Volume 4
Capítulo 3: Começa o Interescolar ④
Durante aquela noite, recebi várias notificações da minha família. Era até um tanto estranho estar envolvido sob os assuntos de outras pessoas e não meus. Apenas visualizava as mensagens e sem emitir resposta. Não consegui dormir, então desci as escadas, percorri o saguão e abri a porta de correr para o jardim da varanda.
Nós três fingimos não saber de nada e depois explicamos a situação por cima para Makoto. Estávamos prontos para escoltar Yonagi durante o evento sem que soubesse, mas ainda restava dúvidas em minha mente.
Aquele ryokan era incrível. Talvez eu devesse visitá-lo novamente com a minha família algum dia, minha mãe adoraria. Só de fitar o jardim me deixou revigorado, apesar dos ornamentos comuns. Depois de algum tempo o observando, notei que a calmaria não foi dele em si... e sim da sensação de estar afastado e o local corresponder ao sentido. A brisa da madrugada resfriou meu corpo, menos minha cabeça fervente.
Como poderia falar com Yonagi?
Ao observar a lua esplendorosa naquele céu sem estrelas e coberto de nuvens, recordei sobre meus próprios planos... um súbito calafrio me percorreu, mas decidi que a melhor solução para aquele momento seria agir normalmente. Fora da expectativa de todos... e de mim mesmo.
— Se é que poderei agir...
O dia amanheceu e todos levantaram cedo. Rentaro partiu primeiro para se encontrar com sua equipe. Nós tomamos nosso café da manhã e nos arrumamos para sair. Os jogos começarão às 10h até às 16h. Aquele interescolar vai reunir três escolas diferentes, com dois times de cada escola disputando. No final, se os dois times da mesma escola restassem, eles jogarão entre si para definir o campeão justamente por causa dos olheiros. Os jogos foram programados até quarta-feira. Então a final será a daqui mais dois dias, assim como a estadia em Yokohama.
As escolas participantes serão a Daiichi, a Yoriyoi (de Rentaro), e a Kanryou (de Yokohama). Os jogos vão ocorrer do estádio de Mitsuzawa, sendo a principal atração de nossa estadia ali. A quadra era usada pelos jogadores fazerem o aquecimento, suas famílias e amigos se instalaram nas primeiras fileiras das arquibancadas. Parece que a escola Kanryou — quem sediou o evento — participará daquele jogo da manhã e enfrentará o time de Rentaro.
Era bem provável que verei o time de Takahashi por ali em algum momento, mas como participarão dos jogos mais tarde, não o vi lugar nenhum. Parando para pensar nisso, terá muitos alunos conhecidos da escola. Então não foi mesmo uma coincidência ter encontrado Kirisaki no estádio de beisebol no sábado, afinal. Aquilo me deixou nervoso, será que vou encontrá-la novamente por ali?
Nós pegamos nossos lugares na arquibancada e o time de Rentaro estava bem à vista. Eles pareciam estar confiantes. Devia ser o espírito da juventude ardendo sobre suas mentes que os motivava! Vão, Super Campões!
Como planejado, — eu, Tatsuhiro e Makoto — ficaríamos de olho em Yonagi. Não contei o que ocorreu para Teru e nem para as garotas por não querer preocupá-los. O melhor era evitar que gerasse pânico e apreensão, e Yonagi não iria querer que se preocupassem por sua causa, o que poderia estragar a viagem. As coisas terão que ser discretas até o fim.
Olhei ao meu redor, mas só vi rostos desconhecidos. Também não sei como era o rosto de Oguro e apenas recebi alguns detalhes simples de Rentaro e Tatsuhiro. O melhor que posso fazer era evitar que qualquer um se aproxime dela, pelo visto. Virei um guarda-costas de rank B para proteger a heroína, por acaso?
Tio Ikishi, Kiyoshi e tio Ugawa não estavam ali. Como combinaram ontem entre si, decidiram rondar pela cidade a procura de Oguro com o jogo em andamento. Apenas tia Mikoto foi como responsável e ficou ao lado de Yonagi, por garantia — e para que ela não desconfie de o resto dos adultos não estarem presentes —. O jeito vai ser esperar alguma notícia vindo deles até o jogo terminar.
