, o que o tornava um evento de pequeno a médio porte.
E o motivo de eu ter vindo até ali com a Mimimi era…
— Ei, nanashi-kun.
A pessoa que eu viera encontrar — um jogador profissional — apareceu.
— Ah, Ashigaru-san. Obrigado por ter vindo.
O convidado que eu queria chamar para o evento de orientação profissional não era ninguém menos que o Ashigaru-san.
Por ser um gamer profissional — uma profissão relativamente nova —, achei que ele despertaria o interesse dos estudantes do ensino médio. Além disso, como já estava acostumado a falar em transmissões ao vivo e em vídeos, seria ótimo no palco. Se conseguíssemos montar algo como no ano passado com a cantora de enka, projetando o jogo enquanto ele jogava, com certeza animaria o público.
Em resumo, ele era a escolha perfeita.
— Desculpa fazer você vir até aqui — disse o Ashigaru-san, lançando um olhar para a Kikuchi-san e para a Mimimi.
— Eu já conheci sua namorada antes, e… essa deve ser sua colega de classe?
— Hã? Ah, é!
A Mimimi ficou confusa por um instante com o termo "nanashi", mas logo entendeu e assentiu. A rapidez com que ela se adaptava era impressionante.
— Prazer em conhecer. Sou Ashigaru, jogador de Atafami. Confesso que é meio constrangedor me apresentar assim para uma garota do ensino médio.
— Prazer! Eu sou a Mimimi, colega de classe do cara conhecido como nanashi!
— M-Mimimi…?
Ashigaru-san parecia constrangido por usar um nome de jogador, mas isso não incomodava a Mimimi nem um pouco. Era uma situação bem peculiar. Enquanto eu pensava nisso, por algum motivo, Ashigaru-san ficava alternando o olhar entre mim e a Mimimi, pensativo.
— Mas, nanashi-kun, você realmente é…
Ele falou num tom calmo, mas levemente acusatório. Talvez estivesse pensando que eu tinha trazido outra garota depois de já ter vindo com minha namorada antes…
— Não é isso. Eu faço parte do conselho estudantil, e estamos organizando um evento juntos. Só isso.
Dei uma explicação rápida e, após uma breve pausa, Ashigaru-san assentiu.
— Ahaha, relaxa. Só toma cuidado para não causar confusão na internet.
— Sério, não é nada disso!
Diante disso, Mimimi e Kikuchi-san, que não acompanhavam muito esse papo cheio de referências online, inclinaram a cabeça, confusas. Confesso que achei isso reconfortante.
— Mas, mais importante que isso!
— Ah, a reunião, né?
— Isso. Queria resolver tudo antes do evento começar.
Enquanto conversávamos, um membro da equipe se aproximou apressado.
— Ashigaru-san! Pode cuidar dos comentários de abertura?
— Ah, claro. Desculpa, nanashi-kun, pode esperar um pouco?
— Ah, tudo bem.
Ashigaru-san seguiu em direção à cabine de comentaristas.
— Ele é bem popular, né?
— É… além de gamer profissional, ele também é criador de conteúdo.
Observei enquanto Ashigaru-san ajustava o headset e se sentava na mesa de comentários ao lado do palco. Perto dali havia um garoto que parecia um pouco mais novo do que eu, conversando com alguém enquanto nos olhava de vez em quando — provavelmente alguém da equipe.
— Bom, vamos assistir um pouco enquanto esperamos.
— Vamos sim.
— S-Sim!
Eu, Mimimi e Kikuchi-san nos sentamos na plateia, com os olhos fixos na mesa de comentários.
Ashigaru-san falava com propriedade, acrescentando piadas aqui e ali para manter tudo animado. Ele costuma postar vídeos divertidos também, então fazia sentido ser tão bom nisso. Se entreter pessoas faz parte do trabalho de um gamer profissional, então essa habilidade era claramente uma de suas armas.
— Então você quer ser como ele, Fumiya-kun?
— Sim. Um gamer profissional.
Enquanto observava a expressão animada de Ashigaru-san e seu tom vibrante ao apresentar os participantes do torneio, me peguei pensando:
Que tipo de gamer profissional eu quero me tornar?
*
— O que você tá fazendo, Brain?
Enquanto eu mexia no celular, sentado na plateia, Mimimi falou comigo.
— Mandando mensagem pra uma garota!? Traição!? Paquera!?
— Não é nada disso. Não fala igual o Mizusawa.
Mostrei a tela do celular para ela.
— Ah…
— Tô mandando mensagem pra Haruka-chan.
Já fazia uma semana desde que entrei em contato com ela depois da nossa viagem ao Cocoon. Ainda não tinha recebido resposta, mas eu mandava mensagens ocasionais para facilitar quando ela se sentisse pronta para responder.
— Tô contando que estou ajudando o conselho estudantil.
— Entendi…
Hoje estávamos ali para assumir as tarefas do conselho que haviam ficado paradas com a ausência da Hinami e para convidar o Ashigaru-san como palestrante. Eu queria contar isso à Haruka-chan, já que ela havia se tornado presidente do conselho estudantil inspirada pela Hinami.
— Estamos continuando a história da Hinami como a presidente perfeita do conselho.
— Ha-ha, é verdade!
Vir ali como conselho estudantil não era só cumprir um dever. Também era uma missão importante: proteger aquilo em que a Haruka-chan acreditava.
— Ela ainda é só uma estudante do fundamental. Se um dia precisar de ajuda, eu também estarei lá por ela!
As palavras da Mimimi foram perfeitamente equilibradas — nem invasivas, nem distantes demais. Ela sempre dizia a coisa certa, respeitando os outros. Percebi então que eu estava dependendo demais dela, usando a situação atual como desculpa.
— Obrigado.
— Ei, Fumiya-kun!
Uma voz anasalada chamou por mim, arrepiando a nuca.
— Quanto tempo! Você também tá aqui?
— Ah! Rena-chan…
…!!
Quando pronunciei o nome dela, Kikuchi-san ficou rígida. Claro que ficaria. Quem estava diante de nós não era outra senão a Rena-chan.
Como sempre, ela usava roupas que valorizavam o corpo, mas hoje havia também uma camisa de gola por baixo, misturando um ar enganoso de inocência com sua sensualidade habitual. Um arco de estilo gótico adornava sua cabeça, exalando uma aura sombria e provocante que certamente atrairia certos tipos de otaku.
Era exatamente a pessoa que eu não queria encontrar ali.
Vi claramente a expressão da Kikuchi-san se endurecer.
— Brain… ela é… sua amiga?
— Ah… mais ou menos…
— Aff…
Mesmo sem ninguém dizer nada ainda, só o fato de eu conhecê-la já fez o rosto da Mimimi escurecer de irritação. Rena-chan parecia ser o inimigo natural de todas as mulheres. E eu entendia o porquê.
— F-Fumiya-kun… — Kikuchi-san chamou meu nome.
Para alguém como ela, aquele era um momento crucial, já que nossa briga anterior girava justamente em torno da Rena-chan. Para a Kikuchi-san, ela devia ser alguém que exigia o máximo de cautela — praticamente uma pessoa perigosa, nível de alerta SSS.
Enquanto isso, Rena-chan se aproximou de mim com movimentos suaves, quase serpenteantes, exalando um perfume doce que misturava frutas vermelhas e baunilha. Eu já tinha sentido aquele cheiro muitas vezes antes, e as lembranças voltaram de uma vez.
— Ah? Olha só, o Fumiya-kun sendo chamado pelo primeiro nome — provocou Rena-chan, lançando um olhar provocador e condescendente para a Kikuchi-san.
— Ugh!
Com uma postura relaxada e debochada, Rena-chan encarou diretamente a Kikuchi-san.
— Então, qual é a relação de vocês?
Ela perguntou enquanto, com naturalidade, segurava meu braço. Por um breve instante, a maciez do toque se transmitiu pelo meu braço, mas—
— É justamente isso que eu quero evitar—
Afastei-a imediatamente.
— Para com isso!
A voz, que normalmente soava clara como água de nascente, agora carregava uma aspereza incomum. Era a Kikuchi-san, deixando sua vontade bem clara.
— Hã? Por que você tá dizendo isso?
— P-Porque…
Kikuchi-san se levantou e encarou Rena-chan com firmeza.
— E-Eu sou a namorada do Fumiya-kun!
Com lágrimas se formando nos olhos, Kikuchi-san declarou desesperadamente seu território. No entanto, Rena-chan, aparentemente impassível, a examinou com calma e minúcia, como se estivesse avaliando um objeto. Sob o peso daquele olhar, a expressão da Kikuchi-san se contorceu.
— Ohhh, entendo. Já ouvi falar — disse a Rena-chan, sorrindo docemente enquanto se abaixava para ficar na altura dos olhos da Kikuchi-san. — Você é uma gracinha.
As palavras vieram acompanhadas de um sorriso sinuoso, quase como o de uma cobra, mas não soavam como um elogio sincero. Era mais o tom distante usado para elogiar uma irmãzinha inofensiva ou um bichinho de estimação — algo que claramente não era visto como ameaça.
Talvez por perceber aquele olhar condescendente, ou talvez porque algo tivesse tocado em um ponto sensível, Kikuchi-san mordeu o lábio, reuniu coragem e deu um passo à frente, aproximando-se da Rena-chan.
— C-Com licença!!
Mesmo olhando um pouco para baixo, Kikuchi-san lançou o olhar mais feroz que conseguiu. Seu rosto estava vermelho, tenso.
— Oh? O que foi?
— E-Eu tenho algo para te dizer!
Sua testa já estava suada pelo esforço, e a voz saiu elevada, quase como um grito desesperado. Ainda assim, Rena-chan permanecia completamente calma, claramente saboreando a situação.
— E o que seria?
— É… é sobre o Fumiya-kun…
— Pode falar. Sobre o Fumiya-kun?
Com o rosto completamente ruborizado, Kikuchi-san encarou Rena-chan e declarou, com toda a força que conseguiu reunir:

— Por favor, pare de falar coisas indecentes para o Fumiya-kun!
— Hã?
Rena-chan inclinou a cabeça e, naquele instante, o tempo pareceu congelar — para mim, para a Kikuchi-san e para todos ao redor.
*
Quando o Ashigaru-san voltou, mal conseguia conter o riso.
— He-he… cara, aquilo foi demais. A namorada do nanashi-kun… dava pra ouvir tudo lá da nossa mesa.
— E-Eu sinto muito…
— Acho que não foi captado na transmissão, mas… pfft.
Pela primeira vez, Ashigaru-san parecia genuinamente divertido, enquanto a Kikuchi-san, com o rosto vermelho como um tomate, se curvava repetidamente em pedidos de desculpa. Ao observar os dois, eu e a Mimimi só conseguimos sorrir de forma meio constrangida.
A Rena-chan, depois de rir da declaração da Kikuchi-san, comentou despreocupadamente:
— Ela é uma boa namorada.
E então foi embora, acenando com a mão enquanto se afastava tranquilamente. O que passava pela cabeça dela, afinal?
— Nanashi-kun, posso comentar o que acabou de acontecer na minha live—
— Nem pensar!
Ashigaru-san caiu na gargalhada diante da minha resposta imediata. Acho que esse cara realmente tem uma queda por ver os outros passando vergonha ou por situações constrangedoras.
— Ahem, ahem!
Mimimi pigarreou de forma exagerada para chamar a atenção de todos.
— Muito bem! Que tal voltarmos ao que realmente importa aqui?
— Ah, é verdade. Isso era sobre o projeto de orientação profissional, não era?
— Exatamente! Então, vou deixar o planejamento com o Brain!
— Ei…
De alguma forma, mais uma vez, todo o trabalho de explicação caiu sobre mim.
Isso nem parece trabalho de "cérebro"; é mais como se estivessem me empurrando todas as tarefas chatas.
E assim — expliquei tudo.
— Então é por isso que gostaríamos que o Ashigaru-san fizesse uma palestra pra gente.
— Hmm, entendi. É basicamente como qualquer pedido comum de palestra.
— Ah, então você já fez algo parecido antes?
— Sim. Como gamer profissional, já recebi pedidos assim, e até no meu trabalho regular às vezes me chamam pra dar palestras.
— Oooh! — exclamou a Mimimi. — Então você já está acostumado! É por isso que o Brain confia em você, Ashigaru-san!
Ela falava com total naturalidade, exibindo sua energia habitual mesmo diante de alguém que mal conhecia. Era impressionante como ela conseguia fazer isso. Já o Ashigaru-san parecia um pouco surpreso com tanto entusiasmo.
— Sobre as condições… normalmente, quanto você cobra por esse tipo de participação? — perguntei com certa hesitação, sabendo que era um assunto delicado.
A expressão de Ashigaru-san, no entanto, permaneceu calma.
— Hmm… normalmente existe um valor padrão… mas cobrar de estudantes que querem se tornar profissionais parece meio cruel, mesmo sendo trabalho.
— Não, mas também não dá pra pedir que você faça isso de graça…
— É aí que você entra, nanashi-kun.
Com um sorriso travesso, Ashigaru-san continuou:
— Em vez de um cachê, que tal você me fazer um pequeno favor?
— U-um favor…?
Ashigaru-san assentiu lentamente.
— Sabe, eu sempre quis trazer mais emoção para o cenário competitivo de Atafami.
Seus olhos, apesar de tranquilos, ardiam de paixão.
