Volume 1

Capítulo 5: Técnicas e equipamentos poderosos tornam divertido e fácil progredir. (PARTE 2)

Já que o quarto da Hinami era minha única referência, era natural que eu comparasse o quarto de Yuzu Izumi com o dela.

Minha primeira impressão foi de que era mais bagunçado. Não estava especialmente sujo, mas havia um monte de pelúcias de personagens em sua cama, e sua mesa estava cheia de fileiras de revistas de moda com alguém popular na capa.

Em todo lugar que eu olhava, era lotado, brilhante e chamativo. Até eu sabia o nome dos personagens e revistas espalhados, todos projetados para atrair compradores com base nas tendências.

As paredes estavam decoradas com quadros de cortiça sobrecarregados com fotos descuidadamente pregadas — tanto de cabines de fotos quanto de câmeras regulares — de nossos colegas normais. Devem ser suas — melhores amigas — como dizem.

— Tomozaki, você está encarando.

— Ah, desculpe.

Yuzu Izumi entrou carregando uma xícara fofa e um copo de papel comum em uma bandeja redonda.

Eu a encarei.

— ...

— Quieto! Não reclame!

Eu não estava reclamando...

— Então... o que eu faço?

Izumi disse, segurando o controle, endireitando sua postura e encarando a tela inicial na TV com total concentração. Seus olhos grandes e redondos refletiam a tela.

— Bem, por enquanto... — comecei, sentando-me, a uma distância suficiente para não ser sufocado pela aura normie e pegando o outro controle, — devemos jogar uma partida?

— O quê?! De jeito nenhum! Quero dizer, você é até melhor que o Shuji, certo?! Não posso jogar contra você de jeito nenhum!

— Eu sei, mas... se eu não souber em que nível você está começando, Izumi...

Percebi que naturalmente tinha deixado o san fora de seu nome. Não faço ideia se foi porque cresci através de tantas derrotas, ou porque estávamos jogando Atafami, ou porque ela me acertou com sua mochila escolar e eu simplesmente não me importava mais.

— Ah, então é assim que funciona...? Acho que está tudo bem então...

Ela parecia muito tímida e nervosa. Seus ombros estavam encolhidos, sua boca estava apertada e suas sobrancelhas estavam franzidas intensamente. Estranhamente, era um visual bom para ela.

Na tela de seleção de personagens, escolhi Foxy, a escolha padrão de Nakamura, e Izumi escolheu uma espadachim fofa, a opção mais chamativa disponível.

— Ah, espere.

— O quê? Esse personagem não é bom?

Se o objetivo de Izumi fosse apenas dominar Atafami por diversão, então usar um personagem que ela gostasse seria o melhor. Mas seu objetivo agora era se tornar a parceira de treino de Nakamura. Nesse caso...

— Use esse. — apontei o cursor para Found. — Ele é o que eu costumo usar.

— Serio? O seu? É melhor?

— Não, mas o Nakamura está treinando para me vencer, certo? Ele provavelmente quer se preparar para enfrentar meu personagem. Então...

— Ah, entendi.

Izumi assentiu gravemente. — Você é tão esperto, Tomozaki.

— Uh, r-realmente...?

Respondi, envergonhado pelo elogio.

— De qualquer forma, você está pronta?

— Sim!

O clima estava se tornando gradualmente mais amigável. Ali estava eu no quarto de uma garota, jogando meu jogo favorito, uma situação em que apenas os normies se encontravam. Fui dominado pela emoção ao pensar em quão longe cheguei.

— ...De jeito nenhum...

Izumi estava surpresa.

— Tudo bem, agora eu tenho uma ideia básica... Primeiro, o que você precisa trabalhar é...

— Esqueça o que eu preciso trabalhar! O que você acabou de fazer?! Seus movimentos foram super bizarros!

Começamos com quatro vidas cada, e a partida terminou sem que eu sofresse nenhum dano, quanto mais perder uma vida. Como resultado, o clima amigável anterior desapareceu. Eu sou bom demais, se é louco!

— Bem, você está fazendo os movimentos típicos de um iniciante. Você usa técnicas que deixam você completamente vulnerável, e você não está prestando atenção no que estou fazendo. Posso aproveitar essas aberturas para atacar você sem nem pensar em estratégias.

Eu disse, ajustando meus óculos imaginários enquanto enumerava calmamente seus erros.

— Uau? O quê? Seja lá o que você está dizendo, está me assustando.

Izumi estava se afastando de mim, mas eu a ignorei e continuei com minha análise em voz baixa.