Já era quase hora de o jogo começar, com os jogadores encerrado o aquecimento. Logo, se posicionaram em seus lugares e se prepararam. Quando o juiz apitou, os atacantes começaram a rolar a bola, em passes consecutivos entre o meio e a frente. Foi o time da Kanryou que começara com a bola, mas já encontravam dificuldade em passar pela defesa do time de Rentaro, que interceptavam os passes longos no meio do caminho. Os do meio campo rapidamente avançavam em auxílio dos atacantes, que passavam a bola sob ritmo dinâmico. Um fez um passe rápido para o companheiro a sua esquerda um pouco na frente, depois jogou de volta e com um drible fez um passe para o terceiro à sua direita, que já alcançou a área próxima do gol e arriscou um chute. Este era Rentaro, que fez o gol.
Os espectadores fizeram barulho, a torcida eufórica. Batemos palmas e ficamos impressionados. Parecia que o mundo inteiro gritava ao nosso redor. Rentaro foi levantado pelos membros do time e comemoraram o primeiro gol. Assim, tão logo o jogo recomeçou.
Enquanto o evento prosseguia, notei que Rentaro não treinou passes de bola quando estivemos no parque. Na verdade, ele apenas fez corridas naquele final de semana. Como esse cara tinha tanta organização de equipe se mal podiam se comunicar no campo?
Um do seu time fez um passe de bola jogando-a acima do oponente direto para Rentaro, que a dominou ainda no ar com os pés e lançou-a adiante sem ver direito para quem realizava o apoio. Surpreendentemente outro jogador surgiu na linha de ataque, que pegou a bola e fez um gol de bicicleta há poucos metros do gol.
Foi tão incrível de se ver que não pude mensurar em meus olhos. Aquilo era uma partida amistosa ou um jogo de Quadribol?
Eles avançaram, tomando a bola após o time inimigo terem errado no drible, e aquele que o pegou passou para Rentaro que estava atrás. Ele jogou a bola para cima de imediato, desenhando uma parábola curta no ar e se encaixou na distância do terceiro que se aproximava, este a chutou direto para o gol, mas o goleiro a defendeu. Pela bola ter sido tão rápida, o goleiro não a pegou, e foi a chance perfeita do jogador próximo à linha do gol agir. Em uma finta, marcaram o terceiro gol.
Como deveria descrever aquilo? Era mais do que um método de comunicação infalível.
— Olhando assim, o Rentaro age mais como suporte do que um atacante, não é? — comentou Yonagi. — Na verdade, ele não é tão bom assim jogando bola.
— Não é? — disse, incrédulo. — Como ele consegue atuar na linha de frente, então?
— É algo que ele desenvolveu... não, o mais correto seria dizer que sempre teve isso. A perspectiva de enxergar todos como um todo — expressou Yonagi. — Se comunicar mais do que palavras, ser direto em suas ações... ele gerou um carisma da qual todos ao seu redor conseguem compreender seus sentimentos e suas razões pelas suas ações rápidas.
Enquanto a fitava falando, percebi que Kuroi o observava estática. Desde que o jogo iniciou, ficava cada vez mais maravilhada. As duas viam perspectivas diferentes daquela mesma pessoa, como ele conseguia fazer isso?
Ao observar aquele cara atraindo toda atenção não apenas dele, mas de todo seu time, me fez notar algo que não vi antes.
Rentaro é um ser humano, no fim das contas. Ele não era um super-herói e não tentava ser um. Ele não tinha poderes sobre-humanos e não era considerado especial por questões familiares. É apenas alguém comum. Pode-se dizer que suas habilidades são acima da média, mas não deixa de ser um ser páreo. O que as pessoas enxergam nele era um talento de percepção elevado, que foi atribuído a um estudante que age de maneira simples. Este era Rentaro Hoshino, uma estrela como as outras em um céu iluminado.
Os jogadores vibraram pelo terceiro gol, e se posicionaram mais uma vez. O fim do primeiro tempo estava próximo e, garantir vários gols ali tornará aquele jogo ridiculamente fácil depois. Eles arfavam, eufóricos. Mas também mostravam sinais de exaustão, foi certamente uma estratégia funcional apesar de ser simples.
Rentaro avançou, ganhando campo. Os outros fizeram passes largos, jogando a bola e aumentando a distância. Próximos da rede, um dos oponentes derrapou no chão, desviou o curso da bola e foi para fora. O líbero arqueou a bandeira laranja indicando que era um escanteio para o time da Yoruyoi. Rentaro posicionou a bola na linha demarcada, fitou os múltiplos jogadores se aglomerando próximo ao gol e respirou fundo. Notei que em alguns segundos ele piscou os olhos rapidamente.
