Our Satellites Brasileira

Autor(a): Augusto Nunes


Volume 4

Capítulo 2: O Primeiro Dia em Yokohama ③

Perto das 20h, o jogo terminou. Saímos junto ao aglomerado de pessoas, mas as garotas resolveram ir ao banheiro. Então, ficamos esperando perto da van até o retorno delas. Sentia o olhar de Teru sob mim, provavelmente ávido a querer continuar seu desabafo.

Veja bem, Teru... agora não é o momento certo, sabe.

O melhor será esperar até estarmos no ryokan. Mesmo que Tatsuhiro estiver ali para ouvir, não deve ser um problema. Tio Ikishi que é o verdadeiro estorvo de querer se manifestar sobre o assunto... nunca imaginei que haveria alguém fofoqueiro na família Yonagi!

— Ah, sim. Vamos esperar Rentaro e os outros para voltarmos juntos... — explicou tio Ikishi, fitando seu celular. — Já devem estar se aproximando de nós.

Por não termos nos encontrado durante o jogo, se encontrar ali realmente foi uma boa ideia. Pareciam estar trocando mensagens pra propiciar o encontro.

Como serão mais dois garotos – Rentaro e Makoto —, o quarto masculino ficará completo. Ao que parece, as garotas vão dividir dois quartos para caber Ayase na formação.

— Mas achei que chegaria mais dois parentes seus... — comentei. — Lembro que tinham citado o nome de mais duas pessoas...

— Ah, houve mudanças de plano... eles não virão. Kae deve ter dito algo a respeito.

Verdade. Yonagi disse que alguns de seus parentes não poderiam comparecer ao encontro, e nós fomos convidados para preencher aquele buraco. De certa forma, compreendi esse sentimento.

Olhei para o próprio celular e o apertei com força.

As garotas surgiram pela plataforma de entrada e junto a elas vieram mais três pessoas.

— Prazer em conhecê-los! Sou Rentaro Hoshino! — Um jovem alto de cabelos loiros com um belo sorriso acenou para nós.

— Prazer! — exclamou uma garota de óculos e corte Chanel. Ela deveria ser Ayase.

Ao lado dela há outro garoto de porte médio, magro e com um topete legal. Ele é Makoto, que apenas fez um cumprimento de cabeça.

— Enfim, todos estamos aqui! — brandou tio Ikishi, dando um forte aperto de mão de Rentaro. — Finalmente nos encontramos!

— Desculpe por isso... — Rentaro coçou a nuca. — O ritmo dos treinos foi complicado de contornar!

— Foi complicado de conseguir os ingressos do jogo encima da hora... — murmurou Makoto. — Não tínhamos certeza de que iríamos conseguir vir.

— A rotina do Rentaro é muito puxada! — aclamou Ayase. — Estou tão feliz que conseguimos nos encontrar!

— Não liguem pra isso... o importante é que deu tudo certo! — Tio Ikishi deu alguns tapas nos ombros de Rentaro. — Você ficou alto, hein?!

Rentaro riu avidamente. Ei... que tipo de comentário é esse que só os sogros dão, tio?

— Vocês devem ser os amigos da Kaede, certo? — Ele veio em nossa direção, cumprimentando Teru e depois a mim. Makoto e Ayase fizeram o mesmo.

Todos os seus amigos a chamavam pelo primeiro nome? Deveriam ser bem próximos, mesmo... Rentaro tinha bastante presença e pulso firme.

— Hora de irmos, então! — expressou tia Mikoto.

Apesar da grande quantidade de pessoas, ainda cabíamos na van. Na segunda fileira de assentos agora era eu, Teru, Tatsuhiro e Makoto. Ayase e Tomoyo se juntaram a Himegi e Kuroi, enquanto no assento de trás ficaram Yonagi, Sakuya e Rentaro.

— Rentaro, venha! Fique no meio! No meio! — Sakuya o empurrava enquanto Yonagi ficava no assento da janela. Tomoyo e Ayase davam risinhos, e tio Ikishi comentou:

— Isso que é combinação! Há! Há!

Yonagi parecia estar mais encolhida por alguma razão, mesmo que ali tivesse bastante espaço para os três. As meninas faziam todo tipo de pergunta para Rentaro durante a viagem até o ryokan.

— Você faz algum tipo de esporte além do futebol?

— Você deve estar sempre ocupado saindo com os amigos, não é?

— Você deve ser bem popular na sua escola ainda, né?!

Todas as garotas o abordavam, enquanto Makoto e Tatsuhiro conversavam tranquilamente. Todos ali pareciam muito próximos. Eventualmente, Makoto começou a conversar comigo também. Ele parecia ser muito fã de literatura e a conversa rumou para títulos em comum. Decidi não ligar muito por estarem reparando em meu rosto.

Rentaro é realmente um garoto popular — com todos os atributos possíveis e imagináveis! —. Todas as garotas deram atenção para ele, como um imã. A animação durou mesmo após termos chegado ao ryokan. Ah, tudo o que precisava pra completar a carga de estresse por suportar uma garota social como a Sayaka... foi ter a presença de um garoto social.