— Mas, se são sempre os mesmos jogadores fortes lutando entre si, acaba ficando repetitivo. Claro que tem gente que gosta de ver os melhores se enfrentando o tempo todo, mas o público casual acaba se entediando.
Ele expunha seus pensamentos com fluidez, quase como se estivesse fazendo uma apresentação.
— Então, eu estou esperando que novos talentos apareçam.
Eu já começava a entender para onde aquela conversa estava indo.
— Então, nanashi-kun… quero que você participe do torneio.
— E-Eu imaginei… mas, se for só isso, acho que posso.
— Oh! Vamos ver o Brain em ação! — os olhos da Mimimi brilharam.
Mas então o olhar e as palavras do Ashigaru-san se voltaram numa direção inesperada.
— E você é a Mimimi-san, certo?
— Hã? Eu?
Totalmente pega de surpresa, Mimimi arregalou os olhos. O que ele ia dizer pra ela? Ela é só a presidente interina do conselho estudantil, sabia?
— Desde o momento em que te ouvi falar pela primeira vez, eu pensei… sua voz é perfeita para transmissão ao vivo.
— Hã?
— Sua voz projeta muito bem, você tem ótima dicção, e o jeito que fala tem ritmo. Seria perfeita para comentários. No cenário competitivo de Atafami, quase não há mulheres, e isso é uma grande lacuna.
— E-Espera, você quer dizer que…
Visivelmente abalada, Mimimi olhou ao redor. De fato, observando a plateia, a proporção entre homens e mulheres era esmagadora — algo como nove para um, se não pior.
— Exatamente. Eu gostaria que você ajudasse um pouco.
— M-Mas eu nunca joguei Atafami antes…!
— Você conhece o termo miri-shira?
Ashigaru-san continuou com naturalidade, ignorando as objeções da Mimimi e mantendo total controle da conversa — uma habilidade bem adulta.
— Miri-shira?
— É uma gíria da internet que se refere a alguém que não sabe absolutamente nada sobre algo. Existe até uma cultura em torno de assumir essa ignorância e transformá-la em entretenimento.
Mimimi parecia ainda mais confusa. Eu entendia o termo, mas quem não vive muito na internet dificilmente conheceria.
— E a partir disso surgiu um gênero chamado "comentário miri-shira".
Nesse ponto, eu entendi completamente onde ele queria chegar.
— Em resumo, é quando alguém que não entende nada do jogo comenta a partida, e a graça vem justamente da falta de noção. É um gênero bem popular.
Finalmente, Mimimi pareceu compreender.
— Então, Mimimi-san… que tal você fazer uma rodada de comentários, dizendo tudo o que vier à sua cabeça?
Ashigaru-san lançou um olhar para a mesa de comentários, onde estavam os equipamentos de transmissão e o microfone.
— Ao meu lado, naquela mesa.
— Eeeehhh!?
*
— E agora, para a próxima partida, teremos um projeto experimental: vamos ver o que acontece quando uma garota do ensino médio, que não entende muito de Atafami, tenta comentar uma partida! Eu sou o Ashigaru, seu comentarista.
— A-Ah, muito obrigada pelo convite!?
Mimimi havia sido jogada numa missão absurda.
— Bom, ela não vai entender muita coisa no começo, então peço a compreensão de todos. Mimimi, por favor, se apresente.
— Me apresentar!? Ah, tá… eu sou a Mimimi e vou comentar essa partida… é isso, né!?
— Está indo bem. A Mimimi é colega de classe do nanashi-kun, o famoso jogador de Atafami do ensino médio, e hoje veio aqui me pedir para dar uma palestra no evento de orientação profissional da escola dela, certo?
— Isso mesmo! E aí você disse que a condição pra aceitar a palestra era essa!
— Ha-ha, não revele os bastidores. Enfim, pessoal, a Mimimi é totalmente iniciante em Atafami, então peguem leve com ela. Ah, e não vamos mostrar o rosto dela na transmissão, então desculpem por isso.
Mimimi estava sendo arrastada para algo gigantesco como parte da continuidade da história da Hinami, a presidente perfeita do conselho estudantil. Ser presidente interina deve ser difícil. Ainda bem que eu sou só o cérebro por trás das cortinas.
— Não peguem leve comigo! Eu realmente não sei nada!?
— É isso que torna divertido. Bom, é só por essa partida, então dê o seu melhor.
— O-okay!? Mas o que exatamente eu tenho que fazer!?
— E agora, a próxima partida, o TOP 8. Enfrentando o campeão online que faz hoje sua estreia offline, nanashi-kun, temos Kevin, o jogador de Jake. Mimimi-san, o que você acha?
— Eh!? Ah…
Mimimi hesitou por um instante, depois decidiu se jogar.
— Espero que o nanashi-kun ganhe! Ele é meu amigo!
— Obrigado pela opinião totalmente imparcial.
Com a resposta calma do Ashigaru-san, a plateia caiu na risada. A espontaneidade da Mimimi combinada com a serenidade do Ashigaru-san formava uma dupla surpreendentemente boa.
E assim, Mimimi acabou comentando a minha partida. Eu não sabia dizer se a presença dela facilitava, por me dar uma sensação de "campo de casa", ou se atrapalhava por ser tão distrativa.
A partida começou, e eu controlava o Jack, acertando um ataque de investida no oponente.
— Uau! Um soco no estômago! Isso deve doer muito!
— Só causa dano, mas… dito assim, realmente parece doloroso…
— Com certeza doeu! Foi um golpe pesado!
As observações inocentes da Mimimi arrancaram mais risadas da plateia.
Mantendo o foco, eu tirei a primeira vida do oponente.
— E o nanashi-kun assume a liderança.
— Ah, Ashigaru-san! Tenho uma pergunta!
— Diga.
— Esses personagens… Jack e Jake, né?
— Sim.
— Por que eles estão lutando?
— Hã… porque é um torneio?
Ashigaru-san respondeu, um pouco confuso, mas Mimimi exclamou animada:
— Não é isso! Quero dizer, eles têm alguma história pessoal entre si?
— Não… acho que não…
— O quê!? Não têm!? Isso é terrível! Uma luta sem motivo só traz tristeza!
— Eu nunca imaginei ouvir uma discussão filosófica durante uma partida de torneio.
Mais uma vez, o público caiu na gargalhada. No monitor distante, que eu conseguia ver de relance, os comentários se enchiam de "LOL" e "kkkk". Isso é real? Pessoas boas de comunicação na vida real também são fortes na internet?
A partida avançava e—
— Ai não, o Brain!! Ele tá bem!?
— O brain?
— Ops, falei errado! Brain!! Se continuar assim, a Fuka-chan vai—!
— Fuka-chan?
— Ah…
Enquanto continuava jogando, percebi algo com absoluta clareza. Isso não era vantagem de jogar em casa. Era completamente… distrativo.
Felizmente, consegui vencer aquela partida, já que a diferença de habilidade entre mim e meu oponente era grande. Então, foi bom… eu acho. Mas será que foi mesmo?
*
Alguns minutos depois.
— Fumiya-kun, bom trabalho.
— Valeu.
— E você, Nanami-san… sério, parabéns!! Você foi incrível!!
— O-Obrigada…!
— Por que ela está recebendo mais elogios do que eu?
Kikuchi-san nos recebeu quando eu e a Mimimi terminamos a partida e os comentários.
— Bom trabalho, vocês dois. Desculpa, Mimimi-san, por te prender tanto tempo depois daquilo.
— Sem problemas! Fui me acostumando no meio do caminho!
— Eu sofri bastante por causa disso, por outro lado…
Bem, considerando que a imagem do nanashi já estava mudando mesmo, acho que estava tudo bem. Além disso, os comentários da Mimimi foram um sucesso tanto com o público presente quanto na transmissão ao vivo.
Quando ela saiu da mesa de comentários, ainda houve gritos de lamentação. De onde ela está tirando esse talento?
— Mesmo não sendo um torneio grande, o número de inscritos no canal disparou, e os organizadores ficaram radiantes.
— He-he-he, finalmente o mundo reconheceu meu charme — disse Mimimi, com um ar convencido, alisando uma barba imaginária.
Mas, como o Ashigaru-san disse, ela realmente tinha uma voz poderosa e uma presença marcante. Talvez fosse mesmo feita para transmissões ao vivo. Espera… eu estou perdendo para a Mimimi em habilidades de streaming?
— Então, nanashi-kun, como foi seu primeiro torneio offline?
— Bom… — respondi, com sentimentos mistos. — Sinceramente, tenho muitos arrependimentos…
Esse torneio acabou sendo comentado na comunidade por marcar a estreia offline do nanashi, o número um do ranking online.
Depois de vencer a partida com a narração da Mimimi, perdi a seguinte — nas quartas de final.
Considerando que era um torneio de pequeno a médio porte, eu queria ter ido mais longe. Mas ficar em quarto lugar no meu primeiro torneio offline não é um resultado ruim.
— Eu estou falando sério sobre me tornar um gamer profissional.
Ashigaru-san assentiu em silêncio.
— Mas… talvez por não estar acostumado com torneios presenciais, apareceram personagens para os quais eu não estava preparado, e sinto que não consegui me concentrar o suficiente. Eu queria um resultado melhor… pelo menos um segundo lugar, se não o título.
Pode soar arrogante, mas eu sempre mantive o primeiro lugar online. Mesmo dizendo "segundo lugar", se eu tivesse ficado em segundo, provavelmente teria ficado frustrado por não ter vencido.
— Resultados, né…
Repetindo minhas palavras, Ashigaru-san cruzou os braços e pensou por um instante.
— Nanashi-kun, talvez você esteja pensando demais.
Ele disse isso como se tivesse chegado a uma conclusão.
— Pode esperar um momento?
Então ele se dirigiu a um dos participantes que nos observava à distância.
— Shimaji-kun, agora você pode falar com ele.
— A-ah, s-sério!? Posso mesmo!?
Um garoto, provavelmente alguns anos mais novo do que eu, se aproximou nervoso, olhando quase exclusivamente para mim.
— Hum… quem é ele? — perguntei.
O garoto chamado Shimaji-kun falou com hesitação:
— É… você é o nanashi, né…?
— S-Sou, sim…?
Olhei para o Ashigaru-san em busca de explicação.
— Ele costuma vir aos torneios e conversar comigo. Já acompanha você online há bastante tempo.
— O quê…
— E… por causa do jeito que o nanashi joga, eu comecei a participar de torneios recentemente…
— E-entendi…
Sem saber muito bem como lidar com aquela distância estranha, respondi de forma vaga.
Então ele é… meu fã, eu acho?
— Eu ainda sou iniciante. Normalmente só chego à primeira ou segunda rodada em torneios pequenos e sou eliminado logo em seguida… Mas eu quero lutar contra o nanashi-san em um torneio algum dia!
— Obrigado.
— Eu realmente… adoro a forma como você usa o Found e o Jack… ah…
As palavras saíram meio emboladas, mas eram sinceras — e talvez por isso mesmo soassem ainda mais verdadeiras. Aquilo era uma novidade para mim.
— Eu queria que ele te visse jogar hoje, então chamei ele pra vir — disse o Ashigaru-san, e o Shimaji-kun assentiu.
— O Ashigaru-san me contou que você talvez participasse, mesmo não estando listado como competidor.
— O quê?
Surpreso, olhei para o Ashigaru-san.
— Fui descoberto. Bom, achei que você ia querer mostrar sua partida pra ele.
— Você planejou isso desde o começo!?
Que estrategista… Ashigaru-san abriu um sorriso torto.
— Mas… me desculpa, eu só cheguei ao TOP 4.
— Não tem nada pra se desculpar! Na verdade, por favor, não se desculpe!
— Hã?
Fiquei surpreso, e o Shimaji-kun continuou, com uma voz cheia de sinceridade:
— Porque, mesmo sem se forçar demais, você leu a partida até o fim. Você jogou do jeito que sempre joga, nanashi!
Com os olhos brilhando, ele me olhava como se eu fosse algum tipo de herói. Aquilo também era uma novidade pra mim.
Senti como se um vento atravessasse meu peito. Mas talvez por causa da minha natureza torta — ou do meu espírito competitivo — eu não consegui aceitar totalmente aquele elogio.
— S-Sério…? Mas, sabe… a comunidade de Atafami pode ser bem dura… talvez estejam dizendo que eu não fui bem no offline…
Eu não queria dizer algo tão negativo, mas as palavras simplesmente saíram. Era modéstia? Humildade? Ou só cinismo mesmo?
Mas o Shimaji-kun não pareceu se abalar nem um pouco.
— Não é verdade! Olha só!
Ele puxou o celular e me mostrou a tela. Eram comentários sobre minha partida.
O controle dele é tão suave. Isso é o Atafami que a gente admira.
Se ele já é assim no primeiro torneio offline, imagina quando se acostumar.
Bonito e forte no Atafami? Dá até inveja, kkk.
A gameplay do nanashi ainda é deslumbrante. Acho que vou começar a usar Found.
As palavras na tela estavam me validando. Alguns comentários ainda mencionavam minha aparência, o que era até meio engraçado.
— Isso…
— Por isso estou ansioso pelo próximo torneio! Se for você, nanashi-san, sei que vai se adaptar ao offline rapidinho!
— É. Obrigado.
O que é isso? Ele veio até mim dizendo que era meu fã, mas, de alguma forma, sou eu quem está sendo encorajado aqui.
