Volume 1

Capítulo 1: Renascimento

Há apenas escuridão.

Não vejo absolutamente nada em minha volta. Não sei onde estou. Não sei dizer se estou num lugar fechado ou numa vastidão infinita.

Não me recordo bem o que aconteceu. Sinto como se estivesse esquecendo das coisas como um sonho quando acordamos e que após algumas horas não lembramos mais do que se tratava.

Tento me lembrar até mesmo quem eu sou, mas não consigo recordar nem mesmo do meu próprio nome. Entretanto, um aperto no meu coração permanece.

Disso eu me lembro. Desse arrependimento amargo, difícil de engolir. Essa consciência que me pesa, mas não sei exatamente sobre o que. Lembro de algumas coisas, mas de poucas coisas. Sei que existo, sei que sinto, sei que penso. Estou plenamente consciente, mesmo sem saber de nada. Por mais que me esforce, não consigo recordar de nada antes.

Não se passaram nem cinco minutos desde que acordei e uma espécie de linha branca aparece no horizonte. Com uma se fosse uma onda, ela faz ondulações para cima e para baixo. Aparentemente ela está me cercando, porque está cobrindo todo meu campo de visão. Não há um fim ou início.

Há uma imensidão de luz saindo dessa linha. O que era negro, agora é branco. Não há nada além de luz em minha volta.

Onde eu estou? Alguns flashbacks de algumas pessoas ressoam em minha mente, mas não vejo seus rostos.

Avisto um singelo ponto negro se aproximando de mim. Conforme se aproxima, ele toma forma.

É uma mulher.

Nua, de pele branca como porcelana e cabelo vermelho. Está imóvel, sentada ao chão, mas ao mesmo tempo se aproximando de mim, como se eu ou ela estivéssemos flutuando. Chego perto o bastante para poder observar seu rosto, e a analiso com cuidado na esperança que eu me lembre de alguma coisa. Seu olhar é penetrante ao mesmo tempo desinteressado. Sua tez é incolor, com toda a extensão do seu corpo em um branco imaculado com olhos da mesma cor. Há caracteres estranhos escritos em todo seu corpo como uma corrente a envolvendo completamente.

Ela me encara o tempo todo sem dizer uma única palavra. Tento falar algo, mas não consigo. Tento forçar a abrir a boca, mas sinto como se eu não tivesse uma.

Enquanto reflito sobre minha condição, ela me interrompe e diz:

— Pare de tentar falar, vai levar um instante.

Como ela sabe disso? Ela leu minha mente?

— Sim, eu consigo entender o que está pensando.

Droga, isso explica tudo. Estou sem controle no que estou pensando. E totalmente confuso sobre tudo o que me rodeia e sobre o que eu sou. Esse vazio mental me faz apelar para meus sentimentos mais primitivos, eu acho. Analiso essa mulher na minha frente e realizo o quanto ela é exageradamente linda.

Como uma Deusa.

 

 

Belas curvas, seios e pernas torneadas. Apesar da minha condição, é perceptível que ela carrega uma beleza de nível divino. Não me lembro de nada, mas posso dizer que ela é alguém que atingiu o pináculo da beleza.

Droga, o que eu estou pensando? Ela lerá minha mente.

Volto a encara-la e sinto que seu rosto distorceu um pouco. Ela provavelmente leu o que pensei e agora pensa que sou um pervertido. Isso comparado a minha situação é o menor dos meus problemas. Não sei o que estou fazendo aqui nem o que eu sou.

Ela recobra sua postura séria e começa a falar: — Tudo isso aqui é temporário. Você recobrará algumas memórias e outras não.

Do que ela está falando?

— Você morreu. Mas a morte nunca é eterna. Sabe, uma alma sempre será eterna, não há meios de destruí-la.

Não sei o que pensar como resposta, continuo ouvindo o que ela tem a dizer, tentando processar as informações. 

— Você está num estado de transição. Pessoas como você são raras. Essa interversão que estou fazendo é por um bem maior.

Qual bem maior? Definitivamente ela espera que eu faça algo.

