Volume 11
Capítulo 5: O espelho mágico sempre reflete a verdadeira forma do Rei Demônio
HÁ QUANTO TEMPO eu não sentia nem vontade de jogar Atafami? Não desde aquelas férias de verão do segundo ano do ensino médio, quando tive minha primeira grande briga com Hinami na Estação Kitayono.
Mesmo naquela época — quando minha mente estava enevoada e eu só queria fugir — a única coisa em que eu conseguia me perder era Atafami. Pensando bem, desde que descobri Atafami, nunca me faltou motivação para jogar.
Mas agora… eu nem sequer conseguia fazer isso. Ficava deitado na cama, como se algo me mantivesse preso ali.
A mesma cena se repetia sem parar na minha mente.
A vida é um jogo de merda.
Foi isso que Hinami disse.
Depois de passar um ano enfrentando o jogo da vida, pensei seriamente nas minhas relações com as pessoas e no que eu queria fazer de mim mesmo. Com o tempo, meu objetivo acabou se transformando em querer tornar a vida de Hinami mais divertida — e, ainda assim, eu não consegui mudar nada nela.
— Não foi você quem me ensinou…?
Era frustração? Ou talvez só solidão?
— Foi você quem disse… que a vida é um jogo nível divino…
Agora que eu havia perdido para Hinami, até mesmo minha última cartada — diga isso depois de me vencer — tinha sido tirada de mim.
Ela mudou a minha vida. Pintou tudo com cores vibrantes para mim.
Mas agora, até o direito de retribuir isso me foi arrancado.
— Tudo está começando a parecer tão sem sentido… — murmurei para mim mesmo.
E minha consciência começou a se dissolver na noite.
*
No dia seguinte, segunda-feira, faltei à escola. Contei uma mentira meia-boca aos meus pais. Passei o dia inteiro sem fazer nada.
Minha cabeça estava pesada, meu corpo lento, e eu simplesmente não conseguia encontrar vontade para agir. Dormi tentando recuperar energia, mas quanto mais dormia, mais minha lucidez mental desaparecia. Eu estava preso em uma espiral descendente — e, ao mesmo tempo, era quase grato por isso.
Se eu conseguisse pensar com clareza agora sobre mim e Hinami, talvez odiasse tudo tanto que acabaria querendo me machucar.
— Ah…
Fiquei jogado na cama, como um pedaço de carne apodrecendo, sentindo os limites entre mim e o mundo começarem a se borrar.
Nesse estado, em que eu não sabia dizer se estava acordado ou dormindo, meu celular vibrou de repente.
— Hã?
Olhei para o celular, que brilhava fracamente ao lado do travesseiro, e vi uma ligação da Kikuchi-san. Ela provavelmente percebeu que eu não tinha ido à escola e estava preocupada comigo. Talvez até tivesse me mandado mensagens no LINE enquanto eu não prestava atenção.
…
Para ser sincero, hesitei em atender. Não sabia se conseguiria agir como de costume. Mas Kikuchi-san, que recentemente vinha questionando até os próprios motivos para escrever romances, também devia estar lutando com seus próprios problemas. E, ainda assim, ela estava ali, ligando para se preocupar comigo.
Eu precisava respeitar isso.
Então, com a cabeça ainda enevoada, atendi.
— Alô?
— Fumiya-kun…!
A voz dela carregava um alívio claro por eu ter atendido. E mesmo assim… aquilo mal chegava até mim naquele estado cinzento e entorpecido.
— Você… encontrou a Hinami-san depois daquilo?
— Hã…?
Sem que eu tivesse contado nada, ela entendeu tudo. Fiquei surpreso.
— C-Como você…?
— Dá pra perceber… — a voz de Kikuchi-san era calma, mas firme. — Porque eu sou sua namorada, Fumiya-kun.
…
Fui tomado por uma gratidão profunda, do fundo do coração. E, ainda assim…
— O que a Hinami-san disse pra você—
— Já é… tarde demais — interrompi. — Eu mandei mensagens no LINE, esperei por ela, me encontrei várias vezes com a Haruka-chan, e finalmente consegui falar com ela e dizer o que queria dizer. Até jogamos uma partida de Atafami… e eu perdi.
Enquanto falava, comecei a perceber algo.
— Quer dizer… perder não é exatamente o problema central, né?
A derrota foi só o gatilho. Mesmo que eu treinasse duro em Atafami e conseguisse vencer Hinami da próxima vez, isso não resolveria nada. Ela não mudaria de ideia de repente e decidiria viver acreditando em nanashi.
— No fim das contas, isso, assim como naquela vez das férias de verão, foi só um remendo temporário.
Eu já sabia disso lá no fundo. Sabia que era uma desculpa vazia. Mas achei que, com o tempo, conseguiríamos encontrar a resposta de verdade juntos. Achei que teríamos tempo suficiente para isso.
Mas agora… minha voz não chegava mais até ela.
— É frustrante, mas… eu não tive tempo suficiente. Um ano simplesmente não foi o bastante pra mim.
Ouvi Kikuchi-san prender a respiração suavemente.
— Claro, né…? Ela passou mais de dez anos naquela casa… enquanto eu só passei um ano… vivendo a vida ao lado dela… — enquanto falava, uma onda de tristeza me invadiu. — Isso quer dizer que, no fim, eu não sou tão importante assim pra ela…?
Minha própria voz tremia. Eu tinha feito tudo o que podia — e, ainda assim, fui rejeitado. Até perdi na única coisa em que eu era realmente bom.
Eu me sentia miserável. Envergonhado de mim mesmo.
— Isso não é verdade…
— É sim! Porque talvez… ela fosse especial pra mim, mas pra ela, eu era…!
— Você está errado! Tenho certeza de que, pra Hinami-san, você—
Ela provavelmente ia dizer especial. Mas a voz de Kikuchi-san vacilou e se perdeu.
— Então você nem consegue dizer isso com convicção… — percebi que meu tom estava ficando amargo, deixando a autopiedade tomar conta.
— Não… não é isso — a voz dela começou a tremer.
— Eu só… não suporto…
— Não suporta o quê?
A respiração dela falhou, e uma onda de emoção crua, como estática, atravessou a ligação.