— Bom, vou continuar torcendo por você!
Com um sorriso radiante, o Shimaji-kun se afastou, claramente feliz por ter falado comigo. Eu fiquei ali, parado, atônito com tudo aquilo.
— Agora você entende?
— Entender o quê?
Depois de um tempo, Ashigaru-san falou, como se estivesse me ensinando uma lição.
— Atrair pessoas não é só uma questão de ser forte.
Kikuchi e Mimimi ouviam com os olhos arregalados.
— Quando se fala em gamer profissional, muita gente acha que é só buscar força e resultados, que sem isso não dá pra se tornar alguém carismático. Claro, ser forte é essencial — sem isso, não há credibilidade. Mas não é só isso.
De fato, só hoje eu tinha visto vários exemplos. Jogadores bem ranqueados e habilidosos que caíram na primeira rodada. Jogadores que foram para a repescagem logo na primeira luta e depois voltaram com seis vitórias consecutivas. Jogadores que, frustrados com uma partida difícil, quase bateram o controle na mesa na semifinal, mas depois refletiram sobre suas atitudes.
Não é só sobre ser forte ou fraco. Cada um tem sua própria história.
— O que atrai as pessoas não é apenas a força, mas a história que aquela pessoa carrega.
A confiança em sua voz provavelmente vinha de suas próprias experiências.
— As pessoas se apaixonam, respeitam e até se dedicam à história do que alguém pensou, do esforço que fez e dos resultados que alcançou. Claro, para um profissional, ser forte é um pré-requisito. Mas…
Ashigaru-san manteve o olhar fixo em mim.
— As pessoas não conseguem confiar seus corações a alguém que é apenas forte.
Então ele olhou ao redor do local.
— Ser um gamer profissional é se tornar uma história que atrai os outros. Esse é o trabalho.
Suas palavras atingiram algo bem no fundo de mim.
— Ah!
Quem interrompeu foi a Kikuchi.
— Ashigaru-san, por que você decidiu se tornar um gamer profissional?
Será que ela sentiu intuitivamente que havia algo a aprender ali? Seus olhos estavam sérios.
— Um motivo?
— Sim…! Eu ainda não decidi meu futuro, e depois de ouvir o que você disse, quis saber mais.
— Ah, entendi.
Ashigaru-san pareceu um pouco surpreso com o fato de a Kikuchi-san, que até então estava quieta, agora se inclinar para frente com tanto interesse. Logo depois, ele sorriu com suavidade.
— Isso é tipo a sessão zero de uma pesquisa de carreira?
— Ahaha, é mesmo.
Ao me ver rir, Ashigaru-san ergueu uma sobrancelha com orgulho e começou a falar devagar.
— Eu acho que os motivos mudam com o tempo.
— Eles mudam…?
Kikuchi assentiu, interessada.
— Eu costumava me achar uma pessoa egoísta. Enquanto eu ganhasse, não me importava com quem perdia. Bom, no mundo competitivo, muita gente pensa assim, em algum nível.
— Ha-ha, eu também sou assim — concordei de lado.
— Mas, em algum momento, eu comecei a perceber. Conforme meu nome ficou mais conhecido, mais pessoas passaram a me acompanhar, e algumas até se diziam minhas fãs. No começo, isso parecia estranho, distante de quem eu era.
Aos poucos, fui sendo puxado pelas palavras dele, porque eu acabara de viver algo parecido.
— Quando as pessoas me diziam que começaram a jogar Atafami porque me admiravam, ou que queriam se tornar profissionais usando o Lizard depois de verem minhas partidas, isso me deixou inesperadamente feliz. Mesmo eu sendo meio áspero no início e achando isso cafona.
— Não tem nada de cafona nisso — disse Kikuchi, hesitante.
Ashigaru-san sorriu levemente e continuou.
— Mas quando eu estava numa situação difícil num torneio, achando que não dava pra vencer ou se recuperar, começava a pensar que era inútil… e minha motivação vacilava.
Ele falou isso com um ar um pouco envergonhado.
— Aí vinham à minha mente os rostos dos meus fãs e as palavras deles. A confiança que eles depositavam em mim.
Só alguém que esteve constantemente diante de outras pessoas, inspirando-as, poderia dizer algo assim. Percebi que eu também começava a sentir isso — ainda que só um pouco.
— De fato, as pessoas podem ficar mais fortes ao aspirar ser como alguém que admiram. Mas—
Ashigaru-san olhou para a própria palma da mão e murmurou:
— Tornar-se alguém admirado e carregar as expectativas dos outros também pode te tornar mais forte.
— Carregar expectativas… — repeti, sentindo o peso daquilo.
— Então, se você ainda não tem certeza do motivo para seguir em frente, pode encontrar essa resposta enquanto caminha. Eu acho isso totalmente válido.
*
— Obrigado por hoje. Nos vemos na pesquisa de carreira.
— Sim! Muito obrigada!
— Eu vou tentar jogar Atafami também!
— Bom trabalho hoje…!
Depois de nos despedirmos do Ashigaru-san, eu, Mimimi e Kikuchi entramos na Linha Saikyō.
Primeiro, mandei mensagem para a Haruka-chan avisando que o convidado para a pesquisa de carreira estava confirmado. Depois, me sentei no trem relativamente vazio. Espero que isso a deixe mais tranquila.
— Hoje foi bem produtivo, não foi?
— Foi.
Mimimi franziu os lábios pensativa enquanto eu falava, ainda imersa nas palavras que ficaram ecoando.
— Sabe… o que o Ashigaru-san disse lembra um pouco o que a Aoi falava.
— É.
Enquanto eu assentia, sentindo o clique da realização, Kikuchi, que escutava atentamente, acrescentou:
— As pessoas se tornam alguém que outros admiram…
— Exato! — Mimimi apontou para Kikuchi.
Lembrei das palavras do Ashigaru-san e da voz do fã que se aproximou de mim. A luz que atrai alguém, vira um farol, guia como um farol no meio do escuro.
— Pelas palavras do Ashigaru-san, a Aoi sempre foi uma gamer profissional.
Fiquei surpreso com o que a Mimimi disse.
Se ser um gamer profissional é se tornar uma história que atrai os outros, então a existência da Aoi Hinami era especial para a Haruka-chan e para pessoas como a Mimimi, que a admiravam. De certa forma, elas eram fãs da Aoi. A Aoi sempre foi aquilo que eu busquei ser.
— Ela definitivamente é uma gamer profissional.
Mas… profissional de qual jogo?
A resposta era óbvia.
O jogo da vida.
— Eu me pergunto o que a Aoi usava como guia antes de perder isso.
Tentando preencher o vazio, falei:
— O exemplo que ela seguia… o sol da Aoi Hinami.
Eu não estava satisfeito com o quarto lugar no torneio, mas o garoto que disse ser meu fã e os comentários positivos online deram um novo significado ao resultado que eu considerava insuficiente.
O resultado que eu não alcancei foi validado pelas palavras que vieram depois.
Era gentil, confortável… mas talvez também afastasse da vitória. Senti que ali havia uma pista para entender o que a Aoi havia perdido.
Porque essa abordagem era o completo oposto da forma como a Aoi acumulava causas para produzir resultados.
— Acho que ela perdeu o deus dela.
As palavras da Kikuchi ecoaram na minha mente.
— Se as palavras que davam sentido aos resultados da Aoi eram o sol dela, o deus dela, então…
Devia ser algo vindo daquela família um pouco estranha que a Haruka-chan mencionou. Era o sol dela, o deus dela, a razão dela.
E se isso tivesse desmoronado e se quebrado…
Mesmo começando a enxergar o contorno disso tudo, eu sentia que ainda faltava uma prova decisiva.
— Naquele momento…
Meu smartphone vibrou com uma notificação.
— Ah!
— Fumiya-kun?
Percebendo minha reação, Kikuchi me chamou, mas eu estava encarando a mensagem. Era uma mensagem no LINE da Haruka-chan.
— Desculpa, vocês dois.
Era algo que nossos esforços haviam trazido à tona — a continuação da história da heroína perfeita quebrada.
Obrigada pela questão do conselho estudantil.
Tem algo que eu quero conversar com você, Tomozaki-san.
— Eu preciso ir a um lugar.
E parecia estar ligado ao passado, antes da perfeição.
*
Alguns minutos depois.
— Desculpa por fazer você esperar.
Eu estava em um parque perto da casa da Hinami.
Haruka-chan, sentada em um banco, tinha um olhar meio perdido, mas ao mesmo tempo parecia ter se decidido.
— Tomozaki-san, me desculpa por não ter respondido antes.
— Tudo bem. Não tem problema — falei num tom gentil e sorri. — O que você queria conversar?
Haruka-chan respirou fundo e, após uma breve pausa, começou:
— É sobre o que a Fuka-oneechan disse…
— Sim?
— Ela disse… que tudo tinha se estilhaçado.
Tudo havia se despedaçado em fragmentos. Ela não repetiu exatamente as palavras da Kikuchi — talvez por sentir que dizê-las em voz alta a machucaria.
— O que ela quis dizer com isso?
Quando eu incentivei, Haruka-chan começou a explicar.
— No começo eu achei que fosse sobre uma certa pessoa.
— Uma certa pessoa…?
Provavelmente eu sabia de quem ela falava. Haruka-chan se levantou devagar do banco.
— Hum… você vem comigo?
— Ir aonde?
Haruka-chan começou a caminhar em passinhos curtos.
— É logo ali…
*
Chegamos a um trecho comum da rua, não muito longe do parque. Mas havia uma coisa que se destacava. Perto de um poste, tinham colocado flores lindas — vermelhas, brancas e roxas.
— Esse lugar… será que…
O jeito da Haruka-chan, o que eu sabia do passado, e a cena diante de mim — tudo se conectou na minha cabeça, quase como uma certeza.
— É aqui que aconteceu o acidente com a sua outra irmã…?
Haruka-chan me encarou, de olhos arregalados, e ficou imóvel por um instante.
— Você sabe disso também? Pela Aoi-oneechan?
— Sei — respondi, assentindo com sinceridade.
— Entendi.
Por algum motivo, mesmo com lágrimas nos olhos, Haruka-chan sorriu, como se estivesse aliviada.
— Que bom.
A expressão dela parecia a de quem segurava algo pequeno e precioso.
— Que bom… o quê? — perguntei, tomado por um incômodo estranho.
Haruka-chan deu um sorriso fraco e respondeu:
— Eu nunca consegui falar com a Aoi-oneechan sobre aquele incidente…
A pálpebra inferior dela tremeu levemente enquanto falava.
— Sempre que eu tentava tocar no assunto, ela ficava tão angustiada que a gente não conseguia conversar…
Lágrimas escorreram enquanto ela sorria, todo amassado.
— Pensar que agora existe alguém que pode falar da Nagisa-oneechan comigo…!
…!
Eu não achei palavras. Haruka-chan devia carregar uma solidão que eu nem conseguia imaginar, mesmo enquanto admirava a Hinami.
— Quando a Fuka-oneechan disse aquilo, eu achei que ela estivesse falando do acidente. Só de lembrar, eu fiquei tão triste e doeu tanto que eu não aguentei…
Haruka-chan olhou com carinho para as três flores colocadas ali.
— Mas… parecia ser outra coisa.
— Como assim…?
O acidente que levou sua irmã, a palavra "estilhaçado" e a mudança repentina da Aoi Hinami — tudo parecia se ligar numa linha simples e direta. Ainda assim, havia uma pequena sensação de incoerência.
— Talvez o que tenha se estilhaçado não tenha sido alguém… ou algo assim.
Uma rajada de vento soprou. Entre as flores, as pétalas roxas mais marcantes foram levadas pelo céu.
— O que se estilhaçou foi… tudo.
Os olhos dela escureceram, como se refletissem o passado. Eu já tinha visto traços da Hinami no jeito da Haruka-chan muitas vezes. Mas agora os olhos dela pareciam os da Aoi quando tinha desistido de tudo e se deixado envolver pela escuridão.
— Quando você diz "tudo"… quer dizer o quê…?
Eu não conseguia entender exatamente o que Haruka-chan chamava de "quebrado". Mas, de algum modo, eu sentia que compreendia a estrutura por trás daquilo.
— A história em que a sua família acreditava… é isso?
Após uma pausa, como se estivesse digerindo minhas palavras, Haruka-chan perguntou:
— O quanto você sabe?
— Nada… além do que a gente acabou de falar. Eu não sei que história é essa, nem por que a Aoi acreditava nela. Eu não faço ideia.
Eu realmente não sabia. Ali era o meu limite.
— Mas… eu sinto que entendo.
— Como…?
Provavelmente porque eu vinha pensando na Aoi nas últimas semanas. Eu tinha visto com meus próprios olhos várias histórias de "razões para acreditar". E tinha entendido um pouco sobre a responsabilidade de ser alguém em quem os outros depositam fé.
— E tem mais uma coisa importante…
— É porque…
Olhando pra trás, eu tinha evitado isso o tempo todo. Ou talvez eu tivesse entendido, mas tentado me convencer de que não era verdade.
— A sua… irmã…
As palavras pesaram na língua.
— Aoi… Hinami…
Eu não queria dizer. Eu não queria colocar em voz alta.
— Aoi Hinami é uma personagem fraca.