— Você fez um trabalho surpreendentemente decente com os fundamentos mais básicos, como os comandos para seus golpes especiais e recuperação de borda, então... o problema está no seu jogo neutro... Você usou muitos golpes especiais, então se você usar mais ataques normais...

— Hei, sobre o que você está falando? Você é muito estranho mesmo!

— Izumi!

— S-sim?!

Ela deu um salto, então mudou de posição, sentando-se formalmente com as pernas cruzadas, suas costas bem retas. Ela era muito atlética.

— Por enquanto, eu descobri o que quero que você faça.

— Sério?! O que?!

Ela se inclinou para mim, os olhos brilhando. Seu rosto era super fofo, e seus seios eram enormes, e ela cheirava bem. Droga. Mas eu não percebia nada disso quando se tratava de Atafami. (Bem, eu ainda estava ciente do cheiro agradável.)

Selecionei o modo de treino e mostrei a ela como controlar seu personagem.

— Quando você faz um pulo normal com o personagem que você está usando, é isso que acontece.

Found pulou no ar. Os olhos pretos profundos de Izumi o seguiram atentamente.

— Mas se você tocar no botão bem levemente, isso acontece.

— ...Oh, ele não pula tão alto.

Found pulou cerca de um terço da altura que pulou antes.

— Isso é chamado de pulo curto. Quando você realmente se aprofunda em Atafami, trata-se de prestar atenção no timing e nos movimentos do seu oponente, depois ajustar precisamente quando se expor e competir para ver quem pode atacar com menos risco. Com a técnica que acabei de te mostrar, você pode ajustar seu timing muito precisamente, então é essencial aperfeiçoá-la.

— E-espera um segundo!

Izumi se levantou e foi até sua mesa, tropeçando um pouco.

— Ai! Formigamento nas pernas!

Ela abriu a gaveta, pegou uma caneta e um caderno e voltou para o lugar dela.

— ...E?

Ela anotou o que eu acabara de dizer, depois olhou para mim com uma expressão ansiosa, mas atenta. Ela estava definitivamente levando isso a sério. Ela estava sentada formalmente novamente, pronta para a instrução, o que me preocupou um pouco.

— Tente.

— O-okey...

Ela pegou o controle com extrema cautela e tocou no botão de pulo.

— O que?

— ...Sim.

Found pulou alto no ar.

— E-espera! Deixe-me tentar de novo!

Boooing! Boooing! Boing! Boooing! Boing! Ela estava acertando cerca de 30 ou 40 por cento das vezes.

— Sim, é bem difícil. Mas se você não conseguir fazer isso, provavelmente não será boa o suficiente para jogar contra o Nakamura...

— Não boa o suficiente...? Okay, então, eu vou praticar!

— Sim, mas isso não vai funcionar, Izumi.

— Como assim?

Eu já não estava mais tropeçando nas palavras. Este era o meu campo de batalha.

— Aqui, você pode realmente praticar jogando Atafami. Você não deveria estar desperdiçando seu tempo com pulos curtos. Pratique a coisa real, porque você vai se sair melhor assim.

— A-ah, sério? ... Mas e os pulos curtos?

— Bem, você precisa praticar esses também. Mas quando estiver jogando o jogo de verdade, é mais eficaz praticar em uma partida real. Então, o que você faz? ... Só há uma resposta.

Visualizei um rosto orgulhoso e muito familiar e tentei imitá-lo.

— Você deve praticar quando não estiver jogando Atafami.

— O-que você quer dizer?

— Bem.

Eu disse, tirando algo que me certifiquei de trazer do meu bolso.

— Você usa isso.

— ...Um cronômetro?

Izumi ficou ainda mais confusa.

— Sim. Veja isso.

Pressionei o botão para iniciar o cronômetro e depois cliquei novamente.

— Olhe.

— ...Hã? O cronômetro não parou... Mas definitivamente pareceu que você clicou nele...

— ...Agora você tenta, Izumi.

— O-okay.

Ela pegou o relógio delicadamente de mim, como se estivesse manuseando um instrumento de precisão. Ela apertou o botão de iniciar, inclinando todo o corpo no movimento, e depois pressionou-o novamente.

— ...Hã?... Parou.

— Sim... Este cronômetro está um pouco quebrado.

Eu o peguei de volta e comecei o cronômetro, depois cliquei no botão novamente, mostrando para Izumi o mostrador do relógio. Clique, clique, clique, clique, repetidas vezes.

— Hã? Não está parando.

— Exato. Se você não pressionar o botão por tempo suficiente, ele não vai parar, mesmo que faça o som de clique.

— Hmm. Mesmo?... Mas para que eu uso isso?

— É simples.