— Eu não suporto a ideia… de você e a Hinami-san acharem que são especiais um para o outro… — a estática ficou mais intensa. — Isso me deixou com ciúmes.
…!
— Você devia ser… meu namorado…
Naquele momento, finalmente entendi. Eu tinha sido completamente cego aos sentimentos de Kikuchi-san. Mesmo depois de tê-la preocupado tanto, mesmo depois de ela ainda ter estendido a mão para mim, eu estava tão obcecado com Hinami que não enxergava o que estava bem à minha frente.
Era óbvio.
— Kikuchi-san… você não entenderia.
Mas, em vez de admitir isso, virei as costas para os sentimentos dela por vergonha e culpa, deixando minha miséria e fraqueza falarem por mim, cuspindo palavras cheias de espinhos.
— Porque eu sempre… estive sozinho. Não importa com quem eu faça amizade, não importa com quem eu namore… eu sempre estou sozinho.
Meu ressentimento apodrecido se transformou em uma desculpa para afastar as pessoas, escorrendo da minha boca. E, logo depois, o silêncio caiu entre nós. Quem o quebrou foi Kikuchi-san.
— Minhas palavras… também não chegam até você, né?
A voz triste dela — seguida pelo som suave da ligação sendo encerrada — esmagou meu coração.
*
No dia seguinte, terça-feira, faltei à escola de novo.
Se alguém perguntasse se eu estava mais abalado pela ruptura com Hinami ou pela briga com Kikuchi-san, a verdade é que não era nenhuma das duas coisas.
Eu estava desesperado… com minhas próprias limitações.
Olhando para trás, percebo que sempre enfrentei as coisas importantes da minha vida usando palavras. No começo, usei minha própria experiência e lógica para concluir que a vida era um jogo de merda. Escolhi dedicar meu tempo precioso a Atafami, o único jogo que eu considerava realmente bom.
Com o tempo, as palavras de Aoi Hinami começaram a mudar essa visão. As palavras que eu usava para definir a mim mesmo foram mudando pouco a pouco.
Quando tive meu primeiro choque com Hinami.
Quando percebi a fenda decisiva entre nós e, ainda assim, quis atravessá-la.
O que conectava eu — que queria acreditar no que realmente desejava fazer — e Hinami, que afirmava friamente apenas a máscara que vestia, também eram palavras.
Nós dois estávamos ligados por nada além de palavras.
Não havia uma verdade absoluta ali. A relação só se mantinha prolongada pelas palavras.
E isso não era só comigo.
Depois da eleição do conselho estudantil, também foram palavras que resolveram o complexo de inferioridade e as contradições internas da Mimimi. Sempre se comparando aos outros, incapaz de se sentir confiante sem resultados, carregando sua insegurança em relação à Hinami.
Mas as palavras da Tama-chan — você é a número um pra mim — purificaram as emoções incandescentes da Mimimi e encerraram aquela situação.
Ainda assim, a tendência da Mimimi de se comparar aos outros não mudou. A estrutura do problema em si não foi resolvida de forma fundamental. Naquele momento, Mimimi apenas seguiu em frente, guiada pela força das palavras da Tama-chan.
Durante os preparativos para o festival esportivo, também foram palavras que ajudaram Izumi quando ela lutava com sua identidade. Ela odiava acabar sempre assumindo tarefas ingratas que só a prejudicavam, mas ao mesmo tempo não conseguia ignorar pessoas em dificuldade.
Havia algo de desconfortável em impor papéis às pessoas pelo bem dos outros. Por isso me senti inquieto ao assumir a liderança do festival esportivo no lugar da Hirabayashi-san, que estava sofrendo. Mas, ao mesmo tempo, parecia errado simplesmente deixá-la daquele jeito.
Talvez essa contradição em si fosse o carma da Izumi.
Essa visão contraditória foi ampliada de repente pela percepção de que, se eu realmente quisesse fazer algo, então tudo bem assumir até um papel ingrato. Uma única realização mudou tudo.
O mesmo aconteceu com Erika Konno e Tama-chan. Quando Tama-chan estava prestes a ser esmagada pelo conflito entre sua crença no que era certo e a injustiça do mundo, mais uma vez foram palavras que a libertaram.
Era claro que o mundo estava errado — e que não havia nada de errado com os valores da Tama-chan. Mas vê-la entristecida por machucar seus amigos enquanto lutava contra esse mundo injusto criou um beco sem saída impossível.
Esse impasse foi quebrado de forma bela pelas palavras simples e paradoxais:
Eu quero mudar o eu que está certo.
Foram palavras que deram um novo tipo de "correto" ao ato incorreto de abandonar a própria retidão.
E então… tem eu e Kikuchi-san.
Durante o festival cultural e a festa de despedida, Kikuchi-san estava dividida entre o ideal de que não deveria estar comigo e seus sentimentos, que queriam seguir em frente apesar disso.
Eu, por minha vez, estava dividido entre o peso pessoal de não conseguir realmente compartilhar responsabilidades com os outros e os sentimentos que ainda valorizavam Kikuchi-san como uma garota.
Se o carma da Kikuchi-san era enxergar o mundo de forma distante e idealista, então nós dois lutávamos entre nossos fardos e nossas emoções.
Ainda assim, conseguimos conectar esse abismo afirmando os fardos potencialmente prejudiciais um do outro e escolhendo ficar juntos simplesmente porque queríamos — como personagens vivendo nesta história chamada mundo.
Os humanos só conseguem observar o mundo a partir de sua própria perspectiva. Por isso, tudo é fundamentalmente dividido entre eu e não-eu.
É impossível, em princípio, interagir de verdade com algo fora de si mesmo.
Num mundo assim — onde a solidão é o estado padrão, e encará-la é tão frio que quase se torna insuportável — essa é a verdade.
Nesse mundo monstruoso, a única magia capaz de conectar alguém aos outros são as palavras.
Mas, não importa quantas palavras eu tenha lançado contra Hinami, eu não consegui mudá-la.
Esperei em emboscada, entrei em contato com a família dela sem permissão, usei o peso da minha namorada de forma quase exploratória. Enfrentei a fragilidade da Aoi Hinami que eu sempre quis manter brilhante e radiante, e usei todas as palavras que consegui pensar.
