Volume 5
Capítulo 3: O Verdadeiro Peso Considerado aos Representantes ④
Quarta-feira. Depois do treino matinal durante a manhã, encarei mais uma vez o mau humor de Takahashi. Ele parece estar preocupado com a formação do time, já sabendo que era totalmente por causa de Gotou. As partidas de treino continuavam tensas, e como sempre tentava acompanhar o ritmo de todos.
Para minha sorte, cheguei em casa no dia anterior um pouco depois das 22hrs, dentro do horário que costumava voltar do treino noturno. A sorte de não levar bronca de minha mãe me tornou resistente às críticas de Inuzuka, que não tive como evitar.
Por causa das incidências, não consegui conversar muito com os outros. Então, quando tive uma oportunidade, fiz a pergunta:
— Quem é o representante complementar de nossa classe e da classe A?
— Ninguém da nossa classe se inscreveu como representante complementar... — retrucou Takahashi. — Acho que dividiram as tarefas para três representantes dos dois times: laboratório; humanas e exatas.
— Quer dizer que estamos em falta de um representante do nosso lado? Não falta muito tempo até o festival...
— Não precisam se preocupar — interveio Yotsuka. — A Classe A está cuidando das demais disciplinas. Yonagi Kaede será a representante complementar de humanas e Tachibana Saki vai cuidar da parte de exatas, pra quem tiver dificuldades.
Não me é surpreendente saber que Yonagi foi colocada como uma representante. Aliás, novamente ouvi um nome da qual não conhecia.
Isso quer dizer que todas as vagas dos representantes complementares já foram preenchidas. Foi um tanto intrigante saber disso, mas a dúvida persistiu:
— Eles definem estes representantes meramente pelas notas?
— Bom, não exatamente... — continuou Yotsuka. — É um cargo oferecido para aqueles que estão nas melhores posições do ranking geral.
— Isso mesmo — complementou Takahashi. — Eles são definidos pelas suas aptidões acadêmicas. Os capitães de time são definidos por algo parecido, neste caso, pelas habilidades físicas.
— Então, imagino que o time vermelho tenha seus próprios representantes definidos pela classificação do ranking geral, certo?
— Isso aí. A partir da décima colocação do ranking, você poderá ser escolhido para representar algo ou participar de alguma coisa. Ouvi dizer que até ganha benefícios.
Enquanto o rumo da conversa foi alterado para coisas do cotidiano, mantive o pensamento focado naquelas informações. Obviamente, a escola quer manter o nível acadêmico dos alunos elevado usando os alunos com melhor desempenho como representantes.
Se Kaori Maki foi escalada como representante, então ela é uma das 10 melhores da escola. Isso quer dizer que não é apenas uma briga entre os times escolares e as classes, se tornou uma disputa intelectual entre os melhores alunos. Segundo o raciocínio, seis alunos excepcionais foram escolhidos.
Logo, saber da colocação dos melhores alunos poderá dar uma noção de como está a situação de cada grupo. Infelizmente, minha posição no ranking geral caiu do 15° para 40° por causa da avaliação diagnóstica. Será difícil almejar uma posição mais alta e entender melhor o funcionamento da escola.
Pensei em perguntar quem são os melhores alunos, mas me detive ao ver a preocupação de Takahashi. Nós dois sabemos de Yonagi, e ele pode pensar sobre obter informações com ela. Definitivamente não a quero envolvê-la.
Com o treino encerrado, fomos ao vestiário e de lá para a classe. Demorei um pouco mais que o previsto para que pudesse ver o quadro geral sozinho.
No entanto, uma pessoa conhecida estava ali quando me aproximei do quadro. Himegi usa uma roupa de torcida e observa as posições do ranking do primeiro ano.
— Também está preocupado com suas notas?
— Ah, um pouco... — disse, coçando a testa. — Mas sei que vamos estar bem graças ao apoio de Chinatsu e Shiina nas atividades de férias.
Fitei o ranking do segundo ano, e visualizei os nomes dos melhores alunos:
- Tachibana Saki
- Melissa Emiko
- Kazebayashi Yuichi
- Yonagi Kaede
- Asami Rie
- Maki Kaori
Desde que entrei nessa escola, a posição de Yonagi nunca se alterou da 4ª posição. Parece que essas classificações são bastante sólidas.
— Yonagin disse que depois que conseguiu ficar entre os dez melhores do ranking no primeiro ano, sua posição nunca caiu.