Ajudamos ele e Makoto a arrumar suas coisas dentro do quarto e então começamos a decidir quem iria primeiro ao banho.

Mesmo tendo gostado da atmosfera e da comida do ryokan, ainda veio mais um detalhe pra fechar o pacote: suas fontes termais! Apesar de ter me animado com o fato de poder aproveitá-lo, resolvi deixar para outro momento... já que muitos decidiram usá-lo.

Por outro lado, encontrei livros interessantes e a melhor forma de aproveitar uma leitura proveitosa não seria em uma van barulhenta, e sim em um fúton confortável! Tomei um banho convencional e me resguardei no quarto.

Não entenda errado, estou curtindo a viagem ao meu modo. O fato é que subitamente não me senti a vontade de interagir nesse grupo por enquanto. Sou como um gato que analisa o ambiente e procura seu próprio território!

Apesar disso, todos ali parecem ser legais. Mesmo os amigos de Yonagi são como parte de sua família. Mesmo entretido na leitura, pensei em como me aproximar de todos à sua maneira para não cometer o mesmo erro que fiz antes... sem interpretações unilaterais!

Tia Mikoto nos chamou para o jantar, outro abundante banquete à nossa disposição. A maioria compareceu usando mantos por terem ido às fontes, então fui literalmente considerado como um peixe d’água por usar roupas comuns.

— Credo, garoto! Você é um rato de biblioteca pra querer ler o tempo todo?! — indagou Sayaka.

A mesa de jantar se encheu de risadas. Não teve exceções... oh, ao menos consegui chamar atenção de algum tempo, mesmo de um jeito que odiasse...

Tomoyo e tia Mikoto riam pelos cotovelos, enquanto Kuroi, Himegi e Yonagi mantinham risadas leves... — sim, garotas. Eu sei que vocês também pegariam seus livros se estivessem com vontade! — enquanto o resto ria moderadamente. Grato pela consideração!

— Esse garoto é bizarro..., mas é divertido! — Tio Ikishi levantou o copo de cerveja.

— Obrigado, tio...

— Não me chama de tio!

Outra salva de risadas se sucedeu com esse velho me xingando abertamente. Dessa vez, Yonagi riu tanto que não conteve as lágrimas.

— Minha barriga está doendo... não consigo comer mais...

— Esse garoto é estranho, viu? — retrucou Sayaka. — É mais estranho achar graça disso...

— Acontece que já nos acostumamos com esse jeito do Shiro... ele sempre nos surpreende com alguma coisa! — comentou Himegi, rindo.

— Só ressalte que não é de propósito, está bem? — indaguei.

O jantar manteve esse ritmo de risadas e insultos por partes das primas de Yonagi para mim, mas as ignorei. Quando finalizamos, fui para a sala de estar sozinho. Lembrei do celular desligado e preciso encarar a realidade que me assola onde moro...

Dei um longo suspiro e o liguei. Ignorei as notificações instantâneas e rapidamente avisei minha mãe sobre o que fiz no dia inteiro. Aproveitei para mandar uma mensagem para Teru e enfim dar um ponto final sobre seu desabafo. As luzes no ryokan se apagarão as 22h. Após isso, provavelmente todos ficarão em seus quartos, o que vai facilitar de conversarmos a sós no corredor.

Após a presença de Rentaro e Makoto no quarto, conversar lá dentro não é mais uma opção. Recebi uma resposta positiva dele pouco tempo depois.

Aquele foi o primeiro dia em Yokohama. Um sábado agitado e animado, mas agradável no geral. De acordo com a minha mãe, Harumi vai aparecer em casa no dia seguinte.

Shiroyama Harumi é minha irmã mais velha. Senti um súbito desconforto em todo meu corpo. Ironicamente, é um nome da qual não me vem à mente faz um longo tempo.

Depois de anos, nossa família terá uma reunião (in)completa novamente. De jeito nenhum quero fazer parte disso.

Pelas circunstâncias, tenho que agradecer a Yonagi pelo convite oportuno. Minha mãe apoiou a viagem, mas meu pai foi omitido. Se fosse algo do tipo de como fiz para evitar de ir para a casa de Yonagi quando peguei aquele emprego temporário no Museu de Chiba poderia ter sido um resultado ruim, mas era improvável que iria conseguir arranjar alguma boa desculpa em um tempo tão curto. Então realmente me senti em dívida com Yonagi, de certa forma.

Harumi decidiu por conta própria visitar nossa casa após tanto tempo. Desde que me conheço por gente, nunca vi meus irmãos se dando bem. A relação deles nunca se estabilizou, então Takashi tinha certa vantagem de não se importar de ela estar ao seu lado ou não.

Eu não suporto nem mesmo olhar para o rosto dela.

Como sempre decidindo as coisas por si mesma sem pensar nos outros...