Pela primeira vez, eu disse isso. As palavras, que perfuraram meu peito, me fizeram tentar sorrir com gentileza.
Eu não queria acreditar que a maga que tinha colocado cor no meu mundo fosse fraca. Eu queria respeitar a pessoa que me pegou no nível um e me levou até alguém capaz de ter amigos, uma namorada, e se conectar de verdade com os outros.
Era a primeira vez que eu encarava de frente a fraqueza dela.
— Talvez por isso… ela tenha me dado aquilo—
Como eu tinha vivido algo parecido, eu conseguia colocar em palavras.
A vida que eu achava errada ganhou significado quando eu virei o melhor do Japão em Atafami. O resultado com o qual eu estava insatisfeito foi tingido pelas vozes de quem torceu por mim.
O jogo que eu achava uma porcaria virou um jogo divino pelas mãos da maga.
Eu tinha recebido muitas razões para acreditar daquela magia.
— Uma razão para acreditar em si mesmo… vinda de alguém importante pra você.
Eu ouvi nitidamente o som dela engolindo em seco. O silêncio que se seguiu pareceu confirmar meu palpite.
Por fim, Haruka-chan, como se algo além do limite tivesse transbordado, começou a falar devagar.
— Lá em casa era assim — disse ela, baixinho. — Acontecesse o que acontecesse, a gente era ensinado que ia ficar tudo bem. Tudo era afirmado, o bom e o ruim.
As lágrimas voltaram a se formar nos olhos da Haruka-chan.
— Era uma casa tão brilhante… acontecesse o que acontecesse, dava pra seguir em frente… e não havia necessidade de mudar quem a gente era.
Na superfície, podia soar apenas como uma história positiva sobre uma família acolhedora.
Mas—
— Entendi…
Fazia sentido. Porque aquilo parecia encaixar com um dos aspectos centrais da Aoi Hinami que eu conhecia.
— É o contrário, não é?
Ela precisava de uma razão para cada ação que tomava. Se essa era a essência da Aoi Hinami—
— A Hinami que eu conheço acumula as próprias razões e produz resultados a partir delas.
E só uma estrutura simples se destacava.
— Ela acreditava apenas no esforço que já tinha estabelecido de antemão.
Eu queria pensar…
Que por trás da Aoi Hinami, a encarnação do autoaperfeiçoamento, havia uma escuridão sem fim. Eu queria acreditar que o único capaz de resolver aquilo era o top player nanashi, alguém que podia entendê-la de igual para igual.
Eu queria acreditar que a Aoi Hinami era especial, forte, brilhante.
— Mas no começo não era assim, era?
Por isso eu não tinha percebido até agora que a motivação inicial dela era mesquinha, infantil e—
— incrivelmente fraca e cheia de desculpas.
— No início, ela só acreditava nas palavras dos outros que a afirmavam depois.
Mesmo dizendo isso, fui atingido pela fraqueza esmagadora que aquelas palavras carregavam.
A magia era quente, gentil e confortável.
Acima de tudo, podia ser uma razão poderosa para acreditar. Mas, se alguém se agarrasse apenas a isso, em algum momento—
Chegaria o dia em que a velocidade da realidade deixaria as palavras para trás.
— Sim… e então, depois de perder tudo—
Justo quando a Haruka-chan ia continuar—
— Ei, você…!
Uma voz familiar — uma voz que eu queria ouvir fazia tempo — chegou aos meus ouvidos. Era clara, confiante… mas agora também cansada.
— O que você está fazendo com a Haruka-chan…?
Quando me virei na direção da voz—
— Hinami.
Lá estava a Aoi Hinami, que eu não via há tanto tempo.
— Oneechan.
Haruka-chan encarou Hinami como se não acreditasse.
— Haruka-chan…
O cabelo sem brilho, as roupas gastas, e a boca caída, de um jeito nada elegante — tudo nela estava longe da heroína perfeita que ela costumava ser.
Aquela atmosfera me era familiar — lembrava o cara que eu via no espelho depois de me afastar dela nas férias de verão.
Hinami, baixando o olhar com fraqueza, mordeu o lábio.
— Desculpa.
A expressão e o tom estavam esmagados pela culpa.
— Desculpa por mostrar um lado tão… nada legal…
Haruka-chan a admirava. Dizia que queria ser como a irmã. Mesmo que ela nunca tivesse dito isso diretamente, Hinami provavelmente sabia. Ela parecia miserável, patética, como se quisesse fugir dali imediatamente.
Mas—
Haruka-chan olhava para outra coisa agora.
— Oneechan, escuta!
Com os olhos desesperados e determinados, ela tentou transmitir seus sentimentos.
— Eu sempre te admirei e sempre quis ser como você…!
As palavras vinham carregadas de paixão verdadeira.
— E outro dia eu consegui virar presidente do conselho estudantil…!
...!
Era como se ela estivesse relatando sua maior conquista à pessoa cuja aprovação mais desejava.
— Eu não sou tão habilidosa quanto você, então eu me esforcei muito na campanha e pedi ajuda pra muita gente. E eu consegui. Eu só queria ser como você… por isso eu me forcei.
A voz dela tremia de emoção enquanto dava passos instáveis em direção à Hinami, tentando fazer suas palavras chegarem.
— E sabe de uma coisa? O trabalho do conselho que você não conseguiu fazer por causa da sua saúde… o Tomozaki-san e os outros estão fazendo tudo por você… sabe?
— Hã…
Quando ela olhou para mim, confusa, havia surpresa nos olhos.
— Por isso… tá tudo bem, entendeu…?
As palavras da Haruka-chan começaram, pouco a pouco, a desfazer a expressão da Hinami.
— Você pode voltar a ser você mesma, Oneechan. Tá tudo bem…!
Passo a passo, ela se aproximou, com passos ainda trêmulos.
— Então, Oneechan…
Os dedos dela tocaram a bochecha da Hinami, agora sem a máscara.
— Vamos conversar bastante de novo, tá? Eu quero ouvir todas as suas histórias legais, Oneechan…!
Eu sentia o calor e o peso daquelas palavras.
— Senão… eu nem sei o que eu vou fazer…!
Para a Haruka-chan, a Aoi Hinami não era uma luz falsa. Era um sol real, radiante, insubstituível.
— Haruka-chan.
— Tomozaki…san?
Haruka-chan ergueu o rosto do peito da Hinami quando ouviu minha voz.
— Você pode deixar o resto comigo?
— Mas…
Haruka-chan olhou para mim, inquieta. Eu sorri.
— Vai ficar tudo bem.
A vida é difícil, e não existe certeza absoluta — eu sei disso.
Mas…
— Vai ficar tudo bem. Com certeza.
Eu tenho tanta certeza disso quanto tenho sobre Atafami.
— Porque eu amo a Hinami tanto quanto você ama.
*
— Então era você.
Hinami falou, num tom exasperado.
— Eu achei que a Haruka-chan andava saindo muito ultimamente… aff.
Aparentemente, a Haruka-chan vinha saindo de casa sem avisar a família, e eles estavam preocupados com a possibilidade de ela ter se envolvido em algo perigoso. No mundo de hoje, em que é fácil se conectar com adultos pelas redes sociais, era compreensível que ficassem apreensivos ao vê-la sair sem permissão.
— Chegaram até a surgir rumores no bairro… de que um cara suspeito ficou rondando a nossa casa por mais de uma hora.
— Minhas mais sinceras desculpas.
Será que eu não ando mesmo parecendo uma pessoa suspeita ultimamente? Se eu tivesse sido pego, já estaria acumulando condenações suspensas.
Hinami suspirou. Mas até aquele suspiro me deixou feliz.
— Por que você está fazendo isso?
Ela provavelmente já sabia a resposta, mas o tom da pergunta era incerto. Afinal, tinha sido ela quem dera início a esse comportamento estranho.
— Bem… porque eu não conseguia entrar em contato com você.
— Mas, mesmo assim… entrar em contato com a minha família sem permissão não vai contra as regras?
O olhar desviado dela provavelmente refletia culpa.
— Vai. Mas… você sabe, né?
Ao ver aquela expressão fraca, eu sorri. Sempre que estava diante dela, mil palavras desnecessárias me vinham à mente.
— O nanashi é um cara que dobra as regras.
Agora mesmo, eu estava quebrando várias. Se a outra pessoa não quer, você não deve se intrometer em áreas pelas quais não pode assumir responsabilidade. Não deve forçar os outros a se encaixarem nos seus desejos ou no seu ego. Não deve ferir alguém importante para você. Eu estava entortando essas regras básicas da vida para atirar minhas palavras contra ela.
— É.
Os olhos semicerrados dela pareciam enxergar um mundo sem cor.
— Eu sou exatamente o oposto.
A expressão da Hinami, como se traçasse uma linha clara, vinha tingida de solidão.
— Eu não consigo respirar sem regras.
As palavras, expostas sem disfarce, não tinham nenhum verniz de força. Isso me deixou triste — e, ao mesmo tempo, incrivelmente feliz.
— Verdade.
Eu confirmei.
— Você sempre dependeu de regras.
— Eu vou ferir a Aoi Hinami.
Essa era a minha intenção. Era por isso que eu estava ali.
— Por que você—
— Eu entendo — interrompi. — Eu pensei em você o último mês inteiro. Ouvi a Haruka-chan, pensei de novo e de novo… e finalmente cheguei até aqui.
— Em algum ponto, tudo desmoronou.
Por ter conhecido a história da irmã dela por entrevistas e também ouvido sobre isso da própria Hinami, eu fiquei preso a ideias fixas e não conseguia chegar à resposta.
— Quando você disse que tudo tinha desmoronado, não estava falando da sua irmã.
Eu tinha assumido que "desmoronar" se referia à morte da outra irmã. Mas depois de ouvir as histórias de todos sobre suas razões para acreditar, e agora escutar a Haruka-chan, tudo se encaixou.
— Era sobre o seu sol.
Vi Hinami morder levemente o lábio. O que se quebrou não foi alguém. Foi uma razão.
— Você sempre acreditou em uma coisa só.
Isso devia ser parecido com ter as engrenagens quebradas de forma irreversível.
— Palavras positivas que davam significado aos resultados e faziam o mundo brilhar.
Eu enfiei a mão fundo em lugares que ela não queria que fossem tocados, puxei tudo para fora e transformei em palavras.
— Mas quando isso se quebrou, você não conseguiu mais dar significado aos dias por conta própria. Não importava o que você fizesse ou o que acontecesse — só sobravam resultados vazios.
Causa e efeito. Resultado e significado. Pareciam parecidos, mas a ordem e o que produziam eram completamente diferentes.
— Foi por isso que você tentou resolver tudo sozinha.
O senso extremo de responsabilidade pessoal da Aoi Hinami. A postura inicial dela, tão dura que feria quem ouvia — me chamando de fracassado. Culpando a si mesma por ser introvertida, inútil, por não se esforçar o suficiente. No começo, eu achava que era só porque a Hinami tinha vencido pela autoajuda e queria empurrar essa história de sucesso para os outros. Mas não era isso.
A verdade da Aoi Hinami era—
— Se você assumir responsabilidade pelos resultados, pode acreditar que tudo o que conquistou foi graças ao seu esforço.
….!
O vazio acumulado. O buraco deixado pelos significados dados depois dos fatos. Quando tudo se quebrou, esse foi o único lugar ao qual ela pôde se agarrar.
— Você acreditou que tudo — desde ser popular até ganhar jogos, desde ir bem nos estudos e nos esportes até ir mal, até mesmo o que parecia sorte — era responsabilidade sua.
Esse era o caminho para o qual o individualismo da Aoi Hinami estava indo. A essência da responsabilidade extrema que ela carregava.
— Foi assim que você passou a acreditar que conquistou tudo sozinha.
Enquanto eu falava, meu palpite virava certeza.
Em outras palavras — ser uma gamer fiel. Aoi Hinami perseguiu isso com uma obsessão quase fanática. Foi por isso que ela cresceu de forma tão anormal, provavelmente ao custo de um enorme vazio.
— Então, se tudo dava certo, era todo o seu valor. Não tinha nada a ver com fatores externos como sorte ou ambiente. Quanto mais você acreditava na responsabilidade pessoal, mais conseguia usar seu esforço e ligar os resultados à sua autoconfiança.
Como se buscasse salvação nos próprios resultados.
— Porque, caso contrário, você não se sentiria satisfeita. Aoi Hinami não conseguiria se satisfazer.
Hinami, que ouvira tudo em silêncio, me encarava agora com um olhar cheio de hostilidade — mas também de ansiedade.
— O que há de errado nisso? Assumir responsabilidade por si mesma. É o mesmo pra você e pra mim. Eu não peço ajuda nem causo problemas a ninguém. É a minha vida, e ninguém tem o direito de reclamar—
— Tem, sim.
Eu afirmei com firmeza. Lembrei da conversa que tivemos ao pôr do sol, cercados por personagens que eu amava.
— Você mesma disse. Você não sabe por que sua irmã morreu. Existe um resultado, mas você não conhece a causa nem o motivo.
— E daí?
— Você não pode perguntar a ela diretamente, então nunca vai saber. É por isso que você não sabe como se arrepender.
Eu percebi que havia uma mentira na Aoi Hinami.
— A verdade é que não é isso, né?
….!
O rosto dela se contorceu de surpresa. As palavras e a réplica não vieram.
O que eu estava prestes a dizer provavelmente não estava errado.