— Isso é incrível... — murmurei.
— Sei que só o fato de nos formarmos nesta escola teremos garantido um futuro universitário ou um emprego estável, mas temos que continuar nos esforçando.
— Fui cobrado disso desde o primeiro momento em que pisei nesse lugar, será que não vou relaxar nunca? — retruquei. — Meus olhos doem só de pensar nisso!
— Isso é porque você precisa dormir cedo! — exclamou Himegi.
— Eu faço isso, mas não está resolvendo.
— Já virou um caso perdido?!
— A esperança depositada em mim já se esgotou?!
Himegi deu um tapa em meu braço rindo e acenou para mim, se afastando:
— É melhor que não esteja treinando a ponto de dormir no dia da partida!
Eu a vi desaparecendo entre os corredores e voltei a encarar o quadro geral do ranking, pensando:
“Certamente não dormiria de exaustão por causa dos treinos, mas se estivesse no lugar desses caras no topo, provavelmente não teria um único momento de descanso.”
Como aquela garota é capaz de suportar tanta coisa?
Deixando isso de lado, preciso voltar para a classe. Em passos silenciosos, fiz meu percurso.
***
Kaori Maki está em 6° lugar do ranking geral. Segundo a ordem de classes, Yonagi e Tachibana Saki são as três representantes complementares do grupo branco. Surpreendentemente, aquele Kazebayashi do time de futebol também faz parte dos melhores do ranking! Lembro vagamente de tê-lo visto no piso do pódio no ginásio no início das aulas, mas... porque alguém considerado a elite das elites não era o capitão do time?
Aqueles do 2° e 5° lugar também são do grupo vermelho. A disputa se concentrou em evitar ficar na última colocação. Os representantes escolhidos estão em posições estáveis, então uma competição esportiva é totalmente fora da zona de conforto. Se a classe de um deles decair na última posição, eles serão a última esperança de que estes alunos não sejam expulsos.
Apesar de Kumiko deter da vantagem de nosso acordo, achei estranho o fato dela não estar interessada de fato na posição de nossas classes neste festival, e agora entendi a razão.
Provavelmente Chinatsu está recebendo aulas extras com alguns dos alunos do ranking, agora preciso descobrir quem é o representante da classe D, ou qual dos três os está ajudando. Infelizmente, não detenho de tempo para investigar a respeito. O time de basquete inimigo pega cada vez mais horários de treino. Já que as circunstâncias do evento serão focadas neste meio de competição, terei que observar Gotou com mais afinco.
Enquanto penso sobre a questão, terminei o banho após mais um treino no período vespertino. O temperamento de Takahashi sobre nosso oponente está se tornando complicado demais de se lidar. Passei a tirar mais dúvidas com Yotsuka pelo seu impressionante controle emocional quando o tempo convinha.
Era certo de que não precisamos ficar na primeira colocação, mas definitivamente não posso deixar que a mente de Takahashi se deteriore por causa de Gotou.
De repente, Kusawabe apareceu correndo e gritando:
— Pessoal, temos problemas! Inuzuka está discutindo com Gotou nesse instante!
— Essa não! Vamos lá, pessoal! — Takahashi saiu correndo atrás de Kuwasabe, alterado. — ...que droga, Inuzuka!
Todos o acompanhamos, surpresos. Corremos até a entrada do prédio principal, onde Inuzuka confrontava o time de basquete do grupo vermelho. Aparentemente, estavam se preparando para entrar no ginásio dado o horário.
— Como você é irritante, hein? Já não te disse pra sair do caminho que estamos ocupados? — grunhiu Gotou, o sujeito alto de cabelos vermelhos. Ele parece um vulcão ambulante...
— E eu já disse que não vou sair! — retrucou Inuzuka. — Vocês andam perseguindo os professores para fornecer mais horários de treino, e nos deixando quase sem tempo! Quem vocês pensam que são?!
— Isso não é problema nosso, mas não gostei nada desse tom de voz... — bufou um garoto de topete púrpuro. Segundo Takahashi, aquele é Juugo, também da classe D.
— Não, espera... — interviu Gotou. — Agora estou me lembrando de você. É aquele transferido metido que participou dos primeiros treinos dos calouros pra entrar no time reserva.
— Vejo que ainda há uns dois neurônios nessa cabeça de tomate, seu imbecil! — cuspiu Inuzuka. — Pena que isso não te ajuda em nada, né!