Eu disse, levantando um dedo como alguém específico. — Daqui para frente, sempre que você estiver indo para a escola, mudando entre as aulas ou assistindo a TV — ou seja, sempre que você não estiver com outras pessoas — quero que você pratique pressionando o botão rápido demais para ele parar! Em breve, você será capaz de fazer os pulos curtos em um instante!

— Mesmo?!

Ela parecia surpresa, provavelmente tanto pelo meu tom quanto pelo que eu estava dizendo. Ops, eu tinha imitado demais o estilo de Hinami. Quanto ao meu tom, simplesmente acenei com a mão dizendo: — Não se preocupe com isso, foi um erro —  ela assentiu, satisfeita.

Excelente. Discípulos que ouvem fazem o melhor progresso.

— E quanto à prática com partidas reais... isso é fácil também.

Izumi engoliu em seco.

— É tudo uma questão de memorização.

— M-memorização?

— Sim. Aqui, olhe.

Mudei o modo do jogo para replay, escolhi um jogo do cartão de memória que eu havia inserido no slot e o iniciei.

— Esta é uma partida entre dois jogadores tops que eu salvei.

— Hum, nanashi? E NO—

— Não se preocupe com os nomes. Normalmente ambos usam Found, mas nesta partida, nanashi estava testando Foxy, e o outro jogador estava usando Found.

Izumi assistia chocada, franzindo intensamente a testa.

— ...Nossa. Os movimentos deles são tão malucos quanto os seus estavam antes.

— Sim, Found é um personagem de primeira, sem enrolação. O jogador que o controla não está indo pelo sentimento como eu — eu acho que esse cara nanashi faz. Eles usaram a lógica para refinar seus movimentos. É por isso que eles são um bom modelo para aprender.

— ...então eu devo assistir isso repetidamente e, tipo, memorizar?

— Quase, mas não exatamente.

Entreguei o controle para Izumi.

— Não 'tipo'. Quero que você memorize perfeitamente este jogo do início ao fim, até que consiga usar o controle junto com ele enquanto assiste.

— ...Você está falando sério?

Absolutamente sério.

— Essa partida começa com quatro vidas para ambos os jogadores. Nenhum dos jogadores dá muitas oportunidades de ataque ao outro, então dura mais de dez minutos. Memorizá-la será difícil, mas se você fizer isso, terá uma noção de todas as técnicas importantes que precisa para jogar este jogo. Eu... quer dizer, o nanashi tenta todos os tipos de métodos de luta para explorar o que Foxy pode fazer, e as respostas de Found também são bem variadas.

— A-ah.

Eu podia praticamente ouvir o cérebro de Izumi dando curto-circuito, mas ainda não tinha perdido completamente sua atenção, então continuei.

— Depois de memorizar todos os movimentos de Found, passe para Foxy. Uma vez que você tenha memorizado ambos, acho que estará pronta para jogar contra o Nakamura.

— S-sério?

Seu rosto se iluminou com um sorriso verdadeiramente alegre. Então, esse é o sorriso de uma donzela apaixonada. Eu assenti.

— ...Mas. —  Izumi disse, seu rosto se nublando, — eu não vou saber como usar o controle só de assistir à gravação. Tipo, não saberei como fazê-los executar as técnicas...

Ela estava certa. Mesmo que quisesse copiar os movimentos, não necessariamente seria capaz de... Mas a solução era simples.

— Por isso eu disse 'memorize'.

— Hã?

Ignorando sua confusão, tirei alguns papéis e uma caixa de lápis da minha bolsa e desenhei um diagrama e uma tabela simples.

— ...Você vai memorizar isso.

— O que é isso? ... Uma tabela de técnicas?

— Sim.

Respondi, preenchendo as caixas.

— Essa coluna que diz 'Comando' indica que botões você pressiona para realizar a técnica. Este boneco de palito mostra a posição em que o personagem estará quando você a fizer. A área dentro da linha azul mostra mais ou menos até onde o ataque alcança, e a linha vermelha mostra onde você está invulnerável. A coluna Início mostra quanto tempo leva após inserir o comando para o primeiro hitbox aparecer.

— Um...

Desde o início, ela parecia perdida.

— O que significa esse 'F'...?

— Significa 'Frames'. Em Atafami, os frames são 1/60 de segundo. Apenas lembre-se de que quanto menor for, mais cedo a técnica começa. A coluna 'Dano' mostra quanto dano você causará ao seu oponente. A coluna 'Empurrão' mostra o quão longe eles irão voar. Preste muita atenção a essa coluna, porque com algumas técnicas, mais dano leva a mais empurrão, e com outras leva a menos.

— Uh... certo!

Ela parecia entusiasmada, mas seu rosto revelava que ela estava totalmente perdida.