— A verdade é que você já encontrou a resposta.
Era simples.
— Se você acredita que conquistou tudo sozinha—
Se você assume responsabilidade por tudo, pode acreditar que tudo o que conquistou veio de você. Assim, até um "eu" vazio pode ser preenchido com um valor imenso. Mas essa lâmina de dois gumes também pode cortar para o outro lado — e destruir o coração com um único golpe.
— Então você também acredita que é responsável por tudo o que perdeu, não é?
É expiação? Ou salvação pelo arrependimento? Ou talvez seja melhor do que nada. Eu não sei.
Mas—
— Como gamer individual—
Talvez esse seja o verdadeiro—
— Carma da Aoi Hinami.
— Você está tentando acreditar que tudo o que aconteceu com a sua irmã é sua responsabilidade.
Hinami apenas me encarou em silêncio.
— Mas escuta, Hinami.
Eu disse com sinceridade.
— O que você perdeu não é culpa sua. E o que você conquistou não é mérito só seu. Existe sorte, existe coincidência. Existem coisas neste mundo que estão fora do nosso controle.
Em termos simples, era nisso que eu acreditava.
— Neste mundo, mesmo que seja um jogo, ainda existem fatores aleatórios. Mesmo em um jogo perfeito, se você tiver azar repetidas vezes, seu esforço pode não dar retorno. Então… que tal tentar, aos poucos, largar um pouco do peso que você carrega?
Como a própria Hinami disse, o mundo pode ser como um jogo. Mas justamente por ser um jogo, você não pode fugir da sorte.
— Você não é vazia. E não precisa ser preenchida. Basta ser você mesma.
Dei um passo em direção a Hinami — um passo que eu não consegui dar naquela época.
— Então, que tal dividir um pouco seus sucessos e fracassos com os outros… e caminhar com menos peso?
Essa pessoa — nem preciso dizer quem é.
— Eu quero que você me conte sobre os fardos que carregou sozinha.
Estendi a mão para Hinami. Não como um punho para lutar, mas como uma mão para caminhar ao lado dela.
— Eu quero entrar na sua vida.
Um longo silêncio se seguiu.
Além de ela ser minha benfeitora, eu ainda não entendia completamente por que pensava tanto nela ou por que queria tanto me envolver. Mas havia uma coisa que eu sabia.
Para mim, ela era realmente especial.
Alguns segundos se passaram. Por fim, Hinami suspirou, como se tivesse desistido, e começou a falar baixinho.
— Eu, sabe…
— Hã? Você vai me contar?
Eu falei, quase decepcionado.
Hinami me lançou um olhar afiado e cuspiu as palavras:
— Se você falar coisas assim, eu não vou.
— N-Não, desculpa! Foi mal! Esquece o que eu disse! Por favor, conta!
Hinami suspirou de novo e começou a falar.
*
No inverno do quinto ano do ensino fundamental, Aoi Hinami amava tudo neste mundo.
Desde o momento em que nasceu até aquele instante, era mais difícil lembrar de momentos em que não tinha sido feliz, porque seu dia a dia era repleto de alegria. Cercada por sua mãe querida e por duas irmãs mais novas adoráveis, comendo todos os dias refeições caseiras deliciosas, vivendo em uma casa espaçosa e bonita, a uma certa distância da estação, e recebendo amor em abundância.
— Eu te amo. Você é perfeita do jeito que é. Obrigada por ter nascido.
Sua mãe, Yoko, repetia essas palavras tantas vezes que até o periquito da família aprendeu a imitá-las. Sempre que ouvia aquilo, o coração da Aoi se enchia, como se fosse explodir.
Se tentasse se lembrar de algo desagradável, vinha à mente uma briga com uma amiga da escola. Mas até isso estava misturado a lembranças felizes, então não chegava a ser tristeza de verdade.
Em um dia de inverno, na sala de estar — equipada com três umidificadores para cuidar da garganta de todos —, Yoko passou a mão na cabeça da Aoi.
— Está tudo bem. Aoi, você não fez nada de errado.
— Mas… eu falei algo horrível…
Yoko, olhando para Aoi do outro lado da mesa de jantar, sorriu com gentileza.
— Sim, sim. Você é uma menina gentil, Aoi.
Enquanto fazia carinho na cabeça dela, como sempre, Yoko falou devagar, como se estivesse contando uma história.
— Brigar com a Miyoko-chan agora é só um treino para quando você tiver brigas parecidas no futuro.
…!
— Então está tudo bem.
Aoi, que estava à beira das lágrimas, ergueu o rosto de repente.
— Ah, é mesmo!
Lembrando de algo, Yoko se levantou rápido demais e bateu a coxa direita na mesa.
— Ai!
— Você está bem!?
— Estou sim! Tudo certo! Hop!
Yoko foi pulando até a cozinha, equilibrando-se em um pé só para proteger a perna machucada. Ela parecia ter a mesma idade da Aoi.
— Isso aqui eu ganhei da Sano-san.
Chegando à geladeira com passos desajeitados, abriu a porta e tirou uma caixa branca retangular com um selo dourado.
— Ai, ai…
A cada pulo, soltava um som ritmado, alegre, cheio de diversão. Ela podia ter esperado a dor passar, mas ao ver aquela mãe que parecia ainda mais inocente do que ela mesma, Aoi sentiu o peito aquecer e sorriu.
— Aqui, olha.
Abrindo a caixa sobre a mesa, revelou o que havia dentro.
— Cheesecake?
Dentro da caixa, sob uma camada de queijo que brilhava como ouro, havia um bolo de aparência úmida.
Mesmo antes de provar, o bolo exalava uma doçura intensa.
Yoko sorriu para Aoi como o sol.
— Quando algo triste acontece, comer algo doce é o melhor.
— É mesmo…?
Aoi perguntou, um pouco surpresa. Yoko apertou as bochechas dela com as mãos.
— Isso mesmo!
Obediente, Aoi pegou um garfo e, sob o sorriso atento da mãe, deu uma mordida no cheesecake. No instante em que entrou em sua boca, a doçura rica se espalhou pelo coração entristecido. A cada garfada, a tristeza parecia se dissolver.
— Está delicioso.
— Não está?
— É mesmo!
Ela não tinha percebido o quanto aquilo importava para ela. Mas compartilhar aquelas palavras gentis e aquele sabor com a Yoko a aqueceu por dentro, e as lágrimas não puderam ser contidas.
Yoko também deu uma mordida no cheesecake e sorriu suavemente.
— Seu coração está cansado, então fica ainda mais doce do que o normal, não é?
— É.
— É por isso.
Yoko, afirmando completamente a Aoi, continuou:
— O motivo de você ter brigado com a Miyoko-chan hoje foi justamente para poder aproveitar ainda mais esse cheesecake!
Era como se seu coração estivesse sendo abraçado.
— Ahaha…
No começo, Aoi se sentiu um pouco confusa, mas logo seu humor se transformou em alegria.
— Talvez seja isso mesmo!
Só de pensar dessa forma, seu coração ficou mais leve. Acreditar naquilo a fazia se sentir positiva. Era como magia.
— Então, da próxima vez que algo parecido acontecer, você vai ficar bem, não vai?
Ela conectava os acontecimentos e criava uma história.
— Vou!
Aoi adorava as histórias improvisadas da Yoko.
A família Hinami tinha um cômodo que nenhuma outra casa tinha. Tudo o que Aoi lembrava era que ali havia um papel comprido, colocado na vertical, com palavras importantes escritas nele e cuidadosamente expostas.
— Ah…
Certa vez, Aoi viu Yoko sair daquele cômodo e voltar para a sala. Isso acontecia duas vezes por dia, de manhã e à noite, às vezes mais. Aoi não gostava de ver a mãe entrar ali e ficar por dez ou quinze minutos. Não era só porque isso tirava tempo que poderia passar com a mãe que tanto amava. Também era porque, nas poucas vezes em que entrou ali junto com ela, sentiu um desconforto inexplicável.
Mas esse não era o principal motivo.
— De alguma forma, quando a mãe fazia aquilo, ela deixava de ser sua mãe.
Era essa a sensação.
Por isso, Aoi decidiu selar aquele quarto no próprio coração e manter distância dele. Ela tinha certeza de duas coisas: primeiro, que isso não era algo que seus colegas de classe deveriam saber; e segundo, que aquele lugar provavelmente era a verdadeira razão pela qual sua mãe permanecia forte e gentil.
Era só isso.
O acontecimento que começou a rachar aquela vida feliz ocorreu quando Aoi estava no sexto ano. Numa noite, durante o jantar, sua irmã mais nova, Nagisa — dois anos mais nova — disse:
— Mãe, eu tenho algo que queria falar.
— Uma consulta?
Na mesa do jantar, onde havia três ou quatro pratos caseiros, aquela nova conversa foi colocada ao lado da comida.
— Tem uma pessoa na minha sala que todo mundo ignora e maltrata. Eu odeio ver isso.
Yoko franziu a testa diante das palavras da Nagisa.
— Eu quero ajudar essa pessoa… mas como eu faço?
Um silêncio caiu sobre a mesa que até então estava animada. Bullying — e como lidar com isso.
Provavelmente não existe uma resposta certa. Pode parecer ideal repreender os agressores, mas não há garantia de que isso resolva, e ainda pode piorar a situação ou machucar quem tenta intervir. Se os adultos não agirem corretamente, não há como prever até onde aquilo pode chegar.
Por isso, Yoko, junto com Aoi e Haruka-chan, teve dificuldade em responder.
— Eu acho que devo falar e pedir pra todo mundo parar. Isso é errado?
O senso de justiça puro e o desejo nobre de ajudar.
Para uma garota do quarto ano, aquilo era ao mesmo tempo incrivelmente correto… e incrivelmente perigoso.
Também era uma força nascida da autoestima que Yoko havia cultivado com seu amor constante.
Por fim, Yoko se decidiu e falou:
— O fato de você querer ajudar me deixa muito orgulhosa e feliz.
— Sério!?
Yoko sorriu e assentiu.
— Eu sempre vou estar do seu lado, Nagisa.
— Mãe…!
— Mas, Nagisa…
Ela baixou o tom, como se estivesse advertindo, e falou com uma voz direta, como se acreditasse em algo invisível.
— O mundo escolheu que aquela criança fosse alvo de bullying, não foi?
As sobrancelhas da Aoi se moveram levemente.
Yoko provavelmente não era tão forte quanto Nagisa, que estava escolhendo lutar contra o mundo. Por isso, escolheu cuidadosamente palavras que levassem a uma conclusão específica.
— Se for assim, talvez esse acontecimento também seja uma oportunidade para aquela criança ganhar algo.
Ela teceu uma história, como se encaixasse peças predeterminadas.
— Assim como a Aoi fez as pazes com a amiga e pôde compartilhar algo doce e gostoso, isso também pode ser uma provação para aquela criança.
Criando razões bonitas e cintilantes, como uma contadora de histórias guiando o final que desejava, o tom da Yoko era o de sempre.
Mas, para Aoi, aquela história soou um pouco diferente do habitual.
— Então, não fazer nada e apenas observar também pode ser uma escolha. Eu não quero que você se force demais, Nagisa.
Essas últimas palavras, carregadas de desejo, soavam como a gentileza de uma mãe que não queria ver a filha sofrer. Mas, ao mesmo tempo, pareciam uma visão extrema, baseada em preconceitos e suposições.
A resposta talvez nunca fosse conhecida. Ainda assim, Aoi jamais esqueceria aquele dia. Porque foi a primeira vez que sentiu desconforto com algo que sua mãe disse.
Algumas semanas depois, o pior aconteceu.
Nagisa procurou Yoko e Aoi novamente para pedir conselho. Disse que estava protegendo um colega que sofria bullying e que agora ela própria havia se tornado o alvo.
— Por enquanto, eles só estão chutando minha carteira… mas eu tenho um pressentimento ruim.
— Entendo… Nagisa, você escolheu fazer isso…?
A voz da Yoko tremia, enquanto ela pensava desesperadamente em algo.
— Sim. Mas está tudo bem.
— Tudo bem…?
Nagisa sorriu com firmeza.
— Porque, sabe?
Ela apontou com força para o céu, erguendo o dedo.
— Eu sou correta como um ogro! Ogro da justiça! É isso que eu sou!
Com um sorriso brilhante como o sol, ela se definiu. Era o bordão de um personagem porco de um jogo que as três irmãs tinham jogado inúmeras vezes desde pequenas.
— Se você acredita que está certo e luta corretamente até o fim, isso é tudo o que precisa pra zerar o jogo, foi o que o Buin disse!
Usando aquelas palavras como uma bíblia e transformando-as em razão para lutar, Aoi observava a irmã com admiração.
O bullying piorou, e não havia como impedir. Aos poucos, Nagisa foi se desgastando. Apesar da preocupação das três, ela sempre forçava um sorriso e dizia:
— Mas, sabe… hoje também enfrentei os valentões e apoiei a pessoa que estava sofrendo bullying.
O sorriso artificial mostrava claramente sinais de cansaço e dor.
— Eu posso continuar fazendo o que acredito ser certo. — Ogro… da justiça!
Mas, no fundo de seus olhos, havia uma chama de crença inabalável. Lá dentro, com certeza, ainda estava o porquinho forte e brincalhão que as três irmãs tanto amavam.
— Sim. Você está indo muito bem. Nagisa, você não está errada. A mamãe sempre vai estar do seu lado.