Gotou não fez barulho com aquela ofensa, mas percebi que uma veia saltou de sua testa. Com um rápido movimento, ele segurou o braço de Inuzuka.
— É, eu lembro de você. O carinha esquentado que quase me fez quebrar sua perna por me irritar dizendo o que deveria fazer. Será que devo quebrar seu braço desta vez, e pra valer? — Gotou sorriu de um jeito assustador, terrivelmente calmo.
— Me larga! Estou prestes a esmurrar essa sua cara vermelha! — berrou Inuzuka. Porém, grunhia de dor. Enquanto isso, os outros do time do grupo vermelho davam risada.
— Ei, Gotou. Porque não quebra tanto o braço quanto a perna? Que diferença ia fazer? — debochou Juugo, estalando os dedos. — Quer saber, até posso te ajudar quanto a isso...
— É... pode até ser. A ideia não é mesmo ruim.
Inuzuka parece estar sofrendo a cada segundo que passasse e pior, por mais que se contorcesse, não conseguia soltar o braço daquele aperto. Qual é desse cara? Ele é um Monzaemon malvado, por acaso?
— Ei, vocês vão ficar parados aí?! — exclamou, estressado. — Se mexe logo, Takahashi!
— ...! — Takahashi resfolegou, mas não se mexeu. Isso incluiu o restante do time.
— Mesmo que diga isso... não há o que fazer... — murmurou Kikkawa, nervoso. Os outros nem se atreveram a comentar nada.
Eu fiquei um pouco mais afastado, mas pude imaginar a expressão deles, paralisados. Gotou os intimida demais. Porém, antes que pudesse resultar em algo pior, decidi fazer algo e peguei o celular, tirando uma foto certeira do ocorrido:
— Hum? Que barulho foi esse? — grunhiu Gotou.
— ...é o som característico de uma prova concreta. Mostrando isso pra algum professor, eles podem cancelar o treino de vocês, no mínimo.
— Ei! Quem disse que podia tirar foto sem a nossa permissão? — retrucou Juugo.
— Não me interessa se preciso pedir permissão, idiota — indaguei. — Larguem ele e nos deixem ir embora.
— Apaga logo essa foto! — exclamou Juugo.
Minha primeira reação foi me preparar para correr. Dada a distância, tive certeza de que chegaria à sala dos professores antes dele, não importa se fosse atlético ou não.
— Chega, Juugo... — proferiu Gotou, largando o braço de Inuzuka. — É, acho que exagerei um pouco. Vamos logo para o treino.
O time do grupo vermelho se direcionou ao ginásio, e tive a impressão de que olhavam para mim, principalmente Gotou. Decidi ignorar, mas quando me virei, Inuzuka havia sumido e o resto do time continuou amargurado.
— Esse Inuzuka quer me matar do coração... — Takahashi grunhiu. — E Shiroyama, você não está longe disso, sabe...
— Por mais que te ache corajoso por ter reagido, pareceu muito mais ousadia, isso sim... — comentou Kuwasabe, suando frio. — Você é doido, cara.
— Rapaz, concordo com o Kuwasabe... — expressou Kikkawa a mim. — Você é mesmo um esquisito, viu...
— Talvez eu seja... — dei de ombros ao ignorar todos e segui em direção ao hall. — Até depois.
Não tinha intenção de permanecer naquele clima tenso, já que eu mesmo ainda estou nervoso. Já faz muito tempo desde que presenciei esse tipo de situação.
Após trocar os sapatos no hall, fui ao bicicletário e me deparei com Inuzuka. Sua expressão é cerrada, preocupado com alguma coisa.
— Shiroyama.
— Como está o seu braço?
Inuzuka se aproximou e deu um tapa no meu ombro.
— Não foi nada, ele apenas tinha a mão pesada. — Ele suspirou. — Hoje o dia foi cheio, não é? Vamos dar uma volta por aí?
Destravei a bicicleta e o acompanhei. Não tínhamos um percurso certo, então apenas o segui conforme observava o pôr-do-sol aparecendo. Seguimos em direção a zona industrial silenciosamente, seguindo através do caminho do rinque de patinação, onde a brisa gelada do mar nos assola.
— Obrigado por me ajudar. Se não estivesse lá, ninguém teria me ajudado... — expressou Inuzuka. — O que aqueles idiotas têm na cabeça?! Eles não podem deixar que isso os intimidem!