— Você morreu nessa linha do tempo, mas o tempo não é algo fixo. Ela é mutável e pode tomar várias formas e alternativas. Não há uma certa necessariamente.

Algumas coisas começam a se encaixar e algumas memórias que estavam embaralhadas, parecem estar voltando no lugar. Nenhum sobre como morri especificamente, mas boa parte como linguagem e moralidade talvez?

— Porém, existem pontos de convergências que não encontram uma saída. E não importam quantas linhas de tempo existam, esse ponto final é uma barreira que as almas não conseguem ultrapassar.

O que seria essa barreira?

— Um evento cataclísmico.

O fim do mundo?

— Precisamente. Porém, não necessariamente para todos, mas para uma boa parte. Eu não tenho todos os detalhes porque não posso acessar qualquer momento da história. Eu também morri e só consigo rever e alterar certas coisas de forma limitada. Não posso avançar tanto no tempo na qual não pertenço.

Qual é seu nome? Por que estou aqui?

— Meu nome não é importante. Nem o seu. Embora o seu será lembrado por todos, assim como o meu já foi um dia. Por bem ou por mal. É o destino.

E se eu não quiser. Não é como se eu fosse ser obrigado.

Ela não deixa espaço para refletir e continua a explicar:

— Não há linhas do tempo em que isso não ocorra. Elas até poderiam existir, mas seriam finitas.  Elas seguem a um ponto comum. Algumas coisas podem ser diferentes, mas aqueles que possuem um destino forte chegam no mesmo fim de uma forma ou de outra.

Destino forte? Como assim?

— Pessoas comuns e simples podem ter um destino forte. Suas ações, por menores que sejam, podem causar um impacto grande na história. — Ela fica em silêncio por alguns segundos enquanto realiza alguns movimentos estranhos com suas mãos — Por outro, pessoas com destino fraco, independentemente de suas ações ou hierarquia, não conseguirão criar as rupturas para causar essas diferenças.

Ok. Mas você ainda não me respondeu porque estou aqui.

— Você está aqui porque fiz com que viesse para cá. Você morreu, como eu disse. Sua alma encontraria um descanso temporário, mas vou manda-lo de volta.

O que? mandar de volta para onde?

Droga, está difícil me concentrar e tentar me expressar com pensamentos.

— Você pode falar agora.

— Que? — sinto o som da minha voz sair pela minha boca, que até então, não a sentia. — Ah, finalmente. Sinto que meu corpo está sendo formado.

— Sim, se tu permanecer mais tempo nesse plano, mais seu corpo recuperará sua forma final antes de sua morte. Mas precisamos ser rápidos, se demorar muito você ficará preso comigo aqui.

Droga, não sei o que pensar. Quem é essa mulher. O que ela quer comigo? Devo acreditar em tudo que ela fala? Será que realmente morri? Se eu realmente morri, porque devo voltar? Ela disse que minha alma iria descansar, isso é ruim? Sem falar que posso ficar preso aqui. Não sei o que achar sobre isso. Talvez ficar com ela não seja tão ruim... Meu deus, o que estou pensando?

— Ainda posso ler sua mente.

Droga, esqueci disso.

— Não importa, me explique imediatamente suas intenções. Porque o descanso da minha alma é ruim? Por que devo voltar? Por enquanto não tenho razões para querer ajuda-la.

— Esse descanso é um processo cíclico. Resumidamente, há um ponto temporal e nela há uma convergência que impede que a tempo prossiga. O tempo é contínuo, mas maleável. Infinito, mas pode ser paralisado. Corpos são meros veículos das almas. Você morre, volta para o logos¹ e assim reencarna depois se for sua hora. Você pode achar que esta alma iria descansar, mas está fadado a esse fim eternamente se o ponto de convergência não for superado.

Ela termina sua explicação, mas ainda restam algumas dúvidas. Continuidade do tempo, ser maleável ou não. Isso me confunde. Não é como se pudéssemos debater sobre alma e tempo em poucos minutos.

Mas preciso saber mais. — Por que deve ser superado?

