Our Satellites Brasileira

Autor(a): Augusto Nunes


Volume 4

Capítulo 2: O Primeiro Dia em Yokohama ④

Depois das 22h, as luzes de todo o recinto foram apagadas. Houve um período de silêncio e um estado de calmaria preencheu o local. Mas, são férias de verão e vários adolescentes estão reunidos, então a possibilidade de irem dormir cedo é ínfima!

Esse é o chamado — Evento de Noite de Pijama — desbloqueado!

Não foi esse o caso dos garotos, pois todos arrumamos nossos fútons e deitamos em silêncio, mas todos ficamos mexendo no celular. Era estranho, mas por mais que tivesse feito tantas coisas naquele dia e ainda ter levantado cedo, não estava cansado. Minha mente se manteve bem desperta.

As garotas pareciam estar animadas, pois mesmo no nosso quarto era possível ouvir algumas vozes distintas. Parece que a noite do pijama delas tinha iniciado com toda intensidade.

— Ouvi dizer que elas até passaram no mercado mais cedo para comerem doces durante a noite... — murmurou Tatsuhiro.

— Ah, sério? — bufei em resposta. — E não compraram pra dividir com a gente?

Ouvi uma risada.

— Deve ter sido coisa da Sakuya... isso é bem a cara dela! — Rentaro tentava conter os risos.

Onde foi parar o senso solidário de partilha? Isso foi tão maligno quanto o Majin Buu ter transformado todos os seres humanos em doces...

Logo, vi a silhueta de Teru se levantando do fúton e se direcionando para a porta de correr.

— Vou no banheiro... — murmurou, mas sabia que era um sinal de que iria me esperar no corredor. Como seria estranho dois caras irem juntos lá fora, esperei cerca de quinze minutos para sair após.

Os outros não pareciam se importar com o fato de ter gente saindo do quarto à noite, visto que ainda mexiam em seus celulares como se nada estivesse ocorrendo. Fechei silenciosamente a porta de correr e me encontrei com Teru no pé da escada. Fomos da sala de estar na ponta dos pés até o jardim.

Essa noite está iluminada, então não tivemos dificuldade de distinguir os móveis e nem de tropeçarmos. Abri a porta de correr da varanda do saguão e nos sentamos de frente ao jardim, onde relaxei minhas costas. A paisagem não era nada mirabolante, mas senti uma calma em observar um local tão tranquilo. Vegetações de porte médio e pequenas palmeiras condecoravam aquela lateral do ryokan, o solo de pedrinhas cautelosamente cuidado e um curto lago que refletia o luar da lua era o que se mostrava aos meus olhos. Fiquei alguns segundos contemplando aquela imagem silenciosa até resolver prestar atenção em Teru:

— Certo, agora estamos seguros...

 Teru assentiu.

— Bem... me diga, qual é o seu segredo?

— Agora que parei para pensar nisso... não me parece ser injusto apenas eu dizer algo secreto? — questionou o garoto.

— Foi você que começou isso... — grunhi como resposta. — Bom, acho que pode ter algo que posso dizer depois sobre mim...

— Certo, então!

— Diga de uma vez. O que você quer que eu saiba?

— Primeiro de tudo, gostaria de saber uma opinião sua! — começou Teru, sério. — O que você acha dos amigos de Yonagi?

— Hum? Os amigos dela? Bom, eles parecem ser pessoas legais... — murmurei, sem pensar muito na resposta. — O que isso tem a ver?

— Você... não acha que eles apareceram muito de repente e que aquele Rentaro roubou a atenção de todos tão facilmente?

Se parasse pra pensar no assunto, realmente tudo aconteceu muito rápido. Rentaro recebeu toda a atenção das garotas para si, mas em relação a isso não poderia dizer que era algo forçado, e sim...

— ...que a atenção a ele foi algo natural. É o que dá pra dizer com certeza.

E de repente, como um estalo tudo ficou claro para mim. Eu fitei Teru e notei sua expressão de apreensão.

— Então, é isso. Foi realmente o que pensei... — assentiu o garoto. — Você realmente notou isso pela forma como eles se relacionaram tão rápido.

Rentaro é alguém que facilmente capta a atenção dos outros. Não seria arriscado afirmar que até atrairia a atenção daqueles que não se importam ao que está ao seu redor. E assim, tudo desaba. Foi um tanto surpreendente que a resposta ficou tão clara. Ou era apenas que não quis enxergar essa possibilidade?