— De qualquer forma, você não precisa entender tudo agora. Se você apenas memorizar o jogo e esta tabela juntos, aos poucos você terá uma ideia de cada técnica e por que os jogadores as usaram quando o fizeram. Na verdade, você deveria estar pensando sobre isso enquanto estiver memorizando a partida... Mas mesmo que você apenas lembre fisicamente o que fazer, seu nível vai aumentar muito, então isso é bom o suficiente.

— C-certo...

Respondeu Izumi, terminando suas anotações. — ...Mas, tipo, Tomozaki, você memorizou tudo nesta tabela? Você escreveu tudo tão suavemente. Você não olhou para nada...

— Huh? Ah sim, claro.

Izumi parecia surpresa com minha resposta, mas continuei falando.

— Eu memorizei perfeitamente todas as técnicas para os trinta e oito personagens, não apenas Foxy e Found.

— ...S-sério?

— Sim. Quer que eu escreva para você?

A surpresa de Izumi se transformou em repulsa e depois em interesse.

— É incrível.

Ela disse, com um olhar curioso nos olhos.

— O que é?

— É como... okay. Eu estou impressionada, mas... você fez tudo isso, e você não ganha nada em troca, certo? Quero dizer, por que se dedicar tanto?

O que ela estava dizendo de repente? Era essa a forma dela de me criticar por minha nerdice?

— Huh? Você está me perguntando por quê? Não faço isso para fazer amigos ou receber elogios, com certeza.

Para mim, isso era óbvio, mas Izumi arregalou os olhos surpresa.

— Mesmo?! Mas é só um jogo!

— Claro. O que você acha que os jogos são, afinal?

Pensando bem, nossa geração joga para fazer amigos.

— Quer dizer, se você é tão bom assim, as pessoas fogem de você. Ninguém tem uma chance contra você, e isso meio que me afastou mais cedo também. Se você é apenas um jogador muito chamativo, as pessoas podem agir impressionadas. Mas se você exagera, elas vão dizer que você deve ser uma aberração para ser tão bom. Aposto que isso é horrível.

Ela parecia estranhamente sincera. Naquele momento, lembrei-me de uma conversa recente semelhante — a que tive com Mimimi quando voltamos para casa juntos. Acho que ela estava querendo dizer a mesma coisa.

— Bem, é meio que horrível... Mas eu estabeleci para mim mesmo um objetivo de dominar o jogo. Eu odiaria falhar muito mais do que odiaria ser evitado por todos.

— Huh... sério?

Decidi fazer uma pergunta para ela e confirmar minhas suspeitas.

— Você está perguntando se eu não me importo com o que os outros pensam?

— Sim!

Como eu pensei. Mimimi havia dito que ela se curvaria pelo bem do clima ou para manter as coisas divertidas. Pelo que eu podia dizer de nossa conversa atual, Izumi parecia ser do mesmo tipo.

Era como um hábito, parte de sua personalidade. Claro que ela abordaria os jogos da mesma forma.

Não era uma coincidência; isso parecia ser uma prova do que Hinami havia dito — que a maioria das pessoas era assim. Elas não tinham um conjunto sólido de valores, então estavam constantemente questionando seus próprios eu instáveis.

— Não é que eu não me importe... é só que outras coisas são mais importantes, ou...

— Mas não deve ser difícil ser um estranho? Você não deve se divertir durante os intervalos, ou realmente em nada. Na verdade, nunca te vi se divertindo na escola.

— Ah, me deixe em paz!

— Hahaha!

Por um segundo, o clima relaxou. Ainda assim, isso poderia ser um problema sério. Eu acho.

— Mas rir com seus amigos não é tudo na vida...

Ir junto com todos os outros, obter a aprovação deles, ser parte do grupo, não ser evitado... As pessoas seguiam os valores que alguém mais criava — ou seja, o que Hinami chamava de clima — apenas para não serem excluídas, apenas para fazer parte de algo.

Para Izumi, provavelmente era sua definição atual de felicidade.

— Huh. Uau... eu nunca poderia ter esse pensamento. Por que não, eu me pergunto? Eu sou assim para sempre, e mesmo que eu quisesse mudar, eu não poderia... ah, desculpe! O que estou dizendo?! Esqueça, esqueça tudo o que eu disse! O ponto é que todos são diferentes! Cada um tem o seu!

Ela balançou as mãos como se estivesse tentando transformar tudo em uma piada. Ela estava sorrindo, mas eu podia ver lágrimas em seus olhos enquanto ela evitava olhar para mim.

Provavelmente era em parte vergonha, mas havia algo mais em sua expressão, algo que sugeria que este era um problema muito significativo para ela.