— ...
— Takahashi é o mais estúpido de todos. Ele está morrendo de medo de bater de frente contra Gotou de qualquer jeito! Covarde!
Como esperado, todos estão sentindo essa apreensão a partir de Takahashi. Aquele imbecil resolveu se desesperar de vez a ponto de não saber mais lidar com essa situação. Não realizei nenhum movimento relacionado justamente por não ligar aos motivos pessoais que o envolvem, mas essa hesitação se tornará uma pedra no sapato se todos ficarem com medo de o encararem no dia do jogo.
— Bem, foi o que notei... — comentei. — Acho que se alguém puder acalmá-lo, sua condição deve melhorar. Mas, não sei como devo me aproximar para tentar confortá-lo.
— Não acho que ele vá se sentir confortado por meras palavras... — negou Inuzuka. — Se eu estivesse no lugar dele, faria de tudo pra derrotar aquele folgado com todas as minhas forças!
— Mesmo que te cause medo?
— Se estivesse sozinho, óbvio que ficaria apreensivo e com medo! — Inuzuka franziu o cenho. — Mas somos um time, certo? Ao menos é o que ainda quero acreditar. Ele deveria dizer a todos o que está sentindo, devia tentar se empolgar mais em querer vencer! Takahashi acha que Gotou vai matá-lo dentro do campo, por acaso?
Diante das circunstâncias, não consigo duvidar que uma possibilidade dessas possa realmente ser possível...
— Sei que estamos representando nossa classe com este jogo, é uma responsabilidade muito grande.
Nós paramos em frente a uma fábrica de serralheria. Por ser o término do período vespertino, vimos muitos funcionários saindo do local. Não entendi a razão para termos parado ali, até que um senhor de aparência cansada veio até nós.
— Oh, Hiyama... já saiu da escola? — O senhor fez um aceno de cabeça, da qual o correspondi.
— Sim, velhote. Esse aqui é meu amigo, Shiroyama. Somos da mesma classe.
— Espero que se dê bem com esse cabeça dura, aqui — brincou o senhor. — Sou Iwashizawa, mas todos me chamam de Iwa.
— Então, seu Iwa... é um prazer.
— Anda logo, velho Iwa! Vamos tomar uma no bar! — Alguns outros funcionários gritaram por ele no meio da rua. O visualizamos indo embora acompanhado por alguns minutos.
— Ele trabalha por aqui já tem muito tempo... — expressou Inuzuka. — Depois de várias tentativas, consegui me matricular em uma escola próximo do velhote.
— Você... não mora com seus pais?
Achei que a pergunta tivesse ressoado rude, mas ele simplesmente balançou a cabeça.
— Desde pequeno, moro com meus avós. Minha avó já é um tanto debilitada e não sai muito de casa. Já o velho Iwa está sempre por aí fazendo trabalhos menores, fora a serralheria. Eles são o melhor exemplo para mim de pessoas que se pode confiar.
— ...
— Sabe... eu costumava pensar que iria confrontar o mundo inteiro por toda a minha vida. Nunca tive um incentivo real por ninguém, nem mesmo da família, exceto por esses dois. Parentes egoístas, amigos falsos, estive rodeado por sujeitos do tipo durante a vida inteira, e realmente pensei que em algum momento eu levaria a culpa por ter esse convívio.
— ...culpa?
— Culpa por me importar. Culpa por querer melhorar. Culpa por estar sozinho. Eu queria fugir de tudo isso. Queria fugir da vida de merda que o maldito do meu pai me deixou depois que largou a família. Minha mãe nunca ligou pra mim, e meus avós são quem me apoiam, mas vivem doentes. Se nada mudar, eu viverei sozinho dentro de uma vala em questão de anos.
— E você acha que tem culpa nisso?
— Eu me arrependo da vida que tenho. Sempre quis me dedicar em alguma coisa e sentir orgulho disso. Quero que todos sintam esse orgulho que posso dar. Não me dou bem com a minha própria mãe, que dá mais atenção a minha irmã mais nova. Moro praticamente com os meus avós, os únicos que realmente se importam. Por isso, estou contando com este festival! Vou conseguir me aproximar deste sonho! Mesmo que esteja tão distante...
Inuzuka esfregou os olhos. A brisa do mar era realmente gelada.