Quando dei por mim, pressionava tanto meu punho que formigou. As coisas foram decididas sem nenhum consentimento, de lado algum. Era assim que agiam, e tínhamos que apenas aceitar tudo calados. Encostei minha cabeça no sofá da sala de estar e suspirei estressado.

— Como vou contornar essa situação quando voltar? — murmurei. — Tudo vai depender do que ela quer falar e causar...

Por causa do seu jeito inconveniente, vou ter que evitar quaisquer males para não atingir ninguém externo... maldita egoísta. Se pensa que será a única que terá tudo como queira, está totalmente enganada...

— O que está pensando com uma cara desanimadora como essa? — Soou uma voz conhecida atrás de mim. — Se bem que sua expressão normal por si só não é animadora...

A responsável por tirar com minha cara foi a própria Yonagi. Ela desceu as escadas e só notei sua presença quando se aproximou consideravelmente.

— Como você pode dizer quando não estou animado? Eu também sei fazer expressões faciais, sabe?

— Oh, parece que o descanso das férias está te fazendo bem, afinal. Sua cara não está tão morta quanto antes.

Ela pegou um copo d’água no bebedouro da recepção e se direcionou para a escadaria, mas parou subitamente. Olhei-a confuso.

— Lembra do que tínhamos conversado antes das férias?

Ponderei um pouco e engoli em seco. Ela se referia a conversa em que tivemos durante a exposição do concurso de artes. O desenho que fiz ainda permaneceu no mesmo lugar, e Yonagi ficou curiosa. Sinceramente, por causa de todo os problemas que tive com minha própria família, me esqueci daquele assunto em aberto.

Hum? Mas ela quer conversar sobre aquilo ali? Naquele momento?

Fiquei sem saber como reagir, e ela soltou uma leve risada.

— Não se preocupe. Realmente pretendia conversar contigo sobre isso hoje, mas muitas coisas aconteceram e não tivemos tempo. O que acha se pudéssemos fazer isso amanhã?

— Hein... amanhã? Ah... amanhã! — gaguejei, recobrando os sentidos. — Sim... ótima ideia! Claro, por que não?

Ela assentiu e tornou a subir as escadas. Novamente fiquei sozinho na sala de estar. Encostei a cabeça no sofá e olhei para o teto durante algum tempo.

Mas que coisa... o que estava acontecendo?

O que era tudo aquilo?

O meu coração realmente bateu mais forte quando vi Kirisaki no estádio..., não. Eu...

Meu cabelo pinicou pelo nervosismo. Minha mente confusa deu voltas.

O que está acontecendo?

Poderia ser?

Ou estou esperando que fosse aquilo?

Estou imaginando coisas?

Esperando? Será?

Mas não era.

Não é.

Tenho certeza disso.

Tenho mesmo?

Tinha que ser.

Mas e se não for?

Como posso ter certeza de algo sem ter pista alguma?

Meus olhos ainda fitam o teto, sem conseguir buscar nada. Nenhuma resposta.

Não há nada me indicando algo concreto.

E mesmo assim...

Mesmo assim estou aguardando por isso.

Se as coisas fossem ser desta forma, o que irá restar? Era seguro pensar assim?

Eu poderia apenas pretender algo?

Apenas por querer?

Eu quero isso?

O que estou buscando?

Fechei meus olhos.

Tudo o que aconteceu comigo... todos aqueles dezesseis anos, era para poder achar aquele pensamento — isto está acontecendo com você! É este o momento! — real?

Eu sabia que não.

Não, não.

Eu não vou cair nisso.

Sim, é isso que tenho que pensar.

Acorda, Shiroyama!

Pensamentos, desejos e ambições.

Tudo têm seu grau de intensidade. Apenas preciso acalmar meus nervos e alinhar tudo.

Sim, esse devaneio passou.

Devo focar meu psicológico, não meu emocional. Era o meu objetivo que preciso buscar. Era a minha vontade que deve permanecer. Era por isso que cheguei onde estava.

Abri meus olhos.

Minha mente se acalmou, assim como meu coração. Pisquei algumas vezes, mas está tudo bem. Sim, tudo está nos conformes.

É assim que tudo tem que ser.

Foco. Foco.

Respirei fundo e me levantei. Não observava nada em particular, mas a vibração do celular me tirou do transe. Fitei-o e vi as novas mensagens que Teru me mandou. Já era perto das luzes se apagarem.

Por quanto tempo fiquei ali pensando?

Tive a certeza de que pensei demais. É claro, só pode ser.

Enquanto subia as escadas, um breve pensamento surgiu em minha mente e enrijeceu todo meu corpo.

— Posso ter esses devaneios quantas vezes forem necessárias, mas nada irá mudar por isso. Crie a ilusão ou viva a ilusão... não importa. Uma ilusão é sempre uma ilusão.

Alguém como eu não pode viver uma ilusão e nem ficar iludido. Preciso evitar isso ao máximo, por mais que não possa controlar o destino do mundo.

***

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