 

 

 

Foi aí que comecei a me perguntar sobre algo. Mimimi e Izumi tinham o mesmo problema, então por que apenas Izumi estava tão chateada com isso? Com Mimimi, tudo parecia leve, como, — Eu sou o anjo da guarda de Tama! — ou — A vida é melhor quando é divertida, então estou feliz com as coisas do jeito que estão!

Mas agora, Izumi parecia tão perdida e séria.

O que diabos explicava a diferença? Será que Mimimi era apenas melhor em esconder isso?

De repente, me lembrei de algo. Depois da minha conversa com Mimimi, algo parecia estranho. Eu não poderia ter explicado por que, mas havia me ocorrido que Mimimi parecia ser a que estava sendo apoiada. Agora eu sentia que estava começando a entender o motivo dessa intuição.

Acho que Mimimi realmente estava recebendo mais apoio de Tama-chan do que o contrário.

Lembrei-me de sua conversa em economia doméstica.

— Obrigada por antes, Minmi.

— ...Por quê? Eu não fiz nada.

Aquela relação.

— O coração da Hanabi está sempre escancarado, o que significa que está mal defendido. Alguém tem que agir como sua armadura. Alguém tem que surgir e afastar os ataques, senão o coração dela vai acabar todo despedaçado...

Essa foi a análise de Hinami, mas coincidia com meu próprio palpite. Tama-chan estava definitivamente sendo apoiada por Mimimi. Mas mais do que isso... acredito que Mimimi encontrava significado em proteger Tama-chan — na pessoa que ela estava salvando. Era como um objetivo dentro dela, assim como continuar jogando Atafami para mim e visar ser a melhor em várias coisas para Hinami.

Ela encontrava um verdadeiro significado nesse objetivo e em seus resultados. E era por isso que ela não se sentia perdida. Izumi não parecia ter nada semelhante.

Para ela, não havia significado em engolir seus sentimentos para acomodar outras pessoas. Sem nenhum objetivo próprio, ela simplesmente era levada pelas circunstâncias. Provavelmente, ela tinha muitos amigos, mas eu tinha certeza de que nenhum deles ocupava o lugar que Tama-chan ocupava para Mimimi — a pessoa que dava um significado real ao seu ato de ceder. Por isso, ela se sentia insegura e perdida, questionando-se a si mesma.

Claro, essa foi a análise de um novato baseada nos eventos de apenas uma semana, mas era isso que minhas experiências estavam me dizendo. E essas experiências me levaram a outro pensamento. A questão não era fazer com que outras pessoas compensassem o que você carecia, ou distribuir o que você tinha em excesso. Era usar sua própria força para compensar suas próprias deficiências, sozinho.

— Acho que você pode mudar.

Eu disse.

— O quê?

— Se você ainda quiser.

— O quê? Mudar minha personalidade? De jeito nenhum, eu não posso fazer isso! Do que você está falando? Estou prestes a completar dezessete anos! É tarde demais! Não quero mais falar sobre isso!

Para amenizar a tensão, Izumi deu um sorriso falso tão perfeito que você nem percebia que era falso. Sem mesmo vê-lo em ação, eu sabia que era a expressão que ela usava para enfrentar o campo de batalha da sala de aula.

E então — não sei como explicar, mas juntei minha conversa com a Mimimi outro dia, o que Hinami me disse sobre os pontos fortes e fracos de Tama-chan, a tentativa de Izumi de esconder seus sentimentos que acabou revelando-os, e então considerei tudo isso à minha maneira. Também lembrei de duas coisas que Hinami havia dito.

— A conversa consiste essencialmente em dizer a outra pessoa o que você está pensando.

— Parece que você é bom em dizer o que está em sua mente.

Se isso fosse verdade, e era isso que as conversas genuínas eram, por que não tentar dizer a Izumi o que eu estava pensando? Se eu fosse lutar bravamente neste calabouço super difícil, eu poderia muito bem ser aniquilado dando o meu melhor. Essa era mais ou menos minha atitude de qualquer maneira.

— ... Eu era assim também. Desde o dia em que nasci até agora, na verdade. Eu tinha uma personalidade que nunca mudou. Ou talvez mais como uma visão de mundo.

— O quê?

Meu tom de repente sério deve ter pego Izumi de surpresa, porque seu sorriso falso vacilou um pouco. Eu tinha tentado conscientemente fazer minha voz parecer o mais focada possível, e fiquei surpreso que tinha funcionado, mesmo que ligeiramente, especialmente com um normie. Continuei meu raciocínio.