Continuei em silêncio, ouvindo o que ele tinha a dizer:
— Nunca em minha vida pude confiar em ninguém, até chegar nesse lugar e conhecer todo mundo. Por isso, estou me dedicando tanto, mas não quero chegar a este ponto se todo o resto não está fazendo a mesma coisa! — Os olhos de Inuzuka estão irritados, mas suas pupilas brilhavam. — Não quero ser o melhor apenas por mim, mas quero estar lá na frente com a ajuda de todos caminhando juntos! Mas..., mas se isso não acontecer...
— Inuzuka, você é a pessoa mais dedicada que conheci até hoje — disse. — Quando o vejo empolgado, é como se desse identidade pro time.
— Shiroyama, você também está preocupado, não é?
— Não deixo de me preocupar, até porque você quem mais teve problemas com Gotou do que todo mundo, certo?
— ...apenas foi o caso de não querer me submeter àquele imbecil — grunhiu Inuzuka. — Quando as aulas iniciaram em março, fui um dos primeiros a se inscreverem como calouro nas equipes de basquete. Mostrei minhas habilidades e chamei atenção dos treinadores. Era só questão de tempo pra ser escolhido como alguém promissor de entrar no time titular, e então...
— ...Gotou interviu. Porquê?
— Na ocasião, venci Juugo em um embate individual, mas foi uma partida difícil... — relembrou ele. — Por alguma razão, a pista estava escorregadia demais pra se pisar com firmeza, cheguei a derrapar mais de dez vezes em pouco tempo de jogo, enquanto Juugo realizava os passes sem ter esse tipo de problema. Ainda assim, insisti em fazer as cestas e o venci. No entanto, fui acusado de ter roubado na partida justamente por esse problema.
— Quer dizer que... enceraram o chão e o culparam por isso?
— Não passaram a cera em todos os locais, pude confirmar isso depois... — continuou Inuzuka. — Juugo não se movia totalmente pela quadra por causa das regiões específicas em que enceraram. Enfim, não cedi em suas acusações e Gotou veio intervir. Porém, não gosto quando apontam o dedo na minha cara sem que tenha feito nada de errado. Simplesmente não me contive e briguei com ele, ali mesmo.
Inuzuka é realmente corajoso para enfrentar alguém maior que sua altura... Gotou seria facilmente confundido com um Golias! Ou pior... o próprio Gulliver! Ele literalmente enfrentou um Object diante de si mesmo sendo meramente um ser humano...
— ...só que, por mais que não queira admitir, Gotou é muito forte. Se não tivesse atacado o suficiente um de seus braços, com certeza o aperto que me deu contra o pescoço teria me sufocado em questão de segundos...
Espera aí... só falta você dizer que ele é peçonhento... será possível que Gotou seja algum tipo de anomalia como os ornitorrincos?! Na verdade, devo ainda considerá-lo como um humano de carne e osso?!
— De qualquer forma, fui afastado do time de basquete e encaminhado ao time de futebol. Confesso, gosto de participar dos jogos, mas o fato de ter lidado com Gotou foi a melhor das partidas para mim.
— Imagino que seja isso o que Takahashi precisa...
— Ah, você tem toda razão. Por que o Takahashi está desse jeito, afinal? Aquele desgraçado é mais desbocado do que eu e virou um cachorro abanando o rabo entre as pernas! Nem parece ele!
— Ele não queria competir com alguém do mesmo nível do Gotou — expliquei. — Ele vai me cobrir no festival, então preciso ajudá-lo, mas por causa disso, precisará derrotar este oponente.
— Não importa quem será o apoio de quem e muito menos por qual razão, temos que lidar com isso juntos! O que podemos fazer pra que isso aconteça, droga? — Inuzuka continua seguindo em frente, amargurado. — Não quero que as coisas terminem em um gosto amargo pior que a derrota!
— Posso fazer uma pergunta? Por que está se dedicando tanto pra este festival?
Poderia entender muitas das razões para Inuzuka estar preocupado e incomodado, mas...
— Por que será a última vez que irei confiar em alguém! — Ele exclamou a todos pulmões. — Por que é a primeira vez que senti que poderia ter amigos de verdade, que teria alguém com quem pudesse contar! Que não passaria o resto da minha vida sem poder acreditar em ninguém!
— ...!!