— E, ainda assim, não consegui alcançar o cerne de Hinami.
Se a razão é o mecanismo que te permite seguir em frente, então não há dúvida de que Aoi Hinami foi quem me deu todas as engrenagens para navegar pela vida.
Mas, no fim, Hinami disse que a vida é um jogo de merda.
Então… onde está a razão para eu continuar jogando esse jogo chamado vida?
Quando você remove palavras e razões da vida, o que sobra é apenas—
Vazio.
Em algum momento, devo ter adormecido.
No meio da minha consciência turva, um som grave e vibrante invadiu de repente. Depois de desperdiçar o tempo sem fazer nada, a luz do sol que entrava pelas cortinas havia se tornado violeta, em algum ponto entre o dia e a noite.
Tateei a cama com mãos sonolentas e encontrei meu celular, que nem sequer estava conectado ao carregador. Havia apenas uma notificação.
— Hã?
Não consegui conter o som.
A notificação informava que uma história da minha lista de acompanhamento em um aplicativo de leitura havia sido atualizada.
A única história na minha lista era Pureblood Hybrid and Ice Cream, o romance escrito pela Kikuchi-san. O capítulo mais recente — o segundo — tinha sido atualizado poucos minutos atrás.
…
Ainda meio grogue, abri a página.
Dizer que foi apenas por curiosidade não seria totalmente verdade.
Talvez fosse uma premonição.
Ou talvez… eu pudesse até chamar de certeza.
Foi só ontem que Kikuchi-san e eu tivemos aquela briga. E, recentemente, com toda a comoção em torno da possível publicação do livro dela, fazia um bom tempo que ela não atualizava a história. Mesmo assim, exatamente neste momento, a obra havia sido atualizada.
Eu não queria ser excessivamente autoconsciente, mas também não conseguia ser otimista a ponto de acreditar que isso não tivesse nenhuma relação comigo.
Sentei-me na cama e depois me acomodei à escrivaninha de estudos.
…
Toquei na notificação, destravei o celular e abri a página de usuário da Kikuchi-san no site de publicação de romances. Como se estivesse sendo puxado para dentro, comecei a ler a história.
Depois do prólogo, em que Alucia e Libra se conhecem, Pureblood Hybrid and Ice Cream passa a assumir um tom mais próximo de uma fantasia escolar, conforme os dois ingressam na academia real e aprofundam seus laços com outras pessoas enquanto enfrentam diversos desafios.
O segundo capítulo gira em torno de um torneio de engenharia mágica realizado na academia. Até então, Alucia havia passado muito tempo ao lado de Libra, ajudando-o a se adaptar à vida escolar. Mas, para participar do torneio, ela precisaria passar um tempo afastada dele.
Enquanto isso, Libra continuou sua rotina na academia e, por meio de certo acontecimento, acabou se aproximando de Nana, uma garota do Clã Azul e melhor amiga de Alucia.
— Libra, você e a Alucia são próximos, né?
— A-Ah… acho que sim.
— Então me conta! Qual é a fraqueza da Alucia?
Por um capricho de Nana, Libra acabou ajudando-a no torneio de engenharia mágica. Como o próprio nome indica, trata-se de um grande evento da academia, no qual os alunos competem criando artefatos por meio da magia. Mas, por ser engenharia mágica, não se avalia apenas a beleza visual dos objetos — também é julgada a eficácia das habilidades especiais incorporadas a eles.
Nana, agora formando dupla com Libra, era o trunfo do clube de engenharia mágica da academia e a favorita absoluta para vencer o torneio. Com mais de dez anos de experiência na área, era considerada a competidora mais forte. No entanto, com a entrada de Alucia — membro da família real e possuidora da habilidade especial Bloodless — as previsões se inverteram. O torneio passou a ser visto como uma disputa direta para decidir qual das duas sairia vencedora.
— Será que eu consigo mesmo ganhar? Minha oponente é a Alucia.
— Não posso prometer que você vai vencer, mas… eu tenho um plano.
Alucia, uma garota nascida na realeza, que tinha tudo desde o começo e era abençoada com o poder excepcional de ser Bloodless. Nana, uma garota do povo comum, que acreditava que sua única habilidade verdadeira era a engenharia mágica.
No confronto final entre essas duas, Libra — que conhecia a verdadeira natureza de Alucia — estava ali para apoiar Nana. Esse era o cerne da trama do segundo capítulo de Pureblood Hybrid and Ice Cream.
— Isso é… — murmurei enquanto lia.
Não era a primeira vez que algo assim acontecia, então eu sabia que não se tratava de mera coincidência.
Um garoto estrategista se alia a uma garota esforçada para tentar derrotar uma rainha esmagadoramente talentosa.
— Essa estrutura era idêntica a uma história que eu conhecia bem demais.
À medida que as palavras deslizavam pela tela, elas se infiltravam na minha mente como se fossem parte das minhas próprias experiências. Desde o incidente no teatro, as histórias da Kikuchi-san sempre buscaram escavar o coração humano por meio de uma pesquisa minuciosa. A essa altura, um grau tão alto de semelhança era praticamente inevitável.
Aquela história era, sem dúvida, baseada na disputa eleitoral que eu havia contado a Kikuchi-san — aquela em que me uni à Mimimi para enfrentar Hinami.
Mas havia um elemento absolutamente diferente do que eu havia vivido.
— A protagonista daquele romance não era Libra, e sim Alucia.
— O gelo que não derrete, o sangue da serpente celestial… Certo, com isso, só falta—
Enquanto fazia seus preparativos com firmeza, Alucia também se encontrava em conflito. Se levasse o plano até o fim, venceria quase com certeza. Mas isso significaria esmagar completamente o orgulho de sua melhor amiga, Nana. O dano causado a alguém que havia dedicado mais de dez anos à engenharia mágica seria, sem dúvida, imensurável.
Ainda assim, aquilo era uma competição. Ao entrar em uma disputa, era preciso aceitar a possibilidade da derrota. E, considerando seu futuro como membro da realeza, talvez fosse até necessário demonstrar ali uma diferença clara de poder.
Mesmo assim, Alucia não conseguia compreender.
Eu quero vencer este torneio… mas por quê? Que significado eu encontro no título ou na vitória que posso obter?