Na verdade, o fato mais chocante era de o próprio Teru estar se preocupando com algo do tipo. Não é algo que fazia parte do nosso cotidiano como membros do clube de literatura.

— Cara...

— Então... quer dizer... eu meio que já a fitava há algum tempo, e... bem, acho que só parei pra perceber isso quando já estávamos agindo juntos nas mesmas atividades... — balbuciou Teru, com o rosto vermelho.

Ao menos senti que a ideia de discutir isso naquele momento foi o melhor a ser feito. Minha mente não estava preparada para entrar naquele tipo de assunto mais cedo, envolto de devaneios.

— Bom... ela tem algum indício de que você sente isso? — perguntei.

— Não! Não mesmo. Quer dizer... eu acho. Não! Ela teria vindo me dizer sobre isso se soubesse, certo?

Eu suspirei como resposta.

— Escuta aqui, Kuroi não é o tipo de pessoa que fala as coisas abertamente para os outros, sabe?

— Ah! É mesmo! Ela... ela não faz isso, né?

A caloura que ama contos de terror. A pessoa que esteve com Teru no antigo clube de jornalismo. A garota com quem tinha menos interação no clube de literatura, por nunca saber o que se passa em sua cabeça.

Essa é Kuroi Hoshida, do primeiro ano.

— E então? O que vai fazer?

— Hein? Fazer? Fazer o quê?

Teru parecia perdido nos próprios pensamentos.

— Estou dizendo, o que pretende fazer agora que sabe que gosta dela? Não é como se você fosse querer se confessar para ela em breve, né?

— Era justamente o que estou planejando...

— Já está?!

Quase falei alto, e grunhi como resposta.

— Ei, você tem certeza?

— Veja, era o que eu pretendia fazer desde que as férias de verão começaram... o convite da Yonagi veio em uma hora perfeita, só precisaria reunir coragem para isso! Mas então, aquele Rentaro apareceu e as coisas ficaram complicadas!

Era visível seu desespero.

— E se Kuroi estiver gostando dele?!

— É possível.

— Nem vai negar?!

— É por isso que estou dizendo: você tem algum plano? — retruquei. — É isso o que deseja, certo? Quer que ela fique com você, não é?

— Sim! É isso mesmo!

— Mas o que você gosta dela?

— Eu só gosto!

— Não vai nem pensar?!

Aquela conversa não terá rumo algum daquele jeito. Teru foi totalmente levado pelas suas emoções para conseguir pensar com clareza.

— De qualquer forma.. vai ter que esperar surgir uma chance para isso — disse, então tossi um pouco. — Você precisa se aproximar dela durante este tempo, não é?

— Oh! Como esperado! Você é bem inteligente, mesmo!

— Isso é o básico, droga! O básico! — senti vontade de enforcá-lo! — Além disso, você está fazendo muito barulho!

Lidar com essa questão de Teru ia me dar trabalho, mas ele contava com meu apoio. Não sei o que poderá acontecer no futuro...

— Certo, e você?

— Eu? Eu o quê?

— De quem você gosta, Shiroyama? — instigou Teru. — Ah, mas diante de tudo, deve ser a...

— Pode parar! — Eu o interrompi de imediato. — Estou de fato interessado em uma pessoa, mas você não a conhece. Em relação a mim, não tem o que se fazer.

— Ah, sério?

Teru pareceu desanimado, mas com isso pude terminar aquele assunto antes que ficasse complicado. Diante disso, era melhor que voltássemos ao quarto antes que fôssemos pegos. Conseguimos voltar sem problemas e os outros já dormiam profundamente.

Me revirei no fúton e percebi que Teru já estava roncando. Que inveja. Minha mente não iria descansar tão facilmente e minhas próprias dúvidas me consumiram. Minha primeira noite na estadia em Yokohama foi totalmente conturbada e desgastante.

***

A manhã de domingo começou de forma estressante para mim.

Acordei cambaleante e cansado, sendo que todos levantaram cedo. Rentaro se exercitava no jardim quando desci as escadas. Tio Ikishi, suas filhas e as calouras se encontravam na mesa.

— Onde está o Teru? — perguntou Kuroi.

— Ainda está dormindo. Eu tentei acordá-lo, mas... o sono dele é bem pesado.

Ele poderia estar pensando em várias maneiras de se aproximar dela... ou apenas era horrível em levantar cedo, mesmo.

Terminei rapidamente meu café da manhã e me dirigi ao saguão. Rentaro apareceu por lá enxugando seu rosto com uma toalha. Usava roupas leves como regata e shorts, além de ter calçado um tênis de corrida.