— Tudo que existe pode deixar de existir. Há um limite. É complicado de explicar em palavras, mas se continuar assim, tudo isso deixaria de existir por si só. Superar essa convergência final permite que o tempo prossiga.

— O que causou tal convergência? — pergunto rapidamente porque estou começando a entender o que está acontecendo, mas ainda restam muitas perguntas.

— Digamos que não era para estar acontecendo isso. Os eventos cataclísmicos do passado causaram rupturas no tempo. Uma coisa levou a outra.

Embora ela não esteja me explicando em todos os detalhes, não parece que ela deseja um fim ruim. Aliás, ela quer que eu reviva.

— Por que eu?

Ela poderia tentar com qualquer um. Se foi o caso de escolha aleatória, eu posso entender melho...

— Você carrega um destino forte.

Bom, isso explica sua intervenção.

— Mas por quê? O que eu farei?

— Ainda não sei ao certo, está além da minha capacidade de enxergar. Estamos sem tempo. Vou te mandar de volta, e você vivenciará toda sua infância novamente.

— O que!? Eu vou esquecer dessa conversa? Eu ainda não lembro da minha vida anterior, só tenho vagas recordações de imagens em minha mente.

— Sim, eu estou ciente disso. Usei quase toda minha mana para manter o máximo de suas lembranças. Coisas como idioma, raciocínio lógico e o que você conversou comigo não serão esquecidas, mas as memórias da sua linha do tempo eu não posso recuperar porque exigiria um nível absurdo de energia e eu não tenho tudo isso.

Não soa como se ela estivesse mentindo. Embora eu não esteja numa posição de escolha. Não há o que pode ser feito, mas há uma última coisa que preciso saber.

— Posso fazer mais uma per...

— Apenas pergunte logo.

Droga, ela está lendo minha mente ainda.

— Conseguirei manter contato com você e o que devo fazer?

— Existem formas, mas não são fáceis de alcançar. Se você encontrar, conseguirá me contatar. O que você deve fazer, só o tempo dirá.

Ok. Ela não quis entrar em detalhes e ignorou a outra parte. Talvez não vale a pena perder tempo nisso.

Bom, está na hora.diz a mulher misteriosa enquanto realiza algum tipo de ritual.

Não consigo concluir meus pensamentos.

Que se dane.

Meu peso no coração continua. Não sei o que fiz na vida passada, mas dessa vez eu irei triunfar.

Assinto em tom de permissão e ela começa a falar alguma coisa em voz baixa.

Círculos com coisas escritas começaram a surgir em volta de mim. Não faço ideia do que seja isso. Tudo começa a ficar turvo e uma escuridão cerca minha visão. De pouco em pouco, sinto meu corpo sendo dominando por uma sonolência impossível de combater. Percebo minha consciência sumindo e não consigo lutar contra.

Eventualmente, acabo caindo no sono.

 


 

Lentamente recobro a consciência.

Abro meus olhos e vejo um quarto. Todo em madeira.

Vejo alguns quadros, uma escrivaninha, uma cama grande e uma cama pequena na qual estou deitado. Sinto também que uma considerável quantidade de tempo se passou. Embora as lembranças da minha conversa com aquela mulher estejam martelando em minha mente.

Sinto uma ligeira dor de cabeça. Tento olhar para os dois lados para tentar descobrir onde estou. Não reconheço nada disso aqui, mas eu entendo que fui reencarnado. Isso é algo definitivo, é algo que não esqueci. Me lembro perfeitamente daquela mulher misteriosa falando que reencarnaria e viveria minha vida mais uma vez. Ouço alguns sons e movimentos no lado de fora do quarto, mas ainda não me preocupo com isso.

Acho que minha personalidade tenha sido afetada pela a minha amnésia. Por ter mantido meu raciocínio lógico e conhecimentos de mundo, mas sem minhas lembranças, minha forma de interpretar as coisas a minha volta estão racionais demais eu acho. Preciso tomar cuidado com isso.

Não me lembro do meu pai ou da minha mãe. Quais seus nomes? Sua aparência? Ou será que sou órfão? Não... isso não faz sentido. Estou dentro de um quarto de casal. Definitivamente eu tenho pais.