— É… obrigada.
Yoko sempre encorajava Nagisa com palavras de conforto. Sempre declarava seu apoio com calor.
— Está tudo bem. Isso deve ser uma provação pra te deixar mais forte.
Mas sempre terminava afirmando a situação da Nagisa.
Certo dia, enquanto Yoko preparava o jantar, Aoi falou:
— Ei, mãe.
Yoko abaixou o fogo da panela de repolho recheado que cozinhava e olhou para Aoi.
— O que foi, Aoi?
— Então…
— Será que… está tudo bem a Nagisa continuar assim?
Esse pensamento não tinha surgido apenas naquele dia. O desconforto vinha crescendo dia após dia.
Mas—
— Ah…
Dizer aquilo em voz alta era assustador, de um jeito inexplicável. Parecia negar algo essencial dentro de si. Como se, ao fazer isso, tudo o que a havia preenchido até então fosse se derramar.
Por isso, Aoi não conseguiu continuar. Apenas balançou a cabeça.
— Não, não é nada.
O sorriso que surgiu em seu rosto era falso, feito para ignorar as contradições e dúvidas dentro dela.
— Não é nada!
Ao negar suas próprias palavras e sentimentos, o olhar da Aoi caiu fraco no chão.
— É mesmo? — a voz direta da Yoko não tinha nenhum traço de fingimento. — Então tudo bem!
Com um calor claro, brilhante e ao mesmo tempo rígido, ela sorriu. Mais uma pontada de desconforto atravessou o coração da Aoi. Pensando bem, ela provavelmente já sentira aquilo muitas vezes antes.
Mamãe sempre estava do nosso lado. Mamãe sempre nos dava palavras que nos faziam olhar para frente. Mas mamãe nunca fez nada para mudar a situação da Nagisa.
Aoi era inteligente. Por isso, conseguia questionar a raiz daquele desconforto que se acumulava.
Aoi era gentil. Por isso, pensava sinceramente no que seria melhor para a Nagisa.
Mas Aoi era fraca. Por isso, mesmo sentindo aquele desconforto, não sabia em que acreditar no lugar, nem conseguia agir.
— Ei, Aoi-oneechan…
Alguns meses depois do início de tudo, Nagisa falou com uma voz distante, sem foco.
— Você acha que o que o Buin disse estava mesmo certo?
Nagisa falava lentamente, como se arrastasse a cabeça pesada. Aoi e Nagisa tinham amado aquela frase. Tinham repetido inúmeras vezes, mesmo antes de entender seu significado. Quando passaram a entendê-lo, lembravam dela sempre que enfrentavam escolhas na vida. Era a história em que acreditavam.
— Ogro da justiça. Justo como um ogro.
Quando Aoi disse isso, Nagisa repetiu.
— Se você viver corretamente, você zera o jogo.
Depois de dizer isso, Nagisa sorriu, exausta.
— Ei, Aoi-oneechan.
— Oi?
Aoi sentiu como se Nagisa fosse se dissipar como névoa.
— Viver corretamente, zerar o jogo… você acha que o Buin diria isso se me visse agora?
…!
Um choque pesado atingiu Aoi. Porque, intuitivamente, ela entendeu que aquilo era o mais assustador de tudo.
Duvidar do conforto que a preenchia e colocar isso em palavras era aterrador. Se ela negasse a raiz essencial de si mesma e descartasse as palavras que davam sentido aos seus resultados, ela ficaria vazia. Com esse pressentimento, Aoi não fizera nada até então.
Ela tinha vivido ignorando a realidade cruel que a Nagisa enfrentava. Mas agora, Nagisa dizia isso claramente — levada ao limite.
Aoi compreendeu o desespero que a irmã carregava.
— Isso…
Nagisa, você não está errada. Está tudo bem.
Ela queria dizer isso. Buin certamente diria isso, apontando para Nagisa: ogro da justiça.
Ela queria acariciar a cabeça da irmã com carinho.
Mas—
…
Será que era mesmo certo continuar acreditando apenas naquela frase?
Será que aquela crença e esperança poderiam realmente salvar a Nagisa?
Será que uma oração ou um desejo trariam de volta o sorriso radiante da Nagisa que Aoi tanto amava?
Será que palavras vagas e abstratas poderiam mudar a realidade concreta do bullying?
— Claro que não.
— Aoi-oneechan.
Nagisa sorriu fracamente, como se sua alma estivesse se dissolvendo no ar. Aoi, de cabeça baixa, não conseguiu ver a expressão final de alguém que pedia ajuda.
— Talvez viver corretamente não signifique nada, afinal.
As palavras, amaldiçoando o mundo, caíram de forma grotesca, como carne molhada batendo no chão.
Algumas semanas depois, o dia chegou de repente.
Na sala de espera do hospital, Yoko abriu a porta e se aproximou da Aoi e da Haruka-chan, que estavam sentadas, rezando. Seu rosto estava escuro e nublado, como se tivesse visto o fim do mundo. Na verdade, talvez as duas já soubessem de tudo naquele momento.
— Mãe…!
— Como está a Nagisa…?
Aoi e Haruka-chan se agarraram a ela, desesperadas. Mas a expressão da Yoko não mudou.
— A Nagisa… já partiu deste mundo.
Aoi e Haruka-chan só conseguiram soltar pequenos suspiros, quase inaudíveis.
A morte de um familiar.
As duas, ainda no sexto e no terceiro ano, eram jovens demais para compreender plenamente aquela realidade.
— Aoi, Haruka-chan…
Yoko se ajoelhou devagar para ficar na altura dos olhos delas e, uma por uma, encarou as duas de frente, prendendo o olhar. Ela tentava desesperadamente conter as lágrimas, mas era impossível. Lágrimas grandes e pesadas escorriam sem parar, uma após a outra.
Mesmo assim, Yoko colocou as filhas acima de si mesma e começou a acariciar suas cabeças com delicadeza. Devagar, com cuidado, como se confirmasse o calor delas. Continuou fazendo carinho, como se não quisesse que os contornos borrados do próprio luto se desfizessem e desaparecessem em algum lugar. Era um gesto feito apenas de amor.
Sem que ela precisasse dizer nada, as duas pareciam sentir a gentileza da mãe, sua compaixão profunda.
— Mas.
Yoko olhou nos olhos delas e, ainda sorrindo através das lágrimas, tentou confortá-las. E as palavras que disse foram:
— Isso também… é algo que a gente não pode evitar.
Aoi nunca esqueceria o choque negro que sentiu naquele instante — como se uma torre de bloquinhos coloridos, empilhados com tanto cuidado, tivesse virado carvão da noite para o dia.
— Porque, se o mundo escolheu a morte da Nagisa, então isso deve significar… que até isso tem algum tipo de sentido.
Por um instante, Aoi esqueceu como se respirava. As palavras de Yoko ecoaram dentro do coração escurecido de Aoi, ressoando alto. Como uma maldição rolando por um espaço vazio, elas ricochetearam em seus ouvidos e lhe deram tontura.
— Então, vamos olhar pra frente e seguir adiante, até encontrarmos esse sentido.
Com os olhos vermelhos e um sorriso forçado, Yoko estava, sem dúvida, chorando a morte da Nagisa. E, ainda assim, naquelas palavras, ela estava… afirmando a morte da Nagisa.
— Mãe…?
O sentimento que escapou da boca da Aoi, escuro de desespero, era espesso como sangue. Ela queria acreditar nas palavras da mãe, com todas as forças. Queria, como sempre, concordar com a pessoa que mais amava no mundo. Queria amar aquelas palavras vindas de alguém que ela amava tanto.
Mas, naquele momento, ela simplesmente não conseguiu.
— Mãe… você está mentindo, não está…?
A voz tremeu, rachou como uma corda enferrujada de violino desafinado. Talvez Yoko estivesse dizendo aquilo para não afundar na dor da morte da Nagisa. Ou talvez dissesse para encorajar as duas filhas. No mínimo, pelo rosto encharcado de lágrimas, era claro que, no fundo, ela não acreditava na morte com verdadeira convicção.
Com certeza, a própria Yoko também era fraca — e só conseguia pensar assim para suportar. Por isso, tinha confiado toda a sua existência naquela história. E, naquele instante, Aoi percebeu algo.
— A morte da Nagisa… é mesmo algo que a gente só tem que aceitar…?
A visão de mundo que governava aquela casa — a ideia de que tudo devia ser aceito e que a felicidade era garantida — não passava de uma fachada frágil e vazia, feita de mentiras, construída para justificar uma realidade que ninguém queria encarar.
— Você está falando sério que isso tem algum sentido? Está falando sério!?
— Me diz…!!
Tudo em que ela acreditara, tudo o que guardara com carinho e usara como base para si mesma… era falso.
— Aoi…
Yoko se assustou com o desabafo desesperado da filha. Mas aquelas palavras não atingiram o coração de Yoko.
— Sabe… Aoi…
A voz fraca, espremida com um sorriso frágil, vacilou — mas seguiu em frente sem hesitar, rolando rumo a um destino já traçado.
— Porque o mundo… é feito assim.
O que Yoko acreditava era nada menos do que o deus que ela carregava dentro de si.
O tique-taque do ponteiro dos segundos marcando a passagem do mundo soou algumas vezes entre Aoi e Yoko. O relógio grande pendurado em um pilar da sala de espera mostrava 22h30.
…!
— Aoi!?
Aoi, enjoada de cada palavra que saía da boca da mãe, de cada palavra que tentava controlá-la, achou tudo aquilo repulsivo. Quando se deu conta, já tinha disparado para fora do hospital.
— Aaah… ahhh!!
Não — talvez o que a repugnasse não fosse a mãe. O que ela realmente achava nojento, o que ela queria desesperadamente rejeitar, era a massa viscosa de engano grudada no núcleo do próprio ser.
Pensando bem, ela sempre fora assim.
Sempre que algo desagradável acontecia, ela imitava a mãe: interpretava como uma provação a superar ou como uma mensagem divina mandando parar, distorcendo tudo para não encarar a própria dor. Ela sabia que, se fizesse como a mãe fazia, tudo pareceria mais fácil — então empilhava justificativas de um jeito que não ferisse ninguém. Ela se acostumara a se apoiar nos valores da mãe que tanto amava, desistindo de pensar por conta própria e distorcendo o mundo que via.
Mas nada disso mudava a realidade diante dela.
Ela só percebeu isso depois de perder a irmãzinha que amava.
— Eu… eu…

A respiração dela ficou irregular, sufocada. O único motivo pelo qual ela conseguia se libertar agora era porque estava diante da morte da Nagisa. Por um breve instante, quando a mãe disse aquelas palavras, ela tentou, como sempre, se convencer de que a morte da Nagisa era algo inevitável.
Se pensasse assim, conseguiria seguir em frente, usando isso como alimento. Se pensasse assim, poderia esquecer essa dor um segundo mais cedo. Uma parte dela definitivamente quis escolher o caminho mais fácil, deixar-se levar pelo conforto.
E o motivo de ter pensado assim… era porque aquilo sempre esteve agarrado ao núcleo do seu ser.
— Droga…!
Ela se amaldiçoava repetidas vezes dentro do coração. Desapareça. Mesmo que doa, mesmo que a destrua de forma horrível, não importa. Desapareça, desapareça. Desapareça, desapareça, desapareça. Saia de mim, nem que seja um segundo mais cedo. Isso não é sobre seguir em frente. Isso não é sobre bondade. Isso é, sem dúvida, errado. Porque isso é apenas… virar o rosto para a verdade e escolher o caminho mais fácil.
Aoi percebeu que toda a sua existência havia sido construída sobre engano. Ela perdeu o senso de medida e amaldiçoou os mais de dez anos que passou acreditando naquela casa.
Mas aquilo era tudo o que ela tinha. Mesmo que arrancasse isso à força, o que sobraria dela seria apenas uma casca vazia.
— Ugh…!
Ela cuspiu na sarjeta da rua. Se pudesse vomitar tudo o que havia de errado dentro de si junto com aquela sensação nauseante, como seria mais fácil. Mas o que saiu foi apenas o resíduo amargo e pegajoso da realidade. Não parecia que tivesse purificado nada, e a sensação de sujeira e enjoo era insuportável.
Se pudesse refazer sua vida… por onde começaria?
Ela pensou e encontrou a resposta quase de imediato.
Porque, desde o momento em que nasceu, correu de cabeça pelo caminho errado. Disparou por uma estrada escura, miserável e suja, sorrindo o tempo todo — exatamente como a mãe lhe ensinara.
Então, de agora em diante… como deveria viver? Em que deveria acreditar? Para onde deveria seguir?
— Quem… quem sou eu, afinal?
Ela olhou para as ruas familiares de Omiya. A paisagem diante dela parecia tão absurda, tão ridícula, que uma risada começou a brotar do fundo do peito.
Achei que meu mundo era cheio de cores. Achei que meu mundo brilhava.
Mas agora, o mundo diante dos meus olhos é apenas… ahahaha.
Como um deserto em preto e branco.
— Entendo… então eu…
Naquele momento, Aoi Hinami passou a odiar tudo no mundo.
— Eu sou repugnante.
*
O dia havia terminado, e a noite já nos envolvia.
Hinami, depois de concluir sua história, olhou para mim com um sorriso torto e assimétrico, os olhos negros fixos nos meus.
— É só isso.