— Para mim, a vida é o pior tipo de jogo. A vida é absurda. Personagens de alto nível lucram, e personagens de baixo nível são explorados. Não há princípios que valham a pena dominar. É apenas um jogo de azar. Não vale a pena dedicar meu tempo e energia a algo assim, e não há necessidade. Era assim que eu pensava.

— O-okay...

O sorriso de Izumi estava se transformando em choque.

— Então, mesmo que eu perdesse no jogo da vida — por exemplo, as pessoas me ignorando na sala de aula, não ter uma namorada ou mesmo amigos regulares, ter um baixo status social — nada disso importava. Porque o jogo já era uma porcaria desde o início. Por outro lado, Atafami era um ótimo jogo, então era muito mais significativo vencer em Atafami do que na vida. Era incrível, e, acima de tudo, isso me fazia genuinamente feliz. Durante toda a minha vida, era isso que eu pensava.

Izumi me encarou em silêncio.

— Mas recentemente, conheci outro jogador que é meio insuportável, mas também tão bom quanto eu. Segundo ele, a vida é um dos melhores jogos de todos os tempos. Para dizer a verdade, no começo eu pensei, o que você está falando? Se você é um jogador como eu e nem percebeu o quão ruim é o jogo da vida, não temos nada para conversar. Mas, no final, ele disse um monte de coisas que me convenceu. Ainda não acredito totalmente, mas ele entende do assunto quando se trata de jogos, então por enquanto decidi testar. Em outras palavras, estou tentando levar o jogo da vida mais a sério.

Izumi piscou surpresa.

— Tenho aprendido estratégias e maneiras de praticar, e colocado o máximo de esforço possível, e no caminho, algo clicou... Odeio dizer isso, mas estou quase certo de que é verdade agora.

A próxima coisa que eu disse não foi dirigida a Izumi tanto quanto ao jogador com a melhor ética de trabalho, a maior confiança e a pior personalidade do mundo.

— Como jogo, não sei se a vida é de nível deus, mas, pelo menos, é boa! É isso que eu penso.

Izumi abriu a boca de surpresa.

— Então não é um dos melhores games, né?

Eu sorri, desta vez naturalmente em vez de fazer uma expressão consciente.

— Sim, ainda não estou tão convencido. E eu não digo algo se não acho que é verdade.

— ...Uau.

— ...Enfim, eu pensava que a vida era um jogo ruim por mais de dezesseis anos, mas com apenas uma pequena oportunidade, cheguei até aqui. Transformação bastante surpreendente, não é?

— Ha-ha-ha. Sim, é, não é? Ha-ha, você é engraçado.

Não, não — ha-ha-ha.

Eu ainda não terminei de falar.

— A questão é que não importa. Não importa se sua personalidade não mudou por anos e anos.

Talvez ela tenha percebido o que eu estava querendo dizer, porque olhou nos meus olhos com surpresa.

— Então, Izumi, se você quiser mudar, acredito que você pode.

Forçei-me a devolver o olhar.

— ...Mesmo agora. Tenho certeza disso.

E assim terminou minha tentativa de limpar o calabouço super difícil: não em vitória e não em derrota, mas em um resultado inesperado — persuasão.

 


 

— S-sério...?

Os olhos de Izumi estavam brilhando. Eu havia dito tudo o que estava em minha mente, então voltei ao meu eu antigo, aquele que não conseguia improvisar em conversas.

— Sim, bem, talvez.

Izumi explodiu em risos.

— Ha-ha, o que isso deveria significar? Você não é muito tranquilizador!

— ...Desculpe.

Já que eu conseguira ter uma conversa tão longa e natural na casa de Izumi, imaginei que minhas habilidades deviam ter melhorado subconscientemente ou algo assim. Não, era apenas minhas habilidades regulares: falar sobre Atafami e dizer o que eu estava pensando.

— ...Mas... sim... acho que vou tentar.

— Huh?

— Praticar Atafami e... tentar parar de me preocupar tanto com o que os outros pensam... Como você disse, você não sabe até tentar.

— …Sério?

— Sim... ah, isso me lembra.

Izumi acrescentou, pegando seu celular.

— Me passa seu número. Quero tê-lo caso eu tenha perguntas.

— O quê?! Como se eu fosse algum especialista no que os outros pensam!

— Não é isso! Perguntas sobre Atafami!

— Ah, certo...

Trocamos números enquanto Izumi me olhava como se estivesse pensando, O que esse idiota está dizendo?

— Ok!

— Uh, bom, acho que já vou indo.

Afinal, eu já tinha ensinado a ela o que podia sobre Atafami.

— Ok. Ah, não esqueça o jogo!

— Ah, não se preocupe, esse é um extra. O cartão de memória também é reserva.