Tento olhar para minhas mãos, mas minha coordenação motora está uma bagunça. Não tenho controle do meu corpo propriamente. Depois de muito esforço consigo levar a minha mão para a frente de meus olhos. Definitivamente são mãos de um bebê.

Eu recém nasci?

Que piada de mal gosto. Um recém-nascido com mentalidade plena de um adulto. Adulto? Será que morri velho? Eu morri e ainda estou sentindo um aperto no coração como um arrependimento. Não creio que eu tenha morrido de velhice. Devo ter morrido jovem. Além do mais, essa mulher não teria dito que eu poderia acabar com essa tal de convergência se eu chegasse lá no final da vida.

Bom, eu terei tempo de sobra para divagar sobre essas questões.

Estou sentido que passarei muito tempo observando meu redor sem poder fazer muito.  Aliás, percebo que não consigo falar também. Apenas saem alguns gemidos ainda. Parece que meu corpo infantil não permite agir como alguém com consciência. De qualquer forma, não quero agir como uma criança anormal que sabe falar como adulto com alguns dias de idade.

Ouço sons altos vindo lá de fora.

Parece haver uma espécie de discussão fora do quarto. Acho que idioma não será um problema. Visto que estou conseguindo pensar e colocá-lo em palavras, tenho ciência de que sei alguma língua, embora por mais que eu tente lembrar do nome dela, nada vem em mente.

Esqueci esse tipo de coisa também? Aquela mulher... O que ela fez comigo?

Aparentemente minha mente está um caos. Tudo está uma confusão em minha mente.

A discussão lá fora acaba e uma mulher entra correndo no quarto. Ela fecha a porta com força. A maneira na qual ela está cabisbaixa e olhando para baixo parece que está chorando.

Quem é essa mulher? Minha mãe? Por que ela está triste?

Ela lentamente se vira para mim e vem em minha direção.

Cabelos castanhos claros, olhos verdes, rosto fino. Ela aparenta ser jovem. Na casa dos 20 anos, talvez até menos. Automaticamente me passa uma ideia de que são pais muito jovens e isso pode ser um problema.

Talvez uma irmã?

Por que acho isso duvidoso?

Eu não sei explicar a sensação, só aparenta cedo demais para mim.  Eu tenho alguma noção de moralidade? Pelo o visto, parece ser o caso. Ela deve ter mantido isso em mim para utilizar como bússola moral de certo ou errado na minha reencarnação e tomar as melhores escolhas. Como eu vou reviver a minha própria vida, eu chegaria na mesma conclusão, eu acho. Então não há problemas, creio eu.  Não é como condenasse ela por ser mãe nessa idade, só me soa incomum.

Parece que carrego no meu subconsciente alguns preceitos culturais e morais. E como já sei a língua, isso facilita...

— @#$#@[email protected]

Hum!?

— #$%@¨[email protected]¨ ¨*%!#

Que!?

Eu não faço a menor ideia do que ela está falando. Ouço palavras, mas não sei o seu significado.  Isso era para estar ocorrendo? Ela claramente disse que manteria minha linguagem. Então que língua eu sei falar?

Isso vai ser complicado. Ou seja, terei que aprender minha língua como uma criança normal?  Ou é uma questão de tempo até que meu cérebro de recém-nascido consiga interpretar as palavras?

Estou me sentindo um pouco claustrofóbico e angustiado por estar nessa situação. Aquela mulher. Eu não sei quem eu sou, mas ela diz que estou reiniciando essa vida. Eu olho para essa mulher na minha frente que acabou de me colocar no meu colo, mas eu não reconheço o seu rosto.

Ela é minha mãe e não consigo nem lembrar disso? Não sinto absolutamente nada por ela. É uma completa estranha, embora eu não esteja irritada com ela.

Toda essa situação me deixa cansado. Frustração assola meus pensamentos. Essa mulher... minha mãe...

Ela está chorando. Por que ela está chorando? Aparentemente precisarei ficar de guarda analisando tudo que ocorre em minha volta. Ela está cantando uma música de ninar para mim e meu corpo naturalmente sucumbe ao sono. Meu plano de ficar em guarda não durou 5 minutos.