Seus lábios rachados se moviam com dificuldade, as fissuras avermelhadas brilhando. Entre os fios de cabelo desgrenhados, seu rosto abatido estava claramente visível.
Aoi Hinami estava, sem dúvida, quebrada.
E tudo o que eu podia fazer era ficar ali, diante daquela história em pedaços.
— O deus que existia dentro de mim… morreu.
Deus. A palavra significava quase exatamente o que parecia.
Em um ambiente distorcido, ela fora ensinada a acreditar em um único conjunto de valores. Uma única palavra bastava para justificar tudo e trazer felicidade. E então, um dia, o mundo revelou de repente que tudo aquilo em que ela se enraizara era mentira.
E agora, o que restava no buraco deixado para trás não era nada além de algo feio e apodrecido. Eu conseguia entender isso intelectualmente, embora não pudesse empatizar de verdade. Ainda assim, me agarrei a essa compreensão, a esse entendimento racional, sem querer soltá-lo.
— Então, não me resta nada em que acreditar — Hinami disse, como um simples fato. — No mínimo, nunca mais poderei acreditar em mim mesma, depois de ter vivido uma vida tão errada.
Aquilo estava perigosamente próximo de um grito.
— Então o que sobra além de garantir uma vitória aparentemente certa?
Para Hinami, o que sempre serviu como garantia de valor nunca foi ela mesma.
— E se até isso estiver errado…
Vitória, exigência, valor, aprovação, dependência.
Todos, sem dúvida, eram apenas substitutos de deus.
— Então em que eu devo acreditar?
As palavras dela eram uma pergunta lançada à própria origem da fé.
Finalmente, senti que compreendia o verdadeiro significado da pergunta que ela me fizera em Osaka.
— Você consegue dizer que isso é realmente certo, no verdadeiro sentido da palavra?
O que Hinami queria dizer com "no verdadeiro sentido" era isso: questionar o motivo da crença, questionar o motivo por trás desse motivo, e continuar seguindo essas perguntas até a raiz, até a origem.
Quando se chega lá… o que resta? Existe alguma resposta que não seja apenas vazio? Quem pode garantir que existe algo verdadeiramente certo ali?
Provavelmente, o único que poderia dar uma razão para isso… seria Deus.
Respirei fundo e foquei meu olhar em Hinami. Eu não queria perder aquela fraqueza real que ela mostrava pela primeira vez. Queria dizer tudo o que precisava dizer. Não queria mais deixar Aoi Hinami sozinha.
— Eu sei a resposta.
Encostei meu olhar diretamente no dela.
— Sabe… eu sempre acreditei em mim mesmo como nanashi.
Ao lembrar do meu passado, de como comecei como um solitário e consegui transformar minha vida em algo divertido.
— Como você sabe bem, eu era um fracassado introvertido, um perdedor aos olhos da sociedade. Mas, mesmo assim, eu sempre acreditei em mim.
Falei isso com confiança, sem pedir desculpas.
— Por isso, quando o assunto é acreditar em si mesmo, eu tenho mais experiência do que você.
O rosto da Hinami se contorceu em desconforto, mas ela suspirou, resignada, e me encarou de volta.
— Eu vou te dar o jeito mais seguro de vencer esse jogo.
Uma resposta simples e direta.
— Você não precisa de um motivo.
Essa era a minha crença honesta, do fundo do coração.
— Mesmo que seja vazio e sem fundamento, apenas acredite em si mesma, de forma tola, porque você é você. Não precisa ser complicado. Só isso já basta.
Falei com convicção, afirmando a própria Hinami.
— Mas…
Hinami me olhou com uma expressão ainda mais triste.
— Eu acho que você está certo. Esse é, sem dúvida, o desfecho lógico… você realmente é um mestre nisso.
As palavras dela vinham carregadas de sarcasmo, como se ela própria sentisse derrota.
— Não existe outro jeito de acreditar em si mesmo. Não existe uma correção absoluta no mundo, então você precisa, intencionalmente, arrancar qualquer razão e ainda assim acreditar. É o caminho mais correto do ponto de vista lógico, sem contradições.
— Viu? Então, se você simplesmente acreditar em si mesma como eu—
— Não, mas… sabe?
Os olhos opacos e escuros dela se estreitaram, como se tivesse desistido. O que se refletia neles era um sorriso frágil, como gelo fino cobrindo um lago noturno.
— Para alguém tão fraca quanto eu, isso é impossível.
Pensei comigo mesmo: se isso fosse eu, pouco tempo atrás, eu teria ficado chocado com aquela declaração de derrota e não conseguiria dizer mais nada.
Eu queria que Aoi Hinami fosse forte. Talvez fosse admiração. Talvez confiança. Mas também era uma expectativa que eu havia colocado nela sem pedir permissão.
Assim, se Hinami se definisse novamente nesses termos, eu teria ficado tomado pela tristeza e incapaz de pensar com clareza.
— Como naquele verão, na estação Kitayono, quando brigamos.
— Como naquela noite em Osaka, sob o céu estrelado.
Mas agora, eu era diferente.
Agora, eu enxergava com clareza.
Aoi Hinami, que eu queria que fosse forte, na verdade… é uma personagem fraca, no sentido mais verdadeiro da palavra.
— Eu sabia que você diria isso.
Agora, eu conseguia colocar isso em palavras.
— Porque eu sei a verdade. Você é, sem dúvida alguma, uma personagem fraca.
Mais ninguém pensa assim.
Se perguntasse à Haruka-chan, à Mimimi, ao Mizusawa ou até à Kikuchi-san, todos diriam que Hinami é nobre, brilhante, talvez solitária, mas… mais forte do que qualquer um.
Mas eu sou diferente.
Eu estou olhando diretamente para a fraqueza da Hinami. E acho que ela é especial.
Por isso, só eu posso entrar de forma irresponsável nessa fraqueza.
— Se você diz que não consegue acreditar em si mesma…
Para carregar a fraqueza da Aoi Hinami — Fumiya Tomozaki dirá isso como o gamer mais forte do Japão, nanashi, da NO NAME.
— Então acredite em mim.
Era uma lógica simples, parecida com algo que eu já tinha dito antes. Mas agora, com o peso do compromisso, era completamente diferente.
— Acredite em Fumiya Tomozaki, o personagem forte que você nunca conseguiu derrotar.
Era uma lógica que eu podia expressar porque acreditava em mim mesmo como um personagem forte. E era uma verdade que eu podia transmitir porque reconhecia a fraqueza da Hinami.
— Eu não preciso de um motivo, de uma base ou sequer de um argumento convincente. Mesmo assim, eu afirmo você.
E — porque eu estive sozinho por tanto tempo, e sei o que é estar sozinho — eram palavras que eu podia dizer.
— Aoi Hinami está certa.
Declareí isso como um idiota, como se fosse um fato inegável. Porque ali não havia motivo, nem justificativa, nem lógica. A Hinami nem precisava acreditar nisso sobre si mesma.
Tudo o que existia era a minha crença — tão infundada quanto a de um deus — de que era assim.
Hinami ficou me encarando em branco por um instante, então soltou uma risada fraca, como se a tensão finalmente tivesse se dissipado.
— Acreditar no nanashi, é?
Ela riu, exasperada.
— Exatamente. Eu já tinha dito isso nas férias de verão, não tinha? Nesse assunto, eu sou imbatível.
— É… você disse mesmo.
Mas, por algum motivo, Hinami exibia um sorriso um pouco triste.
— Ei, Tomozaki-kun… não, nanashi.
— O quê?
Hinami deu um passo à frente e começou a sair do parque.
— Tem um lugar onde eu quero ir com você. Você vem comigo… só por um tempo?
Ela falou como se finalmente estivesse abrindo o coração.
— Claro. Onde você quiser.
Pela primeira vez, senti que estava tendo uma conversa de verdade com Aoi Hinami.
Pensando isso, segui atrás dela.
*
E agora, ali estava eu, sentado de forma rígida no quarto da Hinami, mantendo uma postura formal. A sensação era parecida com a da primeira vez que vim à casa dela, então, sem perceber, comecei a me perguntar de onde vinha aquele cheiro misterioso e agradável no quarto, enquanto esperava que ela voltasse.
O eu mais maduro, que crescera desde então, agora sabia que o objeto parecido com uma pedra ao lado da mesa absorvia óleo aromático e liberava aquele perfume no ambiente.
Eu tinha entendido. Pouco depois, ouvi passos subindo a escada, e uma sombra apareceu. Era uma garota que parecia uma versão mais jovem da Hinami — ou seja…
— Você deve ser… a irmã mais nova da Aoi Hinami, né? Dessa vez, é você de verdade.
— Tomozaki-san…! E a minha irmã, como ela está…?
Da primeira vez que vim aqui, eu tinha confundido a Hinami sem maquiagem com a irmã mais nova. Mas agora, realmente era a Haruka-chan.
Déjà vu total.
— Está tudo bem. A gente conversou direito.
Respondi com suavidade. Logo depois, ouvi passos novamente. Olhando naquela direção, Haruka-chan se curvou apressadamente.
— Ah… eu já vou indo!
Quando ela saiu, Hinami voltou, trazendo algo nas mãos.
O que ela carregava era um controle de Atafami.
— Não acredito… isso quer dizer…?
— Claro. Escolhe o que quiser. Vamos jogar — um contra um.
Enquanto falava, Hinami começou a ligar o Atafami em silêncio. Mas, por algum motivo, havia um traço de tristeza em seus olhos.
— Atafami numa hora dessas, é?
— É. Tem algum problema?
— Não, não é isso… mas…
Peguei um dos controles que ela me estendeu e o conectei ao console. O clima da Hinami parecia diferente do habitual — havia uma calma afiada no ar ao redor dela.
A tela de seleção de personagens apareceu no monitor.
— Então tá… vou com esse aqui.
Escolhi Jack, meu novo personagem principal, para o qual eu tinha mudado recentemente. Era um pouco triste não lutar com Found, que tinha sido o catalisador da minha ligação com esse jogo, mas Jack já tinha se tornado mais forte que ele, então não havia escolha. Além disso, era uma vantagem, já que as pessoas ainda não estavam preparadas para enfrentá-lo.
— Então você desistiu do Found, né?
Hinami disse, com um toque de melancolia, movendo lentamente o cursor.
E o personagem que ela escolheu foi—
— Esse é…
— Tenho treinado com ele ultimamente. Em casa, como uma idiota, o tempo todo.
— É, eu ouvi falar… mas por que você chegou a faltar à escola por causa disso?
Sorri de lado, mas também senti uma ponta de felicidade. Ela realmente tinha passado todo esse tempo se dedicando ao Atafami.
— Não tinha como evitar. Você mudou de personagem principal. Se eu continuasse usando o Found, não conseguiria melhorar.
Ela explicou com naturalidade.
— Mas, mesmo assim, eu ganhei algo com isso.
— Ganhou algo?
Hinami olhou distraída para a tela enquanto falava.
— Seu estilo de jogo tem brilho, muita improvisação, e ainda assim é forte. Parece que você está perseguindo o ideal do que Atafami deveria ser. Mas…
Ela continuou num tom indiferente.
— Pra mim, tudo o que importa são os resultados.
A voz grave do narrador de Atafami anunciou o nome do personagem na tela.
— Boxman, é?
Era tão a cara da Aoi Hinami escolher aquele personagem. Boxman era um personagem baixável, adicionado numa fase mais avançada do desenvolvimento do Atafami. Diferente de personagens como Found ou Jack, que se destacavam no combate direto, Boxman era o que se chamava de personagem de espera. Ele ficava mais forte evitando o inimigo e coletando materiais para se fortalecer.
— Bom, tanto faz. Você acha mesmo que uma estratégia meia-boca dessas vai funcionar comigo?
— Acho.
Hinami sempre teve uma imagem fria, meio distante, mas agora havia algo diferente — ela parecia completamente concentrada no jogo.
— Então vamos fazer melhor de três.
Melhor de três — ou seja, quem vencesse três rounds primeiro ganharia, um formato comum em torneios.
— Vem. Estou pronto.
…
A tensão incômoda entre nós permaneceu enquanto a partida começava.
Alguns segundos depois do início, Hinami não fez nenhum movimento para atacar, focando apenas em coletar materiais.
— Isso não é um jeito bem chato de jogar?
Hinami não respondeu à provocação.
— Atacar significa entrar em um jogo mental, certo? E jogo mental sempre envolve risco. Então por que não deixar todo esse risco pro oponente?
O Boxman dela construiu uma parede e se escondeu atrás dela, minerando o cenário. Na superfície, nada parecia mudar — sem dano, sem mudança de posição —, mas aos poucos, o personagem dela ia ficando mais forte. Pequenos ganhos iam se acumulando, exatamente como uma heroína perfeita se lapidando sozinha.
— Em teoria, faz sentido… mas—
Meu Jack avançou.
— Eu não ligo pra isso.
Jack saltou com elegância por cima da parede que o Boxman tinha construído, desferindo um ataque aéreo surpresa. Jack tinha excelente mobilidade no ar e velocidade de queda, o que não lhe dava vantagem absoluta contra o Boxman, mas permitia entrar até nos jogos mentais. Hinami tentou se defender com guarda, mas—
— Lento demais.
Usei um pulo curto para fingir um ataque, caí atrás dela e puni com um ataque rápido em investida. O Boxman foi lançado para o alto, ficando vulnerável na aterrissagem.