— Extra? Reserva?

— ...Deixa pra lá. Significa que eu tenho outro em casa.

— Mesmo? Mas... se você tivesse me emprestado isso desde o início, não poderíamos ter jogado online...?

— Ah, é verdade! Desculpe.

— Ha-ha. Mas desse jeito, pudemos conversar sobre muitas coisas, então está tudo bem!

— Ha-ha.

Foi gentil da parte dela dizer isso.

— Ok, tchau.

— Ok, se cuida! Ah, espera... um, uh...

— O que foi?

— Ah... nada. Até mais tarde!

Deixei a casa dela me perguntando o que ela queria dizer. Menos de cinco minutos depois, um breve texto chegou dela.

Izumi: Obrigada.

Apenas uma palavras simples, sem emojis ou algo do tipo. Acho que era o que ela queria dizer quando eu estava saindo. Huh. Ela era uma normie, mas de certa forma era fácil para mim me conectar com ela.

Imediatamente, enviei uma mensagem própria.

Uma mensagem para Hinami, perguntando a ela como responder.

 


 

— A espada que você estava usando simplesmente aconteceu de funcionar contra a fraqueza elemental do chefe, e o escudo que você tinha resistia justamente aos elementos que ela usava. Um milagre, eu diria.

Era sábado. Eu tinha enviado um e-mail para Hinami descrevendo brevemente meu encontro com Izumi, para o qual ela respondeu me dizendo para reportar pessoalmente a ela. Assim foi nossa reunião de emergência no final de semana.

— Um milagre bem incrível, aliás.

Eu disse, já cansado da enorme taça de parfait na mesa à minha frente.

— Na verdade, tenho pensado nisso, e parece que as coisas estão indo um pouco bem demais ultimamente. Houve a coisa com Izumi, e também a coisa com Kikuchi-san. Você tem certeza de que não está preparando o terreno nos bastidores, Hinami?

Aliás, por alguma razão estávamos nos encontrando em uma famosa loja de parfait em Tóquio, em vez de Saitama. Hinami estava calmamente comendo uma mistura de açúcar feita de morangos, banana e melão, cobertos de chantilly e leite condensado.

— Do que você está falando? Eu não estou fazendo nada. Você é quem está preparando o terreno.

— Huh? Eu?

— Sim, você. Quero dizer, se você não fosse sempre para a biblioteca entre as aulas, e se não tivesse falado com a Yuzu e pedido um lenço para a Fuka-chan, ela não teria conversado com você na biblioteca. Se você não tivesse derrotado o Shuji Nakamura no Atafami, e se não estivesse falando com a Yuzu Izumi todos os dias por uma semana, esbarrar nela quando ela estava se sentindo mal ontem não teria terminado com você indo para a casa dela. Você convocou tudo isso por meio de suas próprias ações.

Hinami explicou, comendo seu caminho pelos 80 por cento do parfait que tínhamos concordado em dividir meio a meio depois que ela me fez pedir.

Ela tinha um bom apetite. Eu já estava satisfeito com meus 20 por cento. A propósito, chamava-se Parfait de Cheesecake de Pêssego e Chantilly, ou algo assim.

— Ok, isso é verdade, mas...

— Você é tão estoico. Pode se dar um pouco mais de crédito pelo seu trabalho duro, sabe. Quero dizer, claro que você não precisa fazer isso. Contanto que você consiga se manter motivado.

Perguntei-me como ela conseguia falar tão claramente com a boca cheia.

— Bem... eu me dou um pouco de crédito.

Hinami parou de comer.

— ...Sério?

Ela parecia satisfeita, mas talvez fosse por causa do parfait.

— Isso é bom, então. E o que você acha? Não é bonito melhorar sua vida por meio de seu próprio trabalho duro?

Ela sorriu e olhou nos meus olhos. Eu não sabia o que fazer, então desviei o olhar.

— ...Acho.

— Huh. Então você é tímido com esse tipo de coisa.

— Me deixe.

— Tanto faz. De qualquer forma, seu objetivo de médio prazo ficou um pouco mais próximo.

— ...Você nem ouviu o que eu acabei de dizer? A razão pela qual a Izumi está fazendo tudo isso é porque ela gosta do Nakamura.

— Mesmo assim, duvido que ela já tenha tido uma conversa profunda com o Shuji como teve com você ontem. Além disso, você tem algo que ele não tem. Ok, isso provavelmente não é o suficiente para fazer ela se apaixonar por você. Pelo menos, não esse você.

— Esse eu?

— Você pode ter crescido um pouco, mas ainda tem muito a melhorar. A longo prazo, no entanto, se você continuar com o trabalho duro e avançar passo a passo, não é de forma alguma impossível que algo aconteça este ano.