Subitamente, freei a bicicleta. E parei. Meus olhos ainda fitam Inuzuka há vários metros à minha frente. Foi então que notei o quão forte estive segurando o guidão. Com aquele vento gelado do mar, mal senti meus dedos. Quando desci da bicicleta, percebi que tremia.
Eu entendo. Entendo esse sentimento vindo de Inuzuka... sem nem mesmo perceber, cerrei os dentes. A pessoa à minha frente encara o próprio futuro de maneira parecida com meus ideais.
— O que foi, Shiroyama? — Ele se aproximou, confuso.
— Eu irei... — Em seguida, esbofeteei meu rosto com as duas mãos, assustando-o de imediato.
— Hum?!
— ...eu farei isso acontecer — expressei, com a voz rouca. — Antes, foi apenas uma questão de participar, mas farei com que nosso time ganhe. Pode até me considerar um egoísta, Inuzuka, mas seguirei esse caminho em sua consideração.
— Hein? Mas...
— Eu estava errado — disse, curvando a cabeça. — Estive me enganando em agir como se estivesse à parte de tudo, considerando me motivar apenas quando algo fosse interessante. Se todos estão se esforçando, então me esforçarei também. Mas, só isso não é o bastante!
— Como assim?
— Se eu cometer um erro, poderá me perdoar? Se eu fizer algo que comprometa o time e deixe a todos com raiva, você ficará do meu lado? Se eu me dedicar a esse tanto, poderemos ser verdadeiros amigos?
Minha visão ficou embaçada, ao me manter cabisbaixo. Senti a mão de Inuzuka em meu ombro e me endireitei para vê-lo, que disse:
— Se você cometer um erro? Mas é mesmo um idiota. Se você for cair, estarei lá para te ajudar a levantar. Você não percebeu, mas estive percebendo o quanto se dedica nos treinos, mesmo que não seja seu forte.
— Eu...
— Você seguiu todas as minhas dicas e não quis se afastar, por mais chato e insuportável que fosse. Estivemos nos comunicando durante todo esse tempo, e por mais que se ache incapaz de fazer algo, você tem um olhar de que gosta de encarar desafios. Sempre que pensava em falar com alguém sobre o que estávamos passando, você foi o primeiro que surgia na cabeça. De algum jeito, você me lembra de como eu era no passado, quando queria acreditar em algo e me dedicava para tornar isso em algo real.
— Então é isso. Não ligo de ganhar, francamente. Porém, não é o que quero, mas o que preciso — proferi. — Se eu eliminar Gotou, você poderá cuidar do resto?
— E como vai fazer isso? Mesmo que isso aconteça, não temos como saber a dimensão da situação...
— O time do grupo vermelho em geral é forte, reconheço. No entanto, se retirarmos seu líder, todos ficarão desnorteados demais para reagir à nossa altura. Vou treinar como se minha vida dependesse disso — disse. — Se eu tiver este único objetivo em mente, posso conseguir.
— Se você está me dizendo que vai tirar o Gotou do caminho, então poderemos vencer! Por mais que quisesse provar pra aquele idiota que sua presença não vale de nada, não estamos em uma posição para reclamar desse plano! — Inuzuka estendeu a sua mão. — Se isso acontecer, juro que não duvidarei de você daqui em diante e sempre irei te ajudar.
Isso mesmo. Ao ver Inuzuka tendo aquela determinação de atravessar tudo aquilo que o atormenta, vi através de mim que devo fazer o mesmo. O peso das circunstâncias fora do ambiente escolar me assolara, receber tal sinceridade própria desse cara que me aproximei simplesmente por causa de Chinatsu foi como levar um soco na cara sem nem mesmo ter erguido o punho.
Não sei nada de sua vida, mas pela sua causa suportarei aquele motivo frívolo para vencer essa aposta absurda contra o tremendo peso de minhas próprias lembranças retiradas do fundo da mente. Ninguém precisa acreditar que seja algo plausível, apenas eu mesmo. Preciso me acalmar e conter meus impulsos, saber lidar com cada coisa no tempo correto. Não posso lutar contra a realidade se movendo mais rápido do que consigo correr.
O ato de poder me aproximar de Mitsuhara Kobune e do que esconde pode estar mais próximo do alcance do que imaginei. Às vezes temos que dar um passo para trás para avançarmos dois ou três passos de uma só vez.
Apertei sua mão, e ambos pudemos sentir a determinação de nossas próprias palavras a partir da força que colocamos nesta promessa.
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