 


 

Como num piscar de olhos, dois meses se passaram.

Sinto como se a passagem de tempo na minha infância esteja fluindo de forma acelerada e há dias que simplesmente pulam como se eu não recobrasse a consciência. Acho que isso é devido a meu corpo recém-nascido. De qualquer forma, isso tem diminuído com o tempo. 

Aliás, pude confirmar que definitivamente reencarnei como o filho de um casal que vive numa humilde casa numa zona agrícola.  Ainda não entendo o idioma, ou onde estou, nem sequer entendo que dia ou ano é.  Única coisa que consigo entender, são palavras simples, que na maioria das vezes, envolvem meus assuntos pessoais como minhas necessidades fisiológicas. Já me acostumei a esse tipo de ocorrência e não há muito o que possa ser feito. 

Descobri que nessa casa vivem minha mãe, meu pai, uma irmã mais velha, uma empregada e um homem estranho que raramente entra em casa. Após o meu nascimento, demorou um tempo até que meu pai viesse me olhar pessoalmente na cama. Me pergunto por que um pai não quis ver seu filho e que demora dias para isso. Nas outras vezes que o vi foi apenas quando ele ia dormir até que um dia meu quarto ficou pronto.  Colocaram alguns móveis simples e minha cama lá. Após isso fiquei um bom tempo sem vê-lo. Talvez ele só estivesse viajando muito a trabalho.

Me pergunto se isso teria a ver com as brigas que ouvi no dia da minha reencarnação. Por alguma razão parece que ele está me recusando como filho. Meu pai tem olhos e cabelo castanhos escuro. O completo oposto de mim. Pude ver pelo o espelho enquanto minha mãe me carregava que eu tinha cabelo branco acinzentado, praticamente albino. É estranho saber o que é albino, mas não saber meu nome ou daqueles que um dia amei. Não sei a cor dos meus olhos, mas parece que são azuis. Minha mãe fala constantemente sobre isso pelo o que parece e repete o nome da cor constantemente.

E sobre eu ter uma irmã mais velha. Ela aparenta ter uns 5 anos de idade. Naturalmente, ela lembra um pouco meu pai e minha mãe, com cabelos e olhos castanhos, mas diferente do meu pai, ela parece não ter nenhum problema comigo e constantemente me conforta com alguns mimos e carinhos na minha cabeça. Não há o que reclamar, embora eu ache que apreciar isso sendo um bebê seja no mínimo estranho.

Pude reparar bem os integrantes da família e ser um bebê também tem seus lados positivos. Ninguém espera que um bebê esteja observando atentamente o que as pessoas estão fazendo, nem que irá lembrar caso visse algo constrangedor. Não é de se estranhar que teve vários episódios confusos envolvendo todos os meus integrantes em seus momentos mais íntimos e que infelizmente ficarão imortalizados em minha memória.

Provavelmente falarei sobre isso um dia.

Aliás, temos o que parece ser uma empregada em casa. No começo eu achava que era alguma espécie de tia, mas tive a confirmação que era de fato uma empregada. Principalmente pela as suas vestimentas típicas de uma empregada, que embora moremos numa casa pequena numa região agrícola, ela age como uma empregada numa mansão e trata meus pais com todo o respeito possível. Eu saber o que é um uniforme de empregada me parece ser uma informação inútil comparada com saber quem eu sou.

Pelo o que pude reparar, eu costumo ter acesso a vários conhecimentos quando presencio algo novo e penso a respeito. Como se estivesse acessando uma parte nunca antes acessada. Quando isso ocorre, minha mente é inundada de informações e imediatamente fico com dor de cabeça. Saber sobre os comportamentos típicos de uma empregada é um exemplo. Mas isso tem ocorrido com as coisas mais triviais como culinária, a maneira como as pessoas se alimentam, suas higienes pessoais e etc.  Tudo tem parecido ser antagônico com o que estou acostumado, eu acho. Não sei se minha vida mudará em algum momento e presenciarei hábitos que carrego em minha mente. Provavelmente seja isso.