Quando o Boxman é lançado, especialmente com poucos materiais coletados, fica difícil se recuperar, já que ele não tem movimentos para garantir uma aterrissagem segura. Isso cria uma situação unilateral — e eu explorei essa fraqueza sem piedade, acumulando dano. Essa é a estratégia básica contra o Boxman.
Não demorou para eu executar isso perfeitamente. A primeira partida terminou com a minha vitória.
Hinami não conseguiu acompanhar a variedade dos meus ataques. Coloquei o controle de lado e me virei para ela.
— Eu avisei. Estratégia improvisada não funciona comigo. Mas por que, de repente—
Hinami digitava algo no celular, encarando a tela com atenção.
— É melhor de três, né?
Ela tinha dito isso antes da partida, mas depois de perder tão facilmente o primeiro round com um personagem novo, eu esperava que estivesse mais abalada.
— Bom, é… mas—
A segunda partida começou.
O ritmo do segundo jogo não mudou muito. Eu atacava, e Hinami defendia. Mas repetir as mesmas opções só levaria a jogos mentais previsíveis, então passei a misturar abordagens novas, que não tinha usado antes.
Eu venci de novo, mas ela conseguiu contra-atacar alguns golpes, tornando essa vitória mais apertada do que a anterior.
Mesmo à beira da derrota, Hinami permanecia calma, os olhos fixos no celular. Sua expressão era estranhamente serena, como se não tivesse medo algum de perder.
— Ei, se eu ganhar a próxima, acaba…
— Espera um pouco.
Hinami encarava o celular como se estivesse estudando para uma prova, revisando anotações em silêncio.
— Certo, vamos lá.
— Você leva isso bem a sério, hein?
Depois que ela segurou o controle, começamos a terceira partida. Apesar do ritmo estranho, eu não era do tipo que perdia o foco por causa disso. Afinal, eu já tinha jogado centenas de partidas online, subindo até o topo do ranking.
— Hmph.
Como era de se esperar da NO NAME, Hinami já tinha se adaptado a alguns dos ataques que eu tinha mostrado. Claro, era impossível reagir a tudo só no instinto, então grande parte se resumia a jogos mentais. Mas, contra o Boxman, perder um jogo mental geralmente significava perder uma vantagem enorme — então eu precisava vencer mais de 50% dessas trocas.
Variei meus ataques, escolhendo opções aleatoriamente para evitar ser lido.
Mas—
— Esse movimento… responde àquele.
Conforme a partida avançava, eu me via cada vez mais encurralado. Em um jogo mental equilibrado, o retorno da defesa do Boxman acabava pendendo contra mim.
A terceira partida terminou com a vitória da Hinami.
O jogo foi até o último stock, e se eu tivesse acertado o golpe final, teria fechado um 3–0 limpo. Deixar isso escapar foi frustrante.
Agora estava 2–1. Mais uma vitória minha, ou duas dela, decidiriam a partida. Eu não podia baixar a guarda.
Hinami voltou a encarar o celular.
— Não foi isso… vou ajustar isso aqui…
Não consegui evitar uma risada. Até onde ela estava disposta a ir só para vencer?
— Tá, vamos começar a próxima.
Como sempre, no ritmo dela, começamos a quarta partida.
…
É difícil dizer exatamente o que mudou, mas a partida ficou claramente mais difícil. Hinami, calma, como se estivesse apenas processando algo que já sabia, passou a neutralizar meus ataques.
— Já vi isso… esse movimento também. Ah, esse foi um erro. Preciso ter mais cuidado.
…!
Eu não sentia que estava cometendo erros. Pelo contrário, achava que meus dedos estavam aquecendo e que eu estava jogando melhor. Mas, quando ela tirou meu primeiro stock, percebi que algo estava errado.
Era evidente — eu estava em desvantagem.
Não havia uma estratégia certeira para atravessar a defesa da Hinami. Nos jogos mentais, mesmo que estivéssemos equilibrados, eu perdia em retorno total. Então, enquanto misturava ataques e fintas, eu precisava explorar a mobilidade do Jack e capitalizar qualquer erro dela para ganhar vantagem.
Mas—
Eu não conseguia encontrar nenhuma brecha.
Tentei todos os padrões de ataque que tinha, misturando fintas e até recuos em alguns momentos. Ainda assim, não importava o que eu fizesse, ela sempre conseguia me repelir, e eu ficava lutando para encontrar uma brecha.
— Entendi.
Esse era o estilo de jogo da Hinami.
Coletar materiais significava acumular pequenos retornos. Podia parecer apenas defesa, mas também era um ataque, no sentido de que ela estava constantemente acumulando vantagem rumo à vitória.
— Só pra confirmar…
— Hm?
— Se o tempo acabar, a gente decide o vencedor pelas regras de torneio, certo?
…!
Nesse jogo, se sete minutos e meio se passarem sem que todos os stocks sejam eliminados, a partida termina. Normalmente, em partidas casuais, se ambos tiverem o mesmo número de stocks, o jogo entra em morte súbita. Mas em torneios, vence quem tiver a menor porcentagem de dano.
Em outras palavras, em vez de eliminar todos os stocks do oponente, é possível simplesmente enrolar o jogo quando se está em vantagem e vencer pelo tempo. Essa estratégia existe. E o fato de ela já estar considerando essa possibilidade colocava ainda mais pressão sobre mim para atacar.
— Então você está pensando nisso também? É… isso é bem a sua cara.
Em torneios de verdade, partidas raramente duram os sete minutos e meio completos — menos de 10% chegam a esse ponto. Normalmente, só jogos em que ambos os jogadores carecem de opções ofensivas acabam indo até o tempo limite.
Mas a Hinami já estava incorporando a possibilidade de vitória por timeout à estratégia. Não era apenas um jogo de baixo risco e retorno moderado; era um jogo de risco zero e retorno ultrabaixo.
Sinceramente, se isso estivesse sendo transmitido, a seção de comentários estaria cheia de reclamações sobre como era entediante. Mas—não havia como negar que, se o objetivo fosse vencer, aquele era o jeito correto de jogar.
— Não importa o que eu sinto.
Os olhos dela permaneciam fixos na tela.
— Eu só vou continuar fazendo o que é certo.
Ela jogava de forma fria e metódica, processando cada movimento como uma máquina. Seu jogo não levava em conta os sentimentos do oponente, a empolgação dos jogos mentais ou a diversão do conceito do jogo. Ela só se importava em vencer, usando lógica pura — um estilo quase demoníaco.
— Em outras palavras…
Era, inegavelmente, a Aoi Hinami.
— Ugh…
Quando percebi, a quarta partida já tinha acabado.
O golpe final atingiu meu Jack, e Hinami venceu o round.
Agora estava 2 a 2. A próxima partida decidiria o vencedor.
— Entendi.
Essa alternância — eu ganhando as duas primeiras e ela vencendo as duas seguintes — é um padrão que às vezes aparece em torneios. Normalmente, quem está buscando a virada ganha vantagem psicológica. Mesmo que a disputa esteja equilibrada, é fácil imaginar o embalo levando à vitória final.
Mas eu não estava nervoso, nem confiante demais.
— Ufa.
Porque eu sempre soube que ela era realmente forte.
Afinal, NO NAME foi a primeira jogadora de Atafami que eu reconheci de verdade.
— Vamos começar o último round.
Hinami apertou o botão de início em silêncio, ignorando minhas palavras.
— Tem certeza? Não vai anotar mais nada?
A tela mudou, e Jack e Boxman desceram para o cenário.
— Sim. Está tudo bem.
A partida começou, e Jack partiu imediatamente para o ataque contra o Boxman.
— Mas…
— Porque eu já entendi tudo.
Meu ataque foi desviado com facilidade.
— O quê…?
Jack, agora vulnerável, foi lançado ao ar e preso em um combo esmagador, que rapidamente me colocou em grande desvantagem.
— Você… já entendeu?
— Agora eu conheço seus padrões de ataque. Sei como contra-atacá-los com o Boxman.
— Não fala besteira… não tem como você saber o meu—
— Claro que tem.
Hinami continuava coletando materiais, fortalecendo o personagem.
Ela ainda não atacava — apenas observava meus movimentos com atenção.
— Você esqueceu como eu fiquei boa em Atafami?
O olhar dela era frio, focado apenas na realidade do jogo.
— Eu conheço seu estilo de jogo melhor do que você mesmo.
…!
Naquele instante, percebi que ela não estava mentindo.
Mesmo quando eu tentava variar meus padrões, ela respondia perfeitamente, como se tivesse previsto tudo. Por mais que jogos mentais se pareçam com pedra-papel-tesoura, onde o acaso deveria ter peso, parecia que eu não tinha nenhum caminho viável de ataque. Eu não enxergava nenhuma abertura por onde pudesse romper a defesa dela.
— Tudo bem. Vem.
Se ela realmente tinha lido todos os meus padrões, só havia uma maneira de sair daquela situação: mostrar algo completamente novo. Algo que ela não pudesse prever.
Eu precisava usar movimentos que ela jamais esperaria.
E, para isso, eu precisava de um nível absurdo de controle e conhecimento. Não era só improvisar combos na hora. Eu tinha que usar o mesmo tipo de raciocínio estratégico que costumava empregar quando nem estava jogando — aquelas simulações mentais que eu fazia nos intervalos das aulas, antes de conhecer a Kikuchi-san.
Eu precisava desestabilizá-la usando padrões de ataque que eu nunca escolheria normalmente. Atafami tinha várias técnicas ocultas e combos avançados, mas a maioria não era prática, porque a dificuldade não compensava o retorno, e executá-los com consistência em partidas reais era quase impossível.
Por isso, até agora, o nanashi nunca tinha usado esses movimentos.
E justamente por isso, a NO NAME — que prioriza a lógica acima de tudo — não os esperaria.
Minha mente disparou. Visualizei os movimentos do meu Jack em tempo real, junto com movimentos hipotéticos dentro da minha cabeça. Felizmente, como o Boxman da Hinami era um personagem defensivo, eu não precisava me preocupar em ser esmagado por ataques enquanto realizava esse treinamento mental.
Executar um combo que eu nunca tinha usado em uma partida real, contra uma jogadora de alto nível?
Isso era algo que nenhum outro jogador de Atafami conseguiria fazer.
Mas eu sou diferente.
Porque eu sou o nanashi.
Com uma confiança renovada, inverti o vetor do Jack no ar, controlando o espaçamento com precisão, e disparei um tiro perfeitamente cronometrado logo após o salto duplo mais rápido possível.
— É. Eu imaginei.
A voz da Hinami carregava um tom definitivo, tingido de uma leve tristeza.
— O nanashi sempre escolhe a opção mais difícil nesses momentos, com confiança absoluta.
O movimento imprevisível — aquele que ela não deveria ser capaz de prever — foi bloqueado, como se ela o tivesse antecipado desde o início.
— Eu passei todo esse tempo afastada jogando Atafami… assistindo a vídeos de Atafami sem parar.
O Boxman entrou pela abertura deixada na aterrissagem do Jack.
— Seu estilo de jogo era realmente ideal. Era bonito. Você não ficava esperando, atacava com ousadia, entrava em jogos mentais de verdade e vencia lendo o oponente. Ninguém mais conseguia fazer isso.
Com os dois personagens agora em curta distância, o golpe inicial do combo do Boxman acertou Jack em cheio no estômago.
— O jogo do nanashi era legal, ideal, radiante. E, quando percebi, eu queria ser como você.
Implacável, o Boxman continuava usando o mesmo golpe forte, da mesma forma, repetidas vezes, sem mudar nada.
— Mas sabe… isso não combinava comigo.
De novo, e de novo, e de novo. O mesmo ataque poderoso foi desgastando Jack.
— Eu só consigo vencer. É só isso que eu sei fazer.
Eu não conseguia escapar do combo, e o dano só aumentava.
— Então, enquanto fiquei trancada em casa, eu desisti de brilhar. Desisti de ser ideal. Foquei apenas em vencer. E, se eu fizesse isso…
O ataque final do Boxman acertou Jack em cheio.
— No mínimo, eu conseguiria ganhar.
E assim, a partida final terminou.
…
Na tela, o Boxman comemorava sem emoção, enquanto Jack se ajoelhava em desespero.
— Você disse algo antes, não disse?
Hinami falou num tom plano, distante.
— "Acredite no nanashi, aquele que você nunca conseguiu derrotar"… foi isso?
A voz dela era fria, mas havia solidão ali.
— Bom, agora eu não tenho mais motivo para acreditar em você. Então, também não existe mais nenhuma base para eu acreditar em mim mesma.
Eu não consegui dizer nada.
Atafami era o único lugar onde eu conseguia derrotar Aoi Hinami sem falhar.
— Então… só tem uma coisa pela qual eu preciso te pedir desculpas.
Hinami apertou o botão de desligar do console. Com um clique seco, a energia foi cortada, e a tela da TV escureceu.
— Pedir desculpas pelo quê?
O monitor negro, agora refletindo apenas o vazio, lançou uma frieza silenciosa entre nós.
— Quando nos encontramos em Omiya… desde o começo, eu estava errada.
Então, como se cuspisse as palavras, como se fosse engolida pela maldição que se agarrava a ela, Hinami disse:
— A vida… é um jogo de merda.
(N/SLAG: TÁ, ISSO AQUI FOI CINEMA!)
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