— Eu… vou me tornar uma rainha.
Mesmo sussurrando essas palavras para si mesma, elas soavam vazias.
— Porque eu preciso.
Carregadas de obrigação, aquelas palavras careciam da força que se poderia chamar de determinação. De fato, vencer elevaria sua reputação. Quando chegasse a hora de herdar o nome da família real, um histórico de vitórias em torneios da época da academia certamente facilitaria o apoio dos cidadãos.
Mas—
Do alto da sacada do último andar da academia, Alucia contemplou a noite iluminada pela lua e murmurou:
— O que isso significa… para mim?
Destruir o orgulho da minha melhor amiga. Ganhar prestígio para me tornar uma rainha que eu nem sequer desejo ser. O valor ou o reconhecimento obtidos assim realmente se tornariam parte de mim?
Parecia que as habilidades e o brilho adquiridos acabariam se dissipando, como uma substância estranha injetada em um corpo que nunca deveria ter sangue. No fim, eu retornaria àquele vazio inicial.
É isso mesmo que eu quero fazer? É algo que eu preciso conquistar, mesmo que isso machuque minha melhor amiga?
— Mas eu não tenho escolha, certo?
Sem encontrar respostas, Alucia ainda assim era impulsionada por algo indefinido e começava a traçar uma estratégia impecável.
A estrutura da história era claramente inspirada em uma campanha eleitoral. No entanto, o tema era nitidamente diferente do que eu havia presenciado na realidade. Naquela época, eu havia tomado consciência do complexo de inferioridade, das contradições e da confusão que se escondiam dentro da Mimimi — e refleti sobre tudo isso.
A partir daquela experiência, compreendi o significado do esforço e da incapacidade de se enxergar como alguém especial — em outras palavras, o equívoco nascido de uma falta fundamental de autoestima.
O sorriso triste da Mimimi naquele dia, suas palavras desesperadas e suas lágrimas de arrependimento ainda estão gravados profundamente em meu coração. Acredito que foi por causa disso que me tornei mais capaz de entender o coração das pessoas que não conseguem ter confiança em si mesmas.
No entanto, a história contada por meio do torneio de engenharia mágica permanecia focada, do começo ao fim, no vazio de Alucia — a garota sem sangue.
Em certo momento, Alucia se aventura sozinha nas profundezas da Floresta da Dúvida em busca de uma trepadeira mágica mais macia que seda e, ainda assim, inquebrável. Durante essa jornada, porém, ela é atingida pelas presas venenosas de uma serpente.
A ferida se agravou. Mesmo que seu corpo Bloodless fosse imune ao veneno, estava claro que ela já não conseguia mais andar. Mais cedo ou mais tarde, uma besta carnívora a encontraria e a devoraria em um instante.
Alucia previa esse futuro, mas não sentia desespero.
Ela foi encontrada por um garoto chamado Sharif, um híbrido de humano e papillon. Mas, pouco antes de perder a consciência, afastou a mão estendida dele e murmurou:
— Pare… eu finalmente estou sendo libertada desta prisão.
Talvez não fosse tão ruim simplesmente morrer aqui.
Porque eu sempre fui vazia. Mesmo que eu perca minha vida aqui, o nada apenas retornará ao nada.
— Por isso está tudo bem… me deixe.
Prendi o ar de repente, e meus lábios se colaram. Só então percebi o quanto minha boca estava seca. A mão que segurava o celular estava fria — estranhamente úmida de suor.
Eu não conseguia dizer o quanto os sentimentos de Alucia se sobrepunham aos de Hinami. Mas usar uma personagem claramente inspirada em uma pessoa real para retratar uma mentalidade tão distorcida — que desejava a própria morte — beirava a violação de certas regras implícitas.
Ainda assim, Hinami havia dito que tudo — desde sua busca por se tornar a número um até o fato de me ajudar com minha estratégia de vida — era feito para provar a própria correção. Apenas por meio da reprodutibilidade dos resultados nascidos do esforço seria possível provar o que é certo. Por isso, ela continuava acumulando "correção".
Chamar isso de prisão… eu não conseguia negar.
Durante aquela eleição, eu estava tão absorto em jogar o jogo de manipular a poderosa Mimimi para derrotar Hinami que talvez não tenha refletido profundamente sobre as motivações dela. Pensei repetidas vezes em que tipo de estratégia poderia derrotar aquele Rei Demônio, mas não tentei realmente enxergar o coração dela — o que ela pensava ao construir um plano tão perfeito.
Em contrapartida, Pureblood Hybrid and Ice Cream retratava de forma insistente o conflito interno de Alucia — suas dúvidas intermináveis sobre o motivo de lutar — enquanto ela se preparava para o torneio. A obra descrevia essas hesitações com uma intensidade implacável, como se estivesse preenchendo as emoções da Aoi Hinami que eu não consegui compreender totalmente a partir da minha própria perspectiva.
Por fim, a história alcançou o clímax do torneio de engenharia mágica.
— E a vencedora é… Alucia!
Embora a equipe de Libra e Nana tenha apresentado uma criação engenhosa que deixou os juízes maravilhados, Alucia dominou completamente o espaço com seu planejamento meticuloso e uma obra de engenharia mágica de perfeição esmagadora, garantindo a vitória por uma diferença incontestável. Não havia como um truque improvisado de última hora superar aquele estilo sólido, lapidado ao extremo.
Com o encerramento do segundo capítulo de Pureblood Hybrid and Ice Cream na vitória de Alucia, a narrativa passou a se concentrar em Nana, que, após a derrota, começou a questionar a própria existência.
Derrotada por sua melhor amiga — uma garota da realeza, abençoada com tudo — justamente no campo da engenharia mágica, a única área da qual ela realmente se orgulhava. Mesmo tendo apostado tudo nisso, acreditando que era a única coisa que possuía.
Nana, uma garota comum em todos os outros aspectos, não conseguiu continuar como antes. Pouco a pouco, passou a faltar aos treinos diários de engenharia mágica que nunca havia deixado de cumprir em mais de dez anos. Até que, por fim, abandonou completamente o esforço que vinha construindo.
A história continuava e, embora não fosse idêntica às minhas próprias experiências, seguia em paralelo a elas.