Essa Mulher Misteriosa... Ela claramente não soube quais informações manter na minha cabeça.

Enfim, a empregada é tão jovem quanto meus pais e também tinha uma beleza considerável. Não é tão bela quanto minha mãe, mas ainda assim, poderia dizer que ela é bonita. Aliás, nesse meio tempo, houve poucas vezes que um homem entrava em casa, mas se limitava apenas a cozinha para almoçar as vezes.

Não compreendi seu nome ainda.

Ele é bem misterioso, taciturno e trabalha com serviços braçais para a casa. Sempre está suado de trabalhar no campo e conversa pouco com as pessoas de casa. Ele olhou diretamente para mim pouquíssimas vezes e em apenas uma ocasião, fez um leve carinho na minha testa quando ninguém olhava para ele. Talvez ele só seja um pouco tímido.

No geral, minha família vive conversando na cozinha. Parece que é o principal cômodo da casa. Tudo é resolvido e debatido na cozinha. Em alguns raros momentos, todos estão na mesa da cozinha conversando. E analisando as coisas de um ponto de vista externo, parecem ser uma família unida e consolidada. Devo ter uma relativa sorte de nascer num ambiente tranquilo pelo o visto. Não entendo sobre o mundo ainda, mas sei que de alguma forma que isso é algo raro. Devo aproveitar e fazer disso uma boa oportunidade para aprender mais sobre o mundo afora.

 


 

Já fazem 6 meses desde o meu nascimento e finalmente comecei a descobrir coisas interessantes.

O nome do meu pai é Hector.

O da minha mãe é Katarina.

Da minha irmã é Maria.

Quanto a emprega e o senhor taciturno, seus nomes são Jennifer e Godam.

De todos os nomes que ouvi, apenas Godam soou estranho para mim, o que é uma surpresa, pois Godam é um elfo. Não sei como chamam essa raça na minha língua nativa que ainda não aprendi(?), mas teve um dia em que ele colocou seu cabelo para trás, e pude reparar bem suas orelhas pontiagudas. Não precisei pensar duas vezes para saber qual era sua raça.

A ideia de existir mais de uma raça, além da humana, me soou bem revelador. Digo, eu não fazia ideia dessa possibilidade, mas provavelmente eu conhecia porque eu tenho palavras em minha mente para designa-los. Ao mesmo tempo em que entendi que ele era um elfo, várias possibilidades passaram em minha mente, como se fossem informações que eu precisasse confirmar. Coisas como como a longevidade de um elfo, por exemplo.

Parece que quanto mais eu interajo com o ambiente, mais eu relembro de informações da minha vida passada antes de reencarnar. Nem preciso ponderar para entender que preciso me dedicar totalmente aos estudos. Assim que ficar um pouco mais velho, começarei a minha jornada em tentar aprender a ler e escrever para a descobrir mais sobre meu mundo. Talvez eu vá recordar de lembranças úteis que façam eu sobreviver nessa nova vida e não morrer.

Aliás, agora eu sei meu nome. Digo, em partes.

Em casa, todos me chamam de Lucy. Parece que é apenas um apelido e ainda não sei meu nome de fato. Não entendo porque colocar um nome que não vão usar. De qualquer forma, Lucy me soa um pouco feminino. Após ouvir até fui confirmar novamente se de fato eu era um homem ou uma mulher. E saber que sou um homem me deu uma certa tranquilidade de espírito. Talvez porque como sempre fui um homem, sinto que tudo está alinhado corretamente e por eu ter feito elogios ao corpo daquela mulher, significa que sinto atração por mulheres.

Na verdade, isso já é um assunto consumado.

Embora elas sejam minha mãe e empregada, ter elas me tocando ao me trocar e limpar, e consequentemente precisar beber leite dos seios da minha mãe me fez sentir algo próximo a excitação, mas que logo sumia após sentir que isso era algo absurdamente imoral e repugnante.

Parece que eticamente, incesto é algo que considero errado na minha vida. Entre todas as mulheres da minha casa, não sinto esse tipo de culpa com a Jennifer, pelo menos. Então ela tem sido minha vitima em meus momentos de prazer quando estou no seu colo com meu rosto em seus seios. Não é como se não a visse como um membro da família, mas não há ligação sanguínea nesse caso.