Rentaro chutou a bola, que fez um percurso aéreo raso pela lateral. A bola flutuante pareceu se encontrar com um dos membros do seu time e um passe de cabeça definiu o primeiro tempo. A bola entrou no gol. A multidão vibrou, e o time da Yoriyoi comemorou. Foi uma mistura de êxtase, adrenalina e emoção. Ver o cansaço neles me fez sentir cansado, como se estivesse jogando ali. Essa era a sensação de se torcer para um time? Aquela sensação estranha de parecer que todos ali são um único ser, buscando a vitória. Foi muito mais empolgante do que aquele jogo de beisebol, na qual nem soube pra quem torcer.
Nossa, fiquei prestando tanta atenção no jogo que quase esqueci o objetivo dali. Olhei ao redor e vi as meninas comentando animadas sobre os passes de Rentaro. Os garotos estavam animados também. Houve um momento de alívio, pois nada parecia fora do comum. Era como se todas as preocupações tivessem sido exageradas. Yonagi permaneceu animada e todos se mantinham entretidos com o jogo, tudo nos conformes.
Após o apito do intervalo, de trinta minutos, a multidão se esvaiu. Resolvi sair para comprar algo para beber e, vendo que todos iriam permanecer no mesmo lugar, saí rapidamente daquele local.
***
Graças aos céus a máquina de bebidas automática ali perto tinha Cappuccino. A animação de ver aquele jogo fora tanta que meu estômago roncava avidamente e precisava de energia. Mesmo sendo quase meio-dia, o sabor do café com leite foi bom. A máquina ficava do lado de fora do campo, então várias pessoas em grupos aproveitavam para comer ali nos restaurantes locais. As outras escolas são longe dali, então os alunos levaram lanches e fizeram piqueniques pela área gramada demarcada ao redor do estádio. Deve ser árdua a vida de um atleta...
Percorri os grupos de alunos amontoados por instituição e próximo do campo encontrei um grupo conhecido. Takahashi e seu time almoçavam quando ele me avistou.
— Ora, se não é o Shiroyama...!
Ele ficou surpreso durante algum tempo, e então notei que era por ver meu rosto sem máscara. Por um momento, me senti paralisado.
Droga...
Eu acenei como resposta e me aproximei, evitando demonstrar meu pânico. Veja, não é como se não gostasse da pessoa que Takahashi era, e pessoalmente não tinha problemas com ele. Sim, o problema não foi exatamente ele... e sim com quem estava relacionado.
Além disso, um pensamento me veio: precisava fazer algum movimento e me aproximar de Inuzuka.
— Então este é o seu rosto? Quer dizer que nunca esteve doente, certo?
— Bem... é... por aí.
— Olha... não é algo tão extraordinário assim pelo mistério que montou sobre essa máscara. Pra ser sincero, estou até decepcionado... Nana e os outros ficariam chocados.
— Hum? Porque?
— Eles fizeram apostas sobre o que teria em seu rosto de tão vergonhoso... — Takahashi contia o riso. — Verrugas, dente torto... até mesmo lábios carnudos!
Ah... não sei o motivo de ainda ter ficado surpreso. Aquele bando de idiotas não muda, mesmo.
— Como posso dizer isso...? Desculpa por não corresponder às expectativas...
— E pelo visto você não contava em me encontrar aqui hoje, parece que estamos quites... — Takahashi deu de ombros. — Não imaginei que viesse ver o interescolar, na verdade...
— Eu também não tinha planos pra isso. Foi apenas um acaso estar por aqui...
— Não sei se fico surpreso por isso ou conformado. Isso deixou de ser uma simples coincidência... — comentou Takahashi.
— Tem razão, não posso negar isso...
Ele parecia estar ainda mais em forma do que antes ou foi apenas impressão? Como iríamos participar juntos do Festival Esportivo, minha percepção física tinha que se tornar apurada.
— Vejo que se dedicaram bastante para ganharem, hein... — comentei, olhando para todos.
— Bem, sim. Mas o interescolar para nós é como um aquecimento, no entanto.
— Aquecimento?
— Sim. Para quem está interessado em uma bolsa de esportes, essa é a melhor hora de mostrar nossas habilidades. Mesmo agora, há olheiros nos observando. E para isso, mesmo após o interescolar terminar, os treinos vão continuar.