Eu devorava cada linha, fascinado pela forma como aquela narrativa se assemelhava ao que eu conhecia — e, ao mesmo tempo, se distanciava. Alucia, ciente de que fora a causa do colapso de Nana, passou a sentir um peso crescente de responsabilidade ao ver sua melhor amiga perder aquilo que lhe era mais precioso.
— Foi… culpa minha, não foi?
Essa é uma distorção que eu causei, pensou Alucia.
Afinal, ela não tinha nenhum apego real ao torneio de engenharia mágica. Alucia só havia tido contato com essa área ao ingressar no curso da academia. Portanto, mesmo que tivesse perdido, seu coração não teria sido ferido, nem havia orgulho algum que precisasse proteger.
Mesmo um segundo lugar já seria um resultado extraordinário para uma estreante. E, se a derrota tivesse sido para Nana — sua melhor amiga, que praticava engenharia mágica com dedicação há mais de uma década — a história teria sido ainda mais bonita.
Ela não precisava ter vencido.
Talvez ela devesse ter se contido em algum momento, pensou.
Certo dia, Libra lhe perguntou por que ela era tão obcecada em vencer, e Alucia chegou a uma realização.
— Libra, você entende, não entende?
— Entender o quê?
— Existem trinta e duas espécies neste mundo, e cada uma delas tem o seu próprio deus em que acredita, certo?
— Sim…
— Mas eu não tenho um deus para acreditar. Porque eu não tenho sangue.
— Ah…
Libra entendeu imediatamente. Ele sentia o mesmo.
— Libra, você é um híbrido de sangue puro. Não é como eu, mas, como alguém que não pertence a nenhuma espécie específica, você é uma existência especial. Então, você entende, não é? Eu não tenho nada em que acreditar. Eu sou vazia.
Sem dúvida, aquela foi uma das raras ocasiões em que Alucia revelou seus verdadeiros sentimentos.
— Se é assim, não tenho escolha a não ser vencer. Vencer e ser reconhecida por todos.
As palavras de Alucia eram desesperadas, como se ela estivesse procurando alguém como ela naquele mundo.
No entanto—
— Eu…
Libra forçou lentamente as palavras para fora, mas elas não eram o que Alucia esperava.
— Eu não tenho uma única linhagem de sangue puro, então é difícil acreditar em uma coisa só. Mas… — disse Libra, olhando para a frente como se fosse o próprio sol. — Eu sinto que posso acreditar em tudo, nem que seja um pouquinho.
— O deus do sol, o deus da lua, o deus da terra e o deus do mar… em todos eles!
Ao ouvir aquelas palavras, a expressão de Alucia se contorceu.
O sorriso puro e inabalável de Libra, como se ele não tivesse nenhuma dúvida sobre o mundo, era ao mesmo tempo um farol de esperança e o veneno mais tóxico que Alucia conseguia imaginar.
— Entendo… — Alucia sorriu de forma triste. — Então, Libra, você também é diferente de mim.
— Diferente? O que você quer—
O veneno dentro de Alucia se transformou em desespero, dando origem a palavras carregadas de solidão.
— Porque eu… eu sou o seu oposto. Porque eu não tenho sangue.
Seus olhos estavam manchados de desconfiança em relação ao mundo enquanto ela cuspia as palavras.
— Eu só consigo duvidar de tudo.
Suas palavras eram frias, mas retratavam perfeitamente a sua realidade.
— Sabe, eu sempre achei que precisava derrotar todo mundo. — Agora, tingidas de determinação, suas palavras começaram a carregar sua vontade.
— Mas talvez as pessoas que eu derrotei tivessem algo realmente nobre… uma estética, ou o desejo de ajudar os outros. Talvez tivessem uma paixão que pudessem declarar amar, e estivessem lutando por isso.
Alucia falava como se as invejasse.
— Mas eu não tenho nada disso.
Ela sorriu amargamente, como se estivesse se resignando ao próprio destino, e uma única lágrima escorreu de seu olho.
— Eu sou apenas um receptáculo vazio e contaminado.
Um receptáculo sem conteúdo havia destruído os ideais nobres daqueles que poderiam ter mudado o mundo para melhor.
Uma boneca fria como gelo rompeu a harmonia que deveria ser reverenciada.
Uma máquina sem desejos próprios extinguiu a paixão genuína de outra pessoa.
E, em troca, tudo o que obteve foi uma vitória vazia.
Como um ser humano vazio, será que eu realmente tenho o valor necessário para reivindicar tal vitória?
Por fim, Alucia expressou claramente sua decisão a Libra.
— Eu decidi. No próximo torneio, eu vou perder.
— Por quê… você faria isso? — Libra ficou atônito com suas palavras.
— A vitória não combina com alguém que luta apenas para vencer. Só conseguir ganhar não torna ninguém digno disso.
Com palavras simples, Alucia negou a si mesma do passado.
— Até que eu entenda quem eu realmente sou, não preciso de mais vitórias vazias.
Sua determinação era distorcida, mas inabalável.
— Então, Libra, eu tenho um favor a pedir.
Alucia segurou a mão de Libra, como se buscasse apoio.
Embora sua mão não estivesse tremendo, estava gelada como gelo.
— Mesmo que eu perca… mesmo que eu deixe de ser essa versão especial e brilhante de mim mesma…
Seus olhos vacilaram como a superfície de um lago agitado pelo vento, refletindo uma luz instável.
— Você ainda vai precisar de mim, mesmo que eu seja a versão de mim que perdeu?
*
Alguns dias depois, Alucia participou de um torneio eliminatório durante uma aula prática de treinamento de duelos.
Era um evento em formato de torneio, no qual os alunos, vestindo equipamentos de proteção especializados, lutavam usando magia até que a durabilidade do equipamento caísse abaixo de um certo limite.
Depois de vencer facilmente sua primeira luta contra um colega de classe, o segundo oponente de Alucia foi Nana.
Nessa batalha, Alucia pretendia perder de propósito.
— U-um, vamos ter uma boa luta!
— Sim. Vamos dar o nosso melhor, Nana.
As duas se posicionaram na arena. A presença pesada e intensa de Alucia era quase sufocante, enquanto Nana, tentando agir como de costume, não conseguia disfarçar o nervosismo. Antes mesmo do início da luta, a diferença entre suas auras era evidente.