Maria é bem ligada a Jennifer e a considera como uma espécie de Tia. Jennifer é alegre e descontraída, sempre se comporta de forma profissional, embora todos aqui a tratem como um membro da família plena. Ela realiza sua função e está sempre limpando e cuidando da casa enquanto minha mãe sai para trabalhar durante o dia. Não sei no que meus pais trabalham ainda, mas sinto que estou começando a entender o idioma, então é questão de tempo até aprender. Não sei se isso é uma progressão natural, mas meu cérebro está conseguindo compreender palavras corretamente. Compreender pequenos trechos no meio de uma conversa tem sido fácil.

Isso tudo num espaço de poucos meses. Acredito que fiz um avanço enorme no meu entendimento com a língua. Aliás, todos aqui tentam me ensinar como falar papai, mamãe ou irmã para que eu possa dizer a minha primeira palavra. Ver as caretas que a minha família faz para tentar me ensinar é impagável e presenciar pela a ótica de um homem adulto faz tudo soar um pouco estranho. Mas preciso entrar no personagem. As vezes quando estava sozinho, praticava a fala e percebi que já consigo falar claramente. Pelo menos na língua que tenho na minha mente, ou seja, seu uso é inútil por enquanto. Entretanto, comparado com os primeiros dias onde mal conseguia mover a boca, foi um avanço incrível também.

Não sei com quantos anos uma criança começa a falar. Ter que agir como um bebê vai ser um absurdo, mas não quero gerar estranhezas na minha família ou ser visto como um prodígio intelectual. Ninguém pode garantir que minha irmã fique com inveja e me mate depois.

Ok, talvez eu esteja exagerando, mas só os conheço por poucos meses. Eu ser reencarnado e por aquela mulher ter me escolhido, não significa necessariamente que tenho superinteligência ou coisa do tipo. Como ela mesmo disse, pessoas comuns podem ter destino forte e isso pode ser o meu caso.

Outro ponto importante é que ainda não passamos por nenhuma situação de risco com a minha família, então não posso dizer como eles normalmente reagirão a esse momento. Talvez tudo esteja sendo bom demais para ser verdade e algo ruim contra mim pode ocorrer a qualquer momento. Mas... independentemente do que possa ocorrer, não posso fazer nada porque sou meramente um bebê.

 


 

Mais alguns meses se passaram e estou próximo do meu aniversário de 1 ano. Pelo o que pude contabilizar e perceber através de diálogos entre a minha família, o mundo é organizado em 10 meses com 28 dias cada, mas aparentemente dão mais prioridade aos solstícios como datas importantes. Não sei exatamente os detalhes, mas por alto é isso. Minha família está nitidamente animada com os preparativos do meu aniversário e decidi felicita-los falando minha primeira palavra.

Decidi falar primeiramente "Papai", pois achei que seria conveniente tentar amolecer meus laços com meu pai que até hoje é distante de mim. Esperei uma oportunidade quando todos estivessem na cozinha para falar e a reação de todos foi impagável.

A primeira palavra do Lucy..." — diz a minha irmã com um rosto surpreso.

Passo praticamente todo o meu dia com minha mãe, irmã e a empregada. Naturalmente era de se esperar que eu fosse falar primeiro o nome delas ou sua designação parental. Ter falado "Papai" pegou todos desprevenidos, incluindo meu próprio pai que estava jantando quieto quando arregalou seus olhos o máximo possível sem conseguir compreender essa possibilidade.

Ele se engasga com a comida e após algumas tossidas se acalma. Após voltar ao normal, tentando manter a pose séria, apenas diz: — Vocês ficam falando muito de mim na frente dele, deve ter sido por isso.

— Falamos normalmente pai, mas nós estamos sempre tentando fazer o Lucy falar nossos nomes, então isso é no mínimo estranho.

— Bebês são criaturas imprevisíveis, Mestre Maria. — respondeu Jennifer enquanto cortava em pedaços a carne que estava no prato da Maria.