— Você costuma se exercitar assim todos os dias? — perguntei.

— Sim. Geralmente faço apenas corridas... — respondeu Rentaro. — Mas como estou me preparando para o interescolar, preciso manter o corpo em forma. Como fiz o aquecimento, vou correr um pouco!

— Oh, o interescolar? Que coisa, minha escola também está realizando um.

— Você vai participar?

— Não, não... não sou um garoto esportivo, sou um garoto literário.

Rentaro riu pela resposta.

Espere, isso é sério. Não ria.

— Você deve fazer parte do clube de literatura, então. Você é divertido mesmo, como o tio Ikishi disse ontem!

Dei uma risada seca e voltei para dentro. Aquele jeito dele me deixa desgastado!

Yonagi desceu as escadas mexendo seus cabelos, tinham crescido? Quando a conheci, as madeixas tocavam nos ombros, e agora estão mais abaixo. Também notei que meu cabelo cresceu bastante, e terei que cortá-lo em breve. Minhas franjas logo começarão a me incomodar...

Devido minha sonolência, não percebi o retorno das olheiras até fitar o espelho de parede do saguão. Ah, estou péssimo... sem porte atlético, com braços e pernas magros, além do rosto acabado... sou a própria definição do Espantalho!

Definitivamente não senti faltas das olheiras...

Só então me dei conta novamente de não estar de máscara. Fazia apenas um pouco mais de três meses desde que comecei a usá-la, e não a sentir sob meu rosto me gerava desconforto fora de casa. Já fiquei acostumado com o pessoal do clube de literatura, mas a reação dos outros ao me verem ainda me é estranho.

Em relação ao Rentaro, foi o que mais reagiu de maneira normal, assim como Yonagi fez quando nos conhecemos. Senti um toque em meu ombro, e a própria está ali, me encarando decepcionada.

— Eu já esperava que não iria conseguir ficar tanto tempo sem suas olheiras. Mas ainda tinha um resquício de esperança que iria sarar delas, ou será que são mesmo uma doença? — Ela se afastou alguns passos, se cobrindo com os braços. — É contagiosa?

— É com isso que está preocupada?

Sakuya e Tomoyo me encararam de longe e se aproximaram de Yonagi, se apoiando em seus ombros.

— Vamos para fora, Kaede! Lá fora!

Senti um olhar gélido sendo dirigido a mim por Sakuya, mas a provoquei sorrindo. Acho que pareci arrogante demais, pois logo as duas me olharam torto. Bom, que seja.

Restam mais quatro dias de estadia, terei que fazer o máximo para não causar problemas... ou ao menos evitar.

Oh, Rentaro foi lá pra fora também. Só então que reparei que as três estão vestidas com roupas leves e se reuniram com ele. No entanto, lembrei de outra coisa que foi dito.... interescolar? Por que Rentaro está ali se vai participar deste evento?

Aliás, onde vai acontecer?

Takahashi me disse sobre participar dele, mas não sobre sua localização. Então quer dizer que o interescolar será ali em Yokohama?

— Fala sério...

O clube de literatura foi convidado para prestigiar um amigo de infância de Yonagi a participar de uma competição juvenil, em que também outras escolas estarão incluindo a nossa.

Seria esse o prelúdio de um desastre sociológico? Ou de um poderoso desenvolvimento social?

— Certo, vamos correr! — Rentaro começou a trotar. — Vamos até o parque de Yokohama!

Makoto e Tatsuhiro saíram para acompanhá-lo em seguida. De algum jeito, Rentaro fez com que todos o acompanhassem em seu treino matinal... o que era aquilo? Estávamos indo jogar contra a Shiratorizawa, por acaso?

Quer dizer, Teru ainda dormia e não parece que acordará tão cedo, então vai ser deixado para trás. Coitado...

— Vamos nos encontrar no parque de Yokohama, então. Podem indo na frente! — proferiu tia Mikoto, sorrindo graciosamente. — Divirtam-se!

— Estamos indo, então! — Rentaro começou a trotar, com o resto do pessoal o seguindo avidamente. Oh... o que deveria fazer?

— Vamos também! — Himegi e Kuroi avançaram rua afora. — Shiro, se você for... se apresse!

Ninguém veio falar comigo antes, fui totalmente esnobado por aquelas primas irritantes e ignorado. Devo acompanhá-los mesmo assim?

Os tios de Yonagi terminavam de recolher a mesa e em breve os encontrarão. Posso aproveitar a ocasião e sair para algum lugar, mas não conheço Yokohama... o que vou fazer sozinho? Caçar livrarias como os Ghouls fazem em Tokyo com pessoas?