Diante de Alucia, a favorita para vencer o torneio, Nana recuou instintivamente. Ela já havia perdido para ela na engenharia mágica, sua melhor área, e não havia como vencer em um duelo, onde era ainda mais fraca. Sua vitória na primeira rodada não passara de pura sorte.
Mesmo assim, Nana não pensava em desistir.
Muito pelo contrário — ela ardia em desejo de vingança, disposta a apostar tudo em um único momento.
A diferença de habilidade era óbvia.
Se houvesse qualquer chance de vitória, ela viria de um ataque inesperado.
Sua única estratégia era pegar Alucia desprevenida e vencer com um único golpe, antes que a luta se prolongasse.
— Comecem!
Assim que o professor, atuando como árbitro, deu o sinal, Nana avançou, seu rabo de cavalo desenhando um arco no ar. Seus passos eram desajeitados, sua postura instável. A forma como ela tentou invadir o espaço de Alucia era tão mal executada que normalmente a faria bocejar. Era fácil demais de evitar; nem exigia pensamento consciente.
Mas, para Alucia, que pretendia perder de propósito, aquilo era perfeito.
Fui pega de surpresa por um ataque inesperado, e a diferença de habilidade foi superada.
Foi uma aposta arriscada, e quando percebi, tudo havia acabado.
Nana, consumida pelo desejo de vingança do torneio de engenharia mágica, venceu pela pura força de vontade!
Se essa história se desenrolasse assim, os espectadores aceitariam como uma vitória improvável, porém plausível. Alucia, que pensava em como tornar sua derrota convincente, não poderia ter pedido oportunidade melhor.
— E então—!?!
Alucia exagerou a respiração, fingindo surpresa. Desviou dramaticamente o olhar para a finta de Nana, criando uma abertura óbvia e escancarada. Seus movimentos eram tão naturais que todos acreditariam que ela havia caído na armadilha.
Um projétil mágico disparou do cajado de Nana. Ainda era um feitiço imaturo, longe da esfera perfeita de um conjurador experiente. Distorcido, porém grande, continha energia suficiente para encerrar a luta com um único golpe se atingisse alguém sem proteção.
O projétil avançou direto em direção ao rosto de Alucia.
Ela pretendia se virar e receber o golpe de propósito.
Mas—
Naquele instante, uma mão gelada pareceu apertar seu coração.
— Se você deixar isso acontecer, vai perder.
— Perder vai provar que você não tem valor.
— Se perder, tudo o que restará de você será o vazio.
Esses pensamentos sombrios perfuraram seu âmago e, no instante seguinte—
Antes que percebesse, Alucia controlou sua magia com uma precisão além de seus próprios limites e desviou o projétil no último segundo.
Ela girou o corpo, impulsionando-se do chão com músculos e magia ao mesmo tempo—
— Ah…!
No instante seguinte, ela havia destruído tudo em seu caminho.
Nana, segurando o estômago, caiu lentamente de joelhos e desabou sem forças.
Menos de dez pessoas na plateia conseguiram acompanhar o que realmente aconteceu. Para todos os outros, Nana apenas foi lançada longe por uma magia que excedeu levemente a resistência de seu equipamento, enquanto Alucia permanecia de pé, imóvel e implacável.
O que aconteceu? Nada de especial.
Alucia simplesmente desapareceu do campo de visão de Nana e, segundos depois, a derrotou com um único golpe.
— E… a vencedora… é Alucia!
O suor escorria pelo corpo de Alucia. Apesar da vitória, sua respiração estava irregular, quase como se estivesse gravemente doente, e seu rosto parecia pálido mesmo à distância.
— Uau, ela é tão forte!
— Como esperado dela…
— Mas… isso era mesmo necessário?
— Bem, é uma competição…
A mistura de aplausos, comemorações e confusão transformou sua vitória em algo ao mesmo tempo dramático e controverso.
No entanto— aquelas vozes não a alcançavam.
Alucia, mais exausta do que a própria Nana caída, encarava as próprias mãos. Ela já estava acostumada à sensação de estar desconectada do mundo, mas agora o frio que sentia parecia insuportável.
Ela achava que era uma maldição.
Acreditava que, ao se controlar pela razão e dominar completamente suas habilidades, conseguiria lidar com tudo. Absorver o sangue dos outros para amplificar seu poder era apenas um efeito colateral. Essa frieza excessiva e essa perfeição eram seus maiores trunfos como alguém sem sangue.
Mas—
— Escolher perder por vontade própria.
Nem mesmo esse simples ato ela foi capaz de realizar.
— Entendo… então é só isso que eu sou.
Alucia sorriu de forma fraca, como se algo dentro dela tivesse se quebrado. Passou por Nana caída e saiu lentamente do palco. Os aplausos, a música e as celebrações soavam distantes, como se não fossem destinados a ela.
— Eu só tenho medo de perder o meu valor.
Não havia como eu ler algo assim sem sentir nada. A história, claramente construída para se aproximar da realidade, era tão precisa ao retratar as camadas mais profundas do coração humano que não hesitava em ferir e exaurir o leitor.
Era impossível acreditar que não houvesse uma mensagem oculta ali, ainda mais considerando o momento em que fora escrita.
Kikuchi-san devia ter reescrito essa história — Pureblood Hybrid and Ice Cream — dessa forma.
Ela captou a essência dos acontecimentos que se desenrolaram ao meu redor, desmontou tudo até o núcleo e reconstruiu em uma narrativa diferente.
E, ao longo da história, havia um elemento novo e constante que não existia antes.
Algo que mal havia sido tocado na narrativa contada do meu ponto de vista.
As emoções e motivações de Aoi Hinami.
Kikuchi-san provavelmente tentava chegar ao cerne da personagem Aoi Hinami ao reconstruir a história a partir da perspectiva de Libra, usando Alucia como lente.
— Entendo.
Conforme eu continuava a leitura, comecei a perceber mais uma coisa.
Os episódios de Pureblood Hybrid and Ice Cream — como quando Alucia usou Libra para testar o poder dos sangue-puros que ela mesma já havia tentado antes, ou quando Nana se uniu a Libra para tentar derrotar Alucia.