Minha mãe que estava olhando para meu pai furioso com sua indiferença, decide entrar na conversa: — De fato, Lucy é sempre tão estranho como um bebê. Ele nunca chora ou causou problemas. Nunca vi isso. Sempre achamos que ele estivesse doente. Mas no final das contas, ele sempre foi saudável e inteligente. E sempre que o Pai aparece ele fica o olhando com interesse. Você deveria passar mais tempo com seu filho.

Após as falas a minha mãe o clima da cozinha fica pesado. Até Godam que tinha feito um leve sorriso com a reação do meu pai, ficou olhando para a parede como um peixe morto, sem falar nada como sempre.

Não era a minha intenção criar uma tensão familiar dentro de casa. Eu olho para a minha irmã que está com uma feição complicada. Não sei se é raiva de mim, porque eu sou o gerador do problema. Ainda não sei porque sou recusado pelo o meu pai. Mas de tempos para cá, o que só tinha passado pela a minha cabeça como uma distante ideia, tem se tornado a minha possibilidade número 1.

Talvez minha mãe tenha traído meu pai e sou o fruto de uma traição, um bastardo em outras palavras. Meu pai acabou me aceitando apesar da vergonha porque ama minha mãe ao ponto de perdoar sua infidelidade. E por isso ter passado pela a minha mente, foi como um gatilho e um conglomerado de conhecimentos acerca disso foi absorvido pela a minha mente. O que faz acreditar ainda mais nessa possibilidade. Se realmente for o caso, espero que não ocorra da minha existência ser responsável de destruir essa família. Só consigo pensar na vida da Maria. Eu realmente não quero que ela passe por dificuldades por minha causa.

Preciso fazer algo para reverter essa situação e quebrar o gelo.

— Go... Go... Godaamm.

Falar o nome de alguém tentando emular as dificuldades de fala de um bebê é vergonhoso e patético no mínimo. E a vergonha alheia que sinto é tanto que tento não olhar para o rosto de ninguém. Mas não há nada que eu possa fazer. Era preciso quebrar o clima ruim.

— QUEEEE!? — todas as mulheres disseram em uníssono diante da minha segunda palavra. Meu Pai que estava a levar uma colher para a boca, para no meio do caminho com um olhar sério para mim.

— Godam mal fala com o Lucy e a gente quase nunca o chama pelo o nome. Como isso é possível? — quem fala isso é a minha irmã enciumada revoltada com a situação.

Godam que ficou perplexo com a situação ficou sem saber para onde olhar e com um rosto totalmente corado tenta encontrar alguma razão para isso...  Ele dá um ligeiro olhar para meu pai que o encara com um olhar profundo, como se alguém de fora estivesse invadindo seu território e que isso não era para acontecer. Mas nada de útil saiu da boca de Godam, a não ser alguns gaguejos tentando encontrar alguma desculpa, o que fez todo mundo, por um breve momento, rir na mesa em confraria. Até mesmo o Godam e meu pai.

— Tenho certeza que seu nome será o próximo, Maria. — consola minha mãe, como sempre, é a pacificadora da situação. Ela é uma mulher incrível. Meu pai teve sorte porque ele até então tem se demonstrado uma pessoa difícil de se lidar. A não ser que ela tenha realmente traído meu pai, o que não é tão incrível assim.

— Espero que seja mesmo, estou há meses tentando fazer ele falar meu nome e não serviu para nada. Hum...— diz Maria fazendo sua típica expressão com beicinho. O que fez todo mundo rir descontraidamente mais uma vez. Após o jantar e quando todos foram dormir, pude ouvir meus pais se divertindo no quarto deles. Provavelmente chegaram num consenso e fizeram as pazes.

 


Notas

1 - Termo com diversos significados, mas nesse caso sendo empregada da forma como os antigos adeptos do estoicismo usavam. Como estoicos eram panteístas, ou seja, deus é o universo em si, todo o universo é corpóreo e governado por um ente divino. Eles denominavam tal ente divino como Logos, e que reinava sobre todo o mundo.



Comentários