Ah, que seja... Subi rapidamente para trocar de roupa, calcei meu tênis e fitei com desdém o rosto abobalhado de Teru antes de sair do quarto. Era daquele jeito que vai esforçar em conquistar a garota pelo qual ficou interessado?

Galguei a escadaria em segundos e saí apressado do ryokan, correndo a todo vapor para não perder os outros de vista. Eu que não ficarei à mercê de ninguém, seja quem fosse!

— Oh... nos alcançou rápido, hein! — comentou Rentaro quando consegui me aproximar. — Por acaso, tem sebo nas canelas?

— É... parece que sim... — arfei, respondendo.

— Quase tomei um susto...! — Kuroi ficou surpresa. — É assim que um zumbi correria se estivéssemos no The Walking Dead?!

— ...não enche!

Risadas ecoaram em nosso meio, mas as ignorei. Preciso manter o ritmo a todo custo! Não perderei pras calouras tão sedentárias quanto eu, muito menos pra Kuroi!

— O importante é estar aqui! — Himegi sorriu, ofegante. — Vamos lá!

Gostaria de ter ao menos 10% da animação dessa garota...

— Não imaginei que fosse tão veloz... — expressou Yonagi, há apenas poucos centímetros de distância. — Você não tinha dormido mal?

— Parece que tanto ele quanto o amigo de vocês foram dormir tarde ontem... — expressou Tatsuhiro. — Bom trabalho em conseguir levantar cedo, mesmo tendo dormido pouco...

Não consegui responder por estar arfando, mas acenei com a cabeça. No entanto, ouvi um chiar próximo de mim. Aparentemente, Sakuya e Tomoyo não estão tão felizes de me verem ali... bem, vou ignorá-las por ora.

— Você nunca me pareceu alguém que fica preocupado... — comentou Yonagi a mim.

— Hein... o que isso tem a ver?

— Falta de sono se dá por apreensão e ansiedade, são sintomas comuns... — respondeu Makoto, entrando na conversa. — Não é recomendado que pessoas submetidas a essas condições diariamente exagerem nos exercícios físicos, mas você não está tão ruim...

Apesar de ter corrido apenas alguns metros apressados, minha respiração já ficou ofegante. Por mais que goste de andar de bicicleta quando a situação favorecia, ainda sou sedentário. Não sei por quanto tempo vou conseguir manter o ritmo deles.

Espere, não pense nisso. Foque sua respiração. Isso mesmo!

Respiração Silenciosa: Ritmo constante desesperado!

Minhas pernas ardiam como se pegassem fogo, e meu peito arfava com o esforço. A sensação que tive era a de que chamas realmente surgissem de meu corpo. Sou algum tipo de tocha humana, afinal?

Yonagi e os outros conversavam tranquilamente, mesmo sob ritmo constante. O trote não era nem caminhada e nem corrida, por isso que parecia consumir muito mais energia em realizá-lo. Porém, também conversavam comigo, o que me fez esquecer um pouco da minha condição precária... as primas de Yonagi ficaram mais aborrecidas do que tudo, por terem sido deixadas de lado. Bem feito!

— Oh, Kaede... poderia me fazer um favor? — pediu Rentaro.

— O que foi?

 — Acho que suas primas precisam ir em um ritmo mais lento... se importaria de acompanhá-las? Eu vou aumentar o meu, no entanto.

— Sem problemas.

Os dois se comunicaram como se não fosse nada demais. Ei, o que ele disse? Aumentar o quê?

Yonagi reduziu seu passo e se aproximou das outras, assim como Himegi e Kuroi. Em contrapartida, Rentaro tornou a esticar mais suas pernas e seu trote ficou mais rápido. Logo, as garotas ficaram bem distantes, restando apenas os garotos. Tatsuhiro conseguia acompanhar o trote rápido e Makoto se mantinha um pouco atrás. Mesmo com dificuldade, consegui seguir o ritmo.

Rentaro estava confiante e não parecia cansado. E aquilo me irritou. Ele era quem definia como seria as coisas, é? Quero passar dele e ganhar a corrida. Espera, era uma corrida? Nem mesmo me recordo se era mesmo. E onde é o parque? Ah, sim. Lembrei de ter visto no GPS da van, em algum momento. Minha memória relâmpago parecia ainda estar funcionando... que curioso.

Ah, sim... a corrida. Vamos, se concentre! Avance um passo adiante a cada vez! Mais rápido, mais rápido!