Nenhuma dessas coisas poderia ter sido testemunhada por Kikuchi-san.
Tudo isso só poderia ter sido visto a partir da minha perspectiva em primeira pessoa.
Eu era o único que realmente conhecia aquele mundo.
Ao relembrar todas as conversas que tive com Kikuchi-san desde que nos conhecemos, percebi algo.
Sempre que eu tropeçava na vida, sempre que me sentia perdido, eu ia até a biblioteca como se fosse um ponto de salvamento e conversava com Kikuchi-san sobre meus problemas.
Ela sempre me dava pistas, transformando minhas motivações em palavras que serviam como placas de sinalização.
Lembro-me de uma vez em que Kikuchi-san disse:
— Ouvir suas histórias é como ler um romance. As cenas simplesmente surgem na minha mente.
À medida que fui me aproximando de Kikuchi-san, as coisas que eu conseguia confiar a ela se expandiram muito além do que havia contado no início.
Coisas que eu não conseguia dizer aos meus amigos, mas que sentia poder compartilhar com uma namorada. É um sentimento comum, não é?
Foi assim que comecei a contar a Kikuchi-san coisas que nunca havia contado antes — segredos sobre Hinami e histórias de bastidores que eu havia guardado só para mim, sempre tomando cuidado para não cruzar a linha da desonestidade.
— Mas.
Se Kikuchi-san estava criando esse romance a partir do mundo visto pelos meus olhos…
Se ela estava escrevendo uma história baseada nas memórias quase novelescas que compartilhei com ela, então todas as palavras que disse desde que comecei minha estratégia de vida — até este exato momento — talvez estivessem se transformando em outra história.
Com a sensação de quem se agarra a uma linha de salvação, deslizei o dedo pela tela, procurando o próximo capítulo. Eu não sabia de qual perspectiva, nem quais emoções aquela história ainda me traria. Mas uma narrativa capaz de reinterpretar a sua vida e abalar seus valores despertava algo profundo dentro de mim, e meu cérebro parecia desejar automaticamente mais.
No entanto—
— Não está… aqui.
No lado direito da tela rolada, não havia nenhum link para o próximo capítulo, como antes. Parecia que a escrita de Kikuchi-san terminava ali.
Coloquei o celular de lado.
Ultimamente, eu vinha evitando interagir com os outros — ou até mesmo jogar Atafami.
Mas agora…
Eu queria ler mais daquela história.
Queria falar com quem a havia escrito.
A razão para seguir em frente havia sido restaurada.
Fechei o aplicativo do romance e abri o LINE.
Eu queria entender a verdadeira natureza daquele sentimento. Ou talvez, no fundo, eu já entendesse. Afinal, eu havia encontrado possibilidades nos próprios movimentos do meu coração.
Ao abrir o LINE, vi inúmeras mensagens demonstrando preocupação por eu ter faltado dois dias seguidos à escola. Não era uma enxurrada no nível das mensagens de aniversário que Hinami recebia, mas ainda assim pareciam uma prova do esforço que eu vinha fazendo para encarar minha vida.
Apostando em um frágil lampejo de esperança, liguei para Kikuchi-san.
*
Algumas horas depois, eu a esperava em um parque em Kita-Asaka.
— Fumiya-kun.
Kikuchi-san chegou correndo, levemente ofegante. Devia ter se apressado para não me fazer esperar. Apesar de eu tê-la rejeitado abruptamente e, logo depois, pedido para nos encontrarmos, ela ainda assim veio.
Kikuchi-san era muito mais madura do que eu.
Ela era, sem dúvida, alguém muito importante para mim.
— Oi — disse eu, sentindo que precisava começar com algo essencial. — Kikuchi-san, me desculpa.
Eu havia jogado meus sentimentos egoisticamente sobre ela, dito palavras e fugido. E, mesmo assim, ela estava ali, disposta a me encarar. Não importava quantas vezes eu pedisse desculpas, nunca seria suficiente.
E, mais do que tudo—
— Obrigado.
O sentimento mais forte que transbordava dentro de mim era gratidão.
— Obrigado por ainda esperar por alguém como eu.
— Não… fui eu que, naquela época, só consegui dizer coisas desajeitadas.
— Não é verdade. Além disso, acho que, não importa o que você tivesse me dito naquele momento, eu provavelmente não teria ouvido. Desde o início, talvez eu já tivesse decidido rejeitar tudo no meu coração. Me desculpa.
— Não. Eu só fico feliz por poder falar com você de novo.
Cada palavra que Kikuchi-san dizia, com a intenção de me perdoar e me acolher, afundava profundamente no meu coração.
— Ei, Kikuchi-san.
— S-Sim?
— Eu li o seu romance.
Achei que isso bastaria para transmitir quase tudo. Afinal, o que Kikuchi-san havia escrito era muito mais denso do que qualquer coisa que palavras simples pudessem expressar.
— Desde a nossa briga de ontem, eu sentia que nada conseguia me tocar emocionalmente. Nem as mensagens de todo mundo, nem o LINE que você me mandou, nada chegava até mim.
Era como se meu corpo estivesse rejeitando todas as palavras inconscientemente. Como se eu estivesse trancado em uma prisão, sozinho, com os ouvidos tapados para qualquer chamado do lado de fora. Eu odiava tudo no mundo, a ponto de não haver espaço para ninguém interferir.
Os seres humanos são, no fundo, criaturas solitárias, e eu acreditava que não havia como romper essa fortaleza absoluta.
— Mas—
Essa fortaleza foi destruída sem esforço por uma certa magia.
— A história chegou ao meu coração.
O que desatou o nó apertado dentro de mim foi a narrativa tecida por Kikuchi-san.
— Acho que eu não consigo mais fazer isso sozinho.
Nem esperar por ela funcionou, nem despejar minha alma com todos os meus sentimentos verdadeiros. A essa altura, eu já não tinha meios de atravessar a carapaça de Hinami.
— Mas.
A mensagem que eu realmente queria transmitir, o tema que eu queria compartilhar. A forma de entregá-lo a alguém sem gritar ou tentar vencer uma discussão.
Havia apenas uma coisa que eu sabia.
— Eu quero pegar emprestada a sua força, Kikuchi-san.