— Ta brincado...?

Com Yuzu Izumi? A normie? Bem, a normie frágil, é claro.

— Não.

Hinami disse, terminando o parfait.

— Estou falando de possibilidades, é claro.

— Não consigo acreditar que você comeu o negócio inteiro...

— De qualquer forma, você já decidiu? Sobre a Fuka-chan?

— Uh, ainda estou indeciso. Mas estou quase lá.

— ...Huh. Bem, não vou perguntar o que você decidiu. Me conte depois de fazer isso.

Ela disse, tirando a carteira.

— Se decidir convidá-la, use isso.

— ...Ingressos de cinema?

— Sim. São para a estreia do novo filme da Mari Joan no próximo domingo.

— Uma estreia? ...Você acha que devo convidá-la para um filme?

— Sim, isso faz parte. Mas a maior coisa é que, na primeira vez que você a convida para sair, não deve ser muito intenso. Com esses ingressos, você pode agir como se alguém os tivesse dado a você e que você não tem ninguém para ir junto. Como são para um dia específico, ela pode dizer que já tem planos se não quiser ir. Além disso, se vocês acabarem indo juntos, não precisam conversar tanto, e depois terão algo em comum para falar, certo?

— Ah, entendi…

— Além disso, se ela realmente estiver interessada em você e genuinamente não puder ir naquele dia, é bem provável que ela sugira que vocês saiam em outro momento. No geral, é uma proposta de baixo risco.

— Huh… Bem, eu ainda não decidi, mas eu aceito os ingressos. Obrigado.

— Claro.

Ela disse, levantando-se com a carteira na mão.

— Desculpe, eu preciso ir. Tenho muitas coisas para fazer hoje. Já que comi a maior parte da comida e você teve que vir até a cidade para me encontrar, eu pago a conta.

Pensei em protestar, mas sabia que quando ela tomava uma decisão, dificilmente mudava de ideia, então agradeci humildemente e deixei por isso mesmo.

 


 

Naquela noite, eu estava usando o gravador que Hinami me havia dado para gravar minha voz, reproduzi-la e praticar meu tom, como sempre fazia. Mas enquanto tentava reproduzi-la, acabei apertando o botão errado.

— Oh droga, o que está acontecendo? Será que eu mudei de pasta?

O número do arquivo deveria ser 63, mas estava marcando 781.

Uh-oh, como volto atrás?

De repente, enquanto começava a apertar um monte de botões, um arquivo começou a tocar. Droga! Provavelmente não deveria estar ouvindo isso sem permissão dela! Enquanto essa ideia passava pela minha cabeça, comecei a apertar o botão de STOP, quando minha mão congelou.

A primeira coisa que ouvi me surpreendeu.

"É por isso que a Shimano terminou com você! Ela é tipo... Caras mais novos são tão... Não, isso não está certo."

O que diabos?

"Caras mais novos... droga! Você só... aaah! ...Caras mais novos são tão...droga!"

Era o que ela havia dito quando veio nos resgatar eu, Mimimi e Tama-chan na aula de culinária.

"É por isso que a Shimano terminou com você! Ela é tipo... Caras mais novos são tão imaturos... aí está! Caras mais novos são tão imaturos! Caras mais novos são tão imaturos! .... Entendi!"

A gravação terminou.

Eu tenho algum respeito pela privacidade das pessoas, então não considerei ouvir outro arquivo. Mas o que eu ouvi foi o suficiente. Mais do que o suficiente. Por que essa garota era incrível? Eu já tinha sentido vagamente isso antes, mas agora eu sabia sem sombra de dúvida.

O incrível sobre ela era o quanto ela se esforçava para se tornar assim.

Na semana seguinte, na segunda e terça-feira, eu conversei casualmente com Izumi sobre Atafami durante todos os intervalos. Não aconteceu muita coisa além de alguns olhares surpresos de outras pessoas. Izumi estava memorizando as técnicas muito mais rápido do que eu esperava.

A esse ritmo, ela provavelmente seria capaz de jogar com Nakamura antes do final da semana. Quando eu disse isso a ela, ela parecia extremamente feliz. Eu tinha encontrado uma boa aluna. Além disso, conversar com ela era fácil, já que ela estava sentada ao meu lado.

Hinami e eu não falávamos muito em nossas reuniões de estratégia. Ela apenas me dizia para continuar trabalhando diligentemente na minha postura, expressões faciais, tom de voz e memorização de tópicos, além de falar com Izumi e Kikuchi-san o máximo possível.

E então chegou a quarta-feira — o dia mais importante desde que conheci Hinami.



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