— Isso é verdade! — soou outra voz, desta vez de outro membro do time. — Se bem que estou mais interessado é no físico e não nos esportes!
Os outros riram, mas era uma atmosfera calorosa. Aquele que tinha falado parecia ser bem agitado.
— Oh, é mesmo. Inuzuka quer ser físico-turista, não é?
— Pode apostar! — Ele brandiu os dois braços, fazendo pose. Certamente, é musculoso.
Então, aquele era Inuzuka...
Tem um rosto legal e cabelo liso escuro, sua pele é muito branca. Ele mostrava seus músculos ou competia em lutas de quebra de braço... que figura.
— Que cara animado...
— Sim. Mesmo sendo um aluno transferido, conseguiu se adequar muito bem ao time... — comentou Takahashi. — Apesar de ser orgulhoso e querer fazer tudo sozinho, às vezes.
— Eu sou orgulhoso mesmo! — respondeu Inuzuka, estufando o peito. — Eu quero ser o melhor, o mais forte e o mais ágil. Apenas isso!
— É, mas eu ainda sou melhor que você nos passes... — zombou Takahashi, os outros do time começaram a rir.
— Quero ver se ganha na quebra de braço!
Os dois se amontoaram e começaram a disputa ali mesmo. Era impressionante ver Takahashi, o capitão do time e um aliado de Kumiko — que por sinal, os dois me deram muito trabalho —, ser facilmente arrastado a provocações baratas.
E espera, Inuzuka era um aluno transferido?
Oh, agora me lembro! No dia do teste especial, ele também estava na classe! Se não em engano, junto a mim haviam cinco alunos transferidos. Quem diria que ele seria um deles...
Já era quase na hora do segundo tempo começar, então tinha que voltar. Mas aquele curto tempo de interação com o time de Takahashi valeu muito a pena. Poderia entender mais ou menos como Inuzuka pensava, e disse:
— É... você realmente é forte. Mas estou curioso para saber quem é mais rápido, sabe... — provoquei. — O que acha de uma disputa de corrida?
— Oh, eu lembro de você. O cara que sempre via de máscara, achei que era anêmico! Estamos na mesma classe, hein..., mas... — Ele coçou a nuca, como se tentasse lembrar de algo, enquanto mantinha a quebra de braço com Takahashi. — Oh, seu nome... não lembro. Tenho facilidade para lembrar de rostos, mas não de nomes. Foi mal.
— Tudo bem. Sou Shiroyama. O que acha de fazermos esta corrida depois do interescolar?
— Por mim, tudo bem. Você parece ser interessante... Shiroyama.
— Takahashi... — chamou um dos membros do time. — É melhor começarmos a discutir as estratégias de jogo...
— Ah, Kazebayashi. Estou indo.... — respondeu ele.
— Conhecido seu? — perguntou Kazebayashi.
— É, da minha classe. Não imaginei que ele fosse aparecer por aqui hoje.
— Você podia chamar era mais conhecidas para virem ver a gente, não? — retrucou outro membro. — Queremos ver garotas!
— Estamos aqui para jogar ou pra flertar com garotas, Kikkawa? — retrucou outro cara.
— Não enche, Kawashita.
— Não ligue para eles. Já que está aqui, espero que possa ver o jogo... — expressou Kazebayashi, me cumprimentando. — Torça para a gente ganhar, estamos todos aqui sob o comando do Takahashi.
— Ah, certo...
Espera, como alguém com uma índole tão predominante não era o capital de um time de futebol?
— Não coloque essa pressão toda em cima de mim... — guinchou Takahashi, arrancando gargalhadas dos outros. — Andem... vamos logo decidir nossas estratégias!
Dito isso, me afastei. Acompanhei o fluxo de pessoas ao interior do campo. Aquela viagem a Yokohama me deu mais frutos do que imaginei. Claro que a questão de Takahashi souber do meu rosto poderia implicar em algumas complicações, mas lidar isso do jeito negativo não é nada surpreendente.
De qualquer forma, poderia ser uma mostra de quanta confiança depositava em Takahashi naquele momento.
Conforme me afastei e uni ao aglomerado de pessoas, subitamente captei a silhueta de alguém conhecido próximo dali... demorou um certo tempo para retornar ao interior do estádio, então aproveitei a espera para trocar mensagens.
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