Era um poder avassalador, nascido da arte de Kikuchi-san.
A magia que havia comovido Haruka-chan — Aoi Hinami.
E a magia brilhante que me alcançou com tanta facilidade, mesmo quando eu estava no fundo do poço.
— O poder de contar histórias.
Eu havia visto isso com meus próprios olhos.
Mesmo quando Aoi Hinami não mudou após ser confrontada por Mizusawa nas férias de verão, ou quando eu intervenho na plataforma do trem, as falas poderosas da peça abalaram seu íntimo, expondo sua escuridão interior.
Com apenas algumas palavras, Kikuchi-san desenterrou o passado da família Hinami, agitando os sentimentos de Haruka-chan.
E — quando eu perdi a fé nas palavras, quando me cansei de tudo e não queria mais falar com ninguém, ela me puxou para fora daquele lugar sombrio com facilidade.
O catalisador de tudo isso foi a história que Kikuchi-san escreveu.
— Eu quero que você crie isso comigo.
Eu queria entrar no mundo de Hinami, mas havia perdido os meios para isso. Kikuchi-san tinha os meios, mas havia perdido o motivo.
Como uma roda e uma engrenagem, nós dois possuíamos algo de que precisávamos para seguir em frente—
— E agora, aqui estávamos nós, como namorado e namorada.
— Uma história para afirmar Aoi Hinami.
Uma história capaz de mudar os valores e o modo de viver de alguém, e salvá-la de forma dramática.
Dito de maneira simples, talvez não passasse de uma fantasia ingênua, daquelas que só uma criança sonhadora criaria.
Talvez fosse até indulgente demais, constrangedora de se dizer em voz alta.
Mas, se fosse com Kikuchi-san, eu realmente acreditava que poderíamos conseguir.
— Fumiya-kun, você continua tão ousado e idealista quanto sempre, não é? — disse ela, sorrindo como uma garotinha, com uma risadinha leve.
— Ugh… você acha?
Ao ouvir aquilo, não consegui evitar ficar envergonhado com a audácia das minhas palavras, sentindo o rosto esquentar.
Kikuchi-san assentiu sem hesitar e, então, olhando para mim com um brilho travesso nos olhos, disse:
— Mas— desta vez, eu estou um pouco mais confiante.
— Hã…?
— Para ser sincera, eu ainda não encontrei meu próprio motivo para escrever. Mas — Kikuchi-san se apoiou em mim, confiante, como se me deixasse sustentar seu peso. — Desta vez, é você quem está me dando um motivo para escrever, não é?
Era como se ela confiasse não apenas o corpo, mas todo o coração, ao dizer aquilo.
— Um motivo muito bonito — salvar alguém importante para você.
Fiquei completamente cativado por suas palavras. Pode parecer estranho dizer isso, mas comecei a pensar que talvez esse tivesse sido o motivo de eu ter começado a namorar Kikuchi-san desde o início.
— Então, eu quero tentar. Quero começar a correr com o motivo que você me deu. E, ao longo do caminho… quero encontrar o meu próprio motivo.
Ela falava como criadora ou como garota?
Não — ela falava como Kikuchi-san, como um ser humano.
— É, eu acredito que você consegue, Kikuchi-san.
Mas Kikuchi-san balançou a cabeça.
— Não é que eu consiga.
— Ah, verdade… é que nós conseguimos—
— Fumiya-kun—
Kikuchi-san sorriu de forma sábia e madura, como se estivesse me ensinando uma lição.

— Não é isso também.
Eu não fazia ideia do que ela diria a seguir.
— Os personagens dessa história não são apenas Alucia e Libra… Cada um deles é um personagem importante, com a própria alma. Todos são companheiros indispensáveis para descobrir a verdade de Alucia. Então—
Com carinho na voz, como se estivesse prezando tudo o que havia conquistado até ali, ela continuou:
— Eu quero a Nanami-san, o Mizusawa-kun, a Izumi-san, a Hanabi-chan… — e, com um tom esperançoso, cheio de futuro brilhante — quero que todos os personagens da história do Tomozaki-kun nos ajudem.
O brilho daquelas palavras capturou meu coração.
— Não apenas a franqueza direta do protagonista… mas também a falta de confiança de alguém, a timidez de alguém, a indecisão de alguém, a força de alguém… e até as memórias insuportáveis e completamente negras de alguém. Só reunindo os sentimentos e as experiências de todos é que podemos desfazer esse nó. Alucia é complexa assim — ela não é alguém que possamos resolver facilmente.
Kikuchi-san sorriu como uma fada que enxerga através de tudo, como uma sábia onisciente.
— Porque, nessa história, Alucia pode até parecer a heroína que precisamos salvar, mas—
Com uma leveza que parecia ultrapassar todos os limites, suas palavras soaram como o voo de um dragão.
— Ela é, na verdade… — as palavras de Kikuchi-san fluíam sem esforço, como se transcendesse qualquer fronteira. — O chefe final que precisamos derrotar.
— A-A-ha-ha-ha… — não consegui conter a risada.
— O q-que foi tão engraçado…?
— Nada. É só que…
Porque tudo se encaixava perfeitamente.
— Eu estava pensando exatamente a mesma coisa. Não importa como se olhe, a Hinami é o chefe final, não a heroína.
Kikuchi-san riu baixinho também.
— Sim. Desta vez, é uma fantasia escolar… Libra é o herói, e Alucia é o chefe final disfarçado de heroína. É assim que eu vejo a relação deles nessa história.
— Entendo… então—
Abri um sorriso confiante. Afinal, eu conhecia muito bem esse tipo de situação.
— Isso é totalmente a minha especialidade.
Derrotar o chefe final é algo que se faz com o grupo inteiro, combinando as forças de todos.
Essa é a regra mais básica de qualquer jogo.
(N/SLAG: E aí, galera! Finalmente terminei o volume 11.
Estou trazendo uma notícia para quem acompanha a obra: este será o meu último volume deste projeto.
Estou dropando oficialmente Tomozaki.
Não vou entrar em muitos detalhes sobre o motivo, mas fica o aviso. Obrigado a todos que leram até aqui. Também vale lembrar que o volume 12 ainda não foi lançado, então o volume 11 é o último até o momento.)
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