— Oh, você gosta de correr, hein... Shiro... qual é mesmo o seu nome?

— Shiroyama...! Arf... arf...

Oh, meu peito doía ao falar. Grunhi de frustração e continuei correndo. Não soube quanto tempo se passou, mas agora Tatsuhiro e Makoto demonstravam dificuldade de acompanhar o ritmo e eu estava quase cambaleando, só que Rentaro ainda manteve o semblante tranquilo.

Droga! Esse loiro social é muito bom! Eu não sou páreo!

— Eu acho... arf... que correr é bom... para pensar...

— Você parece que não gosta de estar na academia, no entanto... — disse Rentaro.

— Odeio... e por isso...

Não sabia por qual razão estou correndo. Não tem ninguém nos olhando... preciso me desgastar tanto dessa forma? Mas só decidi em correr, mesmo sem saber o motivo. Vou continuar correndo, não importa o quê!

— Rentaro...! Vamos desacelerar um pouco pra descansar! — ofegou Makoto. — A gente se encontra no parque!

— Certo, então! — Rentaro controlou sua respiração e avançou mais rápido. Nossa distância ficou cada vez maior, assim como a de Makoto e Tatsuhiro que pararam de correr.

Grunhi sem parar, forçando as pernas a correr. Tenho que continuar... preciso acelerar... apesar de não conseguir dar nenhum passo sem sentir o coração querendo sair pela boca.

— Aquele maldito Takahashi... é bom que valha a pena...!

Torci o corpo e botei força nas pernas, avançando com precisão.

Ativarei a técnica secreta da Guilda dos Ladrões! Stealth do Gato Velho!

— Hum... Shiroyama...?! — avancei e alcancei Rentaro, surpreso. A nossa frente há alguns metros está o parque. Meus olhos pareciam saltar do rosto, ardendo. Seriam as olheiras? Minha visão ficou turva e minha respiração era irregular.

— Até aquela... esquina...

— O quê? — Rentaro me indagou.

— Se passar... primeiro, eu venço...!

— ?!

— Quem passar dela... ganha!

— Isso não era pra ser uma corrida...

Botei mais força nas pernas e as estiquei, ajustando o peso do corpo e respirando fundo. Rentaro ainda me acompanhava, o final do quarteirão estava chegando. Era impressionante como aquele cara tem uma resistência tão alta...

— Não... importa! Só... corre! — ignorei aquelas palavras estúpidas que ouvi, além daquelas que mesmo disse. Tudo o que queria fazer naquele momento era ultrapassar o limite imaginário que estabeleci e apenas isso!

Aquela regra idiota me deixou completamente desesperado, e persisti. Desejei que poderia ultrapassar aquele obstáculo... não. Eu farei isso acontecer. Fechei meus olhos e balancei os braços rente ao corpo, colocando toda a força restante nas pernas.

Durante muito tempo, deixei que os outros estabelecessem as próprias regras e tive que aceitá-las. Quando se opina sob algo estipulado por alguém, apenas propicia que a opinião do outro está acima da sua.

Ao menos uma vez...

Poderia ser apenas uma vez...

Mas eu quero provar isso...

Eu vou mostrar... que podia...

Eu posso...

— ...posso ganhar de alguém melhor que eu!

Berrei com toda a força dos meus pulmões e, por estar de olhos fechados tropecei na rua. Me desequilibrei totalmente para frente e iria me esbarrar no chão, mas...

— Opa!

Senti um puxão vindo atrás, foi Rentaro que segurou minha camisa para que não caísse.

— Arf... arf...!

Minha visão ficou tão turva que mal enxergava um palmo à frente, a boca formigava, assim como todo o corpo que tremia. O mundo girava rapidamente... ou era minha cabeça girando? E, mesmo assim...

— Você... ganhou...

— Hein?...

— Eu disse... arf... que você ganhou... — Rentarou me ajudou na recomposição e apontou para nossas costas. — Até aquela esquina, certo? Você me passou. Então, a vitória é sua...

— Ah, sério...? — tentei sorrir, mas o cansaço fez minhas pernas desabarem e sentei na rua. Fiquei ofegante demais, puxando ar.

— Você tinha que ter dito que não era acostumado a correr assim... — alertou Rentaro. — Que tipo de vitória é essa?

— Vitória, é? Quem liga? — levantei a cabeça e senti o sol forte formigar meu rosto. Nós dois começamos a rir sem motivo algum.

Aquele cara... fala sério. Para de me complicar... ele realmente é uma pessoa boa.

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